São Paulo – origem da cidade e marco educacional

São Paulo – origem da cidade e marco educacional

    

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Dia 25 de janeiro assinala os 468 anos da fundação da cidade de São Paulo.

Os episódios da origem da grande metrópole têm ligações com vultos que são conhecidos na literatura espírita.

Destacamos o espírito Emmanuel, que na sua trajetória espiritual, esteve reencarnado como o jesuíta Manuel da Nóbrega.

Essa informação já havia sido divulgada por Chico Xavier e consta do livro Amor e sabedoria de Emmanuel, de Clóvis Tavares, editado em São Paulo no ano 1970. No 2o Pinga Fogo, marcante programa da TV Tupi de São Paulo, em dezembro de 1971, Chico Xavier em resposta a Almyr Guimarães confirma e declara: “Aceito plenamente, convictamente a revelação dele mesmo, de que ele foi o padre Manuel da Nóbrega, companheiro do grande Anchieta”. Na cerimônia pública e televisada da Câmara Municipal de São Paulo, no dia 19/5/1973, em que recebeu o título de “Cidadão Paulistano”, Chico Xavier evocou essas informações espirituais.1

A atual maior metrópole do Hemisfério Sul e o Estado homenageiam o Apóstolo Paulo, por proposta de Manuel da Nóbrega!

Em registros históricos de conhecimento público sabe-se que Nóbrega, que atuava em São Vicente, subiu o Planalto de Piratininga e resolveu fundar uma escola, escolhendo o dia 25 de janeiro de 1554, data comemorativa da conversão do apóstolo Paulo. Assim, surgiu a cidade de São Paulo, significativamente a partir de uma escola e homenageando a apóstolo da gentilidade.

O jesuíta Nóbrega instalou no Brasil a primeira proposta de educação, integrando o grupo que fundou a cidade de Salvador; na já citada fundação da cidade de São Paulo, e, posteriormente também presente na origem da cidade do Rio de Janeiro. Sua missão envolvia o Direito e a Teologia Moral. Nóbrega teve muito trabalho junto aos portugueses que vinham para a Colônia sem suas famílias e muitos até na condição de exilados e com as aproximações e catequese em aldeias indígenas. Foi autor do primeiro livro redigido na Colônia, Cartas do Brasil, registrando suas experiências educacionais entre 1549 e 1560.1

A amiga e anfitriã de Chico Xavier em São Paulo, Nena Galves – que juntamente com seu marido fundaram o Centro Espírita União em 1967, atendendo a orientação e apoio de Chico Xavier -, sempre relata que o médium tinha um grande amor pela cidade de São Paulo. Às vezes pedia para dar uma volta pela cidade e até de carro, tarde da noite, e, inclusive, esteve várias vezes no Pátio do Colégio, local onde a cidade foi fundada.

Em Sessão Solene da Câmara de Vereadores de São Paulo realizada no dia 17 de maio de 2004, recebemos a “Medalha Anchieta e Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo”. Na oportunidade fomos saudados pelo vereador Rubens Calvo e em nosso discurso enaltecemos Anchieta, notável vulto dedicado à educação e atendimentos a carentes e que chegou à Colônia do Brasil como noviço do padre Manuel da Nóbrega. Naquele momento homenageamos também Nóbrega, como fundador de São Paulo, e lembramos que ele sempre vinha à nossa memória nos tempos em que atuávamos junto à Reitoria da Universidade Estadual Paulista, na época localizada próxima ao histórico Pátio do Colégio.2

Sempre que possível conduzimos parentes e amigos para conhecerem o museu que funciona no Pátio do Colégio, no centro de São Paulo.

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Emmanuel. Trajetória espiritual e atuação com Chico Xavier. Cap.17. Matão; O Clarim. 2020.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Pelos caminhos da vida. Memórias e reflexões. Cap. 3.8. Araçatuba: Cocriação. 2021.

“Culpa” da culpa (teológica), ponderando a inutilidade da culpa

“Culpa” da culpa (teológica), ponderando a inutilidade da culpa

Jorge Hessen

A culpa e o alerta da consciência são temas que merecem profundas reflexões.

É importante dizer que o “alerta ou conflito da consciência” ainda não é a instalação da culpa, porém um convite à contrição diante dos erros. Tal compressão consciencial é indispensável para a harmonização do desajuste psicológico, consequente da culpa. A consciência é o divino em nossa realidade existencial; nela estão escritas as Leis do Criador. A culpa resulta da não auscultação do “alerta da consciência”, portanto é patológica e gera profundo abalo psicológico autopunitivo.

Detalhe: é impossível inexistir o alerta consciencial no psiquismo humano. Podemos fingir não ouvir a “voz da consciência”, e, apesar disso, ela sempre nos alertará, exceto nos casos extremos de psicopatologias em que o doente mental não sente um mínimo de arrependimento ou sentimento de culpa.

O alerta consciencial sinaliza as transgressões ao código moral de lei da consciência. À vista disso, tomamos ciência e nos arrependemos do erro, buscando repará-lo. Por outro lado, a culpa é um processo patológico em que ficamos cultuando o erro sob o movimento psicológico de autojulgamento, autocondenação e autopunição.

Impulso autopunitivo

O comportamento autopunitivo causa gravíssimas doenças emocionais, notadamente a depressão. Atualmente a depressão é um colossal drama humano. “Eu não mereço ser feliz”, “eu não nasci para ser amado”, “ninguém gosta de mim” etc. Aqui se manifesta um comportamento autopunitivo de complicado tratamento psicológico e espiritual. Neste caso a “culpa” está punindo e aprisionando. O culpado está acomodado na queixa e na lamentação (pela “culpa”). Mais amadurecido psicologicamente poderia avançar pelo caminho do autoperdão e capacitaria abrir mais o coração para a vida.

Nas patologias depressivas, muitas vezes há muito ódio guardado no coração. Muitas vezes oscilamos entre atos que geram a artimanha do “desculpismo” e ações que determinam a “culpa”. Dependendo de como lidamos com tais desafios, a “culpa” permanece mais forte, produzindo situações que embaraçam o estado psíquico e emocional, razão pela qual não nos podemos exigir perfeição, inobstante, devemos fazer esforços contínuos de autoaperfeiçoamento, afastando-nos do “desculpismo”, que nada mais é do que uma porta de escape para a fuga das próprias obrigações.

A percepção da “culpa” tem sido objeto de investigações e influências no amplo debate temático da Doutrina dos Espíritos e das ciências psíquicas. Sabe-se que são intermináveis e graves as consequências da conservação da “culpa” em nossa vida, podendo alcançar indescritíveis destroços emocionais, psicológicos, comportamentais e morais.

A famosa “culpa” se consubstancia numa sensação de angústia adquirida após reavaliação de um ato tido como reprovável por nós mesmos, ou seja, quando transgredimos as normas da nossa consciência moral.

Distintivos da culpa

Das diversas características da culpa há aquela advinda da volúpia de “prazer” quando alguém não se divertiu como gostaria (de ter-se esbaldado numa “balada”, por exemplo). Após a “farra” esse alguém se sente culpado e se cobra por não ter permanecido mais tempo na festa; por não ter realizado isso e ou aquilo etc. Sob esse estado psicologicamente perturbador surge a culpa como reflexo daquilo que não se fez e almejaria ter feito, resultando o movimento de autopunição.

Sob o ponto de vista religioso, a “culpa” advém da transgressão de algo “proibido” ou de uma norma de fé. A sanção religiosa tange para a reprimenda e condenações punitivas. A sinistra “culpa” religiosa significa um estado psicológico, existencial e subjetivo, que indica a busca de expiação de faltas ante o “sagrado”, como parte da própria autoiluminação como experiência sectária.

Frequentemente a religião trata a “culpa” como um sentimento imprescindível à contrição e à melhoria pessoal do infrator, pois este alcança a mudança apenas se reconhecer como “pecaminoso” o ato cometido.

Essa interpretação religiosa não se compatibiliza com as propostas espíritas, até porque a “culpa” é uma das percepções psíquicas que não se deve nutrir, por ser uma espécie de mal-estar estéril, uma inútil insatisfação íntima. Em verdade, quando nos culpamos tolhemos todo o potencial de nos manifestar com segurança perante a vida.

Todas as recordações negativas paralisam o entusiasmo para as ações no bem, únicas portadoras de esperança para a libertação da culpa. Quando entramos no processo autopunitivo geramos um impulso de distanciamento da realidade da vida e do próprio viver. É um grande desafio transformarmos a experiência desafiadora (dor/“sofrimento”) em experiência de aprendizado. Para isso, importa fazermos o BEM (com maiúsculas) no limite das nossas forças, começando em nós mesmos, permitindo-nos experimentar esse BEM no coração e ao mesmo tempo realizarmos o BEM ao próximo, e assim nos libertamos totalmente do nódulo culposo.

O desculpismo ante o alerta consciencial

A Lei de Causa e Efeito é um dos princípios fundamentais preconizados pela Doutrina Espírita para explicar as vicissitudes ligadas à vida humana. Ante a Lei de causalidade a colheita deriva da semeadura, sem qualquer expressão castradora ou fatalista para reparação. O “alerta de consciência”, por exemplo, bem absorvido, transforma-se em componente responsável. Mas se o ignoramos ruímos no desculpismo e rechaçamos a responsabilização do erro. Em face disso, o desculpismo é uma postura profundamente irresponsável perante nós mesmos.

O negligente (desculpista) pronuncia que “errar é humano”, porém é contraproducente raciocinar assim. É um processo equivocado que ultraja a Lei de Deus. Em verdade, não precisamos nos culpar (exigência) quando erramos, e muito menos nos desculpar (negligência), porém, importa ouvirmos a voz da consciência e aprendermos com os erros a fim de repará-los.

Assistencialismo como cataplasma da culpa

Sobre as diferentes peculiaridades da culpa ainda há aquela sucedida naqueles trabalhadores que avidamente mergulham nos assistencialismos. São confrades de consciência “pesada” que ambicionam consolidar a beneficência, visando, antes, anestesiarem a própria culpa. Na realidade, estão tentando barganhar com Deus, a fim de se livrarem da ansiedade mental.

Decerto isso é uma prática espontânea porém contraproducente. Não obstante, no M.E.B. – Movimento Espírita Brasileiro haja farta frente de serviços assistencialistas. O psiquiatra Alírio Cerqueira, coordenador do Projeto Espiritizar da Federação Espirita do Mato Grosso, alterca que muitos fazem assistencialismos sem real consciência da necessidade social dos desprovidos. Em verdade, laboram “caritativamente” sob as algemas da consciência culposa e arriscam disfarçar para si mesmos o automático exercício de “altruísmo”. Agem subconscientemente quais portadores de ferida muito dolorosa, e em vez de tratá-la para cicatrizar, ficam passando pomada anestésica na ferida (culpa) para abrandar a dor. Agindo assim (no assistencialismo) a culpa momentaneamente é “escondida”, mas não desaparece, pois, passando o efeito do anestésico a culpa retorna e a pessoa mantém o conflito de consciência . Desse modo, vai ampliando cada vez mais os compromissos “filantrópicos”; vai se sobrecarregando nos pactos “caritativos”; porém, a culpa é conservada. Muitos passam a vida inteira nessa atitude de “FAZEÇÃO DE COISAS” sem qualquer objetivo consciencial. Tais “caridosos” com certeza socorrem TEMPORARIAMENTE os necessitados, todavia, provocam para si mesmos , em alto grau, o cansaço mental, o estresse e a saturação psicológica e não conseguem se HARMONIZAREM CONSIGO MESMOS.

Ante a culpa, não são os sadios que necessitam de médicos

Na verdade, o objetivo das leis divinas (sediadas na consciência) é nos proporcionar a pura e eterna felicidade. Em face disso, quando as transgredimos ficamos ansiosos, porque nos afastamos da felicidade, logo, sentimos extrema ansiedade. Em face disso, é importante o exercício do autoperdão que obviamente não extinguirá a responsabilidade dos erros praticados, até porque auto perdoar-se não é simplesmente passar uma borracha em cima do erro, mas fazer uma avaliação equilibrada do desacerto para repará-lo.

No extremo, há pessoas que alimentam tanta culpa, que se sentem indignas de fazer uma prece e ou de fazer o bem. Porém, ajuizemos o seguinte: a prece não é para espíritos puros. Jesus orientou que não são os sadios que necessitam de médicos, mas os doentes. Ora, esperarmos nossa purificação para orar e fazer o bem não faz nenhum sentido, até porque nos aperfeiçoamos gradualmente, orando inicialmente e de maneira especial fazendo bem no limite das nossas forças.

Extraído de:

Revista digital O Consolador. Ano 15 – N° 754 – 9 de Janeiro de 2022:

http://www.oconsolador.com.br/ano15/754/especial.html

Novo ano – expectativas para o movimento espírita

Novo ano – expectativas para o movimento espírita

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

A cada passagem de ano, sempre há expectativas e esperanças que se renovam.

Nesses quase dois anos de isolamento social em função da pandemia, vivemos experiências inusitadas e interessantes, gerando reflexões para o convívio e inclusive para eventuais adequações do movimento espírita.

Graças ao adiantado nível de vacinação e a natural queda de ocorrência de casos graves e de mortes provocados pelo COVID-19, surge a possibilidade do relaxamento das várias medidas sanitárias.

Alguns centros espíritas já iniciaram preparativos para um seguro retorno a atividades presenciais.

[…] A essa altura, o cenário do novo ano não está muito claro. Além de todas as repercussões econômicas, sociais em geral, da longa pandemia dos anos 2020-21, eventualmente poderão ocorrer situações que não eram esperadas. Ou seja, será necessária a atenção continuada aos alertas e às recomendações das autoridades sanitárias sobre a questão de aglomeração de público.

Indubitavelmente, com relação ao movimento espírita, houve um comprometimento justamente pela falta do “movimento” presencial, dos encontros propiciados pelas diversas e tradicionais reuniões e atividades.

Por outro lado, quando os centros espíritas precisaram cerrar suas portas físicas, em geral houve uma rápida adequação para as transmissões pela internet. Surgiram as chamadas “lives”. De forma virtual proliferaram as palestras, seminários, reuniões de vibração e reuniões administrativas.

Essa experiência inesperada para o movimento espírita assegurou a continuidade de esclarecimentos e de apoios morais e espirituais. Trata-se da colocação em prática dos conceitos de transmissão a distância e da comunhão de pensamentos e sentimentos.

Agora, nos últimos meses de 2021, quando alguns centros iniciaram uma reabertura ou a planejaram para 2022 ficou clara a demanda pela continuidade de transmissões pela internet. […] Além de consultas e observações localizadas, essa tendência transparece em recente pesquisa inédita sobre “lives” e vídeos espíritas, realizada por Ivan Franzolim no mês de outubro de 2021, obtendo 1034 respostas de 26 estados e 283 cidades. O objetivo da pesquisa foi conhecer melhor a experiência de utilização dos meios de comunicação “Lives” e Vídeos durante a pandemia, para poder aperfeiçoar o seu uso. Entre os resultados dessa pesquisa destacamos: 63% responderam que os centros espíritas que estão vinculados mantém canais no “You tube”; após a pandemia, a sua frequência ao centro deve: manter a mesma: 50,9 %; aumentar: 20,9 %; diminuir: 17,9%.(1)

Outros aspectos que se evidenciam na atualidade: na comercialização de livros já se nota um aumento pelas aquisições via internet; as contribuições para manutenção das instituições sofrem oscilações.

No tocante a grandes eventos presenciais, como os tradicionais congressos, provavelmente ocorrerão adequações. A experiência de promoção de palestras virtuais com expositores de várias partes do território nacional e até do exterior, sem custos, poderá refletir na maneira de se promover eventos.

Sem dúvida há novos cenários para os próximos tempos!

Parece-nos que as ações relacionadas com a união dos espíritas também poderão caminhar para novos encaminhamentos. Nota-se o surgimento de vários grupos afins nas redes sociais com o objetivo de manter intercâmbio.

[…] Da mesma forma, a caracterização de sedes físicas como referência ou até como condição exclusiva para efetivação de algumas ações pode ter outras alternativas.

É indiscutível o valor do contato físico, mas há indícios que estejamos entrando em nova fase em que as ações fraternas e solidárias poderão ocorrer sem distâncias e barreiras materiais. O entendimento de Allan Kardec, expresso em seu último discurso público, em “finados” de 1868, sobre “o efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas" (2), deve merecer nossa atenção e reflexão. O Codificador usa a expressão e valoriza a “comunhão de pensamentos”.

Do ponto de vista espírita, sabemos que o pensamento tem vida e que é transmitido a distância.

[…] Agora, com a diversificação e dinamização dos meios de comunicação, o pensamento verbalizado e concretizado em ações, pode ser transmitido instantaneamente a todas partes do mundo.

Trata-se do dealbar de um mundo novo e que o movimento espírita precisa se adequar para a viabilização da propagação de sua mensagem aproveitando-se dos diferentes cenários e respeitando-se a diversidade de situações.

Referências:

1) Franzolim, Ivan. Resultados da Pesquisa Lives e Vídeos Espíritas 2021. Acesso em 24/11/2021: http://franzolim.blogspot.com/2021/11/resultados-da-pesquisa-lives-e-videos.html

2) Kardec, Allan. O Espiritismo é uma religião? Revista Espírita. Dezembro de 1868. Trad. Noleto, Evandro Bezerra. Ano XII. FEB.

(*) O autor foi presidente da FEB, da USE-SP e membro da Comissão Executiva do CEI.

De:

Síntese de artigo do autor, publicada em: Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCVI. N. 12. Janeiro de 2022. P.612-613.

Esperanças de um bom ano

Esperanças de um bom ano

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Em artigo inaugural de 2022, comentamos sobre o fato historicamente reconhecido: “As expectativas para o futuro e para um novo ano sempre motivaram o homem”.(1)

No texto analisamos os contextos vividos no mundo atual e no movimento espírita e destacamos a responsabilidade de todos no uso do livre-arbítrio, como seres espirituais reencarnados.

Entre inúmeros contrastes e impactos lembramos: “Num “mundo conturbado”, há vislumbres de situações novas e de adequações para próximos tempos! Deve haver esforço para a disseminação do roteiro preconizado pelo Cristo, a começar pelo empenho dos espíritas.

Esperamos que os avanços da ficção Admirável mundo novo de Aldous Huxley prevaleçam sobre os ambíguos “ais” de Nostradamus, que sejam evitadas gestões mundiais trágicas do romance 1984 de Orwell e que prevaleçam os laços de fraternidade e de solidariedade.

Na base, o real compromisso de aprimoramento moral e espiritual dos homens no uso do livre-arbítrio será definidor para as esperadas transformações que poderão se fortalecer, sem se precisar datas, num novo e melhor mundo.

A propósito como estímulo para se alimentar o otimismo e esperanças, lembramos de textos psicografados por Chico Xavier.

Em 1941, o espírito Casimiro Cunha escreveu o poema “Carta de Ano Bom” (2), de onde extraímos alguns trechos: “Entre um ano que se vai E outro que se inicia, Há sempre nova esperança, Promessas de Novo Dia… Considera, meu amigo, Nesse pequeno intervalo, Todo o tempo que perdeste Sem saber aproveitá-lo. […] Ano Novo!… Pede ao Céu Que te proteja o trabalho, Que te conceda na fé O mais sublime agasalho. Ano Bom!… Deus te abençoe No esforço que te conduz Das sombras tristes da Terra Para as bênçãos de Jesus.”

Bem mais à frente, em 1994, Emmanuel escreve “Carta de Ano Novo” (3). Eis uns trechos: “Ano Novo é também oportunidade de aprender, trabalhar e servir. O tempo como paternal amigo, como que se reencarna no corpo do calendário, descerrando-nos horizontes mais claros para necessária ascensão. Lembra-te de que o ano em retorno é novo dia a convocar-te para a execução de velhas promessas que ainda não tivestes a coragem de cumprir. […] Não te esqueças de que Jesus jamais se desespera conosco e, como que oculto ao nosso lado, paciente e bondoso, repete-nos de hora a hora: – Ama e auxilia sempre. Ajuda aos outros amparando a ti mesmo, porque se o dia volta amanhã, eu estou contigo, esperando pela doce alegria da porta aberta de teu coração.”

Dessas duas psicografias de Chico Xavier sobre o Ano Novo, destacamos as palavras: esforço, aprender, trabalhar e servir. São sugestões para a nova etapa do calendário terreno.

Fontes:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Um mundo novo. A Senda. Revista digital da FEEES. Ano 100. N. 213. Janeiro-Fevereiro de 2022, p. 10-12. Acesso: https://www.feees.org.br/wp-content/uploads/2021/12/revista_jan-fev-1.pdf

2) Xavier, Francisco Cândido. Espírito Casimiro Cunha. Cartas do Evangelho. São Paulo: Lake.

3) Xavier, Francisco Cândido. Espíritos Diversos. Vida e Caminho. São Bernardo do Campo: GEEM.

Os homens de boa vontade no novo ano

Os homens de boa vontade no novo ano

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A passagem para um novo ano sempre motivaram o homem e ensejam esperanças de melhorias e expectativas de num mundo melhor.

Na realidade, um novo ano é uma mudança formal no calendário e naturalmente, na prática, é uma sequência de fatos e compromissos que vêm se desenrolando.

Os dois últimos anos foram assinalados pela terrível pandemia do COVID-19, gerando distanciamento social e vários tipos de crises. Em nível global há expectativas para que seja assegurado o controle da pandemia pelas vacinas.

No contexto social há busca de soluções nas áreas políticas, econômicas, sociais, educacionais, de saúde, e, sem dúvida, com repercussões no próprio movimento espírita, que faz parte da sociedade.

Em todos os cenários, são homens encarnados os responsáveis pelas decisões e ações e vale a pena se recordar da obra A Gênese, de Allan Kardec, que no Cap. I encontra-se o registro: “Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem”.

Nessa mesma obra de Kardec, no Cap. XVIII, há considerações sobre a longa etapa que vivemos, os “Sinais dos tempos”. Em A Gênese, o Codificador destaca: “A fraternidade será a pedra angular da nova ordem social; mas, não há fraternidade real, sólida, efetiva, senão assente em base inabalável e essa base é a fé, não a fé em tais ou tais dogmas particulares, que mudam com os tempos e os povos e que mutuamente se apedrejam, porquanto, anatematizando-se uns aos outros, alimentam o antagonismo, mas a fé nos princípios fundamentais que toda a gente pode aceitar e aceitará: Deus, a alma, o futuro, o progresso individual indefinito, a perpetuidade das relações entre os seres.”

Para o Espiritismo fica claro que o livre-arbítrio e o real compromisso de aprimoramento moral e espiritual dos homens estão na base das esperadas transformações que poderão se fortalecer num novo e melhor ano. A propósito, recordamos da pioneira psicografia de Chico Xavier sobre união: “Em nome do Evangelho” (Emmanuel, 1948), de onde destacamos os trechos: “O mundo conturbado pede, efetivamente, ação transformadora. […] unamo-nos no mesmo roteiro de amor, trabalho, auxílio, educação, solidariedade, valor e sacrifício que caracterizou a atitude do Cristo em comunhão com os homens, servindo e esperando o futuro, em seu exemplo de abnegação, para que todos sejamos um…” (Carvalho, Antonio Cesar Perri. Emmanuel. Trajetória espiritual e atuação com Chico Xavier. O Clarim).

Nesse “mundo conturbado”, deve haver esforço para a disseminação do roteiro preconizado pelo Cristo, inclusive com o empenho dos espíritas. É o apelo para os “homens de boa vontade” com que os espíritos anunciaram as “novas de grande alegria” por ocasião do nascimento de Jesus (Lucas 2: 10, 14).

Que o ano novo seja melhor para todos nós!

Alegria do Natal e ensinos de Jesus

Alegria do Natal e ensinos de Jesus

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O nascimento de Jesus foi anunciado por espíritos, identificados como “anjos”: “[…] eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo” (Lucas 2, 10) e em seguida “vozes” entoavam: “Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens” (Lucas 2, 14).

Essas características prenunciadas espiritualmente se concretizaram com os ensinos e exemplos de Jesus. A época da comemoração do nascimento de Jesus, que é o real significado do Natal, deve merecer recordações e reflexões em torno do que representa a proposta de Jesus para a Humanidade.

Alguns episódios de ações e diálogos registrados pelos evangelistas, entendemos como sugestivos para se balisar estudos e reflexões sobre temas vinculados aos ensinos de Jesus. A questão fundamental e que transparece em todos os ensinos de Jesus tem a ver com a chamada “regra áurea”: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Marcos 12, 31).

A nosso ver, o Sermão da Montanha resume a essência das propostas de Jesus para uma nova Civilização. Nesse marco histórico há o registro que assinala uma das suas características, de demonstrar conhecimento de algumas tradições da época que seriam aceitáveis. De início, de acordo com Mateus (5, 1): “E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos”. Ensinar sentado era naquela época uma tradição dos mestres judaicos. Todavia, não foi a postura de estar sentado que lhe conferiu autoridade, mas os conceitos exarados naquele momento e compatíveis com seus exemplos: “E aconteceu que, concluindo Jesus este discurso, a multidão se admirou da sua doutrina; Porquanto os ensinava como tendo autoridade; e não como os escribas” (Mateus 7, 28-29).

Daquela expressiva conclamação, destacam-se as Bem-aventuranças e que devem ser balizadoras para os processos de educação espiritual, a partir da compreensão espírita: os pobres de espírito; os que choram, porque eles serão consolados; os mansos; os que têm fome e sede de justiça; os misericordiosos; os limpos de coração; os pacificadores; os que sofrem perseguição por causa da justiça; e sobre a conduta quando vos injuriarem e perseguirem (Mateus 5, 3-11). Desde O evangelho segundo o espiritismo há um grande repositório de obras espíritas com grande diversidade de subsídios fundamentais a serem trabalhados para a compreensão das Bem-aventuranças à luz do Espiritismo.

O Sermão da Montanha contém inúmeras recomendações e alertas sobre a divulgação da mensagem, principalmente pelos exemplos norteadores: “Vós sois o sal da terra”; “a luz do mundo”; “resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 5, 13-16). Há recomendações para a efetiva utilização do livre-arbítrio como espírito imortal: “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não” (Mateus 5, 37). Jesus, em vários momentos criticou as orações espalhafatosas e pomposas, apresentou orientações sobre a prece sincera e espontânea: “quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto” (Mateus 6, 6). E, objetivamente profere uma prece: “Portanto, vós orareis assim: Pai nosso…” (Mateus 6, 9).

Posições renovadoras e até inéditas na época surgiram, por exemplo, ao ensejo de situações que surgiam: o perdão, o respeito ao próximo e a misericórdia frente à mulher adúltera (João 8, 1-11); e posições enérgicas, como ante os vendilhões do templo (Mateus 21, 12-17). Nos caminhos entre cidades surgem ilustrações em torno de cenários e situações, como a Parábola da figueira (Mateus 24, 32-35), destacando-se o conceito de “fruto”, ou seja, de ações e obras concretas; e os esclarecimentos sobre o cego de nascença (João 9, 1-10), de onde emerge a ideia de reencarnação. Nos diálogos com seus discípulos, já nos seus últimos dias, propõe o trabalho em grupo, a ser o menor para ser o maior, a ser humilde: “Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve” (Lucas 22, 27). Também define a missão deles: “Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça daí” (Mateus 10, 8), perfeitamente adequável aos espíritas de nossos dias.

O delineamento de rumos também fica fortalecido num diapasão espiritual, como nas colocações sobre “o caminho, a verdade e a vida” (João 14, 4-6).

Coroando os roteiros a serem seguidos surge o anúncio do “Consolador” (João 14, 15-17), tão bem analisado por Kardec em O evangelho segundo o espiritismo, com desdobramentos e aplicações para as ações na seara espírita.

Nesses registros sintetizados encontramos subsídios fundamentais que podem colaborar com aqueles que estão envolvidos em atividades de ensino espírita em nossos dias, com o objetivo de atender os que adentram os centros espíritas e encontrem o farol e o porto seguro que se traduza por acolhimento, consolo, esclarecimento e orientação. Razões para se fortalecer a fé, a esperança e que criam ambientação íntima para manifestações de alegria aos que se esforçam para a prática da boa vontade.

O ensino moral de Jesus à luz das obras de Kardec e dos livros que sejam coerentes com os mesmos, a nosso ver, deve merecer destaque nos estudos e nas reuniões públicas dos centros espíritas. E, obviamente, trazendo esses parâmetros morais para o contexto da atualidade.

(Texto adaptado de artigo do autor publicado na Revista Internacional de Espiritismo: Jesus – modelo de educador, na edição de dezembro de 2021)

O Antigo Testamento foi revogado por Jesus?

O Antigo Testamento foi revogado por Jesus? 
(Parte 2 e final)*


Paulo da Silva Neto Sobrinho

Objetivamente, quanto à questão da revogação do Antigo Testamento, vejamos o que encontramos de apoio a essa tese no Novo Testamento:


1 Coríntios 15,2: “É pelo evangelho que vocês serão salvos, contanto que o guardem de modo como eu lhes anunciei; do contrário, vocês terão acreditado em vão.” (grifo nosso)
Efésios 1,13: “Em Cristo, também vocês ouviram a palavra da verdade, o Evangelho que os salva.” (grifo nosso)
Paulo deixa claro que é pelo Evangelho que seremos salvos; em outras palavras, ele não aceita o Antigo Testamento como algo com que possamos nos salvar.
Hebreus 7,18-19: “Portanto, por um lado, se revoga a anterior ordenança, por causa de sua fraqueza e inutilidade (pois a lei nunca aperfeiçoou cousa alguma) e, por outro lado, se introduz esperança superior, pela qual nós chegamos a Deus. E, visto que não é sem prestar juramento (porque aqueles, sem juramento, são feitos sacerdotes, mas este, com juramento, por aquele que lhe disse: O Senhor jurou e não se arrependerá; Tu és sacerdote para sempre); por isso mesmo Jesus se tem tornado fiador de superior aliança.” (grifo nosso)
Hebreus 8,6-8.13: “Agora, com efeito, obteve Jesus ministério tanto mais excelente, quanto é ele também mediador de superior aliança instituída com base em superiores promessas. Porque, se aquela primeira aliança tivesse sido sem defeito, de maneira alguma estaria sendo buscado lugar para segunda. E, de fato, repreendendo-os, diz: Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Quando ele diz Nova, torna antiquada a primeira. Ora, aquilo que se torna antiquado e envelhecido, está prestes a desaparecer.” (grifo nosso)
Hebreus 10,9: “[…] Desse modo, Cristo suprime o primeiro culto para estabelecer o segundo”. (grifo nosso)


Se até aqui ainda poderia existir alguma pequena sombra de dúvida, agora foi definitivamente dissipada por estas narrativas da carta aos Hebreus. Poderíamos até dizer: “quem tem ouvidos que ouça”, mas diremos quem tem olhos veja: a aliança anterior é fraca, inútil e com defeito, enquanto que a nova é superior a ela. Quanto ao “está prestes a desaparecer”, só não desapareceu ainda por causa da insistência de alguns que querem, a todo custo, manter viva a legislação de Moisés contida no Antigo Testamento. Repetindo: Porque, se aquela primeira aliança tivesse sido sem defeito, de maneira alguma estaria sendo buscado lugar para segunda.
Corroboramos nossa ideia com Ehrman: Já mencionei que esta é a visão apresentada na epístola dos Hebreus, do Novo Testamento, livro que tenta mostrar que a religião baseada em Jesus é superior à religião do judaísmo, em todos os sentidos. Para o autor de Hebreus, Jesus é superior a Moisés, que deu a Lei aos judeus (Hb 3); ele é superior a Josué, que conquistou a terra prometida (Hb 3); ele é superior aos sacerdotes que oferecem sacrifícios no templo (Hb 4-5); e, o mais marcante, ele é superior aos próprios sacrifícios (Hb 9-10). […]. (ERMAN, 2008, p. 78, grifo nosso)
Clara, então, fica a questão de Jesus ser superior a Moisés.


Marcos 2,18-22: “Como os discípulos de João e os fariseus estavam jejuando, foram lhe perguntar: 'Por que é que os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam, e os teus não?' Jesus lhes respondeu: 'Por acaso ficaria bem que os convidados para um casamento fizessem jejum, enquanto o esposo está com eles? Enquanto está, não convém. Mas virá um tempo em que o esposo lhes será tirado. Então sim, eles vão jejuar. Ninguém costura um remendo de pano novo em roupa velha. Do contrário o remendo novo, pelo fato de encolher, estraga a roupa velha e o rasgão fica pior. Ninguém põe vinho novo em velhos recipientes de couro. Caso contrário, o vinho arrebentaria os recipientes. Ficariam perdidos os recipientes e também o vinho. Para vinho novo, recipientes novos!'.” (grifo nosso)


Seria o mesmo que Jesus dizer: Se vocês ficarem apegados aos ensinamentos de Moisés, não conseguirão suportar nem compreender o que agora vos trago. Onde se falava sobre os jejuns? Não é no Velho Testamento, que, tanto os fariseus e quanto os discípulos de João Batista, tiravam o que seguiam? Lembremo-nos de que “a Lei e os Profetas vigoraram até João” (Lucas 16,16). Assim, não fica claro sua revogação por Jesus? Só não o é para os que ainda insistem em seguir Moisés. Mais claro fica quando tomamos da nota de rodapé constante do Novo Testamento, Edições Loyola, o seguinte: “Tanto o pano novo como o vinho novo são símbolos duma nova era (cf. At 10,11; Hbr 1,11; Gên 49,11-12); os cristãos devem estar animados dum espírito novo, incompatível com antigas prescrições do judaísmo já ultrapassadas” (p. 57, grifo nosso)
Há um episódio na vida de Jesus que nos levou a formar uma forte convicção que seus ensinamentos eram superiores aos de Moisés. É a passagem em que João narra, o que se supõe como sendo, o primeiro milagre de Jesus. Apesar de termos refletido muito sobre ela, ainda não tínhamos nenhuma explicação que justificasse a atitude de Jesus em transformar água em vinho, para embebedar os convidados da festa de que participava.
Vejamos o episódio:


João 2,1-11: “No terceiro dia, houve uma festa de casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus estava aí. Jesus também tinha sido convidado para essa festa de casamento, junto com seus discípulos. Faltou vinho e a mãe de Jesus lhe disse: 'Eles não têm mais vinho!' Jesus respondeu: 'Mulher, que existe entre nós? Minha hora ainda não chegou'. A mãe de Jesus disse aos que estavam servindo: 'Façam o que ele mandar'. Havia aí seis potes de pedra de uns cem litros cada um, que serviam para os ritos de purificação dos judeus. Jesus disse aos que serviam: 'Encham de água esses potes'. Eles encheram os potes até a boca. Depois Jesus disse: 'Agora tirem e levem ao mestre-sala'. Então levaram ao mestre-sala. Este provou a água transformada em vinho, sem saber de onde vinha. Os que serviam estavam sabendo, pois foram eles que tiraram a água. Então o mestre-sala chamou o noivo e disse: 'Todos servem primeiro o vinho bom e, quando os convidados estão bêbados, servem o pior. Você, porém, guardou o vinho bom até agora'. Foi assim, em Caná da Galileia, que Jesus começou seus sinais. Ele manifestou a sua glória, e seus discípulos acreditaram nele.”
 

Mas qual é o verdadeiro sentido dessa passagem? Nós o encontraremos naquilo que a pessoa encarregada da festa disse para o noivo: “Todos servem primeiro o vinho bom e, quando os convidados estão bêbados, servem o pior. Você, porém, guardou o vinho bom até agora”. Considerando que, com esse primeiro ato público, Jesus inicia a sua missão, podemos dizer que o “vinho bom guardado até agora” são os ensinamentos de Jesus, superiores aos recebidos anteriormente, por meio de Moisés que seria simbolicamente o vinho de pior qualidade, até mesmo porque, e sem querer desmerecê-los, a humanidade daquela época não estava preparada para receber vinho (ensinamento) de melhor qualidade, se assim podemos nos expressar.
Tudo o que já dissemos anteriormente sobre os ensinos de Jesus, vale para corroborar essa nossa opinião. Mas podemos ainda trazer como apoio a isso: “Em comparação com esta imensa glória, o esplendor do ministério da antiga aliança já não é mais nada” (2 Coríntios 3,10) (grifo nosso), e “Dessa maneira é que se dá a ab-rogação do regulamento anterior em virtude de sua fraqueza e inutilidade – a Lei, na verdade, nada levou à perfeição – e foi introduzida uma esperança melhor pela qual nos aproximamos de Deus” (Hebreus 7,18-19).
Concluímos que Jesus não se restringiu a só revogar os rituais e sacrifícios como alguns pensam, para nós, foi muito mais além disso. Comprovamos também que não distorcemos as narrativas da Bíblia à nossa conveniência, de que tanto nos acusam. São elas, exatamente, que nos dão uma base sólida para afirmar com absoluta certeza que:
1 – O cumprimento da lei e dos profetas a que Jesus se refere no Evangelho é apenas com relação às profecias contidas nas Escrituras sobre Ele mesmo;
2 – Que somente tem que ser cumprido da Lei: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.
3 – Que nunca disse para seguirmos toda a Lei, aqui entendida como todo o Pentateuco.
É muito comum recorrerem aos apologistas do cristianismo primitivo para justificar esse ou aquele ponto, entretanto, quando é algo contrário à crença vigente passam por cima, como se não tivessem visto. Vejamos, por exemplo, o que encontramos em Justino de Roma.
A opinião de Justino de Roma (c. 100-165 d.C.), tido como o melhor apologista do século II, é bem clara no debate que manteve com um sábio judeu, Trifão, que alguns estudiosos identificam como sendo o célebre rabino Tarfão, morto em 155, uma vez que Trifão seria a forma grega do hebraico Tarfão. (JUSTINO, 1995, p. 107). Desse debate, intitulado Diálogo com Trifão, que durou dois dias, transcrevemos:
[…] Contudo, nós não a [confiança] depositamos por meio de Moisés ou da Lei, pois nesse caso estaríamos fazendo o mesmo que vós. Com efeito, ó Trifão, eu li que deveria vir uma lei perfeita e uma aliança soberana em relação às outras, que agora devem ser guardadas por todos os homens que desejam a herança de Deus. A Lei dada sobre o monte Horeb já está velha e pertence apenas a vós. A outra, porém, pertence a todos. Uma lei colocada contra outra lei anula a primeira; uma aliança feita posteriormente também deixa sem efeito a primeira. Cristo nos foi dado como lei eterna e definitiva e como aliança fiel, depois da qual não há mais nem lei, nem ordem, nem mandamento. […]. (JUSTINO, 1995, p. 127, grifo nosso)
Mais claro que isso é querer muito; não é mesmo?
Agora, podemos responder ao questionamento inicial: O Antigo Testamento foi revogado por Jesus? Sim; sem nenhuma sombra de dúvida. E é por isso que não nos sentimos na obrigação de cumprir nada do que consta nele, até mesmo para sermos coerentes com o que pensamos e por acreditar nessa fala de Jesus: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (João 14,6). Por que Ele se colocou como sendo o caminho que conduz ao Pai e não a Moisés? É porque somente os seus ensinos é que devem ser seguidos.
Esse é o entendimento a que chegamos. Entretanto, não há como obrigar ninguém a pensar como nós. A única coisa que pedimos é para que as pessoas deixem de se apegar em demasia aos velhos ensinamentos, como se eles fossem verdadeiros. A Terra já não é mais o centro do Universo, visto que o homem, percebendo a ignorância de tal afirmativa, finalmente, aceitou a voz da Ciência. Além de que, muitas coisas não foram mudadas pelas cúpulas religiosas, justamente para que elas conservassem, a todo custo, o domínio que têm sobre o povo e, também, para que pudessem mantê-lo a todo custo. Ainda hoje encontramos as que buscam incutir a validade dos ensinamentos do Antigo Testamento não se dando conta de que “rompestes com Cristo, vós que buscais a justiça na Lei; caístes fora da graça” (Gálatas 5,4). Sabemos que não fazem isso por ignorância, mas por esperteza visando dominar seus “fiéis”, a fim de conseguir e manter o “poder” e o “dinheiro” na base do que podemos chamar de terrorismo religioso.
Referências bibliográficas:
Bíblia Anotada. São Paulo: Mundo Cristão, 1994.
Bíblia Sagrada, 68ª ed. São Paulo: Ave-Maria, 1989.
Bíblia Sagrada, 8ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.
Novo Testamento, LEB. São Paulo: Loyola, 1984.
EHRMAN, B. D. O problema com Deus. Rio de Janeiro: Agir, 2008.
EHRMAN, B. D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Quem mudou a Bíblia e por quê. São Paulo: Prestígio, 2006.
JUSTINO, Mártir, Santo Justino de Roma: I e II apologias: diálogo com Trifão. São Paulo: Paulus, 1995.

(*) Extraído de:
O consolador, revista semanal digital, Ano 15, N° 750, 5 de Dezembro de 2021: http://www.oconsolador.com.br/ano15/750/especial.html

Precauções no retorno presencial

Precauções no retorno presencial

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Entre setembro e outubro de 2021 houve um “suspiro” com expectativas otimistas no país com a queda das taxas de propagação e de mortes provocadas pela COVID-19.

Isso graças a providências clássicas adotadas pela área da saúde, como a vacinação em massa e distanciamento social, evidentemente que contrariando alguns interesses políticos, comerciais e até radicalismos negacionistas.

Enquanto havia expectativa de reaberturas em países com altos índices de vacinação, em novembro de 2021 começaram a surgir focos de uma chamada quarta onda e da variante “ômicron” do coronavírus.

Em geral essa ocorrência apareceu em países que tiveram problemas mais sérios com a vacinação: grande falta de vacinas no continente africano e reações contra a vacina em algumas regiões da Europa e alguns Estados norte-americanos. Neste último caso, alegando-se o direito individual de escolha, logicamente que ignorando o dever social de contribuição com o bem estar da sociedade.

A falta de vacinas em algumas regiões do mundo assinala claramente a resultante de prevalência de interesses comerciais e a ausência do compromisso de solidariedade. Mesmo numa época seríssima de pandemia alguns não entenderam que não adianta privilegiar-se um grupo ou uma região, mas há necessidade de se pensar no todo coletivo. Isto é, havendo regiões com focos da doença, esta será sempre alimentada com novas variantes e que, num mundo de rápida mobilidade, facilmente atingirão outros países e continentes.

Por outro lado, ainda não houve tempo suficiente para se garantir qual o tempo adequado de imunização que seria assegurado pelas diversas vacinas. Sabe-se que as vacinas não evitam o contágio, mas colaboraram com a minimização de sintomas, internações hospitalares e mortes.

Nesse cenário e face às notícias de novas variantes do vírus, já chegando ao Brasil, entendemos que há necessidade de cautelas com relação a aglomerações.

Na prática, o retorno às atividades presenciais nos centros espíritas deve ser feito mantendo-se atenção às orientações das autoridades sanitárias do Município e do Estado onde as instituições se localizam.

Parece-nos que serão válidos por tempo indeterminado os cuidados, entre outros e genericamente, de uso de máscaras, controle de temperatura corpórea à entrada, distanciamento entre os assentos, passes coletivos e não diretos, boa ventilação natural nas salas, e, sem dúvida a oferta de reuniões híbridas, ou seja, presenciais e virtuais, com transmissões simultâneas.

As transmissões por internet foram uma marcante conquista experimentada pelo meio espírita!

Há centros que estão retornando, por exemplo, com reuniões públicas híbridas, com os cuidados que anotamos acima, mas ofertando os cursos e estudos na forma virtual.

Eventos maiores que levem a aglomerações públicas, no atual quadro que ainda é de pandemia, deveriam permanecer suspensos até uma melhor clareza sobre o cenário epidemiológico de nosso planeta.

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“Onde, então, a ciência de viver? Em parte alguma; e o grande problema ficaria sem solução, se o Espiritismo não viesse em auxílio dos pesquisadores, demonstrando-lhes as relações que existem entre o corpo e a alma e dizendo-lhes que, por se acharem em dependência mútua, importa cuidar de ambos. Amai, pois, a vossa alma, porém, cuidai igualmente do vosso corpo, instrumento daquela” – Georges (Kardec, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Cap. XVII, item 11).

(*) Ex-presidente da USE-SP e da FEB; colaborador do Grupo Espírita Casa do Caminho e do Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo, em São Paulo.

Cuidados com os animais

Cuidados com os animais

Antonio Cesar Perri de Carvalho

No espaço de pouquíssimos dias assistimos a cenas inesperadas envolvendo o homem e os cuidados com animais.

Cenas inusitadas ocorreram na cercania de nosso apartamento na grande cidade. Logo cedo escutamos uma voz feminina chamando alguém. Era uma menina na sacada de pequeno prédio que chamava uma ave por um nome humano. Daí foi-se desdobrando… Ela começou a estender cabos de vassoura em direção a uma árvore contígua. Na calçada começaram a aparecer pedestres curiosos em verificar o que ocorria. Um veículo policial ao passar pelo local, atraído pela aglomeração de pessoas olhando uma menina numa sacada gritando por alguém, parou e os policiais foram se informar. Tratava-se de uma menina desesperada pela fuga de uma maritaca que ela criava. Meia hora depois chega um grande veículo do Corpo de Bombeiros. Preparam-se com escadas e redes e sobem no interior da árvore. A essa altura a maritaca faz um segundo vôo e se aloja em outra árvore. A menina com seus familiares chora e os bombeiros posicionam-se junto à nova árvore, ligam a mangueira num duto de água da calçada e começam a molhar intensamente a árvore até a maritaca cair e ser recolhida imediatamente com panos pela meninas e familiares. Todo o episódio de recuperação da maritaca durou mais de duas horas. No final, com vários espectadores, a menina abraçou os bombeiros, seguindo-se fotos, e o veículo saiu emitindo os sons típicos da buzina do veículo da corporação. No conjunto pareceu um epopéia cinematográfica!

Defecho feliz para o drama da menina e seus familiares. Sabe-se que o Corpo de Bombeiros atua em algumas situações de recuperação de animais. Evidente que seria melhor se não existissem maritacas em cativeiro doméstico.

Na sequência, em viagem familiar ficamos hospedados em residência localizada em condomínio contíguo a região rural. Na manhã do primeiro dia, ao nos dirigirmos ao carro, fomos surpreendidos por três coelhos que estavam alojados embaixo do veículo. Saíram, ficaram quietos nos observando e verificamos que havia um outro embaixo de uma tosseira no jardim da residência. Nem nós, nem eles, se assustaram, movimentamos o carro e vimos pelo retrovisor que permaneciam impassíveis. Coelhos nativos e tranquilos, desde que não haja reação violenta dos humanos. Na mesma hora lembramo-nos que há alguns estávamos em país europeu logo após a liberação do período de caça. Numa rodovia cruzamos com uma caminhonete de caçador que tinha na traseira um autêntico varal com lebres ou coelhos mortos dependurados… Triste prática, essa de caçadas a animais.

Ainda na residência citada, ao retornarmos à tarde, um cão doméstico latia insistentemente. Quando um outro começou a latir também, nossa esposa achou suspeito e resolveu verificar o que acontecia no quintal. De repente, num corredor verificou que o cão havia encurralado um enorme lagarto (Teiu), com mais de um metro de comprimento; este reagia agressivamente e o cão latia e tentava avançar no animal invasor. Combinamos a esposa, ela imobilizaria e protegeria o cão e nós tentaríamos abrir um portão próximo para afugentar o lagarto que também nos ameaçava. Deu certo, o animal invasor e de aspecto horrível se foi e o cão ainda demorou um pouco para se acalmar, pois até tremia. Os dois animais, eu e a esposa ficamos incólumes.

Na mesma casa hospedeira, uma parente nossa se dedica a criar cães e gatos abandonados. Um deles, de pequeno porte e com 15 anos, está cego e paraplégico. Recebe cuidados especiais ao longo do dia e, obviamente, a parente se recusa à opção da eutanásia que muitos recomendam. O outro, já idoso também, tem artroses e, muito manso, quer sempre ficar ao lado de alguém da casa, sendo um grande companheiro.

Muitas emoções sequenciais na relação homens-animais. Como tudo se resolveu sem vitimar nenhum animal veio-nos à mente a visão espírita sobre esse reino. E sem dúvida o respeito e naturais cuidados que eles merecem.

Há pouco tempo, ficamos surpresos ao assistir a um documentário recente, em TV por assinatura, o ”Professor polvo”, verificando-se que o polvo aprende a reconhecer nadadores frequentes.

Nosso planeta é um enorme zoológico com uma incalculável variedade de espécies animais.

Na literatura espírita há muitos subsídios esclarecedores, notadamente as obras e palestras da dra. Irvênia Prada focalizando a questão espiritual dos animais.

Mas, cremos que se torna interessante a transcrição de um trecho de O livro dos espíritos:

“Questão 593. Poder-se-á dizer que os animais só obram por instinto?” Resposta: “Ainda aí há um sistema. É verdade que na maioria dos animais domina o instinto, mas não vês que muitos obram denotando acentuada vontade? É que têm inteligência, porém limitada.”

Nesse mundo com tantas diversidades de culturas e tradições, apenas essa transcrição da obra inaugural de Allan Kardec já nos instiga muitas dúvidas; sugere estudos e reflexões e, sem dúvida, a busca pela aprendizagem do respeito aos animais.

Reflexões sobre união

Reflexões sobre união

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Nos últimos meses houve evocação dos 73 anos da realização 1o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, em São Paulo, e 72 anos da assinatura do “Pacto Áureo”, na sede da FEB, no Rio de Janeiro.

No 1o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, por iniciativa da então novel USE, com apoio dos Estados do Sul, foi realizado em São Paulo de 31 de outubro a 05 de novembro de 1948, tendo foco na unificação nos Estados e em nível nacional, e problemas doutrinários.

O comparecimento foi expressivo e bastante participativo, aprovando entre outras propostas: “que o espírito dominante em todos os trabalhos é o da unificação direcional do Espiritismo; que o Congresso lance aos espíritas do Brasil um manifesto sucinto e objetivo, divulgando os itens nele aprovados; promover entendimentos com as entidades máximas e federativas dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios, ao sentido de consertar a forma de unificação direcional do Espiritismo; os entendimentos deverão ser feitos em torno da organização federativa de âmbito nacional; a entidade existente adaptada ao item anterior conserve sua autonomia social e patrimonial; o poder legislativo nacional será exercido por um Conselho Confederativo, sediado na Capital da República, e composto de um representante de cada Estado, do Distrito Federal e dos Territórios, eleitos pelas uniões ou federações dessas circunscrições, com mandato de cinco anos e presidido pelo presidente da entidade referida.”1,2

Entre os marcos históricos desse Congresso que completa 73 anos, há a primeira psicografia de Chico Xavier sobre união, assinada por Emmanuel: “Em nome do Evangelho” (Pedro Leopoldo, 14/09/1948). Chico Xavier encaminhou aos organizadores com a justificativa de que ele, como convidado, não poderia comparecer.1,2,3

Eis uns trechos: “O mundo conturbado pede, efetivamente, ação transformadora. […] unamo-nos no mesmo roteiro de amor, trabalho, auxílio, educação, solidariedade, valor e sacrifício que caracterizou a atitude do Cristo em comunhão com os homens, servindo e esperando o futuro, em seu exemplo de abnegação, para que todos sejamos um…” 1,2,3

A proposta da criação de um Conselho Superior do Espiritismo foi levada à consideração do presidente da FEB Wantuil de Freitas, que a recusou. No ano seguinte a USE apoiou o 2o Congresso da Confederação Espírita Panamericana, realizado pela Liga Espírita do Brasil no Rio de Janeiro. Durante esse evento, com a atuação de lideranças do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, surgiu o encontro com a direção da FEB. Nessa inesperada reunião o presidente da FEB Wantuil de Freitas apresentou uma proposta que foi aprovada pelos presentes aos 05/10/1949, “ad referendum” das Sociedades que representavam. A reunião depois foi intitulada Grande Conferência Espírita do Rio de Janeiro e “Pacto Áureo” e gerou a criação do Conselho Federativo Nacional da FEB e a “Caravana da Fraternidade”.2,3 Foi um desdobramento parcial do Congresso de 1948 e, no contexto das dificuldades para a união, um documento possível para o momento, de inquestionável valor histórico, com repercussões, mas gerou também reações e decepções na época.2,3

Em uma análise acadêmica da primeira metade do Século XX, em tese de doutorado, Pedro Paulo Amorim efetivou “minuciosa pesquisa em fontes institucionais na busca da tentativa de construção da identidade espírita: Reformador, Mundo Espírita, O Clarim, Revista Internacional de Espiritismo, Revista Espírita do Brasil e o Almenara. […] pudemos destacar a atuação de quatro entre os principais intelectuais espíritas: Carlos Imbassahy, Leopoldo Machado, Deolindo Amorim e Herculano Pires”; enfatiza o “Pacto Áureo” e conclui que houve um “projeto homogeneizante da FEB em busca da pretendida hegemonia no interior do Campo Espírita Brasileiro”.4

Nessas sete décadas subsequentes ocorreram transformações no contexto do país, novas Constituições Federais, e o movimento espírita viveu grande desenvolvimento, amadurecimento e diversificação de atuação. Em análise sobre o “Pacto Áureo”, comentamos no livro União dos espíritas. Para onde vamos? sobre a inadequação de seus itens: “Em nosso entendimento e experiência, com os apontamentos acima expressos, o texto do ‘Pacto Áureo’ está superado. Imaginemos um dirigente que, ao ler o citado documento, resolva colocar em prática ‘ao pé da letra’ o que está definido em seus artigos. O ‘Pacto Áureo’ é um importante referencial histórico, mas não é mais aplicável na atualidade.”3

Em uma necessária adequação do “Pacto Áureo” é imprescindível a valorização das cinco obras básicas de Kardec, à vista de grande incoerência: as Federativas Estaduais são vinculadas ao CFN da FEB, com base no “Pacto Áureo” – que não se fundamenta nas cinco obras básicas -, por outro lado, orientam as instituições adesas a inserirem nos seus Estatutos artigo alusivo à fundamentação nas obras de Kardec. O lógico seria que o documento fundante e norteador do CFN da FEB faça alusão à base doutrinária do Espiritismo. Há detalhamentos adequados apenas à época da assinatura do “Pacto Áureo” e que deveriam ser coerentes com a realidade e necessidades atuais do movimento espírita.2,3

O entendimento de Kardec de que “o efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas"5, é reiterado em mensagens posteriores ao “Pacto Áureo”, de Emmanuel e Bezerra de Menezes.

Os conceitos de Allan Kardec, a mensagem pioneira de Emmanuel, como o todo os Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita2, e as mensagens de Bezerra de Menezes, devem ser refletidos pelos dirigentes espíritas.

Referências:

1) Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita. São Paulo: USE. Versão digital: https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2020/02/anais_1_congresso.pdf

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Palestra das Comemorações dos 70 anos do 1o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, São Paulo 20 e 21/10/2018. Acesso: https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2020/02/palestra_70_anos.pdf

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? Capivari: EME. 2018.

4) Amorim, Pedro Paulo. As tensões no campo espírita brasileiro em tempos de afirmação (primeira metade do Século XX). Tese (Doutorado em História Cultural). Universidade Federal de Santa Catarina. 2017.

5) Kardec, Allan. Trad. Noleto, Evandro Bezerra. O Espiritismo é uma religião? Revista Espírita. Dezembro de 1868. Ano XII. FEB.

(*) Foi presidente da USE-SP e da FEB.

(Síntese de artigo transcrito do jornal Dirigente Espírita, órgão da USE-SP, Novembro-Dezembro de 2021; versão digital disponível na página eletrônica da USE-SP).