Paulo e a ética cristã

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Paulo de Tarso, como principal divulgador da mensagem do Mestre Jesus, fundou em muitos locais as chamadas igrejas cristãs (ecclesia - local de reunião, atualmente significando “igreja”).

A igreja de Corinto foi fundada durante os 18 meses que Paulo lá viveu entre os anos 50 e 52 d.C. À época, Corinto era uma cidade cosmopolita, a principal do mundo helênico; conhecida pelas tendências ao paganismo, à proliferação de cultos, e à devassidão. Paulo se dedicou muito a Corinto. A 1ª Epístola aos Coríntios foi escrita no ano 54 d.C. quando ele se encontrava em Éfeso, para atender aos companheiros que solicitavam apoio ou aos que ele não poderia visitar.

A primeira epístola aos Coríntios é considerada um dos escritos clássicos de Paulo e preserva acima de tudo o “padrão da ética cristã”. Nessa Epístola, o apóstolo faz uma recomendação da mais alta importância, pois considerava a igreja de Corinto uma das provas palpáveis do ministério apostólico. Por causa da penetração de certos problemas ali, como práticas más e vis, contendas e divisões que chegaram a ameaçar a sua aceitação como um apóstolo de Cristo por aquela igreja, é que Paulo lhes escreveu com consternação mesclada de repreensão e demonstrações de afeto.

Da epístola em análise transcrevemos os trechos que merecem reflexões e adequações aos dias atuais:

“Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas são lícitas, mas nem todas edificam. Ninguém busque o seu próprio interesse, e sim o de outrem” (10: 23, 24).

O fato de Paulo citar o chavão da época referente à cidade de Corinto – “todas as coisas são lícitas” -, aponta para uma situação que o afligia. A passagem faz referência à liberalidade predominante em Corinto, que Paulo não aprova. Os cristãos dos nascentes grupos de Corinto sofriam influências do contexto da época daquela cidade. A expressão “viver como um coríntio” referia-se a desregramentos comportamentais e que eram considerados “normais” naquela cidade. Essa questão ética e a tendência de adoção de práticas aberrantes, motivaram o apóstolo da gentilidade a elaborar a 1a Epístola aos Coríntios.

Em seus textos Paulo desenvolveu o raciocínio de que alguns princípios que eram defendidos na sociedade local e da época precisavam ser observados através de diretrizes ligadas à conduta cristã, não se restringindo às normas que eles adotavam, e das quais dependiam tanto.

No conjunto da legislação – Constituição do país, Leis e normas -, define-se o que é legal, o que é “lícito” no dizer de Paulo de Tarso.

Como ficariam as ideias de conveniência e de edificação que Paulo emprega na citada Epístola? O altruísmo e a alteridade devem sobrepujar objetivos pessoais. É a essência da mensagem do Cristo, de se amar e se respeitar o próximo.

A coerência entre licitude e conveniência, na ótica cristã e espírita, considerando que somos espíritos imortais, deve merecer continuados estudos e reflexões principalmente no contexto do mundo conturbado de nossos dias. Como princípio espírita, as vidas sucessivas ou reencarnação, demonstram que o bem e o mal sempre têm consequências, ou seja, nesta ou em outras vidas. O melhor será sempre o esforço pelo bem ao próximo e a si mesmo.

 

(Ex-presidente da USE-SP e da FEB; autor do livro Epístolas de Paulo à luz do espiritismo)

Acesse: http://grupochicoxavier.com.br/etica-e-moral-na-atualidade/;

http://grupochicoxavier.com.br/assembleia-legislativa-do-espirito-santo-homenageia-espiritas/

Pesquisa Nacional para Espíritas – 2017. Alguns comentários

 

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Como oportuna iniciativa pessoal de Ivan Franzolim (**), foi efetivada a pesquisa nacional para espíritas, sem nenhuma participação ou apoio de instituições, e é inédita no Movimento Espírita por sua abrangência nacional e pela preocupação em conhecer como pensam e atuam os espíritas. A primeira edição ocorreu em julho de 2015.

A finalidade dessa pesquisa “é ser útil ao Movimento Espírita, contribuindo com dados indicativos do modo de pensar e agir dos espíritas. É um material que deve ser utilizado para auxiliar as ações de comunicação das instituições e servir ao ambiente de estudo acadêmico e fora dele.” (1)

Nesta terceira edição, a pesquisa foi elaborada com 44 questões, divididas em seis sessões: Perguntas sobre você, Para Estudantes de Cursos Espíritas, Sua maneira de entender o espiritismo, Perguntas sobre o Centro Espírita, Perguntas para Frequentadores e Perguntas para Trabalhadores. Foi efetivada entre 1º e 31 de julho de 2017, utilizando-se a internet e as redes sociais como veículo de distribuição do formulário eletrônico do Google e acesso ao público espírita, estimados em 2% da população brasileira, segundo o Censo 2010. Foram recebidas 2.616 respostas válidas, excluindo aquelas em duplicidade. Os respondentes são residentes em 451 cidades e todos os estados foram representados.

Os Estados com maior concentração foram também os mesmos das edições anteriores (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais) com exceção do Espírito Santo que aparece em segundo lugar pela primeira vez. Os Estados com menor participação foram: Alagoas, Maranhão, Piauí, Roraima e Tocantins. O pesquisador lembra que estes Estados correspondem àqueles mencionados no Censo 2.010 com menor número de espíritas.

O autor da pesquisa Franzolim esclarece que “além de captar dados sobre a participação e comportamento dos espíritas, ela tem registrado várias crenças que circulam no Movimento Espírita. Muitas delas são aceitas pelos espíritas por identificação emocional com sua essência, sem maior análise e comparação com as obras básicas e complementares, demonstrando que o processo de assimilação de crenças é diferente do processo de absorver conhecimento e pode prevalecer sobre este. Pela forma não controlada de escolha dos respondentes, essa pesquisa não pode ser considerada probabilística, embora tenha seus méritos por mostrar tendências e preparar o terreno para futuras pesquisas.” (1)

            Na opinião de Ivan Franzolim, as instituições espíritas carecem de indicadores que são fundamentais para o planejamento e a prática de uma boa gestão, e recomenda que “Centros Espíritas deveriam pesquisar a satisfação dos voluntários, frequentadores e assistidos, o correto entendimento das suas atividades e quão plenamente os serviços prestados atendem as necessidades e expectativas das pessoas, para promoverem mudanças produtivas ou esclarecimentos necessários.” O pesquisador entende que mais pesquisas devem ser feitas para melhor compreensão do pensamento e das ações dos espíritas.(1)

            Numa análise geral dos resultados da pesquisa, destacamos alguns dados predominantes.

Na qualificação do espírita: gênero feminino (64,7%); faixa etária de 51 a 60 anos (28,8%); portador de ensino superior (41,3%) e seguido de perto pelos pós-graduados (33,2%); faixa salarial acima de 4 e até 10 salários mínimos (33,3%). Estes dados têm coerência com resultados do Censo do IBGE do ano 2.010 e apontam para as dificuldades para se atender populações com menores faixas de renda e de escolaridade. (2)

Os participantes da pesquisa são espíritas há 11-20 anos (24,8%) e atuam nos centros como trabalhadores voluntários (52,4%).

Sobre a relação dos filhos com o centro espírita – com filhos entre 3 e 12 anos: não participam da Evangelização Infantil/Juvenil (20,5%); não tenho filhos (64,0%); com filhos acima de 12 anos: não tenho filhos (43,2%); não se consideram espíritas (20,3%); Se consideram espíritas e não frequentam o grupo de jovens/mocidade (23,1%). Estes dados, na generalidade das faixas etárias também já vinham sendo apontados pelos Censos do IBGE dos anos 2.000 e 2.010 e, a nosso ver, representam um alerta para urgentes estudos e providências para se diagnosticar as causas dessa situação e para se favorecer a integração real da criança e do jovem no centro espírita. (2)

Na pesquisa surgem informações muito interessantes, como sobre a leitura de livros: já leram de 21 a 30 livros; livros mais lidos: Paulo e Estêvão – Chico Xavier/Emmanuel; O Livro dos Espíritos; O Evangelho Segundo o Espiritismo; Nosso Lar – Chico Xavier/André Luiz. Autores mais lidos: Chico Xavier (todos autores espirituais) – 731 respondentes; Allan Kardec – 316 respondentes. Torna-se oportuna a Campanha “Comece pelo Começo” (da USE-SP e CFN), de estímulo à leitura e estudo das Obras Básicas do Codificador. (2)

Nas questões sobre temas de interesse, destacamos: temas que estudaria mais se tivesse oportunidade (isoladamente)? Bíblia e/ou os Evangelhos (15,3%); Mundo Espiritual (15,3%); Mediunidade (11,7%). Temas para estudo (soma de cada tema): Mediunidade (11,8%); Mundo Espiritual (9,9%); Reencarnação (9,6%); A Bíblia e/ou os Evangelhos (9,5%). A valorização de demandas locais, dos focos de interesse do público alvo do centro, seria um oportuno procedimento nos centros espíritas.

Na compreensão geral sobre como Espiritismo deve ser seguido pelos espíritas: mais como filosofia e/ou ciência (57,7%). A propósito, este resultado é indicativo da necessidade de maior divulgação, estudo e compreensão das obras de Allan Kardec; pode ser influenciado pela tendência atual de muitos eventos e palestras com temas científicos e também por alguns enfoques em palestras e em práticas que não são coerentes com o conjunto das obras de Allan Kardec. (3,4)

A maioria dos respondentes considera que a aceitação das ideias espíritas na sociedade está evoluindo razoavelmente (68,0%), e nas questões relacionadas com a satisfação pelas atividades do centro, predominam valores de média a alta.

A nosso ver a “Pesquisa Nacional para Espíritas” oferece dados que devem merecer estudos e reflexões pelos dirigentes e colaboradores dos centros espíritas e também estimular a realização de pesquisas internas nestas instituições.

 

(*) Ex-presidente da FEB e da USE-SP.

 

(**) A Pesquisa Nacional para Espíritas é uma iniciativa de Ivan Franzolim (São Paulo), escritor, articulista e palestrante espírita, formado em Administração de Empresas com especialização em Marketing de Serviços (FGV) e pós-graduado em Comunicação Social (Cásper Líbero). Compõe a pesquisa, o trabalho estatístico de Análise de Conglomerados desenvolvido por Jorge Elarrat (Rondônia), formado em Engenharia Eletrônica na Universidade Federal do Pará (UFPA), pós-graduado em metodologia do ensino superior e mestre em administração, com passagem pelo IBGE e como titular da Secretaria de Estado da Educação

 

Referências:

  1. Acesso em 09/08/2017: http://franzolim.blogspot.com.br/;
  2. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Centro espírita. Prática espírita e cristã. Cap. 2.1, 2.2, 3.1. Matão: O Clarim. 2016.
  3. Carvalho, Flávio Rey; Carvalho, Antonio Cesar Perri. Espiritismo como religião: algumas considerações sobre seu caráter religioso e seu desenvolvimento no Brasil. In: Souza, André Ricardo; Simões, Pedro; Toniol, Rodrigo (Org.). Espiritualismo e Espiritismo. Reflexões para além da espiritualidade. 1.ed. Parte 1, Cap. 2. São Paulo: Editora Porto de Ideias. 2017.
  4. Carvalho, Flávio Rey. O aspecto religioso do Espiritismo. Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCII. N.6. Julho de 2017. p. 304-306.

Contextos fantasiosos para as interpretações da Bíblia

José Reis Chaves

Esta coluna de hoje abordará questões relacionadas com as interpretações bíblicas, como demonstra o seu título, além de alguns de seus comentaristas no espaço dos comentários sobre as matérias no portal de O TEMPO.

Alguns debatedores, sem argumentos bíblicos e teológicos convincentes para defenderem seus pontos de vista, têm apelado para dizerem que os textos dos seus adversários e deste colunista são sem contexto.

Por isso, vamos falar também sobre texto e contexto de maneira bem simples como é o meu estilo literário. Texto é um artigo, uma composição e mesmo um livro. Já o contexto é alguma coisa relacionada com o texto dando-lhe ênfase e crédito, o qual pode ser também oral como um sermão ou um discurso. Assim, pois, quando alguém faz um texto em defesa da reencarnação e quer mostrar que ela está também na Bíblia, é normal que ele mencione passagens bíblicas. Porém, alguns dos tais comentaristas, por não crerem na reencarnação, querem dizer que o texto está fora de contexto. Para eles só pode haver contexto, se ele estiver de acordo com o modo de eles interpretarem os textos bíblicos, o que torna falso o seu conceito de contexto, ou seja, eles confundem contexto com a sua crença.

E convenhamos que não se pode aceitar que tudo na Bíblia é a palavra de Deus, pois ela contém também coisas diabólicas que é até blasfêmia atribuí-las a Deus, e nas quais, pois, não creio! Mas creio em outras partes dela. Portanto, não é uma incoerência eu citar partes dela!

Na coluna “Deus é vitorioso absoluto na criação do homem, principalmente”, de 10.7.2017, as referências bíblicas que apresentamos foram justamente para elas confirmarem o título da coluna e o seu texto, como fazem, em todo o mundo, todos os escritores e autores da arte literária. É errada, pois, a afirmação de que o texto da citada coluna é fora de contexto!

Este colunista tem seu modo próprio de interpretar a Bíblia, o que é feito de modo racional e equilibrado como ensina a doutrina espírita. Por isso, fugimos dos excessos de interpretações literais e das abusivas interpretações figuradas. É normal que existam os que discordam de minhas interpretações da Bíblia, o que, porém, nada tem a ver com o meu estilo literário que procuro tornar bem simples e bem ao alcance do grande público, o que sabemos que incomoda muita gente. Realmente, procuro deixar bem claros para o grande público os meus trabalhos em palestras, livros, artigos, traduções, rádios e TV, evitando sempre expressões e vocabulário difíceis. É que quero que meu público não somente entenda o que digo, mas também, que sinta o que sinto!

E na coluna referida, citamos o texto bíblico de Oseias 13: 14: “Onde estás tu, ó inferno?” O qual foi lançado no lago de fogo, o que quer dizer, figuradamente, que o inferno, um dia, será mesmo extinto. É que, se esse tal de inferno “eterno” (o “hades” da mitologia grega) existisse mesmo, Deus teria fracassado totalmente no seu projeto de criação da humanidade, pois de Deus só podem emanar a misericórdia e o amor infinitos! Mas nossos irmãos evangélicos ainda continuam aceitando esse inferno medieval concebido por Dante Alighieri na sua “Divina Comédia”, e que, na época, foi adotado imediatamente pela Igreja, mas que, hoje, acertadamente e graças a Deus, ela não aceita mais!

(Publicado originalmente em coluna de O Tempo, Belo Horizonte, MG,  24/07/2017)

A Deus o que é de Deus

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A palavra de Jesus “Daí a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus” (Marcos, 12,17) passou a ser considerada como fundamento do respeito dos cristãos ao Estado, mas também da separação entre os domínios político e religioso.

É sabido que algumas autoridades do império romano utilizaram essa frase do Cristo até na tentativa para amenização das iras daqueles que recomendavam perseguições aos primitivos cristãos.

Por outro lado, os cristãos sentiam-se à vontade porque se consideravam súditos respeitosos. Paulo fez colocações nessa linha em suas Epístolas.

Interessante o comentário de Emmanuel: “Se pretendes viver retamente, não dês a César o vinagre da crítica acerba. Ajuda-o com o teu trabalho eficiente, no sadio desejo de acertar, convicto de que ele e nós somos filhos do mesmo Deus.”1

Nos albores do cristianismo, no âmbito da administração central do império romano não ocorriam apenas perseguições, o que levou Emmanuel, a partir de versículo de epístola de Paulo: “Todos os santos vos saúdam, mas principalmente os que são da casa de César” (Filipenses, 4, 22), fazer o seguinte comentário: “Muito comum ouvirmos observações descabidas de determinados irmãos na crença, relativamente aos companheiros chamados a tarefas mais difíceis, entre as possibilidades do dinheiro ou do poder. […] Paulo de Tarso, humilhado e perseguido em Roma, teve ocasião de conhecer numerosas almas nessas condições, e o que é mais de admirar – conviveu com diversos discípulos de semelhante posição, relacionados com a habitação palaciana de César. Deles recebeu atenções e favores, assistência e carinho.”2,3

De um lado o Estado romano e, de outro, havia também momentos complicados nas relações com o Sinédrio e seus representantes.

Saulo de Tarso optou em deixar a tradicional e pioneira ecclesia de Jerusalém, ao verificar que surgiam propostas judaizantes por parte de alguns discípulos do Cristo, iniciando sua grande tarefa de divulgador do Evangelho.

Na sua missionária trajetória, o apóstolo Paulo sempre lutou pela independência dos grupos cristãos com relação a autoridades políticas e do judaísmo. Ao comentar a vida e obra de Paulo, o filósofo espírita Herculano Pires destaca a posição clara e marcante do Apóstolo:

"Ele libertava a religião da política e do negócio. Para ele, a religião tinha que ser vivida em si mesma e vivida com toda a independência moral".  A propósito de trecho de Atos dos Apóstolos sobre “muitos milagres e prodígios entre o povo pelas mãos dos apóstolos” o autor aponta que ali se encontra "uma das mais belas confirmações evangélicas da realidade e da verdade do Espiritismo e das suas práticas como continuação do cristianismo em espírito e verdade aqui na terra."4

A mescla de benesses estatais para com o cristianismo se firmou no século IV com o imperador Constantino.

Em nossos tempos, é oportuna a recordação desses fatos históricos para inspirarem a preservação da independência administrativa e financeira das instituições espíritas e a manutenção das condições doutrinárias de fidelidade a Jesus e a Kardec.

Esses objetivos sempre balizaram as ações de Chico Xavier no transcorrer de sua longa existência. Entre muitos episódios nobilitantes, destacamos a opção do médium missionário em deixar uma grande instituição da qual foi um dos fundadores, e dar início a um novo posto de trabalho e de referência, bem simples, o Grupo Espírita da Prece, de Uberaba.5

Referências:  

  1. Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Pão Nosso. 27.ed. Cap. 102. FEB. 2006.
  2. Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Caminho, verdade e vida. 16.ed. Cap. 75. Brasília: FEB. 2012.
  3. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do espiritismo. 1.ed.
  4. Pires, José Herculano. Org. Arribas, Célia. O evangelho de Jesus em espírito e verdade. 1.ed. Cap. 15. São Paulo: Editora Paidéia. 2016.
  5. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Centro espírita. Prática espírita e cristã. Cap.1.1, 7.2, 7.3. Matão: O Clarim. 2016.

As difíceis opções de Paulo de Tarso

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Na monumental obra Paulo e Estêvão, psicografada por Francisco Cândido Xavier, o autor espiritual Emmanuel aprofunda os registros de Atos e das Epístolas de Paulo detalhando as lutas e humilhações do doutor Saulo de Tarso, autoridade na Lei Moisaica perante seu povo.

Paulo renunciou às suas prerrogativas de doutor da Lei ao iniciar seu processo de transformação no Apóstolo do Cristo e foi submetido pelos seus antigos pares e até por seguidores do Cristo, a constrangimentos e dificuldades acerbas.

As posições de Paulo eram claras e continuadamente registrava em suas Epístolas a sua não aceitação da Lei de Moisés e de se antepor aos chamados legalistas. O ex doutor da Lei se insurgia contra as regras e normas típicas de sua antiga religião tradicional. (1)

Emmanuel explicita o impacto sofrido pelo ex doutor da Lei ao retornar à Casa do Caminho: “[…] torturado pela influência judaizante. Tiago dava a impressão de reingresso, na maioria dos ouvintes, nos regulamentos farisaicos. Suas preleções fugiam ao padrão de liberdade e do amor em Jesus Cristo.” (2)

O acadêmico e pároco anglicano Wright é autor de profundos estudos sobre Paulo e opina que a ação do Apóstolo tem “uma dimensão política, entrelaçada num tecido único da teologia e de sua vida”, porém destaca que a história vivida e narrada por Paulo “é uma história de amor e não de poder.” Wright pondera que, na atualidade, Paulo “pode muito bem vir a ser outra vez uma questão não tanto de compreensão, mas de coragem.” (3)

Na literatura espírita, há registros notáveis de Herculano Pires sobre o apóstolo Paulo e que estão relacionadas com as análises do espírito Emmanuel e do pesquisador Wright. Notadamente relacionados com os dilemas e a transição na complexidade vivida por Paulo, imerso em três contextos, ou seja, a tradição do judaísmo, a cultura grega e o domínio e a legislação romana:

“Paulo, que exemplifica o drama da transição da consciência judaica para a cristã, adverte que Deus não deseja cultos externos, semelhantes aos dedicados às divindades pagãs, mas "um culto racional", em que o sacrifício não será mais de plantas ou animais, mas da animalidade, ou seja, do ego inferior do homem.”  (4)

"Ele libertava a religião da política e do negócio. Para ele, a religião tinha que ser vivida em si mesma e vivida com toda a independência moral".  (5)

A propósito de trecho de Atos sobre “muitos milagres e prodígios entre o povo pelas mãos dos apóstolos”, Herculano Pires aponta que ali se encontra "uma das mais belas confirmações evangélicas da realidade e da verdade do Espiritismo e das suas práticas como continuação do cristianismo em espírito e verdade aqui na terra." (5)

Entendemos que o exemplo de vida e as difíceis opções de Paulo rumo ao “alvo” – “Prossigo para o alvo…” (Filipenses, 3.14), e as Epístolas de Paulo, abstraindo-se algumas discussões do contexto da época, devem merecer o estudo dos espíritas.

Destacamos que na chamada série “Fonte Viva” e demais livros em que Emmanuel comenta versículos do Novo Testamento, de um total de cerca de 1.300 capítulos, mais de um terço dos capítulos se referem a citações de Paulo.

Bibliografia:

  1. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do espiritismo. 1. ed. Matão: O Clarim. 2016.
  2. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Paulo e Estêvão. Ed.esp. 2a Parte, Cap. 3. Brasília: FEB. 2012.
  3. Wright, Nicolas Thomas. Trad. Soares, Joshua de Bragança. Paulo.  Novas perspectivas. São Paulo: Edições Loyola, 2009.
  4. Pires, José Herculano. O espírito e o tempo. 1ª parte, Cap.II. São Paulo: Ed. Pensamento. 1964.
  5. Pires, José Herculano. Org. Arribas, Célia. O evangelho de Jesus em espírito e verdade. 1.ed. Cap. 15. São Paulo: Editora Paidéia. 2016.

(Ex-presidente da USE-SP e da FEB)

A navalha de Occan

Richard Simonetti

É fácil escrever difícil. Basta colocar no papel as ideias que surgem no bestunto, ainda que, não raro, desandem em destemperos mentais.

Difícil é escrever fácil. Exige demorada e árdua elaboração para tornar a leitura elegante, atraente e objetiva, sem impor prodígios de concentração e entendimento.

Trata-se de uma gentileza que todo autor esclarecido deve ao leitor que se dispõe a examinar suas criações. O texto que exige cuidadosa interpretação é mais charada do que literatura. Fica por conta da capacidade de quem lê, no empenho em orientar-se por labirintos tortuosos, fruto dos devaneios do autor.

Jesus dizia que a verdade está ao alcance dos simples.

Os doutos e entendidos costumam sofrer uma intoxicação intelectual que oblitera o bom senso e os leva a imaginar que tortuosidade e complexidade são sinônimos de cultura e saber.

A propósito vale lembrar Guilherme de Occam (1285-1349), notável teólogo e filósofo inglês (nascido em Occam, nos arredores de Londres). Ingressou bem jovem na ordem franciscana.  Estudou e lecionou na gloriosa universidade de Oxford.

Inteligente e lúcido estimava a simplicidade na exposição de suas ideias. Complexidades ou conjecturas, apenas se absolutamente necessárias.

Adotou um princípio que ficaria conhecido como a navalha de Occam, definindo o empenho em retirar de um pensamento ou de uma tese acessórios e complicações desnecessários, louvando-se no bom senso.

Se a aplicássemos em textos herméticos e obscuros dos filósofos que fazem a história das contradições do pensamento humano, seria uma “carnificina”. Pouco sobraria.

                                        ***

Nem sempre Occam conseguiu usar sua navalha.

Aconteceu particularmente em relação à existência de Deus, assunto que preferia não abordar. Não a negava, mas considerava que, devido à transcendência do tema, seria impossível conjeturar sobre o Criador sem recorrer a argumentos complexos, de difícil entendimento.

Os Espíritos que orientaram a codificação da Doutrina Espírita ensinaram diferente. Dotados de notável capacidade de síntese, própria da sabedoria autêntica, demonstraram que é possível passar a navalha de Occam em lucubrações complexas e reduzir a argumentação em favor da existência de Deus à sua expressão mais singela.

Isso acontece na questão número quatro, em O Livro dos Espíritos.

Pergunta Kardec:

Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus?

Resposta:

Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.

Comenta Kardec:

Para crer-se em Deus, basta se lance o olhar sobre as obras da Criação. O Universo existe, logo tem uma causa. Duvidar da existência de Deus é negar que todo efeito tem uma causa e avançar que o nada pode fazer alguma coisa.

Simplíssimo! Se o Universo é um efeito inteligente, tão superior ao nosso entendimento que seus segredos são inabordáveis, forçosamente tem um autor infinitamente inteligente – Deus.

A partir dessa ideia o difícil é provar que Deus não existe. Teríamos que explicar o efeito sem causa, a criação sem um Criador.

Quaisquer argumentos em favor desta tese ingrata seriam facilmente eliminados pelo próprio Occam, usando a navalha do bom senso.

(Extraído de Boletim Notícias do Movimento Espírita:

http://www.noticiasespiritas.com.br/2017/JULHO/04-07-2017.htm)

Chico Xavier em 8 de Julho

Antonio Cesar Perri de Carvalho 

O dia 8 de Julho assinala alguns eventos importantes na trajetória mediúnica de Chico Xavier, nos tempos em que residia em Pedro Leopoldo.

Nesse dia, no ano de 1927, poucos dias após a fundação do Centro Espírita Luiz Gonzaga, há o registro feito pelo próprio médium sobre sua primeira psicografia. Ele detalha em entrevista os companheiros presentes na histórica reunião do dia 7 de julho de 1927 e comenta que o espírito manifestante não se identificou, tendo assinado como “um espírito amigo”, porém Chico Xavier se recorda do episódio:

“— Estávamos em reunião pública e depois da evangelização, D. Carmen Perácio, médium de muitas faculdades, transmitiu a recomendação de um benfeitor espiritual para que eu tomasse o lápis e experimentasse a psicografia. Obedeci e minha mão de pronto escreveu dezessete páginas sobre deveres espíritas… Senti alegria e susto ao mesmo tempo. Tremia muito quando terminei.” (1)

Chico Xavier relata no seu livro pioneiro “Parnaso de Além Túmulo”, o desabrochar de sua psicografia:

“Resolvemos, então, com ingentes sacrifícios reunir um núcleo de crentes para estudo e difusão da doutrina, e foi nessas reuniões que desenvolvi-me como médium escrevente, semi-mecânico, sentindo-me muitíssimo feliz, por se me apresentar essa oportunidade de progredir, datando daí o ingresso do meu humilde nome nos jornais espíritas, para onde comecei a escrever sob a inspiração dos bondosos mentores espirituais que nos assistiam.” (2)

Em apenas 60 dias -, o jovem Chico Xavier tornou-se espírita, fundou um Centro Espírita e psicografou pela primeira vez. Era o marcante e decisivo início de longa trajetória de renúncia, dedicação, amor e iluminação espiritual!

Cinco anos depois, em 1932, veio a lume seu primeiro livro, acima citado, publicado pela FEB, e reunindo poemas de autores desencarnados brasileiros e portugueses. Foi um marco histórico e um grande impacto no meio literário brasileiro.

No dia 8 de julho de 1941, o espírito Emmanuel dá por concluída a redação da obra “Paulo e Estêvão” e faz a apresentação intitulada “Breve história”. Este romance histórico psicografado por Chico Xavier é considerada sua obra prima.

O dia 8 de julho assinala efemérides históricas na vida e obra de Francisco Cândido Xavier. E neste ano se completam os 90 anos do início de sua psicografia.

É momento de valorizarmos e divulgarmos a profícua e portentosa obra mediúnica de Chico Xavier!

 Referências:

  1. Barbosa, Elias. No mundo de Chico Xavier. 2.ed. Cap. 2. Araras: IDE. 1975.
  2. Xavier, Francisco Cândido. Espíritos diversos. Parnaso de além túmulo. 19.ed. Palavras minhas. Brasília: FEB. 2010.

 

(*) Ex-presidente da FEB e da USE-SP.

(Adaptação de artigo do autor publicado em Revista Internacional de Espiritismo, Ano XCII, N. 2, Abril de 2017)

Medidas

Richard Simonetti

Um dos mais famosos filósofos gregos foi Protágoras (480-410 a.C.), de cujas ideias temos apenas fragmentos, com destaque para a frase famosa: O Homem é a medida de todas as coisas.

Concepção perturbadora. Significa que o bem e o mal, o certo e o errado, a moralidade e a imoralidade, tudo que envolva a sociedade humana, só pode ser conduzido em relação aos interesses e necessidades do Homem, atendendo aos tempos e aos costumes, de acordo com suas conveniências.

Só é admissível o conhecimento que se possa assimilar mediante os sentidos físicos, pondo em dúvida, portanto, princípios como a imortalidade da alma, a vida além-túmulo, a presença de Deus…

Indagado sobre a existência dos deuses, enfatizava: Nada posso dizer de concreto. São muitas as coisas que ocultam o saber: a obscuridade do assunto e a brevidade da vida humana.

Aplicadas ao cotidiano, essas ideias induzem a uma concepção utilitária e imediatista da existência, sem cogitações superiores. Na verdade, mesmo sem conhecer o sábio grego, o homem comum tende a viver dessa forma, orientando suas iniciativas em torno de seus interesses. Ainda que concebendo a existência de um ser superior , que tudo vê, não tem grandes preocupações com isso.

É ele sempre a medida das próprias ações. Em tudo o que faz, prevalecem seus desejos, sob inspiração do egocentrismo que lhe marca as aspirações e atividades, pretendendo que a vida gire em torno de seus desejos.

Quando ligado à religião, dificilmente ultrapassa as águas da superficialidade, interessado em garantir seu bem-estar, na medida de suas necessidades, sem nenhuma preocupação em observar as medidas de sua crença. 

O conceito de Protágoras é derrubado pela Doutrina Espírita, que desdobra para nós a vida espiritual, com testemunhos e experiências daqueles que partiram.

Fossem os princípios espíritas mera questão de fé e continuaríamos sujeitos à mesma medida – nós mesmos –, dispostos a aplicá-los de conformidade com nossas conveniências.

Ocorre que o enfoque espírita é o da razão, desdobrando-nos realidades que transcendem as limitações dos sentidos. Então, o apelo espírita deixa de ser uma questão de crença, condicionada à aceitação, e passa a ser um imperativo do conhecimento, orientado pela razão.

O reconhecimento das realidades espirituais impõe mudanças também nas medidas que utilizamos na vida de relação, convocados a superar mesquinhos interesses particulares, em favor de nobres ideais.

Um aspecto importante: A tendência arraigada no espírito humano , de julgar o comportamento alheio, usando por medida nossas próprias mazelas. Diz Jesus (Lucas, 6:37-38):

Não julgueis, para não serdes julgados, não condeneis, para não serdes condenados; perdoai, e vos será perdoado. Dai, e vos será dado; será derramada no vosso regaço boa medida, calcada, sacudida, transbordante, pois com a medida com que medirdes sereis medidos também.

O que vemos nos outros é, geralmente, o que há em nós. Jesus enfatiza que isso nos causará problemas, quando convocados a prestar contas de nossas ações diante da justiça divina.

Com o Espiritismo temos ilustrações perfeitas sobre o assunto, a partir do intercâmbio com o Além. Observamos, compadecidos, a situação daqueles que assim o fizeram durante a jornada humana. Sofridos e atormentados, é como se advertissem:

– Cuidado. Alimento-me de amargos frutos que você também colherá, se não mudar a medida de suas ações…

Superada a máxima de Protágoras pela revelação espírita, que transcende os acanhados sentidos físicos, uma providência se impõe à nossa iniciativa: Utilizar a régua evangélica, insistentemente enfatizada nas abordagens doutrinárias.

Ela nos permite identificar a gloriosa presença de Deus no Universo, e avaliar a precariedade e o perigo de nossas medições quando apreciamos a vida e o próximo com a métrica de nossas fragilidades.

(Transcrito do boletim Notícias do Movimento Espírita: http://www.noticiasespiritas.com.br/2017/JUNHO/05-06-2017.htm)

Chico Xavier, a USE e a união

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Por ocasião do 17o Congresso Estadual de Espiritismo, em que a União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, comemora 70 anos de sua fundação, há muitos fatos históricos que merecem ênfase. Todavia, destacaremos alguns episódios ligando Chico Xavier e suas psicografias, com a USE-SP.

Um ano após a fundação da USE-SP, esta promoveu o 1o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita de 31 de outubro a 05 de novembro de 1948, em São Paulo. Chico Xavier foi convidado, e como não poderia comparecer, enviou a mensagem assinada por Emmanuel – “Em nome do Evangelho” -, e dirigida aos participantes do citado Congresso, psicografada no dia 14 de setembro de 1948, em Pedro Leopoldo (MG). Enfatizamos que foi a primeira psicografia de Chico Xavier sobre união e unificação! E de conteúdo marcante comentando João (17, 22):

“Para que todos sejam um…” Emmanuel destaca: “[…] espírito de serviço e renunciação, de solidariedade e bondade pura que Jesus nos legou.”1

Na obra USE – 50 anos de unificação2 aparecem registros de outros acompanhamentos de Chico Xavier. Temos conhecimento que o ex-presidente da USE Luiz Monteiro de Barros era ligadíssimo ao médium Spártaco Ghilardi, um grande amigo de Chico Xavier, frequentador assíduo das reuniões de Chico, em Uberaba, e fundador do Grupo Espírita Batuíra, em São Paulo.

Texto de Bezerra de Menezes, aliás pouco divulgado, foi psicografado por Chico Xavier no dia 23 de abril de 1976, em função de visita de companheiros da União Municipal Espírita de Marília (atual USE de Marília, SP). Em “Mensagem de União”, Bezerra:

“[…] Solidários, seremos união. Separados uns dos outros, seremos pontos de vista. […] Mantenhamos unidos, em Jesus, para edificar e acender Kardec no caminho de nossas vidas, porque unicamente assim, agindo com a fraternidade e progredindo com o discernimento, é que conseguiremos obter    os valores que nos erguerão na existência em degraus libertadores de paz e ascensão.”3

          No ano de 1977 os diretores da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, Merhy Seba, Antonio Schilliró e Nestor João Masotti (presidente) entrevistaram Chico Xavier, em Uberaba, por ocasião do cinquentenário de suas atividades mediúnicas, de onde extraímos os trechos:

          “P – Caro Chico, gostaríamos de levar sua mensagem aos nossos irmãos da USE que prestam sua colaboração, em várias áreas de trabalho que o Centro oferece.

          R – Caro amigo, o seu desejo muito me honra, mas sinceramente, a meu ver, não temos qualquer mensagem maior que o convite à divulgação e ao conhecimento da Doutrina Espírita, vivendo-a com Jesus, interpretada por Allan Kardec. Penso que, nesse sentido, deveríamos refletir em unificação, em termos de família humana, evitando excessos de consagração das elites culturais na Doutrina Espírita, embora necessitemos sustentá-las e cultivá-las com respeitosa atenção, mas nunca em detrimento dos nossos irmãos em Humanidade, que reclamam amparo, socorro, esclarecimento e rumo. […] Não consigo entender o Espiritismo, sem Jesus e sem Allan Kardec para todos, a fim de que os nossos princípios alcancem os fins a que propõem".1

          Em diversos diálogos, inclusive conosco, em visitas a Uberaba e em eventos no Centro Espírita União, em São Paulo, Chico Xavier sempre externou ponderações cuidadosas a propósito de algumas maneiras de se operacionalizar a unificação.

    O entendimento de Chico Xavier e de seus orientadores espirituais sobre união e unificação devem merecer nossa atenção em cotejo com observações de Allan Kardec sobre os laços morais.4

Referências:

  1. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Centro espírita. Prática espírita e cristã. São Paulo: Ed. USE, 2016.

  2. Monteiro, Eduardo Carvalho; D’Olivo, Natalino. USE – 50 anos de unificação. São Paulo: Ed. USE. 1997.

  3. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Bezerra de Menezes. Mensagem de união. Unificação. USE. Ano XXVII. No. 309. São Paulo. Novembro-dezembro de 1980.

  4. Kardec, Allan. Trad. Noleto, Evandro Bezerra. O Espiritismo é uma religião? Revista Espírita. Dezembro de 1868. Ano XII. Rio de Janeiro: FEB. 2005.

 

(*) – Ex-presidente da USE-SP e da FEB.

A verdadeira edificação

Izabel Vitusso

Como é bom lembrar que no Brasil podemos contar com um sem- -número de casas espíritas, oferecendo socorro espiritual, acolhimento fraterno, oportunidade de estudo e orientação. Quem já precisou de socorro neste quesito fora do país entende o valor desta grande oferta de núcleos espíritas ao nosso dispor.

A forma como cada um deles teve iní- cio é a mais variada. Alguns surgiram ainda no século 19. Os registros apontam para o ano de 1865 o marco da fundação da primeira casa espírita do Brasil, o Grupo Familiar de Espiritismo, na cidade de Salvador, BA. Hoje, somam-se cerca de 15 mil em todo o Brasil (1) .

Os vínculos espirituais também são os mais variados. Frequentemente eles acontecem pela identificação do centro com um grupo de assistência do plano espiritual, capitaneado por trabalhadores expoentes do movimento espírita e sua equipe, missionários que abraçaram a causa e se mantêm incansáveis na tarefa de assistência na crosta terreste.

Quando não, o inverso. O planejamento da fundação da casa espírita vem como consequência dos anseios da espiritualidade maior. Impossível generalizar.

Mas o que importa é saber da grande responsabilidade que envolve a fundação de uma casa espírita, de mais um foco de luz na grande ciranda da fraternidade.

O que aconteceu com o casal Francisco e Nena Galves a partir de 1959 ilustra isso muito bem e evidencia todo o cuidado dispensado pela espiritualidade maior junto ao núcleo que se forma para servir na seara do Jesus.

Nena e Francisco Galves já frequentavam algumas casas espíritas na cidade de São Paulo e tiveram derpertada a vontade de conhecer o médium mineiro Chico Xavier. Partiram os dois com um grupo de vinte frequentadores e dirigentes espíritas para Uberaba, MG. Só não imaginavam o impacto que teriam e um novo mundo que se abriria depois daquela viagem.

É Nena quem conta:

“Maio de 1959 é data que recordamos com imensa alegria. O encontro com o médium fez florescer na memória atual reencarnações passadas na Espanha e na França. Chico nos confidenciou que nos reconheceu imediatamente. Galves e eu sentimos uma atração imensa, uma grande afeição, e quando Chico tomou as mãos de Galves e as minhas entre as suas e as beijou, tivemos a certeza de que elas já haviam estado unidas num passado distante.”(2)

“A força do amor materializava-se em forma de homem de pequena estatura e de gestos lentos, ensinando-nos a andar certos e seguros, sem tropeços. (…) Está- vamos longe de imaginar que aquela aten- ção representava trabalho e alegria futuros. (…) Nesse dia, senti-me mais esposa, mais mãe, mais filha. Um ser que renascia diante de um pai espiritual que acabava de reencontrar, enfim.”

Nas visitas constantes de Nena e Francisco Galves ao médium (acabaram se tornando amigos íntimos), as orientações da espiritualidade foram chegando, com o respeito próprio da espiritualidade superior à condição de cada um, observando o tempo de maturação do casal e de todo o grupo que aos poucos se estruturava.

Em 1965, Bezerra de Menezes orientaria:

“A ideia do grupo íntimo com a finalidade de desobsessão é um plano feliz, para cuja execução rogamos o amparo da providência divina”.

“O conjunto pequeno, como é necessário à formação de corações fraternos, poderá reunir-se uma vez por semana, à noite, e pouco a pouco as diretrizes virão, de vez que é aconselhável dar tempo ao tempo e verificar o desenvolvimento da nova planta de amor fraternal na terra do Cristo.”

Em outra mensagem, Bezerra atenta para o esforço necessário no desenvolvimento moral e no sentimento de fraternidade para a sustentação de uma obra para o bem. Antes de erguidas as paredes da casa espírita, há que se ter a edificação mental:

“É preciso nos decidamos levantar a construção íntima, aquela que se baseia no ajuste dos corações fraternos em uma obra de elevação espiritual em comum.”

“Continuemos na tarefa da edificação mental, na certeza de que já podemos contar com o amparo da construção externa.”

E, por fim, a orientação que revela a sutileza da presença da espiritualidade na base dos trabalhos de uma casa espírita, que nos apoia de maneira incondicional, mas que respeita sempre o direito de fazermos nossas escolhas.

“Através da inspiração, trocaremos ideias todos juntos acerca dos alicerces espirituais do conjunto em via de se formar.”

Dois anos depois, o Centro Espírita União (3) abriria suas portas no bairro Jabaquara, com um significativo trabalho de assistência social e espiritual, e até hoje, cinquenta anos depois, o laborioso casal continua à frente, junto com o grande tarefeiro, dr. Bezerra de Menezes, assistindo necessitados e despertando corações para a verdadeira ciranda de amor e de luz.

Referências:

 1) Estimativa segundo a FEB.

2) Até sempre, Chico Xavier, Nena Galves, CEU, 2008.

3) www.centroespiritauniao.org

(Transcrito de Correio Fraterno do ABC. Ano 50. No. 475. Edição maio-junho de 2017, p. 7)