O filme “Divaldo – O Mensageiro da Paz”

O filme “Divaldo – O Mensageiro da Paz”

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Lançado nos cinemas no dia 12 de setembro, o filme "Divaldo – O Mensageiro da Paz” focaliza as primeiras décadas da trajetória do médium e orador Divaldo Pereira Franco.

O filme foi produzido pela Estação da Luz e dirigido por Clóvis Mello. Três atores – uma criança, um jovem e um adulto jovem – fizeram o papel de Divaldo desde sua infância em Feira de Santana até aproximadamente o final dos anos 1960.

Focaliza o início do fenômeno mediúnico ainda na infância, o apoio que recebeu de uma médium de Salvador e, na sua adolescência, ele se muda para Salvador, é levado a um Centro Espírita onde aprende a lidar com sua mediunidade. A partir daí surge a fundação do Centro Espírita Caminho da Redenção, no bairro da Calçada. O filme destaca o início das atividades de oratória e exibe as ações filantrópicas junto a comunidades carentes e a implantação da ação educacional na criação de crianças abandonadas e órfãs. Em função disso foi criada a Mansão do Caminho, ainda anexa ao Centro. O filme encerra após a desencarnação de sua genitora dona Ana Franco, momentos em que Divaldo já havia iniciado a publicação de livros psicográficos, a partir da obra “Messe de Amor”.

Esse filme desenvolve oportunas considerações doutrinárias e dá foco no papel da orientadora espiritual Joanna de Ângelis.

Após cumprirmos roteiro de viagens para palestras, juntamente com a esposa e casal amigo, conseguimos assistir ao filme neste final de semana, justamente para prestigiar os primeiros dias exibição.

Apreciamos o enredo e a filmagem e nos recordamos de muitas informações da época retratada.

Conhecemos Divaldo Pereira Franco num evento jovem interestadual – a COMBESP -, sediado em nossa terra natal, Araçatuba (SP), em abril de 1962. A partir do encontro inicial tivemos seguidos contatos pessoais e por correspondência com Divaldo. Durante 30 anos Divaldo se hospedou em Araçatuba na residência de nossa genitora e no nosso lar.

Acompanhamos o surgimento dos livros desde o inicial – “Messe de Amor” (1964). Visitamos suas obras em Salvador em várias oportunidades. Na primeira delas, em 1972, o Centro Espírita Caminho da Redenção funcionava no bairro da Calçada, próximo ao centro da cidade. A Mansão do Caminho era muito menor do que a atual e ainda existiam as casas com as crianças e as tias.

Em função desses momentos, acompanhamos as notícias sobre os últimos anos da existência física de sua genitora.

Em parceria com Divaldo elaboramos uma obra com frases – em ordem alfabética – do espírito Joanna de Ângelis – “Repositório de Sabedoria”, em dois volumes – e também “Em Louvor à Vida”, com mensagens de um tio nosso e recentemente reeditado pela Editora LEAL. Como presidente da USE-SP participamos da organização do livro editado por esta Entidade: “Diálogo com Dirigentes e Trabalhadores Espíritas”; na condição de diretor da FEB, atuamos como um dos organizadores do livro “Em Nome do Amor. A Mediunidade com Jesus”, editado pela FEB.

Depois desses períodos, estivemos com Divaldo em inúmeros eventos no Brasil e no exterior, culminando com as homenagens que ele recebeu na Câmara dos Deputados, inclusive com o lançamento do movimento “Você e a Paz” naquele recinto e na sede da FEB, inauguração de exposição sobre Divaldo na FEB, em momento em que éramos o presidente da Federação Espírita Brasileira, em novembro de 2014.

O filme sobre Divaldo deve ser prestigiado pelo movimento espírita.

(*) Ex-presidente da USE-SP e da FEB.

UNIÃO – MAIS DE UM SÉCULO DE EXPERIÊNCIAS

UNIÃO – MAIS DE UM SÉCULO DE EXPERIÊNCIAS

O mundo conturbado pede, efetivamente, ação transformadora

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O presente artigo sintetiza nossa palestra na abertura do Encontro Comemorativo dos 70 anos do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita (São Paulo, 20/10/2018).1

Bezerra de Menezes alimentou o ideal de união. Após sua desencarnação (11/04/1900) surgem marcantes ações do presidente Leopoldo Cirne (gestão 1900-1913), eficiente administrador e impulsionador da divulgação das obras do Codificador.1,2

Cirne reformulou os estatutos da FEB, em assembleia realizada em 05/11/1901, retirando os poderes discricionários concedidos a Bezerra, pois este assumiu em época de crise no ano de 1895, e eliminando a cláusula que recomendava o estudo das obras de J.B. Roustaing. Cirne considerava que esta cláusula prejudicava a união da família espírita em torno da FEB.1,3

Leopoldo Cirne promoveu o I Congresso Espírita, em homenagem ao Centenário de nascimento de Allan Kardec, com a participação de mais de duas mil pessoas, de 1o a 3/10/1904, quando apresentou o trabalho Bases da Organização Espírita, que passou a orientar a ação de união dos espíritas, estimular a fundação de Federações Estaduais e filiar diretamente os centros. A nosso ver este é o marco dos esforços institucionais iniciais de união. Em 1904, existiam apenas duas federativas: a do Paraná e a do Amazonas.2,3

A primeira entidade federativa paulista, a União Espírita do Estado de São Paulo, fundada por Antônio Gonçalves da Silva – Batuíra, em 24/5/1908, foi inspirada no documento Bases da Organização Espírita.1 Com a saída de Cirne da FEB em fevereiro de 1914 ocorreram revisões e um certo retrocesso em relação às ações do citado presidente. Distanciado de instituições, Cirne defendia Kardec como ponto de união e lamentava que muitas lideranças não estariam compreendendo uma nova fase do movimento espírita.2,3

Em face das crescentes insatisfações desenvolveu-se um movimento para se discutir o Espiritismo no Brasil e efetivou-se o Congresso Constituinte Espírita Nacional em março de 1926, no Rio de Janeiro, criando-se uma federativa nacional, a Liga Espírita do Brasil, tendo como órgão máximo a Assembleia Espírita do Brasil.1,2

Naquela época ocorria intensa movimentação no Estado de São Paulo, com experiências no interior: aos 15/03/1931, em reunião realizada em São Carlos (SP) Cairbar Schutel fundou a Associação Espírita de Propaganda do Estado de São Paulo, com finalidade claramente federativa, contando com representantes de 83 instituições4; Benedita Fernandes, aos 30/08/1942 criou a União Espírita Regional da Noroeste em Araçatuba (SP).5

Na Capital formaram-se quatro instituições federativas: Sinagoga Espírita Nova Jerusalém, União Federativa Espírita Paulista, Federação Espírita do Estado de São Paulo e Liga Espírita do Estado de São Paulo. Nesse contexto, aconteceu o 1o Congresso Espírita do Estado de São Paulo, realizado em São Paulo de 1o a 5/6/1947, com a presença de 551 instituições. As entidades patrocinadoras acima citadas abriram mão da ação federativa e foi criada a União Social Espírita; depois denominada União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, a única federativa fundada como decisão plenária de um Congresso Estadual.1,6,7

O ano de 1948 registrou importantes eventos jovens: a Concentração de Mocidades Espíritas do Brasil Central e Estado de São Paulo – COMBESP, reunindo jovens de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e depois o Distrito Federal (Brasília); um certame autônomo que foi um celeiro para formação de expositores e lideranças e repetido anualmente em rodízio por várias cidades destes Estados até 1966.1,2 Liderado por Leopoldo Machado, de Nova Iguaçú (RJ), foi realizado o 1o Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil (Rio de Janeiro, 17 a 25/7/1948), constituindo-se o Conselho Consultivo de Mocidades Espíritas do Brasil.1,2

A essa altura já se planejava por idealistas da USE-SP a realização do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita. Ocorreu em São Paulo de 31/10 a 5/11/1948, com apoio e atuação de dirigentes das Federações Espíritas do Rio Grande do Sul, Paraná e a Catarinense; União Espírita Mineira; Liga Espírita do Brasil; Conselho Consultivo das Mocidades Espíritas do Brasil; Lar de Jesus de Nova Iguaçú (RJ); Centro Espírita de Cuiabá; pessoas com procurações de instituições de Sergipe, Bahia, Pará, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte e várias lideranças.1,7

Para esse evento foi destinada a primeira psicografia de Chico Xavier sobre união, “Em nome do Evangelho”, por Emmanuel, dirigida aos seus participantes e organizadores. O último parágrafo é marcante: “O mundo conturbado pede, efetivamente, ação transformadora. […] unamo-nos no mesmo roteiro de amor, trabalho, auxílio, educação, solidariedade, valor e sacrifício que caracterizou a atitude do Cristo em comunhão com os homens, servindo e esperando o futuro, em seu exemplo de abnegação, para que todos sejamos um…” 1,2,7

A Comissão de Teses do Congresso, entre outros itens, concluiu: “Promover entendimentos com as entidades máximas e federativas dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios, ao sentido de consertar a forma de unificação direcional do Espiritismo; […] O poder legislativo nacional será exercido por um Conselho Confederativo, sediado na Capital da República, e composto de um representante de cada Estado, do Distrito Federal e dos Territórios, eleitos pelas uniões ou federações dessas circunscrições, com mandato de cinco anos.”1,7

A proposta não foi recepcionada pelo presidente da FEB. Por ocasião do 2o Congresso da Confederação Espírita Pan-americana, realizado pela Liga Espírita do Brasil em outubro de 1949, no Rio de Janeiro, compareceram líderes de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pará, e do Rio de Janeiro (então Distrito Federal), e, repentinamente ocorreram entendimentos com o presidente da FEB, Wantuil de Freitas. Alguns líderes que participavam deste Congresso compareceram à sede da FEB, para uma reunião com seu presidente e diretores. Após reiterarem a proposta para uma Confederação ou Conselho Superior do Espiritismo, novamente rejeitada por Wantuil de Freitas e por diretores da FEB, este apresentou outra proposição com dezoito itens, com os princípios para a união e unificação do Movimento Espírita, e com detalhamentos complementares para o funcionamento do Acordo. Houve aceitação da proposta pelos presentes.1,2,7 Esse Acordo foi registrado como Grande Conferência Espírita do Rio de Janeiro, também chamado “Acordo de Cavalheiros” e cognominado por Lins de Vasconcellos como “Pacto Áureo”.2

Com base nesse “Pacto” foi instalado em 1o/1/1950 o Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira (CFN), dirigido pelo presidente da FEB e que vem funcionando ininterruptamente, com representantes das federativas de todos Estados.1,2 Ainda em 1950, efetivou-se a “Caravana da Fraternidade” com a finalidade de divulgar os objetivos da unificação e colher adesões de onze estados do Norte e do Nordeste ao “Pacto Áureo”. Era integrada por representantes de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro; depois juntando-se um representante de Pernambuco. Ao final visitaram Chico Xavier, em Pedro Leopoldo (MG), e receberam duas mensagens psicográficas. Leopoldo Machado fez todos registros, publicados na forma de livro: A caravana da fraternidade.1,2

Vários anos depois, Carlos Jordão da Silva relembrou os bastidores do “Pacto Áureo” em entrevista para o Anuário Espírita 1974: “Após as reuniões do Congresso Pan-americano e recolhidos todos os participantes das delegações em seus respectivos hotéis, cerca de uma hora da manhã, resolvemos sair para tomar um pouco de ar e dirigimo-nos para determinada praça próxima ao nosso hotel e para a nossa surpresa todas as delegações foram chegando ao mesmo local, como que convocadas por forças invisíveis. Achamos graça por ter o Plano Espiritual nos reunido daquela forma e aquela hora da madrugada e ali mesmo marcamos uma reunido para as 8 horas da manhã, no Hotel Serrador, onde estávamos hospedados, eu e minha Senhora, e, realizada tal reunido, incumbiu-se Artur Lins de Vasconcellos Lopes a tarefa de aproximar-se da FEB para promover o encontro.”1,2,7

Ao analisar, item a item, o “Pacto Áureo” em nosso livro União dos espíritas1,2 concluímos que o “Pacto” deve ser revisto pois seu texto está superado, devendo-se citar explicitamente a fundamentação em todas obras básicas de Allan Kardec e eliminar vários itens operacionais que podem ter sido adequados para os momentos iniciais, mas atualmente não são aceitáveis. Em nosso entendimento e experiência, o “Pacto Áureo” é importante referencial histórico, mas deve ser revisto para aplicação mais adequada, considerando-se o contexto atual do movimento espírita, os textos sobre o tema alinhavados pioneiramente pelo Codificador e outros de autoria dos espíritos Bezerra e Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier.2

Ao finalizar, cabe a reflexão com que encerramos o livro União dos espíritas2, tendo como sub-título: Para onde vamos?

Referências:

1) Palestra – 70 anos do CBUE e Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita. Arquivos digitais no site: www.usesp.org.br (em Documentos/Documentação histórica).

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? 1.ed. Capivari: Ed. EME. 2018.

3) Cirne, Leopoldo. Antichristo. Senhor do Mundo. 1.ed. 2a Parte. Rio de Janeiro: Bedeschi. 1935. Edição digital: http://luzespirita.org.br/leitura/pdf/L163.pdf

4) Monteiro, Eduardo Carvalho; Garcia, Wilson. Cairbar Schutel – o bandeirante do Espiritismo. Matão: O Clarim. 1986.

5) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Benedita Fernandes – a dama da caridade. Araçatuba: Ed.Cocriação/USE Regional de Araçatuba. 2017.

6) Anais do 1o Congresso Espírita do Estado de São Paulo. São Paulo: USE. 1947.

7) Monteiro, Eduardo Carvalho; D’Olivo, Natalino. USE – 50 anos de unificação. São Paulo: USE. 1997.

— O autor foi presidente da FEB, da USE-SP e membro da Comissão Executiva do CEI.

 

(Transcrito de: Revista Internacional de Espiritismo. Matão, Setembro de 2019.P. 404-406).

A GRANDE IGNORÂNCIA SOBRE BÍBLIA E ESPÍRITOS

A GRANDE IGNORÂNCIA SOBRE BÍBLIA E ESPÍRITOS

José dos Reis Chaves (*)

O cristianismo, erradamente, vem ensinando que todo espírito manifestante é mau. A exceção é dos Espíritos de Deus e de Jesus.

E, com a instituição da Santíssima Trindade, oficializada e transformada em dogma no Concílio Ecumênico de Constantinopla (381), é claro que o Espírito Santo dela é também visto como bom.

Mas, como os leitores dessa coluna já sabem, pela Bíblia, ele é uma espécie de substantivo coletivo que designa todos os espíritos humanos. “Não sabeis vós que vós sois templo de um espírito santo…?” (1 Coríntios 6: 19). Observe-se que Deus é um, e o espírito santo é outro. Quando Paulo disse isso, os teólogos ainda não tinham instituído a Trindade e nem a ele.

Respeitemos os chamados padres da Igreja e suas ideias teológicas, mas eles não eram infalíveis. E quem não concorda com o fato de que os teólogos de hoje sabem mais sobre Deus do que eles? E os teólogos antigos, mesmo os que tenham sido santos e até canonizados pela Igreja, eram seres humanos imperfeitos como todos nós o somos. E, portanto, tinham também seu ego aflorado, com sua vaidade e seu orgulho, pois todos que estamos reencarnados aqui nesse nosso mundo somos dominados pelo nosso ego.

Em outras palavras, como se diz, todos nós temos culpas no cartório! Além do mais, no passado longínquo, a Igreja era unida com os imperadores que davam apoio às ideias que os teólogos dela criavam. Eu me referi a ela, porque, naqueles tempos, só ela existia. Mais tarde, os protestantes tiveram também apoio de reis, e eles até tiveram, igualmente, suas fogueiras inquisitoriais.

O espanhol Miguel Servet (1511-1553), teólogo, médico e advogado, morreu na fogueira, por ordem de Calvino, por dizer que a Trindade era até uma blasfêmia contra Deus. Se os teólogos do passado, com sua teologia, cometeram o absurdo de aceitar o erro da Inquisição, como coisa correta e não um erro e, pois, agradável a Deus, não nos é surpreendente que tivessem também mais outras ideias erradas como se fossem verdades intocáveis e até inspiradas por Deus!

E foi com ideias filosófico-teológicas semelhantes às que inspiraram a Inquisição, que consideraram todos os espíritos manifestantes como sendo demônios maus, quando demônios (“daimones”, no grego da Bíblia – NT) e no grego das demais obras escritas nos mesmos tempos em que ela foi escrita, são as almas ou os espíritos dos desencarnados.

De acordo com essa visão errada dos teólogos sobre os espíritos humanos, é o caso de se lhes perguntar que Deus seria esse deles que só criou espíritos humanos maus? Mas o pior é que muitos líderes religiosos cristãos ignoram mesmo ou fingem que ignoram o que são demônios na Bíblia, e continuam ensinando erradamente esse assunto para seus fiéis. E isso, hoje, é o que é, realmente, a grande mentira sobre a Bíblia e os espíritos!

(*) Transcrito de: Coluna espírita semanal no diário O TEMPO, de Belo Horizonte, de José Reis Chaves: www.otempo.com.br

Justiça social não cobre em extensão o sentido de Caridade

Justiça social não cobre em extensão o sentido de Caridade

Wilson Garcia (*)

Justiça social é uma construção moral e política baseada na igualdade de direitos e na solidariedade coletiva. Em termos de desenvolvimento, a justiça social é vista como o cruzamento entre o pilar econômico e o pilar social. (Wikipédia)

Fez-se recentemente uma conjectura sobre a presença de Kardec reencarnado nos dias atuais, admitindo-se que, neste caso, ele possivelmente daria preferência ao termo Justiça Social em detrimento ao termo Caridade. Assim, teríamos “fora da justiça social não há salvação” em lugar de “fora da caridade não há salvação”.

Certamente, para que tal mudança ocorresse, teríamos de convir que também os Espíritos que assessoraram o codificador assim pensariam, de modo a ocorrer o que no século XIX aconteceu: a opção de Kardec pela definição do paradigma “fora da caridade não há salvação”.

Mas tal decisão, hoje, não teria por motivação a oposição ao que pregava, então, a Igreja Católica, que afirmava “fora da Igreja não há salvação”, uma vez que as lutas contemporâneas já não mais se concentram com igual força nas religiões, mas, sim, nos conflitos sociais, que por si mesmos são conflitos políticos e econômicos, em que o espectro social assenta-se nos extremos da injustiça e afrontam violentamente, por isso, a individualidade humana nos seus direitos mais simples.

Por mais que a justiça social interesse de perto a todos os homens de bem, que pelejam por uma sociedade justa e igualitária, humana e fraterna, livre e solidária, há um sentido, um significado na expressão Caridade, quando empregada por Kardec, que a coloca numa dimensão ampla, na qual a justiça social se torna um de seus indispensáveis aspectos. Ou seja, Caridade para Kardec não é uma mera palavra e nem o seu significado, então, se destinava apenas à oposição ao que pregava a Igreja.

Aliás, pode-se afirmar com segurança que este é um dos seus sentidos menos importantes, conquanto oportuno na época. Um estudo acurado vai mostrar que o termo Caridade no espiritismo possui uma dimensão cósmica, pelo que abarca não apenas as relações humanas na Terra como também em todo o Universo, no mundo visível e no invisível aos sentidos humanos. A palavra pode ser empregada a uma inumerável quantidade de valores e de práticas, de sentimentos e ações, de relações naturais e culturais. É termo que expressa com perfeição a harmonia presente no Cosmos, entre os mundos, pois que estando configurado expressa, ipso facto, a completude, ou seja, as relações dos seres inteligentes entre si e com a natureza.

À sua ausência por conta da passageira imperfeição humana, ela continua presente, mas então incompleta. As injustiças sociais são indicativos da ausência da Caridade.

Os sistemas econômicos e políticos incapazes de trazê-la ao cenário da vida humana resultam nas desigualdades, na falta de solidariedade, de convivência fraterna, na brutalidade dos sentimentos, nos sistemas de dominação, no bloqueio da liberdade, enfim, nos direitos humanos negados.

Mas a ausência da Caridade aponta, também e de primeiro turno para o baixo nível de consciência dos indivíduos que implantam e mantêm esses sistemas políticos e econômicos, explicitando o deplorável estado de sofrimento a que o ser humano é submetido.

No quadro atual da evolução do nosso planeta, empunhar a bandeira da Justiça Social é dever e direito dos cidadãos já devidamente colocados na trilha da conquista da Caridade, sob o estímulo de sentimentos sublimes. Negar à Justiça Social o seu valor e importância é mostrar-se distante da verdadeira consciência que a Caridade invoca.

A Caridade é, pois, conquista do espírito imortal. Ela não pertence a nenhum sistema filosófico, político, econômico, menos ainda a qualquer religião. A Caridade é apanágio do homem de bem e este não pertence a nada, senão a si mesmo. Os sistemas justos que a compreendem, dão-lhe o impulso para derrubar as barreiras da incompreensão instalados nos seres e nas sociedades egoístas. A Caridade, contudo, penetra cada vez mais nas consciências em expansão, pois é ela que indica o caminho sonhado da paz.

Kardec compreendeu isso nas suas reuniões com os Espíritos da codificação, ao indicar a dimensão cósmica da Caridade. Factualmente, entendeu que “fora da Caridade não há salvação”, mas ao fazê-lo sabiamente não circunscreveu a Caridade nos limites condicionantes da Igreja, nem mesmo ao significado temporário da salvação. Seu olhar estava fixado além dos contornos do Planeta ao perceber que a verdade se assenta no fato de que a Caridade é o caminho da paz e da inconteste felicidade.

É de se crer, portanto, que os mundos superiores, onde paz e felicidade são estados naturais da vida em permanente evolução, coisas como Justiça Social já não constituem mais ideal, senão realidade, uma vez que participam da dimensão maior da Caridade.

(*) – Artigo transcrito de “Expediente-on-line”:

https://www.expedienteonline.com.br/justica-social-nao-cobre-em-extensao-o-sentido-de-caridade/

Pacto Áureo – e agora depois de 70 anos?

Pacto Áureo – e agora depois de 70 anos?

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

De início são cabíveis algumas informações históricas suscintas, pois a maioria dos espíritas podem não ter conhecimento.

O documento que agora completa 70 anos foi assinado na chamada Grande Conferência Espírita do Rio de Janeiro, aos 5 de outubro de 1949 na sede da FEB, embora tenha sido uma reunião de quase duas dezenas de pessoas. O evento depois foi designado como “Pacto Áureo”. Esta reunião propriamente dita não estava programada e ocorreu simultaneamente a um Congresso Espírita Pan Americano que acontecia no Rio de Janeiro, e que contava com a atuação de lideranças do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Estes dirigentes tinham propostas emanadas do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, ocorrido em 1948 em São Paulo.

Houve uma negociação para serem recebidos pelo presidente da FEB Wantuil de Freitas. No transcorrer da imprevista reunião o presidente da FEB apresentou uma proposta que foi aprovada pelos presentes “ad referendum” das Sociedades que representavam. Foi um momento marcante dentro do cenário das dificuldades da época para a união. Claramente foi o documento possível para o momento. No retorno a seus Estados, alguns dos líderes foram questionados, principalmente em São Paulo porque o documento assinado diferia em muito das propostas aprovadas em plenário no Congresso Brasileiro de Unificação Espírita. O Pacto Áureo criou o Conselho Federativo Nacional da FEB e depois a “Caravana da Fraternidade”.1,2

Nas evocações históricas e festivas alusivas ao Pacto Áureo, não se faz uma análise sobre o texto, levando-se em consideração o contexto em que foi elaborado, a experiência vivida nesse ínterim e realizando-se um cotejo com a realidade atual do movimento espírita de nosso país. O valor histórico do Pacto Áureo é inquestionável, é um marco, mas nessas sete décadas ocorreram inúmeras e profundas transformações no contexto social e político de nosso país, e, o movimento espírita brasileiro viveu um grande desenvolvimento, amadurecimento e diversificações de atuação.

Atualmente há necessidade de uma análise desse documento histórico que apresenta a falta de atualidade de seus itens e mantém detalhamentos provavelmente adequados apenas àqueles momentos da assinatura. Depois de analisar detidamente o “Pacto Áureo” item a item em nosso livro União dos espíritas. Para onde vamos? concluímos: “Em nosso entendimento e experiência, com os apontamentos acima expressos, o texto do ‘Pacto Áureo’ está superado. Imaginemos um dirigente que, ao ler o citado documento, resolva colocar em prática ‘ao pé da letra’ o que está definido em seus artigos. O ‘Pacto Áureo’ é um importante referencial histórico, mas não é mais aplicável na atualidade.”1

Destacamos que o Pacto Áureo não se fundamenta nas Obras Básicas do Codificador, e, sem nenhum juízo de nossa parte à obra, explicita apenas o livro Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Em nosso livro acima citado consideramos as hipóteses que determinaram tal opção por parte do proponente, o presidente da FEB. A primeira questão a ser levantada é sobre o Artigo 1o do “Pacto Áureo”: “Cabe aos Espíritas do Brasil porem em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo.”1

Há necessidade de se citar e valorizar as cinco obras básicas do Codificador!

Então fica flagrante uma incoerência, pois as Federativas Estaduais são vinculadas ao Conselho Federativo Nacional da FEB, com base no “Pacto Áureo” e que não se fundamenta nas cinco Obras Básicas, mas, por outro lado, recomendam ou exigem em seus Estados que nos Estatutos dos centros espíritas adesos exista uma cláusula referente às Obras Básicas de Kardec:

“O Centro Espírita… fundado em… , neste Estatuto designado ‘Centro’, é uma organização religiosa, com duração indeterminada e sede na cidade de… , no endereço… , e que tem por objeto e fins: I – o estudo, a prática e a difusão do Espiritismo em todos os seus aspectos, com base nas obras de Allan Kardec, que constituem a Codificação Espírita.”1

Entendemos que dava existir coerência entre a vinculação federativa formal em nível nacional e as recomendações para as bases. Há outros itens do Pacto Áureo que não são do real conhecimento dos dirigentes de centros espíritas e que precisam ser substituídos, e que podem – ao pé da letra – dar margem a situações e até a condutas centralizadoras e interferencionistas.

Atualmente, a tradicional redação do Pacto Áureo é incoerente com os conceitos de união e de unificação que a Espiritualidade tem expressado ao longo das últimas décadas. O espírito Bezerra de Menezes é sempre muito enfático na valorização de Kardec. Haja vista a marcante mensagem “Unificação”, psicografada por Chico Xavier em 1963, e sempre reproduzida na seara espírita.1,2,3

Em mensagem pioneira sobre o tema e dirigida aos participantes do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita (São Paulo, 1948), destacou Emmanuel: “O mundo conturbado pede, efetivamente, ação transformadora. […] se faz impraticável a redenção do Todo, sem o burilamento das partes, unamo-nos no mesmo roteiro de amor, trabalho, auxílio, educação, solidariedade, valor e sacrifício que caracterizou a atitude do Cristo em comunhão com os homens, servindo e esperando o futuro, em seu exemplo de abnegação, para que todos sejamos um…”2

Mas Kardec tem palavras magistrais em seu último discurso: "O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral […], e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas."4

Consideramos o septuagenário “Pacto Áureo” um documento histórico, mas o mundo e o movimento espírita estão em outros tempos…

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? 1.ed. Capivari: Ed. EME. 2018. 144p.

2) Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita. São Paulo: USE. 191p. Edição em versão digital no site da USE: www.usesp.org.br; em Documentos/Documentação histórica.

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Desafio do momento. Revista Senda, FEEES, N.196, Ano 97, mar.-abr.2019, p.9.

4) Kardec, Allan. Trad. Noleto, Evandro Bezerra. O Espiritismo é uma religião? Revista Espírita. Dezembro de 1868. Ano XII. FEB. 2005.

(*) – Foi presidente da USE-SP e da FEB.

Assembleia da FEB retira Roustaing do Estatuto-Entrevista

Entrevista

Assembléia Extraordinária da FEB Brasília, DF

Por Ismael Gobbo

Foi realizada no último sábado, 10 de agosto, a da Assembleia Geral Extraordinária que aprovou alteração no seu Estatuto retirando o artigo que previa o estudo das obras de J.B.Roustaing. Cesar Perri que participou do importante evento nos explica sobre o encontro e o que nele foi decidido.

 

Redação: Qual o objetivo da Assembleia da FEB do dia 10 de agosto?

Perri: O presidente da FEB Jorge Godinho convocou Assembleia Geral Extraordinária para dar continuidade à análise de propostas que foram interrompidas por medida judicial na abertura de Assembleia realizada em outubro de 2003. Na época pretendia-se retirar a citação de estudos das obras de J.B.Roustaing num parágrafo único do Artigo 1 do Estatuto da FEB. Houve uma morosa tramitação e após o transitado e julgado a FEB ganhou a causa movida por Luciano dos Anjos. Então a FEB ficou liberada para alterar qualquer artigo de seu Estatuto.

Redação: Qual foi a decisão desta recentissima Assembleia Geral?

Perri: A Assembleia Geral aprovou as mudanças propostas pelo Conselho Diretor da FEB com apenas um voto contrário.

Redação: Então foi aprovada a reforma do Estatuto da FEB retirando-se a citação a Roustaing?

Perri: Sim. Na nova redação do Estatuto da FEB constará apenas as obras da Codificação e o Evangelho de Jesus. Foi criado um artigo definindo que o estudo de obras subsidiárias e coerentes com a Codificação será decisão do Conselho Diretor da FEB. Houve também atualização de finalidades da FEB como organização religiosa, e atendendo preceitos do Código Civil.

Redação: Quem votou na Assembleia Geral da FEB?

Perri: A Assembleia Geral da FEB é formada por sócios efetivos, pessoas físicas. Assinaram a Ata 59 sócios, sendo 13 por procuração.

Redação: Como estava o ambiente na Assembleia? 

Perri: Bem tranquilo Estavamos presente e bem atento. Houveram apenas duas manifestações sobre o artigo do Estatuto em análise. Mas apenas um voto contrário à nova redação. Ocorreram também contribuições num artigo relacionado com características de organização religiosa.

Redação: Então foi uma reunião histórica?

Perri: Sem dúvida. Era um antigo anseio do movimento espírita brasileiro. Em 2003 o então presidente Nestor Masotti tentou e a realização da Assembleia Geral foi suspensa por medida judicial. Estávamos presentes naquela Assembleia convocada e aberta na Sede Histórica da FEB no Rio de Janeiro. Testemunhamos o ambiente de frustração naquela oportunidade. O processo tramitou por mais de 11 anos. Em Encontro realizado em outubro de 2018 em São Paulo, comemorativo aos 70 anos do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, na palestra de abertura focalizamos a história da unificação e as dificuldades criadas pela insistência da FEB em Roustaing (*). Seguiram -se mesas redondas. A vice-presidente da FEB Marta Antunes estava presente e de público assumiu o compromisso de trabalhar pela convocação de Assembleia Geral da FEB. Tudo foi gravado e rapidamente divulgado junto à mídia. Agora houve o momento do importante passo histórico.

Redação: E o que fazer agora?

Perri: Valorizar e intensificar mais a Campanha Comece pelo Começo, criada pela USE-SP nos idos de 1975 e aprovada pelo Conselho Federativo Nacional da FEB em novembro de 2014.

 

(Publicação do BOLETIM DIÁRIO DE NOTÍCIAS DO MOVIMENTO ESPÍRITA. EDIÇÃO DE SEGUNDA-FEIRA, 12-08-2019: http://www.noticiasespiritas.com.br/2019/AGOSTO/12-08-2019.htm)

(*) ESCLARECIMENTO:

A comemoração citada pelo ex-presidente da FEB Antonio Cesar Perri de Carvalho foi promovida pela USE-SP nos dias 20 e 21 de outubro de 2018, em São Paulo. A palestra do entrevistado  – "70 anos do CBUE" e os Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita- estão disponível em arquivos digitais no site: www.usesp.org.br (em Documentos/Documentação histórica).

EXEMPLO DE RESSURREIÇÃO COMO REENCARNAÇÃO

EXEMPLO DE RESSURREIÇÃO COMO REENCARNAÇÃO

José Reis Chaves (*)

Na Bíblia, às vezes, a ressurreição quer dizer reencarnação, até mesmo porque as duas são do espírito e não do corpo. Temos dois corpos: um espiritual e um da natureza, e ressuscita o espiritual (1 Coríntios 15: 45).

Na coluna: “Também no Apocalipse a ideia da reencarnação”, de 15-7-2019, um comentarista confunde a doutrina milenar da reencarnação (palingenesia na Bíblia) com a data da criação dessa palavra reencarnação por Kardec. Mas pode ser que ele tenha feito isso de propósito, em defesa de sua descrença nela. Porém o que diz o tal de comentarista não é desimportante para mim, pois ele me deu chance de explicar com mais detalhes o assunto.

Essa palavra palingenesia aparece nos textos gregos bíblicos (Mateus 19: 28; e Tito 3: 5). E ela significa sim reencarnação e não geração, como está nas traduções da Bíblia do grego para o português e outras línguas.

Sugerimos, pois, aos queridos leitores desta coluna que consultem os dicionários de português e constatem que, de fato, palingenesia significa reencarnação, retorno à vida, viver de novo, ou ainda novo nascimento do espírito na terra. Ela, a palingenesia, é o tempo em que ocorre a regeneração, mas não a própria regeneração! E lembramos que ela, a palingenesia, tem, em português, a mesma forma do grego e o mesmo som, embora as letras gregas sejam diferentes das do alfabeto português e, também, geralmente o mesmo som.

Será que o tal de comentarista, que é erudito, desconhece essa verdade? Tito citado acima diz sobre nossa regeneração: “… isso não por obras em justiça, as quais fizemos nós, mas segundo sua misericórdia salvou a nós durante o lavar ou banho da palingenesia. (Para Jesus, a cada um será dado segundo suas obras). E a renovação é feita pelo Espírito Santo do indivíduo. Mas o texto foi truncado.

E o artigo ‘o’ diante do Espírito Santo está entre parênteses, em algumas traduções, exatamente porque ele não existe no texto grego. Na verdade, então, trata-se de ‘um’ espírito santo, ou seja, a alma, a centelha divina, o nosso espírito santo, que habita em nós. (1 Coríntios 6: 19), e que tem que ser por nós mesmos regenerado, purificado, durante o tempo da palingenesia ou da reencarnação.

Mas o objetivo principal desta coluna é demonstrar, como já foi dito, que, às vezes ressurreição na Bíblia é reencarnação (palingenesia).

Está no Apocalipse: “…eu vi também as almas dos decapitados… que não tinham adorado a besta… eles voltaram a viver, reinando com Cristo durante mil anos” (20: 4). “Os outros mortos não voltaram a viver, enquanto não terminaram os mil anos. Tal é a primeira ressurreição.” (20: 5). Há pessoas que não aceitam que, nesses claros textos apocalípticos, os espíritos que ressuscitam ou que voltam a viver estão reencarnando. Elas creem ou não na Bíblia?

(*) De: Coluna espírita semanal no diário O TEMPO, de Belo Horizonte, de José Reis Chaves: www.otempo.com.br

Comunicação espírita – alguns apontamentos

Comunicação espírita – alguns apontamentos (*)

Almir Del Prette (São Carlos, SEOB)

A comunicação é um processo fundamental da vida e ela tanto é produto como produtora de trocas importantes entre seres vivos, o que incluem vegetais (Wohlleben, 2017)1.

A expressão “comunicação espírita” sugere um tipo de comunicação entre indivíduos localizados em dimensões diferentes, designadas na literatura espírita por mundo espiritual e material, ou plano etéreo e físico, sendo os protagonistas referidos respectivamente por desencarnados e encarnados.

A comunicação é, em geral, um fenômeno complexo. A complexidade parece ser maior quando se trata da comunicação entre encarnados e desencarnados. Em analogia ao que ocorre entre as pessoas, podemos caracterizá-la por espontânea e arbitrada. No primeiro caso se refere à comunicação consentida, com pouca mediação de regras, como as conversas entre amigos, familiares, companheiros… No segundo, ela se processa mediada por regras bem definidas e às vezes por autoridades, por exemplo, interpelação judicial, reunião escolar, caso de compra e venda, consulta de atendimento etc.

A comunicação espírita também pode ter essas características. Alguma espontaneidade em um processo com pouca intermediação voluntária externa aos comunicantes ou as arbitradas. O primeiro tipo de comunicação se exemplifica pelas manifestações visíveis ou audíveis (parciais ou totais) ou audíveis (produção de sons como fala, música, ruídos etc.). Essas comunicações podem surpreender o encarnado ingênuo no assunto, porém Isto não significa que os comunicantes não tenham utilizado o concurso de algum médium, presente ou não no ambiente. A comunicação espírita arbitrada é a que se dá na sessão espírita, tanto a que ocorre pelo processo de evocação direta em que encarnados manifestam o desejo de que um espírito em particular compareça para um encontro, como na evocação não direta, em que nenhuma personalidade é previamente nomeada. A comunicação na sessão espírita, por evocação direta ou não é arbitrada.

O que significa um processo com um planejamento que ocorre nos planos, espiritual e físico. Tal planejamento incluem divisões de tarefas, normas sobre o funcionamento das comunicações, tempo e sequência das comunicações, regras de comportamentos esperados etc.

Na comunicação espírita pode se supor três condições: (a) afinidade; (b) aquiescência dos envolvidos; (c) autoridade. A afinidade não se restringe ao aspecto intelectivo (conhecimento e ideias), mas, também e principalmente, a certa similaridade vibratória A aquiescência diz respeito à aceitação/rejeição da presença e da mensagem da fonte. E a condição autoridade tanto pode ser moral e /ou instituída. A condição de autoridade da fonte exerce uma injunção sobre o emissor e o receptor, que podem resistir, mas não ignorá-la. O termo evocação comum na literatura espírita de Kardec foi objeto de certa estranheza por alguns em nosso movimento espírita. No entanto, Kardec em vários textos, por exemplo, O Céu e Inferno (2), O Livro dos Médiuns (3), O que é o Espiritismo (4) trata desse assunto. No francês (évocation, Dicionário Priberom)) como no português (evocação) o termo tem significado similar, incluindo a ideia de lembrança e chamado. Finalizando esses apontamentos é importante afirmar que a comunicação espírita pode ocorrer pela iniciativa de encarnados ou desencarnados, contudo, o processo e resultados obtidos dependem dos objetivos e da qualidade da interação entre os envolvidos.

(1) Wohllebeh, P. (2017). A vida secreta das árvores: o que elas sentem e como se comunicam. . Rio de Janeiro. Sextante.

(2) Kardec, A. (2008). O Céu e o Inferno. Araras (SP) IDE;

(3) Kardec, A. (2009). O livro dos médiuns. Brasília. Editora FEB;

(4) Kardec, A. (2009). O que é o Espiritismo. Brasília: Editora FEB.

(*) Extraído do Boletim Notícias do Movimento Espírita (Ismael Gobbo), de 26/7/2019.

70 anos em movimento espírita de unificação

70 anos em movimento espírita de unificação

Sirlei Nogueira (*)

O Espiritismo em Araçatuba está a caminho do Centenário.

A história da Doutrina Espírita na cidade começou em 21 de abril de 1921, com a fundação da União Espírita Paz e Caridade, mais conhecida por Abrigo Ismael, o trabalho de amparo a idosas.

A partir do último mês de abril (19 a 21) teve início o período de comemorações, exatamente dois anos antes. Nos meses de maio e junho o ritmo foi intenso. Em julho, o Espiritismo em Araçatuba continua a festa do Centenário na tarde-noite deste sábado, 20, com uma programação linkada no Movimento Espírita, justamente na data de 70 anos de fundação da União Municipal Espírita de Araçatuba (Umea), atualmente USE (União das Sociedades Espíritas) Intermunicipal de Araçatuba. A partir das 18 horas, no Centro Espírita Irmã Angélica, três convidados coordenarão o momento especial, que incluirá homenagens.

Ex-presidente da Umea/USE que contribuiu por mais tempo com essa história (1971 a 1986), Antonio Cesar Perri de Carvalho terá como referência de abordagem o livro “União dos espíritas. Para onde vamos?”, lançado por ele em 2018. “O movimento requer reflexões continuadas. Movimento Espírita se refere às ações em geral, implementadas pelas diversas instituições espíritas, pressupondo movimentação, estudo de situações e diálogos”, comenta o autor. Segundo ele, “o tema ‘União dos Espíritas’ é de fundamental importância para o futuro do movimento espírita e reclama por uma análise dos seus fundamentos, considerando sua aplicabilidade no cotidiano do movimento.” A proposta é contextualizar a realidade em Araçatuba, de onde Perri mudou para São Paulo em 1989 – foi presidente da USE Estadual – e posteriormente residiu em Brasília, assumindo a presidência da Federação Espírita Brasileira (FEB).

Irmão dele, Paulo Sérgio Perri de Carvalho terá como enfoque contribuições dos pioneiros na história da Doutrina Espírita na cidade. Ele também acumula ampla experiência no movimento espírita, seja no âmbito da USE Regional de Araçatuba (mais de 20 cidades), que presidiu na década de 1980 e na presidência da Instituição Nosso Lar, em Araçatuba, que ocupa há alguns anos. Além das tendências espíritas unificacionistas, os irmãos também construíram carreiras profissionais no setor da odontologia, com graduações e atuações docentes na Unesp de Araçatuba. Paulo Sérgio foi ainda coordenador de pós-graduação e vice-diretor no câmpus local, enquanto Cesar Perri foi pró-reitor de graduação da Universidade Estadual.

REFERÊNCIAS HISTÓRICAS

Cesar Perri destaca o esforço inicial de Benedita Fernandes, a pioneira em Araçatuba e no interior do Estado no serviço de saúde mental, a partir de 1932, e que também contribuiu para a educação de crianças socialmente vulneráveis. Ela construiu escola que foi cedida para o Município nas décadas de 1930 e 1940. Em 1942, a benemérita protagonizou uma ação histórica ao criar a União Espírita Regional da Noroeste, com estatutos oficializados com a finalidade de divulgar a Doutrina Espírita e aproximar os espíritas de toda a região servida pela N.O.B. A reconhecida “Dama da Caridade” (título de livro biográfico escrito por Perri) foi a presidente.

Mas o trabalho organizado e integrado com o Estado surgiu em 20 de julho de 1949, com a fundação da União Municipal Espírita de Araçatuba (Umea): órgão local da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE Estadual), constituída dois anos antes. “Na realidade, nós fizemos uma espécie de ponte. Na juventude representamos a Instituição Nosso Lar: 21 anos envolvidos, sendo 15 anos como presidente, até o momento de nossa mudança para São Paulo. Todavia, em funções de direção junto à USE Estadual e à FEB, em Brasília, sempre estávamos presentes em eventos promovidos pela USE de Araçatuba. Direta ou indiretamente são quase seis décadas de ligação”, conclui Cesar Perri.

O atual presidente da USE Intermunicipal é Ricardo Antônio dos Anjos. Ex-presidentes, Miguel Madeira, José Carlos Rister, Cida Mello, Silvia Martin e Gregório Carlos Rodrigues participarão do evento.

(*) Presidente da USE Regional de Araçatuba.

Obs.: o autor faz referências a trechos de entrevistas recentes com Cesar Perri.

(Artigo publicado no Boletim de Notícias de Ismael Gobbo, do dia 19/7/2019, e no jornal “Folha da Região”, de Araçatuba, 20/7/2019).

70 anos de união. A USE de Araçatuba

70 anos de união. A USE de Araçatuba

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

No dia 20 de julho ocorre a comemoração dos 70 anos de fundação da USE de Araçatuba. Na época, era denominada União Municipal Espírita de Araçatuba, órgão da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo.

Cenário de muito idealismo unificacionista em São Paulo. A USE-SP foi fundada em 1947. No ano seguinte esta promoveu o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita na capital paulista com significativa participação, principalmente das lideranças espíritas dos Estados do Sul e do Sudeste. Aliás este movimento acabou provocando a assinatura do chamado “Pacto Áureo” com a FEB, em 1949.1

A cidade de Araçatuba teve um fato precedente com Benedita Fernandes, a pioneira local voltada a ações de apoio a crianças e doentes mentais. Em setembro de 1942 Benedita Fernandes liderou a fundação da União Espírita Regional da Noroeste, inclusive com Estatuto próprio e com a finalidade de divulgar a Doutrina e aproximar os espíritas de toda a região servida pela então Estrada de Ferro da N.O.B.2

A antiga União Municipal Espírita de Araçatuba teve alguns percalços nos seus tempos iniciais e houve um momento em que sentiu a necessidade de revigorá-la. Foi nessa época que nos vinculamos a ações de união no movimento espírita da cidade. Estávamos em plena juventude e representando a Instituição Nosso Lar. A partir daquele momento, em 1965 vivenciamos mais de duas décadas como integrante da diretoria e presidente daquele órgão local de unificação. Interessante é que chegamos a conhecer os primeiros integrantes da União Regional fundada por Benedita Fernandes e outros vinculados à União Municipal Espírita de Araçatuba. Hoje sentimos que ficamos como uma ponte entre o passado e o futuro. Apenas nos desvinculamos da União Municipal quando assumimos encargos como diretor da USE-SP e, em seguida, mudando de Araçatuba.

Mesmo fisicamente à distância, em tarefa de direção junto à União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, na capital paulista, e junto à Federação Espírita Brasileira em Brasília, sempre que possível estávamos presentes em eventos promovidos pela USE de Araçatuba. Direta ou indiretamente são passados quase seis décadas que mantemos alguma forma de ligação com o movimento espírita araçatubense.

Ao longo desse tempo as tarefas da USE de Araçatuba foram diversificadas: realização de Semanas e Mês Espíritas, programando a vinda de oradores espíritas de várias regiões; eventos de jovens e adultos espíritas de caráter regional; a realização do 1º. Encontro de Delegados de Polícia Espíritas do Estado de São Paulo; a criação do clube do livro espírita; programas radiofônicos espíritas, em vários momentos; manutenção de “colunas espíritas” semanais em jornais locais; impressão de folhetos; edição de livros, como O Espiritismo em Araçatuba, Em Louvor à Vida e Dama da Caridade, de nossa autoria, sendo que os dois últimos agora são publicados por outras Editoras, e, os dois volumes de Obra de Vultos, organizado por Ismael Gobi. Nestes livros há registros importantes sobre o Espiritismo e seus personagens em terras araçatubenses.

No período em presidimos a agora chamada USE de Araçatuba, mantivemos muito contato e recebemos as influências de Divaldo Pereira Franco, visitas constantes a Chico Xavier, e, eventos marcantes com a atuação, entre outros, do dr. Alexandre Sech (de Curitiba), Mário da Costa Barbosa (na época residindo em São Paulo), Nestor João Masotti (então presidente da USE-SP) e Altivo Pamphiro (do Rio de Janeiro).

Destacamos que em função de dezenas de vindas e de contribuições ao movimento de Araçatuba, através dos esforços da antiga UMEA, o médium e orador Divaldo Pereira Franco recebeu o título de “Cidadão Araçatubense”. Naqueles tempos tínhamos agendado e com programação bem definida a cerimônia em que Chico Xavier receberia o título de “Cidadão Araçatubense”. Porém uns 20 dias antes ele sofreu um enfarte e suspendeu as viagens e esse tipo de compromisso.

Entre fatos marcantes registramos o esforço recente de união que possibilitou a instalação em Araçatuba de antena da TV Mundo Maior, emissora da Fundação Espírita André Luiz, de São Paulo.

Ao ensejo dos 70 anos de fundação da USE de Araçatuba, registramos um trecho de mensagem pioneira sobre união, psicografada por Chico Xavier e destinada aos participantes do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita (São Paulo, 1948), de autoria do espírito Emmanuel: “[…] unamo-nos mesmo roteiro de amor, trabalho, auxílio, educação, solidariedade, valor e sacrifício que caracterizou a atitude do Cristo em comunhão com os homens, servindo e esperando o futuro, em seu exemplo de abnegação, para que todos sejamos um, em sintonia sublime com os desígnios do Supremo Senhor.”1

Consideramos indispensável que as ações do movimento espírita estejam fundamentadas nas Obras Básicas do Codificador. A propósito destacamos trecho de seu último discurso, nos dias de Finados do ano de 1868: “[…] O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas."1

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? Capivari: Ed. EME. 2018.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Benedita Fernandes. A dama da caridade. Araçatuba: Ed.Cocriação e USE Regional de Araçatuba. 2017.

(*) Foi dirigente espírita em Araçatuba e presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e da Federação Espírita Brasileira.