Chico Xavier – 20 anos depois da “partida”

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Chico Xavier – 20 anos depois da “partida”

 

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Há 20 anos, no dia 30 de junho de 2002 desencarnava Chico Xavier, aos 92 anos de idade.

Nesse período de tempo ocorreram várias repercussões relacionadas com a vida e obra do médium. Há muitas homenagens e reconhecimentos significativos, mas é cabível a análise sobre como a experiência de vida e a profícua obra psicográfica de Chico Xavier vem sendo valorizados no ambiente do movimento espírita

Com esse propósito, escolhemos as cinco palavras-chave que o caracterizam e que foram utilizadas durante as comemorações de seu Centenário de nascimento: espírito, saber, fé, caridade e amor. Destacamos como estudioso de sua obra e o testemunho dos inúmeros contatos pessoais que tivemos com o médium Essas palavras estão presentes no conteúdo dos livros e se concretizaram em ações durante a vida de Chico Xavier. Portanto, são fontes de inspiração e de roteiro para nossas trajetórias de vida.

A vertente simbolizada por “espírito” é a marca registrada das ações do missionário que atuou como intermediário de entidades desencarnadas durante toda sua vida. Além dos fatos sobre identidade de espíritos registrados em livros, inúmeras pessoas ao visitarem o médium, ficaram surpresas e convencidas com informações sobre entidades desencarnadas com elas relacionadas.

Em função dessa continuada interexistência entre as dimensões espirituais e do mundo corporal, brotou uma sabedoria diferente com a atuação de Chico Xavier. Isso porque o seu saber não era fruto do estudo formal e muito menos acadêmico porque ele apenas completou apenas o ciclo das então chamadas quatro séries primárias. Nas manifestações psicográficas e psicofônicas, em diálogos e entrevistas públicas, surgiam apreciações em diversos estilos – poemas, romances, contos e dissertações -, focalizando temas variados e profundos do conhecimento humano.

Em autênticas situações de testes ele sempre demonstrou confiança, fé e a busca pelo caminho do bem. Indiscutivelmente era um autêntico homem de fé! E seus conselhos e os livros mediúnicos representam um rico repositório de valorização da fé.

Desde os tempos de sua juventude em Pedro Leopoldo até o final da existência física em Uberaba, a caridade foi uma prática persistente de Chico Xavier. As chamadas peregrinações eram a materialização da caridade material e espiritual. Além disso, no silêncio de muitas noites Chico visitava lares necessitados.

Praticamente coroando o vasto significado das palavras-chaves que já destacamos, surge a quinta: amor. A essa altura lembramos da palavra grega “ágape” que significa amor que se doa, amor incondicional e o amor que se entrega.

Exatamente isso que caracterizou a vida longa e profícua de Chico Xavier. Ele operacionalizou o amor com a prática da caridade, a vivência da fé, empregando a valorização do saber espiritual e a certeza inconteste da vida imortal.

(Publicado no jornal Folha da Região, de Araçatuba, dia 29/06/2022)

Síntese de artigo do autor em Revista Internacional de Espiritismo, junho de 2022, matéria de capa.

Exposições sobre cura e arte, Benedita Fernandes e Bezerra de Menezes

Exposições sobre cura e arte, Benedita Fernandes e Bezerra de Menezes

     

Antonio Cesar Perri de Carvalho

No mês de junho ocorreram duas inaugurações de mostras significativas para o público.

No dia 21 de junho foi aberta “A exposição “Diálogos de Corpo e Alma”, os caminhos da cura através da Arte, no Centro Cultural dos Correios em São Paulo. A exposição tem como propósito abordar a questão da cura através da arte, da espiritualidade e da ciência com diversos artistas e seus trabalhos, que vão desde a pintura, escultura, instalações e videoarte.

A mostra se expande através de salas temáticas que apresentarão diferentes caminhos da cura. Essa exposição de São Paulo contém material sobre vida e obra de Benedita Fernandes, inclusive uma montagem da casa de madeira que original os atendimentos pioneiros da seareira em Araçatuba (SP). Sirlei Nogueira, de Araçatuba, esteve presente na abertura da Exposição.

Esse espaço público sobre a cura através da ciência enfatiza o trabalho do Dr. Sérgio Felipe de Oliveira, renomado médico e pesquisador, estudioso da glândula pineal. A criadora da exposição é a artista plástica Lesiane Lazzarotti Ogg, que vem desde 2013 realizando coletivas como o Arte Alerta e o Pintar para imortalizar.

No dia 22 de junho foi inaugurado o Memorial Bezerra de Menezes, em Fortaleza, ocupando temporariamente, um dos castelos da Praça Luíza Távora, em convênio com a Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS), do Estado Ceará.

Considerado um dos mais ilustres brasileiros do Século XIX, o “Médico dos pobres”, cearense nascido no antigo Riacho do Sangue, tem agora um espaço para celebrar a sua memória – o Mebem, ideia que ganhou força com o lançamento, em novembro/2021, do livro “Bezerra de Menezes – O homem, seu tempo e sua missão”, do historiador Luciano Klein, também presidente da Federação Espírita do Estado do Ceará.

O Memorial Bezerra de Menezes está voltado à preservação e propagação de informações históricas sobre a vida e o legado do cearense Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcante. Ali estarão abrigados documentos e fotografias inéditos, objetos pessoais e demais acessórios constantes, em sua maior parte, da obra recém-lançada por Luciano Klein, de cerca de 1.200 páginas, e já um sucesso editorial no Brasil que Bezerra ajudou a desenvolver nos tempos do Império.

Um memorial para promover a Paz e o Bem na cidade. É um espaço de acolhimento onde se respirará a arte e a cultura – espírita e não-espírita. Ali estará também uma sucursal da Livraria Sinal Verde, da Federação Espírita do Estado do Ceará (FEEC), com obras de caráter espiritista e espiritualista.

Fundado em 02 de setembro de 2021, o Memorial Bezerra de Menezes é uma associação civil sem fins econômicos, de personalidade jurídica, tendo por finalidades “promover e estimular, de forma democrática, a cultura e a pesquisa espírita nos aspectos histórico, filosófico, científico e religioso, por meio de palestras, conferências, simpósios, seminários, congressos, exposições”, albergando inciativas convergentes com a paz, o bem comum, o bem-estar da gente.

Na solenidade de inauguração da sede do MEBEM ocorreram apresentações musicais; fala de autoridades; visita guiada; palavras de Luciano Klein sobre seu livro recém lançado sobre Bezerra de Menezes; recital de poesias e exibição de documentário inédito de Bezerra de Menezes na Sala de Cinema.

Duas mostras importantes. Interessante é que a vida e obra de Benedita Fernandes, as pesquisas e trabalhos do dr. Sérgio Felipe estão relacionados com o livro magistral de autoria de Bezerra de Menezes: “A loucura sob novo prisma”, edição FEB.

O boticário que se tornou um dos maiores intelectuais espíritas do Brasil

O boticário que se tornou um dos maiores intelectuais espíritas do Brasil

Juliana Sayuri – Do TAB, em Matão (SP) 08/06/2022.

Entre os ladrilhos lascados e desbotados pelo tempo, ainda dá para ler na esquina entre a rua Rui Barbosa e a avenida 28 de Agosto: Pharmacia Schutel. Hoje, o endereço abriga uma Multidrogas, drogaria multicolorida e marcada por um cartaz colossal "aqui tem farmácia popular" como chamariz.

Mas quando Cairbar Schutel (1868-1938) chegou ali, era tudo mato, literalmente. Era, dizia-se na rádio, "um pequenino vilarejo, cercado de gragoatãs, guabirobas, indaiás, joás, ingás, marias-pretas, ariticuns, cobras, onças, macacos e mata virgem, com perobeiras, jequitibás, embaúbas, cabreúvas, paus d'alho, cedros, jacarandás e uma imensidade de árvores seculares, servindo de trono às aves canoras, no despertar das madrugadas e cerrar das Aves-Marias". Era assim a vila do Senhor Bom Jesus das Palmeiras, a atual cidade de Matão, no interior de São Paulo.

Schutel, um jovem farmacêutico carioca, saiu do Rio de Janeiro em busca de ares mais tranquilos — e mais distantes da tuberculose, a infecção que rondava a capital à época. Passou por Piracicaba, Itápolis e Araraquara até se instalar no vilarejo, em 1895. Ele abriu a farmácia de esquina no centro da vila.

Ao redor, construiu casinhas de madeira para abrigar hansenianos (à época estigmatizados como "leprosos") e internos (tidos como "loucos" por outras instituições). "Tratava todo mundo, inclusive quem não tinha condições de pagar", conta Lúcia Helena Marchesan, 67, no endereço onde um dia viveu o boticário que ficou conhecido como "o pai dos pobres de Matão". Lúcia é quem hoje abre as portas da construção centenária, que foi convertida no Memorial Cairbar Schutel no fim de 2013. Fechado devido à pandemia de covid-19, o memorial reabriu recentemente a visitantes, mediante agendamento prévio.

A poucos passos da farmácia, a casa amarela abriga antigos frascos de remédio, fotografias, documentos oficiais da cidade, panfletos, uma Bíblia rara de 1832, uma caderneta de identidade da Associação Paulista de Imprensa, uma máquina de escrever Royal 10, livros que o carioca escreveu e cartas que trocou com intelectuais ingleses e franceses interessados em fenômenos espíritas.

O acervo dá pistas das diferentes facetas de Schutel: além de farmacêutico, foi um dos responsáveis por elevar o vilarejo à condição de cidade, em 1898, e ocupou o cargo de intendente de Matão (o equivalente a prefeito nos dias atuais); católico, abraçou o espiritismo e se tornou um de seus maiores propagadores, às vezes tratado como "bandeirante" espírita: fundou o Centro Espírita Amantes da Pobreza e o jornal O Clarim em 1905, ajudou a construir o Hospital de Caridade em 1913, iniciou a Revista Internacional de Espiritismo em 1925 e fez conferências de rádio sobre a religião na década de 1930.

'Amantes da pobreza'

"Cairbar foi pioneiro", diz Cássio Leonardo Carrara, 34, autor de "O Som da Nova Era", livro-reportagem que trata da trajetória do jornal mensal O Clarim. De Mineiros do Tietê (SP), Cássio cresceu ouvindo as histórias de Schutel na sua família, espírita desde os tempos de seu bisavô. "Lembro de meu pai lendo 'E, para o resto da vida' [livro de Wallace Leal Valentin Rodrigues] para nós, lembro da revista e d'O Clarim entregue em casa", conta. Cássio se mudou para Matão na adolescência e depois cursou jornalismo na Uniara (Universidade de Araraquara), campus a 30 km dali. Desde 2011 trabalha como jornalista na Casa Editora O Clarim, que até hoje publica o jornal O Clarim e a Revista Internacional de Espiritismo — eles não divulgam a tiragem. A edição de junho da revista, por exemplo, discute como conflitos íntimos impactam na sociedade através da intolerância e da violência. "Cairbar é uma referência intelectual. O espiritismo não tem estrutura hierárquica, não tem líder", diz o escritor.

Antes dele, quem por muito tempo liderou a produção foi o editor Apparecido Belvedere, 94, atualmente afastado por motivos de saúde. Na juventude, Belvedere frequentava o Centro Espírita Cairbar Schutel no Itaim Bibi, na zona sul da capital paulista, e visitava Matão todo agosto, mês de aniversário d'O Clarim. Na década de 1970, mudou-se para lá e, até pouco tempo, fazia trabalho voluntário na editora.

"Tudo é voluntário", diz Lúcia Marchesan, atual vice-presidente da casa, que busca se manter com a venda de livros e assinaturas, além de doações.

A certo ponto, conta Cássio Carrara no livro "O Som da Nova Era", o Centro Espírita Amantes da Pobreza não inspirava muita confiança em bancos e empresas — "se são amantes da pobreza, talvez acabem não tendo como honrar seus compromissos conosco", pensava-se. Na verdade, a expressão queria dizer amor aos pobres, a caridade com quem necessita, devido a pobreza não só material, mas intelectual, sentimental e de espírito. Dada a confusão, decidiu-se em 2003 rebatizar a instituição como Centro Espírita O Clarim.

Debaixo do guarda-chuva do centro estão a Casa Editora O Clarim e o Memorial Cairbar Schutel. O centro possui um auditório com bancos de madeira cedidos pelo antigo cinema da cidade, uma livraria e salas para reuniões mediúnicas, estudos e evangelização, frequentadas por cerca de 30 pessoas. A editora corresponde a uma pequena redação — em 2010, os dirigentes decidiram desmontar o parque gráfico e terceirizar a impressão, pois o maquinário já estava defasado e seria caro demais modernizá-lo.

'Sou imortal'

Mário de Andrade (1893-1945) escreveu o manuscrito de "Macunaíma" na chácara Sapucaia, na cidade de Araraquara, em 1926. Na época, o autor modernista visitou Matão. "Quando por lá passou, foi à farmácia e visitou as instalações da gráfica do jornal O Clarim, e parece não ter desgostado daquela que descreveu como 'cidadezinha progressista'", contou no Facebook o crítico literário Paulo Franchetti, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). A farmácia foi um ponto de encontro intelectual e cultural da cidade, considera o crítico matonense.

Após a morte de Cairbar Schutel, a drogaria passou para Alberto Benassi, conhecido como Seu Albertinho, que por muito tempo preservou a estrutura tal qual a original do boticário, com armários e balcões de madeira. Seu Albertinho faleceu recentemente e no endereço se instalou uma filial da franquia Multidrogas.

Foi nos tempos de farmácia que Schutel se tornou espírita, enquanto buscava respostas sobre seus sonhos: órfão na infância, o jovem farmacêutico vinha sonhando constantemente com os pais. Primeiro procurou um padre, que lhe sugeriu deixar a história do além pra lá. Passou então a buscar outras fontes de informação, juntando-se a amigos em sessões de tiptologia, experiência que os espíritas realizam com mesas giratórias. Para espíritas, a morte não é o fim: todos teríamos vidas passadas e as reencarnações seriam oportunidades para melhorarmos, evoluirmos.

A inspiração vem do autor francês Allan Kardec (1804-1869), que "codificou" O Livro dos Espíritos, em 1857 — 18 de abril, data de lançamento do livro, foi escolhido como Dia Nacional do Espiritismo, instituído pelo Congresso e publicado no Diário Oficial de 31 de maio. No Brasil vive o maior contingente de espíritas kardecistas do mundo, com cerca de 3,8 milhões de adeptos, segundo os dados mais recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Cairbar Schutel foi enterrado no cemitério de Matão. "Vivi, vivo e viverei, porque sou imortal", diz sua lápide. A frase teria sido ditada pelo editor e psicografada pelo médium paulista Urbano de Assis Xavier (1912-1959), seu discípulo. Do lado "de lá" é difícil dizer, mas do de cá sobreviveu seu legado: influente até hoje, ele dá nome a diversos centros espíritas, hospitais, centros de assistência, abrigos, avenidas e ruas Brasil afora.

Veja mais em (copie e cole):

https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2022/06/08/o-boticario-que-se-tornou-um-dos-maiores-intelectuais-espiritas-do-brasil.htm?cmpid=copiaecola

Histórico reinado contemporâneo

Histórico reinado contemporâneo

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Para aqueles que nos conhecem mais de perto não seria estranho lerem texto nosso sobre fatos do Reino Unido.

Ao ensejo das comemorações dos 70 anos de reinado de Elizabeth II e sendo contemporâneo de todo período, tivemos o ímpeto de registrar algumas observações relacionadas com a monarca e seu Reino.

Interessante que precocemente despertamos nossa atenção pelo vulto marcante e seu país. Em nossa infância em São Paulo assistimos um documentário que nos marcou, sobre a viagem efetivada no ano de 1954 pela rainha Elizabeth e o príncipe Philip a vários países da Commonwealth a bordo do iate real Britannia.1 Mais à frente no contexto familiar dispúnhamos de muitas referências sobre o Reino Unido.

E para lá aconteceu nossa primeira viagem internacional nos idos de 1971. Seguiram-se muitas outras ao longo de cinco décadas, com registros indeléveis sobre momentos familiares e focos em assuntos sobre saúde, educação, espiritualismo e espiritismo, que estão registrados em obra sobre nossas experiências de vida.1 No retorno de uma dessas viagens iniciais publicamos um de nossos primeiros artigos espíritas relacionado com ações no exterior2.

Um de nossos livros Os sábios e a sra. Piper. Provas da comunicabilidade dos espíritos3, publicado em 1986, é uma resultante das buscas de informações que efetivamos em viagens à Inglaterra. Nesse país, houve a primeira comissão oficial, designada pela Rainha Vitória, com a finalidade de pesquisar fenômenos, e que assinalou o início da chamada “ciência psíquica”, com marcante atuação do cientista Sir William Crookes, e gerou a criação da Sociedade para Pesquisas Psíquicas, fundada em Londres, no ano de 1882, seguida de publicações de livros e revistas especializadas. Destacamos que o conhecido literato Arthur Conan Doyle publicou a obra The history of spiritualism (1926).3

Nosso interesse e curiosidade pela história da Inglaterra e de seus dirigentes sempre foi constante, envolvendo várias áreas.

Com respeito e admiração conhecemos Janet Duncan, presidente do Allan Kardec Study Group de Londres, em Congresso Internacional de Espiritismo, realizado em Brasília no ano de 1989. A partir daí seguiram-se muitos contatos, pois Janet veio a ser uma das fundadoras do Conselho Espírita Internacional. Num de nossos diálogos, ela nos confidenciou que, como jovem (nasceu em 1928) ela viveu os momentos terríveis da 2a Grande Guerra e os efeitos dos bombardeios aéreos praticados pelo regime nazista em Londres e outras cidades de seu país. Em maio de 1945 ela participou exultante com familiares das comemorações do final da Guerra, sendo inesquecível a cena que ela assistiu do aparecimento do Rei Jorge VI, com a esposa e filhas Elizabeth e Margareth, e Winston Churchill, na sacada do Palácio de Buckingham.1

Aliás, a então princesa Elizabeth, prestando serviço ao Exército britânico acompanhou os horrores dos bombardeios que atingiram até uma parte do Palácio real.

Além de Janet conhecemos vários líderes espíritas radicados na Inglaterra. Nessas décadas surgiram algumas visitas a locais históricos e ações nossas junto a vários grupos espíritas de Londres.

Ao completar 70 anos como rainha, na realidade Elizabeth é a monarca com maior tempo efetivo de reinado. O rei francês Luís XIV teve um reinado de 72 anos, oficialmente computados a partir da morte de seu pai, mas durante os 13 anos de sua minoridade, a sua mãe foi a regente.

Portanto, mesmo a distância, como contemporâneo ao reinado de Elizabeth II, admiramos a maneira equilibrada e prudente que ela sempre se comportou. A Rainha soube superar momentos pessoais e institucionais de grandes transformações e graves. Apenas procurando conhecer algumas realidades do Reino Unido e de seu povo é que compreendemos a permanência da monarquia até nossos dias. Notadamente sobre o papel e repercussões da Família Real, chamada de “Firma”, no aporte de recursos financeiros e na estabilidade política para o país. É uma autêntica Chefe de Estado, mantendo a rotina administrativa mesmo com a idade de 96 anos, e, em decorrência goza de grande prestígio e do apoio da grande maioria do povo britânico.

Evidentemente que na história britânica há muitos fatos complicados, alguns típicos dos contextos de épocas, mas há marcas benéficas e de progresso em várias áreas, vinculadas, por exemplo: reforma religiosa, instituição do parlamentarismo, revolução industrial, defesa do mundo livre durante a 2ª Guerra Mundial, decolonização, equilíbrio social mais adequado e um incrível desenvolvimento cultural e científico.

Pela psicografia de Chico Xavier, o espírito Emmanuel comenta que o “instinto democrático da Inglaterra e da França, bem como as suas elevadas obras de socialização” e assinala que os dois países prepararam-se “para a grande missão democrática que o Cristo lhes conferira”.4

Essas observações registradas por ocasião das comemorações do Jubileu de Platina do reinado de Elizabeth II revelam a nossa ótica pessoal sobre um autêntico “período elisabetano” e a nossa admiração pela Rainha. Sem dúvida, há várias nuances a serem analisadas, preferencialmente, sem o calor de posições apaixonadas.

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Pelos caminhos da vida. Memórias e reflexões. Capítulos 2.3, 2.7, 3.11, 3.19. Araçatuba: Cocriação. 2021.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Anotações de viagem. Revista internacional de espiritismo. Dezembro de 1973, p.327-330.

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Os sábios e a sra. Piper. Provas da comunicabilidade dos espíritos. Matão: O Clarim. 1986. 178p.

4) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. A caminho da luz. 38ª ed. Cap. XIII e XX. Brasília: FEB. 2013.

75 anos da USE-SP – marcos históricos e relevância

75 anos da USE-SP – marcos históricos e relevância

        

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O dia 05 de junho assinala a data em que foi fundada a União Social Espírita, no ano de 1947, a atual União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo.

A origem da USE-SP já foi inédita, pois surgiu como decisão do 1o Congresso Espírita do Estado de São Paulo, realizado na capital paulista, com a representação de 551 instituições, incluindo dez mocidades espíritas autônomas. A proposta da criação da USE e de sua estrutura foi a vencedora entre 34 teses apresentadas, definindo a união de quatro entidades já existentes e que se propunham a realizar trabalho federativo. É a única federativa estadual do Brasil que surge com base em decisão de Congresso Estadual.1,2

Também assinala pioneirismo, a estrutura descentralizada, com organização em órgãos municipais e regionais, criando uma estrutura em rede, e a representatividade de centros espíritas. Isto é a USE-SP é constituída na sua base de associados pessoas jurídicas, fazendo juz ao seu nome porque reúne sociedades espíritas. A diretoria executiva é eleita pelo Conselho Deliberativo Estadual, previamente constituído em Assembleia Geral de representantes de centros espíritas.1,3,4

O entusiasmo da época de sua fundação levou-a à atuação nos preparativos e na realização do marcante 1o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita (São Paulo, 1948)5, e, nas tratativas que redundaram na assinatura do “Pacto Áureo” com a FEB (outubro de 1949). Desse acordo desdobrou-se a instalação do Conselho Federativo Nacional da FEB (janeiro de 1950) e a “Caravana da Fraternidade” (outubro e novembro de 1950).1,2,4,6

Ao longo de sua existência USE sempre estimulou a união dos espíritas, com base no estudo e difusão das obras de Allan Kardec. O livro USE – 50 anos de unificação, de autoria de Eduardo Carvalho Monteiro e Natalino D’Olivo1 teve sua gênese quando a USE, por seus presidentes, nós e Atílio Campanini, incentivamos a elaboração de um livro histórico, o qual integraria as futuras comemorações do cinquentenário de fundação da instituição. Lançado durante o X Congresso Estadual de Espiritismo da USE (São Paulo, 1997), o livro do cinquentenário da USE, focaliza a instituição modelar quanto à sua origem democrática (resultou da decisão de dirigentes de centros espíritas e nesse particular constitui experiência única e pioneira no Brasil) possui, entre seus méritos, o fato de reunir documentos importantes sobre sua história institucional no Estado de São Paulo e no Brasil.

Desde meados do século XX, as mocidades espíritas tiveram intensa e participativa atuação junto à USE-SP. Em 1956 já surgia um evento regional, a Concentração de Mocidades Espíritas da Noroeste do Estado de São Paulo (COMENOESP), depois seguida pela região Nordeste e outras regiões do Estado. Esse ativo movimento ofereceu condições para que a cidade de Marília sediasse a 1a Confraternização de Mocidades e Juventudes Espíritas do Brasil (COMJEB), em abril de 1965. E, em abril de 1967, a USE-SP promoveu seu evento estadual, a 1a Confraternização de Mocidades e Juventudes do Estado de São Paulo (COMJESP). Tivemos a honra de participar dos eventos pioneiros citados, o nacional e o estadual.1,2,4

Foram presidentes da USE-SP: Edgard Pereira Armond – 1947/1950; Francisco Carlos de Castro Neves – 1950/1952; Luiz Monteiro de Barros – 1952/1958; 1970/1974; Carlos Jordão da Silva – 1958/1970; Nestor João Masotti – 1974/1982; Antonio Schilliró – 1982/1986; Nedyr Mendes da Rocha: 1986/1990; Antonio Cesar Perri de Carvalho – 1990/1994; 1997/2000; Attílio Campanini – 1994/1997; 2000/2006; José Antonio Luiz Balieiro – 2006 a 2012; Júlia Nezu de Oliveira – 2012/2018; Aparecido José Orlando – 2018/2021. Atualmente, desde 2021, é Rosana Amado Gaspar.2,4

Cabe o destaque que um integrante de órgão da USE foi vice-presidente da FEB e dois ex-presidentes da USE foram presidentes da FEB.6

Em Roda de Conversa em Homenagem aos 75 anos da USE SP, realizada em transmissão ao vivo no dia 14 de maio de 2022, Marco Milani coordenou uma entrevista com os ex-presidentes Cesar Perri, Júlia Nezu e Aparecido J. Orlando, e, a atual presidente Rosana Gaspar. Os quatro dirigentes entrevistados comentaram as questões: Qual foi o maior desafio que você enfrentou na gestão? Qual é a relevância da USE para o movimento espírita paulista? Como vê o futuro da USE no movimento espírita? Esse evento histórico foi transmitido ao vivo pelos canais do YouTube e Facebook da USE SP.7

Na citada Roda de Conversa, atendendo às questões formuladas destacamos algumas ações nos momentos em que estávamos na condição de gestor da instituição, como: a criação do jornal Dirigente Espírita; a ênfase à Editora da USE, com mais de 30 publicações na década de 1990; participação em Bienais Livro; elaboração de novo Estatuto que unificou a sigla USE em todos os órgãos; estímulo a temas e ações sobre centro espírita e dirigentes, tendo como marco inicial o 8o Congresso Estadual de Espiritismo em 1992; apoio à Campanha Comece pelo Começo; eventos sobre educação e a proposta para a Campanha Viver em Família, aprovada pelo CFN da FEB em novembro de 1993; característica de união com autonomia, expressa em vários momentos, como: no artigo “Pragmatismo na unificação”, publicado em Dirigente Espírita (agosto de 1991); na proposta da USE de moção de apoio das Instituições que integram o Conselho Federativo Nacional, com base nas obras de Kardec e vislumbrando a dinamização do CFN, que foi aprovada por unanimidade na Reunião do CFN em 09 de novembro de 1997 (Reformador, edição de dezembro de 1997); e no Acordo de União com várias instituições paulistas em maio de 2000, que ofereceu condições para a realização do Encontro Espírita do Estado de São Paulo – ENCOESP, no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, nos dias 19 a 21 de janeiro de 2001.4,6,7

À vista das experiências marcantes vividas pela USE-SP, várias delas pioneiras e inéditas, passamos a comentar sobre a relevância da USE para o movimento espírita. Sinteticamente enumeramos alguns fatos, como a já lembrada origem em Congresso deliberativo (1947); estatuto com base na representatividade de centros (pessoas jurídicas); ação em rede e não hierarquizada; destaca atuação na preparação e realização do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita (1948); as propostas de campanhas como Comece pelo Começo, que completa 50 anos, e a Viver em Família; início de ações de orientação ao dirigente espírita; valorização do Conselho Deliberativo Estadual, integrado por representantes de todas regiões do Estado; limites para recondução em cargos diretivos (desde o Estatuto aprovado durante nossa gestão).6,7

Ao ensejo dos 75 anos da USE-SP, além do respeito e valorização dos esforços pelas experiências empreendidas, entendemos que atualmente há uma responsabilidade muito grande, um autêntico desafio, no sentido de se estimular a adequação e a dinamização do movimento espírita, no contexto da sociedade multicultural, multicêntrica e midiática de nossos dias.

Referências:

1) Anais do 1o Congresso Espírita do Estado de São Paulo. Edição digital: https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2020/07/1947-Anais-1.pdf;

2) Monteiro, Eduardo Carvalho; D’Olivo, Natalino. USE – 50 anos de unificação. São Paulo: USE. 1997.

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Centro espírita. Prática espírita e cristã. São Paulo: USE. 2016.

4) Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? Capivari: EME. 2018.

5) Anais do 1o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita. Edição digital: https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2020/02/anais_1_congresso.pdf;

6) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Pelos caminhos da vida. Memórias e reflexões. Araçatuba: Cocriação. 2021.

7) Roda de Conversa em Homenagem aos 75 anos da USE SP – Link: https://www.youtube.com/watch?v=erZtNzXOs8s;

Pesquisa aponta mudanças na religiosidade

Pesquisa aponta mudanças na religiosidade

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Recentemente, em meados de maio de 2022, participamos de dois programas “on line” em que estabelecemos relações integradas sobre o movimento espírita, família e o contexto da atualidade.

Atuamos nos programas “Roda de Conversa em Homenagem aos 75 anos da USE SP”, coordenada por Marco Milani, em que abordamos sobre as expectativas com relação ao futuro do movimento espírita1, e, em outro programa, desenvolvemos o tema “Papel da mãe na educação do espírito imortal”, com coordenação de Najla Loureiro em evento Associação Espírita Célia Xavier, de Belo Horizonte (MG)2.

Nos dois eventos virtuais focalizamos o resultado de pesquisa recente sobre a religiosidade do segmento mais jovem do país efetivada pelo Datafolha e divulgada no início de maio de 2022.

A pesquisa do Datafolha3 mostra que entre os jovens de 16 a 24 anos, o percentual dos sem religião chega a 25% em âmbito nacional. Especificamente no Rio de Janeiro e São Paulo, o crescimento dos brasileiros que se dizem "sem religião" é ainda mais marcante, particularmente entre os jovens. Os sem religião na faixa etária de 16 a 24 anos são numerosos: em São Paulo chegam a 30% dos entrevistados, superando evangélicos (27%), católicos (24%) e outras religiões (19%); no Rio de Janeiro, chegam a 34%, também acima de evangélicos (32%), católicos (17%) e demais religiões (17%). Os responsáveis pela pesquisa entrevistaram alguns especialistas sobre esse tema. Entre outras análises comentaram: "Então esse sujeito é sem religião porque não está vinculado a uma igreja, porque não frequenta, mas pode ter crenças relacionadas a alguma religião que já teve ou ter uma dimensão mais pluralista da religiosidade".3

Em contato com socióloga e pesquisadora do Instituto Superior de Estudos da Religião, Regina Novaes, essa observou que a fase dos 16 aos 24 anos, onde os "sem religião" são mais presentes, é uma fase de experimentação. Entre os fatores que podem explicar esse cenário há o aumento de famílias plurirreligiosas e a ampla rede de múltiplas fontes de informação, completamente diferente das faixas etárias, por exemplo, dos idosos, “cuja sociabilidade muitas vezes é restrita à família e à igreja”. Há a hipótese de que "A maior parcela dos sem religião tem a ver com uma desinstitucionalização, o que quer dizer que o sujeito está afastado das instituições religiosas, mas ele pode ter uma visão de mundo e até mesmo práticas pessoais informadas por crenças religiosas".3

Nas análises de especialistas sobre a pesquisa do Datafolha parece-nos claro que "há uma trajetória de busca e experimentação que foi colocada para as novas gerações que não era colocada para as antigas"; o afastamento de instituições religiosas, e que há “outros modos de ter fé".

Esses dados da atualidade devem representar um estímulo para oportunas e rápidas análises e avaliações no contexto do movimento espírita, com destaque para as formas de atuação dentro dos centros espíritas; o nítido afastamento da faixa etária que foi um dos principais objetos da pesquisa do Datafolha que, especificamente, sobre a faixa jovem no segmento espírita, já vínhamos apontando resultados preocupantes do censo do IBGE de 2010.4

E, sem dúvida para o preparo e adequações necessárias para se lidar com as famílias dos frequentadores, e notadamente das faixas etárias jovens, que parecem não estar muito presente ou ativa no seio do movimento espírita.4

Referências:

1) Link para acesso do programa da USE-SP (copie e cole): https://www.youtube.com/watch?v=erZtNzXOs8s;

2) Link para acesso do programa da AECX (copie e cole): https://www.youtube.com/watch?v=kKmIESZdadA;

3) Jovens sem religião superam católicos e evangélicos (copie e cole): https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2022/05/09/jovens-sem-religiao-superam-catolicos-e-evangelicos-em-sp-e-rio.ghtml; consulta em 27/05/2022;.

4) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Pelos caminhos da vida. Memórias e reflexões. Araçatuba: Cocriação. 2021. 632p.

Viagem histórica de Chico Xavier aos EUA

Viagem histórica de Chico Xavier aos EUA

           

Antonio Cesar Perri de Carvalho

No dia 22 de maio de 1965, Chico Xavier e Waldo Vieira embarcaram para os Estados Unidos. Trata-se de viagem histórica: a primeira viagem de Chico Xavier ao exterior e a pioneira incursão de vulto espírita notável em terras da América do Norte.

Os dois médiuns, acompanhados por Irineu Alves, permaneceram por dois meses nos Estados Unidos, visitando nove Estados daquele país.(1) Essa viagem foi resultante de muitos contatos com espíritas já radicados nos Estados Unidos, principalmente Salim Salomão Haddad que mantinha continuados contatos com Chico Xavier.

Naquela excursão doutrinária foram visitadas muitas instituições e bibliotecas. Destacam-se: Biblioteca do Congresso, em Washington; Biblioteca Pública de Nova York; local onde viveram as Irmãs Fox; vários institutos espiritualistas; Biblioteca da Organização das Nações Unidas, em Nova York; sempre procurando informações de caráter espírita ligadas à estatística e divulgação. Os visitantes estabeleceram contato com o casal Phyllie e Salim Haddad, Newton Harrison; Luis Guerreiro Ovalle, do grupo de imigrantes latino-americanos, em Miami.

Foi assinado contrato com a Philosophical Library, de Nova York, para a publicação do “Ideal Espírita” em inglês. Na presença dos dois médiuns visitantes houve fundação da Comunhão Espírita Cristã dos EUA (o “Christian Spirit Center”), iniciativa de Salim Haddad, que passou a ser um marco para o estudo e divulgação do Espiritismo nos EUA.

Nessa memorável viagem Chico Xavier e Waldo Vieira foram levados por amigos lá radicados para visitarem o túmulo do presidente John Kennedy no histórico Cemitério de Arlington, contíguo a Washington.

Várias mensagens foram psicografadas nos Estados Unidos, algumas delas em inglês e assinadas por vultos daquele país, e que foram publicadas no livro Entre irmãos de outras terras (2). Nesta obra não há nenhuma referência sobre o acima citado vulto americano.

Dos Estados Unidos os dois médiuns seguiram para a Europa. Mas, há um fato ocorrido na noite de 28 de Julho de 1971, em momento histórico para São Paulo e para o Brasil: o marcante ”Pinga Fogo” do Canal 4 – TV Tupi de São Paulo. Francisco Cândido Xavier, o médium psicógrafo de Uberaba, submeteu-se aos entrevistadores em programa ao vivo. Um dos entrevistadores, Almir Guimarães, transmite pergunta de Mauro Marcondes Filho, advogado, que “deseja saber se os seus guias espirituais já o informaram sobre a situação espiritual de Kennedy, De Gaulle, Stalin e Churchill, os maiores líderes políticos deste século”.

Chico Xavier responde: "— Seria para mim muito difícil estabelecer um sistema de informações nesse particular, conquanto admire profundamente o presidente Kennedy. Não tenho maior conhecimento dessa missão do general De Gaulle, que admiro também muitíssimo, e Churchill, por haver comandado a empresa de defender a civilização ocidental; e de Stalin também não tenho maior conhecimento. Sei por informações de amigos norte-americanos que o presidente Kennedy continua trabalhando (no mundo espiritual) pelo progresso das idéias de emancipação e pela integração das raças e pela fraternidade do povo americano e dos povos dos continentes do mundo. É o único de que eu posso dar informações." (3)

Independentemente dessa viagem histórica, há um episódio marcante relacionado com as terras americanas que é interessante. Em outra obra psicografada por Chico Xavier, Estante da Vida, o espírito Humberto de Campos registra uma entrevista com o espírito Marylin Monroe – “Encontro em Hollywood” -, em que a atriz desencarnada relata seu estado de fadiga, doente, e que “a tese do suicídio não é verdadeira como foi comentada”.(4)

O livro Entre Irmãos de Outras Terras, já traduzido para o inglês por Vanessa Anseloni, traz análises e recomendações significativas.

Entre as orientações, destacamos um trecho de autoria de André Luiz:

"Fugir da exibição pessoal. Guardar discrição e simplicidade. Acatar os sistemas de trabalho espiritual que observe diferentes daqueles a que se afeiçoe. Evitar críticas e discussões. Furtar-se de comprometer a Doutrina Espírita em quaisquer atitudes, mormente aquelas que se relacionem com o interesse próprio." (2)

Referências:

1. Alves, Irineu. Chico Xavier e Waldo Vieira nos EE.UU. e na Europa. Anuário Espírita 1966. Araras: IDE. 1966. P. 65-85.

2. Xavier, Francisco Cândido; Vieira, Waldo. Espíritos diversos. Entre irmãos de outras terras. 3 ed. 1a. parte, cap. 1. Rio de Janeiro: FEB. 1976. (Traduzido: Among Brothers of Other Lands. EDICEI).

3. Xavier, Francisco Cândido; Gomes, Saulo (Org). Pinga-Fogo com Chico Xavier. Catanduva: Intervidas. 2010. P.66.

4. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Irmão X. Estante da vida. 10 ed. Cap. 1. Rio de Janeiro: FEB. 2009.

95 anos da conversão de Chico Xavier

95 anos da conversão de Chico Xavier

Antonio Cesar Perri de Carvalho

No dia 07 de maio completou-se 95 anos do início do processo acelerado de conversão de Chico Xavier.

Embora médium natural desde os cinco anos de idade Chico Xavier chegou a ser chamado “menino aluado” pela sua madrinha, nos primeiros contatos que ele mantinha com sua mãe desencarnada Maria João de Deus.(1)

Fato histórico aconteceu na casa da família Xavier, em Pedro Leopoldo, no dia 07 de maio de 1927, para o atendimento da jovem Maria da Conceição Xavier, uma das irmãs mais velhas de Chico e que se encontrava obsidiada. O casal de médiuns Carmem e José Hermínio Perácio lá compareceu e o jovem Chico, com 17 anos de idade e católico praticante, acompanhou as leituras, prece e passe para o atendimento de sua irmã. No final, o espírito Maria João de Deus enviou recado ao filho Chico: “Os livros à nossa frente são dois tesouros de luz”, referindo-se a “O Livro dos Espíritos” e “O Evangelho segundo o Espiritismo” que o casal visitante deixava naquele lar.(1)

Chico leu avidamente as duas obras de Kardec e poucos dias depois estava convencido do magistral conteúdo e no dia 21 de junho de 1927 juntamente com irmãos e amigos fundava o Centro Espírita Luiz Gonzaga, em Pedro Leopoldo. Logo depois, no dia 08 de julho de 1927 psicografou uma mensagem pela primeira vez, assinada “um espírito amigo”.(1,2)

Em “Palavras minhas” na abertura do livro pioneiro “Parnaso de Além Túmulo” o próprio médium relata seus percalços iniciais até o contato com o casal Perácio.

Em julho de 2010, aproveitando compromissos nossos na Semana Chico Xavier no Centro Espírita Luiz Gonzaga, em Pedro Leopoldo, fomos a Sabará (MG) levados por Wagner Gomes Paixão e acompanhado de nossa esposa Célia Maria Rey de Carvalho e do filho Flávio Rey de Carvalho. Contando com carinhosa recepção entrevistamos Sidália juntamente com seu irmão Paulo Pedro Pena, filhos de Maria da Conceição Xavier. Os irmãos Sidália e Paulo nos relataram fatos marcantes da dedicação da genitora deles ao Espiritismo, as dificuldades dela e de familiares. Visitamos as obras fundadas por Maria da Conceição e seu marido em Sabará. Logo depois publicamos uma entrevista na revista “Reformador”, com o casal de filhos de Maria da Conceição.(2)

Carlos Alberto Braga Costa elaborou detalhada e bem documentada pesquisa sobre a família Xavier, priorizando Maria da Conceição Xavier Pena (1907-1980), seus familiares, obras que fundaram em Sabará e as relações de Chico Xavier com essa irmã. Tivemos a honra de prefaciar esse livro histórico.(3)

Assim, destacamos que a genitora desencarnada de Chico indicou o roteiro novo ao filho.

A partir do dia 07 de maio de 1927 iniciava-se a missão do notável médium de nossa Civilização e com ações céleres, pois num período de 60 dias Chico Xavier leu os “tesouros” – as duas obras citada de Allan Kardec, efetivou-se a fundação do Centro Espírita Luiz Gonzaga, de Pedro Leopoldo, e ali ocorreu sua primeira psicografia.

Referências:

1) Gama, Ramiro. Lindos casos de Chico Xavier. 19ª ed. São Paulo: LAKE. 214p.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier. O homem, a obra e as repercussões. 1.ed. Capivari: EME; São Paulo: USE-SP. 2019. 224p.

3) Costa, Carlos Alberto Braga. Chico Xavier. Do calvário à redenção. Combatentes pacíficos. 1.ed. Capivari: EME. 2019. 272p.

Guerra e paz

Guerra e paz

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Nos últimos meses o mundo acompanha estarrecido o que seria inimaginável nesse século: a invasão de um país com terríveis atrocidades. Há tentativas de justificativas e falas diplomáticas, mas é evidente o desrespeito à soberania de um país e a direitos e valores humanos.

Em meio a um turbilhão de pensamentos para se buscar a explicação espiritual sobre o triste episódio de nossos tempos, veio à nossa mente a trajetória do destacado literato russo Lev Nikolaievitch Tolstoi, conhecido apenas como Leon Tolstoi (1828-1910). Esse carismático escritor tornou-se conhecido com seu romance Guerra e paz, onde focaliza a invasão da Rússia por Napoleão Bonaparte, entremeando enredo de amores e aventuras de alguns personagens. Inicialmente foi publicado em série em periódico entre 1865 e 1869. Torna-se interessante pinçarmos alguns lances da linha de pensamento desenvolvida por Tolstoi.

Os analistas do escritor comentam que na década de 1870, ele viveu uma profunda crise moral, em seguida caminhando para interesses espirituais. No romance Ressurreição (1899) defende idéias ligadas à justiça social, fundamentando-se em filosofia econômica do intelectual Henry George. Tolstoi critica a injustiça das leis humanas e as posições falsas e hipócritas das igrejas cristãs. Sua vida foi marcada por protagonismos políticos e religiosos e nos seus últimos anos defendia o amor e a não-violência. Seria uma resistência ou ação não violenta para se atingir uma meta sociopolítica através de protestos simbólicos, de não cooperação econômica ou política, até a desobediência civil, mas sem o uso da violência. Tolstoi baseia-se em frase de Cristo sobre o oferecimento da “outra face”, para se evitar a violência e a vingança.

Nessa nova etapa de sua existência, deteve-se no estudo do Sermão da Montanha e se transformou numa espécie de anarquista cristão e pacifista. Ao longo de sua vida na conturbada Rússia dos Czares, claramente se nota uma evolução na sua visão sobre a sociedade.

No fundo procurava entender a essência da “lei áurea” ensinada pelo Cristo. Como espírito liberto, utilizando a mediunidade de Yvonne do Amaral Pereira, elaborou a obra Ressurreição e vida1, publicada em 1964. O autor espiritual desenvolve seis contos ou mini-romances, que seriam reais, ambientados na Rússia dos czares Romanov. A temática ressurreição é tratada em referência às aparições de Jesus. Destacamos que o autor espiritual acrescenta ao título de sua obra como encarnado Ressurreição, o verbete “vida”, no sentido amplo de vida espiritual.

Nessa obra mediúnica, o espírito Tolstoi realça que apenas uma sólida educação moral-intelectual com base nos ensinos de Jesus poderá encaminhar o homem para o cultivo das virtudes e relata o encontro espiritual com um luminar do cristianismo e a aceitação de seus ensinos:

“Foi esse um dos mestres que encontrei aquém do túmulo. Seus ensinamentos, os exemplos de ternura em favor do próximo, que me deu, revigoraram minhas forças. Sob seus conselhos amorosos orientei-me, dispondo-me a realizações conciliadoras da consciência. E se tu, meu amigo, desejas encontrar aquele reino de Deus de que Jesus dá notícias, ama os desgraçados! Cada lágrima que enxugares em seus olhos, cada conselho bom que dispensares ao pobre desarvorado da vida é mais um passo que darás em direção a esse reino que, finalmente, encontrarás dentro do teu próprio coração, que assim aprendeu o cumprimento da suprema Lei: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo…”1 Trata-se de uma alusão a registros de Mateus (22, 37-39).

As ideias de Tolstoi sobre não-violência e, depois, do “lado de lá”, são claramente vinculadas ao amor ao próximo e oferecem subsídios para algumas considerações doutrinárias sobre os preocupantes episódios da atualidade.

Torna-se oportuna a fundamentação em trechos das obras básicas de Allan Kardec. Em O livro dos espíritos há o esclarecimento porque o homem é impelido à guerra:

“Predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e transbordamento das paixões. No estado de barbaria, os povos um só direito conhecem — o do mais forte. Por isso é que, para tais povos, o de guerra é um estado normal. À medida que o homem progride, menos frequente se torna a guerra…”2

“Que se deve pensar daquele que suscita a guerra para proveito seu? – Grande culpado é esse e muitas existências lhe serão necessárias para expiar todos os assassínios de que haja sido causa, porquanto responderá por todos os homens cuja morte tenha causado para satisfazer à sua ambição.”2

O espírito Francisco Xavier deixa claro em O evangelho segundo o espiritismo:

“Quando a caridade regular a conduta dos homens, eles conformarão seus atos e palavras a esta máxima:

‘Não façais aos outros o que não quiserdes que vos façam.’ Verificando-se isso, desaparecerão todas as causas de dissensões e, com elas, as dos duelos e das guerras, que são os duelos de povo a povo”.3

Após a citação dessas obras do Codificador, destacamos que habitamos um mundo chamado de provas e expiações, onde ocorrem constantes embates entre luz e trevas. Há muitas expectativas, mas o mundo de regeneração se estabelecerá com um longo processo de transformação.

Essa caminhada – com uma cultura de paz – começa pela transformação do indivíduo e a profilaxia das várias formas de violência (verbal, física, social e vibratória), mas precisa ser elaborada desde os lares – alicerces da sociedade -, nas instituições de ensino, nas relações sociais em geral para que reflitam nas propostas, ações e decisões político-partidárias. A não-violência deve ser cultivada desde as bases da sociedade.

Referências:

1) Pereira, Yvonne Amaral. Pelo espírito Léon Tolstoi. Ressurreição e vida. Cap. Conclusão. Brasília: FEB.

2) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos espíritos. Q. 742-745. Brasília: FEB.

3) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O evangelho segundo o espiritismo. Cap.XII, item 14. Brasília: FEB.

Nota:

Síntese de artigo “O amor e a não-violência”, do mesmo autor, publicado na revista digital A Senda, da FEEES, maio-junho de 2022. Acesse a revista pelo link(copie e cole): https://www.feees.org.br/revista-senda/a-senda-maio-junho-2022/

Mães em livros de Chico Xavier

Mães em livros de Chico Xavier

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Pela passagem do “dia das mães”, focalizamos informações e trechos de algumas obras psicografadas por Chico Xavier. Na realidade o tema é desenvolvido em vários estilos e por diversos autores espirituais em muitos livros do médium.

De início, destacamos episódios sobre sua mãe, Maria João de Deus, desencarnada aos 29/09/1915 quando Chico tinha apenas cinco anos de idade. Muitos relatos existem sobre os momentos difíceis vividos pela criança que era médium natural e via e ouvia sua mãe, sempre ameaçado e punido pela madrinha Rita que o considerava um “menino aluado”. Até que seu pai casou-se com Cidália Batista, que reuniu todos os filhos do marido e Chico a considerou um “anjo bom”.(1)

Fato histórico aconteceu na casa da família Xavier, em Pedro Leopoldo, no dia 07 de maio de 1927, para o atendimento da jovem Maria da Conceição Xavier que se encontrava obsidiada. O casal de médiuns Carmem e José Hermínio Perácio lá compareceu e o jovem Chico, com 17 anos de idade e católico praticante, acompanhou as leituras, prece e passe para o atendimento de sua irmã. No final, o espírito Maria João de Deus enviou recado ao filho Chico: “Os livros à nossa frente não dois tesouros de luz”, referindo-se a “O Livro dos Espíritos” e “O Evangelho segundo o Espiritismo” que o casal visitante deixava naquele lar. Chico leu avidamente as duas obras de Kardec e poucos dias depois estava convencido do magistral conteúdo e no final de junho de 1927 juntamente com irmãos e amigos fundava o Centro Espírita Luiz Gonzaga, em Pedro Leopoldo.(1)

A genitora desencarnada de Chico indicou o roteiro novo ao filho. Iniciava-se a missão do maior médium de nossa Civilização.

No ano de 1935 vinha a lume a obra “Cartas de uma morta”, do espírito Maria João de Deus, editado pela LAKE de São Paulo. Esse histórico segundo livro psicografado por Chico tem sua mãe como autora espiritual. Ela descreve vários momentos de sua situação espiritual e apresenta diversos aspectos do mundo dos Espíritos, chegando até a descrição sobre o planeta Marte.(2)

Entre muitas produções psicográficas de Chico Xavier no ano de 1971, surge a de número 108 – “Mãe” -, uma antologia mediúnica publicada pela Casa Editora O Clarim.(3) Nessa obra foram reunidas dezenas de mensagens psicografadas pelo médium e assinadas por diversos espíritos. Em “Mãe”, Wallace Valentim Rodrigues assina substancioso prefácio historiando a origem da comemoração do “dia das mães”, idealizado pela americana Anna Jarvis.

O espírito Meimei faz a apresentação espiritual: “Mãezinha. Enquanto o mundo te adorna a presença com legendas sublimes, abrilhantando-te o nome, quis trazer-te a homenagem de meu reconhecimento e de meu carinho, segundo as dimensões de tua bondade, e te rememorei os sacrifícios… – se te posso entregar algo mais, deixa que te oferte o meu próprio coração, neste livro de ternura, por dádiva singela de minha confiança e carinho, num ramalhete de amor. Uberaba, 01 de março de 1.971”. (3)

Dessa Antologia Mediúnica destacamos alguns trechos. O espírito Maria João de Deus homenageia Celina, da equipe de Maria: “Quando elevamos ao céu nosso olhar suplicante, há para todos nós, os que se afligem na provação, uma carinhosa e compassiva Mãe que nos ampara e consola… Compadece-se de nossa dor, contempla-nos com misericórdia e manda-nos então o anjo da sua bondade, para balsamizar nossos padecimentos… É Celina, a suave mensageira da Virgem, a Mãe de todas as mães, o gênio tutelar da humanidade sofredora…” (3)

Sempre terna, Maria Dolores anota: “Entretanto, meu Deus, mais do que tudo, agradeço-te em prece enternecida O regaço materno que me trouxe para a glória da vida!… Em tudo, em todo o tempo e em toda a parte, sê bendito, Senhor, Pela santa Mãezinha que me deste, me tesouro de amor!” (3)

André Luiz alerta: “Mães da Terra! Mães anônimas! Sois vasos eleitos para a luz da reencarnação! Por maiores se façam os suplícios impostos à vossa frente, não recuseis vosso augusto dever, nem susteis o hálito do filhinho nascente – esperança do Céu a repontar-vos do peito!… Não surge o berço em vosso coração por acaso.” (3)

Notável orientador, Emmanuel pondera: “Quando te vejas, diante de filhos crescidos lúcidos, erguidos à condição de dolorosos problemas do espírito, recorda que são eles credores do passado a te pedirem o resgate de velhas contas. Busca auxiliá-los e sustentá-los com abnegação e ternura, ainda que isso te custe todos os sacrifícios, porque, no justo instante em que a consciência te afirme tudo haveres efetuado 129 para enriquecê-los de educação e trabalho, dignidade e alegria, terás conquistado em silêncio, o luminoso certificado de tua própria libertação.” (3)

Sempre poeta, Bittencourt Sampaio refere-se a Maria: “Filhas da terra, mães, irmãs, esposas,/ No turbilhão dos homens e das cousas,/ Imitai-A no dor do vosso trilho!…/ Não conserveis do mundo o brilho e as palmas,/ E encontrareis no íntimo das almas, A alegria do reino de Seu Filho!” (3)

Nessa síntese fica clara a relação amorosa e orientadora de Maria João de Deus com o filho e este, como psicógrafo, sendo intermediário de esclarecimentos sobre o papel das mães na ótica espiritual.

Referências:

1) Gama, Ramiro. Lindos casos de Chico Xavier. 19ª ed. São Paulo: LAKE. 214p.

2) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Maria João de Deus. Cartas de uma morta. 9ª ed. São Paulo: LAKE. 86p.

3) Xavier, Francisco Cândido. Espíritos diversos. Mãe. Antologia mediúnica. 3ª ed. Matão: O Clarim. 224p.