Os “filhos da luz”

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O apóstolo Paulo escreveu a Epístola aos Efésios em Roma entre os anos 61 e 62 d.C.1 Éfeso era o principal porto e o maior centro comercial da região da Ásia Menor. Havia muita conturbação no início dos grupos cristãos, haja vista a citação de grande resistência a Paulo, como a anotação do próprio apóstolo “combater as bestas selvagens em Éfeso” (1 Cor,15.32).

Essa cidade tem um referencial importante. João conduziu Maria à cidade de Éfeso onde ela desencarnou no ano 46 d.C., com 64 anos.2 Há dúvidas históricas e dados de que Paulo não teria conhecido Maria. Éfeso tornou-se um dos maiores centros do cristianismo nos primeiros séculos.

O estudioso bíblico Champlin3 considera essa Epístola como um dos documentos religiosos mais elevados e que ela teria um destino não necessariamente local. O tema central é Jesus.

Dessa Epístola4 destacamos alguns versículos.

2.12 Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. […] 2.17 E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe e aos que estavam perto; 2.18 porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito. 2.19 Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus; 2.20 Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina. […] 3.6 A saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho.

Paulo se referia aos gentios – discriminados pelos judeus – e, na época, eram tidos como pessoas sem esperanças de ordem espiritual. Apresenta o Cristo como a “principal pedra da esquina” e com o seus ensinos os gentios já não seriam “estrangeiros” estariam envolvidos e participantes nas propostas do Evangelho. Merece ênfase a palavra “co-herdeiros”. Em realidade foi a grande tarefa do apóstolo, a de levar a mensagem do Mestre, indistintamente, a todas as pessoas.

Por “pedra de esquina” entenda-se pedra fundamental ou angular das antigas construções, ou seja, a primeira a ser assentada na montagem da esquina de um edifício. Seria portanto uma referência indispensável numa construção antiga.

4. 14 Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo vento de doutrina, pelo engano dos homens que, com astúcia, enganam fraudulosamente. […] 4.19 Os quais, havendo perdido todo o sentimento, se entregaram à dissolução, para com avidez, cometerem toda impureza. 4.20 Mas vós não aprendestes assim a Cristo. 

A palavra “meninos” surge como contraste a “homem maduro”, podendo entender-se por espiritualmente imaturos. Paulo prezava os ensinos do Cristo e se preocupava com as referências às dissenções e à fraqueza das pessoas imaturas que oscilavam em convicções e nas atitudes. As influências materialistas e imediatistas acabam por endurecer o sentimento, daí a necessidade da aceitação do Evangelho como um processo de transformação íntima.

Sobre esse tema, há considerações de Emmanuel:

“O aprendiz menos centralizado nos ensinos do Mestre acredita que pode servir a dois senhores e, por vezes, chega a admitir que é possível atender a todos os desvairamentos dos sentidos, sem prejudicar a paz de sua alma. Justificam-se, para isso, em doutrinas novas, filhas das novidades científicas do século; valem-se de certos filósofos improvisados que conferem demasiado valor aos instintos; mas, chegados a esse ponto, preparem-se para os grandes fracassos porque a necessidade de edificação espiritual permanece viva e cada vez mais imperiosa. Poderão recorrer aos conceitos dos pretensos sábios do mundo, entretanto, Jesus não ensinou assim.”5

5.8 Porque, noutro tempo, éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz. 

O contraste entre o homem velho e o homem novo está implícito nos dizeres de Paulo e que recomenda a conduta com base no cristianismo, na frase muito divulgada “andai como filhos da luz”.

Sobre esse versículo, Emmanuel pondera objetivamente:

“Cada criatura dá sempre notícias da própria origem espiritual.”6

 

Referências:

  1. Walker, Peter. Pelos caminhos do apóstolo Paulo. Trad. Mariz, Andréa. Introdução, Cap. 10. São Paulo: Ed.Rosari. 2009.
  2. Silva, Severino Celestino. Comunidades do Caminho. História do Cristianismo Nascente. 1.ed. Cap. 20,22,23. João Pessoa: Ed. Ideia, 2014.
  3. Champlin, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. Vol. 4. Cap. Epístola aos Efésios. São Paulo: Hagnos, 2014.
  4. Almeida, João Ferreira. A Bíblia Sagrada contendo o Velho e o Novo Testamento. Trad. Edição Corrigida e Revisa Fiel ao Texto Original. São Paulo: Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil. 2007.
  5. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel.  Caminho, verdade e vida. Cap.159. Brasília: FEB
  6. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Vinha de luz. Cap. 115, 135, 136, 137, 160. Brasília: FEB.

(Síntese adaptada de artigo do autor, publicada na Revista Internacional de Espiritismo, com o título “Epístola aos Efésios – os filhos da luz”, edição de março de 2016, p.71-73 )

O Evangelho e o Cristianismo Primitivo

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Antonio César Perri de Carvalho
(Ex-presidente da USE-SP e da FEB)

O pesquisador espírita Severino Celestino da Silva há alguns anos tem se dedicado a estudos sobre o Antigo e Novo Testamento. Domina os idiomas aramaico e hebraico, é professor de pós graduação em Ciências da Religião, já publicou alguns livros sobre suas pesquisas, tem levado grupos de interessados nestes estudos aos locais dos eventos do Novo Testamento e foi supervisor/curador do recém lançado filme "Nos Passos do Mestre Jesus segundo o Espiritismo", produzido pela “Mundo Maior Filmes”. (1)

Relacionado com o tema do filme citado, há pouco tempo comentamos a obra de Severino – “Comunidades do Caminho. História do Cristianismo Nascente” (2) e agora focalizamos "O Evangelho e o Cristianismo Primitivo" (3).

O livro em foco traz Prefácio do Bispo de João Pessoa que, entre outras, comenta "As abordagens do autor demonstram o seu espírito de fé. Suas críticas nos envolvem e nos estimulam a discernir a vontade de Deus a nosso respeito. Foi o que senti ao adentrar nos cenários descritos com linguagem simples e piedosa."

O livro está fundamentado em textos bíblicos e o autor compara trechos de traduções do hebraico, do grego, e, em alguns casos dos textos dos evangelistas; em pesquisas feitas pelo autor na bibliografia relacionada e também em visitas aos locais do Oriente Médio, Turquia, Grécia, e Roma.

Porém toda essa fundamentação flui de maneira simples e agradável.

A preocupação de Severino foi destacar o conteúdo espiritual dos textos e o que Jesus queria realmente transmitir. Deixou claro que Jesus, como judeu, prezava a Torá (“não vim destruir a Lei”), mas trazia uma mensagem diferente, sempre primando pela justiça e pela paz. Sobre este assunto recorre ao capítulo I de "O Evangelho Segundo o Espiritismo".

O autor traz informações muito ricas sobre os locais em que o Cristo atuou, sobre os discípulos e todas pessoas que estiveram relacionadas com o Mestre e são citadas nos textos dos evangelistas. Vêm à tona as dificuldades e pontos de vistas diferentes dos discípulos. Muitas polêmicas sobre o Cristo são analisadas sem paixão levando em consideração o contexto judaico da época, os textos bíblicos e suas traduções e o conhecimento espírita. Analisa também as tradições e suas origens relacionadas com muitas comemorações incorporadas pelos cristãos ao longo dos tempos. Como descreve as cidades e regiões que visitou, a leitura do livro cria a sensação de se assistir a um filme.

Severino conclui que "devemos empreender todo esforço possível para colocar Jesus em nosso coração, Jesus é o nosso maior exemplo".

Os livros de Severino Celestino da Silva representam excelentes subsídios para os estudiosos do Novo Testamento à luz do Espiritismo.

 

Referências:

1) http://www.redeamigoespirita.com.br/profiles/blogs/o-filme-nos-passos-do-mestre-jesus-segundo-o-espiritismo?xg_source=msg_appr_blogpost

2) http://grupochicoxavier.com.br/comunidades-do-caminho-historia-do-cristianismo-nascente/

3) Silva, Severino Celestino. O evangelho e o cristianismo primitivo. 6 ed. João Pessoa: Idéia. 2013. 293p.

Yvonne Pereira – simplicidade nos diálogos

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Yvonne do Amaral Pereira (1900-1984) sempre nos provocou admiração pelos seus exemplos de vida e pela sua obra mediúnica e tivemos o privilégio de a conhecermos nos anos 1970, em sua residência no Rio de Janeiro.

Alguns livros por ela redigidos estavam “perdidos”. Graças à compreensão da família dela, a intercessão e o apoio do diretor da FEB Affonso Soares – esperantista e amigo de Yvonne -, foi possível recuperá-los e publicá-los nos anos 2012 e 2014, durante nossa gestão na FEB (*), quatro volumes inéditos da dedicada médium – A família espírita, Evangelho aos simples, As três revelações, Contos amigos -, que constituem uma série de obras voltada à família, a crianças e jovens e à reunião do Evangelho no lar.

Esses livros foram elaborados pela médium entre 1964 e 1971  e contam com mensagens de Bezerra de Menezes.

Em “Advertência aos pais de família” (mensagem de 26/01/1964), incluída em A família espírita, Bezerra afirma: “Patrocinando, pois, um ensaio lítero-doutrinário-evangélico para auxílio às mães e aos pais de família, durante as noites de serão no lar, onde o Evangelho do Senhor e seus benefícios ao indivíduo e à sociedade serão ministrados e examinados, eu o faço no cumprimento dos próprios deveres para com o Consolador […] Que tão belos serões renovadores do lar e dos corações obtenham êxito na boa educação da infância e dos iniciantes em geral, é o meu desejo. […] Estas páginas, porém, foram escritas de preferência para os adultos de poucas letras doutrinárias e não propriamente para crianças, visto que para ensinar a Doutrina Espírita aos filhos é necessário que os pais possuam noções doutrinárias, um guia, um conselheiro que lhes norteie o caminho a seguir.”

Como Introdução de As três revelações o mesmo orientador espiritual em mensagem de 3/10/1967, comenta: “será bom que o espírita zele por suas crianças, preparando possibilidades futuras para a sua salvaguarda moral-espiritual. Erro será supor que a infância moderna se choque frente à verdade espírita e à transcendência evangélica.”

Yvonne Pereira comenta na apresentação de Evangelho aos simples, que não há a “pretensão de se impor à instrução doutrinária da criança, senão o desejo sincero de auxiliar uma tarefa espinhosa, que está a requerer de cada adepto do Espiritismo atenções urgentes e dedicações ilimitadas.”

Em três livros dessa série, Yvonne Pereira focaliza episódios que transcorrem no sítio da família Vasconcelos, a “Granja Feliz”, Estado do Rio de Janeiro, tendo como figuras centrais três crianças, e suas convivências com os pais e avós. O enredo se desdobra a partir de reuniões do Evangelho no lar, com linguagem simples e agradável, facilmente adaptável para as várias faixas etárias da infância e da adolescência. Apenas o último – Contos amigos – tem os fatos ocorridos em outras plagas, mas mantendo o mesmo estilo. A autora sempre relaciona cada capítulo com uma citação final de versículo de um dos evangelistas ou de O evangelho segundo o espiritismo.

O conjunto dessas quatro obras de Yvonne A. Pereira constitui um formidável repositório para utilização em várias situações da difusão dos princípios espíritas, facilmente adaptáveis para diversas faixas etárias e sociais e se enquadrando em distintos contextos para o ensino espírita.

A nosso ver, essas obras de Yvonne podem servir de roteiro ou texto básico não apenas para as reuniões com crianças e adolescentes e de Evangelho no lar, mas também em reuniões com adultos, notadamente em ambientes cujo público alvo seja constituído de pessoas mais simples.

(* – O autor foi presidente interino da FEB -2012/2013- e presidente – 2013/2015).

Jesus, a porta. Kardec, a chave

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Na obra inaugural da Doutrina Espírita – O livro dos espíritos -, o Codificador dedicou a 3ª Parte ao desenvolvimento do tema “Das Leis Morais”, totalizando 306 questões, quase um terço do total do livro, sobre os ensinos do Cristo analisadas de uma maneira geral e com base nas orientações da plêiade do Espírito de Verdade.

Poucos anos depois houve um desdobramento dessa obra com o surgimento de O Evangelho segundo o Espiritismo, que trata do ensino moral do Cristo ilustrando-o com seus exemplos da vida e suas parábolas. Kardec define este último livro como: “[…] roteiro infalível para a felicidade vindoura, o levantamento de uma ponta do véu que nos oculta a vida futura. Essa parte é a que será objeto exclusivo desta obra”.1 No capítulo I deixa claro a compreensão da gradação e continuidade das revelações e que elucida os comentários do Cristo.

Mas é no capítulo “O Cristo Consolador” que se estabelece a ampliação da visão sobre o Cristo e da missão do Espiritismo em nossos tempos, no papel de acolhimento, consolo, esclarecimento e orientação de encarnados e de desencarnados. Com estas finalidades os centros espíritas se caracterizam realmente como postos de apoio e escolas, prioritariamente de natureza espiritual.

Interessante o registro de João sobre a colocação do Cristo: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, encontrará a pastagem.”2 Ao apresentar O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec comenta: “Muitos pontos dos Evangelhos, da Bíblia e dos autores sacros em geral só são ininteligíveis, parecendo alguns até irracionais, por falta da chave que faculte se lhes apreenda o verdadeiro sentido.”1

As duas figuras – porta e chave – foram reunidas e comentadas em significativa mensagem do espírito Emmanuel, concluindo: “Jesus, a porta. Kardec, a chave”.3

A compreensão aprofundada do Evangelho à luz do Espiritismo descortina-nos uma visão sobre o Mestre dos Mestres como nosso “modelo e guia”.4

Aí se inclui o intercâmbio entre as Humanidades das duas dimensões da vida e fica claro que os princípios de Jesus também se encontram na base das recomendações de Kardec sobre a prática da mediunidade: “A bandeira que desfraldamos bem alto é a do Espiritismo cristão e humanitário, em torno do qual já temos a ventura de ver, em todas as partes do globo, congregados tantos homens, por compreenderem que aí que está a âncora de salvação, a salvaguarda da ordem pública, o sinal de uma Nova Era para a Humanidade.”5 Algumas manifestações da Espiritualidade que se tornaram “matérias de fé” para muitos, como os chamados “milagres” e as predições de Jesus, são analisados em A Gênese6, num conceito e visão ampliados de Natureza, propiciados pelo Espiritismo.

Na obra de Kardec está muito clara a fundamentação cristã do Espiritismo. Por ocasião do centenário dos livros básicos da Codificação, Emmanuel escreveu pela psicografia de Francisco Cândido Xavier alguns livros comemorativos. Em obra que homenageia o livro inaugural de Kardec, o autor espiritual apresenta-a como: “[…] o primeiro marco da Religião dos Espíritos, em bases de sabedoria e amor, a refletir o Evangelho, sob a inspiração de Nosso Senhor Jesus Cristo.”7

Na obra psicografada por Chico Xavier Seara dos Médiuns8 analisa-se a prática mediúnica de acordo com o Novo Testamento. Em Livro da Esperança Emmanuel opina: “[…] diante do Centenário do ‘O Evangelho Segundo o Espiritismo’ (…) este livro despretensioso de servidor reconhecido, como sendo Livro da Esperança”. O autor espiritual extravasa sua emoção: “Oh! Jesus! No luminoso centenário de ‘O Evangelho Segundo o Espiritismo’, em vão tentamos articular, diante de ti, a nossa gratidão jubilosa! (…) – Obrigado, Senhor!…”9  Entre as centenas de livros psicografados por Chico Xavier, Boa Nova10, se destaca pela essência do conteúdo evangélico sob a ótica espírita.

O Espiritismo, fundamentado nas Obras Básicas de Allan Kardec, é a chave interpretativa. E, no conjunto da obra de Francisco Cândido Xavier, o exegeta Emmanuel e o espírito Humberto de Campos claramente elucidam a significação do Cristo para nós e do marco que ele representa para a Humanidade: é “a porta”1, “caminho, verdade e vida”11 e a “luz do mundo” 12!

 

Referências:

  1. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Introdução. Item I. FEB: Rio de Janeiro.
  2.  João 10:9.
  3. XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Opinião Espírita. Cap. 2, Uberaba: CEC.
  4. KARDEC, Allan. Trad. Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 3ª. Parte. FEB: Rio de Janeiro, questão 625.
  5. KARDEC, Allan. Trad. Guillon Ribeiro. O Livro dos Médiuns. item 350. FEB: Rio de Janeiro.
  6. KARDEC, Allan. Trad. Guillon Ribeiro. A Gênese. Cap. XIII a XVIII. FEB: Rio de Janeiro,
  7. XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Religião dos Espíritos. Apresentação. FEB: Rio de Janeiro.
  8. XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Seara dos Médiuns. FEB: Rio de Janeiro. 374p.
  9. XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Livro da Esperança. Uberaba: CEC, 1973, p. 11-12
  10. XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Humberto de Campos. Boa Nova. FEB: Rio de Janeiro, 285p.
  11. João 12:6.
  12. João 8:12.

Síntese adaptada de: Carvalho, Célia Maria Rey; Carvalho, Antonio Cesar Perri (Org.). O evangelho segundo o espiritismo. Orientações para o estudo. Cap. 5. Brasília: FEB. 2014.

Bezerra e a nova visão sobre loucura

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Adolfo Bezerra de Menezes teve intensa atuação em várias atividades espíritas, políticas, empresariais, e, jamais deixou de atuar como médico.

Em pleno século XIX – contemporâneo de Charles Richet, William James, Jean-Martin Charcot e outros notáveis colegas de profissão -, voltados à procura de respostas extra-orgânicas nas chamadas “pesquisas psíquicas” e em casos de perturbações psíquicas, Bezerra  escreveu um trabalho inédito para os contextos médico mundial e espírita: A loucura sob novo prisma.

No final dos anos 1880, como médico e membro da Academia Nacional de Medicina, e consta que direcionado à instituição, Bezerra de Menezes escreveu o citado trabalho abordando um tema delicado e complexo. No estudo dá ênfase à 'loucura por obsessão', isto é, por ação fluídica de agentes inteligentes e extraterrenos sobre a criatura encarnada. O histórico trabalho de Bezerra somente foi publicado em 1920, pela FEB.

Na obra, Bezerra comenta sobre a postura tradicional “de que toda perturbação do estado fisiológico do ser humano procede invariavelmente de uma lesão orgânica, os homens da ciência têm até hoje, como verdade incontroversa, que a alienação mental, conhecida pelo nome de – loucura -, é efeito de um estado patológico do cérebro, órgão do pensamento, para uns; glândula secretora do pensamento, para outros. Nem os primeiros, nem os segundos explicam sua maneira de compreender a ação do cérebro, quer em relação à função, em geral, quer em relação à sua perturbação, no caso da loucura.”

Assim, Bezerra se propõe “a preencher essa lacuna, demonstrando, com fatos de rigorosa observação: que o pensamento é pura função da alma ou Espírito, e, portanto, que suas perturbações, em tese, não dependem de lesão do cérebro, embora possam elas concorrer para o caso, pela razão de ser o cérebro instrumento das manifestações, dos produtos da faculdade pensante.”

Define claramente seu objetivo: “Meu estudo limitar-se-á à segunda espécie, ainda não reconhecida, nem estudada no mundo científico. Sobre este importante assunto, cuja simples enunciação já deve ter feito muita gente atirar longe o pobre livro, eu farei meditado estudo, no empenho de tornar patente a causa do mal – a sintomatologia necessária ao diagnóstico, quer do mal (obsessão), quer da diferenciação entre as duas espécies de loucura – e, finalmente, os meios curativos da nova espécie ou obsessão.”

No desenvolvimento do livro há três partes bem delimitadas: 1) o pensamento em seu princípio causal e em suas manifestações; 2) relações do nosso Espírito com os Espíritos livres do espaço; donde a loucura por obsessão; 3) a loucura, como caso patológico, determinando-lhe a causa – apreciando-lhe os sintomas; colhendo os elementos para seu diagnóstico diferencial; e prescrevendo os meios com que se deve tentar a cura do terrível mal.

Importante é que Bezerra relaciona as suas observações pessoais, das reuniões que participava no Rio de Janeiro, com O céu e inferno, de Allan Kardec, referindo-se às manifestações de espíritos infelizes que permaneceram muitos anos sentindo-se ligados ao corpo. Também cita casos da Revue Spirite, criada por Allan Kardec.

Além de tratar o tema teoricamente, ele robustece com casos selecionados: “ Para não alongarmos, porém, este trabalho, citaremos apenas três, que preferimos às demais, por estarem vivas e presentes as testemunhas, caso alguém se abalance a impugná-las.”

Bezerra relata os estudos de casos que realizou, recorrendo a reuniões com participação de figuras notáveis como o médium Frederico Pereira da Silva Júnior, Pedro Richard, Antônio Luís Saião, Francisco Leite Bittencourt Sampaio, e outros companheiros da história do Espiritismo. Fica claro e, como ele escreveu, com testemunhas vivas, que se curaram da chamada alienação mental, libertando-se dos então “hospícios”, com o tratamento espiritual que incluiu o atendimento e esclarecimento de entidades espirituais envolvidas pela ideia de perseguição e de vingança.

Fato marcante foi vivido no seio de seu próprio lar. Bezerra escreveu: “Um de nossos filhos, moço de grande inteligência e de coração bem formado, foi subitamente tomado de alienação mental. Os mais notáveis médicos do Rio de Janeiro fizeram o diagnóstico: loucura; e como loucura o trataram sem que obtivessem o mínimo resultado. Notávamos, nós um singular fenômeno: quando o doente, passado o acesso e entrado no período lúcido, ficava calmo, manifestava perfeita consciência, memória completa e razão clara, de conversar criteriosamente sobre qualquer assunto, mesmo literário ou científico, pois estudava Medicina, quando foi assaltado. […] Desanimados, por falharem todos os meios empregados, disseram-nos aqueles colegas que era inconveniente e perigoso conservar o doente em casa, e que urgia mandá-lo para o hospício. Foi ante esta dolorosa contingência de uma separação mais dolorosa que a da morte, que resolvemos atender a um amigo que havia muito nos instava para que recorrêssemos ao Espiritismo.”

Bezerra relata alguns trechos de diálogos ocorridos no atendimento do espírito que atuava como obsessor do filho. Foram muitas reuniões de tratamento espiritual: “O moço era vítima de seus abusos noutra existência, continuou a sofrer a perseguição, e por tanto tempo a sofreu, que seu cérebro se ressentiu, de forma que, quando o obsessor, afinal arrependido, o deixou, ele ficou calmo, sem mais ter acessos, porém não recuperou a vivacidade de sua inteligência. O instrumento ainda não se restabeleceu. […] o nosso doente, desde que tivemos certeza de ser o mal obra de um Espírito, nunca mais tomou remédios, senão os morais, em trabalhos espíritas, de cerca de três anos. Vê-se, portanto, quanto importa, diante de um caso de loucura, fazer de pronto o diagnóstico diferencial, para que, se for obsessão, não chegue esta a desorganizar o cérebro, que é o órgão atacado pelo obsessor.”

Esclarecemos que o filho a que o autor se refere é Antonio, segundo filho do primeiro casamento de Bezerra, nascido em 1862. Depois do tratamento e cura do filho, este veio a desencarnar aos 25 anos de idade, vitimado por febre tifóide, no ano de 1887. A vivência do caso do próprio filho foi um dos fatores que estimularam Bezerra a escrever o trabalho, posteriormente transformado em livro. Lembramos também que embora estudasse o Espiritismo, desde a oferta de O livro dos espíritos por seu colega e tradutor dr. Joaquim Carlos Travassos, em 1875, Bezerra somente se proclamou publicamente espírita no ano de 1886, época em que já se dedicava ao estudo dos casos relatados no livro.

Bezerra aborda o tema obsessão em um capítulo específico. Ao final da obra, conclui: “Temos, pois, em resumo, que tudo concorre para tornar evidente a dualidade causal da loucura. […] Definida a questão, a loucura sob novo prisma, exposta a doutrina onde se encontram as leis que a explicam, vem de molde, e antes de mais, discriminá-la da outra espécie, única até hoje conhecida: fazer o diagnóstico diferencial.”

Interessante é que Bezerra escreveu de uma maneira que o livro não está colidindo e nem ultrapassado com a diversidade das teorias do meio científico e nem com a extensa bibliografia espírita hoje disponível.

O livro A loucura sob novo prisma, deve merecer a atenção pela leitura, estudo e divulgação por parte dos espíritas. Quiçá, um dia também tenha o reconhecimento na área acadêmica pelo pioneirismo e ineditismo do tema central, abordado ainda no século XIX!

Fontes:

Menezes, Adolfo Bezerra. A loucura sob novo prisma. Ed.FEB.

Wantuil, Zêus. Grandes espíritas do Brasil. Ed. FEB.

Orador e escritor espírita, Antonio Cesar Perri presidiu a Federação Espírita Brasileiro e o CFN até o final de 2015.

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Transcrito de “Correio Fraterno do ABC”, edição janeiro-fevereiro de 2016, p.8-9; acesso digital:

http://www.correiofraterno.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1797:bezerra-e-a-nova-visao-sobre-a-loucura&catid=103:especial&Itemid=2

Epístola aos Gálatas e as “marcas do Cristo”

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A Epístola aos Gálatas teria sido redigida mais provavelmente entre os anos 54 e 57 d.C. embora haja estudiosos que admitem o período do final do ano 48 a 50 d.C.1,2 A Galácia possuía várias etnias e contava com grandes colônias judaicas.

A Epístola aos Gálatas é considerada por Champlin como a “Carta Magna da Fé Cristã”2. Registra a fidelidade do apóstolo aos ensinos originais do Mestre e é muito claro, não aceitando interpolações ou ajustes às tradições judaicas:

1.9 […]Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema. 1.10 Porque, persuado eu agora a homens ou a Deus? ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo. 1.11 Mas faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens. 1.12 Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo. 1.13 Porque já ouvistes qual foi antigamente a minha conduta no judaísmo, como sobremaneira perseguia a igreja de Deus e a assolava. 1.14 E na minha nação excedia em judaísmo a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais.3

A atitude humana de tentativas de “agrado” é analisa por Emmanuel e considerando ainda as reações que geralmente ocorrem às propostas de adequação a novos contextos e de inovação:

“Em muitas ocasiões, os pareceres populares equivalem à gritaria das assembleias infantis, que não toleram os educadores mais altamente inspirados, nas linhas de ordem e elevação, trabalho e aproveitamento.       Que o sincero trabalhador do Cristo, portanto, saiba operar sem a preocupação com os juízos errôneos das criaturas. Jesus o conhece e isto basta”.4

Nessa Epístola há o importante depoimento de Paulo sobre suas visitas à Casa do Caminho e a sua reiteração do compromisso com a ampla divulgação do Evangelho à gentilidade, sem nenhuma exigência de pré-requisitos para com seu público, o que ele definiu na sua primeira visita a Jerusalém, após sua conversão ao Cristianismo. Um registro importante é o relativo ao seu segundo retorno a Jerusalém, anos depois:

2.1 Depois, passados catorze anos, subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, levando também comigo Tito. 2.2 E subi por uma revelação, e lhes expus o evangelho, que prego entre os gentios, […] 2.9 E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que me havia sido dada, deram-nos as destras, em comunhão comigo e com Barnabé, para que nós fóssemos aos gentios, e eles à circuncisão. 2.10 Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência. […] 2.14 Porque eu, pela lei, estou morto para a lei, para viver para Deus. 2.20 Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.

Paulo separa os compromissos de formalidade com a legislação Moisaica e os de natureza espiritual e que permanecem após a vida corpórea. Suas colocações demonstram a firmeza de suas decisões pautadas na vivência coerente com os ensinos do Mestre. O tema é abordado por Emmanuel trazendo-o para a vida cotidiana:

“Quando termine cada dia, passa em revista as pequeninas experiências que partilhaste na estrada vulgar. Observa os sinais com que assinalaste os teus atos, recordando que a marca do Cristo é, fundamentalmente, aquela do sacrifício de si mesmo para o bem de todos”.5

O raciocínio com base em valores para a vida espiritual aparece em outros trechos da Epístola e Paulo separa claramente o que seria a lei de ordem material e elaborada para um contexto temporal. A Galácia sofria muita influência dos cristãos ligados ao judaísmo e eram chamados de “legalistas”. Registra um alerta com um tom enérgico:

3.1 O insensatos gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós? 3.2 Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? […] 3.12 Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá.

A dedicação deve ser desinteressada, como enfatiza Emmanuel:

“Trabalhemos, pois, contra a expectativa de retribuição, a fim de que prossigamos na tarefa começada, em companhia da humildade, portadora de luz imperecível”.4

Paulo repete conceitos emitidos em outras Epístolas, esclarecendo o valor da fé com base em ações e não a tradicional interpretação de se imaginar que seria suficiente um compromisso formal de aceitação da “lei de Moisés”. A fundamentação do ensino moral do Cristo, já registrada na Epístola aos Romanos é ratificada:

5.4 Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído. […] 5.14 Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.

A preocupação de Paulo com os desvios pessoais e de grupos transparecem nessa Epístola, onde ele é explícito, e anota uma enérgica admoestação com relação a problemas “como obras da carne”, que já identificava naquela época:

5.20 Idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias.

Na sequência, recomenda aos gálatas:

5.25 Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.

Entendemos que o Apóstolo diferenciava as atitudes humanas, sem compromissos com a visão de vida imortal. Emmanuel analisa essa questão considerando os textos de Paulo sobre a polêmica carne versus espírito e deixa claro que a vontade é do espírito. A recomendação final resume a visão de Paulo para o melhor relacionamento entre os integrantes das comunidades da Galácia:

6:10 Então, enquanto temos tempo, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé.

As ponderações do inspirado missivista merecem vários comentários de Emmanuel, dos quais destacamos:

“O Apóstolo Paulo reconhece que, às vezes, atravessamos grandes ou pequenos períodos de inibições e provações, pelo que nos recomenda: “enquanto temos tempo, façamos o bem a todos; contudo, mesmo nas circunstâncias difíceis, urge endereçar aos outros o melhor ao nosso alcance, porque segundo as leis da vida, aquilo que o homem semeia, isso mesmo colherá”.6

Nessa Epístola, o Apóstolo faz um significativo registro, que é repetido por muitas pessoas:

6.17 Desde agora ninguém me inquiete; porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus.

A colocação paulina pode ser interpretada pela ótica material, pois ele foi apedrejado, considerado morto e arrastado para fora de cidades. Literalmente, poderia ser interpretada como as marcas das cicatrizes dos flagelos a que foi submetido.1 Champlin também considera que “os legalistas gálatas jactavam-se da ‘marca na carne”2, ou seja, da circuncisão. Daí Paulo enfatizar outro tipo de “marca” – a espiritual -, já por ele definida na sua colocação “Cristo vive em mim”, e, que Emmanuel amplia a compreensão para o aspecto espiritual:

“Todas as realizações humanas possuem marca própria. Casas, livros, artigos, medicamentos, tudo exibe um sinal de identificação aos olhos atentos. Se medida semelhante é aproveitada na lei de uso dos objetos transitórios, não se poderia subtrair o mesmo princípio, na catalogação de tudo o que se refira à vida eterna. Jesus possui igualmente os sinais dEle. A imagem utilizada por Paulo de Tarso, em suas exortações aos gálatas, pode ser mais extensa. As marcas do Cristo não são apenas as da cruz, mas também as de sua atividade na experiência comum. Em cada situação, o homem pode revelar uma demonstração do Divino Mestre”.5

A Epístola aos Gálatas é fortemente sugestiva para a mais ampla reflexão para a avaliação sobre as “marcas do Cristo” – no sentido ético, moral e espiritual -, em nossas vidas e na Seara Espírita.

Referências:

1 – Walker, Peter. Pelos caminhos do apóstolo Paulo. Trad. Mariz, Andréa. Introdução, Cap. 6. São Paulo: Ed.Rosari. 2009.

2 – Champlin, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. Vol. 4. Cap. Gálatas. São Paulo: Hagnos. 2014.

3 – Almeida, João Ferreira. A Bíblia Sagrada contendo o Velho e o Novo Testamento. Trad. Edição Corrigida e Revisa Fiel ao Texto Original. São Paulo: Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil. 2007.

4 – Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Pão nosso. Cap.47 e 155. Brasília: FEB.

5 – Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Vinha de luz. Cap. 8. Brasília: FEB.

6 – Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Palavras de vida eterna. Cap.129 e 169. Uberaba: CEC.

(Transcrição parcial-síntese de artigo do autor publicado em “Revista Internacional do Espiritismo”, edição de fevereiro de 2016).

O bom mesmo é ser bom!

Marival Veloso de Matos

Foram dias de tristeza
Foram dias de amargura
Porém com singeleza
Mudei a própria postura.

Quantas vezes falei mal
Dos horrores da corrupção
Foi aí que li em um jornal
Que CD pirata é infração.

"Atire a primeira pedra"
É a bela proposta cristã.
Mas onde o mal é que medra,
Nossa escuta ainda é vã.

Muitos "morrem" de medo
Da chamada "transição"
Mas fugiremos do degredo
Sem ódio no coração. 

Deus  é a  bondade,
Deus plenitude e amor.
É Ele  nos quer sem maldade
Na plena paz do Senhor.

Muitos riem e  descreem
Da verdade reencarnação.
Mas muitos  sentem ofendidos
Se não lhes dão opção.

(Belo Horizonte, 11/02/2016)

A RESSURREIÇÃO É DO ESPÍRITO E DO CORPO ESPIRITUAL E NÃO DO CARNAL

José Reis Chaves

Ressurreição é a ação de elevar-se ou subir ao mundo espiritual, quando o corpo morre, e na carne, quando se encarna. Existe um dogma, que respeitamos como respeitamos todos os outros, que ensina que a ressurreição é do espírito e do corpo carnal: “Creio na ressurreição da carne…” Mas ela é do espírito e do períspirito ou corpo espiritual de são Paulo.  “Se há corpo natural, há também corpo espiritual, e ressuscita corpo espiritual” (1 Coríntios 15: 44), o qual é de matéria quinta-essenciada (sutilizada no seu mais alto grau).

O corpo espiritual paulino é o que Kardec denominou de perispírito. São Paulo o chamou também de Corpo Incorruptível e Celestial.  E o perispírito já era conhecido dos médiuns videntes por todas as culturas antigas, de que passo a dar alguns exemplos de até 5.000 anos, a. C.: “Ka” (Egito); “Linga Sharira”, “Kama-Rupa” e “Mano-Maya-Rosha” (Índia); “Corpo Aeriforme” e “Khi” (China); “Nephesh” (Israel); “Corpo Sutil da Alma”, “Ochema”, “Eldôlon” e “Corpo Luminoso” (Grécia); “Carne Sutil da Alma” (Pitágoras); “Corpo Astral” ou “Vestrum” (Paracelso); “Astroiedê” (Neoplatônicos); “Corpo Aéreo” e “Ígneo” (Plotino); “Veículo da Alma” (Próclus); “Corpo Fluídico” (Leibnitz); “Mediador Plástico” (Cudwerth); “Arqueu” (Van Helmont); “Influxo Físico” (Euler, matemático e astrônomo); “Modelo Ideal” (Saint Hilalaire, naturalista); “Luz ódica” (Reichenbach); “Fantasma Póstumo” (Dassier); “Corpo Vital da Alma” (Tertuliano); “Aura” (Orígenes); Rouach (Kabala Hebraica); “Boadhas” (Zen Avesta); “Imago” (latinos); “Pneumá” (santo Hilário, são Basílio de Cesareia, santo Atanásio, são Cirilo de Alexandria, são Bernardo e santo Agostinho). E a existência do perispírito foi provada cientificamente por cientistas russos, ao qual deram o nome de “Corpo Bio-plásmico”. A Igreja o tem chamado de corporeidade, corpo glorioso ou corporalidade. E  ela  deixa claro que não é com o corpo físico que temos. E mais recentemente, muitos teólogos católicos dão-lhe o nome de Corpo Pancósmico.

São Paulo pergunta: Como ressuscitam os mortos? Em que corpo vem? E Paulo compara o corpo enterrado com uma semente enterrada também na terra, a qual morre, não sendo ela, pois, o corpo novo que nasce ou ressuscita. Em outras palavras, não é o cadáver que ressuscita. (1 Coríntios 15: 35 a 38).

Para o espanhol André Torres Queiruga, o maior teólogo vivo católico do momento, em “Repensar a Ressurreição”, a ressurreição é do espírito com o seu corpo espiritual e não do carnal, e afirma que ela ocorre na hora da morte. E mais, segundo ele, a ressurreição de Jesus foi também de seu Espírito com o seu corpo espiritual e, igualmente, na hora de sua morte: “Pai, em vossas mãos entrego meu Espírito!” (Lucas 23: 46).

E terminamos com São Pedro, que nos demonstra também que a  própria ressurreição de Jesus não é mesmo do corpo físico (Primeira Carta de Pedro 3: 18), pois ele diz, referindo-se a Jesus Cristo: “…morto sim na carne, mas ressuscitado em Espírito, no qual ele foi pregar aos espíritos que estavam no “hades” (inferno)”.  E isso nos demonstra também que aqueles que vão para o “hades” ainda têm chance de regeneração, senão Jesus não iria perder seu tempo de pregar para os espíritos que foram para lá!

 

PS: Programa “Presença Espírita na Bíblia”, com este colunista, na TV Mundo Maior, por parabólica digital ou internet, em vários horários (ver a grade da programação).  www.tvmundomaior.com.br

José Reis Chaves – Site: www.josereischaves.com.br

TOLERÂNCIA E RESPEITO

Warwick Mota

A diversidade religiosa é uma das marcantes características culturais que assinala a humanidade. São milhares de denominações que definem religiões e seitas, reunindo, em todos os pontos da Terra, seguidores de todos os credos.

Essa pluralidade de crenças, em conjunto com a diversidade étnica, torna as relações entre os povos ainda mais complexas, sendo responsável por inenarráveis conflitos que envolvem o homem desde os primórdios.

Recentemente o Rio de Janeiro foi palco de um episódio de grande desrespeito e intolerância religiosa, com agressões verbais e apedrejamento de uma criança de apenas onze anos, conforme relata a revista Istoé, em nota cujo título é “Pedrada do preconceito” (1).

Neta de espírita e filha de evangélica, a estudante Kayllane Campos tem em sua casa uma amostra da saudável tolerância religiosa que existe no Rio de Janeiro, desde que o candomblé, vindo da África, ancorou no bairro carioca da Saúde em 1886 e nele abrigou os primeiros cultos organizados por Mãe Aninha, congregando diversas religiões. Nada tem a ver com a tradição do Rio de Janeiro, portanto, as covardes agressões que a adolescente Kayllane, 11 anos de idade, sofreu na semana passada devido à sua fé. Ela foi apedrejada por dois supostos evangélicos quando saía de um culto de candomblé, e novamente se tornou vítima de violência, dessa vez verbal, quando chegava ao IML para exame de corpo de delito – “macumbeira, macumbeira, vá queimar no inferno”, gritavam insistentemente algumas pessoas. “Quem tacou pedra é vândalo que se esconde atrás da palavra de Cristo”, diz Karina Coelho, a evangélica que é mãe da praticante do candomblé Kayllane. “Eu condeno as pessoas que feriram minha filha”. 

O que leva o homem a manifestar esse comportamento? Por que a diversidade de credos paradoxalmente levanta contendas, quando as religiões deveriam ter, por princípios fundamentais, a ética da tolerância, a caridade, o respeito, o amor fraterno, a compreensão e a paz?

As contendas político-religiosas são antigas, e a história registra perseguições implacáveis, desrespeito aos direitos mais básicos do homem e execuções cruéis, como as relatadas no Antigo Testamento, que marcam a rivalidade entre os profetas de Baal e Elias(2). Em todos os momentos da história da humanidade está presente a concepção dualística, que tenta estruturar o mundo à semelhança de uma balança que oscila na eterna batalha entre o bem e o mal, ou entre o mito de Satã e Deus.

A Idade Média é pródiga na propugnação dessa ideia, e as cruzadas representam um marco desse pensamento, pois registram episódios sórdidos, como o impiedoso extermínio dos cátaros ou albigenses, que deixou marcas atrozes de uma perseguição insana, fundamentada nos interesses e preconceitos da Igreja antiga, a qual definiu o catarismo como heresia maniqueísta.

São muitos os episódios de intolerância religiosa ocorridos no período que compreendeu a Idade Média, culminando com o Tratado de Paz de Westphalia (região do norte da Alemanha) que veio laureado por um antigo princípio: cujus regio, eius religio (quem tem a região tem a religião). Esse princípio marca a assinatura do Tratado, ocorrido em 1648, que pôs fim à Guerra dos Trinta Anos, conflito que, por sua vez, teve por estopim a rivalidade política existente entre o Imperador Habsburgo, do Sacro Império Romano-Germânico (católicos) e as cidades-Estado comerciais protestantes (luteranas e calvinistas) do norte da Alemanha, que fugiram ao seu controle.

A Paz de Westphalia garantiu, portanto, o direito de cada Estado manter seu regime e religião, sem interferência externa.

Esses acontecimentos, entretanto, não encerram os episódios de intolerância, embora tenham estabelecido o princípio de tolerância e liberdade religiosa.

Incomodado com essa questão, o filósofo jusnaturalista inglês, John Locke (1632 – 1704) resolve, em 1689, publicar uma carta acerca da intolerância (3), quando passa a defender a tolerância religiosa a partir da separação de Estado e Igreja, esclarecendo, de forma irrefutável, qual é o principal distintivo de uma verdadeira igreja, bem como o do verdadeiro homem de bem, digno de ser chamado cristão:

Se um homem possui todas aquelas coisas (bens materiais), mas lhe faltar caridade, brandura e boa vontade para com todos os homens, mesmo para com os que não forem cristãos, ele não corresponde ao que é um cristão. 

E continua Locke, a nos ensinar acerca da tolerância religiosa:

Quem for descuidado com sua própria salvação dificilmente persuadirá o público de que está extremamente preocupado com a de outrem. Ninguém pode sinceramente lutar com toda a sua força para tornar outras pessoas cristãs, se não tiver realmente abraçado a religião cristã em seu próprio coração. Se se acredita no Evangelho e nos apóstolos, ninguém pode ser cristão sem caridade, e sem a fé que age, não pela força, mas pelo amor (4).

Os ensinamentos de John Locke corroboram com o pensamento de Allan Kardec, no resgate à aplicação da tolerância e do respeito, conforme lecionou o Mestre Jesus.

Fundamentado na ética do amor, que marca a mensagem do Cristo, o Codificador realça, com o ensino dos Espíritos, na mais pura acepção, o significado valorativo de tolerância e respeito, em O Livro dos Espíritos, quando fala da Lei de Igualdade (5). Esta Lei estabelece respeito como sendo uma atitude que consiste em não prejudicar alguém ou alguma coisa, evocando, assim, a regra de ouro que deveria nortear as relações entre os homens:

822. Sendo iguais perante a lei de Deus, devem os homens ser iguais também perante as leis humanas?

“O primeiro princípio de justiça é este: Não façais aos outros o que não quereríeis que vos fizessem”.

O mestre lionês não apenas teoriza, mas exemplifica tolerância e respeito, ao superar com grandeza os ataques feitos ao Espiritismo, soprando, para bem distante, as cinzas do Auto de Barcelona, aconselhando-nos (6):

O Espiritismo se dirige aos que não creem ou que duvidam, e não aos que têm fé e a quem essa fé é suficiente; ele não diz a ninguém que renuncie às suas crenças para adotar as nossas, e nisto é consequente com os princípios de tolerância e de liberdade de consciência que professa. Por esse motivo não poderíamos aprovar as tentativas feitas por certas pessoas para converter às nossas ideias o clero, de qualquer comunhão que seja. Repetiremos, pois, a todos os espíritas: acolhei com solicitude os homens de boa vontade; oferecei a luz aos que a procuram, porque com os que creem não sereis bem-sucedidos; não façais violência à fé de ninguém, muito mais quanto ao clero que aos seculares, porque semeareis em campos áridos; ponde a luz em evidência, para que a vejam os que quiserem ver; mostrai os frutos da árvore e deles dai de comer aos que têm fome e não aos que se dizem saciados.

Ao tratar da Constituição Transitória do Espiritismo (7), Kardec aproveita para enfatizar o tema respeito e tolerância, exprimindo argumentos que marcam a robustez da Doutrina Espírita:

Acrescentemos que a tolerância, fruto da caridade, que constitui a base da moral espírita, lhe impõe como um dever respeitar todas as crenças. Querendo ser aceita livremente, por convicção e não por constrangimento, proclamando a liberdade de consciência um direito natural imprescritível, diz: Se tenho razão, todos acabarão por pensar como eu; se estou em erro, acabarei por pensar como os outros. Em virtude destes princípios, não atirando pedras a ninguém, ela nenhum pretexto dará para represálias e deixará aos dissidentes toda a responsabilidade de suas palavras e de seus atos.

Fica-nos claro, portanto, que a tolerância exige o respeito à regra de ouro presente na Questão 822 de O Livro dos Espíritos, mas entendemos que ela não é suficiente por ter características de uma virtude passiva: é necessário ir além do tolerar. É preciso amar o próximo como recomenda Jesus, e romper com os limites que estabelecemos para apenar alguém, como estabelece Pedro, ao perguntar ao Mestre: “Quantas vezes devo perdoar meu irmão? Sete vezes?”.           

Sabemos que o excesso de tolerância leva à indiferença e a ausência da tolerância leva à intolerância, mas, quando respeitamos o próximo, nós o amamos, e o amar é ativo, pois nos convida a romper os limites, conforme ensina Jesus: “Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas” (8).           

Cumprir a primeira milha é não fazer o mal ao próximo, cumprindo nossa obrigação de cristão. Cumprir a segunda milha consiste em amar o próximo para alcançar a elevação.

 

Referências:

  1. Revista Istoé – 24 de junho de 2015, nº 2377, Ed. Três
  2. A Bíblia de Jerusalém – 1º Reis 18: 1/40 – Edições Paulinas
  3. LOCKE, John – Coleção “Os Pensadores” – Abril Cultural – pág. 03-39
  4. Idem LOCKE, John
  5. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos – Feb
  6. KARDEC, Allan. Revista Espírita de 1863 (pág. 367) – Feb
  7. KARDEC, Allan. (Revista Espírita 1868, pag. 515) – Feb
  8. A Bíblia de Jerusalém – Mateus 5, vv.41 – Edições Paulinas.

Artigos Internet

  1. Dossiê Intolerância Religiosa – http://intoleranciareligiosadossie.blogspot.com.br/
  2. A nova ordem global – http://educaterra.terra.com.br/vizentini/artigos/artigo_75.htm

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Transcrito de: “Brasília Espírita”, GEABL, no.198, janeiro-fevereiro de 2016, p.3.