A importância do trabalho federativo na construção do mundo de regeneração

“A importância do trabalho federativo na construção do mundo de regeneração”

- Em: Federação Espírita do Estado do Espírito Santo festeja seu centenário –

A efeméride foi comemorada com um amplo evento virtual no dia 27 de março, comandado pelo confrade Fabiano Santos, presidente da FEEES, com participação dos ex-presidentes Júlio David Archanjo, Marcelo Paes Barreto, Dalva Silva Souza e Maria Lúcia Rezende Dias Faria, de vários ex-diretores, bem como de membros da atual diretoria, coordenadores de áreas da federativa e dirigentes de órgãos regionais e centros espíritas. A prece de abertura foi proferida pelo ex-presidente Júlio David Archanjo. Tanto na abertura como no encerramento ocorreram apresentações musicais por parte de jovens espíritas. Os ex-presidentes também se manifestaram com sua saudação ao público. Na sequência, o vice-presidente José Ricardo do Lírio apresentou uma síntese histórica da Federação. Foram então exibidos alguns vídeos históricos. O representante da Juventude Espírita também fez uma saudação. E, como não podia faltar, houve um momento informal comemorativo do aniversário com bolo e velinha marcando os 100 anos de fundação da entidade.

Convidado especialmente para o evento, Antonio Cesar Perri de Carvalho, ex-presidente da USE-SP e da FEB, proferiu palestra focalizando o tema proposto pela FEEES.

Eis uma síntese do que o palestrante disse na oportunidade:

“A importância do trabalho federativo na construção do mundo de regeneração”

“Em meio a uma tragédia sanitária mundial, as afligentes situações de saúde – corpórea, psíquica e espiritual -, as mortes e o prolongado distanciamento social caracterizam uma sensação de luto.

Há transformações no mundo e o movimento espírita não está isento desses impactos.

Daí a necessidade de avaliação sobre a realidade do movimento espírita – providência que incumbe aos encarnados, como Kardec diz em A Gênese ao afirmar que a revelação espírita é de origem divina, mas sua elaboração é fruto do trabalho do homem. Em seu último discurso, proferido em novembro de 1868, o Codificador fez também colocações que vale lembrar: "O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais…” E aduziu: “O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas”.

O mesmo pensamento transparece na primeira psicografia de Chico Xavier sobre o tema União, intitulada “Em nome do Evangelho”, recebida durante o 1o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, realizado em São Paulo, no ano de 1948. Na mensagem Emmanuel nos convida: “[…] orientem no Evangelho quaisquer princípios de unificação…”, situa o contexto: “O mundo conturbado pede, efetivamente, ação transformadora” e, por fim, sugere: “unamo-nos no mesmo roteiro de amor, trabalho, auxílio, educação, solidariedade, valor e sacrifício que caracterizou a atitude do Cristo em comunhão com os homens…”

Esses são parâmetros para as ações federativas e o atendimento das novas demandas do movimento espírita na fase pós-pandemia. As conclusões do “Projeto Convite ao Futuro – Diagnóstico e Prognóstico do Movimento Espírita Capixaba” (FEEES, 2019) devem ser analisadas em coerência com o novo horizonte social.

As experiências históricas danosas de institucionalização e hierarquização nas organizações religiosas devem subsidiar reflexões.

A proposta do Codificador sobre a "Comissão Central" pode inspirar a organização e o funcionamento de federativas.

Esse trabalho poderá ser agilizado e ampliado com ações virtuais, com redução dos custos das locomoções e das grandes reuniões, e com priorização por parte dos centros espíritas para a atuação virtual. Deve-se rever a seleção de temas e de expositores. Faz falta o espaço para se tratar dos assuntos que afligem o movimento, evitando-se sua pulverização e a centralização em alguns expositores. Em todos Estados há lidadores com vivência para o diálogo sobre suas experiências num intercâmbio fraterno.

Urge a adequação das instituições com preparo de recursos humanos, e, para as edificações: acesso, segurança e sanitária; tudo é respeito à vida do ser espiritual reencarnado. Na assistência social, o ideal será a desvinculação de dependência de convênios governamentais. A comercialização de livros pela internet e os e-books deverá redundar que estes não se constituam em fonte de subsistência para as instituições.

É marcante o conceito de Emmanuel sobre centro espírita: “[…] santuário de renovação mental em direção da vida superior. […] é uma escola onde podemos aprender e ensinar, plantar o bem e recolher-lhe as graças, aprimorar-nos e aperfeiçoar os outros, na senda eterna.”

As reuniões para todas faixas etárias devem ser simultaneamente presenciais e à distância. Deve-se conhecer melhor a realidade das crianças e jovens. A experiência de atendimento fraterno pela internet, iniciada pela FEEES, deverá ser valorizada.

É momento para o acolhimento fraterno, mensagens de consolo, apoio moral e espiritual; de construção de caminhos novos, visando à futura regeneração!”

Finda a palestra, Dalva Silva Souza, ex-presidente da FEEES, proferiu a prece de encerramento.

Extraído de:

Brasil, por Ana Moraes. Revista digital O Consolador – Ano 15 – N° 716 – 11 de Abril de 2021; http://www.oconsolador.com.br/ano15/716/especial2.html

Obras Básicas como antídoto às aflições

Obras Básicas como antídoto às aflições

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Em meados de abril transcorrem duas efemérides marcantes: no dia 15, a data de lançamento de O evangelho segundo o espiritismo, e, no dia 18, de O livro dos espíritos.

A obra inaugural de Allan Kardec – O livro dos espíritos -, e que assinala a data de nascimento do Espiritismo provocou repercussões na imprensa parisiense. Vários “folhetins”, seções culturais dos jornais, apresentaram notícia e resenha. A edição inicial era mais curta, com 501 perguntas e respostas. Kardec o complementou até a edição definitiva com 1019 questões. Nessa obra estão contidos os princípios do Espiritismo, enfeixados em quatro partes: Das causas primárias, Do mundo espírita ou mundo espiritual, Das leis morais, e, Das esperanças e consolações.

Nos anos seguintes, o Codificador desdobrou os temas que caracterizam cada Parte do livro pioneiro.

Assim, em 1864 vem a lume O Evangelho segundo o Espiritismo. Também passou por revisões e acréscimos até sua edição definitiva. Na realidade, é um desdobramento da 3ª. Parte de O livro dos espíritos, detalhando comentários sobre exemplos e o ensino moral de Jesus.

As duas obras tem sido comemoradas em datas significativas. O livro dos espíritos foi o tema central do 2º. Congresso Brasileiro de Espiritismo, alusivo aos 150 anos da publicação dessa obra. Foi promovido em 2007 pela FEB, durante a gestão do presidente Nestor Masotti. E veio a lume edição especial e histórica dessa obra.

Ao longo do ano de 2014 e notadamente no 4º Congresso Espírita Brasileiro, com quatro marcantes eventos simultâneos e em regiões diferentes do país, com o tema central “150 anos de esclarecimento e consolação” foi comemorado o Sesquicentenário de O evangelho segundo o espiritismo. E foi publicada edição histórica dessa obra. Durante nossa presidência na FEB, como interino e efetivo, criamos e implantamos na sede da FEB, no ano de 2012, o estudo semanal, sistemático e interpretativo de O evangelho segundo o espiritismo e a criação do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Evangelho da FEB – NEPE, este último funcionou até o final de nossa gestão em março de 2015. As experiências vividas com esses estudos, fruto do trabalho de grande equipe, foram registradas no exemplar lançado durante o Congresso: O evangelho segundo o espiritismo. Orientações para o estudo (FEB). Na sequência, em 2013 foram implantados na sede da FEB cursos sobre cada uma das Obras Básicas de Kardec.

Fato digno de nota é que o espírito Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, elaborou obras homenageando os livros básicos do Codificador. Por ocasião do Centenário deles, meados do século XX, esses livros foram publicados, entre outros: Religião dos espíritos (FEB), alusivo a O livro dos espíritos, e, Livro da esperança (CEC), em homenagem a O evangelho segundo o espiritismo.

Todas essas obras devem merecer a atenção dos espíritas, no estudo e na divulgação.

Notadamente em época complexa como a que vivemos de tragédia sanitária e que exacerbam situações cruéis e afetam todos os seres humanos. O momento é de acolhimento espiritual, de consolo e de esclarecimento. Nada melhor do que as Obras Básicas do Codificador como um manancial de antídotos às aflições.

(*) Foi presidente da USE-SP e da FEB.

Das aparições de Jesus à mediunidade de Chico Xavier

Das aparições de Jesus à mediunidade de Chico Xavier

   

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Neste ano a tradicional de lembranças da aparição de Jesus marcada para algumas religiões como o 3o dia em seguida à crucificação, coincidindo com a Páscoa, ficou colado ao dia que assinala o nascimento de Chico Xavier.

As onze aparições de Jesus a partir da inicial do 3o dia, caracterizada com o "túmulo vazio", e até o 40o dia após a crucificação, foram marcantes para consolidar a mensagem de Jesus.

Dezenove séculos depois de Jesus, um médium simples, dedicado e fiel a Jesus e Kardec – o nosso contemporâneo Chico Xavier – foi intermediário de milhares de espíritos, vários oferecendo provas da imortalidade da alma e todos transmitindo mensagens de consolo, esclarecimento e enlevo espiritual.

Essa foi a missão marcante e histórica de Chico Xavier, que nasceu no dia 2 de abril de 1910, em Pedro Leopoldo (MG). Chico psicografou algumas centenas de livros fundamentados no ensino moral de Jesus. Como pessoa foi exemplo de renúncia, com extrema dedicação ao próximo. No atendimento a filas imensas de pessoas em aflição, ofereceu conforto espiritual, consolo e apoio a um número incontável de pessoas. Chico Xavier teve uma longa existência de exemplificações e podemos afirmar que sempre foi arauto da paz, do amor e da certeza da imortalidade da alma. Jesus sempre esteve presente nos livros, nas ações e falas de Chico Xavier.

Embora tendo passado por dificuldades e sofrimentos, Chico superava-os e não exteriorizava sinais de amargura. Chico Xavier foi um exemplo próximo a nós.

Nesses dias se evoca os momentos finais de Jesus, com marcadas encenações e símbolos ligados à crucificação. Destacamos trecho de Emmanuel comentando João (19,5 ):

“— ‘Eis o Homem!’ – Aparentemente vencido, o Mestre surgia em plena grandeza espiritual, revelando o mais alto padrão de dignidade humana. Rememorando, pois, semelhante passagem, recordemos que somente nas linhas morais do Cristo é que atingiremos a Humanidade Real” (FCX, Fonte viva, cap.127).

Assim, mais significativo do que evocar o sofrimento e a morte de Jesus será importante procurarmos marcar a imagem de Jesus de uma forma diferente: não mais a da crucificação, mas de suas aparições. Jesus vive!

Numa época tão conturbada, como a atualmente vivida por todos nós, são necessários exemplos dignificantes e mensagens de alento para a superação de tantas aflições. Com o Espiritismo e especificamente com a vida e obra de Chico Xavier, fortalecemos a convicção na imortalidade da alma.

(*) Foi dirigente em Araçatuba (SP), presidente da USE-SP e da FEB.

A data da partida de Kardec e o seu significado

A data da partida de Kardec e o seu significado

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O dia 31 de março é lembrado no meio espírita como a data da desencarnação de Allan Kardec, ocorrida em Paris, no ano de 1869.

Há poucos dias em palestra virtual para a Casa de Batuíra (São Gonçalo, RJ) focalizamos a efeméride e prefácio que escrevemos em 2020 para a obra, traduzida para o português Inauguração do monumento de Allan Kardec, importante documento histórico francês, agora disponibilizado na página eletrônica de Autores Clássicos Espíritas.

O opúsculo em versão digital traz informações sobre o translado dos restos mortais de Kardec originalmente sepultados no Cemitério de Montmartre, a seleção do terreno e a edificação do dólmen no Cemitério de Père-Lachaise e a confecção do busto assinado pelo artista Capellaro. Na pedra superior do dolmen está insculpida a frase definida por seus amigos: "Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar esta é a lei". No dia da inauguração do monumento, um ano após sua desencarnação, no dia 31 de março de 1870 ocorreram manifestações de lideranças espíritas, registradas no livro, e que também reproduz as correspondências que foram enviadas por amigos e líderes que não puderam comparecer. Os protagonistas da inauguração do monumento em homenagem a Kardec não poderiam imaginar que nos séculos seguintes este seria um marco histórico e turístico na capital francesa.

A primeira vez que visitamos o dólmen no Cemitério de Père-Lachaise foi em maio de 1971. Na portaria do Cemitério, pedimos informações e um funcionário nos forneceu um mapa impresso com a indicação da localização do túmulo. Ao chegarmos à esquina destacada onde está o dólmen, ficamos impressionados com a quantidade de flores frescas que o adornavam. Constatamos que o túmulo já fazia parte de visitações turísticas, de grupos de história da arte e de simpatizantes do vulto Kardec, independentemente de serem espíritas. Nas livrarias parisienses haviam muitos livros ricamente ilustrados focalizando a arte dos túmulos do histórico Cemitério Père-Lachaise. Ao retornar ao Brasil, escrevemos artigo para a Revista Internacional de Espiritismo, com fotos da visita ao túmulo de Kardec.

Em vários momentos retornamos ao Cemitério parisiense levando parentes e amigos para a visita desejada por muitos. Numa dessas visitas no 1o semestre de 2004, chegamos bem cedo, logo que o Cemitério abriu, e ao nos aproximarmos do túmulo de Kardec, lá estava uma senhora idosa trocando as flores que adornam o monumento. De imediato, pedimos licença e iniciamos um diálogo com ela. Tratava-se da sra. Antoinette Bastide e ela nos informou que há mais de 20 anos espontaneamente assumiu esse encargo diário e dando prosseguimento a compromisso iniciado por uma senhora, já desencarnada, que durante quase 30 anos adotava a prática de renovação de flores em gratidão porque teria sido beneficiada por uma cura. Nossa entrevistada, a sra. Bastide declarou que conhecia as obras de Kardec.

Historicamente, os espíritas franceses faziam cerimônias em homenagem a Allan Kardec, na data de sua desencarnação, 31 de março. Foram retomadas após a 2ª Guerra Mundial e com a reorganização do movimento espírita francês. Em reuniões efetivadas em Paris pelo então novel Conselho Espírita Internacional, em 1997, houve uma visita de dirigentes espíritas de vários países ao túmulo. O episódio se repetiu durante a realização do 4o Congresso Espírita Mundial, promovido por este Conselho, em outubro de 2004, com o objetivo de se comemorar o Bicentenário do nascimento de Allan Kardec. Muitas caravanas de espíritas de várias partes do mundo estiveram no citado túmulo, inclusive para uma delas atuamos como cicerone. Desde 2017, exceção feita ao período da pandemia, a Fédération Spirite Française tem realizado anualmente a comemoração do aniversário da desencarnação de Allan Kardec, no cemitério do Père-Lachaise em Paris. O evento é denominado “Journée Allan Kardec”, com uma cerimônia junto ao túmulo e depois um encontro em um auditório com conferências e trocas de idéias entre os participantes.

O túmulo do Codificador é um local histórico e objeto de atenção de simpatizantes das idéias espíritas de várias partes do mundo e do turismo e estudos de pessoas vinculadas à arte funerária.

Evidentemente que a maior homenagem, em qualquer parte, será sempre a valorização da obra de Allan Kardec.

Quiçá alguns visitantes do túmulo de Kardec e os leitores da monumental obra que nos legou o Codificador do Espiritismo venham a valorizar os princípios defendidos pelo Espiritismo, a partir da certeza da imortalidade da alma, notadamente num mundo complexo e cheio de contrastes e de aflições.

Fonte:

ALLAN KARDEC Publicado em: DISCURSOS PRONUNCIADOS NO ANIVERSÁRIO DE MORTE ALLAN KARDEC. INAUGURAÇÃO DO MONUMENTO. Tradução: Carla Cristina Duarte Costa. Acesso na página eletrônica Autores Clássicos Espíritas (copie e cole): http://www.autoresespiritasclassicos.com/Allan%20Kardec/Inaugura%C3%A7%C3%A3o%20do%20Monumento%20de%20Allan%20Kardec/Discursos%20Pronunciados%20no%20Anivers%C3%A1rio%20de%20Morte%20Allan%20Kardec%20-%20Inaugura%C3%A7%C3%A3o%20do%20Monumento.htm

(*) Foi presidente da USE-SP e da FEB, e, membro da comissão executiva do Conselho Espírita Internacional.

Defesa e valorização da vida

Defesa e valorização da vida

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O cenário mundial e especificamente de nosso país assinala a ocorrência de uma tragédia em andamento de grande vulto.

Um vírus tem solapado milhões de vidas em todo o planeta e compromete de forma extremamente alarmante o Brasil, que se avizinha de um caos sanitário. Esse momento exige alto grau de conscientização e de responsabilidade não apenas em nível de autoridades, mas de toda a população.

Os temas de esclarecimento sobre o valor da vida corpórea precisam ser abordados no meio espírita e procurando espraiar essas informações para as comunidades onde as instituições espíritas estão inseridas e mantém contatos, inclusive pelas redes sociais. A certeza de que somos espíritos reencarnados e em processo de aprimoramento é de fundamental importância para a melhor compreensão dos valores e da oportunidade da vida corpórea. Para suas experiências de crescimento e evolução espiritual o espírito precisa do corpo material.

Num ambiente tão complexo provocado pela prolongada pandemia, há que se pensar na saúde do corpo e na interação com a mente, lembrando que somos espíritos imortais. Em realidade saúde demanda o bem estar corpóreo, mental, social e espiritual.

É cabível o velho conceito romano “mente sã em corpo são” (“mens sana in corpore sano”), que prossegue atual. Contemporâneo do auge do império romano, o apóstolo Paulo anotou em sua 1ª Epístola aos Coríntios (6,20): “Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.”1

Em O livro dos espíritos já se definia: “Qual o primeiro de todos os direitos naturais do homem? – O de viver. Por isso é que ninguém tem o de atentar contra a vida de seu semelhante, nem de fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal” (questão 880).

A certeza de que somos espíritos reencarnados e em processo de educação favorece a compreensão da oportunidade da vida corpórea e do cultivo dos valores espirituais. A vasta literatura advinda com a psicografia de Chico Xavier é extremamente rica de esclarecimentos. O espírito André Luiz define com clareza o valor da vida corpórea e que podem ser sintetizados em dois comentários: “O corpo é o primeiro empréstimo recebido pelo Espírito trazido à carne” (livro Conduta Espírita, Cap. 34.); “[…] temos necessidade da luta que corrige, renova, restaura e aperfeiçoa. A reencarnação é o meio, a educação divina é o fim” (livro Missionários da Luz, cap. 12).1

A partir dessas fundamentações cristãs e espíritas, torna-se interessante considerarmos o que representa o Espírito nos contextos íntimo e social; o equilíbrio entre corpo/espírito e melhores condições de vida. Esta última também inclui, evidentemente, o respeito com o corpo físico e a valorização da vida corpórea. Aí se inserem as medidas preventivas para se evitar quaisquer formas de interrupção da vida, incluindo o suicídio (direto e indireto), as enfermidades e também aquelas que favoreçam o diagnóstico precoce de doenças, evitando-se que elas sejam reconhecidas apenas em situações tardias e danosas.

Há poucos anos foi relançado o livro Em louvor à vida, que elaboramos em parceria com Divaldo Pereira Franco, com base em textos espirituais de autoria de nosso tio Lourival Perri Chefaly.2 Eis um trecho genérico desse livro: “Saúde e doença – binômio do corpo e da mente – são conquistas do ser, que deve aprender e optar por aquela que melhor condiz com as aspirações evolutivas, desde que a harmonia ideal será alcançada, através do respeito à primeira ou mediante a vigência da segunda.” 2

Essa citação serve de reflexão para os esforços e desafios que devemos enfrentar no contexto psíquico e espiritual que se vive atualmente com a pandemia. É sabido que distúrbios de comportamento e até propensão ao suicídio podem encontrar campo fértil em situações prolongadas de distanciamento social, de medos e da proliferação de mortes. Torna-se oportuno um comentário do citado livro, mais específico e aplicável ao contexto atual: “… a estruturação do comportamento nas seguras condutas do amor, do otimismo, da prece e da meditação salutar, da ação do bem, desenvolvendo anticorpos mentais que defenderão o organismo da ação dissolvente e destruidora dos raios mortíferos do desequilíbrio…” 2

Isso posto, é necessário enfatizar-se que com base em décadas de pesquisas, observações científicas e experiências vividas em muitos países, torna-se indispensável colocar-se em prática as orientações emanadas da saúde pública. Em casos de epidemias e de pandemias, são indispensáveis a aplicação de vacinas (grande conquista científica), o distanciamento social e os cuidados preventivos de higiene, incluindo-se aí o emprego de máscaras.1

E, sem dúvida, o cultivo das vibrações positivas e o cultivo da oração se interage com o esforço para o equilíbrio do corpo e do espírito.

O mundo espiritual sempre deixou claro que os encarnados devem zelar pelo organismo físico, valorizando-se a vida corpórea e a espiritual, pois somos espíritos imortais.

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Riscos à vida e ambiente de luto. Acesso em: http://grupochicoxavier.com.br/riscos-a-vida-e-ambiente-de-luto/

2) Franco, Divaldo Pereira; Chefaly, Lourival Perri; Carvalho, Antonio Cesar Perri (Org.). Em louvor à vida. 2.ed. Cap. Câncer e conduta moral. Salvador: LEAL. 2017. p.52.

(*) Professor Titular de Odontologia, aposentado; ex-presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e da Federação Espírita Brasileira.

Riscos à vida e ambiente de luto

Riscos à vida e ambiente de luto

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

A pandemia provocada pelo Covid-19 está afetando profundamente todo o mundo. Como o tempo de disseminação poderá se prolongar por um tempo não muito definido, não se pode prever a completa extensão de suas repercussões. Acontecem grandes crises sanitárias, econômicas, sociais e familiares.

Em nosso país, dirigentes dos Estados apontam para a extensão do cenário que as autoridades da saúde chamam de tragédia sanitária. Para se ter uma ideia de volume, o número de mortes diárias pelo coronavírus no país (em meados de março de 2021) é comparável à queda de 10 a 12 jatos, por dia, dos modelos Boeing 737 ou Airbus 320 lotados de passageiros!

Apesar da gravidade, parte da população e algumas autoridades permanecem falando e agindo com indiferença, num flagrante desrespeito às pessoas, ao coletivo e à dor alheia.

Os temores de contágio, os riscos e a ocorrência de mortes próximas às pessoas, criam um ambiente extremamente complexo e somado ao fato do longo distanciamento social, pode-se dizer que se vive um ambiente de luto em larga escala. Sim, de luto, porque há privações, temores inúmeros e várias expressões de dor.

Falta um ambiente geral que estimule apoio, solidariedade e confiança. Esse cenário cria reações de desencanto porque quadros de realidades complexas estão sendo descortinados, sem rodeios e máscaras; há uma certa desilusão, que conspira com a situação da tão almejada tranquilidade e felicidade.

Nesse contexto, buscamos rápidos subsídios na literatura espírita. Historicamente, há marcante registro feito por Allan Kardec, na Revista espírita, edição de novembro de 1865, quando analisa a epidemia do cólera em países da Europa. Transcreve mensagem médico desencarnado dr. Demeure:

“O melhor preservativo consiste nas precauções de higiene sabiamente recomendadas em todas as instruções dadas a respeito; estão acima de toda limpeza, o afastamento de toda causa de insalubridade e focos de infecção, a abstenção de todo excesso. […] o medo é pior que o mal. […] A confiança em si e em Deus é, em tais circunstâncias, o primeiro elemento da saúde.” 1

Em palavreado da época o antigo médico Demeure utiliza pressupostos que são válidos até nossos dias, desde os cuidados materiais de precaução, ou seja, obediência às orientações da Saúde Pública, com base na Ciência, e a manutenção de espírito confiante e pró-ativo no sentido de cooperação com a preservação da saúde. Há muitas décadas, a saúde pública tem experiência em nível mundial e recomenda nos casos de epidemia e de pandemia, a vacinação, o distanciamento social e a utilização de máscaras.

Desde alertas de Paulo de Tarso: “Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” (Paulo, I Cor. 6, 20), às judiciosas análises nas Obras Básicas da Codificação Espírita, entendemos como claríssimos os compromissos que temos com a vida em geral e, especificamente, com nosso organismo. André Luiz reforça de maneira explícita: “O corpo é o primeiro empréstimo recebido pelo Espírito trazido à carne”.2

Afinal de contas, deve-se evitar eventuais situações de “suicida indireto” e de favorecimento à morte do próximo… A leitura da série de obras do espírito André Luiz, a partir de Nosso lar, suscita inúmeras reflexões. As considerações espíritas devem ser lembradas e ficarem bem marcadas nas ações nessa época de pandemia: de valorização da vida corpórea e de respeito ao próximo como a si mesmo.

Por mais que sejam penosas as restrições impostas para o contexto atual de tragédia, a preservação da saúde e da vida corpórea é condição prioritária e indispensável, antes da economia. Essa não sobrevive num mundo de baixas coletivas, de mortes, e de danos sérios à saúde.

Em nossos dias torna-se indispensável o reforço do pensamento cristão e espírita, fortemente humanitário. Nessas reflexões encontramos consolo, esclarecimento e orientação para os impasses e os novos caminhos.

Entre muitos registros espirituais, destacamos oportunas considerações de Emmanuel:

“Nos dias que consideres amargos pela dor que te apresentem, aceita o remédio invisível dos contratempos que a vida te impõe. E seguindo adiante, trabalhando e servindo, auxiliando e aprendendo, a breve trecho de espaço e tempo, reconhecerás que desapontamento em nós é cuidado de Deus.”3

Em palestras virtuais temos abordado esses temas destacando a visão espírita sobre a vida.Há necessidade de uma ampla conscientização da população.

Referências:

1) Kardec, Allan. Trad. Abreu Filho, Júlio. Revista espírita. O espiritismo e o cólera. Novembro de 1865. São Paulo: EDICEL. p.330.

2) Vieira, Waldo. Pelo espírito André Luiz. Conduta espírita. Capítulo 34. FEB.

3) Xavier, Francisco Cândido; Pires, José Herculano. Na hora do testemunho. Cap. Desapontamento. São Paulo: Paideia.

4) Palestras virtuais para: Instituto Vida (DF), copie e cole: https://www.facebook.com/photo?fbid=3905244642844381&set=a.210630825639133;

REMA (DF), copie e cole: https://www.youtube.com/watch?v=n9otVZ-nxrI&list=PLVHegu-hKJEnKL3pYTSdlpVmPOyGGFkUV;

(*) Professor Titular de Odontologia, aposentado; foi presidente da USE-SP e da FEB.

Benedita Fernandes: superações e empreendimento no bem

Benedita Fernandes: superações e empreendimento no bem

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*) 

Há 89 anos, 6 de março de 1932, era fundada em Araçatuba a Associação das Senhoras Cristãs por uma lavadeira e descendente de escravos libertos, Benedita Fernandes, iniciando o atendimento a crianças órfãs e abandonadas e a doentes mentais.

Anos antes, Benedita foi curada de uma terrível obsessão, por dois espíritas da vizinha cidade de Penápolis.

A Associação das Senhoras Cristãs desenvolveu-se dinamicamente no final da década de 1930 e passou a contar com o Asilo Doutor Jaime de Oliveira (para doentes mentais), Casa da Criança, Albergue Noturno e classe municipal para o ensino formal.

Quando elaborávamos a biografia de Benedita Fernandes, origem de nosso livro Benedita Fernandes. A dama da caridade, entrevistamos cidadãos da cidade e de outras localidades que tiveram contatos com ela, incluindo parentes nossos.

A inspiração para nosso livro intitulando-a de “Dama da Caridade” surgiu ao lermos na nossa juventude alusão à ela no texto “Num domingo de calor”, psicografado por Chico Xavier em 1963, incluindo-a num relato sobre "uma reunião de damas consagradas à caridade".

As informações sobre Benedita e a Associação, nos chegavam desde nossa infância e juventude, mas nossa relação com a Associação iniciou-se em 1972, estabelecendo com a então dirigente Cordélia Thiers uma reaproximação e atividades conjuntas com o movimento espírita. Os episódios culminaram em março de 1982 no Jubileu de Ouro da Associação com a realização da “Semana Benedita Fernandes”, pela União Municipal Espírita de Araçatuba com palestras, bolo comemorativo, entrega de painel sobre a homenageada para o Museu Histórico da cidade e o lançamento da primeira edição de nosso livro. O prefeito dr. Cotrim prestigiou o evento com sua presença e saudação.

Os exemplos de Benedita Fernandes permanecem em muitos corações.

Sua obra material alterou-se em função de regulamentações governamentais sobre saúde mental, e gerou os CAPS – Centro de Apoio Psicossocial, e um deles com o nome dela e com o apoio de voluntários da Associação das Senhoras Cristãs Benedita Fernandes.

Benedita é um marco de superação de fatores complicados para a época dela: gênero, cor e faixa social.

Nos mesmos dias que se comemora o “dia internacional da mulher” (8 de março), consideramos Benedita Fernandes, sem dúvida, é um exemplo de mulher corajosa e empreendedora no campo do bem!

(*) O autor foi dirigente espírita em Araçatuba, presidente da Federação Espírita Brasileira e da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo.

Extraído de: Folha da Região, Araçatuba, 03/03/2021, p.2

Temas da RIE sugerem novos desafios para o presente e futuro

Temas da RIE sugerem novos desafios para o presente e futuro

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Com artigos de cunho doutrinário, contando com diversidade de autores, sempre mantendo a tradição iniciada pelo pioneiro Cairbar Schutel há 96 anos, a Revista Internacional de Espiritismo é uma referência marcante.

Sem prejuízo ao valor das várias matérias, no exemplar de fevereiro de 2021 há alguns enfoques sobre questões do momento que merecem atenção.

No Editorial alusivo aos 96 nos da RIE comenta-se sobre a facilidade e celeridade da comunicação em nossos dias, mas alerta sobre o “fenômeno perigoso das fake news”, e destaca que “as notícias falsas, distorcidas, perigosamente exageradas, sempre existiram. Mas nunca se difundiram de forma tão célere”. É feito um apelo para a valorização de fontes confiáveis e tradicionais de informação, “valorizando-se os esforços sinceros e comprometidos verdadeiramente com o Espiritismo”, “a divulgação correta dos princípios espíritas”.

No artigo do jornalista Cássio Leonardo Carrara “O perigo da fascinação”, destacamos a preocupação para se “estar atento para não se submeter às ilusões efêmeras do momento, digamos, de glória que por ora experimenta”. Após essa consideração geral, focaliza mais especificamente o cuidado com a prática da mediunidade: “é muito fácil ser alçado ao patamar de mestre influente ou mentor respeitado por ‘seguidores’ imprudentes e inocentes…” E surge importante recomendação: “Jamais o médium deve permitir que o vangloriem, nem sequer exigir da instituição e dos companheiros de trabalho uma posição destacada”. Essas questões ligadas à proliferação de fake news e uma certa idolatria e a criação de “seguidores imprudentes e inocentes” se interrelacionam e encontram campo propício para proliferação nos complexos momentos que se vive, de distanciamento social na fase da pandemia, e, naturalmente, favorecendo carências, dúvidas, e incessantes buscas de informações e de apoios nas redes de internet.

No mesmo número da RIE há entrevista com Alberto Almeida com foco no “caos de hoje”: “As ocorrências naturais, ensejando períodos de crise, são recursos da Providência Divina para que o homem possa rever-se, buscando novos princípios e valores”. O entrevistado analisa que “o estado de confinamento naturalmente excita o ser humano que não estava habituado a estabelecer relações mais íntimas duradouramente…”; “É habitual que os seres humanos busquem o inusitado, o maravilhoso, o sobrenatural quando estão mobilizados de forma intensamente emocional, […] é natural nessas ocorrências as pessoas busquem não explicações convincentes, mas também soluções mágicas”. Ao final, Alberto Almeida valoriza o esforço “de celebrar a vitória do bem sobre o mal dentro de nós mesmos” e considera “o Espiritismo é uma das alavancas nesse progresso universal inevitável pelo qual a Terra passa”.

Ao se folhear a RIE podem ser acessadas outras matérias relacionadas com esses enfoques.

O artigo “Os falsos profetas do mundo espiritual”, de João Paulo Coelho Neto, se respalda nas obras de Kardec para identificação do “aparente perigo” dos pseudossábios, e, sem dúvida, tem relação com os assuntos das matérias já citadas.

A lembrança sobre os 160 anos de O livro dos médiuns valoriza a obra que Kardec considerou como o “guia dos médiuns”; há textos sobre angústia existencial e sobre a relação da criança com a internet. Aliás, o ensino virtual, ferramenta incrementada em tempos de pandemia, amplia sobremaneira a vinculação de crianças e jovens com os meios digitais.

No contexto social e midiático especula-se sobre o chamado “novo normal”, o mundo pós-pandemia, mas, cremos que no movimento espírita deve-se discutir e pensar as repercussões sobre as atividades espíritas.

Deverão ocorrer transformações e é imperioso se pensar nos eventuais novos cenários e suas necessidades; são novos desafios para o presente e para o futuro!

Fonte:

Revista internacional de espiritismo. Ano XCVI. N.1. Fevereiro de 2021.

Acesso digital (copie e cole): https://assinaturas.oclarim.com.br/revistas/rie-fevereiro-2021/

(*) Colaborador da RIE há 50 anos; ex-presidente da FEB e da USE-SP.

Há 160 anos, as informações iniciais sobre O Livro dos Médiuns

Há 160 anos, as informações iniciais sobre O Livro dos Médiuns (*)

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Com a propagação da obra pioneira – O livro dos espíritos -, da circulação da Revista espírita e das repercussões do funcionamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, surgiam muitas dúvidas e indagações sobre a prática da mediunidade.

Como consequência natural Allan Kardec passa a se dedicar ao assunto com base em seus estudos, observações práticas e as orientações advindas da Espiritualidade. Fruto desse trabalho teórico e prático surge a segunda grande obra de Allan Kardec – O livro dos médiuns – que completa 160 anos de publicação.

De início, destacamos o subtítulo: “guia dos médiuns e dos evocadores”.

Torna-se interessante observarmos as anotações sobre o novo livro, publicadas em Revista espírita, periódico mensal administrado pelo Codificador, durante o primeiro ano de edição de O livro dos médiuns. O episódio histórico surge desde a edição inicial daquele ano (Revista espírita, jan./1861) com a informação sobre o lançamento:

“Há muito tempo anunciada, mas com a publicação foi retardada por força de sua própria importância, esta obra aparecerá de 5 a 10 de janeiro, na cada dos Srs. Didier & Cia., livreiros editores […]. Ela constitui o complemento de O Livro dos Espíritos e encerra a parte experimental do Espiritismo, assim como este último contém a parte filosófica. Nesse trabalho, fruto de longa experiência e de estudos laboriosos, procuramos esclarecer todas as questões que se ligam à prática das manifestações. De acordo com os Espíritos, contém a explicação teórica dos diversos fenômenos e das condições que os mesmos se podem reproduzir. Mas a seção concernente ao desenvolvimento e ao exercício da mediunidade foi de nossa parte objeto de particular atenção.“

Na edição do mês de novembro 1861, essa Revista informa sobre o “Auto de fé das obras espíritas em Barcelona”, ocorrido no dia 9 de outubro. Estampa notícia sobre a segunda edição de O livro dos médiuns:

“A primeira edição de O Livro dos Médiuns, publicada no começo deste ano, esgotou-se em alguns meses, o que não é um dos traços menos característicos do progresso das idéias espíritas. Nós mesmos constatamos, em nossas excursões, a influência salutar que esta obra exerceu sobre a direção dos estudos Espíritas práticos: assim, as decepções e as mistificações são muito menos numerosas do que outrora, porque ela ensinou os meios de descobrir as astúcias dos Espíritos enganadores. Esta segunda edição é muito mais completa que a precedente: encerra numerosas instruções novas muito importantes e vários capítulos novos. Toda a parte que concerne mais especialmente aos médiuns, à identidade dos Espíritos, à obsessão, às questões que podem ser dirigidas aos Espíritos, as contradições, aos meios de discernir os bons e os maus Espíritos, a formação das reuniões espíritas, às fraudes em matéria de Espiritismo, recebeu desenvolvimento muito notáveis. No capítulo das dissertações espíritas, adicionamos várias comunicações apócrifas, acompanhadas de observações adequadas a dar os meios de descobrir a fraude dos Espíritos enganadores, que se apresentam com falsos nomes. Devemos acrescentar que os Espíritos reviram a obra inteiramente e trouxeram numerosas observações do mais alto interesse, de sorte que se pode dizer que é obra deles, tanto quanto nossa. Recomendamos com instância esta nova edição, como guia o mais completo, que para os médiuns, quer para os simples observadores. E podemos afirmar que, seguindo-a pontualmente, evitar-se-ão os escolhos tão numerosos, contra os quais se vão chocar tantos neófitos inexperientes.”

Em dezembro de 1861, a Revista espírita traz o comentário do Codificador:

“É, pois, chegado o momento de nos ocuparmos do que se pode chamar a organização do Espiritismo. Sobre a formação das sociedades espíritas, O Livro dos Médiuns (2ª edição) contém, observações importantes, às quais remetemos os interessados, pedindo-lhes meditem com cuidado.”

Em nossos tempos, 160 anos após o lançamento de O livro dos médiuns, é imprescindível o estímulo à leitura e ao estudo dessa obra nas instituições espíritas. Estão válidas as recomendações de Kardec nesse “guia” para os médiuns!

Fonte: Kardec. Allan. Trad. Abreu Filho, Júlio. Revista espírita. Ano 4. 1861. São Paulo: EDICEL.

(*) Texto resumido de artigo do autor, publicado em: Revista internacional de espiritismo. Fevereiro de 2021. Ano XCVI. N. 1. p. 14-15.

Herculano Pires interpreta Kardec e Emmanuel

Herculano Pires interpreta Kardec e Emmanuel

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O intelectual José Herculano Pires (1914-1979) marcou época no movimento espírita. Era filósofo pela USP; articulista do Diário de São Paulo com o pseudônimo de Irmão Saulo. Em São Paulo, fundou com a esposa Virgínia fundou o Grupo Espírita Cairbar Schutel.

Vigoroso estudioso e propagador das obras do Codificador, palestrante, debatedor sobre Parapsicologia em programas de TV e um dos entrevistadores de Chico Xavier no programa “Pinga Fogo” na antiga TV Tupi de São Paulo. Autor de dezenas de livros, atualmente publicados pela Editoria Paidéia: Lázaro, Madalena, O espírito e o tempo, O reino, O ser e a serenidade, Revisão do cristianismo, Agonia das religiões, Parapsicologia – hoje e amanhã, Na hora do testemunho, Ciência espírita e suas implicações terapêuticas e outros; publicação póstuma recente: O evangelho de Jesus em espírito e verdade. Editados pelo GEEM, há obras em parceria com Chico Xavier, com comentários sobre psicografias do médium: Chico Xavier pede licença, Diálogos dos vivos, Na era do espírito e Astronautas do além.

Para o autor, "O espiritismo se confirma, ao contrário do que dizem os seus adversários, nas próprias palavras e nos próprios ensinos dos evangelhos". Sobre algumas posturas no movimento espírita, pondera: "O que nos deve interessar não é nosso opinião nisso ou naquilo, mas sim a firmeza com que pudermos seguir os princípios da doutrina espírita. E esses princípios estão firmados, como nós sabemos na codificação de Allan Kardec. E estes princípios, por sua vez, têm a sua base mais profunda, as suas raízes mais penetrantes nos próprios evangelhos de Jesus."1,2

Na obra O ser e a serenidade, oriunda da conclusão do curso de filosofia na USP, Herculano analisa as filosofias da existência, traz o Existencialismo às suas perspectivas espirituais e trabalha a problemática ontológica-existencial e abre uma frente de batalha, a do Existencialismo Interexistencial. Considera que “a manifestação da consciência por meio de um arcabouço fenomênico, o corpo, só configura um dos momentos existenciais da consciência, pois ela existe antes, durante e depois do corpo”. Propõe o termo interexistencial, por representar de forma mais efetiva a realidade do ser.3

Na obra marcante O espírito e o tempo analisa a fase pré-histórica e histórica da criação, aborda o tríplice aspecto da Doutrina Espírita e a prática mediúnica. Considera que o Espiritismo é uma doutrina do futuro: “À maneira do Cristianismo, abre caminho no mundo, enfrentando a incompreensão de adeptos e não-adeptos”. Alerta que muitos “não compreenderão a aparente contradição existente no fato de ser o Espiritismo, ao mesmo tempo, uma doutrina moderna e um processo histórico provindo das eras mais remotas da humanidade. Existe ainda o problema religioso e, particularmente, o das ligações do Espiritismo com o Cristianismo.[…] Nesse livro comenta: “O horizonte tribal caracteriza-se pelo mediunismo primitivo. Adotamos a palavra ‘mediunismo’, criada por Emmanuel para designar a mediunidade em sua expressão natural, pois é evidente que ela corresponde com precisão ao nosso objetivo. Mediunismo são as práticas empíricas da mediunidade. […] Quando tratamos da libertação das forças vitais do Cristianismo, através do Espiritismo, não estamos inventando nenhuma novidade. Nem foi por outro motivo que Emmanuel classificou o Espiritismo de Renascença Cristã”.4

Herculano destaca: “Somente no Espiritismo, — no sentido que Kardec deu ao termo, por ele criado e posto em circulação — encontramos essa unidade tríplice do saber, em que ciência, filosofia e religião, embora mantendo cada qual a sua autonomia, se fundem num todo dinâmico, em que livremente se processa a simbiose, necessária à produção da síntese. […] Nenhuma explicação nos parece mais feliz, mais precisa e mais didática, do que a formulada pelo espírito de Emmanuel, no livro O consolador, recebido mediunicamente por Francisco Cândido Xavier. Interpelado a respeito do aspecto tríplice da doutrina, o espírito respondeu nestes termos: ‘Podemos tomar o Espiritismo, simbolizado desse modo, como um triângulo de forças espirituais. A ciência e a filosofia vinculam à terra essa figura simbólica, porém, a religião é o ângulo divino, que a liga ao céu. No seu aspecto científico e filosófico, a doutrina será sempre um campo de investigações humanas, como outros movimentos coletivos, de natureza intelectual, que visam ao aperfeiçoamento da humanidade. No aspecto religioso, todavia, repousa a sua grandeza divina, por constituir a restauração do Evangelho de Jesus Cristo, estabelecendo a renovação definitiva do homem, para a grandeza do seu imenso futuro espiritual’."4

Herculano enfatiza que “Espiritismo é Kardec porque foi ele o estruturador da Doutrina, permanentemente assistido pelo Espírito da Verdade.” A propósito das obras subsidiárias, opina: “[…] autores respeitáveis dão sua contribuição para a nossa maior compreensão de Kardec. Não podem substituí-lo.”4

Em obras em parceria com Chico Xavier editadas pelo GEEM, acima citadas, trabalha o sentido da mensagem mediúnica.5

Temas sobre o Evangelho aparecem em várias obras, e, na edição póstuma O evangelho de Jesus em espírito e verdade, originado de degravações de cem programas radiofônicos sobre o Evangelho – "No Limiar do Amanhã" (Rádio Mulher, São Paulo, anos 1970). Herculano trabalha a essência da mensagem de Jesus com simplicidade, pois eram programas destinados ao público em geral.1,2

A obra Na hora do testemunho registra um fato histórico na literatura espírita, quando Herculano Pires em parceria com Chico Xavier, focalizam o episódio da adulteração de O Evangelho segundo o Espiritismo e documentam suas posições de defesa da obra de Kardec e contrários às tentativas de adulteração.6

Herculano realça a base do cristianismo e destaca o papel atual do Espiritismo: “[…] desenvolvimento natural do Cristianismo, sequência inevitável do processo histórico, enfrentando o problema da salvação em termos de evolução, e procurando explicar as alegorias do passado à luz da compreensão racional.”2,4

Bibliografia:

1) Pires, José Herculano. Org. Arribas, Célia. O evangelho de Jesus em espírito e verdade. 1.ed. São Paulo: Paidéia. 2016.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cristianismo nos séculos iniciais. Análise histórica e visão espírita. 1.ed. Matão: O Clarim, 2018.

3) Pires, José Herculano. O ser e a serenidade. Ensaio de ontologia interexistencial. 4.ed. São Paulo; Paidéia.

4) Pires, José Herculano. O espírito e o tempo. 1.ed. São Paulo: Ed. Pensamento. 1964.

5) Xavier, Francisco Cândido; Pires, José Herculano; Espíritos diversos. Diálogo dos vivos. 1.ed. São Bernardo do Campo: GEEM. 1974.

6) Xavier, Francisco Cândido; Pires, José Herculano. Na hora do testemunho. 1.ed. São Paulo: Paidéia. 1974.

(*) Síntese de artigo do autor publicado em: Revista internacional de espiritismo. Ano XCV. N.11. Dezembro de 2020. P.561-563.