Pesquisa sobre o estudo do Evangelho entre espíritas

Pesquisa sobre o estudo do Evangelho entre espíritas

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Uma pesquisa realizada na Universidade Federal de São Carlos gerou a Dissertação de Mestrado “Jesus a porta, Kardec a chave”: a apropriação do Novo Testamento pelo segmento espírita, de autoria de Natália Cannizza Torres. Esta Dissertação foi defendida e aprovada no 1o Semestre de 2019 junto ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar para obtenção do título de Mestre em Sociologia, contando com orientação do Professor Doutor André Ricardo de Souza, do Departamento de Sociologia da UFSCar.

O estudo é muito interessante e fez-se o registro histórico desde a chegada do espiritismo no Brasil, comentando-se que muitas foram as correntes adotadas pelos seus adeptos em função de conceitos relacionados com aspectos religioso, filosófico e científico. Evidente que o tema foi tratado com fundamento em autores das ciências sociais, notadamente vinculados à sociologia da religião.

A pesquisa de Natália Cannizza Torres focalizou o aspecto religioso do Espiritismo, em que realça o papel significativo das obras psicografadas por Francisco Cândido Xavier, notadamente de autoria do espírito Emmanuel. Inclusive, no final, apresenta Tabelas sobre os livros de Emmanuel que comentam versículos do Novo Testamento.

A Dissertação de Mestrado aponta que o processo de estudo em pauta surgiu em meados do século XX, mas ganhou impulso de propagação nesta 2a década do século XXI: o estudo interpretativo do Novo Testamento, o qual começou em Belo Horizonte e que principalmente a partir da criação do NEPE (Núcleo de Estudo e Pesquisa do Evangelho), junto à Federação Espírita Brasileira em 2012 e que mesmo após sua desativação em 2015, a prática se expandiu pelo país. Tal pesquisa aponta que o estudo bíblico vem, aos poucos, tornando-se uma nova prática estrutural espírita.

A autora entende que este processo de estudo constitui-se como um fator contribuinte para o grande crescimento espírita na atual década. Em face dessa modalidade de estudo em curso e do processo de criação de organizações espíritas abarcando os chamados NEPEs (Núcleo de Estudo e Pesquisa do Evangelho), Miudinho (designação de estudo detalhado do Novo Testamento notabilizado por Honório Abreu) e EMEJs (Estudo Minucioso do Evangelho de Jesus), nota-se o mesmo efeito sociológico que o culto do Evangelho no Lar acarretou a partir dos anos 1960, porém agora em relação ao estudo do Novo Testamento, ou seja, admite que centros espíritas podem estar começando a surgir a partir de tais grupos, tal como surgiram no passado a partir de familiares grupos dedicados ao chamado “Evangelho no Lar”.

A Dissertação apresenta dados muito interessantes e até sintetiza-os em Tabelas. Atualmente, existem 59 NEPEs em diferentes centros espíritas, espalhados por 14 unidades federativas do país, sendo um na região Norte, vinte e dois no Nordeste, quatro no Centro-Oeste, vinte e um no Sudeste e onze no Sul. Os EMEJs, por sua vez, não são contabilizados pela União Espírita Mineira, enquanto a prática do denominado “Miudinho” (stricto sensu) somente foi localizado na cidade mineira de Uberaba.

A investigação foi feita junto a coordenadores de grupos de estudo bíblico, principalmente de Minas Gerais, em São Carlos, município do interior paulista que tem se destacado por tal atividade espírita e onde foi feita pesquisa de campo. A autora também entrevistou diversos dirigentes espíritas vinculados ao objeto de sua pesquisa e os relaciona na Dissertação.

A autora Natália Cannizza Torres opina: “A melhor maneira de entender a importância desse movimento foi perceber que, ao ser instituído na FEB, o NEPE ganhou status de prática oficial e ganhou força para se espalhar pelo Brasil, instalando-se nos centros espíritas. Mesmo depois que foi dissolvido na FEB, o NEPE manteve sua dinâmica em outros lugares, na capilaridade dos centros espíritas. O trabalho religioso espírita centrado no estudo bíblico teve como grande pioneiro Honório Abreu, a partir dos anos 1950.” E neste contexto do século XXI, destaca o “papel de seu seguidor Haroldo Dutra Dias, bem como de Wagner Gomes Paixão; registra o reforço pela participação da família de Antonio Cesar Perri no âmbito da FEB, no qual surgiu o primeiro NEPE”. Na opinião da autora “o trabalho religioso mais significativo foi a tradução de parte do Novo Testamento por Haroldo Dutra Dias”.

Todavia, Natália comenta na Dissertação que este “prestígio de Haroldo Dias foi relativizado quando Frederico Lourenço, professor de literatura da Universidade de Coimbra publicou, em 2018, a tradução do Novo Testamento, direto do grego e completa, fazendo com que os atores espíritas considerassem-na também, quando de seus estudos e pesquisas.”

Nessa Dissertação de Mestrado a autora comenta que ”o III Congresso Espírita Brasileiro (abril de 2010) e as produções de filmes e telenovelas espíritas, que surgiram a partir de 2010, foram os principais fatores que contribuíram para o crescimento demográfico espírita na segunda década do século XXI. Mas vale a pena fazer a contraposição, ou a comparação, entre esse movimento espírita de direcionamento e encaminhamento crescente ao culto da Bíblia e a dinâmica nacional de crescimento das igrejas evangélicas, simultaneamente à diminuição do catolicismo. A coincidência, nessa década, entre a aceleração do crescimento espírita e a disseminação da prática de estudos bíblicos em seu meio suscita uma questão sociológica pertinente."

De nossa parte, parecem-nos marcantes os dados obtidos pela nova Mestre em Sociologia. Constatou-se que surtiu efeito produtivo o esforço iniciado com a implantação do NEPE da FEB, com a proposta analisada e aprovada pelos órgãos diretivos da FEB entre julho e outubro de 2012, durante nossa gestão como presidente interino desta Instituição. O lançamento do NEPE da FEB ocorreu na sede da instituição, em Brasília, no dia 2 de março de 2013, com o auditório lotado. Houve atuação da Comissão do NEPE: coordenação de Haroldo Dutra Dias; membros: Ricardo Mesquita, Simão Pedro de Lima, Wagner Gomes da Paixão, Afonso Chagas, Célia Maria Rey de Carvalho e Flávio Rey de Carvalho. Na mesa estavam presentes o presidente interino Antonio Cesar Perri de Carvalho e a vice-presidente da FEB Marta Antunes de Moura, ambos com participação na oficina de estudo. O NEPE da FEB foi extinto a partir de abril de 2015, mas a ideia e a prática originais se disseminaram como foi demonstrado pela Dissertação de Mestrado da UFCar e como se constata em nossos dias pela circulação de informações pelas redes sociais.

Essa Dissertação de Mestrado trata de maneira inédita o estudo do Novo Testamento no movimento espírita, com fundamentos acadêmicos, e, focaliza a visão espírita, relacionando dados e fontes obtidos na literatura acadêmica e espírita, nas entrevistas e nos contatos com dezenas de grupos de estudos espíritas do país. Sem dúvida, contribui com análises sociológicas e informações históricas.

Fonte:

Torres, Natália Cannizza. “Jesus a porta, Kardec a chave”: a apropriação do Novo Testamento pelo segmento espírita. Dissertação (Mestrado em Sociologia). Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos. 2019. 91p. Disponível no site: https://repositorio.ufscar.br

O autor foi presidente da FEB, da USE-SP e membro da Comissão Executiva do CEI.

Extraído de: Revista Internacional de Espiritismo, Ano XCV, no 2, Março de 2020. p.82-82.

O susto do vírus poderá levar a reflexões sobre valores?

O susto do vírus poderá levar a reflexões sobre valores?

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O mundo entrou num estado que varia de intensas preocupações até ao pânico desde que foi identificado o surto de coronavírus em Província da China. Em cerca de dois meses o Covid-19 tem infectado e até feito vítimas letais em praticamente todos os países do Hemisfério Norte, da América do Sul e de outros continentes. Inclui-se aí os países mais desenvolvidos do planeta.

Silenciosamente o vírus rompeu todas as “redes de segurança” e chegou na intimidade de poderosos governantes. Sem entrar em comentários sobre os meios de transmissão, a letalidade do Covid-19, comparações com outras epidemias e até ilações espíritas de causa e efeito, há algo que deve ser refletido.

No início da propagação pelo Brasil, recebemos interessante mensagem mediúnica – talvez uma das primeiras -, abaixo transcrita:

“O remédio vem de Deus

Se os surtos viróticos assustam, a indiferença humana, frente à dor de seu semelhante, mata mais. Se o medo de doenças incuráveis rondam o teu pensamento, mergulha, de corpo e alma, na caridade socorrista e estarás protegido pelos anticorpos naturais da prática do Bem. O ócio faz mais vítimas do que o câncer, dia a dia. Emprega o teu tempo em algo útil e o Amor Divino fará de ti uma luz na escuridão. Paz, em Jesus. – Irmão Joaquim”

(Mensagem psicografada pelo médium Hélio Ribeiro Loureiro na reunião mediúnica na Casa de Batuíra, em São Gonçalo/RJ no dia 29/02/2020).

A reflexão proposta é bem ampla e até lembramos que há outros surtos letais no Brasil, além da enorme desigualdade social que leva à fome.

Mas o trecho sobre o susto virótico para a indiferença humana suscita um olhar para o cenário criado pelo Covid-19, com multidões sendo isoladas ou em quarentena em cidades, regiões de países, grandes navios, e, nos próprios lares.

A essa altura e centralizando apenas nos impactos causados pelo Covid-19, fazemos uma reflexão sobre a pandemia mundial, o alastramento pelo Brasil e as relações conosco.

A pandemia mundial está afetando os países mais desenvolvidos e provocando oscilações das Bolsas de Valores, o que chama atenção sobre o poder de um microscópico vírus.

Em nosso país inúmeros eventos já foram cancelados, incluindo os de natureza espírita. E sem dúvida, afetará a rotina das instituições espíritas.

Autoridades governamentais dos níveis federal, estadual e municipal, deixaram claro em recentes decisões e recomendações efetivadas em São Paulo, sobre a grande preocupação com os grupos de riscos, incluindo-se principalmente os idosos e portadores de algumas doenças debilitantes. As autoridades chegaram até ao detalhe para se evitar sobrecarregarem os avós com a presença dos netos eventualmente dispensados das escolas. Ou seja, isso leva ao repensar da relação dos pais com os filhos em função de compromissos do próprio lar e os profissionais.

Por outro lado, já escutamos relatos de pessoas que ficaram confinadas em regiões de outros países e outras, submetidas à quarentena domiciliar, sobre os momentos complexos físicos e mentais dessa situação. De repente, surge a recomendação preventiva para os integrantes dos grupos de risco para se evitar aglomerações e eventos públicos e se recolherem o máximo possível no ambiente dos lares.

O mundo espiritual é claro que os encarnados devem zelar pelo corpo físico e valorizar a vida.

E aí surge a indagação: seriam momentos para se rever valores? Ou seja: valores relacionados com os ambientes familiar e social, independentemente de aparências e de máscaras sócioeconômicas?

As conseqüências do microscópico Covid-19 na “empoderada” Humanidade de nossos dias, de repente, poderão conduzir a algumas reflexões humanitárias e até de natureza espiritual?

Por isso, esperamos que a crise do momento possa realmente direcionar para as indicações da mensagem supra transcrita: “…o amor Divino fará de ti uma luz na escuridão” e coerente com o próprio título da pequena mensagem: “O remédio vem de Deus”.

(*) O autor foi presidente da USE-SP e da FEB.

Herculano Pires e o Evangelho

Herculano Pires e o Evangelho

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

No dia 9 de março transcorrem 41 anos da desencarnação de José Herculano Pires (1914-1979) – professor, filósofo, jornalista e escritor, que marcou época no movimento espírita brasileiro.

Por formação era filósofo, com mestrado na USP e atuava como jornalista. Escreveu durante muito tempo com o pseudônimo de Irmão Saulo no jornal “Diário de São Paulo” e mantinha programa radiofônico na Rádio Mulher, de São Paulo. Foi um dos entrevistadores de Chico Xavier no programa “Pinga Fogo” na antiga TV Tupi de São Paulo. Juntamente com sua esposa Virgínia fundou o Grupo Espírita Cairbar Schutel, em São Paulo.

Herculano Pires é autor de dezenas de livros. Ficaram muitos conhecidos os publicados pela Editora GEEM, em que ele comenta mensagens psicografadas por Chico Xavier, como "Chico Xavier pede licença", "Diálogos dos vivos" e "Somos seis". Várias obras do autor, em geral publicadas pela Editoria Paidéia, estão relacionadas com religião e o Evangelho, como: "Lázaro" (trilogia "A conversão do mundo"), "Madalena" (trilogia "A conversão do mundo"), "O espírito e o tempo", "O reino", "O ser e a serenidade", "Revisão do cristianismo", "Agonia das religiões" e outros, e, mais recentemente uma publicação póstuma: "O evangelho de Jesus em espírito e verdade", pela Editora Paidéia.1

Herculano sempre foi um vigoroso estudioso e propagador das obras do Codificador, a ponto do espírito Emmanuel, pela mediunidade de Chico Xavier, tê-lo chamado de “o metro que melhor mediu Kardec”.

Embora o tema dos Evangelhos apareça em praticamente todas obras de Herculano Pires, acima citados, essa edição póstuma é uma síntese e num linguagem simples. "O evangelho de Jesus em espírito e verdade" é obra inédita, organizada por Célia Arribas, e resultante do trabalho de degravação da parte dos comentários sobre o Evangelho, de 100 programas radiofônicos selecionados de Herculano Pires, intitulados "No Limiar do Amanhã", semanalmente transmitidos pela Rádio Mulher, de São Paulo, durante os anos 1970, e retransmitidos pela Rádio Morada do Sol, de Araraquara (SP), e Rádio Difusora Platinense, de Santo Antonio da Platina (Pr). Herculano trabalha a essência pura e vigorosa da mensagem de Jesus com um linguajar simples, pois se apresenta no estilo da linguagem falada e em programas destinados ao público em geral. Como sempre, muito lúcido e com abordagens profundas e com base no Codificador Allan Kardec.

Entre os capítulos desse livro: A universalidade da mensagem de Jesus; A Bíblia, o Evangelho e o Espiritismo; O nascimento de Jesus; Religião em espírito e verdade; A crucificação do Cristo e sua ressurreição; O nascimento da igreja cristã; Paulo e Estêvão; O consolador prometido; vários capítulos sobre Paulo e sobre manifestações espirituais. Para o autor, "O espiritismo se confirma, portanto, ao contrário do que dizem os seus adversários, nas próprias palavras e nos próprios ensinos dos evangelhos". Referindo-se aos princípios e cuidados no movimento espírita, pondera: "O que nos deve interessar não é nosso opinião nisso ou naquilo, mas sim a firmeza com que pudermos seguir os princípios da doutrina espírita. E esses princípios estão firmados, como nós sabemos na codificação de Allan Kardec. E estes princípios, por sua vez, têm a sua base mais profunda, as suas raízes mais penetrantes nos próprio evangelho de Jesus." Ao comentar a vida e obra do apóstolo Paulo, Herculano destaca que: "Ele libertava a religião da política e do negócio. Para ele, a religião tinha que ser vivida em si mesma e vivida com toda a independência moral". A propósito de trecho de Atos sobre "muitos milagres e prodígios entre o povo pelas mãos dos apóstolos" o autor aponta que ali se encontra "uma das mais belas confirmações evangélicas da realidade e da verdade do Espiritismo e das suas práticas como continuação do cristianismo em espírito e verdade aqui na terra."

Para Herculano Pires o problema fundamental do cristianismo é o mandamento do "amai-vos uns aos outros". Conclui: "este é o princípio fundamental do evangelho que Jesus nos oferece para a nossa compreensão espiritual." Consideramos muito elucidativa e oportuna a obra postumamente publicada de Herculano Pires, e que deve merecer espaço nos estudos dos centros espíritas.

Fonte:

1) Pires, José Herculano. Org. Arribas, Célia. O evangelho de Jesus em espírito e verdade. 1.ed. São Paulo: Editora Paidéia. 2016. 385p.

(*) Foi presidente da USE-SP e da FEB.

A obra pioneira de Benedita Fernandes

A obra pioneira de Benedita Fernandes

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Um fato inédito ocorreu na então novata cidade de Araçatuba (SP), no dia 6 de março de 1932, tendo como protagonista uma lavadeira e descendente de escravos libertos, Benedita Fernandes.

Sem ser detentora de nenhum predicado associado ao chamado “passaporte social”, Benedita Fernandes fundou a Associação das Senhoras Cristãs, iniciando o atendimento a crianças órfãs e abandonadas e a doentes mentais. Àquela época ela já era espírita, pois foi curada de uma terrível obsessão, que chegava às raias da subjugação, por dois espíritas – o carcereiro Padial e João Marcheze -, nos momentos em que ela ficou recolhida à Cadeia Pública da vizinha cidade de Penápolis, pelo fato de causar pânico à população.

Consciente de sua nova situação e grata ao tratamento espiritual que recebeu, Benedita reuniu um grupo de lavadeiras, como ela, e espíritas de Araçatuba e fundou a primeira instituição espírita voltada à assistência social, um marco para toda a região Noroeste do Estado de São Paulo. Naquela época Araçatuba contava com um pequeno centro espírita funcionando na cidade e outra em zona rural próxima.

As ações da Associação das Senhoras Cristãs foram dinamicamente desenvolvidas e no final da década de 1930, Benedita Fernandes já havia conquistado o respeito além do ambiente dos espíritas, de muitos integrantes da Loja Maçônica Tupy, de políticos e da população em geral. A Associação passou a contar com o Asilo Doutor Jaime de Oliveira (para doentes mentais), Casa da Criança, Albergue Noturno e classe municipal para o ensino formal. Por ocasião da elaboração da biografia de Benedita Fernandes, cuja primeira versão foi publicada em 1982, quando a Associação completava seu Jubileu de Ouro, conhecemos e entrevistamos muitos cidadãos da cidade e outras localidades que tiveram contatos com Benedita Fernandes, incluindo parentes nossos.

Nos bate-papos soubemos do respeito que dois párocos locais tinham pela obra de Benedita. Também foi histórica a deferência do governador (interventor federal) Fernando Costa por ocasião de visita a Araçatuba.

Em nossos dias há várias mensagens assinadas pelo espírito Benedita Fernandes e uma marcante alusão à ela em texto psicografado por Chico Xavier em 1963, incluindo-a num relato sobre "uma reunião de damas consagradas à caridade" intitulado “Num domingo de calor”. Aliás, daí tiramos a inspiração para nosso livro intitulando-a de “Dama da Caridade”.

Os exemplos e a dedicação de Benedita Fernandes permanecem em muitos corações. Sua obra material foi se alterando ao longo do tempo e, em função de regulamentações governamentais sobre saúde mental, gerou algumas dependências de CAPS – Centro de Apoio Psicossocial, e um deles com o nome dela e contando com o apoio de voluntários vinculados à Associação das Senhoras Cristãs Benedita Fernandes.

Para o 2o semestre deste ano está previsto o lançamento de filme sobre Benedita Fernandes, elaborado por Sirlei Nogueira, de Araçatuba e com base no livro "Benedita Fernandes. A dama da caridade", de nossa autoria (Ed.Cocriação/USE Regional de Araçatuba).

 

                        O autor foi dirigente espírita em Araçatuba, presidente da Federação Espírita Brasileira e da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo.

Coronavírus – Uma Visão Espírita

Coronavírus – Uma Visão Espírita

Eliana Haddad

Iniciamos este ano com a notícia de uma epidemia causada pelo coronavírus, um grupo de vírus já conhecido desde 1960 e que provoca doenças que vão de infecções leves a moderadas até as mais graves, como a pneumonia, e que podem levar à morte. O vírus foi detectado inicialmente na China, em Wuhan. Seu período de incubação é de 2 a 14 dias e apresenta como principais sintomas: coriza, dor de garganta, febre, tosse e falta de ar. A transmissão acontece por meio de tosse ou espirro; contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão; e contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.

Desde dezembro do ano passado, quando surgiram os primeiros casos na cidade chinesa de Wuhan, 600 pessoas morreram e o número de infectados já soma 30 mil casos. Cidades são isoladas, aeroportos fiscalizados, mercado financeiro e turismo sofrem as consequências pelo medo do avanço da doença e o mundo, enfim, realmente se assusta, pois vários locais já foram atingidos. A Organização Mundial da Saúde declarou estado de emergência global, advertindo também para a solidariedade entre os países.

O aspecto espiritual

Independentemente de medidas urgentes a serem adotadas, visando estancar a proliferação do vírus, vale refletir sobre alguns aspectos interessantes a serem observados: Por que nem todos são contaminados? Por que uns morrem (2% dos infectados, segundo a OMS) e outros não? Inicialmente, o espiritismo explica que as doenças fazem parte das provas e das vicissitudes da vida terrena. “Nos mundos mais adiantados, o organismo humano, mais depurado e menos material, não está sujeito às mesmas enfermidades”. As condições de vida são muito diferentes da Terra. Também, “nos mundos felizes, as relações entre os povos são sempre amigáveis e nunca são perturbadas pela ambição de escravizar o vizinho, nem pela guerra”.

Ora, em resumo, o mal ali não se faz presente, não havendo expiações. Isso significa que na Terra ainda vivemos uma infância espiritual de muitos contrários. “Tendes necessidade do mal para sentir o bem. Da noite para admirar a luz, da doença para apreciar a saúde”, nos ensinam os espíritos superiores. Santo Agostinho, em 1862, em Paris, fez uma observação sobre as afinidades e desafios enfrentados pelos espíritos nos mundos expiatórios. A Terra lhes seria fornecida como um dos tipos desses mundos. “As variedades são infinitas, mas têm como caráter comum servir como local de exílio a Espíritos rebeldes à lei de Deus. Esses espíritos aí têm que lutar, de uma só vez contra a perversidade dos homens e a inclemência da natureza.

Trabalho duplamente penoso, que desenvolve ao mesmo tempo as qualidades do coração e as da inteligência”, explica em O evangelho segundo espiritismo.

Não há acasos

É claro que uma epidemia assusta, preocupa, mas é interessante que se tenha esses conceitos espirituais em evidência antes de se arriscar a fazer qualquer observação, pois Deus, em sua perfeição e misericórdia, atua através de leis também perfeitas e misericordiosas para que o progresso seja atingido em toda sua Criação. Por isso não há acasos.

O pensamento materialista nos leva a conclusões precipitadas, que incluem percepções errôneas referentes a castigos, desarmonia, confusão, desleixo e fatalidade. A visão espiritualista, porém, nos colocando acima dos males do corpo físico, convida-nos ao trabalho e à confiança no futuro para superarmos as dificuldades. O aprendizado é lento e mas contínuo. “Temos, assim, de nos resignar às consequências do meio onde nos coloca a nossa inferioridade, até que mereçamos passar a outro. Isso, no entanto, não é de molde a impedir que, esperando que tal se dê, façamos o que de nós depende para melhorar as nossas condições atuais. Se, porém, malgrado aos nossos esforços, não o conseguirmos, o espiritismo nos ensina a suportar com resignação os nossos passageiros males”, esclarece o espiritismo.

Outro ponto importante a ser observado é a mudança de estado dos Espíritos em evolução, ora encarnados, ora desencarnados. Uns chegam e outros se vão todos os dias por motivos diversos. Alguns regressam ao mundo espiritual em desencarnes coletivos, como no caso das guerras, tragédias e epidemias.

Emigração e imigração dos espíritos

Explica a doutrina espírita que, no intervalo de suas existências corporais, os Espíritos se encontram no estado de erraticidade e formam a população espiritual ambiente da Terra. Pelas mortes e pelos nascimentos, as duas populações, terrestre e espiritual, deságuam incessantemente uma na outra. Há, pois, diariamente, emigrações do mundo corpóreo para o mundo espiritual e imigrações deste para aquele: é o estado normal. Em certas épocas, determinadas pela sabedoria divina, essas emigrações e imigrações se operam por massas mais ou menos consideráveis, em virtude das grandes revoluções que lhes ocasionam a partida simultânea em quantidades enormes, logo substituídas por equivalentes quantidades de encarnações. (…) Chegadas e partidas coletivas são meios providenciais de renovar a população corporal do globo. Na destruição de grande número de corpos nada mais há do que rompimento de vestiduras; nenhum Espírito perece; eles apenas mudam de ambiente; em vez de partirem isoladamente, partem em grupos, essa a única diferença, visto que, ou por uma causa ou por outra, fatalmente têm que partir, cedo ou tarde. As renovações rápidas apressam o progresso social. Sem as emigrações e imigrações que de tempos a tempos lhe vêm dar violento impulso, só com extrema lentidão esse progresso se realizaria.

É de notar-se que todas as grandes calamidades que dizimam as populações são sempre seguidas de uma era de progresso de ordem física, intelectual, ou moral e, por conseguinte, no estado social das nações que as experimentam.

A invasão microbiana

No livro Evolução em dois mundos, psicografia de Chico Xavier e Waldo Vieira, no capítulo 40, “Invasão microbiana”, pergunta-se a invasão microbiana está vinculada a causas espirituais? A resposta: “Excetuados os quadros infecciosos pelos quais se res-ponsabiliza a ausência da higiene comum, as depressões criadas em nós por nós mesmos, nos domínios do abuso de nossas forças, seja adulterando as trocas vitais do cosmo orgânico pela rendição ao desequilíbrio, seja estabelecendo perturbações em prejuízo dos outros, plasmam nos tecidos fisiopsicossomáticos que nos constituem o veículo de expressão determinados cam¬pos de rutura na harmonia celular”. Isso quer dizer que nossos desajustamentos nos tornam passíveis de invasão microbiana, e dificultam a regeneração natural das células, instalando-se assim a doença, pela desarmonia causada por nossas escolhas – conscientes ou não, de agora ou de ontem. E continua a resposta: “Geralmente, quase todos os processos de doenças surgem como fenômenos secundários sobre as zonas de predisposição enfermiça que formamos em nosso próprio corpo, pelo desequilíbrio de nossas forças mentais a gerarem ruturas ou soluções de continuidade nos pontos de interação entre o corpo espiritual e o veículo físico, pelas quais se insinua o assalto microbiano a que sejamos mais particularmente inclinados”. E aqui entra também, ainda conforme a resposta, a importância da transformação moral para uma vida realmente saudável. “Amparo aos outros cria amparo a nós próprios, motivo por que os princípios de Jesus, desterrando de nós animalidade e orgulho, vaidade e cobiça, crueldade e avareza, e exortando-nos à simplicidade e à humildade, à fraternidade sem limites e ao perdão incondicional, estabelecem, quando observados, a imu-nologia perfeita em nossa vida interior, fortalecendo-nos o poder da mente na autodefensiva contra todos os elementos destruidores e degradantes que nos cercam e articulando-nos as possibilidades imprescindíveis à evolução para Deus.”

Na Revista de julho de 1867, Kardec descreve a ‘terrível epidemia’ que devastava já há dois anos a Ilha Maurício (antiga Ilha de França). Em outubro1868, assinada pelo Espírito Clélie Duplantier, Kardec publica a seguinte comunicação na Sociedade espírita de Paris: “Sem dúvida é apavorante pensar em perigos dessa natureza, mas, pelo fato de serem necessários e não provocarem senão felizes consequências, é preferível, em vez de esperá-los tremendo, preparar-se para enfrentá-los sem medo, sejam quais forem os seus resultados. Para o materialista, é a morte horrível e o nada por consequência; para o espiritualista, e em particular para o espírita, que importa o que acontecer! Se escapar do perigo, a prova o encontrará sempre inabalável; se morrer, o que conhece da outra vida fá-lo-á encarar a passagem sem empalidecer. Preparai-vos, pois, para tudo, e sejam quais forem a hora e a natureza do perigo, compenetrai-vos desta verdade: A morte não é senão uma palavra vã e não há nenhum sofrimento que as forças humanas não possam dominar.”

Fonte - Correio Fraterno do ABC (copie e cole):

https://www.letraespirita.blog.br/post/coronav%C3%ADrus-uma-vis%C3%A3o-esp%C3%ADrita

75 anos da RIE

Corrigindo: título inicial saiu com engano: são 95 e não 75 anos!

95 anos da RIE

Antonio Cesar Perri de Carvalho

No dia 15 de fevereiro de 2020 completou 95 anos de circulação a Revista Internacional de Espiritismo – RIE, publicada mensalmente pela Casa Editora O Clarim, de Matão. Foi fundada por Cairbar Schutel, um marco na divulgação do Espiritismo. Contou com o auxílio moral e material do amigo Luiz Carlos de Oliveira Borges. Surgiu como publicação mensal dedicada aos estudos dos fenômenos anímicos e espíritas.

A RIE desde os tempos iniciais divulgou textos de autoria de lideranças espíritas de várias partes do mundo. Cairbar Schutel mantinha correspondência com Léon Denis, Gabriel Delanne, Oliver Lodge e outros luminares dos estudos e pesquisas espíritas. Tradicionalmente traz uma entrevista sobre tema significativo e artigos de autoria de um grande número de colaboradores de várias partes do Brasil e uma síntese de notícias. Em nossos dias a página eletrônica de O Clarim pontualmente no primeiro dia de cada mês traz as informações sobre a nova edição da RIE: estampa a capa, a relação de matérias e reproduz uma delas.

Cairbar de Souza Schutel (1868-1938) foi destacado cidadão radicado em Matão (SP), tendo atuado como farmacêutico, primeiro Prefeito Municipal da cidade, histórico pioneiro e divulgador espírita. Conquistou o respeito da população da cidade e região. Era conhecido com o título de "O Pai dos Pobres", pelo fato de doar remédio de graça aos carentes e utilizava sua própria casa para acolher doentes. Superou muitas perseguições de natureza religiosa.

Em 1905 fundou o Centro Espírita Amantes da Pobreza e o jornal O Clarim. Editou dezenas de livros e foi autor de outro tanto. Entre 1936 e 1937, proferiu aos domingos, as conhecidas quinze "Conferências Radiofônicas", através da Rádio Cultura PRD—4, de Araraquara, publicadas em livro. Representantes de O Clarim viajavam pelo interior do Estado de São Paulo para propagação do Espiritismo e divulgação dos livros e periódicos editados em Matão.

Atuou em campanhas pelo Estado Leigo, criou entidade que pode ser considerada predecessora de ações de união para o Estado de São Paulo, e iniciou a sistemática de divulgação sobre imortalidade da alma por ocasião do dia de finados. Esteve presente em reunião da Semana Metapsíquica de São Paulo em 31 de março de 1937, oportunidade em que conheceu pessoalmente Chico Xavier e ocorreu uma célebre psicografia especular em inglês, assinada por Emmanuel, por intermédio do médium mineiro.

Uma das frases de sua autoria tornou-se célebre e está registrada na lápide em seu túmulo: "Vivi, vivo e viverei porque sou imortal".

Ao lado do Centro e Casa Editora O Clarim, em Matão, há um importante Memorial contendo ricas informações e objetos que pertenceram à estas Entidades e a Cairbar Schutel. Há vários livros biográficos sobre Cairbar Schutel editados por O Clarim.

Informações (copie e cole):

https://www.oclarim.com.br/

Chico Xavier e a “elitização” do movimento

Chico Xavier e a “elitização” do movimento

 

“Declaração de Chico Xavier em entrevista:

"É preciso fugir da tendência à "elitização" no seio do movimento espírita.

É necessário que os dirigentes espíritas, principalmente os ligados aos órgãos unificadores, compreendam e sintam que o Espiritismo veio para o povo e com ele dialogar.

É indispensável que estudemos a Doutrina Espírita junto com as massas, que amemos a todos os companheiros, mas sobretudo, aos espíritos mais humildes social e intelectualmente falando, e deles nos aproximarmos com real espírito de compreensão e fraternidade. Se não nos precavermos, daqui a pouco teremos em nossas casas espíritas apenas falando e explicando o Evangelho do Cristo as pessoas laureadas por títulos acadêmicos ou intelectuais e confrades de posição social mais elevada.

Mais do que justo evitarmos isso, a ‘elitização’ do Espiritismo, isto é, a formação do 'espírito de cúpula' com a vocação de infalibilidade em nossas organizações."

(Entrevista concedida ao jornal “O Triângulo Mineiro”, de Uberaba, em 1.978, e reeditada no mesmo jornal em 20/03/1.997, enquanto Chico estava encarnado).

Imigrantes na atuação espírita

Imigrantes na atuação espírita

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A matéria do jornal "O Estado de São Paulo"1 que focalizou o casal Yvette e Gyorgy Galfi, sobre a fuga do nazismo e o recomeço no Brasil, e o fato de que foram trabalhadores do Grupo Espírita Casa do Caminho e hoje atuam em um núcleo menor, a Casa da Prece, na mesma região da capital paulista, trouxe-nos à lembrança da fisionomia de Gyorgy, em reuniões. A publicação suscitou-nos a evocação sobre a participação de imigrantes nas atividades espíritas do país.

Apenas destacando vultos com cidades e instituições que colaboramos, veio à nossa mente uma quantidade enorme de imigrantes ou descendentes que assumiram posições de destaque no movimento espírita. E, sem nos referimos à ascendência lusa, vinculada à colonização do país.

Na nossa cidade natal, Araçatuba, predominaram descendentes de italianos, claramente compreensível pelo grande contingente de imigração que ocorreu no final do século XIX no Estado de São Paulo. Convivemos com descendentes de pioneiros, de origem italiana, como Bergamaschi, Dall´Oca, Pagan, Protetti; de origem espanhola, Sallas. Mas ali se destacou Benedita Fernandes que por ser descendente de escravos libertos, embora de maneira forçada é proveniente de povos africanos.

Junto à Casa Editora O Clarim, o personagem marcante Cairbar Schutel era descendente de suíços.

Na capital paulista em nosso período de gestão junto à União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, também predominavam descendentes de italianos.

Aliás, entre os ex-presidentes, os sobrenomes, além do nosso, denotavam a origem de outras plagas, como: Armond, Masotti, Schilliró, Campanini, Nezu…

Na Federação Espírita Brasileira onde atuamos durante alguns anos, lembramos de sobrenomes de ex-presidentes, além do nosso, e que apontam a origem próxima de outros países, como: Guillon, Thiesen e Masotti. Mas ali foi atuante um tesoureiro: Frederico Figner (Irmão Jacó), de família judaica. Igualmente de mesma origem, um grande colaborador da Editora da FEB, o Salomão Mizrahy.

Entre os expositores espíritas, chegamos a conhecer nos anos 1960, o grande tribuno Jacob Hollzman Neto; desse período de mocidade espírita, também de Ismael Gobbo e Felipe Salomão; nutrimos amizade e muito intercâmbio com Alexandre Sech, José Jorge, Newton Boechat, Marlene Rossi Severino Nobre e Enrique Baldovino, e, em nossos dias convivemos com a expositora Suely Schubert.

Essas são algumas ilustrações, uma pequena amostragem que demonstra como os imigrantes e seus descendentes se envolveram com o movimento espírita.

O Brasil é um país de dimensão continental e na sua formação tem características multiculturais e procura recepcionar, cada vez mais, imigrantes de vários continentes. A proposta de se evitar endogenias e preconceitos de origens, abrindo-se oportunidades a todos, está na base para o cultivo de um espírito de fraternidade. Sabe-se que esta é a missão do Brasil no concerto das nações. E, naturalmente, deve estar presente na seara espírita. Sem dúvida, no ambiente interno do país, com cuidados para se evitar resistências às pessoas em função de suas origens de Estados e de regiões.

A propósito, destacamos duas frases de Emmanuel como sugestões para reflexões:

“Suponho que o Cristianismo não atingirá seus fins, se esperarmos tão só dos israelitas anquilosados no orgulho da Lei. Jesus afirmou que seus discípulos viriam do Oriente e do Ocidente.”2

“ `Espírita´ deve ser o nome de teu nome, ainda mesmo respires em aflitivos combates contigo mesmo.”3

Referências:

1) Tranches, Renata Tranches. Auschwitz, 75 anos. Fuga dos nazistas e recomeço no Brasil. O Estado de São Paulo. Caderno A-1. São Paulo, 26/01/2020.

2) Xavier, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Paulo e Estêvão. 2a Parte, Cap. 1. Brasília: FEB.

3) Xavier, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Religião dos espíritos. ed. esp. Cap. 80. Brasília: FEB.

(Foi dirigente espírita em Araçatuba, presidente da USE-SP e da FEB)

São Paulo: fundada em homenagem ao Apóstolo

São Paulo: fundada em homenagem ao Apóstolo

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Neste ano completa-se 466 anos da fundação da cidade de São Paulo.

Atualmente a maior cidade do país e do Hemisfério Sul, foi fundada no dia 25 de janeiro de 1554, pelo padre Manuel da Nóbrega.

Este veio à então Colônia de Portugal acompanhando o primeiro governador Tomé de Souza, designado pelo rei Dom João III e com a missão específica de instalar o processo educacional no Brasil. Foi autor do primeiro livro escrito no país: “Cartas do Brasil”.

O marco inicial da cidade foi o Colégio São Paulo, onde atualmente se localiza o Pátio do Colégio, no centro antigo da cidade, e funciona um museu alusivo à fundação da cidade e homenageando Manuel da Nóbrega e seu noviço José de Anchieta, considerados os dois primeiros evangelizadores do país.

Em registros históricos de conhecimento público sabe-se que Nóbrega, que atuava em São Vicente, subiu ao Planalto de Piratininga e resolveu fundar uma escola, escolhendo o dia 25 de janeiro, data comemorativa da conversão do apóstolo Paulo. Assim, surgiu a cidade de São Paulo, significativamente a partir de uma escola e homenageando a apóstolo da gentilidade.

Esse episódio histórico foi evocado por Chico Xavier durante o 2o Pinga-Fogo, a longa entrevista na TV Tupi de São Paulo em 1971, ao comentar que Manuel da Nóbrega foi uma das reencarnações do espírito Emmanuel. Chico também fez referência a este fato na cerimônia pública e televisada ao vivo da Câmara Municipal de São Paulo, no dia 19/5/1973, quando recebeu o título de “Cidadão Paulistano”.1,2 Mas essa revelação já havia sido feita por Chico Xavier e foi registrada em livro de Clóvis Tavares – amigo de Chico Xavier – e publicado com apoio deste enquanto encarnado: “Amor e Sabedoria de Emmanuel”, lançado em 1970 pela Editora Calvário e atualmente editado pelo IDE.3

Herculano Pires comentou a missão de Nóbrega junto aos indígenas e aos portugueses que aqui vieram, e estabeleceu a relação entre Paulo e Nóbrega: “Dura foi a luta pela conversão do gentio. […] Paulo exerceu o apostolado dos gentios para o Cristianismo. Nóbrega foi o Apóstolo dos Gentios no Brasil nascente, preparando o terreno para o seu apostolado espírita do futuro.”4

As relações entre o espírito Emmanuel e Paulo de Tarso também são comentadas em livros de nossa autoria, sobre as Epístolas de Paulo e sobre Chico Xavier.1,2

O fundador Manuel da Nóbrega é homenageado não apenas no Pátio do Colégio, mas também em dois monumentos e rua da cidade de São Paulo e uma rodovia no litoral paulista. Há um monumento em homenagem a Paulo de Tarso na Praça da Sé, próximo ao “marco zero”, aliás, o vulto segurando um pergaminho com a frase: “Senhor, que queres que eu faça”. E o nome do Apóstolo designa a cidade e o Estado!

Referências:

1. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do Espiritismo. Matão: O Clarim. 2016.

2. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier – o homem, a obra e as repercussões. Capivari: EME. 2019.

3. Tavares, Clóvis. Amor e sabedoria de Emmanuel. São Paulo: Ed. Calvário. 1970.

4. Xavier, Francisco Cândido; Pires, José Herculano; Espíritos diversos. Diálogo dos vivos. Cap.23. São Bernardo do Campo: GEEM. 1974.

(*) Ex-presidente da USE-SP e da FEB; articulista da RIE; colaborador do CCDPE e do G.E.Casa do Caminho, em São Paulo.

A Casa do Caminho de lá e de cá

A Casa do Caminho de e de cá

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

No longo período em que ficamos fora da capital paulista perdemos contato com muitos episódios, inclusive do lançamento do livro “O Caminho da Casa de Cristal”, alusivo aos 40 anos da Casa do Caminho, de autoria de Tânia Redigolo.

Ao nos reinserirmos em atividades do Grupo Espírita Casa do Caminho, na Vila Clementino, em São Paulo, além do ambiente fraterno com que fomos recepcionados juntamente com a família, reencontramos muitos companheiros de outros momentos em que frequentamos esse centro e do movimento espírita paulista.

A leitura, embora tardia do citado livro, lançado em 2011, nos remeteu a muitas recordações gratas além de nos propiciar informações que não tínhamos conhecimento.

A origem espiritual do Centro, com base em mensagens obtidas por vários médiuns, mostrando o planejamento espiritual com muita antecedência para o preparo de uma equipe que viria a atuar no plano terrestre. Assim, surgem relatos que identificam o líder inca que viveu no Peru com tarefas específicas no sentido de humanizar alguns cultos primitivos, agora designado como Itaporã, e que participou do planejamento espiritual para a reunião de um grupo de espíritos afins e que vieram a fundar e consolidar o Grupo Espírita Casa do Caminho e o seu desdobramento na área assistencial, a SAFRATER com a Creche e Núcleo Tiãozinho.

No desenrolar das agradáveis narrativas da autora, verificamos que nos primeiros contatos que mantivemos com esse Centro nos anos 1990, ainda numa casa fisicamente adaptada, conhecemos alguns remanescentes da equipe de fundadores e valorosos seareiros.

Lembranças agradáveis da primeira fase em que estivemos ligados a esse Centro, dos contatos que tivemos com alguns dos citados no livro. Entre estes, Hernani Guimarães Andrade, autêntico pesquisador nas hostes espíritas, fundador também do IBPP. Aliás ele prefaciou um de nossos primeiros livros: “Os Sábios e a Sra. Piper. Provas da comunicabilidade dos espíritos” (Ed. O Clarim). A médium e dirigente Assumpta Rizzatti; a dirigente e cantora lírica Assunção de Lucca, de quem fomos vizinhos e até estivemos juntos em Congresso em Portugal. Na interface com a USE-SP, período em que fomos presidente, convivemos com companheiros ligados a esse Centro: o casal Marlene e Paulo Roberto Pereira da Costa; Maria Aparecida Valente, que chegou a publicar livro pela USE-SP; os assistentes sociais Odair Cretella de Oliveira e Régis Lang. Aliás, este último, o atual presidente do Centro. Nesse Centro reencontramos Luiz Armando de Freitas, da revista Informação; também conhecemos Alcíone Novelino, a filha do dr.Thomaz Novelino. E, interessante, ali atuava intensamente Áurea Medeiros, originária de Guararapes, cidade vizinha à nossa terra natal, Araçatuba, que conhecemos nos tempos de eventos de mocidade espírita, e, que desencarnou precocemente.

O livro focaliza o esforço e a dedicação dos fundadores e primeiros trabalhadores da Casa do Caminho, registra as principais atividades e eventos ali concretizados até chegar à atual situação contando com edificações modernas e bem planejadas: uma movimentada sede doutrinária com reuniões diárias em vários horários, no bairro de Vila Clementino, e um intenso labor assistencial em uma grande sede em bairro na região do Jabaquara.

Muito instrutiva e até curiosa a relação de casos pitorescos envolvendo os dirigentes e colaboradores da Casa. Como também algumas mensagens dos mentores da Casa do Caminho. Ao final, a autora apresenta a Galeria de Diretorias e Conselhos, e, de fotos das várias épocas.

Para finalizar destacamos que no Mundo Espiritual, a equipe que atuou na fundação do Grupo foi “vinculada aos carismas preconizados por Paulo de Tarso” e ao lema “fora da caridade não há salvação”, e, nessa preparação “foi fundado primeiramente na Espiritualidade, onde recebeu o nome de Casa de Cristal…” Aí foram “delineados todos os projetos que seriam implantados na nova Casa”.

Fonte:

Redigolo, Tânia. O caminho da Casa de Cristal. 40 anos da Casa do Caminho. São Paulo. 2011. 188p. (disponível na livraria do Grupo Espírita Casa do Caminho, fone: 11- 2348-2230).

(*) Colaborador do Grupo Espírita Casa do Caminho, São Paulo; ex-presidente da USE-SP e da FEB.