Kardec e Benedita

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O dia 18 de abril assinala os 160 anos do lançamento de O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec, em Paris. Este livro é o registro de nascimento do Espiritismo. Posteriormente, Kardec desdobrou-o em outros livros e que são conhecidos como a Codificação Espírita ou as Obras Básicas do Espiritismo.

O ensino moral de Jesus é tratado como um dos princípios do Espiritismo, entendido como proposta para o aperfeiçoamento espiritual das pessoas. O Livro dos Espíritos deixa claro que "a verdadeira adoração é a do coração" e desenvolve questões sobre a benevolência, indulgência, perdão, ou seja sobre a excelência da caridade.

Na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, a primeira do mundo, fundada também no mês de abril, no ano de 1858, Kardec preocupava-se com estudos, difusão das ideias espíritas, coleta de observações, aproximação com outras sociedades unidas pelo laço moral e também com a atuação junto à comunidade. A prática refletia a teoria. O Codificador, atendeu à sugestão do Espírito Sanson, recebida em reunião no inverno de 1862: "Meus bons amigos, quando o frio chegou e tudo falta em casa dessa brava gente, porque não viria eu, vosso antigo condiscípulo, vos lembrar da palavra de ordem, a palavra caridade? Daí tudo quanto pode dar o coração, em palavras, em consolo, em cuidados. – […] sede todo amor, todo caridade". Kardec realizou um trabalho em favor dos operários de Rouen e, ao mesmo tempo, elaborava o "Projeto de Comunidade Espírita".

A disseminação do Espiritismo foi rápida inclusive no interior do Brasil

Sete décadas após o lançamento de O Livro dos Espíritos, Benedita Fernandes iniciava em Araçatuba um trabalho em favor de crianças e doentes mentais, de amor e caridade tal como orientou Sanson em trecho acima citado.

Dentro do trabalho institucional Benedita concretizou sua homenagem a  Kardec de maneira marcante, praticando o bem, dando o nome do Codificador e uma criança por ela amparada.

Na fase inicial de elaboração da 1a edição de nosso livro sobre  Benedita Fernandes, no início dos anos 1980, entrevistamos Allan Kardec Marçal Costa. Este foi uma das primeiras crianças a ser criada por Benedita. Ele aparece em fotos junto dela, em grupo de crianças – todas acolhidas por essa baluarte da caridade. Um contemporâneo de Benedita, de Penápolis, assim se expressou so­bre o menino: "Um dia, no asilo, vi Dona Benedita chegar toda alegre, acompanhada de um menino negro, de olhos brilhantes e esbelto, sadio e ladino. Era o Allan Kardec, nome dado por sua "mãe" Benedita." Allan Kardec Marçal Costa, já desencarnado, teve uma vida simples e trabalhou como comerciário em Araçatuba, e, de vez em quando, comparecia às reuniões nas primeiras décadas da Instituição Nosso Lar, onde atuávamos.

Esses fatos constam do livro Benedita Fernandes. A dama da caridade, que estaremos lançando em Araçatuba no início de maio próximo.

 

– O autor foi dirigente espírita em Araçatuba; foi presidente da USE-SP e da FEB.

(do jornal “Folha da Região”, Araçatuba, SP, 19-04-2017, p.2)

Jesus e Kardec

Relembramos os primeiros contatos entre Chico Xavier e Emmanuel na estruturação segura da tarefa de divulgação do Espiritismo na Pátria do Evangelho, por meio da rica literatura vinda do Plano Maior da Vida.

Momento inesquecível é aquele em que Chico relata os primeiros contatos, quando Emmanuel o preveniu de que pretendia trabalhar ao seu lado, por tempo longo, mas que deveria, acima de tudo, procurar os ensinamentos de Jesus e as lições de Allan Kardec . E mais, que se um dia ele, Emmanuel, algo aconselhasse que não estivesse de acordo com as palavras de Jesus e de Kardec, que Chico deveria permanecer com Jesus e Kardec, procurando esquecê-lo.

Fica aí bem definida a linha de segurança para o trabalho Doutrinário. A difusão do Consolador Prometido nas casas espíritas, nas palestras, nos livros, nas publicações, nos meios de comunicação, nos cursos e eventos não pode perder de vista a imprescindibilidade de permanecer com Jesus e Kardec.

Não podemos e não devemos abrir mão desses dois alicerces, garantia da casa erguida sobre a rocha: o Evangelho de Jesus, vivido e ensinado sob a égide da Lei de Amor; o Espiritismo, a verdade, que veio relembrar tudo o que está no Evangelho e trazer ainda muito mais.

Se nos afastamos desse roteiro, perderemos a linha essencial do trabalho. Afinados com esse roteiro, teremos a tranqüilidade para analisar tudo e extrair o que é de bom.

É necessário que tenhamos essa disciplina observada por Emmanuel, que deixa clara a busca daqueles alicerces para não se deixar levar por nenhum tipo de mistificação ou idolatria sobre sua pessoa, a ponto de, ele próprio, recomendar que fosse abandonado, caso fizesse algo contrário ao que ensina Jesus e Kardec.

E para esta disciplina devemos estar sempre com os ensinamentos de Jesus (o Evangelho) e de Kardec (Doutrina Espírita) como roteiro sereno e seguro da nossa ascese espiritual.

 

(Editorial do jornal “O Espírita Mineiro”, edição MARÇO /ABRIL – 2009).

Conhecimento Espírita

Vladimir Alexei (MG)

No discurso pronunciado junto ao túmulo de Allan Kardec, no Père-Lachaise, o astrônomo francês, Camille Flamarion, grafou seu nome nos clássicos espíritas ao atribuir a Kardec a qualidade de bom senso encarnado.

Segundo Flamarion, “Kardec foi um homem de ciência e de certo não houvera podido prestar este primeiro serviço e dilatá-lo até muito longe, como um convite a todos os corações (…)”. Kardec era o bom senso encarnado por ser um homem de ciência, ou, por ser um homem de ciência, ele adquiriu o bom senso? Ele explica porque Kardec era o bom senso encarnado. Por possuir “razão reta e judiciosa (…)”.

A literatura espírita, particularmente no Brasil, possui legados inconfundíveis quanto a clareza do pensamento do Codificador do Espiritismo. Ilustres polemistas como Carlos Imbassahy (Pai), Leopoldo Machado, José Herculano Pires, Pedro Granja, Deolindo Amorim, Mario Cavalcanti de Melo, Henrique Andrade, dentre outros, por diversas vezes, assumiram a tribuna para explicar e traduzir o pensamento do Codificador diante dos detratores da Doutrina.

Pedro Granja, desconhecido do movimento espírita na atualidade, possui trabalhos muito ricos em termos doutrinários e em conhecimentos gerais a respeito do que tratava o movimento espírita, na primeira metade do século XX. Seu trabalho era tão expressivo, que mereceu prefácio de Monteiro Lobato, na obra “Afinal, quem somos?”. Obra que, em um só fôlego, elenca mais de 90 pensadores, ao longo do tempo e de seus trabalhos, para demonstrar a amplitude do pensamento espírita em relação às filosofias existentes na humanidade.

Monteiro Lobato que, em 2012, quase foi banido das escolas públicas, por ter seu trabalho vinculado ao racismo (vinculação infeliz, diga-se de passagem), era simpático à causa espírita, como pode ser observado em trabalho do Jorge Rizzini. No prefácio da obra do Pedro Granja, de 1947, usando de sua profunda capacidade de síntese, trouxe-nos uma reflexão interessante:

Mas, “AFINAL, QUEM SOMOS?”, você responde neste livro a esta pergunta, meu caro Pedro Granja, ao mostrar-nos o gigantesco esforço dos espíritas, esses cegos que não se conformam com a cegueira, esses aleijados que tentam apalpar, esses surdos que tentam ouvir, por intermédio dos olhos, do tato e dos ouvidos interiores da mediunidade. (GRANJA, p.22, 1982).

Monteiro Lobato, quando jovem, ambicionou a Academia Brasileira de Letras. Entretanto, após recusa injustificada, a não ser pela politicagem mundana, desgostou-se daquela casa. Mesmo quando convidado, mais tarde, após sua obra ser aclamada por todos, declinou em aceitar pertencer a um grupo seleto de pensadores e escritores, que contribuíram para a literatura e a evolução do pensamento brasileiro. Manteve sua autonomia em, com responsabilidade, dizer o que pensa, a bem do desenvolvimento comum de uma sociedade em seu trabalho.

Poderíamos dizer, sem pecha, que Monteiro Lobato foi um Espírita em seu sentido mais amplo da palavra. Assim como Machado de Assis, Monteiro Lobato foi tradutor de diversas obras e autores. Traduziu Will Durant (destacando-se a obra “Filosofia da Vida”), autor muito utilizado por Hermínio C. Miranda em suas pesquisas, permitindo-lhe o desenvolvimento intelectual pelo contato com culturas e pensamentos diferentes.

O espírita, na atualidade, fala muito do Evangelho, de seguir Jesus, de estudar as obras de Kardec, mas, de um modo geral, temos negligenciado pontos importantes. Um deles é do estudo. Por mais que a humanidade tenha evoluído em conhecimento e produções diversas, estudar a doutrina espírita é condição sine qua non. Não se alcança o entendimento do pensamento de Allan Kardec, sem estudar suas obras.

Estudando-as, porém, vemos espíritas vacilando em pensamentos “ultra-ortodoxos”, como se, assim agindo, fossem mais fieis na tradução do pensamento do Codificador. Erro crasso. Engano, aliás, aceito quando se é neófito na doutrina. Quando isso ocorre da parte de pessoas que se dizem “estudiosas”, agir e pensar assim é o mesmo que limitar a grandeza da obra de Kardec, ao seu próprio pensar. É incoerente, senão, vejamos.

Um dos maiores pensadores contemporâneos, o insigne Edgar Morin, pseudônimo de Edgar Nahoum, nascido em Paris em 1921, antropólogo, sociólogo e filósofo francês, autor de diversas obras traduzidas para o português, diz que “há inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre os saberes separados, fragmentados, compartimentados entre disciplinas, e, por outro lado, realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais, planetários.”

O autor de “A Religação dos Saberes”, reconhece o desafio da globalidade do conhecimento e, por conseguinte, o desafio de sua complexidade. Continua Morin: “existe complexidade, de fato, quando os componentes que constituem um todo, são inseparáveis e existe um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo (causa e efeito, comentário nosso) entre as partes e o todo, o todo e as partes.”

Seria, em outras palavras, o mesmo que insistir em estudar uma doutrina, apenas por uma de suas perspectivas. Um corpo doutrinário, como o Espírita, composto por filosofia, ciência e religião, é mais amplo do que a ortodoxia do pensamento filosófico de alguns de seus profitentes. Por isso Leopoldo Machado disse, em tese apresentada ao 1º Congresso de Jornalistas Espíritas realizado entre os dias 15 e 24 de novembro de 1939, que o Espiritismo é obra de educação. Dizia Machado que, “o Espiritismo, feito o complexo de ciência, filosofia e religião que aí está, é bem – sabemos todos – o Consolador prometido pelo Cristo, o Espírito da Verdade que, a seu tempo, viria exumar do véu da letra que mata, as verdades todas que se contêm nos Evangelhos, afim de integrar toda a humanidade na única doutrina que há de fazê-la feliz.”

Encontramos o metro que melhor mediu Kardec, segundo Emmanuel, dizendo que “O Evangelho renovou o mundo: esta é a verdade.” Quando Herculano Pires diz isso, fala com a autoridade de quem conhece a Doutrina Espírita não apenas como repetidor de pensamentos outros e, sim, por profundas reflexões filosóficas. “Enquanto nós encontramos em todas as religiões do passado, e mesmo religiões do presente, uma tentativa de transformação do homem que se reduz apenas a alguns elementos e se fixa em determinados pontos da Terra, o Evangelho de Jesus, na sua irradiação, conseguiu modificar a mentalidade planetária.”

Aquele que é considerado um dos ultra-ortodoxos, Dr.Ary Lex, em sua Pureza Doutrinária, diz que “Jesus, o mestre amado, nunca deixou uma viúva sem consolo, um doente sem alívio, um transviado sem um conselho, quando os homens, vaidosos, esquecidos de seus erros quiseram apedrejar uma pecadora, Ele os fez sentir que não havia um sequer que não tivesse seus defeitos.” Complementa, sem deixar dúvidas, que “o Espiritismo não veio para derrogar a moral cristã, mas fortalece-la. Um Espiritismo que não aceitasse os princípios morais do cristianismo não seria mais Espiritismo, porque não passaria de uma observação de fatos, guiada, apenas, pela curiosidade do sobrenatural.”

Poderíamos dedicar páginas a fio, trazendo diversos pensamentos daqueles que nos antecederam e se destacaram pelo conhecimento profundo das obras doutrinárias. Entretanto, na atualidade, a crítica gratuita, infundada, propagada como verdade absoluta, grassa em nosso meio, substituindo reflexões e obras, por uma ideia pessoal. Aquele que assume a tribuna para expressar seu pensamento, em detrimento do Pensamento Doutrinário, pratica um desserviço a divulgação e propagação doutrinárias.

Allan Kardec, como bom-senso encarnado, fez jus a expressão. Que não nos falte bom-senso na hora de divulgar a Doutrina Espírita. Que possamos estudar a complexidade dos temas abordados, suas transdisciplinaridades, buscando simplifica-los de maneira a torna-los factíveis a todos. Dizer que o Espiritismo “não é para as massas” é repetir um pensamento fora de contexto. É o mesmo que dizer que o Espiritismo é apenas para os “iniciados”. O Espiritismo é para todo aquele que busca aplacar suas angústias e ansiedades, é para todo aquele que deseja e necessita de refrigério para sua alma, na luta diária, no bom combate. Que Jesus ilumine nossa ignorância, para que o Conhecimento Espírita faça morada em nossa mente, e, também, em nossos corações.

Agenda Espírita Brasil entrevista Antonio Cesar Perri, ex-Presidente da FEB

Cesar

 

mar 26, 2017  Márcio Costa  DestaqueEntrevistasRevista Agenda Espírita Brasil  0


No dia 28 de janeiro de 2017 a Agenda Espírita Brasil (AEB) entrevistou o ex-Presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB), Antonio Cesar Perri de Carvalho, por ocasião de sua visita ao Centro Espírita Francisco Cândido Xavier em São José do Rio Preto, interior de SP.

Sempre cordial e acolhedor, Perri respondeu as seguintes perguntas.

AEBDentre as atividades que realizou quando estava à frente da FEB, qual delas considera mais marcante para o Movimento Espírita e por quê?

Cesar Perri:

Consideramos importante o estímulo e a dinamização das atividades federativas com apoio do Conselho Federativo Nacional da FEB. Além de campanhas e documentos de trabalho gerados, com a participação coletiva, pelo CFN, destacamos os 150 anos de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Para assinalar a marcante efeméride foram providenciadas várias publicações relacionados com o Evangelho, incluindo a edição especial desta própria obra de Allan Kardec, em parceria com as Entidades Federativas Estaduais; a edição bilíngue da 1ª edição desta obra; e a realização do 4º Congresso Espírita Brasileiro, em homenagem à citada Obra Básica, em abril de 2014. Aliás, este Congresso teve várias marcas de ineditismo: pela primeira vez houve a descentralização e a realização simultânea do Congresso em quatro regiões do país: Campo Grande, Vitória, Manaus e João Pessoa, facilitando a presença e aumentando o número de participantes das regiões; o programa e indicação de expositores foram planejados ouvindo-se as Entidades Federativas Estaduais, e, houve oportunidade para expositores das regiões; o valor da taxa de inscrição foi devolvido aos participantes com livros espíritas da FEB; e mesmo assim o Congresso foi autossustentável. Nas diversas regiões do país onde comparecemos e ouvimos referências gratificantes sobre os quatro congressos simultâneos homenageando O Evangelho Segundo o Espiritismo.

AEBCom a experiência de ter presidido a FEB, como procura conduzir hoje as suas atividades nas Casas Espíritas? Quais são os principais trabalhos a que se dedica e por quê?

Cesar Perri:

Além de ter exercido a presidência da FEB – entre momentos de interinidade e de efetivo -, durante três anos, somos originários da base do movimento espírita, desde a mocidade e o centro espírita, órgãos de unificação, USE-SP, e o Conselho Espírita Internacional. Nossa visão após nos desligarmos da FEB, sintetiza os 53 anos de ações espíritas em várias instâncias, e hoje entendemos que se torna muito importante o atendimento dos centros espíritas em geral, principalmente, os menores e mais simples, com a valorização da diversidade de situações. Recomendamos como prioritários o atendimento dos aspectos humanísticos, espirituais e fraternos relacionados com o acolhimento, consolo, esclarecimento e orientação, para que os centros espíritas melhor atendam às suas finalidades no contexto em que atuam. Ou seja, a concretização prática do Capítulo “O Cristo Consolador”, de O Evangelho Segundo o Espiritismo.

AEBQual é a sua percepção sobre o Movimento Espírita nas diversas regiões do Brasil? Há diferenças significativas ou não?

Cesar Perri:

O Brasil tem dimensões continentais e representa o amálgama de muitas tradições e culturas, advindas de correntes migratórias de diversos Continentes. Portanto, há muitas diferenças sociais, econômicas e culturais. Mas a diversidade de realidades é razão de uma riqueza de valores que devem ser respeitados. Por isso, admitimos claramente que não deva existir padronização de propostas e de programas. Devem existir convergência e valorização das Obras Básicas de Allan Kardec, com estímulo à sua difusão e estudo. Porém, com adequações à diversidade de condições dos públicos-alvo dos distintos contextos de atuação.

AEBQual é a sua percepção sobre o Movimento Espírita no Brasil e no mundo? Poderia citar, se pertinente, as similaridades e diferenças?

Cesar Perri:

As condições de desenvolvimento do Movimento Espírita no Brasil são muito peculiares ao contexto sócio-econômico e cultural do país. Há diferenças com relação aos países da América Latina em geral, dos países do Hemisfério Norte, da África, do Extremo Oriente e da Oceania. O respeito à diversidade e às realidades em geral, é uma questão básica e da mais alta importância para as propostas de intercâmbio e apoio entre os países. Devem ser evitadas as comparações em geral e qualquer ideia de padronização de práticas. O ponto comum entre todos deve ser a difusão das Obras Básicas de Allan Kardec nos vários idiomas. Tem havido muitos esforços pessoais; mas, desde o ano de 1992, o trabalho do Conselho Espírita Internacional inclusive na disponibilização de livros em vários idiomas, e, há quase 40 anos o trabalho em parceria da Editora Mensaje Fraternal e do IDE, para a difusão dos livros em espanhol.

AEBEm sua percepção, que ações permitiriam a Agenda Espírita Brasil gerar contribuições úteis ao Movimento Espírita nacional, e até em outros países, em face aos problemas atuais da humanidade?

Cesar Perri:

Nossa sugestão é que os problemas da atualidade sejam tratados com simplicidade, objetividade, fundamentados em base kardequiana e, sempre com foco na educação e, sem dúvida, na prevenção de problemas e de enganos. Lembrando Paulo de Tarso: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm” (1 Cor., 10:23); “Examinai tudo, retende o bem”  (1 Tess., 5:21).

 

Conselho Editorial da Agenda Espírita Brasil

(http://www.agendaespiritabrasil.com.br/2017/03/26/agenda-espirita-brasil-entrevista-antonio-cesar-perri-ex-presidente-da-feb/)

Chico Xavier: 90 anos de marcos históricos iniciais

Antonio Cesar Perri de Carvalho(*)

Entre maio e julho deste ano transcorrem 90 anos de alguns marcos históricos na trajetória de Francisco Cândido Xavier, relacionados com o início de seus labores espíritas em Pedro Leopoldo (MG).

No seio de família simples, pobre e numerosa do casal Cidália e João Cândido Xavier – com muitos filhos dos dois casamentos deste senhor -, ocorriam fatos que preocupavam a todos. A filha Maria Xavier, estava doente e não conseguiam diagnóstico adequado e nem tratamento. Era a irmã mais velha de Chico Xavier, este com 17 anos de idade.

Chico Xavier relata em “Palavras minhas”, como prefácio de Parnaso de além-túmulo, sua primeira obra psicográfica, lançada em 1932:

“Até 1927, todos nós não admitíamos outras verdades além das proclamadas pelo catolicismo, mas, eis que, uma das minhas irmãs, em maio do ano referido, foi acometida de uma terrível obsessão; a medicina foi impotente para conceder-lhe uma pequenina melhora sequer. Vários dias consecutivos foram para nossa casa, horas de amargos padecimentos morais. Foi quando decidimos solicitar o auxílio de um nosso distinto amigo, espírita convicto, o Sr. José Hermínio Perácio…”1

Em entrevista a seu amigo dr. Elias Barbosa, de Uberaba,  comenta que ele e sua família “ se voltaram para a Doutrina Espírita por motivo de cura de uma das suas irmãs que sofrera um processo obsessivo.”2 E responde ao entrevistador:

— Recordo-me. Minha primeira tarefa espírita foi a prece que se fez em torno de minha irmã doente, no próprio quarto em que ela se achava. […]

— Desde a primeira reunião de preces e passes, na manhã de 7 de maio de 1927, ela se restabeleceu…” 2

A partir de então, Chico Xavier tornou-se espírita, graças ao casal Carmem e José Hermínio Perácio e esclarece o decisivo papel deste casal:

“— Explicando-me o que eu sentia, em matéria de mediunidade, desde a infância, quando fiquei órfão de mãe, aos cinco anos de idade, amparando-me em minhas necessidades espirituais, ensinando-me a orar e presenteando-me com “O Evangelho, segundo o Espiritismo” e “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, os dois livros que me deram os alicerces de minha fé espírita-cristã e me orientaram para aceitar a mediunidade e respeitar os Bons Espíritos.” 2

A partir do atendimento de sua irmã Maria, o jovem Chico Xavier deu início a posicionamentos muito rápidos.

Quarenta dias após, no dia 21 de junho de 1927 foi fundado o Centro Espírita Luiz Gonzaga. Logo depois Chico Xavier psicografou pela primeira vez. Ele detalha em entrevista os companheiros presentes na histórica reunião do dia 7 de julho de 1927 e comenta que o espírito manifestante não se identificou, tendo assinado como “um espírito amigo”, porém Chico Xavier se recorda do episódio:

“— Estávamos em reunião pública e depois da evangelização, D. Carmen Perácio, médium de muitas faculdades, transmitiu a recomendação de um benfeitor espiritual para que eu tomasse o lápis e experimentasse a psicografia. Obedeci e minha mão de pronto escreveu dezessete páginas sobre deveres espíritas… Senti alegria e susto ao mesmo tempo. Tremia muito quando terminei.” 2

Chico Xavier relata no seu livro pioneiro, já citado, o desabrochar de sua psicografia:

“Resolvemos, então, com ingentes sacrifícios reunir um núcleo de crentes para estudo e difusão da doutrina, e foi nessas reuniões que desenvolvi-me como médium escrevente, semi-mecânico, sentindo-me muitíssimo feliz, por se me apresentar essa oportunidade de progredir, datando daí o ingresso do meu humilde nome nos jornais espíritas, para onde comecei a escrever sob a inspiração dos bondosos mentores espirituais que nos assistiam.”1

Por ocasião do cinquentenário dessas mesmas efemérides, nos idos de 1977, entrevistamos Chico Xavier e várias lideranças da época sobre o trabalho do notável médium. Na época Chico Xavier declarou a um jornal: “Sou sempre um Chico Xavier lutando para criar um Chico Xavier renovado em Jesus e, pelo que vejo, está muito longe de aparecer como espero e preciso…”3

Em apenas 60 dias -, o jovem Chico Xavier tornou-se espírita, fundou um Centro Espírita e psicografou pela primeira vez. Era o marcante e decisivo início de longa trajetória de renúncia, dedicação, amor e iluminação espiritual!

 

Referências:

  1. Xavier, Francisco Cândido. Espíritos diversos. Parnaso de além túmulo. 19.ed. Palavras minhas. Brasília: FEB. 2010.
  2. Barbosa, Elias. No mundo de Chico Xavier. 2.ed. Cap. 2. Araras: IDE. 1975.
  3. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier. O homem e a obra. 1.ed. São Paulo: USE. 1997. p.36-46.

(*) Ex-presidente da FEB e da USE-SP.

(Síntese de artigo do autor publicado em Revista Internacional de Espiritismo, Ano XCII, N. 2, Abril de 2017)

Kardec morreu?

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Allan Kardec desencarnou no dia 31 de março de 1869, em Paris. A efeméride é sempre recordada.

Nossa indagação é se, na prática, Kardec teria morrido, isto é, as suas obras e propostas! Vale conferir…

Coincidentemente em abril transcorrem os 160 anos do lançamento de “O Livro dos Espíritos”, e os aniversários de episódios marcantes como a fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritos – primeiro centro espírita do mundo -, o lançamento da “Revista Espírita” e de “O Evangelho segundo o Espiritismo”.

No conjunto, torna-se oportuna a análise e reflexão se na instituição espírita a que estamos vinculados e nosso âmbito de atuação, as obras e o pensamento do Codificador Allan Kardec, como se encontrariam? Estariam com a pulsante vitalidade, bem vivos?

A título de sugestão – como parâmetro para a verificação -, recordamos apenas alguns trechos dos textos kardequianos:

"Quando o homem praticar a lei de Deus, terá uma nova ordem social fundada sobre a justiça e a solidariedade, e ele mesmo também será melhor.” (1)

“A verdadeira adoração é a do coração. […] Deus prefere aqueles que o adoram do fundo do coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal, àqueles que creem honrá-lo por meio de cerimônias que não os tornam melhores para os seus semelhantes.” (1)

"[…] desenvolvimento dessas ideias: o primeiro é o da curiosidade provocada pela estranheza dos fenômenos; o segundo é o do raciocínio e das filosofias; o terceiro, o da aplicação e das consequências." (1)

“Este dom de Deus não é concedido ao médium para seu deleite e, ainda menos, para satisfação de suas ambições, mas para o fim da sua melhora espiritual e para dar a conhecer aos homens a verdade.” (2)

“A bandeira que desfraldamos bem alto é a do Espiritismo cristão e humanitário, em torno do qual já temos a ventura de ver, em todas as partes do globo, congregados tantos homens, por compreenderem que aí que está a âncora de salvação, a salvaguarda da ordem pública, o sinal de uma Nova Era para a Humanidade.” (2)

“As qualidades que, de preferência, atraem os bons Espíritos são: a bondade, a benevolência, a simplicidade do coração, o amor do próximo, o desprendimento das coisas materiais. Os defeitos que os afastam são: o orgulho, o egoísmo, a inveja, o ciúme, o ódio, a cupidez, a sensualidade e todas as paixões que escravizam o homem à matéria.” (2)

“O homem que pratica o bem — isto dito em tese geral — deve, pois, esperar contar com a ingratidão, ter contra ele aqueles que, não o praticando, são ciumentos da estima concedida aos que o praticam. Os primeiros, não se sentindo fortalecidos para se elevarem, procuram rebaixar os outros ao seu nível, pondo em xeque, pela maledicência ou pela calúnia, aqueles que os ofuscam” (3)

"[…] o ensino moral […] conservou-se constantemente inatacável. Diante desse código divino, a própria incredulidade se curva. É terreno onde todos os cultos podem reunir-se, estandarte sob o qual podem todos colocar-se, quaisquer que sejam suas crenças, porquanto jamais ele constituiu matéria das disputas religiosas, que sempre e por toda a parte se originaram das questões dogmáticas." (4)

“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.” (4)

“[…] Se a ordem social colocou sob o seu mando outros homens, trata-os com bondade e benevolência, porque são seus iguais perante Deus; usa da sua autoridade para lhes levantar o moral e não para os esmagar com o seu orgulho. Evita tudo quanto lhes possa tornar mais penosa a posição subalterna em que se encontram.” (4)

“Repelir as comunicações de além-túmulo é repudiar o meio mais poderoso de instruir-se, já pela iniciação nos conhecimentos da vida futura, já pelos exemplos que tais comunicações nos fornecem. A experiência nos ensina, além disso, o bem que podemos fazer, desviando do mal os Espíritos imperfeitos, ajudando os que sofrem a desprenderem-se da matéria e a se aperfeiçoarem. Interdizer as comunicações é, portanto, privar as almas sofredoras da assistência que lhes podemos e devemos dispensar.” (5)

“Para que cada qual trabalhe na sua purificação, reprima as más tendências e domine as paixões, preciso se faz que abdique das vantagens imediatas em prol do futuro, visto como, para identificar-se com a vida espiritual, encaminhando para ela todas as aspirações e preferindo-a à vida terrena, não basta crer, mas compreender.” (5)

“Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem.” (6)

“A Terra, no dizer dos Espíritos, não terá de transformar-se por meio de um cataclismo que aniquile de súbito uma geração. A atual desaparecerá gradualmente e a nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que haja mudança alguma na ordem natural das coisas. […] Em cada criança que nascer, em vez de um Espírito atrasado e inclinado ao mal, que antes nela encarnaria, virá um Espírito mais adiantado e propenso ao bem. Muito menos, pois, se trata de uma nova geração corpórea, do que de uma nova geração de Espíritos.” (6)

"O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas." (7)

Oportuna a recomendação de Bezerra de Menezes:

“Seja Allan Kardec, não apenas crido ou sentido, apregoado ou manifestado, a nossa bandeira, mas suficientemente vivido, sofrido, chorado e realizado em nossas próprias vidas. Sem essa base é difícil forjar o caráter espírita-cristão que o mundo conturbado espera de nós pela unificação.” (8)

Referências:

  1. Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos espíritos. Questões 630, 653, 654, Conclusão V. Brasília: FEB.
  2. Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos médiuns. Itens 220, 335, 350. Brasília: FEB.
  3. Kardec, Allan. Trad. Noleto, Evandro Bezerra.Viagem espírita de 1862 e outras viagens de Allan Kardec.Cap. Discursos pronunciados na reuniões gerais de Lyon e Bordeaux. FEB.
  4. Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O evangelho segundo o espiritismo. Introdução; Cap. XVII, itens 3 e 4. Brasília: FEB.
  5. Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O céu e o inferno. 1ª. Parte, Cap.XI, item 15; 2ª. Parte, cap. I, item 14. Brasília: FEB.
  6. Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. A gênese. 53.ed. Cap. I, item 13; Cap. XVIII, item 27. Brasília: FEB.
  7. Kardec, Allan. Trad. Noleto, Evandro Bezerra. O Espiritismo é uma religião? Revista Espírita. Dezembro de 1868. Brasília: FEB.
  8. Equipe Secretaria-Geral do Conselho Federativo Nacional. (Resp. Equipe: Antonio Cesar Perri de Carvalho.) Orientação aos órgãos de unificação. Cap. VI. Rio de Janeiro: FEB.

(Ex-presidente da USE-SP e da FEB)

O Evangelho de João

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O apóstolo João, após sair de Jerusalém, viveu na Ásia Menor e orientava as igrejas desta região, principalmente junto à igreja de Éfeso, fundada por Paulo. Considera-se que João é testemunha genuína da tradição dos Apóstolos.

Ainda jovem e acompanhando o Mestre, João – chamado “filho do trovão” (Atos, 20.31) -, segundo Jesus, passou a ser o “discípulo amado”; corajosamente, seguiu-o na noite da prisão e o acompanhou até a crucificação, quando foi designado para cuidar de Maria. É aceito que a mãe de João era irmã de Maria. João conduziu Maria à cidade de Éfeso no ano 37 d.C. e ela desencarnou com 64 anos de idade no ano 46 d.C., naquela região, na montanha de Bilbul.1 A convivência com a mãe de Jesus foi uma oportunidade ímpar para a compreensão dos valores cristãos.

Com relação à época do aparecimento dos Evangelhos, registramos que a 1a Epístola aos Tessalonicenses, escrita por Paulo em Corinto no ano 51 d.C., seria o primeiro texto de autoria do Apóstolo e também o texto pioneiro do Novo Testamento.2 Em realidade os Evangelhos surgiram após a redação de todas Epístolas de Paulo. É aceito que a seguinte cronologia de aparecimento dos Evangelhos: Marcos, provavelmente no ano 64 d.C; Lucas, logo em seguida; Mateus, no ano 70 d.C., e, João, no período entre 90 e 100 d.C.3

Os três primeiros evangelhos registram as obras do Cristo desde a prisão e encarceramento de João Batista, durante um ano apenas.3 Por isso João transmitiu em seu evangelho os eventos que os evangelistas precedentes haviam omitido e as ações do Mestre nesse espaço de tempo. Isso é assinalado na frase: “Este foi o início dos sinais que Jesus fez” (João 2,11). Portanto, João registra as ações de Cristo antes de João Batista ser encarcerado; os outros três evangelistas citam os eventos após a prisão e encarceramento do Batista. Ciente de que o lado humano havia sido exposto nos evangelhos precedentes, escreveu impelido pelos discípulos e divinamente inspirado pelo “Espírito Santo”, um evangelho espiritual.

O estudioso bíblico Champlin3 reproduz a opinião de Ernest Renan de que o evangelho de Lucas é o mais belo livro que jamais foi escrito. Por outro lado, comenta que, considerados juntamente, os evangelhos de Lucas e Atos dos Apóstolos representam pouco mais do que um quarto do volume total do Novo Testamento. Significa que Lucas contribuiu  para o conjunto do Novo Testamento com mais material, do que qualquer outro autor, e, que o Evangelho de Lucas juntamente com Atos dos Apóstolos tem mais material do que as epístolas de Paulo.

João, o único discípulo que não foi executado pelos adversários, residiu em Éfeso até sua desencarnação – já nonagenário -, no início do Século II. Na sua longa existência, João conviveu com Paulo que, em uma de suas viagens passou três anos em Éfeso e depois deu atribuições a Timóteo e Tito para atuarem cidade.2 Teve contatos com cristãos pioneiros de várias partes e que receberam sua influência e são incluídos na chamada patrística, ou seja, a filosofia cristã dos primeiros séculos, elaborada pelos chamados “pais da igreja”. Conheceu também as dificuldades e as influências negativas que eram vividas pelos primeiros grupos cristãos.1,2,3

O estudioso bíblico Norman R. Champlin cita o líder reformista do século XVI: “Lutero costumava dizer que se pudéssemos preservar somente o evangelho de João e a Epístola aos Romanos, o cristianismo seria salvo.”3

No romance histórico 50 anos depois Emmanuel registra uma observação significativa: “Paulo e João nos revelaram o Cristo Divino, Filho do Deus Vivo, na sua sublimada missão universalista, a redimir o mundo.”4


Referências:

  1. Silva, Severino Celestino.Comunidades do Caminho. História do Cristianismo Nascente.1.ed. Cap. 20,22,23. João Pessoa: Ideia, 2014.
  2. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do espiritismo. 1.ed.
  3. Champlin, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. Vol. 1, 2, 3. São Paulo: Hagnos, 2014.
  4. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. 50 anos depois. 1.e.esp. 1ª. parte, cap.VI. Rio de Janeiro: FEB. 2002.

(*) – Síntese do artigo: Carvalho, Antonio Cesar Perri. João em prosa e verso. Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCII, n.1. Fevereiro de 2017.

Casa Espírita x Consultório

Vladimir Alexei

Com o habitual respeito aos pensamentos diferentes, pedimos licença para iniciar novo debate sem a pretensão de esgotar o assunto. O objetivo é tão somente refletir em torno de um tema que tem incomodado alguns espíritas pela tenuidade entre atividades da Casa Espírita e aquilo que alguns palestrantes têm feito ao usarem a tribuna espírita.

É oportuno frisar que, ao compreendermos que somos seres em franco progresso espiritual, ainda que esse progresso seja quase imperceptível, como asseveram os espíritos na Codificação, toda discussão no campo das ideias fortalecem a dialética espírita e ficam no campo das ideias, não sendo endereçada a pessoa em específico.

Emmanuel define a mente como o “Espelho da Vida em toda parte”. Herculano Pires, o metro que melhor mediu Kardec (nos dizeres de Emmanuel) define a Casa Espírita como um “espelho côncavo em que todas as atividades doutrinárias se refletem e se unem, projetando-se conjugadas no plano social geral, espírita e não espírita.” Esse pensamento de Herculano é convergente com o projeto do Codificador.

Allan Kardec em seu Projeto 1868, discorre, dentre outros tópicos, a respeito da necessidade de se existir um estabelecimento central para o estudo do Espiritismo. Esse estabelecimento seria para o estudo e a propagação doEspiritismo. Mais adiante, comenta o Codificador que dois ou três meses do ano seriam consagrados a visitas aos diversos centros para imprimir-lhes uma boa direção. Quer dizer: as viagens para aprimorar o conhecimento e falar a respeito da doutrina já foram previamente pensadas por Kardec.

Por mais claro que seja o pensamento do Codificador, nestes 160 anos em que comemoramos o surgimento da Doutrina Espírita com a publicação de O Livro dos Espíritos, parece que nos vemos às voltas com algumas polêmicas que nem deveriam existir. A tribuna espírita serve para que oradores, expositores, palestrantes transmitam os ensinamentos doutrinários. Entretanto, nestes 160 anos, falamos a respeito dos mesmos temas, com ênfases diferentes e no presente a ênfase tem sido muito mais em aspectos psicológicos, adstritos a diagnósticos que mais funcionam como rótulos do que esclarecimento à luz de uma ciência. Quase a extensão de um consultório.

Resgatamos publicação de Leopoldo Cirne de 1921 (“Doutrina e Prática do Espiritismo I e II), em seu volume segundo, página 255, dizendo que “OCristianismo (…) em sua primitiva fase como em seu ressurgimento com o Espiritismo, não veio instituir moldes excêntricos para os que nele se iniciam, senão formar nos homens uma consciência nova (…).” Continua na página 259 em outros termos: “Induzidos a ser esse Evangelho vivo, em sua ação modificadora sobre os costumes e a vida social, tem que antes de tudo praticar entre si os preceitos da doutrina (…).” Em outras palavras Leopoldo Cirne já advertia para a importância do que deveria ser propagado em uma Casa Espírita: Evangelho e Doutrina Espírita.

Acontece, porém, que na atualidade, com todo o esforço e carinho possíveis empreendidos por estudiosos que fazem uso da palavra para propagar o Espiritismo, encontramos pensamentos alheios ao que preconiza a doutrina de forma a falar de quase tudo, menos de Espiritismo. Histórias bem construídas, exemplos riquíssimos pelo nível de detalhe que sensibilizam à lágrimas, mas pobres em caracteres doutrinários capazes de realizar o que Leopoldo Cirne, o Leon Denis brasileiro, alertou: modificação de costumes. Uma hipótese de que essa abordagem não tem sido suficiente é o consumo de antidepressivos e estabilizadores de humor entre espíritas. E não há aqui hipocrisia ou condenação. Existem casos e casos. Entretanto questiono, nessa reflexão: se fosse terapeuta, se precisasse de psicotrópico utilizaria ou apenas recomendaria o uso? Evidentemente que essa pergunta não faz o menor sentido dentro de uma Casa Espírita. Lá é lugar de estudar a Doutrina e Evangelho.

É fato que Allan Kardec no primeiro capítulo do livro “A Gênese”, item oito nos diz que o “Espiritismo, tendo por objeto o estudo de um dos elementos constitutivos do Universo (ou seja, elemento espiritual), toca na maior parte das ciências.” Isso já nos dizia o insigne José Marques Mesquita (pela USEERJ) em seu livreto “A relação entre a Psicologia e o Espiritismo”.  Mesquita continua dizendo-nos que, dentre as ciências em que o Espiritismo toca mais de perto se destaca a Psicologia, cujo sentido da palavra em sua origem grega significa “Ciência da Alma”.

Discorre ainda José Mesquita sobre a Psicologia Experimental, surgida na época em que o Espiritismo já estava maduro (1870). O citado autor faz um belo trabalho mostrando a evolução da Psicologia Experimental em suas vertentes comobehaviorismo, psicanálise, psicologia humanista, psicologia transpessoal (a vedete dos terapeutas espíritas por seu caráter transcendente aos limites da psicologia humanista). E em todo o trabalho o autor evidencia a coerência e a importância de se caminhar junto a Psicologia com o Espiritismo.

José Marques Mesquita, porém, nos dá uma aula de Espiritismo. Em uma de suas páginas finais (42) o autor diz: “a finalidade do Espiritismo é esclarecer o homem de todas as coisas, a fim de libertá-lo da ignorância sobre si mesmo e sobre o verdadeiro sentido de sua vida, que é o de se sua contínua evolução em direção à meta para o qual ele foi criado, que é a perfeição (…).” Soube, com muita sensibilidade, coordenar a ordem de importância nos estudos.

O Espiritismo como ciência que estuda a relação do espírito com o mundo material, a origem e o destino dos espíritos pode se valer de todas as ciências para explicar a toda a gente o quanto seus ensinamentos são profundos e transformadores. Para isso, Marques atribuiu o peso adequado: reconheceu a importância da Psicologia, assim como nós outros, porém, como acessório e não peça principal em uma Casa Espírita. A Psicologia, se usada de forma adequada, possui espaço transformador, quando seus esclarecimentos forem complementares ao que diz a Doutrina Espírita. Sem Doutrina Espírita e Evangelho, a Psicologia é mais uma ciência incompleta e imperfeita, na acepção científica do termo, por ignorar sua razão principal de existir: a alma (Espírito encarnado, segundo Kardec). Menos psicologismos em palestras e mais Doutrina Espírita com Evangelho do Cristo.

Mulher decidida pelo bem

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Oito de março é o “dia internacional da mulher”, proposta oriunda do final do Século XIX, nos EUA e na Europa, como luta feminina por melhores condições de vida, trabalho e direito de voto.

Na época, no Brasil, a maioria das mulheres exercia as atividades do lar, poucas estudavam e exerciam profissões.

Nesse cenário, se inicia em Araçatuba (SP) um labor liderado por uma mulher. Fato marcante é que a pioneira não era detentora de nenhuma facilidade ou “passaporte social” que assegurasse o sucesso de seu empreendimento.

Trata-se de Benedita Fernandes, descendente de escravos libertos e semi analfabeta, com o agravamento de que vitimada por obsessão espiritual foi considerada “louca”. Tratada por espíritas de Penápolis chegou em Araçatuba em meados dos anos 1920, trabalhando como lavadeira no Patrimônio de Dona Ida, hoje bairro Santana.

Fiel ao compromisso, quando curada, de trabalhar pelo bem e pelos pobres, com a colaboração de lavadeiras passou atender crianças abandonadas e doentes mentais. Nos seus atendimentos, como médium, Benedita conseguia acalmar os desequilibrados mentais e dava conforto a crianças. Iniciaram a construção de simples casinhas de madeira, para concretizar o sonho de fazer o bem.

Com os bons resultados obtidos e com o apoio de espíritas e pessoas da cidade, Benedita fundou no dia 6 de março de 1932 a Associação das Senhoras Cristãs – marco na cidade e região no campo da assistência social – surgindo o lar para crianças, Asilo para doentes mentais, albergue noturno, escola com apoio do Município, sempre no bairro Santana.

Benedita tornou-se uma referência no bem, contando com apoio dos espíritas, população em geral, Loja Maçônica Tupi, de lideranças políticas como Aureliano Valadão Furquim e Plácido Rocha.

Inclusive, familiares nossos – Perri e Marinelli – mantiveram contatos com Benedita.

Após seu falecimento em 1947, a Associação passou por adequações e momentos difíceis e com o tempo centralizou seus esforços no Sanatório, depois Hospital Benedita Fernandes. Com mais de 80 anos de funcionamento, em nossos dias, em atendimento a política governamental da área da saúde mental, passa por desativação e adequação em modalidades de Centro de Atenção Psicossocial e já está em funcionamento o CAPS-ad Benedita Fernandes, no mesmo bairro.

Na semana da mulher e também da fundação da Associação das Senhoras Cristãs, reverenciamos o vulto feminino de Araçatuba, vencedora de preconceitos e diversas dificuldades, um marco histórico do surgimento dos Hospitais Psiquiátricos no Estado de São Paulo.

Pela sua atuação – uma “dama da caridade” -, definimos o título de livro sobre Benedita, que lançamos no cinquentenário da Associação das Senhoras Cristãs (1982), e será brevemente reeditado de forma ampliada e atualizada.

Benedita Fernandes: uma mulher decidida pelo bem!

(*) Foi presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e da Federação Espírita Brasileira.

Bagagem

Richard Simonetti

           Bias, de Priene (século VI a.C.), um dos sete sábios da antiga Grécia, pontificava por elevados dotes intelectuais. Mais que isso: era íntegro e honesto. Jamais colocou seu talento e sua inteligência a serviço de interesses menos dignos. Diante de questões litigiosas, que exigiam um mediador sábio e justo, dizia-se:

           – É uma causa para o cidadão de Priene!

           Sua presença conciliatória serenava os ânimos e garantia o triunfo da verdade e da justiça.

           Quando Ciro II, o Grande (585-529 a.C.), ambicioso rei persa, iniciou suas guerras de conquista, estabelecendo um dos maiores impérios da antiguidade, as cidades gregas estavam em seu caminho.

           Em breve Priene foi sitiada. Instalou-se o pânico. Os moradores trataram de fugir. Em atabalhoado esforço, buscavam levar a maior quantidade possível de pertences. A confusão era enorme. Grande agitação, ânimos exaltados, choro, histeria coletiva…

           A exceção: Bias. Deixou a cidade tranquilamente, sem carregar nada. Os amigos estranharam.

           – E os seus bens?

           O filósofo sorriu, explicando:

           – Trago tudo comigo.

           Referia-se aos seus valiosos dotes de cultura, conhecimento e virtude. Em qualquer lugar, esses patrimônios inalienáveis lhe garantiriam subsistência honesta e digna.

                                                        ***

           Enfrentamos, na experiência humana, crises periódicas que exigem o resgate do passado ou testam as aquisições do presente.

Moléstia insidiosa.

Acidente inesperado.

Perda de um bem.

Demissão na atividade profissional.

Fracasso de um empreendimento.

Ruptura da ligação afetiva.

Defecção do amigo.

Morte do ente querido.

           Sitiados pela adversidade, somos chamados a deixar as posições em que nos acomodamos, à procura de caminhos novos que se desdobram a nossa frente.

           Detalhe importante: a crise é também um teste de avaliação. Revela nossa posição espiritual. Dependendo de nossas reações, podemos ser reprovados, com o compromisso de repetir estágios ou ganhar honrosa promoção.

           Reclamamos da sorte?

           Tropeçamos na inconformação?

           Caímos no desânimo?

           Mergulhamos no desajuste?

           Lamentável!

           Superficial é a nossa crença, frágil o nosso ânimo, precária a nossa estabilidade.

           Encaramos a adversidade com bom ânimo?

           Confiamos em Deus?

           Cultivamos a serenidade?

           Estamos dispostos a enfrentar o desafio?

           Ótimo!

           Demonstramos possuir um patrimônio de valiosas aquisições espirituais.

           E trazemos “tudo conosco”, a nos sustentar o equilíbrio e a paz, onde estivermos.

(Transcrito de: Notícias do Movimento Espíritahttp://www.noticiasespiritas.com.br/2017/FEVEREIRO/20-02-2017.htm)