Finados – Meimei: lembranças e estudo sobre a sepultura

Finados – Meimei: lembranças e estudo sobre a sepultura

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Na bibliografia psicográfica de Chico Xavier, há vários textos de autoria do espírito conhecido com o pseudônimo de Meimei.

Depois de um casamento de curta duração, Arnaldo Rocha ficou viúvo de Irma de Castro Rocha em 1946. Esse espírito tornou-se autora de inúmeros textos pela psicografia de Chico Xavier, adotando o pseudônimo de Meimei. Chico Xavier e Arnaldo Rocha fundaram o Grupo Meimei, em Pedro Leopoldo, com a coordenação desse último. As transcrições das mensagens psicofônicas desse Grupo deram origem aos livros Instruções psicofônicas e Vozes do grande além, organizados por Arnaldo Rocha e editados pela FEB. Relatos e entrevistas de Arnaldo sobre Meimei se encontram em livro editado pela Casa Editora O Clarim.1

Fato recente e interessante é o estudo feito por pesquisadores de Belo Horizonte “Práticas religiosas no espaço cemiterial: observações sobre o Cemitério do Bonfim”, onde destacam também a sepultura de Meimei.2

A propósito da tradicional efeméride de Finados, com intensas visitas a cemitérios, torna-se oportuno o comentário sobre esses episódios à luz do Espiritismo.

No artigo de pesquisa citado, os autores informam sobre fatos relacionados com a sepultura de Meimei: “é possível constatar que não há uma procura da população pelo túmulo com a intenção de realizar agradecimentos e pedidos. Ainda assim, o que atrai a atenção para a sepultura dessa mulher? O que podemos utilizar como resposta está ligado à difusão de uma doutrina que busca o discurso científico, mas ao mesmo tempo nega o materialismo, premissa básica das ciências”.2

Os autores lembram da inscrição no túmulo de Kardec no Cemitério Père Lachaise (Paris), que sintetiza a concepção evolucionista da doutrina espírita: “Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei”. E passam a analisar os fatores propagadores do Espiritismo no seio da sociedade brasileira como atividades como a assistência social, as receitas de remédios homeopáticos e o emprego da água fluidificada. Esse caráter curativo, não só do espírito, mas também do corpo físico – se é que na concepção da doutrina espírita pode ser dito de forma separada – funcionou como atrativo para os novos adeptos do Espiritismo brasileiro, sendo Meimei um exemplo para essa corrente espiritual.2

Os pesquisadores resumiram aspectos da vida de Irma de Castro Rocha: “nasceu na cidade mineira de Matheus Leme, em 1922, e aos 20 anos mudou-se para a capital mineira, Belo Horizonte. Durante a infância sofria muito devido a sua frágil saúde. Sofria de nefrite crônica, o que a impediu de concluir os estudos na Escola Normal de Itaúna. Ao mudar-se de Itaúna, onde vivia desde os cinco anos de idade, para Belo Horizonte, na companhia de um parente, a jovem conheceu Arnaldo Rocha (1922-2012), que seria seu futuro esposo.”2 Depois citam livros espíritas que após o casamento, ocorrido em 1942, a jovem adoeceu e teve a sua saúde gravemente comprometida e desencarnou no dia primeiro de outubro de 1946, aos 24 anos de idade. Destacam no estudo que o viúvo Arnaldo Rocha era ateu, não se conformava com o triste desfecho e encontrou-se de maneira inesperada com um dos maiores médiuns do Brasil, Francisco Cândido Xavier (1910-2002) ou Chico Xavier como é popularmente reconhecido. Contam o detalhe que Arnaldo chorou quando Chico Xavier começou a falar de Meimei, pois este era o tratamento afetivo sob o qual o casal se tratava na intimidade, adotada “a partir da leitura que fizeram do livro Momentos de Pequim, do escritor sino-americano LinYutang. Ao final do livro, encontram o significado para o verbete Meimei: “Noiva Querida” ou “A Bem-Amada”.

No artigo citado comentaram: “Os laços entre o jovem cético e o médium Francisco Cândido Xavier se estreitaram, passando ambos a defenderem a mesma causa: a caridade através da prática do Espiritismo. Hoje é possível encontrarmos várias casas espíritas que recebem o nome de Meimei, nas quais os trabalhos no campo da espiritualidade buscam ajudar ao próximo através da prática da caridade.”2

Informam que o túmulo do casal Rocha está localizado no Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte: “Trata-se de um túmulo simples, de pó de pedra, que não é local de visitações ou peregrinações da população adepta do Espiritismo, uma vez que os espíritas não cultuam cemitérios e túmulos, ao contrário de outras religiões, como a católica. […] ocasionalmente, durante a realização das já mencionadas visitas guiadas ao espaço cemiterial é possível debater dentre os visitantes a importância daquele lugar de memória e destacar a função do cemitério como espaço de múltiplas manifestações religiosas.”2

Os pesquisadores concluem que “o túmulo no Bonfim é um bom exemplo para identificar o caráter múltiplo e diverso do espaço fúnebre por nós investigado, do ponto de vista religioso e devocional, desde sua fundação, no final do século XIX, e que reverbera na contemporaneidade”.2

Depreende-se que não há “romarias” ao túmulo de Meimei, o que demonstra a real atitude espírita de não se valorizar cultos exteriores em torno de monumentos e sepulturas. Como se encontra em O livro dos espíritos: “A visita de uma pessoa a um túmulo causa maior contentamento ao Espírito, cujos despojos corporais aí se encontrem, do que a prece que por ele faça essa pessoa em sua casa? R – Aquele que visita um túmulo apenas manifesta, por essa forma, que pensa no Espírito ausente. A visita é a representação exterior de um fato íntimo. Já dissemos que a prece é que santifica o ato da rememoração. Nada importa o lugar, desde que é feita com o coração.”3

Referências:

1) Rodrigues, Wallace Leal Valentim; Rocha, Arnaldo; Rocha, Alberto de Souza. Meimei, vida e mensagem. 5.ed. Matão: O Clarim. 2012. 256p.

2) Almeida, Marcelina das Graças; Santana, Julio César de Aguiar; Silva, Roberto Fernandes. Práticas religiosas no espaço cemiterial: observações sobre o Cemitério do Bonfim. Revista M. Estudos sobre a morte, os mortos e o morrer. V. 4, N. 8, p. 361-382, jul./dez. 2020.

3) Kardec. Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos espíritos. Questão 323. FEB.

(*) Ex-presidente da USE-SP e da FEB.

Interpretações de Emmanuel em versículos selecionados

Interpretações de Emmanuel em versículos selecionados

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Nas obras que comentam versículos bíblicos, muitas vezes encontram-se algumas diferenças em função das traduções adotadas nas várias versões da Bíblia.

Ao elaborar O evangelho segundo o espiritismo, Allan Kardec adotou a tradução feita por Lemaistre de Sacy, conhecido por sua tradução da Vulgata (Bíblia em latim) para o francês. Essa tradução tornou-se a mais difundida na França a partir do século XVIII.

Pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, o seu orientador Emmanuel elaborou milhares de textos realizando interpretações de versículos do Novo Testamento. Emmanuel é o autor espiritual de nove livros contendo comentários de versículos do Novo Testamento: Caminho, verdade e vida; Pão nosso; Vinha de luz; Fonte viva; Ceifa de luz, editados pela FEB; Segue-me (O Clarim); Palavras de vida eterna e Livro da esperança (CEC); Bênção de paz (GEEM). De início, o autor espiritual explicou o uso da expressão “num colar de pérolas”, na apresentação intitulada “Interpretação dos Textos Sagrados”, em Caminho, verdade e vida, para compreendermos seus estudos sobre os versículos:

“Em certas passagens, extraímos daí somente frases pequeninas, proporcionando-lhes fisionomia especial e, em determinadas circunstâncias, as nossas considerações desvaliosas parecem contrariar as disposições do capítulo em que se inspiram. Assim procedemos, porém, ponderando que, num colar de pérolas, cada qual tem valor específico e que, no imenso conjunto de ensinamentos da Boa Nova, cada conceito do Cristo ou de seus colaboradores diretos adapta-se a determinada situação do Espírito, nas estradas da vida.”1

Isso pode ser observado em uma obra elaborada com participação de vários autores lançada durante as comemorações do Sesquicentenário de O evangelho segundo o espiritismo na qual há um capítulo que apresenta a “Listagem dos comentários feitos por Emmanuel, não exaustiva, tratando-se, tão somente, da enumeração de algumas de suas mensagens constantes em obras psicografadas pelo médium Francisco Cândido Xavier.2

Registro importante é que nas edições originais dos livros citados de Emmanuel, ele emprega versículos do Novo Testamento adotando a tradicional tradução “revista e corrigida” de João Ferreira de Almeida, bem difundida à época no Brasil. As epígrafes (versículos selecionados) no início de cada capítulo é que dão o tom para as dissertações de Emmanuel. Este destaque é importante porque o linguajar do autor espiritual foi desenvolvido em torno da tradução citada e, eventualmente, versículos de outras traduções podem não ser coerentes com os textos de Emmanuel. O respeito a esse critério orientou-nos nas transcrições e nos estudos feitos em livros de nossa autoria relacionados com a bibliografia de Emmanuel e lançados pela Casa Editora O Clarim: Epístolas de Paulo à luz do espiritismo (2016); Cristianismo nos séculos iniciais. Análise histórica e visão espírita (2018); Emmanuel. Trajetória espiritual e atuação com Chico Xavier (2020).3,4,5

Em palestras e inclusive no “Seminário sobre o estudo de O evangelho segundo o espiritismo” realizado pela USE-SP em 29/10/2017, no Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa Espírita, de São Paulo, a questão das traduções bíblicas veio à tona no momento das perguntas. A resposta à dúvida foi fundamentada nos esclarecimentos que apresentamos em parágrafos anteriores do presente artigo.6

Emmanuel escreveu obras homenageando as obras básicas da Codificação. No Livro da esperança focaliza O evangelho segundo o espiritismo e no início de cada capítulo coloca uma epígrafe do Novo Testamento articulada à transcrição de um trecho de comentários na citada obra de Allan Kardec. Na apresentação, o autor espiritual saúda: “No luminoso centenário de O Evangelho segundo o Espiritismo, em vão tentamos articular, diante de ti, a nossa gratidão jubilosa!…”7

A título de ilustração de diferenças de traduções de algumas versões bíblicas, que por destoarem da palavra-chave do versículo selecionado por Emmanuel, podem criar uma desarmonia com o próprio texto do autor espiritual. Vejamos a epígrafe do capítulo 134 de Vinha de luz: "Naquele dia, quem estiver no telhado, tendo as suas alfaias em casa, não desça a tomá-las." – Jesus (LUCAS, 17:31).8

A palavra chave “alfaias” tem significados amplos: utensílio, móvel ou qualquer objeto, de uso doméstico ou pessoal. Objeto que se usa como enfeite, adorno; bijuteria, enfeite, jóia. Paramento ou enfeite de igreja. Na liturgia de algumas igrejas, pode significar: objeto usado para enfeite pessoal, adorno, jóia, ornamento; ou ainda: os paramentos são pequenos tecidos que, bordados, ganham uma função muito especial dentro do contexto litúrgico. Na maçonaria, alfaias são os paramentos usados pelos seus membros no ambiente das reuniões.

A citada palavra-chave, assim aparece em algumas traduções mais recentes: na Bíblia de Jerusalém: “utensílios”; na Tradução ecumênica da Bíblia (TEB): “objetos”.

Assim, ao lermos trechos da interpretação de Emmanuel sobre a citada epígrafe, e face às diferentes traduções, entendemos que a tradicional palavra “alfaia” seja mais condizente com o pensamento do autor espiritual:

“Não sabem separar as alfaias de adorno dos vasos essenciais, as frivolidades dos deveres justos e sofrem dolorosos abalos no coração. […] Um lar não vive simplesmente em razão das alfaias que o povoam, transitoriamente, e sim pelos fundamentos espirituais que lhe construíram as bases. Um homem não será superior porque satisfaça a opiniões passageiras, mas sim porque sabe cumprir, em tudo, os desígnios de Deus.”8

A propósito de traduções, há um fato histórico na área da literatura espírita. A obra Na hora do testemunho9, uma parceria de Herculano Pires com Chico Xavier, apontou um triste incidente: a adulteração de O Evangelho segundo o Espiritismo, usando atualização e simplificação de palavras em tradução publicada pela editora da FEESP, em julho de 1974. No livro citado há mensagens, crônicas, poemas e cartas, que Herculano Pires e Chico Xavier escolheram, para deixarem documentadas suas posições, quanto à importância da defesa da obra de Kardec contra as tentativas de adulteração. Leitura obrigatória para os espíritas para prevenções contra a estagnação simplória na crença e a aceitação de “mentores” deste e do outro mundo, que por meios tipicamente farisaicos atrelam facilmente os ingênuos e os vaidosos ao carro fantasioso das suas pretensões.

O famoso psicógrafo marcou uma posição firme e Herculano Pires destacou:

“O médium Francisco Cândido Xavier, apesar de sua costumeira isenção em polêmicas doutrinárias, acabou manifestando-se contra a adulteração e tomou posição firme e clara na defesa dos textos de Kardec. A maioria dos chamados líderes espíritas não se manifestou. A hora do testemunho provara mal, revelando a falta de convicção da maioria absoluta, e portanto esmagadora, do chamado movimento espírita brasileiro. Mas os resultados foram se manifestando mais tarde, com um crescente interesse do meio espírita pelas obras de Kardec em edições insuspeitas.”9

Sabe-se que a Editora parou de editar a tradução alterada.

Essa posição firme de Herculano Pires e de Chico Xavier, respectivamente marcados por Emmanuel como: “o metro que melhor mediu Kardec” e a “fidelidade a Jesus e a Kardec”, é coerente com as designações/orientações do citado mentor espiritual e com a mensagem de São Luís:

“Se as imperfeições de uma pessoa só a ela prejudicam, nenhuma utilidade haverá nunca em divulgá-la. Se, porém, podem acarretar prejuízo a terceiros, deve-se atender de preferência ao interesse do maior número. Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode constituir um dever, pois mais vale caia um homem, do que virem muitos a ser suas vítimas. Em tal caso, deve-se pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes.”10

Como se vive momentos de muitos modismos na literatura e na exposição espírita, transcrevemos trechos de mensagens do próprio Emmanuel:

“Os crentes e trabalhadores do Evangelho usam diversos meios para lhe fixarem as vantagens, mas raros lhe abrem as portas da vida. […] Recebem outros as advertências e luzes evangélicas, à maneira de negociantes ambiciosos, buscando convertê-¬las em fontes econômicas de grande vulto. Ainda outros procuram os avisos divinos, fazendo valer princípios egolátricos, em polêmicas laboriosas e infecundas. No imenso conflito das interpretações dever-se-ia, porém, acatar o pedido de Paulo de Tarso em sua segunda epístola aos Coríntios. O apóstolo da gentilidade roga para que ele e seus companheiros de ministério sejam recebidos nos corações.” E aí destacamos a epígrafe do texto: “Recebe¬-nos em vossos corações.” Paulo (II Coríntios, 7:2).8

Outro comentário oportuno:

“Realmente, por séculos sucessivos, temos realizado a transliteração do Evangelho em todos os climas culturais. […] Contudo não basta nos detenhamos na fraseologia brilhante, no gesto sutil ou nas aparências elogiáveis para demonstrar assimilação do ensinamento transformador. Cristianismo não é somente a forma da civilização que nos propomos construir com Jesus. […] Urge, pois, configurar a revelação não apenas no tesouro verbalístico que nos lastreia as conquistas filosóficas e artísticas de quase dois milênios. […] Todos nos encontramos à face do julgamento, pelo delito de lesa consciência, de vez que temos adulterado a mensagem do Divino Benfeitor de mil modos, em cada romagem no mundo. Jesus, porém, tolera-nos compassivo e reforma-nos o empréstimo de tempo e de valores novos… Mas, se é verdade que nenhum de nós está em condições de atirar a primeira pedra no irmão de caminho, cabe-nos a todos ouvir o Mestre Inesquecível em sua amorosa e segura advertência: – ‘Vai e não peques mais’.”11

Concluindo as sugestões para estudos e reflexões, destacamos o inolvidável Léon Denis:

“O Espiritismo será o que o fizerem os homens, Simila similibus! Ao contato da humanidade as mais altas verdades às vezes se desnaturam e obscurecem. Podem constituir-se uma fonte de abusos. A gota de chuva, conforme o lugar onde cai continua sendo pérola ou se transforma em lodo.”12

Referências:

1. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Caminho, verdade e vida. 1.ed.esp. Cap. Interpretação dos textos sagrados. Brasília: FEB. 2005.

2. Carvalho, Flávio Rey. Indicações de comentários feitos por Emmanuel acerca de trechos do Novo Testamento citados em O Evangelho segundo o Espiritismo. In: Carvalho, Antonio Cesar Perri; Carvalho, Célia Maria Rey (Org.). O evangelho segundo o espiritismo: orientações para o estudo. 1.ed. Cap. 13. Brasília: FEB. 2014.

3. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do espiritismo. 1.ed. Cap. 2. Matão: O Clarim. 2016.

4. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cristianismo nos séculos iniciais. Análise histórica e visão espírita. 1.ed. Cap. Apresentação. Matão: O Clarim, 2018.

5. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Emmanuel. Trajetória espiritual e atuação com Chico Xavier. 1.ed. Cap. 13. Matão: O Clarim. 2020.

6. Seminário sobre o estudo de O evangelho segundo o espiritismo. Texto bíblico usado nos livros originais de Emmanuel. Link: https://youtu.be/ZrJdTNwdxm0 (Acesso em 28/09/2020).

7. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Livro da esperança. 17.ed. Cap. Obrigado, Senhor! Uberaba: CEC. 2002.

8. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Vinha de luz. 1.ed.esp.Cap. 134 e 147. Brasília: FEB. 2005.

9. Xavier, Francisco Cândido; Pires, José Herculano. Na hora do testemunho. 1.ed. São Paulo: Paidéia. 1974. 120p.

10. Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O evangelho segundo o espiritismo. 131.ed. Cap. X. Item 21. Brasília: FEB. 2013.

11. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Construção do amor. 17.ed. Cap. Ante o Evangelho. São Paulo: CEU. 2002.

12. Denis, Léon. Trad. Cirne, Leopoldo. No invisível. 26.ed. Introdução. Brasília: FEB. 2014.

(*) O autor foi presidente da USE-SP e da FEB.

Extraído de:

Revista digital O Consolador. Ano 14. N° 693. Edição de 25/10/2020. Acesso: http://www.oconsolador.com.br/ano14/693/especial.html

Laços espirituais entre Chico Xavier e Emmanuel

Laços espirituais entre Chico Xavier e Emmanuel

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Há inúmeros depoimentos de Chico Xavier sobre suas relações espirituais com Emmanuel, desde a histórica visão nos idos de 1931 quando seu orientador se apresentou e ofereceu a orientação da “disciplina, disciplina, disciplina”. Sempre interessado pelas obras desse Espírito e relatos do médium sobre o mesmo, procuramos reunir preciosos registros.

À vista disso, planejamos um novo livro1 evitando mera repetição de casos já muito divulgados. Selecionamos alguns em que fomos testemunhas nos contatos com Chico e com seus amigos fieis da chamada “primeira hora”, que chegamos a conhecê-los. O desenvolvimento do conteúdo foi realizado a partir dos nossos estudos, observações e vivência em contactos com a vida e obra de Chico Xavier. Nos episódios que selecionamos, bem como a análise das obras de Emmanuel, notadamente dos chamados romances históricos, não tivemos o objetivo de estimular curiosidades, mas de relacionar com uma visão abrangente a trajetória espiritual do orientador espiritual de Chico, para melhor entendermos e valorizarmos o papel do notável exegeta do Novo Testamento à luz do Espiritismo.

Os romances históricos de autoria de Emmanuel oferecem relatos sobre vários vultos dos albores do Cristianismo, incluindo algumas vivências do autor espiritual e do médium. Dessas obras deve-se extrair a essência que pode ser relacionada com os esforços de aprendizagem e evolução espiritual. Daí, ser cabível a afirmação que gravamos de Arnaldo Rocha, o viúvo de Meimei: “Cada história tem seu enredo; mas as mortes de Públio Lentulus Sura, Públio Lentulus Cornelius, Nestório e Basílio nos revelam profundos ensinamentos sobre a lei de causa e efeito e a libertação pelo Evangelho. Afinal, todas elas tratam da mesma alma em evolução, ou seja, esse Espírito benéfico e amoroso que todos admiramos com nossos mais sinceros sentimentos, Emmanuel”.1

Embora Emmanuel não seja personagem do enredo de sua “obra prima” Paulo e Estêvão, destacamos contatos havidos entre o senador Lentulus e Paulo no cenário corpóreo e no Mundo Espiritual. Emmanuel é grato e profundo admirador da vida e epístolas do notável apóstolo. Realçamos comentários da época da edição do épico romance Paulo e Estêvão; foram publicados três artigos na revista Reformador, assinalando o lançamento da obra. Destacamos neste artigo que na edição de julho de 1942, o articulista Alexandre Dias assinala: “as cenas e os cenários bem traçados, como a perfeita caracterização dos personagens, prendem a atenção do leitor…”1 Conhecida liderança espírita daquela década Roberto Pedro Michelena (depois general), de Porto Alegre, declarou: “Mas o luminoso espírito de Emmanuel monopoliza-lhe, por alguns anos, a mediunidade ímpar. Dá-lhe o fabuloso romance Há dois mil anos que é sua própria autobiografia, de quando ele, Emmanuel, fora, ao tempo do Cristo, proconsul romano na Palestina. O enredo, a beleza e os ensinamentos cristãos desse livro, asseguram-lhe lugar culminante na literatura brasileira. É um retificador de almas! Segue-se, entre muitos outros, o épico romance Paulo e Estêvão”.1

O romance Ave, Cristo! foi concluído por Emmanuel no dia 18 de abril de 1953 e na passagem de novembro para dezembro já estava editado pela FEB. Rapidamente, Arnaldo Rocha recebeu o primeiro exemplar da nova obra autografada pelo médium. Ele é um dos personagens desse enredo do século III, bem como outros contemporâneos de Chico, e, tem muita relação com episódios subsequentes registrados no inspirado livro Esquina de pedra, de Wallace Leal Valentim Rodrigues (Casa Editora O Clarim).

Dos anos 1950 há um curioso relato de Ramiro Gama, amigo do médium dos tempos de Pedro Leopoldo, a respeito de um conhecido confrade de São Paulo que certa feita chegou ao Centro Espírita Luiz Gonzaga. Abraça o médium e diz: “- Vim de São Paulo especialmente para lhe dar um beijo. E dando-lhe o beijo na face, conclui: beijando-o, tenho a impressão de que beijei seu querido Guia Emmanuel. E o Chico com toda candidez e humildade respondeu-lhe: – Não, meu caro Irmão, você não beijou Emmanuel mas sim o seu burrinho, que sou eu”.1

No transcorrer do primeiro programa “Pinga Fogo” Chico fez um depoimento que deixa bem clara sua relação com o Espírito: “Emmanuel tem sido para mim um verdadeiro pai na Vida Espiritual, pelo carinho com que me tolera as falhas e pela bondade com que repete as lições que devo aprender. Em todos esses anos de convívio estreito, quase diário, ele me traçou programas e horários de estudo, nos quais a princípio até inclui datilografia e gramática, procurando desenvolver os meus singelos conhecimentos de curso primário, em Pedro Leopoldo, o único que fiz até agora, no terreno da instrução oficial. […] O tempo de convivência com o Espírito de Emmanuel, nosso guia, parece que criou entre ele e eu um processo de conhecimento e palavra por osmose. Vão me perdoar… eu não sei definir o problema. Sei que ele está presente, mas ele não permite que faça muitas observações mediúnicas, para que eu me mantenha estritamente dentro do programa e não com qualquer distração para observações marginais.”1

Particularmente, ouvimos comentários muito significativos durante visitas que fizemos ao médium em Uberaba. Em janeiro de 1977, cerca de dois meses após sofrer um enfarte, ele nos relatou a advertência do pai espiritual enérgico. Chico mostrou-nos a quantidade de medicamentos que estava utilizando. Sempre fazendo brincadeiras dizia, sorrindo, que estava escravo deles… Porém, ficando sério, contou ao grupo de visitantes que, contrapondo-se a momentos passageiros de desânimo, Emmanuel afirmou-lhe incisivo: "Sai da cama ou vai para a cova…" Chico tratou de se adequar rapidamente à nova situação e retornar às suas atividades e sobreviveu mais 25 anos dedicados ao trabalho mediúnico.

Na análise e reflexão sobre a trajetória espiritual de Emmanuel e o valoroso conteúdo de suas obras pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, dispomos de subsídios de inestimável valor para a educação do Ser fundamentada na Boa Nova com a ótica espírita!

Referência:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Emmanuel. Trajetória espiritual e ações com Chico Xavier. Matão: O Clarim. 2020. 208p.

De:

Revista internacional de espiritismo. Ano XCV. N.8. Setembro de 2020. P. 384-385.

Auto de fé de Barcelona e a queima de livros e de documentos

Auto de fé de Barcelona e a queima de livros e de documentos

      

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Na história do Espiritismo há o registro do terrível “Auto de Fé de Barcelona”, perpetrado no dia 9 de outubro de 1861, mas também outras situações assemelhadas não muito divulgadas.

O “Auto de fé de Barcelona” foi uma expressão cunhada por Allan Kardec ao se referir ao episódio ocorrido na cidade espanhola, por ordem de um bispo católico, quando obras suas e de outros autores espíritas foram confiscadas e queimadas em praça pública. Os livros foram encomendados pelo editor francês Maurice Lachâtre que havia montado uma livraria em Barcelona. A citada expressão foi utilizada pela primeira vez como subtítulo do artigo "O resto da Idade Média", publicado pelo Codificador em novembro daquele ano na Revue spirite.1

Todavia, também há situações estranhas internas do movimento espírita.

Em 1884, a amiga e colaboradora do casal Kardec, Berthe Fropo, no seu livro Beaucoup de lumière2, fez um paralelo com as tradicionais sentenças do tribunal da Inquisição, chamadas de autos de fé, ao relatar e comentar um fato promovido por membros da Sociedade que deveria dar continuidade e divulgação às obras do Codificador:

“O que teve de estranho ali foi que o legatário sendo uma Sociedade, uma entidade coletiva, não um de seus membros, não estava presente na retirada dos lacres, nem mesmo o Sr. Joly. Poder-se-ia dizer que só o Sr. Leymarie e seus familiares eram os herdeiros; eles foram ajudados pelo Sr. Vautier, tesoureiro e ao mesmo tempo administrador da Sociedade, o que fazia que ele controlasse a si mesmo. Não houve nem inventário, nem venda pública, exceto as coisas fora de serviço que foram vendidas para revendedores de segunda mão. Tudo aquilo era apenas questão de dinheiro, e tinha pouco valor aos meus olhos. Entretanto, o que me fez estremecer de indignação foi assistir a um verdadeiro auto de fé. O Sr. Vautier queimou pilhas de papéis e de cartas. Quantas comunicações e quantas anotações deixadas pelo mestre foram destruídas.”2

Em viagens doutrinárias pela Europa tivemos conhecimento de fatos acontecidos até meados do século XX durante situações de guerras, revoluções e em Estados totalitários, como: sequestro e queima de livros e documentos espíritas; perseguições e até execuções de lideranças. Chegamos a conhecer pessoas que presenciaram ou foram contemporâneos às tristes ocorrências.

Em nosso país, aconteceu a situação, hoje considerada estranha, de destruição dos originais psicográficos das obras Chico de Xavier. Em entrevista gravada e que publicamos, a antiga funcionária da Federação Espírita Brasileira Rúbia da Costa Guimarães declarou-nos:

“Os originais psicográficos de obras Chico foram destruídos. Na época não havia preocupação em se manter os originais, apenas as edições dos livros com suas emendas. Houve um momento em que Chico não concordou mais com tais revisões e se afastou do dr. Wantuil, nos final dos anos 1960 e ambos não tiveram mais contatos. Parecia um afastamento temporário, mas que perdurou.”3

Por outro lado, sem se caracterizar como destruição, mas num sentido amplo, poderia ser um episódio parecido, os casos em que foram alterados textos originais e traduções de obras espíritas.

Episódio pouco lembrado envolvendo Chico Xavier está registrado na história do movimento espírita e, especificamente, relacionado com a literatura espírita. Tentaram envolver Chico Xavier, mas este, com o apoio de Herculano Pires reagiu de maneira doutrinária e firme. A obra Na hora do testemunho4, uma parceria de Herculano Pires com Chico Xavier, apontou o triste incidente da adulteração de tradução de O Evangelho segundo o Espiritismo, usando atualização e simplificação de palavras em versão publicada pela editora da FEESP, em julho de 1974. Aquela edição, traduzida por Paulo Alves Godoy, “pôs em prática aquilo que denominou um plano de completa e total revisão de toda a Codificação Doutrinária de Allan Kardec, como se houvesse, na atualidade, algum ser humano capaz de ‘revisar’ ou ‘atualizar’ as obras básicas da Codificação.” O livro citado foi comercializado a preços populares, para maior divulgação.

Herculano escreveu vários artigos na imprensa. Esse material, várias mensagens, crônicas, poemas e cartas foram reunidos no livro Na hora do testemunho, no qual Herculano Pires e Chico Xavier definem suas posições, quanto à importância da defesa da obra de Kardec contra as tentativas de alteração de palavras. Os dois autores estranharam o episódio e consideraram que “não há explicação possível para esse fato, fora da doutrina da reencarnação. Paulo Alves Godoy tem sido fiel à Doutrina.”

O famoso psicógrafo marcou uma posição firme e Herculano Pires destacou: “O médium Francisco Cândido Xavier, apesar de sua costumeira isenção em polêmicas doutrinárias, acabou manifestando-se contra a adulteração e tomou posição firme e clara na defesa dos textos de Kardec. A maioria dos chamados líderes espíritas não se manifestou. A hora do testemunho provara mal, revelando a falta de convicção da maioria absoluta, e portanto esmagadora, do chamado movimento espírita brasileiro. Mas os resultados foram se manifestando mais tarde, com um crescente interesse do meio espírita pelas obras de Kardec em edições insuspeitas.” Sabe-se que a Editora parou de editar a tradução alterada.

Esse episódio histórico registrado no livro citado realça que os dois autores foram cumpridores das responsabilidades apontadas por Emmanuel. Este recomendou a Chico Xavier no início de suas atividades mediúnicas que sempre fosse “fiel a Jesus e a Kardec”, e, chamou Herculano Pires de “o metro que melhor mediu Kardec”.

Interessante que Chico Xavier sempre cordato e benevolente, deu o claro testemunho de fidelidade na defesa de obras essenciais.

Atualmente, há mais clareza para se valorizar a preservação de documentos e originais de livros.

Referências:

1) Kardec, Allan. Trad. Abreu Filho, Júlio. Os restos da Idade Média. Auto-de-Fé das obras espíritas em Barcelona. Revista espírita. Novembro de 1858. Vol. IV. São Paulo: EDICEL. p. 337-341.

2) Fropo, Berthe. Trad. Lopes, Ery; Miguez, Rogério. Muita luz. Cap. Como o Espiritismo é dirigido. Versão digital bi-lingue, de dezembro de 2018: https://www.luzespirita.org.br/leitura/pdf/L158.pdf

3) Guimarães, Rúbia da Costa. Vários momentos da difusão do livro. Entrevista. Reformador. Ano 132. N. 2.225. Agosto de 2014. P. 458-460.

4) Xavier, Francisco Cândido; Pires, José Herculano. Na hora do testemunho. 1.ed. São Paulo: Paidéia. 1974. 120p.

(*) Foi presidente da USE-SP e da FEB; ex-membro da Comissão Executiva do CEI.

DE: Boletim de Notícias”: http://www.noticiasespiritas.com.br/2020/OUTUBRO/09-10-2020.htm

 

216 anos do nascimento de Kardec

216 anos do nascimento de Kardec

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O dia 3 de outubro é tradicionalmente recordado no movimento espírita para se evocar a data de nascimento de Allan Kardec, ocorrida no ano de 1804, em Lyon.

É fato sabido que Hipppolyte Léon Denizard Rivail apenas nasceu naquela cidade francesa. Na realidade, nunca lá residiu e foi criado com a família de sua genitora em Bourg en Bresse e Saint Denis les Bourg, duas cidades do Departamento de Ain, próximas a Lyon; depois estudou em Yverdon (Suíça) e atuou como professor em Paris, onde veio a executar seu papel como Codificador do Espiritismo.

Resumimos dois artigos recentes que publicamos nas revistas A senda1 e Revista internacional de espiritismo2.

Neste ano, nos meses de julho e agosto, o documentário “Em busca de Kardec” foi exibido como um seriado de oito episódios pelo canal de TV “Prime Box Brasil“ e depois disponibilizado na internet pela “Prime-Amazon”. O documentário foi dirigido por Karim Akadiri Soumaïla, de nacionalidade francesa. O enredo evoca momentos da vida de Kardec, locais onde viveu e atuou na França e Suíça e as repercussões de suas obras na França e no Brasil.

Um século e meio após a publicação das obras do Codificador e de sua desencarnação, tornam-se importantes alguns destaques de seus pensamentos e propostas. As obras de Kardec contém os princípios do Espiritismo e ele define na Revista espírita de 1866: “Inscrevendo no frontispício do Espiritismo a suprema lei do Cristo, abrimos o caminho para o Espiritismo cristão; assim, dedicamo-nos a desenvolver os seus princípios, bem como os caracteres do verdadeiro espírita sob esse ponto de vista”.3

A nosso ver, são oportunas as transcrições de alguns trechos do Codificador relacionadas com o centro e o movimento. Kardec orienta as reuniões e pequenos grupos, o que é válido para grandes centros, ou, para se criar centros menores nos bairros de uma cidade: “Sendo o recolhimento e a comunhão dos pensamentos as condições essenciais a toda reunião séria…” […] “Uma reunião é um ser coletivo, cujas qualidades e propriedades são a resultante das de seus membros e formam como que um feixe. Ora, este feixe tanto mais força terá, quanto mais homogêneo for. Toda reunião espírita deve, pois, tender para a maior homogeneidade possível.” […] “Quanto mais numerosa é a reunião, tanto mais difícil é conterem-se todos os presentes. Ora, vinte grupos, de quinze a vinte pessoas, obterão mais e muito mais farão pela propaganda, do que uma assembleia de trezentos ou de quatrocentos indivíduos.”4

Sobre a mediunidade Kardec define: “Esse dom de Deus não é concedido ao médium para seu deleite e, ainda menos, para satisfação de suas ambições, mas para o fim da sua melhora espiritual e para dar a conhecer aos homens a verdade”6; e sobre o chamado “desenvolvimento”: “Ela se manifesta nas crianças e nos velhos, em homens e mulheres, quaisquer que sejam o temperamento, o estado de saúde, o grau de desenvolvimento intelectual e moral. Só existe um meio de se lhe comprovar a existência. É experimentar.”4

Importante proposta do Codificador: “A bandeira que desfraldamos bem alto é a do Espiritismo cristão e humanitário, em torno da qual já temos a ventura de ver, em todas as partes do globo, congregados tantos homens, por compreenderem que aí é que está a âncora de salvação, a salvaguarda da ordem pública, o sinal de uma era nova para a humanidade.”4

O Codificador destaca que o Espiritismo é uma religião diferente das tradicionais: "Qual é, pois, o laço que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato material, por nenhuma prática obrigatória. Qual o sentimento no qual se deve confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário…"3

A nosso ver é necessário assumir-se mais os papeis como espíritos encarnados com base em Kardec: "[…] o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem".5

Há um convite que deve ser sempre renovado: o estudo, a prática e a difusão dos conteúdos das cinco obras básicas de Allan Kardec e também de seus registros e depoimentos mensais contidos na Revista Espírita (janeiro de 1858-abril de 1869).

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Sem Kardec não há Espiritismo. A senda (FEEES). Ano 98. N. 205. Setembro-Outubro de 2020. Página eletrônica: http://www.feees.org.br/adm/arquivos/revistasetout_96.pdf

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Busca de Kardec ou de mim mesmo? Revista internacional de espiritismo. Ano XCV. N. 9. Outubro de 2020.

3) Kardec, Allan. Trad. Abreu Filho, Júlio. Revista espírita. Ano IX, V.4. Abril de 1866; Ano XI. V.12. Dezembro de 1868. São Paulo: Edicel.

4) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos médiuns. 80.ed. 1a parte, cap.III, Item 28; Parte 2: Cap. XVII, item 200; Cap. XXIX, itens 220, 331, 332, 348, 350; Cap. XXX. Brasília: FEB.

5) Kardec, Allan. Trad. Imbassahy, Carlos de Brito. A gênese. 1.ed. Cap. I, item 13. São Paulo: FEAL.

 

(*) Foi presidente da USE-SP e da FEB.

Filme Maudie – Sua Vida e Sua Arte

Filme Maudie – Sua Vida e Sua Arte

Célia Maria Rey de Carvalho (*)

O filme Maudie – Sua Vida e Sua Arte, retrata a vida da artista canadense Maud Kathleen Dowley, nascida em 07 de março de 1903 ao sul de Ohio, Nova Escócia no Canadá. Desde cedo apresentou artrite reumatoide que limitava seus movimentos além de possuir outras deficiências físicas.

Foi introduzida nas artes por sua mãe Agnes Dowley. Na juventude teve uma filha, em 1928, Catherine, que foi colocada para adoção, pois ela não tinha condição de criá-la. Maud ficou órfão em 1937 e foi morar com uma tia em Dgby, também na Nova Escócia. Não se dando bem com a tia, foi morar e trabalhar como doméstica na casa de Everett Lewis, vendedor de peixes de Mashalltown ao final de 1937, o que a impediu de voltar para casa da tia que não aceitava tal situação.

Everett era um homem extremamente rude, tosco, bruto, mas Maud, pela opção que fez, aceitava e tentava realizar as tarefas para as quais fora contratada, com extrema dificuldade, mas com extremo desvelo e carinho. Várias vezes mandada embora e como não tinha para onde ir, ficava e suportava os desafios impostos pelo serviço e pelo patrão. Em janeiro de 1938 ela e Everett se casaram, passando a chamar-se Maud Lewis. O filme mostra uma Maud extremamente humilde, resignada, dócil no falar, sorriso meigo, determinada e corajosa, mas sem imposição. Com uma vida extremamente pobre, Maud quase não saia da casa que ficava isolada 11 km da pequena cidade de Dgby.

Aos poucos foi cativando a simpatia e afeição do marido, bem como mudando alguns de seus hábitos toscos. Sem se impor, oferecia uma mesa posta para as refeições do mesmo, o que o levou a sentar-se e comer com melhores modos, alterando também outros hábitos domésticos. Começou a enfeitar as paredes da casa com suas pinturas de cores fortes, com motivos florais, pássaros e borboletas. O marido não gostou e disse que estava ela desobedecendo suas ordens. Ela respondeu que não, estava só cumprindo suas ordens de deixar a casa mais bonita. Aos poucos foi pintando em pequenos pedaços de madeira que encontrava nos objetos e móveis quebrados que o marido trazia para o quintal da casa.

Na sua humildade, obediência ao marido não se deixou contaminar pelos seus modos rústicos, nem cultivando qualquer sentimento de animosidade. Era seu lar, seu marido e o único lugar que podia ficar. Não discutia, não tentava impor suas ideias, apenas sugeria. Não questionava sua condição de pessoa discriminada pela sua aparência deformada. Aceitava os desafios da vida com coragem e determinação, mantendo seu mundo interior que era maior do que qualquer limitação física, de condições sócias e materiais.

Da única janela da casa via o mundo lá fora e isso bastava para sua imaginação livre e leve povoar sua mente, sua criatividade e seus dias de solidão. Suas pinturas revelavam o que ia em sua alma. As pessoas solicitavam para que ela pintasse para saber e entender o que se passava em seu íntimo. E seu mundo interior era colorido, alegre, vibrante. Todo tempo disponível depois de suas obrigações domésticas era destinado à pintura.

Foi a companhia silenciosa, mas sempre presente de seu marido, convencendo-o de fazer as coisas com breves observações e deixando que o tempo o fizesse entender e atendê-la. Não desafiava, mas agia na serenidade, na quietude de seus gestos, olhares e atos. Mudou a vida dele, apesar de continuar a sua maneira tosca de ser, mas com gestos disfarçados de carinho. Boa em contas, aos poucos, oferecendo sua ajuda, mas sempre exaltando o papel de comando que seu marido sempre frisava e exigia, ela ajudou-o em sua venda de peixe, anotando e controlando a entrada e saída do dinheiro. Nunca ficou com um centavo do dinheiro da venda de suas obras que era muito superior ao que o marido ganhava, deixando a ele o controle das finanças. Ele, percebendo que sua arte rendia dinheiro, começou a ajudá-la nos afazeres domésticos e no provimento de materiais necessários ao seu trabalho.

O que achei notável e que no filme bem transparece, foi a sua humildade e resistência pacífica na manutenção do seu modo de ser, de enxergar o mundo, de enfrentar suas dores e dar vazão à sua arte independente das condições adversas que o mundo e a pessoas lhe ofereciam. Sempre enxergava luz onde havia escuridão, alegria onde reinava a dor, poesia e colorido no cenário branco e preto dos longos períodos de inverno. Sua brandura se estendia aos animais que habitavam os arredores da casa, com eles conversando e acarinhando-os. Aliás, com os cachorros ela conversava muito, o que às vezes irritava seu marido.

Mas ela continuava sua maneira de ser. Morreu aos 67 anos, sem nunca interromper suas atividades de pintura, somente nos momentos em que era atendida no hospital devido aos problemas respiratórios que adquiriu pelo fumo, cheiro forte das tintas e ambiente insalubre de sua residência.

Emmanuel, no livro Pensamento e Vida (FEB), cap. 24 bem define: “Humildade não é servidão. É, sobretudo, independência, liberdade interior que nasce das profundezas do espírito, apoiando-lhe a permanente renovação para o bem. Cultivá-la é avançar para a frente sem prender-se, é projetar o melhor de si mesmo sobre os caminhos do mundo, é olvidar todo o mal e recomeçar alegremente a tarefa do amor, cada dia.” Essa era Maud na sua maneira de ser e vencer no mundo.

(*) Ex-diretora da USE-SP e da FEB. Colaboradora do GEECX, CCDPE e G.E.Casa do Caminho, São Paulo.

A apropriação do Novo Testamento pelo segmento espírita

A apropriação do Novo Testamento pelo segmento espírita

Natália Cannizza Torres (*) 

O movimento espírita brasileiro está cada vez mais diversificado. Nele, hoje, encontra-se todo tipo de grupo, desde os que defendem pautas mais seculares, aos que se voltam cada vez mais para a religiosidade.

Neste texto, detenho-me a um grupo específico que tem ganhado cada vez mais força e presença nos centros espíritas. Sua proposta, generalizadamente, é estudar o Novo Testamento de forma bastante pormenorizada, enfocando no que a letra de pronto não revela, ou seja, buscar nos recursos da geografia, linguística, história e estudos culturais a fonte para entender os versículos bíblicos o mais próximo da realidade de seus autores. Querem entender o sentido original da proposta de Jesus e, para isso, encontram, no estudo subsidiado por estas diversas áreas do conhecimento, a ferramenta para tal compreensão.

Minha pesquisa de mestrado pelo Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos, defendida em junho de 2019, buscou compreender como o estudo do Novo Testamento pelos espíritas foi se estruturando e ganhando corpo até chegar nos dias atuais em que ganha um status de oficial nos centros espíritas, ancorado por uma metodologia bem definida e pela profundidade com que seu tema é tratado. Isso significa compreender como o discurso dos espíritas, reivindicando seu compromisso com os valores cristãos, passou de um discurso baseado na atenção exclusiva ao Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, e no máximo em obras subsidiárias Chico Xavier, para um discurso que entende o estudo do Novo Testamento como uma ferramenta imprescindível para se compreender melhor a proposta espírita de cristianismo.

Esta prática surgiu primeiro em 1957, cem anos após o nascimento da doutrina espírita, em Belo Horizonte, por meio de um grupo de estudiosos espíritas que formaram o Grupo Emmanuel. Honório Onofre Abreu, Leão Zálio e José Damasceno Sobral fundaram esse grupo, pois tinham um grande interesse em se aprofundarem no Novo Testamento. Este grupo foi crescendo e agregando adeptos ao longo das décadas. Figuras famosas do movimento espírita brasileiro formaram-se nele, como Martins Peralva, Haroldo Dutra Dias, Wagner Gomes da Paixão, Aluízio Elias, Sheila Passos, Guilherme de Barros, entre outros. Em Belo Horizonte, esse movimento já era consolidado e, em 1997, a União Espírita Mineira (UEM) adotou esta proposta como oficial, com o nome de Estudo Aprofundado do Evangelho de Jesus (EMEJ). A partir disso, todo o estado passou a adotar esse método de estudo do Novo Testamento.

Um momento muito importante para a disseminação deste estudo foi quando, em 2010, houve o III Congresso Espírita Brasileiro em Brasília. Com seu tema em homenagem ao centenário de nascimento de Chico Xavier, as pessoas passaram a relembrar e a reavivar sua obra, principalmente aquelas em que Emmanuel e outros espíritos comentavam passagens bíblicas, como a série Caminho, Verdade e Vida. Nesse mesmo evento, foi lançada a tradução de parte do Novo Testamento por Haroldo Dutra Dias, realizada por encomenda da Federação Espírita Brasileira (FEB) um sucesso de vendas.

Com este Congresso, muitos artigos foram escritos a respeito dos livros de Chico Xavier de exegese cristã espírita, e a FEB, sob presidência interina de Antonio Cesar Perri de Carvalho começaram a realizar primeiro um estudo aprofundado do Evangelho Segundo o Espiritismo e, no ano seguinte, em 2013, fundaram o Núcleo de Estudo e Pesquisa do Evangelho (NEPE). Sua primeira formação contava com Haroldo Dutra Dias, Ricardo Mesquita, Simão Pedro de Lima, Wagner Gomes da Paixão, Afonso Chagas, Célia Maria Rey de Carvalho, Flávio Rey de Carvalho e Antonio Cesar Perri de Carvalho. Por conta da fundação do NEPE na FEB, os centros espíritas de todo o Brasil passaram a adotar esse modelo de estudo e fundaram NEPEs em todas as regiões.

Hoje em dia, de acordo com o site http://www.nepebrasil.org, já existem 75 NEPEs em 15 estados do país. Posteriormente a eles, foi criado o Miudinho, grupo de Uberaba, liderado por Aluísio Elias que, a partir de 2017, passou a gravar suas reuniões disponibilizadas até hoje em seu canal no Youtube. As conclusões a que podemos chegar são que esse movimento em direção ao aprofundamento do estudo do Novo Testamento pelos espíritas representa um reforço de seu caráter religioso, haja vista que seu caráter tríplice (ciência – filosofia – religião) não é difundido dessa maneira no Brasil, país no qual privilegia-se o aspecto religioso da doutrina, do ponto de vista sociológico.

Os discursos usados para defender e promover este tipo de prática fundamentam-se desde que, na questão 625 de O Livro dos Espíritos, os “espíritos” indicam a figura de Jesus como guia e modelo para a humanidade. Portanto, nada mais lógico do que estudar sua obra para que se possa, de fato, aprender como seguir seus passos. É relevante também a justificativa de que o Espiritismo, como terceira revelação, busca dar continuidade a uma proposta que iniciada com a doutrina de Moisés, passando por Jesus e continuando com Kardec, buscando resgatar o que verdadeiramente o nazareno pregava, para além das formas dogmáticas que o cristianismo foi acrescentando ao longo dos séculos.

(*) Natália Cannizza Torres é socióloga e autora da tese: Jesus, a porta, Kardec, a chave: a apropriação do Novo Testamento pelo segmento espírita. (https://repositório.ufscar.br/handle/ufscar/11755).

TRANSCRITO DE:

POR USESP POSTADO EM 8 DE SETEMBRO DE 2020 – Jornal Dirigente espírita, edição julho/agosto de 2020: https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2020/07/DE178C.pdf

A pandemia do COVID 19 – Uma oportunidade perdida?

A pandemia do COVID 19 – Uma oportunidade perdida?

Humberto Werdine (*)

Escrevo este texto nos primeiros dias de setembro de 2020, no início da segunda onda do vírus COVID 19 aqui na Europa.

A minha família direta foi afetada: minha esposa e uma de minhas filhas. Minha filha está praticamente recuperada e minha esposa está se recuperando pouco a pouco. Ambas não necessitaram de internação hospitalar. Agradeço a Deus todos os dias pela recuperação delas. Tive amigos que sofreram muito com esse vírus. Uns tiveram que ser entubados e se recuperaram após muitas semanas de angústia e dores.

Outros não tiveram a mesma sorte e faleceram. Todos esses que partiram, eram da minha faixa de idade, pouco mais de 60 anos. Nesta semana, uma querida amiga enviou uma mensagem no meu whatsapp privado, chamando esta doença de maldita. Chegaram a mim vários comentários semelhantes, de diversas pessoas, usando similar adjetivo para essa doença. E alguns, até mesmo questionando por que Deus teria mandado uma doença tão perniciosa.

Li muitas referências na Internet, as quais se reportavam ao capítulo flagelos destruidores de O Livro dos Espíritos, mais especificamente às respostas às perguntas 737 a 741. Mas aqui, meu desejo é outro: propor uma reflexão aos leitores deste artigo.

Esta pandemia do COVID 19, até agora, está muito longe de ser um flagelo destruidor. Para as famílias que perderam seus entes queridos, quase 900 mil em todo o mundo até agora, essa doença é devastadora. E isso não pode ser negado. Somos também sabedores, por mensagens de espíritos nobres, que todas essas pessoas estão sendo amparadas nas diversas colônias espirituais que circundam nosso planeta – o que é para nós, espíritas, uma grande consolação. Mas como disse, este vírus está longe de ser considerado um flagelo destruidor, assim como também não é uma doença maldita ou um castigo de Deus, tal como já ouvi de algumas pessoas ligadas às religiões Cristãs mais fundamentalistas.

Há pouco mais de 100 anos, sim, houve um flagelo bastante destruidor, que foi a gripe espanhola, a qual infectou cerca de 500 milhões de pessoas, um pouco mais de um quarto (25%) da população mundial daquele período e matou mais de 50 milhões de outras. Interessante informar que a denominação espanhola foi devido a uma censura imposta à divulgação da pandemia de então pelas autoridades dos países recém saídos da primeira grande guerra mundial que, por si só, tinha dizimado mais de 17 milhões de pessoas. Quando a gripe causada pelo Influenza vírus H1N1, com uma fatalidade enorme, teve início, as autoridades decidiram manter silêncio a respeito de sua agressividade, para não agravar ainda mais as dores daqueles povos que haviam perdido muitos de seus filhos e filhas durante a guerra. E as notícias, assim, chegavam somente da Espanha, a qual se manteve neutra no decorrer da guerra. Daí o nome de gripe espanhola.

Se fizermos uma extrapolação para o entendimento desses números, e considerarmos que o COVID 19 tenha a mesma fatalidade e verocidade do H1N1 da gripe espanhola, o mundo teria tido, nesta pandemia, quase 02 bilhões de pessoas contaminadas e cerca de 200 milhões de pessoas mortas. Um Brasil inteiro! Isso sim teria sido um flagelo universal e uma catástrofe mundial! Com grande possibilidade, cada família do planeta teria tido pelo menos uma pessoa atingida pelo vírus! E a economia mundial entraria em colapso total.

Talvez a fome atingisse os países mais ricos e esse flagelo poderia causar um divisor de águas para o desenvolvimento da solidariedade universal e uma nova ordem social. Os Espíritos nobres, ao responderem às perguntas acima feitas por Kardec, afirmaram que a grande razão desses flagelos é um avanço mais rápido do progresso moral e material da humanidade, pois gera a oportunidade para o exercício da solidariedade e para o avanço da ciência na descoberta de remédios e vacinas.

Em outras palavras, o mundo daria um salto na direção de maior solidariedade e de avanços na medicina para curas de doenças, após os mesmos. Mas agora, a Espiritualidade Superior, com piedade e grande amor por nós, deu-nos um flagelo menor, para que aproveitássemos as lições decorrentes desse grande sofrimento provocado pelo COVID, que não respeita fronteiras, mas é pequeno em sua voracidade quando comparado ao H1N1.

Mas, infelizmente, o que vemos diariamente pela mídia são governos em todo o mundo usando politicamente os resultados danosos desta pandemia. Vemos laboratórios em todo o mundo competindo entre si, gastando fortunas, centenas de milhões de dólares, que somados, atingem cifras enormes numa competição para comercializar primeiro as vacinas e, com isso, recuperarem seus gastos, auferindo lucros astronômicos à custa da pandemia. Essas aglomerações empresariais, bem como os governos que as promovem estão, lamentavelmente, usando esse problema como oportunidades de ganhos eleitorais e de proeminência científica e econômica.

O ponto de vista aqui defendido quanto a atual pandemia ser um flagelo menor, é a de que a Espiritualidade amiga nos está dando uma oportunidade única para que sem a chegada de um vírus destruidor como o da gripe espanhola, um flagelo maior, nós nos solidarizemos verdadeiramente, unamo-nos mais; vejamos que somos todos iguais, ricos ou pobres, em qualquer cor de pele, pois o vírus a todos ataca de igual maneira.

É claro que os mais abastados financeiramente podem ter um hospital melhor, mas o ataque do vírus é igual, independente de classe social. Isso deveria ter servido como uma chamada de atenção a todos nós. Deveríamos ter aproveitado mais esta oportunidade para estreitar a convivência com nossa família direta, sentirmos mais a importância de um abraço, de estarmos junto com nossos filhos, nossos pais e avós. Deveríamos estar aproveitando mais este tempo em família para refazer planos, repensar nossa vida e nossos valores. Os governantes deveriam ter visto que a oportunidade lhes foi dada para que diferentes governos se unissem contra um inimigo comum e promovessem uma luta integrada para o desenvolvimento de uma vacina universal possível a todos os cidadãos do mundo. Certamente, o custo financeiro e de recursos humanos teria sido muito menor e a eficácia e rapidez de seu desenvolvimento seriam bem maiores e mais rápidas.

O Presidente Carlos Alvarado, da Costa Rica, foi um dos poucos chefes de Estado que em um momento de lucidez e compreensão, disse-nos: “A pandemia COVID-19 mostrará um antes e um depois na história da humanidade, não só em termos de nossos sistemas de saúde, mas também para trabalharmos juntos e para as relações entre as pessoas, porque apesar da crise que enfrentamos, temos uma oportunidade de tomar decisões conjuntas que mudarão para sempre o futuro da população mundial a curto e médio prazo”.

E a escritora indiana Arundhati Roy foi muito esclarecedora quando disse: “Historicamente, as pandemias forçaram os humanos a romper com o passado e imaginar seu mundo novo. Esta não é diferente. É um portal, uma passagem entre um mundo e o outro. Podemos escolher caminhar por ele, arrastando as carcaças de nosso preconceito e ódio, nossa avareza, nossos bancos de dados e ideias mortas, nossos rios mortos e céus esfumaçados para trás. Ou podemos caminhar com leveza, com pouca bagagem, prontos para imaginar outro mundo. E prontos para lutar por isso.”

Mas tal não ocorreu. Houve muita solidariedade sim, mas foram pontuais e não institucionais. Os governos e os governantes mundiais e os grandes laboratórios não se uniram; não houve a solidariedade esperada pela Espiritualidade, e o egoísmo e a busca de lucros que uma possível vacina irá proporcionar, foram o leit-motiv que estão por trás das ações que vemos pelos periódicos. O Papa Francisco, mostrando sua frustração e desapontamento,disse-nos recentemente: “Seria muito triste se a prioridade da vacina COVID-19 fosse dada aos mais ricos. Seria triste se essa vacina se tornasse propriedade desta nação ou de outra, em vez de universal e para todos. A pandemia revelou a difícil situação dos pobres e a grande desigualdade que reina no mundo”.

Nós, espíritas, por nossa vez, aproveitamos esta pandemia para falar dos sinais de um planeta de regeneração que está em gestação. Mas uma pergunta não se cala: será que nós estamos aproveitando esta oportunidade para realmente repensarmos nossas ações e, assim sendo, podermos sair desta crise mais leves e mais propensos a perdoar e tolerar? Será que a lição deixada por Jesus de caminhar uma milha a mais, de fazer sempre um pouco mais, está sendo aproveitada e será aproveitada após a pandemia? Ou teremos que esperar por uma segunda, terceira, quarta onda cada vez mais danosa desse vírus, ou outro mais grave, para finalmente acordarmos?

Se os governantes querem sua reeleição a qualquer custo, se os laboratórios buscam seus lucros abusivos, tudo isso é problema deles.

Agora, se nós não fizermos a nossa parte, aproveitando este tempo para que saiamos dele melhores seres humanos, verdadeiramente, o problema único e exclusivamente nosso. É o momento para uma grande reflexão! Creio que vale nos lembrarmos das palavras do Espírito de Verdade, no Evangelho segundo o Espiritismo: “Trabalhemos juntos e unamos os nossos esforços, a fim de que o Senhor, ao chegar, encontre acabada a obra”, porquanto o Senhor lhes dirá: “Vinde a mim, vós que sois bons servidores, vós que soubestes impor silêncio aos vossos ciúmes e às vossas discórdias, a fim de que daí não viesse dano para a obra!” Mas ai daqueles que, por efeito das suas dissensões, houverem retardado a hora da colheita, pois a tempestade virá e eles serão levados no turbilhão!”

Esta pandemia está propiciando oportunidades imensas para que possamos repensar nossas ações. Portanto exercitemos o silêncio em relação aos nossos ciúmes e às nossas discórdias. Por que nos determos em nossos egoísmos e preconceitos? Por que não aproveitarmos este tempo? Jesus tem pressa!

(*) Espírita de Viena, Áustria.

(Transcrito de: Notícias do Movimento Espírita, 11/0/2020; http://www.noticiasespiritas.com.br/2020/SETEMBRO/11-09-2020.htm)

Valorização da vida e o setembro amarelo

Valorização da vida e o setembro amarelo

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A certeza de que somos espíritos reencarnados e em processo de educação favorece a compreensão da oportunidade da vida corpórea e do cultivo dos valores espirituais. Em O livro dos espíritos já se definia: “Qual o primeiro de todos os direitos naturais do homem? – O de viver. Por isso é que ninguém tem o de atentar contra a vida de seu semelhante, nem de fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal” (questão 880).

Nos livros psicografados há inúmeros comentários sobre o tema assinados por milhares de espíritos, como André Luiz, sobre o valor da vida corpórea: “O corpo é o primeiro empréstimo recebido pelo Espírito trazido à carne” (Vieira, W. Conduta Espírita, cap. 34. FEB); e também “A reencarnação é o meio, a educação divina é o fim” (Xavier, F.C. Missionários da Luz, cap. 12. FEB). A partir dessas fundamentações espirituais, torna-se interessante considerarmos o que representa o Espírito nos contextos íntimo e social; o equilíbrio entre corpo/espírito e melhores condições de vida. Esta última também inclui, evidentemente, o respeito e a valorização da vida corpórea.

No livro Em Louvor à Vida (Ed. LEAL), que elaboramos em parceria com o médium Divaldo Pereira Franco, com base em textos espirituais de nosso tio Lourival Perri Chefaly, destacamos um trecho: “Saúde e doença – binômio do corpo e da mente – são conquistas do ser, que deve aprender e optar por aquela que melhor condiz com as aspirações evolutivas, desde que a harmonia ideal será alcançada, através do respeito à primeira ou mediante a vigência da segunda.” Evidentemente que aí se incluem as causas e a profilaxia dos vários problemas que caracterizam desrespeito à vida. Ou seja, as medidas preventivas para se evitar quaisquer formas de interrupção da vida, incluindo o suicídio, o aborto, a eutanásia, e, sendo sempre importante o diagnóstico médico precoce de doenças, evitando-se que elas sejam reconhecidas em situações tardias e danosas.

Em recente programa “Um olhar para a vida”, do Canal Eudes Veras, em parceria com Rede Amigo Espírita e Estação Dama da Caridade Benedita Fernandes (https://youtu.be/8PR4ESJkJ9E), citamos alguns exemplos de valorização da existência corpórea de vultos conhecidos. Benedita Fernandes, pioneira espírita em Araçatuba, ao ser liberada da chamada “loucura”, que era uma forte e persistente obsessão, superou-se e se transformou na conhecida “dama da caridade”, dedicando sua vida em favor do próximo. Chico Xavier desencarnou aos 92 anos de idade, e ao longo de sua existência aceitou e submeteu-se a vários tratamentos médicos, a cirurgias e os cuidados pós-enfarte. Divaldo Pereira Franco, aos 93 anos de idade, há pouco tempo exemplificou ao se submeter a delicada cirurgia de coluna vertebral para possibilitar a continuidade de seu trabalho de difusão do bem.

Por oportuno, no mês de Setembro, que é chamado de amarelo, a cor que lembra o Sol, verão, prosperidade, felicidade e desperta a criatividade, é interessante a utilização da temática no meio espírita.

Daí a importância dos estudos, palestras e seminários que possam chamar atenção para a defesa da vida, no sentido de se valorizar a existência corpórea e o processo de educação espiritual.

(Foi dirigente espírita em Araçatuba; presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e da Federação Espírita Brasileira).

 

Rede Amigo Espírita assinala uma façanha histórica

Rede Amigo Espírita assinala uma façanha histórica

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

A “Rede Amigo Espírita” (RAETV) produziu um marco histórico – autêntica façanha -, não apenas para o movimento espírita brasileiro, mas mundial. A RAETV, com apoio de Zook Comunicação, e várias parcerias de webTVs e webRádios e concretizou o maior evento on line, durante dois dias – 22 e 23 de agosto de 2020 -, e com um objetivo nobilíssimo: em homenagem aos 110 anos de nascimento de Chico Xavier, contando com a coordenação do incansável José Aparecido dos Santos.

Pela primeira vez, no movimento espírita, aconteceu um grande evento on line com acesso livre, totalmente gratuito, e voluntário com 24 horas de duração, intercalando palestras, bate papos e músicas, reunindo convidados especiais e com transmissão simultânea em diversos canais.

No final da noite do último dia do evento, dia 23 de agosto, havia um total de 408.036 visualizações referentes apenas à RAETV, sem contar as parcerias (somando-se: 320.200 Youtube 1 + 8.276 Youtube 2 + 74.600 Facebook + 4.960 instagram). No terceiro dia após o evento já se atingia 490 mil visualizações das mídias da RAETV. Inclusive as apresentações se encontram disponíveis no You Tube da Rede Amigo Espírita.

Os expositores convidados foram pessoas que se inspiram na vida e obra de Chico Xavier, e que estão levando a sua mensagem para a literatura, a arte, a ciência, o cinema, o teatro e a música.

Eis os palestrantes: Carlos Alberto Braga Costa, Rossandro Klinjey, Rafael Papa, Gustavo Gandolfi, Simão Pedro, Marcel Souto Maior, Saulo César, Wagner de Assis, Renato Pietro, Magali Bischoff, Célia Diniz, Wagner Paixão, Antonio Cesar Perri de Carvalho, Alberto Almeida, Décio Iandoli Jr., Suely Caldas Schubert, Heloísa Pires, Eliana Barbosa, Quincas Veloso, Aluízio Elias, André Trigueiro. Além de palestras, Marcel Souto Maior e Antonio Cesar Perri de Carvalho também integraram bate-papos. Atuações artísticas: Cacá Resende, Anatasha Mekena, Fábio Júnior, Evandro Olivah, Plínio Oliveira.

Conhecemos José Aparecido dos Santos há décadas, pois nossa cidade natal Araçatuba, onde atuamos no movimento espírita até 1989, é muito próxima de Auriflama onde nosso amigo milita em centro espírita, local onde surgiu a Rede Amigo Espírita.

Quando ele criou a RAETV, em fevereiro de 2009, de forma amadora e muito simples, ninguém poderia imaginar o desenvolvimento que teria. Na época residíamos em Brasília, mas começávamos a notar o crescimento da Rede, encontrando com José Aparecido em alguns eventos, fomos nos surpreendendo com o desenvolvimento da sua abrangência e acompanhamos o aparecimento de voluntários que faziam parceria, de várias partes do Brasil.

Precisamos assinalar que a RAETV surgiu de forma diferente, sem ser “a galinha dos ovos de ouro”, com a persistência desmedida e simpatia de seu fundador foi conquistando espaço no meio espírita. Muitos companheiros idealistas o auxiliaram no anonimato.

Em alguns momentos chegamos a testemunhar que algumas mídias o segregavam e criavam dificuldades para suas transmissões em eventos. No fundo, alguns gostariam de influenciar ou até exercer uma certa censura nos programas e convidados da RAETV. José Aparecido abriu espaços para inúmeros expositores e eventos, ao passo que a chamada mídia institucional, geralmente se vincula a linhas de pensamento de dirigentes que, nem sempre são representativos reais do movimento.

Mais recentemente que as chamadas redes sociais passaram a exercer, inclusive no meio espírita, uma veiculação mais independente e com diversidade. O Brasil, pela condição continental, amálgama de imigrações e natural variedade cultural, apresenta diversidade em todas áreas do conhecimento e de manifestações de seu povo.

Ao final do marcante evento “Amigo Espírita Chico Xavier”, os antigos colaboradores da RAETV fizeram uma homenagem surpresa a José Aparecido dos Santos, coordenador do histórico encontro virtual. Em seguida, Márcio Monteiro divulgou um vídeo de reconhecimento ao fundador da Rede.

De nossa parte também acrescentamos o nosso reconhecimento ao valoroso companheiro e a toda equipe de voluntários da Rede Amigo Espírita pela dedicação à difusão do Espiritismo e, especificamente, pelo bem sucedido evento alusivo a Chico Xavier!

(*) Foi dirigente espírita em Araçatuba; ex-presidente da USE-SP e da FEB; ex-membro da Comissão Executiva do CEI; atualmente colaborador de instituições em São Paulo.