Jesus nasce no período de Augusto

Jesus nasce no período de Augusto

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Há várias informações na literatura espírita sobre os momentos que antecederam o nascimento de Jesus e fortalecendo a ideia de um preparativo para tal acontecimento histórico.1

O imperador romano Augusto – primeiro imperador e com o maior tempo de mandato: 41 anos (27 a.C.-14 d.C.) -, iniciou o longo período de paz, conhecido como Pax Romana2, depois de muitas décadas de guerra civil durante a fase republicana de Roma. Foi um governo de ordem e respeito à hierarquia; conservador e austero; esforçou-se para reviver as virtudes esquecidas das antigas tradições e da religião; tentou controlar a moral pública e o casamento; reorganizou a administração, inclusive das províncias, e as forças armadas; executou grandes obras e saneou as finanças do Estado; estimulou a cultura e a literatura latina.1

O consagrado historiador do cristianismo, Daniel Rops, chega a afirmar que “nada há, daquilo que os homens podem pedir a Deus, que Augusto não tenha proporcionado ao povo romano e ao universo”.2

Análise da historiadora Norma M. Mendes, considera que Augusto não era um tirano e era possuidor de virtudes estóicas, se encaixando no conceito de soberano como benfeitor universal.3

Por ocasião de sua morte, um senador propôs dar o nome de Augusto ao mês de seu nascimento e morte, daí ter surgido a designação do mês de agosto, do latim augustus, no calendário gregoriano. Outro senador sugeriu que todo o espaço de tempo decorrido entre o seu nascimento e sua morte recebesse o nome de "século de Augusto". Durante seu reinado, sua esposa Lívia exerceu muita influência política. Foi substituído por Tibério, filho de Lívia e portanto seu enteado. A ação de Jesus ocorreu no período de Tibério.

No livro Boa Nova, pela psicografia de Chico Xavier, o espírito Humberto de Campos confirma a visão histórica sobre o papel desempenhado pelo notável imperador e acrescenta comentários sobre sua missão na Terra:

“Uma nova era principiara com aquele jovem enérgico e magnânimo. O grande império do mundo, como que influenciado por um conjunto de forças estranhas, descansava numa onda de harmonia e de júbilo, depois de guerras seculares e tenebrosas. Por toda parte levantavam-se templos e monumentos preciosos. O hino de uma paz duradoura começava em Roma para terminar na mais remota de suas províncias, acompanhado de amplas manifestações de alegria por parte da plebe anônima e sofredora. A cidade dos césares se povoava de artistas, de espíritos nobres e realizadores. Em todos os recantos, permanecia a sagrada emoção de segurança, enquanto o organismo das leis se renovava, distribuindo os bens da educação e da justiça. […] Ele, que era o regenerador dos costumes, o restaurador das tradições mais puras da família, o maior reorganizador do Império, […] seu nome foi dado ao século ilustre que o vira nascer. Seus numerosos anos de governo se assinalaram por inolvidáveis iniciativas. A alma coletiva do Império nunca sentira tamanha impressão de estabilidade e de alegria. A paisagem gloriosa de Roma jamais reunira tão grande número de inteligências.[…] É que os historiadores ainda não perceberam, na chamada época de Augusto, o século do Evangelho ou da Boa Nova. Esqueceram-se de que o nobre Otávio era também homem e não conseguiram saber que, no seu reinado, a esfera do Cristo se aproximava da Terra, numa vibração profunda de amor e de beleza.[…]”4

O espírito Emmanuel, no livro A caminho da luz, psicografado por Francisco Cândido Xavier, faz a análise sob a ótica espiritual e destacamos do item designado “O século de Augusto”: “[…] eis que ia cumprir-se a missão do Cristo, depois de instalados os primeiros Césares do Império Romano. A aproximação e a presença consoladora do Divino Mestre no mundo era motivo para que todos os corações experimentassem uma vida nova, ainda que ignorassem a fonte divina daquelas vibrações confortadoras. Em vista disso, o governo de Augusto decorreu em grande tranquilidade para Roma e para o resto das sociedades organizadas do planeta. Realizam-se gigantescos esforços edificadores ou reconstrutivos. Belos monumentos são erigidos. O espírito artístico e filantrópico de Atenas revive na pessoa de Mecenas, confidente do imperador, cuja generosidade dispensa a mais carinhosa atenção às inteligências estudiosas e superiores da época, quais Horácio e Vergílio, que assinalam, junto de outras nobres expressões intelectuais do tempo, a passagem do chamado século de Augusto, com as suas obras numerosas.”5

Na mesma obra, Emmanuel assinala um momento importante da evolução terrestre: “Examinando a maioridade espiritual das criaturas humanas, enviou-lhes o Cristo, antes de sua vinda ao mundo, numerosa coorte de Espíritos sábios e benevolentes, aptos a consolidar, de modo definitivo, essa maturação do pensamento terrestre.”5 E considera como fatores:

“[…] os pródromos do Direito Romano e a organização da família assinalavam o período da maioridade terrestre. […] A Terra não podia perder a sua posição espiritual, depois das conquistas da sabedoria ateniense e da família romana.”5 Era chegado o momento para a vinda do Cristo: “[…] As legiões magnânimas do Cristo aprestam-se para as últimas preparações de seus gloriosos caminhos na face do mundo. O Evangelho deveria chegar como a mensagem eterna do amor, da luz e da verdade para todos os seres.”5

O “século de Augusto” e o momento da “maioridade terrestre” foram períodos marcantes na história da Humanidade e como uma preparação para a atuação do Cristo.

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cristianismo nos séculos iniciais. Análise histórica e visão espírita. Cap. 1.2. Matão: O Clarim. 2018.

2) Rops, Daniel. Trad. Pinheiro, Eduardo. História da igreja de Cristo. I. A igreja dos apóstolos e dos mártires. 2.ed. Porto: Livraria Tavares Martins. 1960. 724p.

3) Mendes, Norma Musco. O sistema político do principado. In: Silva, Gilvan Ventura; Mendes, Norma Musco (Org.). Repensando o império romano: perspectiva socioeconômica, política e cultura. Cap.I. Rio de Janeiro: Mauad; Vitória: EDUFES, 2006.

4) Xavier, Francisco Cândido. Boa Nova. Pelo espírito Humberto de Campos. 36.ed. Cap. 1. Brasília: FEB. 2013.

5) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. A caminho da luz. 38.ed. Cap.11 e 13. Brasília: FEB. 2013.

(Ex-presidente da FEB e da USE-SP)

Extraído de: Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCIII. N. 11. Dezembro de 2018. P. 600-01.

D.Cida, de Uberaba, amiga dos doentes e de Chico

D.Cida, de Uberaba, amiga dos doentes e de Chico

Aparecida Conceição Ferreira (Dona Cida) (*)

A cidade de Uberaba, além de sua beleza e prosperidade, abriga, em seu seio, importantes personagens do movimento espírita brasileiro. Uma delas, que trabalhou ao lado de Chico Xavier, é Dona Aparecida Conceição Ferreira, que se projetou nacionalmente pela fundação do "Hospital do Fogo Selvagem", especializado no tratamento dos portadores do "Pênfigo Foliáceo", uma doença cujos sintomas se assemelham a labaredas que percorrem o corpo e deixam na pele verdadeiras marcas de queimadura.

"Dona Cida" começou esse trabalho no ano de 1957, quando trabalhava como enfermeira no Isolamento da Santa Casa de Uberaba. Como o tratamento do Pênfigo era difícil e dispendioso, o hospital acabou por suprimi-lo. A abnegada servidora de Jesus não titubeou: levou os doentes para a sua própria casa. Pedindo esmolas nas vias públicas e recorrendo aos meios de comunicação, sobretudo com a ajuda dos jornalistas Moacir Jorge e Saulo Gomes, este, através da extinta TV Tupi, e contando com o irrestrito apoio de Chico Xavier, Dona Cida ergueu o grande complexo hospitalar destinado ao tratamento da insidiosa enfermidade. Depois, com a alteração dos estatutos surgiu o "Lar da Caridade", que chegou a abrigar mais de trezentos desamparados ao mesmo tempo.

Embora conhecesse Chico Xavier, e dele recebesse ajuda desde o início, tornou-se espírita somente em 1964. Foi o Chico quem a incentivou a fundar o Centro Espírita "Deus e Caridade", onde ele comparecia para transmitir passes e receber mensagens psicografadas, grande parte delas assinadas por Maria Dolores e Jesus Gonçalves. Em visita à abençoada seareira, agraciada com o título de Cidadã Uberabense por seus méritos, a "Folha Espírita" dela obteve longa entrevista, da qual destaca alguns lances de sua maravilhosa existência.

As origens: "De acordo com os assentamentos nasci em Igarapava, Estado de São Paulo, filha de Maria Abadia de Almeida, às 4 horas da manhã, no dia 19 de maio de 1917. Meus avós maternos foram Manoel Inocêncio Ferreira e Joaquina Angélica de Jesus. Pelos registros tenho a idade de 82 anos, mas acredito que tenha 86. Nunca vi meu pai e fui criada por avô e tio. Casei-me em Igarapava, no dia 14 de junho de 1934, com Clarimundo Emidio Martins. Lá fiquei até a idade de 36 anos, onde tive meus cinco filhos. De Igarapava fui para Nova Ponte, onde exerci o magistério na zona rural."

Em Uberaba: "De Nova Ponte, vim para Uberaba, onde fiz de tudo para manter minha família. Até limpeza de cisternas, porque quando cheguei na chácara onde fui morar não havia o que comer. Então, saía limpando cisternas. Eu descia no fundo dos poços, e eles puxavam o barro. Depois, me dediquei à horta. Os médicos da Beneficência Portuguesa vinham comprar as verduras e com isso não precisava sair vendendo."

Enfermeira: "O dono da chácara foi candidato a Prefeito e perdeu a eleição. Dizia ele que gostava do meu trabalho, mas não daqueles que vinham à minha casa. Verdade seja dita, eu não trabalhei na campanha dele. E eu lhe falava: "Quem vem na minha casa é melhor que eu", e procurei um jeito de sair de lá. Foi uma cabeçada, sofri bastante. Certo dia, o Dr. Jorge me convidou para trabalhar no hospital. Relutei muito, porque o quadro que eu presenciei no Isolamento era terrível: doentes com tuberculose, tétano, febre amarela… Mas acabei aceitando porque a oferta ia subindo, subindo… Afinal, me oferecerem três mil e trezentos, enquanto meu marido ganhava cento e oitenta."

Problemas: "Eu trabalhava no hospital havia dois anos e alguns meses. Venceu o mandato daquela diretoria, e entrou outra. A eleição foi dia 4, e dia 6 eles tomaram posse. Os novos diretores parece que tinham alguma rixa com nosso médico, que era irmão do Pedro Aleixo e partidário da UDN. A turma que ganhou era do PTB. Falaram para mim: "Olha, hoje não tem almoço para os doentes, pode mandar todos pra casa". "Como?" , eu disse, "eles não têm dinheiro, estão ruins." "Ordem dada, ordem executada", replicaram. Ou seja, não havia apelação, os doentes estavam na rua."

Em busca de socorro: "Eu procurava consolar os doentes dizendo-lhes: "Não chorem, não, nós vamos fazer uma passeata e o povo vai nos ajudar" . Fui a uma rádio pediram-me para "refrescar a cabeça", noutra, a mesma coisa, no jornal, igual. Eu não sabia que estava brigando com a nata da cidade: Prefeito, Escola de Medicina, Saúde Pública. Me mandaram pra casa e fui muito triste, nervosa, matutando como fazer. Eram doze doentes. Fomos para minha casa."

Momento de decisão: "Em casa, um de meus filhos me disse: "A senhora escolhe, ou nós ou os doentes". Não vacilei e respondi: "Hoje, fico com os doentes, porque eles têm Deus e eu por eles, vocês estão crescidos e vão se virar". Chamei todos eles para dentro, e entraram chorando. E aí os vizinhos me davam um caixote; o outro, um colchão; outro uma tábua; e eu agasalhei os doze. Fui fazer o almoço, eram três ou quatro horas da tarde. A gente estava só com o café da manhã. Enquanto fazia comida, gritava para minhas filhas esquentarem água para eles tomarem banho na lata de querosene e assim permanecemos ali por dois dias."

Asilo São Vicente de Paulo: "No fim de dois dias, chegaram os diretores da Escola de Medicina e da Saúde Pública para ver as condições, que eram precárias. E aí arrumaram o Asilo São Vicente de Paulo, para que ficássemos dez dias porque, no final de dez dias, como prometiam, iriam arrumar alguma coisa melhor. Foram dez anos, nunca mais vi eles. Foi o tempo que eu levei para construir isso aqui, com a graça de Deus e a ajuda do povo."

Preconceitos: "Havia muito preconceito para com os doentes. Eu saía para pedir esmolas com três deles. Muita gente nos via e descia da calçada. Eu falava: "Não saiam não, porque se vocês saírem, apanham". Se nós entrávamos nos ônibus, o pessoal descia. Fomos pedir em uma casa daqui, cuja dona se dizia espírita e os meninos tocaram no portão. Antes que subíssemos, ela mandou passar álcool no portão para desinfetar. A doença do pênfigo é triste, é horrorosa, o doente na primeira fase é um pedaço de carne podre. E o povo tinha medo, porque ninguém conhecia, nós vencemos. Para fazer esta casa aqui foi uma luta, tantos foram os abaixo-assinados para que não fosse feita…"

Oito dias no xadrez: "Aqui não tem um grão de areia dado pela Prefeitura, nem pelo Estado ou a União. Foi o povo quem me ajudou. O pessoal espírita daqui fazia a campanha "Auta de Souza" e traziam as coisas para mim. Mas não dava para manter a casa, porque no final de um mês eu tinha trinta e cinco doentes. Fui para São Paulo e ficava no Viaduto do Chá, em frente da Light. Punha um lençol, as meninas segurando, e eu com um sino dizia: "Me dêem uma esmola pelo amor de Deus, para os doentes do Fogo Selvagem de Uberaba". E aí o povo ia jogando níqueis. Na época, foram dois vereadores daqui passear em São Paulo: um advogado e um médico. Achando que eu estava desmoralizando Uberaba, fizeram Ofícios para o Chateaubriand (**) e para a Delegacia. Fiquei oito dias no xadrez, até que uma advogada, Doutora Izolda, me tirou. Quem mandou ela me tirar, não sei até hoje, pois ela já morreu."

No Palácio dos Campos Elíseos com Scheilla: "Um dia, eu e o Lauro (**) estávamos andando na Avenida Rio Branco, nos Campos Elíseos, e eu o convidei para entrar. Atônito, ele disse: "Você está doida, nós estamos sujos, fedendo a suor, entrar aí no palácio do governador?". Mostrei as fotos dos doentes ao policial da portaria, ele ficou muito revoltado e me mandou segui-lo. … Passamos por saguões, escadas e tapetes vermelhos. Dona Leonor (**) estava conversando com um senhor. Em outra poltrona, estava sentado Don Evaristo e na terceira, nós. Ela acabou de conversar com os dois, e chegou nossa vez. Quando ela ia fazer menção de se sentar eu disse: "A Scheilla quebrou um vidro de perfume". Entre nós e a Dona Leonor ficou igual neblina e aquele perfume sufocando. Precisamos procurar ar. Quando melhorou, ela perguntou o que queríamos e lhe disse que pedia ajuda para o Hospital do Pênfigo. Ela disse: "Eu não posso ajudar, porque a senhora mora em Minas, e eu sou de São Paulo". Mas acabou me dando uma máquina de costura, duas peças de cretone e dez contos. Mas fiquei pensando: "O Chico não está aqui, como é que veio aquele perfume?"

O primeiro passe: "No mesmo dia em que estivemos com Dona Leonor, à noite, eu e o Lauro fomos a um Centro Espírita, uma casa velha, com muita gente. Logo que começou, o presidente da mesa falou: "A pessoa do fogo selvagem que estiver aí faça o favor de se dirigir à mesa". Não fui. Quando acabaram os trabalhos, todos foram saindo, menos aqueles da mesa. O presidente tornou a falar sobre a pessoa do "Fogo Selvagem". Eu me apresentei, e ele pediu-me desculpas porque não sabia quem eu era e falou que o "Mentor da Casa" tinha dito que era para eu dar um passe na Presidente do Centro, que já fazia três meses estava entrevada. Eu nunca tinha dado passe, mas agüentei firme. Subimos aquela escada de madeira em caracol e lá chegamos. Ela se chamava Mafalda, uma portuguesa. Estava sob um cortinado "chic", a turma rodeou a cama dela, e me puseram frente-a-frente. Eu iniciei a oração, senti algo estranho e pensei: "Nossa Senhora, agora vai sair bobagens aqui". Dei o passe e fomos embora. Dizem que em três dias ela andou. Aí, eu falei: "Preciso ser Espírita, porque a coisa está me apertando. A comida, ganhamos do povo espírita, agora a Scheilla me deu essa permissão, esse passe". Dona Mafalda me ajudou muito, fazia bingos, rifas, jantares, até quando morreu de câncer."

Chico Xavier: "Tantos e tantos foram os episódios interessantes que pude vivenciar com Chico Xavier. Certa vez, eu estava fazendo campanha em São Paulo, a situação estava difícil, e aquele dia não estava bom para pedir esmolas. Estava na Avenida Paulista, em frente da Televisão, amargurada, fazendo minha oração, triste, porque não estava rendendo nada. De repente, eu olho e vejo o Chico na outra calçada. Até que eu procurasse um lugar para passar e ir de encontro com o Chico, cadê o Chico? Que Chico, nada… Mas, daquela hora em diante, as coisas melhoraram para mim, desci a Brigadeiro e fui para o Anhangabaú, e ali a mina nasceu… Meu primeiro encontro com o Chico foi quando eu tinha uma doente muito obsediada; na época, eu dizia que ela estava doida. Fazia quinze dias que ela não dormia e nem deixava ninguém dormir. O Chico tinha acabado de chegar aqui. Um acadêmico de Medicina, Aldroaldo, me convidou para levar a doente ao Chico. Eu disse: "Sou católica, não queria ser espírita, porque tinha comigo que para servir a Deus não precisava mudar de seita, em qualquer delas se pode servir". Então, o Aldroaldo apareceu com uma "chimbica" junto com outro estudante. A doente queria saltar pela janela, a colocamos no meio. Chegamos lá no Chico, o quarto era pequeno e estava repleto de gente. O Chico estava de pé, escrevendo. Mas eu não vi o Chico, eu vi o Castro Alves. Nem me lembrei que Castro Alves tinha morrido. Falei: "Que Chico, que nada, é Castro Alves, com cabelo à " la garçon", grisalho". Por fim, eu disse: "Vamos embora, vamos embora". Na volta, a doente veio moderada, entrou dentro do carro sozinha e dormiu a noite toda…"

O Espiritismo: "Eu detestava o Espiritismo. Só a partir de 1964 é que me aproximei do Espiritismo, quando estava fazendo a campanha de tijolos para esta casa. Como já disse, fiquei pensando, não é possível, o povo faz campanhas de mantimentos e os trazem para mim, o povo me agrada, me dão dinheiro, a Scheilla me aparece em São Paulo. Naquela noite, eu não dormi, matutando: "Eu vou lá na mulher, nunca tinha dado passe na vida, me mandam dar passe, só virando espírita". E o Espiritismo não é brincadeira, é coisa muito séria, não se pode brincar com o Espiritismo. Às vezes, você vai em um Centro pensando que vai levar e você volta carregada. Eu não brinco".

Uma mensagem aos Espíritas: "Aos que buscam desenvolver algum trabalho, a minha mensagem é de que tenham muito amor, muita sinceridade e que façam as coisas para si e não para os outros verem. Porque a maioria faz as coisas para os outros verem. E não importa o que os outros falam, porque todas as pessoas que vão fazer a caridade levam o título de "ladrona". Meu título era de ladrona. Alguém foi perguntar para o Chico, porque todos diziam que eu estava roubando. Porque quando eu comprava um terreno, diziam: "Comprou mais um terreno para o filho". Comprava outro, era a mesma coisa. Então, o Chico disse àqueles que foram lhe falar: "Me digam onde ela roubou, que eu vou ajudar ela a roubar". A partir daí, o povo foi parando de falar que eu roubava."

(*) D. Aparecida C. Ferreira (19-05-1917/22-12-2009).

(**) Lauro (acompanhante de campanha); Leonor (primeira dama, esposa do governador Ademar de Barros); Chateaubriand (jornalista Assis Chateaubriand).

(Sobre a vida e obra de Aparecida Conceição Ferreira sugerimos a leitura do excelente livro: "Uma Vida de Amor e Caridade", de Izabel Bueno, Editora Espírita Cristã Fonte Viva, Belo Horizonte-MG.)

Texto publicado originalmente no jornal Folha Espírita, São Paulo, 09/1999. Transcrito do Boletim Eletrônico “Notícias do Movimento Espírita”, São Paulo, SP, quarta-feira, 28 de novembro de 2018; Compiladas por Ismael Gobbo.

O projeto “Cartas de Kardec”

O projeto “Cartas de Kardec”

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Fomos distinguidos pela Fundação Espírita André Luiz – FEAL com dois honrosos convites ao longo do ano de 2018.

Em 26 de maio de 2018 para comparecer e usar da palavra no evento realizado no Centro Espírita Nosso Lar, bairro de Santana, em São Paulo, sobre o Centro de Documentação e Obras Raras da FEAL quando foi apresentado o “Projeto Cartas de Kardec”, inaugurado o Instituto Canuto Abreu junto à FEAL e lançada a tradução da 1ª. edição francesa de A gênese, editada pela FEAL. Na oportunidade, recebemos alguns esclarecimentos sobre o descumprimento de contrato anterior firmado pelo Instituto Canuto Abreu, neto de Canuto Abreu, e também sobre um acidente havido com o acervo de Canuto Abreu no local onde estavam depositados. Em consequência, Lian de Abreu Duarte passou oficialmente a guarda do acervo do Instituto Canuto Abreu para a FEAL. Registramos que estavam presentes ao evento além de lideranças de São Paulo, como a presidente da USE-SP Júlia Nezu, Simoni Privato Goidanich, autora do livro O legado de Allan Kardec, Jussara Korngold, presidente do United States Spiritist Council e Elsa Rossi, presidente da British Union of Spiritist Societies.

Outro fato marcante foi o convite para sermos um dos entrevistados no programa especial dedicado ao projeto “Cartas de Kardec”, relacionado com o Instituto Canuto Abreu, levado ao ar pela Rede Boa Nova (Rádio Boa Nova e TV Mundo Maior), vinculada à Fundação Espírita André Luiz, no dia 21 de novembro de 2018.1 O Instituto Canuto Abreu é depositário de muitos manuscritos e documentos de Allan Kardec obtidos na França por Silvino Canuto Abreu antes da 2a Guerra Mundial. Também contém as históricas correspondências entre Canuto Abreu e Chico Xavier e um riquíssimo acervo de livros e periódicos.

Com a passagem da guarda do riquíssimo acervo para a FEAL é que surge o “Projeto Cartas de Kardec”.2 A FEAL reuniu equipe de especialistas contratados e voluntários para proceder à recuperação, identificação, estudo grafotécnico, tradução e catalogação dos manuscritos e documentos. Estes serão paulatinamente disponibilizados ao público por meio digital.

A nossa admiração por Silvino Canuto Abreu (1892-1980) foi precoce em função da tradução que o mesmo fez da 1ª edição de O livro dos espíritos, lançada em exemplar bi-lingue: O primeiro livro dos espíritos de Allan Kardec – 1857 (Companhia Editora Ismael, 1957). Outras obras do autor que muito me impressionaram foram: Bezerra de Menezes (Ed.FEESP) e O livro dos espíritos e sua tradição histórica e lendária (Ed. Lar da Família Universal).

Posteriormente em nossa trajetória de ações no movimento espírita pela amizade e apoio às gestões de Nestor João Masotti na USE-SP, FEB e CEI; pelos contatos com o casal Paulo Machado e Elza Mazzonetto desde antes deles fundarem o Museu Espírita de São Paulo; e com Oceano Vieira de Melo; na condição de presidente da FEB mantivemos muitos contatos com o neto de Canuto Abreu, Lian de Abreu Duarte.

Durante nossa presidência na FEB houve a passagem do Museu Espírita de São Paulo para a FEB, a criação do Espaço Cultural da FEB e a assinatura de contratos com Lian, como representante do Instituto Canuto Abreu. Lamentavelmente, após deixarmos a presidência, surgiram percalços depois de 2015 e os citados contratos não foram integralmente cumpridos.3,4,5

O movimento espírita vive momentos de resgates históricos neste ano de 2018. Iniciaram-se com as pesquisas e os documentos sobre as edições de A Gênese na França, bem registrados no livro O legado de Allan Kardec, de Simoni Privato Goidanich6, culminando com a tradução da 1a edição francesa de A gênese pela FEAL; prosseguem pesquisas na França sobre fatos do século XIX, com apoio de Le Mouvement Spirite Francophone; o filme-documentário "Espiritismo à Francesa: a derrocada do Movimento Espírita Francês pós-Kardec"7, produção da Luz Espírita/Autores Espíritas Clássicos, focalizando o enfraquecimento e desaparecimento quase absoluto do Espiritismo, tanto na França, seu berço, quanto na Europa logo após a desencarnação de Allan Kardec; o lançamento da edição bi-lingue e digital do livro Beaucoup Lumière/Muita luzde Berthé Fropo, amiga do casal Kardec; e, agora com as pesquisas sobre manuscritos inéditos de Kardec e correspondências entre Canuto Abreu e Chico Xavier.

Nossa expectativa é que todo esse movimento redundará na redação de nova página da história do Espiritismo, mas completando e/ou revisando páginas anteriores!

Referências:

1) Link para acesso ao programa: https://www.youtube.com/watch?v=nqA5u5Moa3o;

2) Link para acesso ao Projeto: https://www.catarse.me/cartasdekardec;

3) FEB assume Museu Espírita de São Paulo. Reformador. Ano 131. N. 2.211. Junho de 2013. P. 234.

4) Inaugurações de Espaços iniciam as comemorações dos 130 anos da FEB. Reformador. Ano 132. N. 2.218. Janeiro de 2014. P. 49-51.

5) Aberta Exposição sobre Chico Xavier na FEB-Rio. Reformador. Ano 132. N. 2.225. Agosto de 2014. P. 503.

6) Goidanich, Simoni Privato. O legado de Allan Kardec. 1.ed. São Paulo: USE. 2018. 446p.

7) Link para acesso ao documentário: https://www.youtube.com/watch?v=Ywf8Ftu2eUo;

8) Fropo, Berthé. Trad. Lopes, Ery & Miguez, Rogério. Muita luz. Ed.digital Autores Espíritas Clássicos, 2017: http://luzespirita.org.br/leitura/pdf/L158.pdf

(*) Presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (1990-1994 e 1997-2000); diretor e vice-presidente da FEB (2004-2012); presidente interino e presidente da Federação Espírita Brasileira (2012-2015); membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional (2007-2016).

25 anos da Campanha “Viver em família”

25 anos da Campanha “Viver em família”

No ambiente familiar deve ocorrer não apenas a reunião do Evangelho no lar, mas o esforço pela vivência dos postulados espíritas e cristãos

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A Campanha “Viver em Família” completa 25 anos de lançamento, tendo por slogan “O melhor é viver em família. Aperte mais esse laço”.

Logo depois que assumimos a presidência da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, no segundo semestre de 1990, já se iniciava uma reunião de estudos sobre temas da família, e, que era coordenada pela nossa esposa Célia Maria Rey de Carvalho, contando com um grupo de colaboradores. Adotava-se uma programação que iniciamos com a esposa, poucos anos antes no Centro Espírita Luz e Fraternidade, de Araçatuba (SP).

O programa de estudo concretizado na sede da USE-SP foi a origem do livro Família & espiritismo, editado pela USE-SP, preliminarmente lançado como um opúsculo.1

No ano de 1992, durante reunião da diretoria da USE-SP, os companheiros Sander Salles Leite e Joaquim Soares informaram que a Organização das Nações Unidas-ONU, preparava-se para promover o "Ano Internacional da Família", em 1994 – com o objetivo de "contribuir para construir a família, a menor democracia no coração da sociedade"2 -, e que a USE-SP que havia promovido a "Campanha Integração da Família", em 1980, e que realizava reuniões de estudo e publicações sobre o tema, deveria apresentar uma proposta sobre o tema para o Conselho Federativo Nacional da FEB.

De fato, a USE-SP apresentou uma proposta de Campanha sobre Família na reunião do Conselho Federativo Nacional da FEB, em novembro de 1992. Foi formada uma Comissão que foi incumbida de elaborar uma proposta para a reunião do CFN da FEB do ano seguinte, integrada por representantes de São Paulo: Antonio Cesar Perri de Carvalho e Célia Maria Rey de Carvalho; Rio de Janeiro: Gerson Simões Monteiro e Lydiênio Barreto de Menezes: FEB: Nestor João Masotti e Paulo Roberto Pereira da Costa; havendo assessoria de Merhy Seba (SP). Assim, surgiu a proposta da Campanha "Viver em Família", a qual foi aprovada pelo Conselho Federativo Nacional da FEB em suas reuniões de novembro de 1993.

No final deste evento, à noite, houve o lançamento no Auditório do Senado Federal, em mesa integrada pelo senador Coutinho Jorge, espírita do Pará; pela FEB, o presidente Juvanir Borges de Souza, vice-presidentes Cecília Rocha, Nestor João Masotti e Altivo Ferreira; presidentes de Federativas Estaduais: Antonio Cesar Perri de Carvalho (SP), Jonas da Costa Barbosa (Pará), e mais alguns parlamentares.

O lançamento nacional da Campanha "Viver em Família" ocorreu em São Paulo, no dia 29 de janeiro de 1994, com realização da USE-SP na sede do Centro Espírita Nosso Lar, sendo desenvolvido o Seminário “Formação de equipes para a Campanha”. A mesa de instalação do evento foi integrada por: vice-presidentes da FEB Nestor João Masotti e Altivo Ferreira; Paulo Roberto Pereira da Costa, coordenador da Comissão Operacional da Campanha “Viver em Família” do CFN da FEB; Antonio Cesar Perri de Carvalho, presidente da USE-SP; Gerson Simões Monteiro, presidente da USEERJ; Teodoro Lausi Sacco, presidente da FEESP; Célia Maria Rey de Carvalho, Coordenadora da Campanha para o Estado de São Paulo; Ivan René Franzolim, presidente da Associação dos Jornalistas Espíritas do Estado de São Paulo; e Irinéia Terra, representante do C.E. Nosso Lar. Divaldo Pereira Franco proferiu a palestra de abertura. Seguiu-se o seminário desenvolvido durante o dia 30 de janeiro de 1994. Este evento marcante originou o livro Laços de família, editado pela USE-SP.2

A Comissão Estadual desta Campanha em São Paulo coordenada por Célia Maria Rey de Carvalho promoveu vários eventos em todo o Estado. Um seminário em nível estadual, promovido pela USE-SP gerou um outro livro: A família, o espírito e o tempo, editado pela USE-SP.3

Fato de máxima importância é que a família deve contar com um espaço integrado e conjunto no Centro Espírita, deixando-se de ser pulverizada – com barreiras etárias – apenas em reuniões específicas para crianças, jovens e adultos. E no ambiente familiar deve ocorrer não apenas a reunião do Evangelho no lar, mas o esforço pela vivência dos postulados espíritas e cristãos. Daí, as questões básicas de O livro dos espíritos: "Os laços sociais são necessários ao progresso e os laços de família estreitam os laços sociais. Eis aqui porque os laços de família são uma lei natural. […] Qual seria para a sociedade o resultado do relaxamento dos laços de família? ̶ Uma recrudescência do egoísmo."4

E o comentário de Emmanuel: “A melhor escola ainda é o lar, onde a criatura deve receber as bases do sentimento e do caráter. […] Como renovar os processos de educação para a melhoria do mundo? – As escolas instrutivas do planeta poderão renovar sempre os seus métodos pedagógicos, com esses ou aqueles processos novos, de conformidade com a psicologia infantil, mas a escola educativa do lar só possui uma fonte de renovação que é o Evangelho, e um só modelo de mestre, que é a personalidade excelsa do Cristo.”5

A propósito do momento do Evangelho no lar, recomenda Bezerra de Menezes: “Que tão belos serões renovadores do lar e dos corações obtenham êxito na boa educação da infância e dos iniciantes em geral, é o meu desejo.”6 Na literatura espírita – além das obras citadas -, há muitos subsídios para se estudar e analisar os temas sobre família.

Passados 25 anos do lançamento da Campanha “Viver em Família”, o cenário em que vivemos solicita muita atenção para o cultivo dos valores familiares. O momento requer a implementação do slogan da Campanha, inspirado em O livro dos espíritos: “O melhor é viver em família. Aperte mais esse laço”!

Referências:

1) Carvalho, Célia Maria Rey (Org.). Família & espiritismo. 6.ed. São Paulo: USE. 231p.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri (Org.). Laços de família. 8.ed. São Paulo: Ed. USE. 150p.

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri (Org.). A família, o espírito e o tempo. 1.ed. São Paulo: USE. 140p.

4) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos espíritos. Questões 774 e 775. Brasília: FEB.

5) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. O consolador. 29.ed. Questões 110 e 112. Brasília: FEB.

6) Bezerra de Menezes. Advertência aos pais. In: Pereira, Yvonne Amaral. A família espírita. 1.ed. Brasília: FEB. 117p.

Ex-presidente da FEB e da USE-SP.

De: Revista internacional de espiritismo. Ano 93. N.10. Novembro de 2018. P. 544-546.

Resgates da História do Espiritismo na França. II. Aparecimento da União Espírita Francesa

Resgates da História do Espiritismo na França. II. Aparecimento da União Espírita Francesa

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Oportuna publicação digital foi editada por Autores Espíritas Clássicos reunindo os discursos e decisões registradas nas Atas das reuniões ocorridas entre 24 de dezembro de 1882 e 15 de janeiro de 1883, relacionadas com a fundação da Union Spirite Française.1 A apresentação é de Alexandre Delanne, o grande amigo de Allan Kardec, que comentou: “Os princípios de nossa filosofia foram reunidos, como vós o sabeis, em corpo de doutrina por nosso mestre que nos faz muita falta, Allan Kardec: foi preciso seu gênio e a cooperação do mundo invisível para espalhar-se tanto e tão rápido, nas massas, nossas ideias tão justas, tão consoladoras e tão grandes. Sua partida da terra foi uma perda bem sensível para seus adeptos e um grande prejuízo no desenvolvimento de nossa doutrina. Desde sua morte, com efeito, o espiritismo, nós o constatamos, diminuiu sua marcha.” E cita como causa a guerra franco-prussiana e a dispersão dos espíritas, perdendo a “unidade no estudo”.1

Marcantes discursos foram feitos por Gabriel Delanne e por Léon Denis, este com apelo caloroso à união e à concórdia. O Estatuto da União Espírita Francesa define em seu Artigo 1o: “A união tem por objetivo o agrupamento de espíritas franceses, o estudo de todos os fenômenos espíritas, e a propagação da filosofia e da moral do espiritismo por todos os meios que as leis autorizam, e principalmente pela publicação de um jornal bimensal tendo por título: Le Spiritisme órgão da União Espírita Francesa.” A nova revista objetiva o ensino “conforme às ideias enunciadas por Allan Kardec, isto é simples, claro, e principalmente ao alcance dos novos adeptos, que não demandam senão a conhecer os costumes do mundo dos espíritos, a grande pátria a que nós devemos rever.”1

Treze anos após a desencarnação do Codificador, a publicação sobre a União Espírita Francesa registra momentos históricos sobre um ambiente de dissenção e de preocupações com a situação do Espiritismo. A fundação desta União foi reação às deturpações influenciadas por Leymarie junto à Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec e à Revista espírita. Da relação de 18 fundadores destacamos: Alexandre Delanne, Gabriel Delanne, Léon Denis, Berthé Froppo. Há grande número de assinaturas como membros da União e assinantes da nova revista. O apoio de Amélie Boudet, já nos últimos momentos de sua existência física, e o comprometimento dos fundadores da União Espírita Francesa, evidenciam que os genuínos amigos e seguidores de Allan Kardec eram idealistas e fiéis à sua obra.

Como uma síntese das últimas e complexas décadas do século XIX, foram reunidos artigos da época, da Revue Spirite e de Le Spiritisme, na publicação intitulada “Influenciações no espiritismo pós-Allan Kardec”, com tradução de Rogério Miguez (2018)2. Destacam-se textos de Henri Sausse, Berthe Fropo, Amélie Boudet, Gabriel Dellane, Léon Denis, Anna Blackwell, que tomaram a frente na defesa da Doutrina dos Espíritos. O tradutor ressalta “os informes de Henri Sausse e Berthe Fropo, quando desafiaram Pierre Leymarie a buscar a verdade sob a chancela de um Júri de Honra, que, ao que tudo indica, não foi aceito. Pois, quem está seguro do que diz, não teme ir à justiça do homem para esclarecer os fatos, se preciso for, porquanto, a de Deus se fará inexoravelmente, mas com brandura e misericórdia.”2

O tradutor Miguez pondera que “de modo algum pretendemos julgar Pierre Leymarie, pois este julgamento pertence a Deus, nada obstante: informar o movimento sobre discussões antigas que interessam a todos; demonstrar como há uma dúvida consistente sobre quem fez alterações em A gênese; construir uma parte da História do Espiritismo, destacando personagens antigas que permaneciam na obscuridade e que tiveram capital importância no desenvolvimento e divulgação da Doutrina; e mais, despertar a curiosidade dos espíritas em saber quantas dificuldades surgiram após o desencarne de Allan Kardec, será sempre oportuno, saudável e recomendado àqueles procurando apenas a verdade e nada mais.”2

Em 1889 Paris sedia o 2º. Congresso Espírita e Espiritualista3, no ano seguinte ao do pioneiro evento realizado em Barcelona. A publicação das Atas do Congresso de Paris registra que este reuniu “as principais escolas espiritualistas: os Kardecistas, os adeptos de Swedenborg, os Teosofistas, os Cabalistas e os Rosacruzes.” Houve a presença de muitas celebridades. A sessão inaugural foi presidida por J. Lermina, assistido pelo filósofo Charles Fauvety, pela duquesa de Pomar, Marcus de Veze e Eugène Nus. O relator dos trabalhos era Dr. Encausse (Papus), um ocultista, dirigente da revista hermética A iniciação. Havia Comissões sobre o espiritualismo em geral, filosofia e questões sociais, ocultismo, propaganda. Esta última era presidida por Léon Denis, que logo despertou a atenção dos congressistas e seu primeiro discurso foi entrecortado de aplausos e já se revelava como um líder.3,4

Nesse Congresso ocorreram fortes desentendimentos sobre certos pontos da Doutrina Espírita, inclusive com interferências de Leymarie. Durante as discussões Denis apareceu como o mais seguro defensor da tese kardecista. O presidente do Congresso havia aceitado essa tese com restrição, pois a considerava apenas uma hipótese de transição entre o conceito cristão e o do futuro. Contrapondo-se ao presidente, referindo-se às pequenas escolas dissidentes, que já criticavam a obra de Allan Kardec, Denis afirmou:

“Tem-se esforçado, dizia ele, por divulgar, na França, um Espiritismo chamado positivista, uma doutrina seca e fria nada tendo de comum com o Kardecismo. […] Allan Kardec tem sido, dizem, muito cauteloso e deu motivo em sua obra para as idéias místicas e católicas. Não é exato. O Mestre defendeu o Cristianismo e não o Catolicismo. Allan Kardec manteve a moral evangélica porque ela não é somente a moral de uma religião, de um povo, de uma raça, mas porque é uma moral superior, eterna, que ela reconstruiu e haverá de reconstruir tanto as sociedades terrenas como as sociedades do Espaço.”4

A Revue spirite, informa o lançamento de A gênese, em 2018, conforme a 1a edição de 1868, e comenta: “Nesta ocasião, vários pesquisadores espíritas de todo o mundo (Uruguai, Argentina, Colômbia, Brasil, Estados Unidos e França) realizaram pesquisas sobre o assunto, às vezes independentemente uns dos outros, e todos eles estabeleceram que há uma dúvida legítima sobre a presente edição de A gênese, que está em conformidade com a 5a edição publicada em 1872, que é depois da desencarnação de Allan Kardec”5 (tradução livre do autor). E divulga: “A gênese, elaborada por Le Mouvement Spirite Francophone, feita conforme os textos das quatro primeiras edições, publicadas durante a vida do autor”; ou seja as edições feitas por Allan Kardec em 1868. Esta revista francofônica transcreve um capítulo do livro de Simoni Privato Goidanich6 vertido para o francês. A Revue spirite é uma continuação da Revista fundada por Allan Kardec em 1858, sendo órgão oficial do Conselho Espírita Internacional editada por Le Mouvement Spirite Francophone.

Na “Nota do Editor” da nova edição francesa de A gênese, comenta-se que “a análise das modificações mostram que numerosas passagens foram suprimidas na 5a edição, outras modificadas…”7

Alguns fatos referentes aos 20 anos subsequentes à desencarnação de Allan Kardec já apontam momentos complexos vividos pelo Espiritismo na França e suas repercussões em vários países, e, que devem merecer reflexões em nossos dias.

(*) – Foi presidente da FEB e membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional.

Referências:

1) Fundação da União Espírita Francesa. Trad. Ferreira Filho, Abílio. Ed.digital Autores Espíritas Clássicos, 2018: http://www.autoresespiritasclassicos.com

2) Influenciações no espiritismo pós-Allan Kardec – Artigos de Revue spirite e Le spiritisme. Trad. Miguez, Rogério. Ed.digital Autores Espíritas Clássicos, 2018: http://www.autoresespiritasclassicos.com

3) Compte rendu du Congres Spirite et Spiritualiste Internacional. Paris: Librairie Spirite. 1890. 454p: https://drive.google.com/file/d/1dOy1i0uMvzA7MPOKx00S5kx_NumibWuZ/view?usp=sharing

4) Luce, Gaston. Trad. Maillet, Miguel. Vida e obra de Léon Denis. São Paulo: Edicel. 1968. 240p.

5) Nouvelle édition de La Genèse selon le spiritisme. Revue spirite. 161e année. 1ème trimestre 2018. P. 36-42.

6) Goidanich, Simoni Privato. O legado de Allan Kardec. 1.ed. São Paulo: USE. 2018. 446p.

7) Kardec, Allan. La Genèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme. 1.ed. Le Mouvement Spirite Francophone. 2018. 368p.

Extraído de: http://www.oconsolador.com.br/ano12/593/especial.html

Resgates da História do Espiritismo na França. I. Problemas da “Sociedade Anônima”

Resgates da História do Espiritismo na França. I. Problemas da “Sociedade Anônima”

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Os livros e periódicos espíritas brasileiros, trazem informações superficiais sobre o desenvolvimento do Espiritismo na França logo após a desencarnação de Allan Kardec, não necessariamente fundamentadas em pesquisas em fontes francesas e com replicagens de informações. Este cenário se altera com as facilidades da internet, com acesso direto a bibliotecas, coleções digitais de periódicos e de documentos. E, sem dúvida, as viagens internacionais tornaram-se mais fáceis.

Recentemente, têm surgido obras que resgatam cenários do Espiritismo na França ou, para o contexto da literatura mais divulgada no Brasil, de certa forma muito institucionalizada, podemos dizer que se está reescrevendo muitos episódios com base em fatos e documentos. Entre as produções recentes, citamos: Em Nome de Kardec, de Adriano Calsone1; Revolução Espírita: a teoria esquecida de Allan Kardec, de Paulo Henrique de Figueiredo2; O legado de Allan Kardec, de Simoni Privato Goidanich3, e o vídeo documentário “O espiritismo à francesa. A derrocada do movimento espírita francês pós-Kardec”4, com vários entrevistados. Há também edições digitais efetivadas pelo site Autores Espíritas Clássicos, com traduções de publicações francesas do século XIX.

Com base nestas obras pode-se conhecer melhor as dificuldades vivenciadas pelos seguidores e pela viúva de Allan Kardec, após a desencarnação deste em 1869. Importante contribuição foi a divulgação da brochura Beaucoup de lumière, de Berthe Fropo (Paris, 1884)5. Esta passou despercebida até a Biblioteca Nacional da França digitalizá-la e colocá-la ao alcance de todos. Traduzida como Muita luz é um subsídio precioso para a melhor compreensão dos percalços para a propagação do Espiritismo após a desencarnação do Codificador. Berthe Fropo aborda o ponto crucial do desvirtuamento doutrinário ocorrido no movimento espírita francês pós-Kardec, apresentando nomes dos que não agiam fielmente ao Codificador, dados em letras e cifras, já que o caso estava envolto em uma grave “questão financeira”. Seu livro é uma espécie de dossiê, um libelo público contra os dirigentes do Espiritismo de então e um apelo para os "espíritas sinceros" para, no discurso da autora, não aceitarem as ações dos “confrades desleais”. A autora destaca Pierre-Gaëtan Leymarie, editor-chefe da Revista Espírita, e também, na prática, o "chefe" da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, embora a presidência fosse formalmente ocupada pelo Sr. Vautier, que também ocupava o cargo de tesoureiro da instituição. O apelo de Fropo, em oposição a Leymarie e outros, apontando atividades das mais nocivas aos ideais do Espiritismo, minando-o pela base, culmina na fundação de uma nova instituição, a União Espírita Francesa, e do jornal Le Spiritisme que representaria a "autêntica Doutrina dos Espíritos".5

Gabriel Delanne e Berthe Fropo assumiram, respectivamente, a presidência e a vice-presidência da União Espírita Francesa. Houve estímulo em mensagens assinadas pelo espírito Allan Kardec, obtidas em várias sessões mediúnicas realizadas na residência da viúva do Codificador, em Villa Ségur. Com a concordância de Amélie Boudet, Gabriel Delanne e Berthe Fropo é lançado um plano doutrinário para se revitalizar a divulgação das obras de Kardec, que havia sido comprometida por Leymarie, que agia sob a influência de outros pensamentos, como a do Roustainguismo e mais intimamente a da Teosofia de Madame Blavatsky e do Coronel Olcott.5

Oportuna pesquisa, El legado de Allan Kardec, de Simoni Privato Goidanich foi editada e lançada pela Confederação Espírita Argentina, em Buenos Aires, em 2017. Em março de 2018 a União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo lançou a edição em português da referida obra.3 Simoni Privato Goidanich trata dos momentos significativos dos 10 anos após o lançamento de O livro dos espíritos; os papéis desempenhados por Léon Denis e Gabriel Delanne e o relacionamento de ambos com Kardec; os episódios sobre as primeiras edições francesas de A gênese; e a desencarnação do Codificador. Em seguida, aborda as questões legais sobre o nome e o pseudônimo de Kardec; a fundação da Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec; comenta o chamado “o ano terrível” (1872), relacionado com o lançamento da 5a edição de A gênese designada como “revisada, corrigida e aumentada”; o “processo dos espíritas” envolvendo Leymarie; os cerceamentos inflingidos à Amélie Boudet e sua desencarnação; a queima de arquivos e documentos da viúva de Kardec; o alerta do biógrafo de Kardec, Henri Sausse – “Uma infâmia” – apontando 126 alterações de texto na 5a edição de A gênese; as nefastas deturpações executadas por Leymarie em instituições e na Revista Espírita; as lutas e propostas renovadoras de Gabriel Delanne e León Denis e a fundação da União Espírita Francesa.

No livro de Simoni ficaram evidentes as alterações de propósitos da Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec, depois transformada por Leymarie em Sociedade Científica do Espiritismo, e, também na linha editorial da Revista Espírita: “as páginas estavam cada vez mais ocupadas com artigos sobre teosofia […] Estabeleceu-se um vínculo da Sociedade Teosófica com a Sociedade de Estudos Psicológicos e a Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec”.3 No contexto de deturpações e polêmicas, as edições francesas de A Gênese, a partir da 5a edição de 1872 (aquela “revisada, corrigida e aumentada”) é que foram autorizadas traduções para diversos países, por Leymarie – como redator-chefe e diretor da Revue Spirite (1870 a 1901), gerente da Librairie Spirite (1870 a 1897) e presidente da Sociedade Anônima -, inclusive para o Brasil, primeiramente para Joaquim Carlos Travassos em 1875, e depois para Bezerra de Menezes, como presidente da FEB, em 1897.

Por outro lado, Simoni mostra que o pioneiro e líder espanhol José María Fernández Colavida traduziu e publicou a 2a edição de A Gênese, de 1868, em Barcelona (Espanha), mantendo-se fiel à edição de Kardec.3

Simoni comprova que até a desencarnação de Kardec ocorreram quatro edições de A Gênese, e que um único exemplar deste livro foi depositado legalmente durante a existência física de Allan Kardec na Biblioteca Nacional da França. Portanto, o Codificador não modificou o conteúdo da obra. Na época, o Ministério do Interior fiscalizava as publicações, pois a França vivia momentos políticos tensos durante o reinado de Napoleão III.3

(O artigo prossegue em edição próxima)

(*) – Foi presidente da FEB e membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional.

Referências:

1) Calsone, Adriano. Em Nome de Kardec. 1.ed.. Atibaia: Ed. Vivaluz. 2015. 288p.

2) Figueiredo, Paulo Henrique. Revolução Espírita: a teoria esquecida de Allan Kardec. 1.ed. São Paulo: Ed. MAAT. 2016. 640 p.

3) Goidanich, Simoni Privato. O legado de Allan Kardec. 1.ed. São Paulo: USE. 2018. 446p.

4) Lopes, Ery. Espiritismo à francesa. A derrocada do movimento espírita francês pós-Kardec. Vídeo. São Paulo: Luz Espírita. 2018: https://www.youtube.com/watch?v=Ywf8Ftu2eUo

5) Fropo, Berthé. Trad. Lopes, Ery & Miguez, Rogério. Muita luz. Ed.digital Autores Espíritas Clássicos, 2017: http://luzespirita.org.br/leitura/pdf/L158.pdf

Extraído de Revista digital O Consolador:

http://www.oconsolador.com.br/ano12/592/principal.html

“O Evangelho segundo o Espiritismo” não incluído no “Pacto Áureo”

O Evangelho segundo o Espiritismo não incluído no “Pacto Áureo”

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Estudos e entrevistas que realizamos ao longo de alguns anos nos estimularam à elaboração do livro União dos espíritas. Para onde vamos? (Ed. EME, 2018)1 e, mais recentemente, à preparação da palestra de abertura do Encontro promovido pela União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo para comemoração – nos dias 20 e 21 de outubro de 2018 -, dos 70 anos do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita (São Paulo, 1948).2,3

Os Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita4 contém riquíssimo material de estudo e propositivo elaborado por notáveis líderes espíritas vinculados ao movimento espírita de São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Rio de Janeiro e do antigo Distrito Federal.

Como repercussão das teses aprovadas houve rejeição por parte da direção da Federação Espírita Brasileira da época.

Todavia, vários dos protagonistas do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, por estarem no Rio de Janeiro participando do Congresso da CEPA, repentinamente, foram recebidos pelo presidente da FEB. E num dia e meio, sem prévia preparação aconteceu a reunião que ficou conhecida como a Grande Conferência Espírita do Rio de Janeiro, também chamado “Acordo de Cavalheiros” e cognominado por Lins de Vasconcellos como “Pacto Áureo” e se constituiu no Acordo de Unificação do Movimento Espírita Brasileiro. Na oportunidade, o presidente da FEB Wantuil de Freitas, em nome da Diretoria da FEB, apresentou outra proposição, contendo dezoito itens, sintetizando os princípios sobre os quais poderiam assentar-se a União e a Unificação do Movimento Espírita, além de detalhamento de providências complementares para o funcionamento do Acordo.1,5

O Acordo foi assinado no dia 5/10/1949 na sede da FEB, “ad referendum” das Entidades cujos dirigentes estavam presentes, pois essa reunião não havia sido planejada e mesmo porque o tempo da reunião foi extremamente exíguo para se tratar de temas tão complexos.

Pelas reações ocorridas em São Paulo logo após o evento, e por declarações de alguns protagonistas, sabe-se que prevaleceu um gesto de boa vontade, mas com a expectativa de um futuro aprimoramento do documento.1,5

Esse aprimoramento ou revisão que não ocorreu, faz falta com vistas ao atendimento do cenário atual do movimento espírita.

A primeira questão a ser levantada é sobre o Artigo 1o do “Pacto Áureo”: “Cabe aos Espíritas do Brasil porém em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo.”

E o outro relacionado à fundamentação, é que apenas no Artigo 12o cita-se duas obras de Allan Kardec: “As Sociedades componentes do Conselho Federativo Nacional são completamente independentes. A ação do Conselho só se verificará, aliás, fraternalmente, no caso de alguma Sociedade passar a adotar programa que colida com a doutrina exposta nas obras: O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, e isso por ser ele, o Conselho, o orientador do Espiritismo no Brasil.”

A citação do livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, desde aquela época gerou controvérsias. Independentemente do conteúdo da obra há várias especulações ligadas ao fato de que se trata da única obra psicográfica de Francisco Cândido Xavier que faz citação nominal de um autor não aceito pela ampla maioria dos espíritas brasileiros.1

Aí surgem indagações óbvias: Por quê os proponentes do Acordo de união que foram participar do 2º Congresso da CEPA levando a tese “Prevalência do Espiritismo Religioso”, e a própria FEB deixariam de citar o livro O evangelho segundo o espiritismo, a obra espírita mais lida e comercializada no Brasil? Por quê no citado Acordo não estão relacionadas todas Obras Básicas de Allan Kardec?1

Fato digno de nota é que Francisco Cândido Xavier, não podendo comparecer ao citado Congresso Brasileiro enviou mensagem assinada pelo espírito Emmanuel com o título: "Em nome do Evangelho", incluída nos Anais do Congresso.1,2,3,4,5

À vista disso consideramos que no caso de uma revisão do "Pacto Áureo" ou na elaboração de um acordo de união novo, e sem nenhum juízo do conteúdo geral do livro, seja removida a referência à obra Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho, bem como de apenas duas obras do Codificador, substituindo pela citação completa das Obras Básicas de Allan Kardec.1,2,3

Pelo menos em tempos mais recentes seria uma total incoerência, pois até nas recomendações de Estatutos para os centros espíritas, em geral, há a indicação como Artigo 1º, por exemplo:

“O Centro Espírita … fundado em … , neste Estatuto designado “Centro”, é uma organização religiosa, com duração indeterminada e sede na cidade de … , no endereço … , e que tem por objeto e fins: I – o estudo, a prática e a difusão do Espiritismo em todos os seus aspectos, com base nas obras de Allan Kardec, que constituem a Codificação Espírita.”1

Depois de analisar o “Pacto Áureo” item a item em nosso livro União dos espíritas. Para onde vamos?, concluímos:

“Em nosso entendimento e experiência, com os apontamentos acima expressos, o texto do “Pacto Áureo” está superado. Imaginemos um dirigente que, ao ler o citado documento, resolva colocar em prática “ao pé da letra” o que está definido em seus artigos. O “Pacto Áureo” é um importante referencial histórico, mas não é mais aplicável na atualidade.”1,2,3

Mesmo se considerando várias ações encetadas pelo CFN da FEB para se divulgar Allan Kardec, como a Campanha Comece pelo Começo, aprovada em novembro de 2014, não se pode olvidar que o “Pacto Áureo”, com a questão doutrinária que destacamos e vários itens defasados, ainda é uma norma vigente. Há necessidade de se rediscutir e se refazer o “Pacto Áureo”!

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? 1.ed. Capivari: Ed. EME. 2018. 144p.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. 70 ANOS DO CONGRESSO BRASILEIRO DE UNIFICAÇÃO ESPÍRITA – HISTÓRICO. Texto da palestra em edição digital: http://www.usesp.org.br/Associacao/Documentos; Depois clique em DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA, que contém o arquivo: Palestra – Comemorações dos 70 anos do 1o CBUE.

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. 70 ANOS DO CONGRESSO BRASILEIRO DE UNIFICAÇÃO ESPÍRITA – HISTÓRICO. Vídeo. Link: https://www.youtube.com/watch?v=oZVb7MfxejQ

4) Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita. São Paulo: USE. 191p. Edição em versão digital AEC/USE: http://www.usesp.org.br/Associacao/Documentos; Depois clique em DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA, que contém o arquivo: Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita.

5) Monteiro, Eduardo Carvalho; D’Olivo, Natalino. USE – 50 anos de unificação. São Paulo: USE. 1997. 335p.

(*) Foi presidente da USE-SP e da FEB.

COM A MEDIDA COM QUE MEDIRES SERÁS MEDIDO; TAL FALTA TAL PENA!

COM A MEDIDA COM QUE MEDIRES SERÁS MEDIDO; TAL FALTA TAL PENA!

José Reis Chaves (*)

Jesus nos julgará com penas justas, jamais, pois, com penas sempiternas ou sem fim. E, a respeito do significado da palavra grega e portuguesa palingenesia, de que muito já tratamos, ela significa reencarnação. E recomendamos aos comentaristas das matérias, no Portal de O TEMPO (www.otempo.com.br), que consultem os dicionários para se certificarem dessa verdade.

Palingenesia tem como sinônimos os termos retorno, renascimento e regresso, ou seja, o retorno ou regresso do espírito à nova vida no corpo duma criança que nasce. Assim sempre foi interpretada por muitos sábios do mundo, inclusive por Schopenhauer. E, nessa oportunidade, com todo o respeito ao dogma polêmico da ressurreição da carne, queremos ressaltar que a ressurreição é do espírito e não da carne. Então, não é ressurreição da carne, mas ressurreição do espírito na carne. “Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual.” (1 Coríntios 15: 44).

É lamentável a atitude dos teólogos tradutores da Bíblia, procurando sempre, ao longo dos séculos, adaptá-la aos dogmas que foram criados. Um exemplo disso é a adulteração do texto paulino de Tito 3: 5, onde a palavra palingenesia, que, como já dissemos, o seu significado é reencarnação, texto esse que foi truncado e no qual foi omitida essa apalavra que está nas traduções e cópias mais antigas, colocando-se no lugar dela o termo regeneração.

Mas essa falsificação não consiste exclusivamente da troca da palavra palingenesia pelos tradutores, para que o sentido do texto ficasse totalmente oculto, pois fizeram um diferente. Por oportuno, lembramos aqui que, hoje, não são mais somente os padres e pastores que estudam a Bíblia, mas também leigos independentes.

E vamos ao citado texto paulino que estamos comentando: "Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da palingenesia (reencarnação) e da renovação do Espírito Santo." Isso aconteceu no passado ao sermos criados quando, portanto, ainda não havíamos realizado nem as más obras condenadoras nem as boas obras salvadoras. Mas, com o decorrer de nossas reencarnações, depois de nossa criação, aconteceu a nossa renovação pelo Espírito Santo ou nossa alma que habita em nós. “Acaso, não sabeis que sois santuário ‘de um’ e não ‘do’ Espírito Santo? (1 Coríntios 6: 19).

Mas isso foi adaptado à Terceira Pessoa Trinitária criada pelos teólogos dogmáticos alterando, pois, o seu significado verdadeiro. Observe-se, pois, que a nossa renovação e a consequente salvação (libertação) é feita pelo nosso Espírito Santo. E ele é chamado de santo, porque tudo que Deus cria é santo. E a nossa renovação ou regeneração desse nosso Espírito Santo ou alma é realizada pelas obras a serem feitas por nós, depois do momento de nossa criação.

Compete, pois, a nós fazermos a nossa parte durante as nossas existências terrenas. Por isso, somos sempiternos, temos inteligência, livre-arbítrio e temos também o código moral, a ser seguido por nós, isto é, o Evangelho de Deus Pai que nos foi trazido pelo seu Filho muito especial, o excelso Mestre Jesus. E é através desse código moral, que Jesus nos trouxe, que Ele se tornou nosso Salvador, isto é, o Salvador do mundo!

Sim, pois, é através da vivência do Evangelho que vamos sendo salvos ou condenados temporariamente, de acordo com a lei de causa e efeito, ou seja, semeando livremente o que quisermos, mas sendo obrigados a colher temporariamente o que tivermos semeado. “Porque importa que todos nós compareçamos ao tribunal de Cristo para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo” (2 Coríntios 5: 10).

Tal falta tal pena! Como se vê, existe o juízo final, mas há também os juízos provisórios, após as reencarnações, durante as quais ocorre, lentamente, a nossa regeneração, o que é a busca de nossa perfeição semelhante à de Deus, mas não igual à infinita de Deus!

(*) – https://www.facebook.com/JoseReisChavesEspiritismoeaBiblia/

Informação histórica do 1º Congresso de Unificação

Informação histórica do 1º Congresso de Unificação

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Como uma breve anotação sobre o evento marcante que ocorreu em São Paulo há 70 anos atrás, sintetizamos informações extraídas de obras que fazem registros do movimento espírita.

O ano de 1948 registrou três importantes eventos: dois ligados aos jovens espíritas e o outro sobre unificação.

Surgiu a Concentração de Mocidades Espíritas do Brasil Central e Estado de São Paulo – COMBESP, reunindo jovens de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e depois o Distrito Federal (Brasília). Este certame, autônomo, foi um celeiro de formação de expositores e lideranças. O evento foi repetido em rodízio por várias cidades dos Estados citados entre 1948 e 1966, e nestes anos foi efetivado na cidade de Barretos (SP).1

Liderado pelo incansável Leopoldo Machado, de Nova Iguaçú (RJ), foi realizado o 1o Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil (17 a 25/7/1948) na cidade do Rio de Janeiro, e que constituiu o Conselho Consultivo de Mocidades Espíritas do Brasil. Foi efetivado no Teatro João Caetano e o encerramento na sede da FEB, embora o presidente da FEB não apoiado o Congresso, cedeu o auditório da Instituição para a atividade de encerramento do evento, sendo Lins de Vasconcelos incumbido de representar a FEB.1

A essa altura já se preparava a realização do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, inicialmente planejado por idealistas de São Paulo.2

Embora a FEB não tenha aceitado o convite para ter atuação no evento, este contou com adesão de vários Estados.

O Congresso Brasileiro de Unificação Espírita foi realizado pela USE no período de 31 de outubro a 5 de novembro de 1948, em São Paulo, com registros detalhados nos Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita.2

Houve o apoio e atuação nos preparativos de dirigentes da USE-SP, Federação Espírita do Estado do Rio Grande do Sul, Federação Espírita do Paraná, Federação Espírita Catarinense, União Espírita Mineira, Liga Espírita do Brasil, Conselho Consultivo das Mocidades Espíritas do Brasil e lideranças espíritas.2,3

Em função desse evento surgiu a primeira psicografia de Chico Xavier sobre união e unificação, que foi assinada por Emmanuel – “Em nome do Evangelho” -, e dirigida aos participantes do citado 1o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, em São Paulo. Essa mensagem, com o título acima, foi psicografada no dia 14 de setembro de 1948, em Pedro Leopoldo, Minas Gerais, e encaminhada aos organizadores do evento com a justificativa de que ele – Chico Xavier -, como convidado, não poderia comparecer. Foi publicada na íntegra nos Anais.2,3,4

Ao Congresso, compareceram dirigentes da USE-SP e de outras instituições paulistas, Federação Espírita do Estado do Rio Grande do Sul, Federação Espírita do Paraná, Federação Espírita Catarinense, União Espírita Mineira, Liga Espírita do Brasil, Conselho Consultivo das Mocidades Espíritas do Brasil, Lar de Jesus de Nova Iguaçú (RJ), Centro Espírita de Cuiabá, e pessoas que tinham procurações de instituições de Sergipe, Bahia, Pará, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte.2

Ao final foi aprovado um Manifesto do Congresso.

Textos constantes nos Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita e registros sobre a atuação de Leopoldo Machado e várias lideranças da época no citado Congresso Brasileiro e no Estado de São Paulo, foram enfeixados em livro de autoria de Eduardo Carvalho Monteiro.3

Eis o depoimento de Carlos Jordão da Silva, participante desse Congresso Brasileiro e também ex-presidente da USE-SP:

“Tivemos aqui em São Paulo, em 1948, o Primeiro Congresso Brasileiro do Unificação, com a presença de delegações do todos os Estados Sulinos e alguns do Norte, não tendo a Federação Espírita Brasileira na ocasião aceito participar. Estabeleceu-se que a Federação Espírita do Rio Grande do Sul, através de sua delegação mantivesse os entendimentos com a FEB para que se efetivasse a Unificação das Sociedades Espíritas e Espíritas no campo nacional. […] Após as reuniões do Congresso Panamericano e recolhidos lodos os participantes das delegações em seus respectivos hotéis, cerca de uma hora da manhã, resolvemos sair para tomar um pouco de ar e dirigimo-nos para determinada praça próxima ao nosso hotel e para a nossa surpresa todas as delegações foram chegando ao mesmo local, como que convocadas por forças invisíveis. Achamos graça por ter o Plano Espiritual nos reunido daquela forma e aquela hora da madrugada e ali mesmo marcamos uma reunido para as 8 horas da manhã, no Hotel Serrador, onde estávamos hospedados, eu e minha Senhora, e, realizada tal reunido, incumbiu-se Artur Lins de Vasconcellos Lopes a tarefa de aproximar-se da FEB para promover o encontro.”3,4

Em função desse momento relatado por Carlos Jordão da Silva, repentinamente, e num único dia foi assinado o “Pacto Áureo”, aceito pelos presentes à reunião no Rio de Janeiro, mas que não atendia aos anseios do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita e de muitas lideranças espíritas do Brasil.3,4

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Centro espírita. Prática espírita e cristã. São Paulo: USE. 2016. 196p.

2) Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita. São Paulo: USE. 1947. 191p. Edição em versão digital: http://www.autoresespiritasclassicos.com/Autores%20Espiritas%20Classicos%20%20Diversos/USE/ANAIS%20do%20Congresso%20Brasileiro%20de%20Unifica%C3%A7%C3%A3o%20Esp%C3%ADrita%201948.htm

3) Monteiro, Eduardo Carvalho; D’Olivo, Natalino. USE – 50 anos de unificação. São Paulo: USE. 1997. 335p.

4) Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? 1.ed. Capivari: Ed. EME. 2018. 144p.

(*) – Foi presidente da USE-SP e da FEB.

A pequena Louise, filha adotiva de Hyppolite Léon Denizard Rivail e de Amélie Boudet

A pequena Louise, filha adotiva de Hyppolite Léon Denizard Rivail e de Amélie Boudet

Charles Kempf (*)

Houve muitas especulações sobre a questão: porque Hyppolite Léon Denizard Rivail e Amélie Boudet não tiveram filhos? Até mesmo a afirmação de que teriam concluído um pacto de abstinência… Os documentos originais encontrados recentemente lançaram luz sobre essa questão.

Em primeiro lugar, o casamento deles data de quinta-feira, 9 de fevereiro de 1832. Naquele dia, Hyppolite tinha 27 anos e Amélie 36 anos, o que era muito para a época. Também, na época de seu casamento, Hyppolite era "soldado do 61º Regimento de Infantaria de Linha, guarnecido em Rouen, Departamento do Sena Inferior". Seu contrato de casamento não menciona nenhum pacto de abstinência.

Em uma carta de Hyppolite dirigida a Amélie, datada de 20 de agosto de 1834, depois de uma viagem de carruagem de Paris a Lyon,onde Hyppolite ia visitar sua tia paterna Reine Matthevot (nascida Rivail), ele fala “das comodidades da viagem": "Na maior parte do caminho, tive o prazer de ter a companhia de uma criança de um ano no carro que, por seus gritos e cheiros, nos ofereceu uma pequena repetição da tarefa e me fez desfrutar antecipadamente dos encantos da paternidade;"

Não há dúvida de que Hyppolite e Amélie consideraram a paternidade, mas a natureza provavelmente não lhes permitiu ter um filho natural.

Mas em outra carta de Hyppolite a Amélie, datada de 23 de agosto de 1841, quando Hyppolite estava novamente em Lyon para o funeral de sua tia Reine Matthevot, ele escreveu: "Abrace bem a minha pequena Louise, cuja escrita me fez muito prazer." Em uma carta de 9 de outubro de 1841, de Paris a Château du Loir (lar dos pais de Amélie, onde Hyppolite e Amélie costumavam ficar de veraneio), Hyppolite escreve: "Beije minha pequena Louise por mim."

Em outra de 12 de outubro de 1841, Hyppolite escreveu mais especificamente: "Eu queria consultar Mariette esta manhã para saber o que se deveria fazer por Louise em caso de dificuldade, mas ela não retornou há dois dias; eu sei onde ela está, mas é um pouco longe; e seria difícil não dizer impossível vê-la a tempo. Se, no entanto, alguma coisa acontecesse, escreva-me logo enviando-me cabelos e eu a consultarei. No intervalo, penso que se deve cuidar para que ela não tome chuva; como você sabe, seria prejudicial para ela."Esta carta é notável, porque mostra que Hyppolite e Amélie consultavam em Paris uma "sonâmbula" chamada Mariette, especialmente em caso de problemas de saúde, e que utilizavam até cabelos, enviados por carta, para ajudar a sonâmbula na psicometria.

Entendemos melhor porque Allan Kardec escreveu mais tarde que o Magnetismo abriu o caminho para o Espiritismo. Além disso, esta carta indica uma saúde frágil da pequena Louise. Finalmente, numa carta de 15 de agosto de 1842, de Aachen a Château du Loir, Hyppolite é muito mais específico: "Aprendi com prazer que Louise trabalha bem à medida que avança na leitura e na escrita. Fiquei muito feliz com a sua pequena carta. Espero que ela possa ler a minha sozinha. Quanto ao cálculo, não deve ser negligenciado; mas na ausência do aritmômetro, é necessário usar fichas; você deve ter certamente nas caixas de jogos.Um exercício excelente e que ela deve começar a ser capaz, é de atribuir às fichas aos cartões de uma determinada cor um valor de 10 ou de 100. Assim, para fazer 345, precisa colocar 3 fichas de 100, 4 de 10 e 5 de 1. Ou seja, como segue + + + 0 0 0 0 1 1 1 1 1. Deve exercê-la ou a ler os números assim compostos, ou a compor outros ela mesma. Mas é claro que precisa começar com números pequenos e aumentar apenas gradualmente. Quando ela estiver bem familiarizada com este exercício, será preciso utilizar os algarismos, e fazê-la entender que os algarismos da primeira coluna a direita valem tantas unidades, os da segunda valem tantas dezenas ou fichas de 10 etc. Será necessário exercê-la, vendo um número escrito em algarismos, a compô-lo com fichas, e vice-versa." Nós vemos claramente o "professor" aplicando os métodos de ensino de Pestalozzi que ele melhorou e completou!

Em 22 de outubro de 1843, Hyppolite menciona numa carta à Amélie, de Paris para Château du Loir: “Anexo está uma cartinha para Louise”. Infelizmente não temos o original desta cartinha que foi entregue por Amélie a Louise. Em 6 de novembro de 1843, Hyppolite escreveu para Amélie, de Paris para Château du Loir: "Beije minha querida Louise por mim e diga a ela que fiquei muito feliz com sua carta; mostrei-a a várias pessoas que ficaram muito satisfeitas."

Há outros elementos em uma carta de 16 de setembro de 1844, de Paris para Château du Loir, onde Hyppolite que fala da cama de Louise em sua residência em Paris, onde ele escreve: “Quanto a Louise, acho que ela aproveita bastante. Peço-lhe que cumprimente suas galinhas, as quais abraço de todo coração, e ela também.” Pode-se imaginar a menina vivaz no campo em Château du Loir, cuidando do galinheiro dos pais de Amélie.

Em 27 de setembro de 1844, Hyppolite escreve: "Adeus, minha querida, abraça por mim minha boa pequena Louise, que, penso, se diverte de todo o coração." Essas cartas não deixam nenhuma dúvida sobre o fato que Hyppolite Léon DenizardRivail e Amélie Boudet criaram e educaram uma menina chamada Louise, provavelmente adotiva, e a quem tinham dado o segundo nome de Jeanne Louise Rivail (nascida Duhamel), mãe de Hyppolite. Mas essa alegria seria de curta duração.

Em 29 de setembro de 1845, de Paris para Château du Loir, Hyppolite escreveu para Amélie: "Como você me dizia que se você não escrevesse para mim, seria porque Louise iria continuar melhorando, então espero que a melhora se confirmou: concebo tudo o que isso deve lhe causar tormento e fadiga, porquanto você precisava muito de repouso.”

Os problemas de saúde da pequena Louise pareciam estar piorando. Amélie retornou depois a Paris com a pequena Louise, e é numa carta do pai de Amélie (que desencarnou em 6 de julho de 1847 aos 79 anos) para Amélie, datada de 6 de dezembro de 1845, que apreendemos a morte da pequena Louise: "Eu não demorei para lamentar, minha querida Amélie, o evento infeliz que você anuncia na sua última carta; com o que você tinha escrito para nós e o que Mad. Gendron havia nos dito, eu esperava todos os dias receber essa má notícia: é muito triste e muito lamentável deixar a vida quando estamos apenas começando a aproveitá-la, enquanto outros que tiveram uma longa carreira poderiam terminá-la sem se arrepender tanto: como você me diz, não é da natureza do homem ser perfeitamente feliz, devemos nos contentar com a porção que nos é distribuída. Percebo o quanto isso deve ter afetado o Sr. Rivail, desejo que ele se recupere."

Consultamos os arquivos on-line do estado civil reconstituído de Paris, mas com a classificação pelo nome, não encontrei nenhuma Louise Rivail, nem Duhamel, nem Boudet, que morreu naquele período. Uma busca por data é necessária, e talvez possível nos microfilmes. Isso permitiria esclarecer qual era o nome dessa menininha, provavelmente adotiva.

Este episódio lança luz sobre o caminho difícil de Hyppolite Léon Denizard Rivail e Amélie Boudet no período antes da observação do fenômeno de mesas girantes, em maio 1855, que o fez declarar em Obras Póstumas: "Foi aí que, pela primeira vez, presenciei o fenômeno das mesas que giravam, saltavam e corriam em condições tais que não deixavam lugar para qualquer dúvida. Assisti então a alguns ensaios, muito imperfeitos, de escrita mediúnica numa ardósia, com o auxílio de uma cesta. Minhas ideias estavam longe de precisar-se, mas havia ali um fato que necessariamente decorria de uma causa. Eu entrevia,naquelas aparentes futilidades, no passatempo que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim estudar a fundo."

Os espíritas sabem o que se seguiu: o trabalho magistral da Codificação Espírita, de Allan Kardec, que hoje desfruta, depois de mais de um século e meio, dezenas de milhões de admiradores em todo o mundo, e que, ao mesmo tempo, abriu todo um campo de pesquisa científica sobre o mundo espiritual e consolou tantos corações feridos.

Muito obrigado Allan Kardec, muito obrigado Amélie Boudet!

(*) De Belfort, França. Membro da Comissão Editorial da Revue Spirite. Foi secretário geral do Conselho Espírita Internacional.

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