70 anos de união. A USE de Araçatuba

70 anos de união. A USE de Araçatuba

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

No dia 20 de julho ocorre a comemoração dos 70 anos de fundação da USE de Araçatuba. Na época, era denominada União Municipal Espírita de Araçatuba, órgão da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo.

Cenário de muito idealismo unificacionista em São Paulo. A USE-SP foi fundada em 1947. No ano seguinte esta promoveu o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita na capital paulista com significativa participação, principalmente das lideranças espíritas dos Estados do Sul e do Sudeste. Aliás este movimento acabou provocando a assinatura do chamado “Pacto Áureo” com a FEB, em 1949.1

A cidade de Araçatuba teve um fato precedente com Benedita Fernandes, a pioneira local voltada a ações de apoio a crianças e doentes mentais. Em setembro de 1942 Benedita Fernandes liderou a fundação da União Espírita Regional da Noroeste, inclusive com Estatuto próprio e com a finalidade de divulgar a Doutrina e aproximar os espíritas de toda a região servida pela então Estrada de Ferro da N.O.B.2

A antiga União Municipal Espírita de Araçatuba teve alguns percalços nos seus tempos iniciais e houve um momento em que sentiu a necessidade de revigorá-la. Foi nessa época que nos vinculamos a ações de união no movimento espírita da cidade. Estávamos em plena juventude e representando a Instituição Nosso Lar. A partir daquele momento, em 1965 vivenciamos mais de duas décadas como integrante da diretoria e presidente daquele órgão local de unificação. Interessante é que chegamos a conhecer os primeiros integrantes da União Regional fundada por Benedita Fernandes e outros vinculados à União Municipal Espírita de Araçatuba. Hoje sentimos que ficamos como uma ponte entre o passado e o futuro. Apenas nos desvinculamos da União Municipal quando assumimos encargos como diretor da USE-SP e, em seguida, mudando de Araçatuba.

Mesmo fisicamente à distância, em tarefa de direção junto à União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, na capital paulista, e junto à Federação Espírita Brasileira em Brasília, sempre que possível estávamos presentes em eventos promovidos pela USE de Araçatuba. Direta ou indiretamente são passados quase seis décadas que mantemos alguma forma de ligação com o movimento espírita araçatubense.

Ao longo desse tempo as tarefas da USE de Araçatuba foram diversificadas: realização de Semanas e Mês Espíritas, programando a vinda de oradores espíritas de várias regiões; eventos de jovens e adultos espíritas de caráter regional; a realização do 1º. Encontro de Delegados de Polícia Espíritas do Estado de São Paulo; a criação do clube do livro espírita; programas radiofônicos espíritas, em vários momentos; manutenção de “colunas espíritas” semanais em jornais locais; impressão de folhetos; edição de livros, como O Espiritismo em Araçatuba, Em Louvor à Vida e Dama da Caridade, de nossa autoria, sendo que os dois últimos agora são publicados por outras Editoras, e, os dois volumes de Obra de Vultos, organizado por Ismael Gobi. Nestes livros há registros importantes sobre o Espiritismo e seus personagens em terras araçatubenses.

No período em presidimos a agora chamada USE de Araçatuba, mantivemos muito contato e recebemos as influências de Divaldo Pereira Franco, visitas constantes a Chico Xavier, e, eventos marcantes com a atuação, entre outros, do dr. Alexandre Sech (de Curitiba), Mário da Costa Barbosa (na época residindo em São Paulo), Nestor João Masotti (então presidente da USE-SP) e Altivo Pamphiro (do Rio de Janeiro).

Destacamos que em função de dezenas de vindas e de contribuições ao movimento de Araçatuba, através dos esforços da antiga UMEA, o médium e orador Divaldo Pereira Franco recebeu o título de “Cidadão Araçatubense”. Naqueles tempos tínhamos agendado e com programação bem definida a cerimônia em que Chico Xavier receberia o título de “Cidadão Araçatubense”. Porém uns 20 dias antes ele sofreu um enfarte e suspendeu as viagens e esse tipo de compromisso.

Entre fatos marcantes registramos o esforço recente de união que possibilitou a instalação em Araçatuba de antena da TV Mundo Maior, emissora da Fundação Espírita André Luiz, de São Paulo.

Ao ensejo dos 70 anos de fundação da USE de Araçatuba, registramos um trecho de mensagem pioneira sobre união, psicografada por Chico Xavier e destinada aos participantes do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita (São Paulo, 1948), de autoria do espírito Emmanuel: “[…] unamo-nos mesmo roteiro de amor, trabalho, auxílio, educação, solidariedade, valor e sacrifício que caracterizou a atitude do Cristo em comunhão com os homens, servindo e esperando o futuro, em seu exemplo de abnegação, para que todos sejamos um, em sintonia sublime com os desígnios do Supremo Senhor.”1

Consideramos indispensável que as ações do movimento espírita estejam fundamentadas nas Obras Básicas do Codificador. A propósito destacamos trecho de seu último discurso, nos dias de Finados do ano de 1868: “[…] O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas."1

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? Capivari: Ed. EME. 2018.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Benedita Fernandes. A dama da caridade. Araçatuba: Ed.Cocriação e USE Regional de Araçatuba. 2017.

(*) Foi dirigente espírita em Araçatuba e presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e da Federação Espírita Brasileira.

Os Evangelhos: cronologia e idioma

Os Evangelhos: cronologia e idioma

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Depois que elaboramos o livro Cristianismo nos séculos iniciais. Análise histórica e visão espírita1 e com as subsequentes palestras que proferimos notamos reações de surpresa a respeito dos registros sobre a cronologia e sobre o idioma original em que os evangelhos foram redigidos.

Vários confrades se referem à obra Paulo e Estêvão2 com a colocação de que Emmanuel teria se referido ao Evangelho de Mateus. Esse comentário merece análise cuidadosa sobre o porquê do Autor Espiritual utilizar genericamente a palavra “evangelhos”, e a prudência de empregar as expressões “anotações de Levi”, “cópias do Evangelho” e “pergaminhos do evangelho”. Em nenhum momento anotou Evangelho de Mateus…

O principal autor da Patrística, Eusébio de Cesareia (séc.III-IV), já anotava em na sua obra tradicional História eclesiástica3, sobre o significado de cada um dos quatro Evangelhos. Entre os séculos I e VII, os manuscritos antigos eram escritos em papiro, ainda que por volta do século IV, na maior parte do mundo, o pergaminho tivesse substituído o papiro. Nos primeiros séculos da expansão da Igreja cristã, desenvolveu-se o que se chamou de “textos locais” do Novo Testamento.4 Então há uma diferença entre anotações, escritos em papiro ou pergaminho e a versão consolidada dos Evangelhos. As pesquisas documentais e arqueológicas das últimas décadas reforçam as opiniões de tradicionais pesquisadores bíblicos.

Com base em vários pesquisadores acadêmicos sobre a Bíblia, Russel Norman Champlin4 sintetiza as diversas opiniões de que para os que aceitam a interação Pedro orientando Marcos, o Evangelho de Marcos surgiu na faixa dos anos 64-67 d.C.; o Evangelho de Lucas teria sido escrito entre os anos 60-80 d.C.; o de Mateus após destruição de Jerusalém (70 d.C.); e o Evangelho de João entre 90-100 d.C. O autor citado registra que se reconhece universalmente que Mateus e Lucas usaram o pioneiro Evangelho de Marcos como seu esboço histórico, e que teriam adicionado à narrativa histórica de Marcos muitos ensinamentos de Jesus, pois o Evangelho original continha pouquíssimo desse material. Complementa com o comentário de que os três primeiros evangelhos – sinópticos-, encaram a vida, os ensinamentos e a significação da vida de Jesus do mesmo ponto de vista, em contraste com as observações de João.

Frederico Lourenço5,6, pesquisador e professor de Estudos Clássicos, Grego e Literatura Grega da Universidade de Coimbra, tradutor de várias obras a partir do grego e um dos grandes especialistas de nossa época sobre a Bíblia em versão grega, comenta: “[…] os últimos cinquenta anos trouxeram mudanças decisivas nos estudo dos quatro Evangelhos.” Adiciona que quando Paulo foi sacrificado os únicos textos do Novo Testamento que já tinham sido escritos eram desse apóstolo. “[…] todos os demais textos foram escritos depois da morte de Paulo; nem sequer os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João tinham sido escritos.”

Entre os pesquisadores recentes ligados à História também há o mesmo consenso, como Alain Corbin7 que afirma que o texto mais antigo do cristianismo são as cartas do apóstolo Paulo.

Agora fica mais fácil entendermos porque Emmanuel utilizou palavras cuidadosas para se referir a “anotações do Evangelho”, e Paulo e Estêvão foi redigido nos idos de 1941, antes de muitas pesquisas que viriam à tona. Estas precisam ser valorizadas e não desdizem a redação adotada por Emmanuel. Com relação à época do aparecimento dos Evangelhos, fundamentado em vários autores, registramos que a 1a Epístola aos Tessalonicenses, escrita por Paulo em Corinto no ano 51 d.C., seria o primeiro texto de autoria do Apóstolo e também o texto pioneiro do Novo Testamento.

Em geral é aceita a seguinte cronologia de aparecimento dos Evangelhos: Marcos, provavelmente no ano 64 d.C; Lucas, logo em seguida; Mateus, no ano 70 d.C., e, João, no período entre 90 e 100 d.C.1

Todavia, o Novo Testamento apresenta os evangelhos em ordem de importância ou de uso nas comunidades, e não pela cronologia em que foram elaborados. Foi Agostinho que popularizou a ideia de que Mateus seria o evangelho original e que o de Marcos seria um sumário do mesmo e esta tradição tem sido mantida nas versões do Novo Testamento. E também porque, em geral, considera-se que o evangelho de Mateus teria ascendência sobre os demais em função do arranjo por tópicos, apropriado para instrução; contém a mais completa narrativa; reflete um ponto de vista mais universal; é o mais eclesiástico.4 Face às constatações de que ele foi escrito após Marcos e Lucas fica claro porque tem a narrativa mais completa.

Outra polêmica e que diminui sua importância com as pesquisas recentes é a questão do idioma em que os Evangelhos foram redigidos. Eusébio de Cesareia afirma que Mateus teria escrito “na língua pátria”, porém, posteriormente desenvolveram-se polêmicas sobre essa opinião.3

O registro de que todos os livros do Novo Testamento (Evangelhos, Atos dos Apóstolos, Epístolas, e Apocalipse), à exceção do Evangelho de Mateus, foram redigidos primeiramente em grego “koiné” se reproduz automaticamente em algumas hostes religiosas. O “koiné” era um idioma popular largamente usado na época por todo o mundo greco-romano e tornava mais fácil a divulgação da Boa Nova, e se abria para o mundo dos gentios que não conheciam o aramaico. Ao tempo de Jesus em todas as cidades principais, incluindo Jerusalém, se falava o “koiné”. Jesus falava o aramaico comum, um dialeto do siríaco; o hebraico clássico já não era uma língua viva. A maior parte das instruções de Jesus foram originalmente entregues no idioma aramaico. Marcos deixou isso claro ao suprir palavras e expressões aramaicas com seus equivalentes gregos.4 Nos textos do Novo Testamento há um emprego variado do “koiné”, sendo “literário” (Lucas e Paulo) e até “menos educado” (Marcos). Os autores dos textos do Novo Testamento não eram gregos e escreveram com alguma influência semita. Os papiros que têm sido descobertos nas últimas décadas confirmam a natureza do grego do Novo Testamento.

Os tradutores modernos têm a vantagem de contar com manuscritos desde o século II, muito diferente do “Textus Receptus” compilado por Erasmo no século XVI que dispunha de manuscritos do século X.4 O estudioso Champlin4 comenta que a tradução da Bíblia do hebraico para o grego, a “Septuaginta”, exerce muita influência sobre o conteúdo e o caráter do Novo Testamento. Muitas citações foram extraídas diretamente dessa obra e não do Antigo Testamento em hebraico. O sentido das palavras se baseiam em ideias hebraicas e não em qualquer elemento distintamente grego.

Essas observações são importantes para se compreender a revisão corrente sobre o idioma da redação original dos textos do Novo Testamento. O historiador Blainey8, por exemplo, é de opinião de que os textos de todos evangelistas teriam sido redigidos em grego. Essa observação é reiterada pelo já citado pesquisador e especialista em grego Frederico Lourenço5,6, da Universidade de Coimbra: “O Novo Testamento teria sido originalmente escrito em aramaico ou hebraico, ideia que, hoje, não tem lugar na discussão crítica sobre o Novo Testamento, em primeiro lugar porque não existem versões de nenhum livro do Novo Testamento em aramaico (ou hebraico); e, em segundo lugar, porque a bibliografia crítica moderna já demonstrou à saciedade que a escrita dos livros do Novo Testamento mostra a cada passo que o texto foi pensado em grego, com múltiplos efeitos semânticos que nascem do próprio vocabulário grego, propiciando não raro jogos de palavras que só funcionam mesmo em grego.”

Num mundo dinâmico e com pesquisas acadêmicas, livres de influências religiosas, torna-se imperiosa a constante atualização nos assuntos ligados à Bíblia que até há pouco eram um tabu intransponível.

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cristianismo nos séculos iniciais. Análise histórica e visão espírita. Cap. 2.4. Matão: O Clarim, 2018.

2) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Paulo e Estêvão. Brasília: Ed. FEB. 2012. 488p.

3) Eusébio de Cesareia, Bispo de Cesareia. Trad. Monjas Beneditinas do Mosteiro de Maria de Cristo. História eclesiástica. Coleção Patrística vol. 15. São Paulo: Paulus. 2014. 508p.

4) Champlin, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. Vol. 1 e 2. São Paulo: Hagnos. 2014.

5) Lourenço. Frederico. Novo Testamento: os quatro Evangelhos. Vol.1. São Paulo. Companhia das Letras. 2017.

6) Lourenço. Frederico. Novo Testamento: apóstolos, epístolas, apocalipse. Vol.2. São Paulo. Companhia das Letras. 2018.

7) Corbin, Alain (Org.); Lemaitre, Nicole; Thelamon, Françoise; Vincent, Catherine. Trad. Brandão, Eduardo. História do cristianismo: para compreender melhor nosso tempo. 1a Parte, cap. I e II. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

8) Blainey, Geoffrey. Trad. Capelo Traduções. Uma breve história do cristianismo. 1.ed. Cap. 3. São Paulo: Editora Fundamento Educacional. 2012.

Publicado em:

Revista Internacional de Espiritismo, Ano XCIV, N.6. Julho de 2019.

 

 

O filme Kardec e seus desafios

O filme Kardec e seus desafios 

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O filme “Kardec” desde meados de maio tem sido exibido em cinemas do país. Trata-se de película produzida por Eliana Soárez, dirigida por Wagner de Assis, que também atuou como um dos roteiristas, e se fundamenta no livro Kardec, de autoria de Marcel Souto Maior (Editora Record, 1ª edição em 2013)1.

Em páginas preliminares, o autor já dedicava a obra: “A Canuto Abreu, pioneiro na pesquisa e na divulgação da obra de Kardec no Brasil; a Wagner de Assis, aliado fundamental neste projeto, que enfrenta o desafio de transformar esta história em filme…” Wagner de Assis enfrentou o desafio e seis anos após o lançamento do livro de Souto Maior, disponibiliza um filme considerado pela crítica em geral como tecnicamente muito bem elaborado. É a oportunidade de se levar ao público em geral as informações sobre Kardec e suas lutas nos momentos iniciais de seu trabalho como Codificador. Tivemos muitos contatos com Wagner em momentos da filmagem do lançamento de “Nosso Lar”; depois em encontros no movimento espírita e assinatura do contrato para a filmagem de “Os Mensageiros”, quando estávamos na presidência da FEB.

O enredo do filme não atinge todo o conteúdo do livro de Souto Maior e isso nem seria possível. Avança-se até o lançamento de O livro dos médiuns e o Auto de Fé de Barcelona. Aliás, o livro de Souto Maior, num estilo jornalístico, focaliza toda a trajetória do Codificador e comenta detalhes interessantes sobre traições ao Codificador e algumas deturpações doutrinárias que ele comenta em Revista Espírita.

Para espíritas atentos, surgem algumas dúvidas sobre até que ponto foram “licenças poéticas”, ou melhor, “dramáticas” ou “cinematográficas”, algumas cenas que não condizem com o texto do livro de Souto Maior, e que não são conhecidas, como: alguns contatos de Kardec com prelados católicos; a prisão, como foi encenada; as manifestações defronte à casa da família Baudin; uma impactante cena de suicídio, e, as cenas dos “perseguidores” acompanhando Kardec. A questão de conceito de Espiritismo como filosofia ou religião, tratada no livro, e focalizada no filme, talvez merecesse uma análise na linha do tempo das obras do Codificador, até as reflexões contidas na Revista Espírita, do mês de dezembro de 1868.

Na atualidade, muitas das tradicionais biografias de Kardec, ficam na faixa de superficiais ou muito focalizadas em determinados aspectos.

Com a disponibilização de documentos e obras digitalizadas nas Bibliotecas e órgãos públicos franceses têm surgido muitas informações e registros significativos dos tempos de ação do Codificador e dos momentos seguintes à sua desencarnação. Assim, face a eventuais dúvidas que o filme possa gerar, nada melhor do que se aprofundar em pesquisas sobre a vida e obra de Allan Kardec, a começar pelo exame das edições da Revista Espírita do período em que foi dirigida pelo Codificador.

Muita atenção em torno dos documentos que agora estão vindo à tona e, sem dúvida, com o arsenal de manuscritos e cartas que estavam em poder da família de Canuto Abreu. Estes recentemente foram passados para a Fundação Espírita André Luiz, de São Paulo, que já desenvolve o Projeto “Cartas de Kardec” e deverá divulgar muitos fatos documentais sobre a vida e obra do Codificador.

Durante a exibição do filme foi lançado o livro Kardec. A história por trás do filme2, onde Wagner de Assis e Marcel Souto Maior fazem significativos depoimentos sobre o projeto e a execução do filme e apresentam suas visões sobre o Codificador. Wagner relata vários momentos da filmagem, mas não comenta as cenas que anotamos acima e que geram algumas dúvidas no meio espírita.

O filme “Kardec” deve provocar nos espíritas o desafio de se estudar mais o Codificador!

Referências:

1) Souto Maior, Marcel. Kardec. 1.ed. Rio de Janeiro: Record. 2013. 363p.

2) Assis, Wagner; Souto Maior, Marcel. Kardec. A história por trás do filme. 1.ed. Rio de Janeiro: Record. 2019. 138p.

 

Antonio Cesar Perri de Carvalho, ex-presidente da USE-SP e da FEB, foi membro da Comissão Executiva do CEI.

De:

Revista O CONSOLADOR: (copie e cole)

http://www.oconsolador.com.br/ano13/625/principal.html

Chico Xavier – 17 anos após a partida

Chico Xavier – 17 anos após a partida

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Passados 17 anos após sua desencarnação, ocorrida no dia 30 de junho de 2002, tivemos várias oportunidades para refletir sobre a vida e a obra de Chico Xavier. Principalmente em momentos recentes quando estávamos elaborando um livro sobre o vulto ímpar de nosso país.1

Relembramos desde os momentos iniciais de nossos contatos com o Espiritismo, quando no início da adolescência já acompanhávamos o lançamento de seus livros e da expectativa com cada livro de Emmanuel e de André Luiz que chegava ao Grupo de Estudos João Luiz dos Santos, que apesar de nossa idade precoce, participávamos ativamente em Araçatuba (SP). O Anuário Espírita 1964 (Ed.IDE) nos marcou muito principalmente por conter mensagem sobre Benedita Fernandes, notável vulto de Araçatuba, psicografada por Chico Xavier e de autoria do espírito Hilário Silva.1,2

Mais à frente acompanhamos as históricas entrevistas na TV Tupi, em 1968 e a série dos “Pinga Fogo”. A leitura de suas obras mediúnicas, desde nossa adolescência e as releituras continuadas sempre ensejam momentos de novas descobertas ou compreensões aprofundadas.

Em seguida, foram marcantes as visitas continuadas a Uberaba, algumas vezes ao ano durante mais de duas décadas, juntamente com a esposa, familiares e amigos. Significativos exemplos que presenciamos e os diálogos com Chico, onde sentimos seus exemplos de dedicação, simplicidade, humildade e amor ao próximo.

Em nossas atuações na USE-SP, na FEB e no CEI procuramos estimular a difusão e o estudo das obras psicografadas por Chico Xavier, como apoio à compreensão das Obras Básicas de Allan Kardec.

Sempre repetimos que Chico Xavier é um “divisor de águas” no movimento espírita brasileiro.

Nos preparativos e na execução do Projeto Centenário de Chico Xavier, conhecemos pessoas e locais relacionadas com o médium, em Pedro Leopoldo, Uberaba, São Paulo e Rio de Janeiro. E desses contatos nasceu o livro Depoimentos sobre Chico Xavier.3

Entre muitos fatos e casos interessantes conhecemos sobrinhos de Chico Xavier em Sabará (MG). Ali tivemos conhecimento de documentos, fotos apresentados pelos irmãos Sidália Xavier Silva e Paulo Pedro Pena.

Esses fatos ligados à família Xavier vieram à tona neste ano com o livro Chico Xavier – do calvário à redenção, de Carlos Alberto Braga Costa. Com base em farto material da citada sobrinha de Chico Xavier, filha de Maria da Conceição Xavier e de Jacy Pena, tem como personagem central a sua genitora, justamente a irmã que foi protagonista de situações que levaram o então jovem Chico Xavier a conhecer a Doutrina Espírita nos idos de maio de 1927. Como anotou o autor sobre a sobrinha de Chico: “Ela soube como poucos trazer de volta uma história bela, forte, pródiga de ensinamentos, e abundante de revelações sobre a realidade do Espírito imortal.”4

Em nosso livro sobre Chico Xavier relatamos sobre eventos realizados no Brasil e em vários países relacionados com a valorização da vida e da obra Chico Xavier; porém, o nosso livro tem um fio condutor, pois entendemos que se faz necessário um forte chamamento que emana da análise da vida e da obra de Chico Xavier, a saber: a valorização do estudo dos livros de Allan Kardec e de Chico Xavier; a coerência entre tais obras; a humildade e dedicação de Chico; a simplicidade do cristianismo primitivo como foi descrito nos romances históricos de Emmanuel; subsídios para se repensar o formalismo e alguns focos em aparências, vigentes na atualidade. Enfatizamos que Chico sempre colocou em prática a orientação inicial de seu orientador Emmanuel, à beira do açude de Pedro Leopoldo, de ser fiel a Jesus e a Kardec! Fazemos o reconhecimento da história de vida de um homem voltado ao bem, do “homem amor”!

Concluímos com a transcrição de frase proferida por Chico nos idos de 1977 e que reflete muito bem seu perfil: “Sou sempre um Chico Xavier lutando para criar um Chico Xavier renovado em Jesus e, pelo que vejo, está muito longe de aparecer como espero e preciso…”1

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier – o homem, a obra e as repercussões. Capivari/São Paulo: EME/USE-SP. 2019.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Benedita Fernandes. A dama da caridade. Araçatuba: Cocriação e USE Regional de Araçatuba. 2017.

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri; Melo, Oceano Vieira (Orgs). Depoimentos sobre Chico Xavier. Rio de Janeiro: FEB. 2010.

4) Costa, Carlos Alberto Braga. Chico Xavier – do calvário à redenção. 1.ed. Capivari: Ed. EME, 2019.

(*) – Foi presidente da USE-SP e da FEB, e, membro da Comissão Executiva do CEI.

A versão original de A Gênese

A versão original de A Gênese

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Em 2018 e 2019 transcorreram dois sesquicentenários, respectivamente, do lançamento de A Gênese, a última obra do Codificador, e, de sua desencarnação.

Embora existissem publicações antigas que apontavam para as deturpações na 5ª edição francesa de A Gênese lançada em 1872, mais de três anos após a desencarnação de Kardec, o assunto tomou vulto a partir de posições da Confederação Espírita Argentina, que editou em espanhol a 1ª. edição de A Gênese (de janeiro de 1868) e em outubro de 2017 levou informações para a reunião do Conselho Espírita Internacional, em Bogotá (Colômbia), e também lançou o livro El legado de Allan Kardec, de Simoni Privato Goidanich, que reúne documentos oficiais coletados em pesquisas junto aos Arquivos Nacionais da França e na Biblioteca Nacional da França, localizadas em Paris. Comprovou-se que apenas o exemplar da 1ª. edição de A Gênese (de janeiro de 1868), foi depositado legalmente durante a existência física de Allan Kardec na Biblioteca Nacional da França. Assim o Codificador não teria modificado o conteúdo.

As dúvidas sobre a fidedignidade das edições de A Gênese em francês, lançadas logo após a desencarnação do Codificador são antigas, apontando-se alterações de trechos de A Gênese naturalmente sob a responsabilidade de Pierre-Gaëtan Leymarie (1827-1901), como redator-chefe e diretor da "Revue Spirite", gerente da "Librairie Spirite" e presidente da “Sociedade para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec”, e que cuidava das edições das obras de Kardec, e, das autorizações para traduções, inclusive para o português. Episódios históricos ficam mais claros no livro Beaucoup de Lumière (1884), de Berthe Fropo, disponibilizado em 2017 em edição digital bilíngue. A autora foi espírita fiel a Kardec, amiga e vizinha de Amélie Boudet e comenta ações polêmicas e desvirtuamentos doutrinários nas mãos de Leymarie por influência de interpretações e ideologias outras…

Ainda no final de 2018, vieram a lume documentos e manuscritos franceses, publicados em artigo de Charles Kempf e Michel Buffet na edição do 4º. trimestre de 2018 da Revue Spirite e que comprovam adulterações em A Gênese após a desencarnação de Kardec.

As traduções para o português foram feitas a partir de edição francesa do ano de 1872, como as edições da FEB, da LAKE e do IDE. A exceção era a editora do Centro Espírita Léon Denis, do Rio Janeiro, que lançou há anos uma tradução da edição francesa de 1868. Além da já citada edição feita na Argentina, no ano de 2018 surgiram: pelo “Le Mouvement Spirite Francophone” (França), a 1ª. edição francesa de A Gênese; a tradução desta edição foi lançada em maio pela Fundação Espírita André Luiz em São Paulo e no final do ano a versão bilíngue histórica da FEB. A USE-SP lançou a versão em português de O Legado de Allan Kardec, de Simoni P.Goidanich. Nas adulterações constatadas na 5ª. edição francesa e suas traduções há desde pequenas alterações de pontuação e de palavras, alterações de frases e até supressão de itens inteiros. Em alguns casos, induz-se a interpretações doutrinárias contraditórias.

Os temas de A Gênese são oportunos para a atualidade e as polêmicas sobre as adulterações ensejaram que no seu sesquicentenário houvesse mais motivação para seu estudo no movimento espírita.

Passado um século e meio da desencarnação de Allan Kardec, ao lado da expansão do Espiritismo, há muitas “novidades”, “modismos” e “personalismos”, o que torna muito necessário o estudo e a difusão das Obras Básicas. Daí a importante “Campanha Comece pelo Começo”, idealizada por Merhy Seba, patrocinada pela USE-SP em meados dos anos 1970 e aprovada pelo CFN da FEB em novembro de 2014.

Interessante é que tanto tempo após a desencarnação de Kardec, recentemente estão sendo valorizados documentos, periódicos e livros franceses, quase desconhecidos no Brasil, que trazem esclarecimentos sobre episódios que ficaram ocultados ou obscurecidos sobre a vida de Kardec e sua esposa, e sobre a divulgação de suas obras imediatamente após sua desencarnação.

Em nosso país surge o início da divulgação de manuscritos e de documentos, o Projeto “Cartas de Kardec”, riquíssimo acervo que estava em poder da família de Silvino Canuto Abreu, finalmente doados à Fundação Espírita André Luiz, de São Paulo. 150 anos após a desencarnação de Kardec, a maior homenagem ao Codificador será sempre o estudo, a divulgação e prática do Espiritismo de conformidade com suas Obras Básicas.

(*) – Ex-presidente da USE-SP e da FEB; e ex-membro da Comissão Executiva do CEI.

DE: Revista Aurora. Ano 40. N.138. 2019. p. 36-37.

Fidelidade ao Codificador nas obras de Chico Xavier

Fidelidade ao Codificador nas obras de Chico Xavier

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

As obras psicográficas de Chico Xavier têm o grande valor de complementarem e/ou exemplificarem os textos da Codificação Kardequiana.

Aliás, há algumas décadas atrás quando alguns desavisados alardeavam que a obra de Kardec estaria superada pela oriúnda da psicografia de Francisco Cândido Xavier, a resposta veio clara e rápida. Ao ensejo das comemorações do centenário de lançamento das Obras Básicas, portanto na faixa de meados do século XX, o espírito Emmanuel escreveu livros que comentam os livros básicos de Kardec.

O orientador espiritual de Chico Xavier deixa claro seu propósito na apresentação de vários livros, a começar por Religião dos espíritos:

“Não temos, pois, outro objetivo que não seja demonstrar a nossa necessidade de estudo metódico da obra de Kardec, não só para lhe penetrarmos a essência redentora, como também para que lhe estendamos a grandeza em novas facetas do pensamento, na convicção de que outros companheiros de tarefa comparecerão à liça, suprindo-nos as deficiências naturais, com estudos mais altos dos temas renovadores trazidos ao mundo pelo apóstolo de Lião.”1

A propósito afirma no início de Seara dos médiuns:

“[…] nos empenhamos, é apenas o de encarecer o impositivo crescente do estudo sistematizado da obra de Allan Kardec – construção basilar da Doutrina Espírita, a que o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo oferece cobertura perfeita –, a fim de que mantenhamos o ensinamento espírita indene da superstição e do fanatismo que aparecem, fatalmente, em todas as fecundações de exotismo e fantasia.”2

A obra inaugural do Codificador foi o foco em Religião dos espíritos, onde Emmanuel destaca:

“[…] o primeiro livro da Codificação Kardequiana é manancial tão rico de valores morais para o caminho humano que bem pode ser considerado não apenas como revelação da Esfera Superior, mas igualmente como primeiro marco da Religião dos Espíritos, em bases de sabedoria e amor, a refletir o Evangelho”.1

O autor espiritual discorre sobre vários temas centrais focalizados em O livro dos espíritos. Na sequência vem a lume Seara dos médiuns e o citado autor adianta sua proposta:

“Esperando, pois, que outros seareiros venham à lide remediar-nos a imperfeição com interpretações e contribuições mais claras e mais eficientes em torno da palavra imperecível do grande Codificador, de vez que os campos da Ciência e da Filosofia, nos domínios doutrinários do Espiritismo, são continentes de trabalho a se perderem de vista, aqui ficamos em nossa tarefa de apagado expositor da Religião Espírita, que é a Religião do Evangelho do Cristo, para sublimação da inteligência e aprimoramento do coração.”2

Ou seja, Seara dos médiuns faz uma análise sobre a prática da mediunidade com base nos ensinos que emanam de Jesus.

Surge o livro que gravita “em torno de ‘O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO’, cujas consolações e raciocínios pretende palidamente refletir, não tem, outro objetivo senão convidar-nos ao estudo das sempre novas palavras de Cristo. Muitos homens doutos falaram, delas, através do tempo e alguns deles, decerto com a melhor intenção, alteraram-lhes, de algum modo, o sentido, para acomodá-las aos climas sociais e políticos em que vivem.”3

Logo após, o orientador espiritual de Chico Xavier elabora Justiça divina “em torno das instruções relacionadas no livro O Céu e o Inferno, valendo-nos das oitenta e duas reuniões públicas de estudo da Comunhão Espírita Cristã, em Uberaba, no decurso de 1961, dando continuidade à tarefa de consultar a essência religiosa da Codificação Kardequiana, com vistas à nossa própria responsabilidade, diante do Espiritismo, em sua feição de Cristianismo redivivo. Entregando, pois, estas páginas aos leitores amigos, não temos a presunção de inovar as diretrizes espíritas e sim o propósito sincero de reafirmar-lhes os conceitos, para facilitar-nos o entendimento, na certeza de que outros companheiros comparecerão no serviço interpretativo da palavra libertadora de Allan Kardec, suprindo-nos as deficiências no trato do assunto, com mais amplos recursos, em louvor da verdade, para a nossa própria edificação.”4

Nessa obra encontram-se belíssimas frases objetivas sobre as esperanças e consolações, sobre o futuro espiritual dos homens.

Embora não seja uma obra destinada a comentar A gênese – não analisada especificamente por Emmanuel -, muitos dos conteúdos da última obra de Kardec, notadamente sobre o perispírito, são tratados por André Luiz em Evolução em dois mundos.

Em seu início, à guisa de apresentação, comenta Emmanuel que o autor espiritual “espera tão somente encarecer que o espírito responsável, renascendo no arcabouço das células físicas, é mergulhado na carne, qual a imagem na câmara escura, em fotografia, recolhendo, por seus atos, nessa posição negativa, todos os característicos que lhe expressarão a figura exata, no banho de reações químicas efetuado pela morte, de que extrai a soma de experiências para a sua apresentação positiva na realidade maior. O Apóstolo Paulo, no versículo 44 do capítulo 15 de sua primeira epístola aos coríntios, asseverou, convincente: — ‘Semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual’. Nessa preciosa síntese, encontramos no verbo ‘semear’ a ideia da evolução filogenética do ser e, dentro dela, o corpo físico e o corpo espiritual como veículos da mente em sua peregrinação ascensional para Deus.”5

Além dos livros citados, específicos sobre temas das Obras Básicas da Codificação, há muitas outros que incluem dissertações de Emmanuel e de André Luiz fundamentadas em citações a Allan Kardec. No histórico encontro inicial de Chico Xavier com o espírito Emmanuel, nos idos de 1931, junto ao açude de Pedro Leopoldo, esta Entidade alertou-o sobre a disciplina e para que sempre permanecesse fiel a Jesus e a Kardec. Nas reuniões públicas do referido médium, em Pedro Leopoldo e em Uberaba, as leituras para nortearem os estudos eram sempre O livro dos espíritos e O evangelho segundo o espiritismo. Na sequência, os visitantes escolhidos por ele faziam comentários sobre tais obras.6

De nossa parte, entendemos como indispensável que sejam estimulados os estudos diretamente nas Obras Básicas, sem intermediação de apostilas, para que os interessados conheçam os textos na fonte e saibam manusear o livro.

Sem dúvida, são claros indicativos para a fundamentação das práticas espíritas de nossos dias: disciplina e fidelidade a Jesus e a Kardec!

Referências:

1) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Religião dos espíritos. FEB.

2) Idem, ibidem. Seara dos médiuns. FEB.

3) Idem, ibidem. Livro da esperança. CEC.

4) Idem, ibidem. Justiça divina. FEB.

5) Xavier, Francisco Cândido e Vieira, Waldo. Pelo espírito André Luiz. Evolução em dois mundos. FEB.

6) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier – o homem, a obra e as repercussões. EME/USE-SP.

(*) Ex-presidente da USE-SP e da FEB; ex-membro da Comissão Executiva do CEI.

Extraído de:

Revista Internacional de Espiritismo, Ano XCIV. N.5. Junho de 2019.p. 244-246.

O filme e o estudo da vida e obra de Kardec

O filme e o estudo da vida e obra de Kardec

 Cópia de litografia feita por Aug.Bertrand

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O filme “Kardec”, em exibição no Brasil, tecnicamente composto de forma primorosa foi produzido por Wagner de Assis e fundamenta-se no livro Kardec, de autoria de Marcel Souto Maior (Editora Record, 1ª edição em 2013).

Mas muitos ficam em dúvida sobre a veracidade de algumas cenas, ou se seriam enquadradas na chamada “licença cinematográfica”, e que inclusive não constam do livro básico para o enredo cinematográfico.

Além da biografia já citada, que não foi totalmente utilizada no enredo do filme, coincidentemente e independente de outras biografias tradicionalmente evocadas na literatura espírita, atualmente surgem muitos fatos e documentos que ampliam as informações biográficas do Codificador.

Embora existissem publicações antigas que apontavam para as deturpações na 5ª edição francesa de A Gênese lançada em 1872, mais de três anos após a desencarnação de Kardec, o assunto tomou vulto a partir de posições da Confederação Espírita Argentina, que editou em espanhol a 1ª. edição de A Gênese (de janeiro de 1868) e em outubro de 2017 levou informações para a reunião do Conselho Espírita Internacional, em Bogotá (Colômbia), e também lançou o livro El legado de Allan Kardec (**), de Simoni Privato Goidanich, que reúne documentos oficiais coletados em pesquisas junto aos Arquivos Nacionais da França e na Biblioteca Nacional da França, localizadas em Paris. Comprovou-se que apenas o exemplar da 1ª. edição de A Gênese (de janeiro de 1868), foi depositado legalmente durante a existência física de Allan Kardec na Biblioteca Nacional da França. Assim o Codificador não teria modificado o conteúdo.

Episódios históricos ficam mais claros no livro Beaucoup de Lumière (1884), de Berthe Fropo, disponibilizado em 2017 em edição digital bilíngue. A autora foi espírita fiel a Kardec, amiga e vizinha de Amélie Boudet e comenta ações polêmicas e desvirtuamentos doutrinários nas mãos de Leymarie por influência de interpretações e ideologias outras… Ainda no final de 2018, vieram a lume documentos e manuscritos franceses, publicados em artigo de Charles Kempf e Michel Buffet na edição do 4º. trimestre de 2018 da Revue Spirite e que comprovam adulterações em A Gênese após a desencarnação de Kardec.

Interessante é que tanto tempo após a desencarnação de Kardec, recentemente estão sendo valorizados documentos, periódicos e livros franceses, quase desconhecidos no Brasil, que trazem esclarecimentos sobre episódios que ficaram ocultados ou obscurecidos sobre a vida de Kardec e sua esposa, e sobre a divulgação de suas obras imediatamente após sua desencarnação.

Um Site riquíssimo de documentos franceses do Facebook: “Imagens e registros históricos do Espiritismo”, oferece dados até então não conhecidos, como a existência de uma irmã de Rivail, desencarnada na infância; a presença de uma jovem junto ao casal Rivail e Amélie, praticamente como se fosse uma “filha adotiva”, que também desencarnou na juventude; dados sobre a propriedade do casal na Villa Ségur; comprovações de adulteração de manuscrito de Kardec sobre A Gênese, posteriormente incluído em Obras Póstumas (1890); comprovação do nome verdadeiro da médium conhecida como Céline Japhet; documentos sobre a fundação da União Espírita Francesa.

Em nosso país surge o início da divulgação de manuscritos e de documentos, o Projeto “Cartas de Kardec”, riquíssimo acervo que estava em poder da família de Silvino Canuto Abreu, finalmente doados à Fundação Espírita André Luiz, de São Paulo.

O filme “Kardec”, gerando algumas dúvidas entre espectadores mais atentos, deve ser motivo de estímulo para se estudar a vida e a obra de Kardec, e, coincidentemente, em 2018 e 2019 transcorreram dois sesquicentenários, respectivamente, do lançamento de A Gênese, a última obra do Codificador, e, de sua desencarnação.

Daí, inclusive, a oportunidade de se valorizar a importante “Campanha Comece pelo Começo”, idealizada por Merhy Seba, patrocinada pela USE-SP em meados dos anos 1970 e aprovada pelo CFN da FEB em novembro de 2014.

(*) – Ex-presidente da USE-SP e da FEB; e ex-membro da Comissão Executiva do CEI.

(**) – Tradução em português editada pela USE-SP.

Paulo: “Leão de Deus” e cultivador do Evangelho

Paulo: “Leão de Deus” e cultivador do Evangelho

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Na história do Cristianismo há um vulto marcante: Agostinho de Hipona (Séc. IV-V), que enquanto jovem lutava contra suas fraquezas morais e sentindo-se com a consciência abalada pela sua situação, repentinamente escuta uma voz infantil que lhe dizia em latim: “Toma, lê…” Levantou-se e buscou um manuscrito da Epístola aos Romanos, que tocou profundamente a sua alma e que foi o toque decisivo para sua transformação e conversão.1

Tempos depois, Agostinho anotou, referindo-se a Paulo de Tarso: “Pois ele foi um verdadeiro leão vermelho, o grande leão de Deus”.1

A ação e as Epístolas de Paulo de Tarso mereceram comentários elogiosos do reformador João Calvino (Séc. XVI); de Lutero, líder reformista do século XVI; de autores católicos clássicos como Ernest Renan (Séc.XIX) e Daniel Rops (Séc. XX).1

Provavelmente Paulo seja o vulto cristão que seja objeto da maior quantidade de livros e de estudos. Na literatura espírita a monumental obra Paulo e Estêvão, do espírito Emmanuel, psicografia de Chico Xavier é a mais destacada e citada. Desta obra destacamos a definição do Autor Espiritual: “Paulo de Tarso foi um homem intrépido e sincero, caminhando entre as sombras do mundo, ao encontro do Mestre que se fizera ouvir nas encruzilhadas da sua vida.”2

As Epístolas de Paulo representam um marco de pioneirismo na literatura cristã. Recentemente, Frederico Lourenço, pesquisador e professor de Estudos Clássicos, Grego e Literatura Grega da Universidade de Coimbra, tradutor de várias obras a partir do grego e um dos grandes especialistas de nossa época sobre a Bíblia em versão grega, ratificou que quando Paulo foi sacrificado os únicos textos do Novo Testamento que já tinham sido escritos eram desse apóstolo. “[…] todos os demais textos foram escritos depois da morte de Paulo; nem sequer os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João tinham sido escritos.”Até então existiam “anotações”…

O apóstolo Paulo foi o maior divulgador e o principal consolidador do cristianismo. Concordamos com a opinião de muitos autores de que sem Paulo não teríamos o movimento cristão. Sempre fiel aos ensinos de Jesus, destemido e com perfil estoico, aliás influência filosófica que recebeu na infância em juventude na sua terra natal, de influência helênica. Todos esses fatos nos estimularam a elaborar uma obra simples e objetiva, com ênfase nos ensinos morais do Apóstolo: Epístolas de Paulo à luz do Espiritismo.4

Mas independentemente dessas questões, Paulo é foco de inúmeras homenagens e reconhecimentos no mundo. Eis algumas: a Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma, onde se encontram os restos mortais do Apóstolo no subterrâneo da mesma; a Catedral de São Paulo, em Londres, projetada pelo famoso arquiteto britânico Sir Christopher Wren (séc. XVII e XVIII) e que é sede do bispado de Londres, da Igreja Anglicana. Em nosso país, denomina a grande metrópole do Hemisfério Sul e o Estado de São Paulo, que foi objeto de mensagem de Emmanuel, psicografada por Chico Xavier, e, também de comentários deste ao receber o título de “Cidadão Paulistano” (1972).5 E a poucos metros do Pátio do Colégio que deu origem à cidade, há um monumento do Apóstolo, junto ao “marco zero”, na Praça da Sé em São Paulo.

Se Agostinho o designou de “leão de Deus”, Emmanuel define: “O convertido de Damasco foi o agricultor humano que conseguiu aclimatar a flor divina do Evangelho sobre o mundo.”4 Duas facetas típicas de Paulo de Tarso!

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. O grande leão de Deus. Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCIV. No. 2. Edição de março de 2019. P. 79-80.

2) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Paulo e Estêvão. Brasília: Ed. FEB. 2012. 488p.

3) Lourenço. Frederico. Novo Testamento: apóstolos, epístolas, apocalipse. Vol.1. São Paulo. Companhia das Letras. 2018. 609p.

4) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do espiritismo. 1.ed. Matão: O Clarim. 2016. 188p.

5) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier – o homem, a obra e as repercussões. Capivari/São Paulo: EME/USE-SP. 224p.

(*) – Foi presidente da USE-SP e da FEB.

Kardec no foco das câmeras

Kardec no foco das câmeras

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Chegou aos cinemas no dia 16 de maio o filme “Kardec”!

Com muita satisfação assistimos em tela de cinema o longa metragem “Kardec” e que precisa ser visto, começando pelos espíritas como ensejo para análises e reflexões oportunas sobre as relações com os fenômenos e com médiuns. Trata-se um filme sério, sem arroubos e com poucas “licenças cinematográficas”. Focaliza um momento crucial da mudança do prof. Rivail para Allan Kardec, e com pitadas bem humanas dele e de sua esposa Amélie Boudet, procurando superar as dificuldades e as dúvidas.

O filme mostra o professor Rivail, retratando algumas de suas ideias como educador e que, em seguida tenta entender as mensagens do além, que recebe através de diferentes médiuns. Cético, durante o século XIX, ele investiga os mistérios ocorrendo em Paris, procurando estabelecer um método para analisar os fenômenos, até se convencer da comunicabilidade dos espíritos e de assumir o pseudônimo Allan Kardec, com a publicação de O livro dos espíritos. Na realidade o filme registra uma parte inicial da trajetória do Codificador, desde os contatos com as “mesas girantes” até o aparecimento de O livro dos médiuns e o “Auto de Fé de Barcelona”, em 1861.

O filme tem grande qualidade técnica, com cenas e vestimentas aclimatadas ao glamour de Paris do Século XIX.

Baseia-se na excelente obra Kardec – a biografia escrita pelo jornalista Marcel Souto Maior (Editora Record, 2013), que conta a história do educador francês Hyppolite Léon Denizard Rivail e de sua atuação como Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita.

De matéria jornalística elucidativa e até didática de Fabiana Schiavon da Folha de São Paulo (São Paulo, 16/5/2019), destacamos a apreciação do autor do livro Marcel Souto Maior: “a história do longa levanta dois pontos relevantes sobre Kardec. A primeira se refere sobre o que faz um professor cético mudar de nome e de vida aos 53 anos para dar voz aos espíritos. O segundo momento é narração sobre a perseguição sofrida pelo escritor, dos adversários que ele teve de enfrentar, como a ciência, a igreja e a imprensa.” Na matéria citada o diretor Wagner Assis, que também foi diretor do filme “Nosso Lar”, comenta que “O filme apresenta um Kardec pouco conhecido e que é comumente visto como um médium ou homem místico, e dá o contexto do momento em que tudo isso aconteceu” e “a abordagem é mais do ser humano que o Codificador viveu”.

A cinebiografia sobre o Codificador tem o papel principal interpretado por Leonardo Medeiros e conta com o talento de bons atores: Sandra Corveloni, Guilherme Piva, Genézio de Barros, Guida Vianna, Júlia Konrad e Dalton Vigh. O filme “Kardec” é distribuído pela Sony.

Esperamos que o filme de boa qualidade técnica e de conteúdo sério e oportuno ao ser exibido em cinemas das várias regiões do país possa sensibilizar expectadores não espíritas e ratificamos registro da jornalista da Folha: “A expectativa dos produtores e de espíritas é que o filme alcance também o público cético. É importante que as pessoas saibam como começou a história do espiritismo e o fato de que Kardec começou esse trabalho já na fase madura dele e com uma formação acadêmica sólida.”

Como adendo informamos que se encontra em finalização de edição um outro trabalho cinematográfico focalizando o Codificador. Trata-se de “Em busca de Kardec”, numa modalidade diferente, de série e documental, produzido pela Lighthouse.

Os 150 anos da desencarnação de Allan Kardec estão sendo bem assinalados dentro e fora do movimento espírita!

(* – Ex-presidente da USE-SP e da FEB; ex-membro da Comissão Executiva do CEI). 

Concílios: significados e a visão espírita

Concílios: significados e a visão espírita

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Concílios são assembleias de autoridades eclesiásticas com o objetivo de discutir e deliberar sobre questões pastorais, de doutrina, fé e costumes. Os concílios nacionais e regionais envolvem o episcopado da área abrangida e os concílios ecumênicos são convocados pelo Papa e têm representação internacional; apenas 21 foram efetivados com estas características.1

Referido em Atos dos Apóstolos (15, 1-23) e por Paulo na Epístola aos Gálatas (2, 1-10), o concílio de Jerusalém é considerado o primeiro de todos os tempos. Os apóstolos se reuniram para tratar sobre a polêmica entre os judaizantes (judeus convertidos) e os gentios (não-judeus convertidos): ao se converterem ao cristianismo, os gentios teriam que adotar práticas da Lei Mosaica como a circuncisão? Foi convocado por Pedro e Tiago; Paulo teve importante posição não judaizante. Após a reunião, Pedro ficou em Jerusalém; Paulo, Barnabé, Judas (Barsabás) e Silas seguiram para Antioquia.1

Nos primeiros séculos ocorreram vários Concílios regionais, até para tratar das chamadas heresias, com punições a lideranças pioneiras como: Orígenes, Ário e Eusébio de Cesareia.2,3

O primeiro Concílio Ecumênico (ou universal) ocorreu em Niceia (atual Iznik, Turquia), convocado e acompanhado pelo imperador Constantino e presidido pelo bispo Ósio de Córdoba. Constantino foi instado pelos bispos para promover tal evento, objetivando-se a pacificação geral e a organização da Igreja, que já se tornara uma instituição de apoio ao Império Romano. A sessão de abertura no dia 20 de maio de 325, no palácio imperial de Niceia, foi presidida por Constantino. Este tinha o direito de intervir na assembleia e exerceu papel destacado até sua conclusão no dia 25 de julho, seguindo-se as celebrações pelos 25 anos de seu reinado. Foram rejeitadas as propostas de Ário sobre a natureza de Jesus, contrárias à “doutrina da Trindade” e julgaram encerradas as crises que perturbavam a paz eclesial. Surgiu a estrutura do governo eclesiástico, institucionalizando-se a Igreja Católica Apostólica Romana. Constantino conferiu validade de leis do Estado às decisões do Concílio. Compareceram 318 pessoas: bispos, diáconos e acólitos (auxiliar do diácono).1,2,3

Eusébio de Cesareia foi reabilitado, mantendo-se equidistante dos contendores Ário e Atanásio, mas após o Concílio voltou a apoiar Ário.1,2,3

O Cristianismo se expandiu nos Séculos III e IV, destacando-se em Alexandria, Antioquia e Roma, e depois Jerusalém e Constantinopla.3

Surge a tese do primado jurisdicional da Igreja de Roma. Alguns apontam Jerônimo (347-420) pela ideia, mas outros contestam pois este colocava o bispo de Roma em patamar de honra e autoridade na Igreja, sem estar acima dos demais.1

A propósito são oportunas as considerações de Emmanuel: “A igreja de Roma, que antes da criação oficial do Papado considerava-se a eleita de Jesus, ao arvorar-se em detentora das ordenações de Pedro, não perdia ensejos de firmar a sua injustificável primazia junto às suas congêneres de Antioquia, de Alexandria e dos demais grandes centros da época. Herdando os costumes romanos e suas disposições multisseculares, procurou um acordo com as doutrinas consideradas pagãs, pela posteridade, modificando as tradições puramente cristãs, adaptando textos, improvisando novidades injustificáveis e organizando, finalmente, o Catolicismo sobre os escombros da doutrina deturpada. […] Os primeiros dogmas Católicos saem, com força de lei, desse parlamento eclesiástico de 325. […] A união com o Estado era motivo para grandes espetáculos de riqueza e vaidade orgulhosa, em contraposição com os ensinos d'Aquele que não possuía uma pedra para repousar a cabeça dolorida.”4

Iniciam-se os concílios com “a inspiração de Deus para as conclusões de intermináveis debates. Não obstante, era evidente a presença de mandatários da política mundana forçando a vitória dos seus pontos de vista, das decisões de interesse dos mandatários políticos. […] o Reino de Deus, anunciado por Jesus, desaparecia do horizonte terreno”.5

O imperador Teodósio no 1º Concílio de Constantinopla (381 d.C.) fortaleceu a proposta que o bispo de Constantinopla teria primazia de honra após o bispo de Roma. No 2º Concílio de Constantinopla (553 d.C.), o imperador Justiniano e sua esposa Teodora decidiram proibir a crença na reencarnação pois a ideia de inferno eterno seria mais forte para se forçar as conversões.

Num salto temporal focalizamos o Grande Cisma do Ocidente ou Cisma Papal, a profunda crise da Igreja Católica (1378 a 1417). Preliminarmente, entre 1309 e 1377, o papado foi mudado para Avignon (França), sendo o Papa Clemente V levado forçadamente pelo rei francês Felipe IV. Seguiram-se pressões para que o papado retornasse a Roma e surgiram três pontífices simultâneos: Bento XIII (Avignon), Gregório XII (Roma) e o anti papa João XXII ou XXIII para alguns (Pisa).1 No auge da instabilidade religiosa e política da Igreja foi convocado o Concílio de Constança (1414-1418) com apoio de reinos e impérios, para solucionar a crise do papado. Em 1417 foram destituídos os três papas e foi eleito Martinho V, findando o Grande Cisma do Ocidente e retornando a sede do pontificado para Roma.1 Esta foi “a maior e mais relevante assembleia da baixa Idade Média”1. Ali foi condenado e sacrificado Jan Huss (1415), precursor do movimento reformista.

Com mais crises e como reação ao crescente movimento da Reforma, surge o Concílio de Trento (1545-1563), o mais prolongado da história da Igreja Católica, ao longo de cinco papados, e o que emitiu o maior número de decretos dogmáticos e reformas: criou o Index Librorum Prohibitorum; reorganizou a Inquisição; melhorou grau de eficiência dos papas: igreja romana e clerical; orientou os fervores populares; iniciou os tempos modernos com o catecismo e os pastores; na visão da Igreja, produziu resultados benéficos, duradouros e profundos sobre a fé e a disciplina.1

Com outro salto, chegamos ao Concílio Vaticano I (1869-1870), liderado por Pio IX, extremamente conservador e que combateu a Maçonaria, Espiritismo e muitos movimentos políticos. As posições defensivas não foram superadas porque o Papa se fixava nos “adversários de Deus” e que “tudo querem subverter”, gerando cisões, e alguns saíram antes de terminar. Superou o eurocentrismo e é considerado um evento de passagem entre os Concílios de Trento e o Vaticano II.1 Em 1870 Pio IX edita o decreto da infalibilidade papal, que assinalou a decadência e a ausência de autoridade do Vaticano, face a evolução científica, filosófica e religiosa da Humanidade.

O último Concílio, Vaticano II (1962-1965), convocado por João XXIII e concluído por Paulo VI, definiu novos rumos, com ênfase pastoral, sem imposição de normas rígidas e sanções disciplinares; reavivou o retorno às fontes primeiras do Cristianismo; surgiu a expressão e ação conhecida como “ecumenismo”.1

Para concluirmos essa síntese sobre alguns concílios cabem algumas reflexões espíritas. Deve-se evitar paixões e reprimendas, distanciando-se coma a compreensão da atualidade, do julgamento de episódios passados. Como espíritos reencarnados, é importante lembrarmos a origem humana das deturpações do cristianismo.2 Sobre isto considera Schutel: “[…] de conformidade com a parábola que lembra os maus obreiros que a devastam, nota-se que da semente lançada pelo Senhor, nenhuma se perdeu, e, a despeito do mau, trata dos servidores de que resultou o quase aniquilamento das vinhas…”6

Como reflexão para o movimento espírita, além das considerações de Emmanuel já transcritas, recorremos ao Codificador: "O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas“.7

Referências:

1) Alberigo, Giuseppe (Org.). Trad. Almeida, José Maria. História dos concílios ecumênicos. São Paulo: Paulus.

2) Eusébio de Cesareia. Trad. Monjas do Mosteiro de Maria de Cristo. História eclesiástica. Coleção Patrística vol. 15. São Paulo: Paulus.

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cristianismo nos séculos iniciais. Análise histórica e visão espírita. Matão: O Clarim.

4) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. A caminho da luz. Brasília: FEB.

5) Pires, José Herculano. Revisão do cristianismo. Cap.9. São Paulo: Paideia.

6) Schutel, Cairbar. O espírito do cristianismo. Cap. Prefácio. Matão: O Clarim.

7) Kardec, Allan. O Espiritismo é uma religião? Revista Espírita. Dezembro de 1868.

Nota da Redação: Antipapa é aquele que reclama o título de Papa e é elevado ao papado por trâmites não canônicos, em oposição a um Papa legitimamente eleito, ou durante algum período em que o título esteja vago.

(*) Ex-presidente da USE-SP e da FEB; ex-membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional.

***

Os 21 concílios ecumênicos da história da Igreja:

1. Niceia I – 20/5 a 25/7 de 325 Papa: Silvestre I (314-335)

2. Constantinopla I – maio a junho de 381 Papa: Dâmaso I (366-384)

3. Éfeso – 22/6 a 17/7 de 431 Papa: Celestino I (422-432)

4. Caledônia – 08/10 a 1/11 de 451 Papa: Leão I, O Grande (440-461)

5. Constantinopla II – 05/5 a 2/7 de 553 Papa: Virgílio (537-555)

6. Constantinopla III – 07/11 de 680 a 16/9 de 681 Papas: Ágato (678-681) e Leão II (682-683)

7. Niceia II – 24/9 a 23/10 de 787 Papa: Adriano I (772-795)

8. Constantinopla IV – 05/10 de 869 a 28/2 de 870 Papas: Nicolau I (858-867) e Adriano II (867-872)

9. Latrão I -18/3 a 06/4 de 1123 Papa: Calixto II (1119-1124)

10. Latrão II – abril de 1139 Papa: Inocêncio II (1130-1143)

11. Latrão III – 5 a 19 de março de 1179 Papa: Alexandre III (1159-1181)

12. Latrão IV – 11 a 30 de novembro de 1215 Papa: Inocêncio III (1198-1216)

13. Lyon I – 28/6 a 17/7 de 1245 Papa: Inocêncio IV (1243-1254)

14. Lyon II – 07/5 a 17/7 de 1274 Papa: Gregório X (1271-1276)

15. Vienne (França) – 16/10 de 1311 a 6/5 de 1312 Papa: Clemente V (1305-1314)

16. Constança – 5/11 de 1414 a 22/4 de 1418 Papas: situação de vários antipapas

17. Basileia-Ferrara-Florença – 1431-1445 Papa: Eugênio IV (1431-1447)

18. Latrão V – 10/5/1512 a 16/3/1517 Papas: Júlio II (1503-1413) e Leão X (1513-1521)

19. Trento – 13/12/1545 a 4/12/1563 (em três períodos) Papas: Paulo II (1534-1549); Júlio III (1550-1555) e Pio IV (1559-1565)

20. Vaticano I – 8/12/1869 a 18/7/1870 Papa: Pio IX (1846-1878)

21. Vaticano II – 11/10/1962 a 07/12/1965 Papas: João XXIII (1958-1963) e Paulo VI (1963-1978)

Extraído de: Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCIV. N. 4. Maio de 2019. P. 200-202.