Livro de Kardec evitou suicídios

Antonio Cesar Perri de Carvalho

No mês consagrado como “Setembro Amarelo” com foco na valorização da vida e prevenção ao suicídio, vários eventos e publicações, principalmente pela internet, têm sido realizados com evocações à campanha de prevenção ao suicídio.

No dia mundial de prevenção ao suicídio – 10 de setembro – houve uma passeata na Av. Paulista em São Paulo – que é um marco da cidade -, com apoio do Centro de Valorização da Vida-CVV e do Lions Club-Tatuapé/SP. Aos domingos esta avenida torna-se um enorme calçadão de laser e com manifestações culturais e, em alguns momentos, também políticas.

A passeata liderada pelo CVV e Lions Club caminhou pela avenida e em momentos de parada, eram feitos esclarecimentos e distribuição de folder sobre prevenção ao suicídio com o tema "Não se cale, fale – viver é bom!". Neste, há comentários sobre 14 pontos com recomendações e observações na tônica de que “falar é a melhor solução” e de valorização ao apoio, considerando estatística de que 90% dos suicídios podem ser evitados. O CVV mantém um grupo de apoio aos sobreviventes do suicídio, com encontros confidenciais e gratuitos.

Comparecemos à passeata, atentos à questão da valorização da vida, pois fomos um dos participantes da fundação há mais de 10 anos do Movimento Nacional da Cidadania pela Vida – Brasil sem Aborto, em Brasília, juntamente com o então deputado Bassuma, Jaime Ferreira Lopes, Nestor João Masotti e Marlene Nobre.

Na ótica espírita o tema é considerado com base na imortalidade da alma e na própria valorização da existência física. Em O livro dos espíritos há a definição: “Qual o primeiro de todos os direitos naturais do homem? – O de viver. Por isso é que ninguém tem o de atentar contra a vida de seu semelhante, nem de fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal” (questão 880).

Esse livro inaugural do Espiritismo rapidamente produziu repercussão marcante ao evitar suicídios. Allan Kardec recebeu o depoimento: "Esta obra salvou-me a vida. Leia-a com atenção e tenha bom proveito. A. Laurent." E também com uma segunda observação: "Salvou-me também. Deus abençoe as almas que cooperaram em sua publicação. Joseph Perrier." O fato histórico mereceu registro espiritual por Chico Xavier. (1) 

 

A morte do corpo é uma transição. E esta é a surpresa de espíritos que se manifestam comentando as surpresas que tiveram após cometerem o suicídio.

Na literatura espírita há dezenas de obras que comentam a situação de espíritos no mundo espiritual, como os conhecidos textos do espírito André Luiz, psicografados por Chico Xavier. E milhares de cartas familiares, pelo mesmo médium, onde mortos queridos dão a certeza da sobrevivência a seus parentes.

Obra marcante, que deve merecer divulgação e estudo, é “Memórias de um suicida”, da médium Yvonne do Amaral Pereira. Neste livro narra-se as dificuldades para entrar em contato com ambientes espirituais habitados por espíritos suicidas em etapas de esclarecimento e de recuperação. Bem ao final dessa magistral obra, o autor espiritual – que é um pseudônimo de Camilo Castelo Branco -, aponta o caminho da regeneração de espírito suicida: “— Coragem, peregrino do pecado! Volta ao ponto de partida e reconstrói o teu destino e virtualiza o teu caráter aos embates remissores da Dor Educadora! Sofre e chora resignado, porque tuas lágrimas serão o manancial bendito onde se irá dessedentar tua consciência sequiosa de paz! Deixa que teus pés sangrem entre os cardos e as arestas dos infortúnios das reparações terrenas; que teu coração se despedace nas forjas da adversidade; que tuas horas se envolvam no negro manto das desilusões, calcadas de angústias e solidão! Mas tem paciência e sê humilde, lembrando-te de que tudo isso é passageiro, tende a se modificar com o teu reajustamento às sagradas leis que infringiste… e aprende, de uma vez para sempre, que — és imortal e que não será pelos desvios temerários do suicídio que a criatura humana encontrará o porto da verdadeira felicidade…”(2)

Obra bem atual com dados sobre o suicídio no Brasil e no mundo e bem orientadora, é de autoria do jornalista André Trigueiro: Viver é a melhor opção – A prevenção do suicídio no Brasil e no mundo (3), também disponibilizada em vídeo-aulas objetivas. (4)

A certeza da imortalidade da alma e de que somos espíritos encarnados em processo de aprimoramento é indispensável para a melhor compreensão dos valores e da oportunidade da vida corpórea e também para se compreender o porquê de se realizar a profilaxia de todos os processos que podem interromper a vida. Daí a oportunidade das campanhas do “Setembro Amarelo” com base no “Falar é a melhor solução”.

Bibliografia:

  1. Xavier, Francisco Cândido; Vieira, Waldo. Espíritos diversos. O Espírito da Verdade. Cap. 52, FEB
  2. Pereira, Yvonne Amaral. Pelo espírito Camilo Cândido Botelho. Memórias de um suicida. 3ª. Parte, Cap. VII. FEB.
  3. Trigueiro. André. Viver é a melhor opção – A prevenção do suicídio no Brasil e no mundo. São Bernardo do Campo: Ed. Correio Fraterno.
  4. http://grupochicoxavier.com.br/viver-e-a-melhor-opcao-a-prevencao-do-suicidio-no-brasil-e-no-mundo/

 

             (Ex-presidente da USE-SP e da Federação Espírita Brasileira).

Vitória amarga

Richard Simonetti

 

Pirro (319-272 a.C.), foi um general grego, autor de livros sobre a arte da guerra. Guerreiro indômito e hábil, seria lembrado não pelos seus feitos no campo de batalha e pendores literários, mas, singularmente, por simples comentário que deu origem à expressão famosa: Vitória de Pirro.

Em 281 a.C. combateu os romanos, em defesa de Taranto, uma colônia grega no sul da Itália. Logrou sucesso. Contudo, tantas foram as baixas em suas tropas que, recebendo felicitações pelo notável feito de derrotar um exército do grande império, comentou amargamente: – Mais uma vitória como essa e estaremos perdidos.

A vitória mais se assemelhava a uma derrota. A frase de Pirro é aplicada para definir certas conquistas que impõem tantos sacrifícios e desgastes que, literalmente, não compensam.                    

Há realizações que trazem euforia, situando-se como a concretização de nossos sonhos e ideais, mas o tempo, senhor da verdade, demonstra que cometemos grave erro de avaliação.

O audacioso empresário, que se compromete com a corrupção para enriquecer…

O funcionário ambicioso, que usa de intriga e bajulação para superar hierarquicamente seus colegas…

A astuciosa jovem, que se vale de sua beleza para seduzir o homem rico…

O hábil político, que ilude o povo para ganhar a eleição…

O filho rebelde, que deixa o lar para livrar-se da tutela paterna…

O ditador truculento, que esmaga qualquer oposição para sustentar-se no poder…

O traficante inescrupuloso, que semeia o vício para vender seu produto…

Todos exultam com seu sucesso, sem perceber que pagarão um preço muito alto, bem de acordo com a expressão evangélica: De que vale conquistar o mundo e perder a alma? (Marcos, 8:36).

Jesus reporta-se a efêmeras vitórias humanas que são derrotas do Espírito imortal, impondo penosas reparações.

Por outro lado, há situações que se afiguram lamentáveis derrotas. Constatamos depois que foram abençoadas oportunidades de resgate, renovação e conquistas espirituais:

A doença grave que depura a alma…

A limitação física que impõe salutares disciplinas.…

A desilusão amorosa que desfaz a fantasia…

A morte do ente querido que desperta a religiosidade…

A dificuldade financeira que estimula a iniciativa…

Não raro faz-se noite escura em nossos caminhos para que nasça novo dia. Se não desanimarmos diante das sombras, iremos ao encontro de luminoso alvorecer.

A própria morte de Jesus, aparentemente derrotado pela maldade humana, era na verdade, o coroamento da missão que começara na manjedoura e atingia o clímax na cruz. Os dois episódios se completam, compondo a bandeira do Cristianismo para a construção do Reino de Deus.

Humildade, na manjedoura.

Sacrifício, na cruz.

E mais: Do alto da cruz, Jesus fincava os marcos de uma nova atitude diante da maldade humana, rogando a Deus: – Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem (Lucas, 23:34).

Aqueles que o perseguiam e apupavam não tinham ideia de quanto lhes custaria em dores expiatórias aquele aparente triunfo.

Eram dignos de compaixão.

    Espiritualmente estavam tão derrotados quanto Pirro em sua frustrante vitória.

 

Extraído de:

Boletim digital – Notícias do Movimento Espírita – São Paulo, SP, segunda-feira, 21 de agosto de 2017
(http://www.noticiasespiritas.com.br/2017/AGOSTO/21-08-2017.htm)

Valorização da Vida – Significado espiritual

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Ao ensejo da campanha “Setembro Amarelo” com foco na valorização da vida e prevenção do suicídio tornam-se oportunos alguns comentários sob a ótica espírita.

A questão da imortalidade é tratada de forma aprofundada pelo Espiritismo e esta é sua tarefa fundamental, inclusive evocando o Mestre: “[…] eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João, 10.10).

No livro inaugural do Espiritismo – O livro dos espíritos – há uma clara definição: “Qual o primeiro de todos os direitos naturais do homem? – O de viver. Por isso é que ninguém tem o de atentar contra a vida de seu semelhante, nem de fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal” (questão 880).

Em outras considerações interessantes com base no Cristianismo e no Espiritismo, destacamos o apóstolo Paulo: “Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.” (I Cor., 6.20), e, o espírito André Luiz  define com clareza em dois comentários: “O corpo é o primeiro empréstimo recebido pelo Espírito trazido à carne” (de Conduta Espírita); “[…] temos necessidade da luta que corrige, renova, restaura e aperfeiçoa. A reencarnação é o meio, a educação divina é o fim” (de Missionários da Luz).

Nas citações de o Novo Testamento, de obras de Allan Kardec e do espírito André Luiz, nota-se a coerência entre os ensinos do Cristo e do Espiritismo a respeito do valor do corpo. A certeza de que somos espíritos reencarnados e em processo de aprimoramento é de fundamental importância para a melhor compreensão dos valores e da oportunidade da vida corpórea e também para se compreender o porquê de se realizar a profilaxia de todos os processos que podem interromper a vida.

À vista desses conceitos, altera-se o conceito de morte, pois o que morre é o corpo; o espírito é imortal. Após a morte do corpo o espírito mantém sua individualidade e identidade, como mostram milhares de cartas psicografadas por Chico Xavier onde os chamados “mortos” se dirigem a seus familiares.

Em mensagens espirituais históricas incluídas por Allan Kardec no livro O céu e o inferno e outras psicografadas por Chico Xavier, nota-se a surpresa de espíritos que partiram para o mundo espiritual na condição de suicidas, pois apesar de terem encerrado a existência material prosseguiam vivos, pensando, reagindo e sentindo a situação de terem interrompido a vida do organismo.

Sempre há caminhos e soluções para os momentos de dificuldades e de impasses existenciais e devem ser procurados e valorizados os apoios de profissionais especializados e de natureza espiritual ou religiosos. O espírito Emmanuel, orientador de Chico Xavier, conclama: “Guarda, pois, a existência como dom inefável, porque teu corpo é sempre instrumento divino, para que nele aprendas a crescer para a luz e a viver para o amor, ante a glória de Deus” (de Religião dos Espíritos).

(Ex-presidente da USE-SP e da FEB).

Jesus, Pedro, Tiago e João numa sessão espírita na Bíblia

José Reis Chaves

Durante séculos, a Igreja Católica e as demais Igrejas Cristãs combateram ferozmente, até meados do século XX, a comunicação com os espíritos desencarnados. A Igreja, inclusive, através da CNBB, até 1950, excomungava as pessoas que frequentassem, durante mais de seis meses, os centros espíritas. E, no finalzinho do século XIX, uma bula do Vaticano conclamava todo o mundo católico a lutar, com todas as armas, contra o espiritismo dizendo que ou a Igreja acabava com ele ou ele acabaria com a Igreja!

Mas a Igreja, pouco depois, notou que a grande maioria dos católicos de cidades grandes e de porte médio frequenta casas espíritas, acontecendo o mesmo, em menor quantidade, com os protestantes e os evangélicos. E ela, aos poucos, de um modo geral, parou de atacar o espiritismo. E como constatamos em nossas palestras e seminários pelo Brasil e Portugal, às vezes, nesses eventos espíritas, há mais pessoas de outras religiões do que mesmo espíritas!

Kardec não é o criador do espiritismo, mas apenas o seu codificador (organizador), pois os fenômenos espíritas existem desde que o mundo é mundo! Kardec era um cientista linguístico católico de tradição familiar, inclusive, quando ainda jovem, casou-se na Igreja Católica. Mas interessou-se pelas pesquisas dos fenômenos espíritas, pesquisas essas que se tornaram uma coqueluche de muitos cientistas contemporâneos dele, em vários países europeus e nos Estados Unidos. E Kardec, pelo seu grande trabalho de experiências e pesquisas na área dos fenômenos mediúnicos, pode-se dizer que é o criador da nova ciência chamada, hoje, de espiritologia. E é, com razão, que “O Livro dos Médiuns”, de Kardec, é tido como o primeiro manual de parapsicologia do mundo.

Não se devem confundir as leis divinas ou naturais bíblicas com as leis mosaicas também bíblicas. As mosaicas são somente uma espécie de constituição do povo judeu feita por Moisés. Já as leis divinas ou naturais são as do Decálogo ou dos Dez Mandamentos, que são também, geralmente, universais, constando, pois, das outras escriturais sagradas e não somente da Bíblia. E os fanáticos pregadores contra o espiritismo, que ainda existem, perderam e perdem seu tempo em ficar doutrinando as pessoas simples que os seguem, dizendo-lhes que o espiritismo é feitiçaria e contra a Bíblia. É que eles misturam as leis mosaicas com as divinas ou naturais. E Moisés proibiu o contato com os espíritos por causa da ignorância dos judeus sobre a mediunidade, na época em que ele os dirigia. Mas defendeu também esse contato (Números 11: 24 a 30), em que ele elogia Heldade e Medade que recebiam espíritos profetizando.

E vejamos um exemplo bíblico em que o próprio Jesus, em companhia dos grandes médiuns Pedro, Tiago e João, fazem uma verdadeira sessão espírita na Transfiguração, pois Elias e Moisés que viveram aqui no nosso planeta, já havia séculos, comunicaram-se com os quatro (Mateus 17: 3). Se isso não for uma sessão espírita, ou seja, uma comunicação com espíritos desencarnados, o que seria, então, o espiritismo? E observe-se que o próprio Moisés veio anular a sua proibição (Deuteronômio capítulo 18) de contato com os espíritos!

(Publicado originalmente em coluna de O Tempo, Belo Horizonte, MG, 21/08/2017).

 

João, o Maestro – Genialidade, Superação e Paixão

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O filme em exibição (*) “João, O Maestro” é um longa-metragem biográfico  brasileiro baseado na carreira como pianista do maestro João Carlos Martins, com direção e roteiro de Mauro Lima. Retrata a vida de João Carlos Martins, nascido em São Paulo em 1940, um prodígio do piano de fama internacional especialmente pelas suas gravações das obras de Johann Sebastian Bach.

Jovem genial se destaca nos Estados Unidos, onde sofreu um pequeno acidente em jogo de futebol com amigos no Central Park, em Nova York, comprometendo a inervação de seu braço direito. Retorna ao piano mas passa depois um período fora do meio artístico. Sua paixão pelo piano faz com que retorne aos concertos, usando apenas uma das mãos. Gravou toda a obra de Bach. Um segundo acidente, durante um assalto na Bulgária, retira os movimentos da mão direita e como sequela desenvolveu no membro superior saudável, o esquerdo, uma doença neurológica. O pianista João Carlos Martins lutou e se reinventou. Tornou-se prestigiado maestro e empreendeu notável trabalho de apoio à educação musical e estímulo aos talentos de jovens, e contando com o apoio do empresariado paulista criou orquestras com tais jovens, originando a Bachiana Filarmônica SESI-SP.

Em entrevista à TV, João Carlos Martins relatou também que ao buscar recursos para a superação dos problemas na mão direita, teria procurado um médium “pai de santo”. Este informou-o que não se preocupasse, porque mais à frente esta mão ficaria igual à esquerda. Ao relatar o episódio na entrevista, o músico sorriu porque não imaginaria que após um segundo acidente, ocorreria o comprometimento da mão esquerda. Ou seja, as duas ficaram lesadas!

Destacamos que a informação de ordem espiritual foi autêntica!

Alguns lances de precocidade da infância de João Carlos Martins de conhecimento e desenvoltura musical praticamente inatos são sugestivos de experiência de vidas anteriores. A criança e depois o jovem pianista seguem vertiginosa carreira de reconhecimento internacional.

Os repetidos acidentes comprometendo gradualmente os dois membros superiores – justamente num pianista de grande valor e de renome internacional – poderiam ter encerrado sua carreira artística. No entanto, João Carlos Martins lutou em cada etapa, tendo acesso a sofisticados tratamentos, conseguindo soluções viáveis para suas mãos. Mesmo com limites sérios, insistiu nos concertos de piano. Quando praticamente não pode contar mais com os dedos, optou pela atuação como maestro.

Consideramos que o genial João Carlos Martins deu mostras eloquentes de grande força de espírito e de superação de inúmeros problemas. Como maestro, dedica-se a meritório trabalho social, propiciando educação artística a crianças e jovens e até constituindo valorosa e reconhecida orquestra com eles.

Essa atuação nos chama atenção porque a genialidade, aliada com os nobres esforços de superação, se direcionou para o bem praticado junto à sociedade. A somatória do belo com o bem, como expressões de uma paixão bem direcionada, demonstram amor ao próximo!

(*) Lançado em agosto de 2017.

 

(Ex-presidente da USE-SP e da FEB)

Paulo e a ética cristã

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Paulo de Tarso, como principal divulgador da mensagem do Mestre Jesus, fundou em muitos locais as chamadas igrejas cristãs (ecclesia - local de reunião, atualmente significando “igreja”).

A igreja de Corinto foi fundada durante os 18 meses que Paulo lá viveu entre os anos 50 e 52 d.C. À época, Corinto era uma cidade cosmopolita, a principal do mundo helênico; conhecida pelas tendências ao paganismo, à proliferação de cultos, e à devassidão. Paulo se dedicou muito a Corinto. A 1ª Epístola aos Coríntios foi escrita no ano 54 d.C. quando ele se encontrava em Éfeso, para atender aos companheiros que solicitavam apoio ou aos que ele não poderia visitar.

A primeira epístola aos Coríntios é considerada um dos escritos clássicos de Paulo e preserva acima de tudo o “padrão da ética cristã”. Nessa Epístola, o apóstolo faz uma recomendação da mais alta importância, pois considerava a igreja de Corinto uma das provas palpáveis do ministério apostólico. Por causa da penetração de certos problemas ali, como práticas más e vis, contendas e divisões que chegaram a ameaçar a sua aceitação como um apóstolo de Cristo por aquela igreja, é que Paulo lhes escreveu com consternação mesclada de repreensão e demonstrações de afeto.

Da epístola em análise transcrevemos os trechos que merecem reflexões e adequações aos dias atuais:

“Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas são lícitas, mas nem todas edificam. Ninguém busque o seu próprio interesse, e sim o de outrem” (10: 23, 24).

O fato de Paulo citar o chavão da época referente à cidade de Corinto – “todas as coisas são lícitas” -, aponta para uma situação que o afligia. A passagem faz referência à liberalidade predominante em Corinto, que Paulo não aprova. Os cristãos dos nascentes grupos de Corinto sofriam influências do contexto da época daquela cidade. A expressão “viver como um coríntio” referia-se a desregramentos comportamentais e que eram considerados “normais” naquela cidade. Essa questão ética e a tendência de adoção de práticas aberrantes, motivaram o apóstolo da gentilidade a elaborar a 1a Epístola aos Coríntios.

Em seus textos Paulo desenvolveu o raciocínio de que alguns princípios que eram defendidos na sociedade local e da época precisavam ser observados através de diretrizes ligadas à conduta cristã, não se restringindo às normas que eles adotavam, e das quais dependiam tanto.

No conjunto da legislação – Constituição do país, Leis e normas -, define-se o que é legal, o que é “lícito” no dizer de Paulo de Tarso.

Como ficariam as ideias de conveniência e de edificação que Paulo emprega na citada Epístola? O altruísmo e a alteridade devem sobrepujar objetivos pessoais. É a essência da mensagem do Cristo, de se amar e se respeitar o próximo.

A coerência entre licitude e conveniência, na ótica cristã e espírita, considerando que somos espíritos imortais, deve merecer continuados estudos e reflexões principalmente no contexto do mundo conturbado de nossos dias. Como princípio espírita, as vidas sucessivas ou reencarnação, demonstram que o bem e o mal sempre têm consequências, ou seja, nesta ou em outras vidas. O melhor será sempre o esforço pelo bem ao próximo e a si mesmo.

 

(Ex-presidente da USE-SP e da FEB; autor do livro Epístolas de Paulo à luz do espiritismo)

Acesse: http://grupochicoxavier.com.br/etica-e-moral-na-atualidade/;

http://grupochicoxavier.com.br/assembleia-legislativa-do-espirito-santo-homenageia-espiritas/

Pesquisa Nacional para Espíritas – 2017. Alguns comentários

 

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Como oportuna iniciativa pessoal de Ivan Franzolim (**), foi efetivada a pesquisa nacional para espíritas, sem nenhuma participação ou apoio de instituições, e é inédita no Movimento Espírita por sua abrangência nacional e pela preocupação em conhecer como pensam e atuam os espíritas. A primeira edição ocorreu em julho de 2015.

A finalidade dessa pesquisa “é ser útil ao Movimento Espírita, contribuindo com dados indicativos do modo de pensar e agir dos espíritas. É um material que deve ser utilizado para auxiliar as ações de comunicação das instituições e servir ao ambiente de estudo acadêmico e fora dele.” (1)

Nesta terceira edição, a pesquisa foi elaborada com 44 questões, divididas em seis sessões: Perguntas sobre você, Para Estudantes de Cursos Espíritas, Sua maneira de entender o espiritismo, Perguntas sobre o Centro Espírita, Perguntas para Frequentadores e Perguntas para Trabalhadores. Foi efetivada entre 1º e 31 de julho de 2017, utilizando-se a internet e as redes sociais como veículo de distribuição do formulário eletrônico do Google e acesso ao público espírita, estimados em 2% da população brasileira, segundo o Censo 2010. Foram recebidas 2.616 respostas válidas, excluindo aquelas em duplicidade. Os respondentes são residentes em 451 cidades e todos os estados foram representados.

Os Estados com maior concentração foram também os mesmos das edições anteriores (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais) com exceção do Espírito Santo que aparece em segundo lugar pela primeira vez. Os Estados com menor participação foram: Alagoas, Maranhão, Piauí, Roraima e Tocantins. O pesquisador lembra que estes Estados correspondem àqueles mencionados no Censo 2.010 com menor número de espíritas.

O autor da pesquisa Franzolim esclarece que “além de captar dados sobre a participação e comportamento dos espíritas, ela tem registrado várias crenças que circulam no Movimento Espírita. Muitas delas são aceitas pelos espíritas por identificação emocional com sua essência, sem maior análise e comparação com as obras básicas e complementares, demonstrando que o processo de assimilação de crenças é diferente do processo de absorver conhecimento e pode prevalecer sobre este. Pela forma não controlada de escolha dos respondentes, essa pesquisa não pode ser considerada probabilística, embora tenha seus méritos por mostrar tendências e preparar o terreno para futuras pesquisas.” (1)

            Na opinião de Ivan Franzolim, as instituições espíritas carecem de indicadores que são fundamentais para o planejamento e a prática de uma boa gestão, e recomenda que “Centros Espíritas deveriam pesquisar a satisfação dos voluntários, frequentadores e assistidos, o correto entendimento das suas atividades e quão plenamente os serviços prestados atendem as necessidades e expectativas das pessoas, para promoverem mudanças produtivas ou esclarecimentos necessários.” O pesquisador entende que mais pesquisas devem ser feitas para melhor compreensão do pensamento e das ações dos espíritas.(1)

            Numa análise geral dos resultados da pesquisa, destacamos alguns dados predominantes.

Na qualificação do espírita: gênero feminino (64,7%); faixa etária de 51 a 60 anos (28,8%); portador de ensino superior (41,3%) e seguido de perto pelos pós-graduados (33,2%); faixa salarial acima de 4 e até 10 salários mínimos (33,3%). Estes dados têm coerência com resultados do Censo do IBGE do ano 2.010 e apontam para as dificuldades para se atender populações com menores faixas de renda e de escolaridade. (2)

Os participantes da pesquisa são espíritas há 11-20 anos (24,8%) e atuam nos centros como trabalhadores voluntários (52,4%).

Sobre a relação dos filhos com o centro espírita – com filhos entre 3 e 12 anos: não participam da Evangelização Infantil/Juvenil (20,5%); não tenho filhos (64,0%); com filhos acima de 12 anos: não tenho filhos (43,2%); não se consideram espíritas (20,3%); Se consideram espíritas e não frequentam o grupo de jovens/mocidade (23,1%). Estes dados, na generalidade das faixas etárias também já vinham sendo apontados pelos Censos do IBGE dos anos 2.000 e 2.010 e, a nosso ver, representam um alerta para urgentes estudos e providências para se diagnosticar as causas dessa situação e para se favorecer a integração real da criança e do jovem no centro espírita. (2)

Na pesquisa surgem informações muito interessantes, como sobre a leitura de livros: já leram de 21 a 30 livros; livros mais lidos: Paulo e Estêvão – Chico Xavier/Emmanuel; O Livro dos Espíritos; O Evangelho Segundo o Espiritismo; Nosso Lar – Chico Xavier/André Luiz. Autores mais lidos: Chico Xavier (todos autores espirituais) – 731 respondentes; Allan Kardec – 316 respondentes. Torna-se oportuna a Campanha “Comece pelo Começo” (da USE-SP e CFN), de estímulo à leitura e estudo das Obras Básicas do Codificador. (2)

Nas questões sobre temas de interesse, destacamos: temas que estudaria mais se tivesse oportunidade (isoladamente)? Bíblia e/ou os Evangelhos (15,3%); Mundo Espiritual (15,3%); Mediunidade (11,7%). Temas para estudo (soma de cada tema): Mediunidade (11,8%); Mundo Espiritual (9,9%); Reencarnação (9,6%); A Bíblia e/ou os Evangelhos (9,5%). A valorização de demandas locais, dos focos de interesse do público alvo do centro, seria um oportuno procedimento nos centros espíritas.

Na compreensão geral sobre como Espiritismo deve ser seguido pelos espíritas: mais como filosofia e/ou ciência (57,7%). A propósito, este resultado é indicativo da necessidade de maior divulgação, estudo e compreensão das obras de Allan Kardec; pode ser influenciado pela tendência atual de muitos eventos e palestras com temas científicos e também por alguns enfoques em palestras e em práticas que não são coerentes com o conjunto das obras de Allan Kardec. (3,4)

A maioria dos respondentes considera que a aceitação das ideias espíritas na sociedade está evoluindo razoavelmente (68,0%), e nas questões relacionadas com a satisfação pelas atividades do centro, predominam valores de média a alta.

A nosso ver a “Pesquisa Nacional para Espíritas” oferece dados que devem merecer estudos e reflexões pelos dirigentes e colaboradores dos centros espíritas e também estimular a realização de pesquisas internas nestas instituições.

 

(*) Ex-presidente da FEB e da USE-SP.

 

(**) A Pesquisa Nacional para Espíritas é uma iniciativa de Ivan Franzolim (São Paulo), escritor, articulista e palestrante espírita, formado em Administração de Empresas com especialização em Marketing de Serviços (FGV) e pós-graduado em Comunicação Social (Cásper Líbero). Compõe a pesquisa, o trabalho estatístico de Análise de Conglomerados desenvolvido por Jorge Elarrat (Rondônia), formado em Engenharia Eletrônica na Universidade Federal do Pará (UFPA), pós-graduado em metodologia do ensino superior e mestre em administração, com passagem pelo IBGE e como titular da Secretaria de Estado da Educação

 

Referências:

  1. Acesso em 09/08/2017: http://franzolim.blogspot.com.br/;
  2. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Centro espírita. Prática espírita e cristã. Cap. 2.1, 2.2, 3.1. Matão: O Clarim. 2016.
  3. Carvalho, Flávio Rey; Carvalho, Antonio Cesar Perri. Espiritismo como religião: algumas considerações sobre seu caráter religioso e seu desenvolvimento no Brasil. In: Souza, André Ricardo; Simões, Pedro; Toniol, Rodrigo (Org.). Espiritualismo e Espiritismo. Reflexões para além da espiritualidade. 1.ed. Parte 1, Cap. 2. São Paulo: Editora Porto de Ideias. 2017.
  4. Carvalho, Flávio Rey. O aspecto religioso do Espiritismo. Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCII. N.6. Julho de 2017. p. 304-306.

Contextos fantasiosos para as interpretações da Bíblia

José Reis Chaves

Esta coluna de hoje abordará questões relacionadas com as interpretações bíblicas, como demonstra o seu título, além de alguns de seus comentaristas no espaço dos comentários sobre as matérias no portal de O TEMPO.

Alguns debatedores, sem argumentos bíblicos e teológicos convincentes para defenderem seus pontos de vista, têm apelado para dizerem que os textos dos seus adversários e deste colunista são sem contexto.

Por isso, vamos falar também sobre texto e contexto de maneira bem simples como é o meu estilo literário. Texto é um artigo, uma composição e mesmo um livro. Já o contexto é alguma coisa relacionada com o texto dando-lhe ênfase e crédito, o qual pode ser também oral como um sermão ou um discurso. Assim, pois, quando alguém faz um texto em defesa da reencarnação e quer mostrar que ela está também na Bíblia, é normal que ele mencione passagens bíblicas. Porém, alguns dos tais comentaristas, por não crerem na reencarnação, querem dizer que o texto está fora de contexto. Para eles só pode haver contexto, se ele estiver de acordo com o modo de eles interpretarem os textos bíblicos, o que torna falso o seu conceito de contexto, ou seja, eles confundem contexto com a sua crença.

E convenhamos que não se pode aceitar que tudo na Bíblia é a palavra de Deus, pois ela contém também coisas diabólicas que é até blasfêmia atribuí-las a Deus, e nas quais, pois, não creio! Mas creio em outras partes dela. Portanto, não é uma incoerência eu citar partes dela!

Na coluna “Deus é vitorioso absoluto na criação do homem, principalmente”, de 10.7.2017, as referências bíblicas que apresentamos foram justamente para elas confirmarem o título da coluna e o seu texto, como fazem, em todo o mundo, todos os escritores e autores da arte literária. É errada, pois, a afirmação de que o texto da citada coluna é fora de contexto!

Este colunista tem seu modo próprio de interpretar a Bíblia, o que é feito de modo racional e equilibrado como ensina a doutrina espírita. Por isso, fugimos dos excessos de interpretações literais e das abusivas interpretações figuradas. É normal que existam os que discordam de minhas interpretações da Bíblia, o que, porém, nada tem a ver com o meu estilo literário que procuro tornar bem simples e bem ao alcance do grande público, o que sabemos que incomoda muita gente. Realmente, procuro deixar bem claros para o grande público os meus trabalhos em palestras, livros, artigos, traduções, rádios e TV, evitando sempre expressões e vocabulário difíceis. É que quero que meu público não somente entenda o que digo, mas também, que sinta o que sinto!

E na coluna referida, citamos o texto bíblico de Oseias 13: 14: “Onde estás tu, ó inferno?” O qual foi lançado no lago de fogo, o que quer dizer, figuradamente, que o inferno, um dia, será mesmo extinto. É que, se esse tal de inferno “eterno” (o “hades” da mitologia grega) existisse mesmo, Deus teria fracassado totalmente no seu projeto de criação da humanidade, pois de Deus só podem emanar a misericórdia e o amor infinitos! Mas nossos irmãos evangélicos ainda continuam aceitando esse inferno medieval concebido por Dante Alighieri na sua “Divina Comédia”, e que, na época, foi adotado imediatamente pela Igreja, mas que, hoje, acertadamente e graças a Deus, ela não aceita mais!

(Publicado originalmente em coluna de O Tempo, Belo Horizonte, MG,  24/07/2017)

A Deus o que é de Deus

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A palavra de Jesus “Daí a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus” (Marcos, 12,17) passou a ser considerada como fundamento do respeito dos cristãos ao Estado, mas também da separação entre os domínios político e religioso.

É sabido que algumas autoridades do império romano utilizaram essa frase do Cristo até na tentativa para amenização das iras daqueles que recomendavam perseguições aos primitivos cristãos.

Por outro lado, os cristãos sentiam-se à vontade porque se consideravam súditos respeitosos. Paulo fez colocações nessa linha em suas Epístolas.

Interessante o comentário de Emmanuel: “Se pretendes viver retamente, não dês a César o vinagre da crítica acerba. Ajuda-o com o teu trabalho eficiente, no sadio desejo de acertar, convicto de que ele e nós somos filhos do mesmo Deus.”1

Nos albores do cristianismo, no âmbito da administração central do império romano não ocorriam apenas perseguições, o que levou Emmanuel, a partir de versículo de epístola de Paulo: “Todos os santos vos saúdam, mas principalmente os que são da casa de César” (Filipenses, 4, 22), fazer o seguinte comentário: “Muito comum ouvirmos observações descabidas de determinados irmãos na crença, relativamente aos companheiros chamados a tarefas mais difíceis, entre as possibilidades do dinheiro ou do poder. […] Paulo de Tarso, humilhado e perseguido em Roma, teve ocasião de conhecer numerosas almas nessas condições, e o que é mais de admirar – conviveu com diversos discípulos de semelhante posição, relacionados com a habitação palaciana de César. Deles recebeu atenções e favores, assistência e carinho.”2,3

De um lado o Estado romano e, de outro, havia também momentos complicados nas relações com o Sinédrio e seus representantes.

Saulo de Tarso optou em deixar a tradicional e pioneira ecclesia de Jerusalém, ao verificar que surgiam propostas judaizantes por parte de alguns discípulos do Cristo, iniciando sua grande tarefa de divulgador do Evangelho.

Na sua missionária trajetória, o apóstolo Paulo sempre lutou pela independência dos grupos cristãos com relação a autoridades políticas e do judaísmo. Ao comentar a vida e obra de Paulo, o filósofo espírita Herculano Pires destaca a posição clara e marcante do Apóstolo:

"Ele libertava a religião da política e do negócio. Para ele, a religião tinha que ser vivida em si mesma e vivida com toda a independência moral".  A propósito de trecho de Atos dos Apóstolos sobre “muitos milagres e prodígios entre o povo pelas mãos dos apóstolos” o autor aponta que ali se encontra "uma das mais belas confirmações evangélicas da realidade e da verdade do Espiritismo e das suas práticas como continuação do cristianismo em espírito e verdade aqui na terra."4

A mescla de benesses estatais para com o cristianismo se firmou no século IV com o imperador Constantino.

Em nossos tempos, é oportuna a recordação desses fatos históricos para inspirarem a preservação da independência administrativa e financeira das instituições espíritas e a manutenção das condições doutrinárias de fidelidade a Jesus e a Kardec.

Esses objetivos sempre balizaram as ações de Chico Xavier no transcorrer de sua longa existência. Entre muitos episódios nobilitantes, destacamos a opção do médium missionário em deixar uma grande instituição da qual foi um dos fundadores, e dar início a um novo posto de trabalho e de referência, bem simples, o Grupo Espírita da Prece, de Uberaba.5

Referências:  

  1. Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Pão Nosso. 27.ed. Cap. 102. FEB. 2006.
  2. Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Caminho, verdade e vida. 16.ed. Cap. 75. Brasília: FEB. 2012.
  3. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do espiritismo. 1.ed.
  4. Pires, José Herculano. Org. Arribas, Célia. O evangelho de Jesus em espírito e verdade. 1.ed. Cap. 15. São Paulo: Editora Paidéia. 2016.
  5. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Centro espírita. Prática espírita e cristã. Cap.1.1, 7.2, 7.3. Matão: O Clarim. 2016.

As difíceis opções de Paulo de Tarso

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Na monumental obra Paulo e Estêvão, psicografada por Francisco Cândido Xavier, o autor espiritual Emmanuel aprofunda os registros de Atos e das Epístolas de Paulo detalhando as lutas e humilhações do doutor Saulo de Tarso, autoridade na Lei Moisaica perante seu povo.

Paulo renunciou às suas prerrogativas de doutor da Lei ao iniciar seu processo de transformação no Apóstolo do Cristo e foi submetido pelos seus antigos pares e até por seguidores do Cristo, a constrangimentos e dificuldades acerbas.

As posições de Paulo eram claras e continuadamente registrava em suas Epístolas a sua não aceitação da Lei de Moisés e de se antepor aos chamados legalistas. O ex doutor da Lei se insurgia contra as regras e normas típicas de sua antiga religião tradicional. (1)

Emmanuel explicita o impacto sofrido pelo ex doutor da Lei ao retornar à Casa do Caminho: “[…] torturado pela influência judaizante. Tiago dava a impressão de reingresso, na maioria dos ouvintes, nos regulamentos farisaicos. Suas preleções fugiam ao padrão de liberdade e do amor em Jesus Cristo.” (2)

O acadêmico e pároco anglicano Wright é autor de profundos estudos sobre Paulo e opina que a ação do Apóstolo tem “uma dimensão política, entrelaçada num tecido único da teologia e de sua vida”, porém destaca que a história vivida e narrada por Paulo “é uma história de amor e não de poder.” Wright pondera que, na atualidade, Paulo “pode muito bem vir a ser outra vez uma questão não tanto de compreensão, mas de coragem.” (3)

Na literatura espírita, há registros notáveis de Herculano Pires sobre o apóstolo Paulo e que estão relacionadas com as análises do espírito Emmanuel e do pesquisador Wright. Notadamente relacionados com os dilemas e a transição na complexidade vivida por Paulo, imerso em três contextos, ou seja, a tradição do judaísmo, a cultura grega e o domínio e a legislação romana:

“Paulo, que exemplifica o drama da transição da consciência judaica para a cristã, adverte que Deus não deseja cultos externos, semelhantes aos dedicados às divindades pagãs, mas "um culto racional", em que o sacrifício não será mais de plantas ou animais, mas da animalidade, ou seja, do ego inferior do homem.”  (4)

"Ele libertava a religião da política e do negócio. Para ele, a religião tinha que ser vivida em si mesma e vivida com toda a independência moral".  (5)

A propósito de trecho de Atos sobre “muitos milagres e prodígios entre o povo pelas mãos dos apóstolos”, Herculano Pires aponta que ali se encontra "uma das mais belas confirmações evangélicas da realidade e da verdade do Espiritismo e das suas práticas como continuação do cristianismo em espírito e verdade aqui na terra." (5)

Entendemos que o exemplo de vida e as difíceis opções de Paulo rumo ao “alvo” – “Prossigo para o alvo…” (Filipenses, 3.14), e as Epístolas de Paulo, abstraindo-se algumas discussões do contexto da época, devem merecer o estudo dos espíritas.

Destacamos que na chamada série “Fonte Viva” e demais livros em que Emmanuel comenta versículos do Novo Testamento, de um total de cerca de 1.300 capítulos, mais de um terço dos capítulos se referem a citações de Paulo.

Bibliografia:

  1. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do espiritismo. 1. ed. Matão: O Clarim. 2016.
  2. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Paulo e Estêvão. Ed.esp. 2a Parte, Cap. 3. Brasília: FEB. 2012.
  3. Wright, Nicolas Thomas. Trad. Soares, Joshua de Bragança. Paulo.  Novas perspectivas. São Paulo: Edições Loyola, 2009.
  4. Pires, José Herculano. O espírito e o tempo. 1ª parte, Cap.II. São Paulo: Ed. Pensamento. 1964.
  5. Pires, José Herculano. Org. Arribas, Célia. O evangelho de Jesus em espírito e verdade. 1.ed. Cap. 15. São Paulo: Editora Paidéia. 2016.

(Ex-presidente da USE-SP e da FEB)