Yvonne Pereira – orientadora sempre atual e necessária

Yvonne Pereira – orientadora sempre atual e necessária

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

A convite do Grupo Espírita Casa do Caminho, de São Paulo, desenvolvemos um estudo sobre mediunidade com base nos capítulos VI e VII do portentoso livro Memórias de um suicida, do espírito Camilo Cândido Botelho, psicografado por Yvonne Pereira. O tema central é o atendimento de espíritos suicidas prestado pelo Instituto Correcional Maria de Nazaré no Mundo Espiritual e a atuação da Legião dos Servos de Maria.

Nos capítulos citados o autor espiritual focaliza as relações do Instituto e da Legião com agremiações de estudo e experiências mediúnicas. Os depoimentos do autor – o destacado escritor luso Camilo Castelo Branco -, mas utilizando um pseudônimo, se desdobram em profundos e oportunos esclarecimentos. Quantos cuidados, amor e dedicação por parte da Legião junto ao centro espírita que serviu de base para os atendimentos fraternos!

Em função da preparação de nosso estudo, fizemos uma autêntica viagem no tempo, relembrando episódios da vida missionária de Yvonne Pereira e de momentos que vivemos na relação com sua obra e pessoa. Temos conhecimentos das dificuldades que a médium enfrentou para a publicação do livro Memórias de um suicida, que veio a lume em 1954, anos após a conclusão.

Yvonne do Amaral Pereira (1900-1984) sempre nos suscitou admiração pelos seus exemplos de vida, pela sua obra mediúnica, culminando com o privilégio de a conhecermos em janeiro de 1977, juntamente com a esposa Célia, em seu lar no Rio de Janeiro, onde residia com a irmã Amália Pereira Lourenço, levados pelo amigo comum Altivo Pamphiro, então presidente do Centro Espírita Léon Denis, da mesma cidade. Aliás, no Centro citado havia a colaboração de uma sobrinha de Yvonne, juntamente com o esposo. No nosso histórico encontro desenvolveu-se um diálogo muito instrutivo e esclarecedor. Em parte sobre alguns fatos já anteriormente registrados em Devassando o invisível, e outros episódios mais detalhadamente relatados por ela, pouco tempo depois, na revista Reformador, utilizando o pseudônimo de Frederico Francisco.

Yvonne manteve amizade, muitos contatos e correspondência com Chico Xavier. Durante uma longa fase de sua vida fazia palestras. Nos livros, palestras e diálogos era lídima defensora das obras de Allan Kardec e das ações simples. Dezenas de luminares espirituais se manifestaram pela sua mediunidade, mas Bezerra de Menezes era um orientador constante e inclusive no receituário homeopático.

Em atividades como diretor da FEB, tivemos a oportunidade de visitar e desenvolver trabalhos doutrinários em cidades fluminenses em junho de 2010, juntamente com Edmar Cabral Jr. (da equipe da secretaria geral do CFN da FEB) e acompanhados pelo diretor do CEERJ Humberto Portugal e proferimos palestra alusiva aos 124 anos do Grêmio Espírita da Beneficência, em Barra do Piraí (RJ), onde ela atuou e há um pequenino museu. Já liberado de encargos na FEB, em agosto de 2016, a convite do Instituto Espírita Bezerra de Menezes, de Niterói, integramos a Caravana Yvonne Pereira, coordenada por Hélio Ribeiro, e proferimos palestras sobre a obra da médium, em várias cidades: Niterói, Rio de Janeiro, Miguel Pereira, Vassouras, Barra do Piraí e Valença.

Sempre fomos admirador da vida e dos livros mediúnicos de Yvonne Pereira. Alguns livros por ela redigidos estavam “perdidos”. Graças à compreensão da família dela, a intercessão e o apoio do então diretor da FEB Affonso Soares – esperantista e amigo de Yvonne -, foi possível recuperar e publicar nos anos 2013 e 2014, durante nossa gestão na FEB (*), quatro volumes inéditos da dedicada médium – A família espírita, Evangelho aos simples, As três revelações, Contos amigos -, que constituem uma série de obras voltada à família, a crianças e jovens e à reunião do Evangelho no lar. Esses livros foram elaborados pela médium entre 1964 e 1971 e contam com orientação e mensagens de Bezerra de Menezes.

O conjunto dessas quatro obras de Yvonne A. Pereira constitui um formidável repositório para utilização em várias situações da difusão dos princípios espíritas, facilmente adaptáveis para diversas faixas etárias e sociais e se enquadrando em distintos contextos para o ensino espírita. Essas obras de Yvonne podem servir de roteiro ou texto básico não apenas para as reuniões com crianças e adolescentes e de Evangelho no lar, mas também em reuniões com adultos, notadamente em ambientes cujo público alvo seja constituído de pessoas mais simples.

Os livros mediúnicos de Yvonne Pereira devem merecer mais atenção, difusão e estudo no movimento espírita!

(*) – O autor foi presidente interino da FEB -2012/2013- e presidente – 2013/2015.

As reflexões sobre o Pacto Áureo e o futuro do movimento espírita

Especial

As reflexões sobre o Pacto Áureo e o futuro do movimento espírita

Eliana Haddad

Na tarde de 19 de outubro, sábado, foi realizado na sede da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo o Seminário "70 anos do Pacto Áureo – História e Reflexão", com considerações alusivas ao passado, presente e futuro do movimento espírita.

Contando com a presença de representantes de órgãos espíritas paulistas e das entidades inicialmente patrocinadoras a Federação Espírita do Estado de São Paulo (Roberto Watanabe), a Liga Espírita do Estado de São Paulo (Silvio Neris da Silva e Alcides Barbosa) e a Sinagoga Espírita Nova Jerusalém (Daniel Quinto e Sergio Ruiz Piovesan), o evento analisou o histórico acordo assinado em 5 de outubro de 1949 entre o presidente da Federação Espírita Brasileira e representantes de algumas federativas estaduais do Sul e do Sudeste e que resultou na criação do Conselho Federativo Nacional da FEB.

O seminário (coordenado por Maurício Romão, diretor da USE-SP), contou com exposições de Antonio Cesar Perri de Carvalho sobre "Da fundação da USE até o Pacto Áureo"; Júlia Nezu sobre “A prática do Pacto Áureo”, e Rosana Amado Gaspar, atual presidente interina da USE, sobre o tema "Construindo o futuro".

Em seguida, os expositores responderam a perguntas, formuladas pelos presentes, dirigentes de centros e órgãos da USE, principalmente da Capital e alguns do interior.

Além de representantes da USE Regional de São Paulo e dos órgãos que a compõem, estiveram presentes os representantes das USEs Intermunicipais de São José do Rio Preto (Silvana Aparecida Correa), Catanduva e Mauá.

Seguem abaixo trechos das exposições e respostas ao público dos palestrantes.

Sobre o presente

“Uma reflexão que fazemos para o momento atual é com respeito ao Conselho Federativo Nacional. Diz o Pacto Áureo que a FEB criará um Conselho Federativo Nacional permanente com a finalidade de executar, desenvolver e ampliar os planos da sua organização federativa. O CFN hoje congrega os 27 estados brasileiros e não podemos tirar o mérito do Conselho. Apesar de hoje funcionar como um órgão subordinado à FEB, e sua estrutura não ser ideal no nosso modo de ver, sua ação contribuiu para o crescimento e a difusão do espiritismo no Brasil inteiro, principalmente nos estados do Norte e Nordeste. No Sul, por exemplo, os cursos começaram a ser adotados pelas casas espíritas, tivemos o Edgard Armond que fundou as escolas na Federação Espírita do Estado de São Paulo e outras iniciativas. Assim, não tivemos por aqui carências tão grandes dessa ajuda mútua que acontece no CFN.

Não estamos aqui para tirar os méritos daquilo que já aconteceu e também a importância desse trabalho conjunto realizado pelo CFN.

Na época do Nestor Masotti e do Cesar Perri [ex-presidentes da FEB], pensamos que teríamos algumas aberturas, com participação mais coletiva do movimento espirita através das federativas dentro do CFN. Havia um regimento e essa abertura foi uma tentativa para democratizar um pouco mais e para que as federativas pudessem ter maior poder de ação.

Ao nosso ver, o Pacto Áureo serviu para esses 70 anos, construiu-se muito, e ninguém nega o valor do trabalho que as federativas realizaram, o trabalho dos diretores e seus esforços em levar o movimento espírita com uma direção segura.

Penso que o Pacto Áureo foi escrito para um tempo, mas ele continua norteando algumas coisas no movimento espírita e talvez seja sobre isso que tenhamos que refletir. Não é alterar o Pacto Áureo, mas seria um novo pensar, um novo direcionamento, uma adequação aos tempos atuais para a exigência de um movimento espirita mais amadurecido.” (Júlia Nezu)

Sobre o futuro

“Quando falamos de movimento espírita, de construção de futuro, percebemos que o passado pode alterar o nosso presente. E começamos a ter um ponto de vista diferente do que tínhamos quando estudamos a história, constatando que é com as nossas ações no presente que podemos mudar o futuro.

As ações corajosas do Pacto Áureo conseguiram consolidar, fortalecer o CFN – Conselho Federativo Nacional. Os Estados têm suas federativas, que são exitosas e atuantes.

De certa maneira, graças a esses homens e à participação da Federação Espirita Brasileira, conseguimos ter um CFN fortalecido atualmente e é por conta disso mesmo que estamos conversando sobre este assunto.

Vemos que no Pacto Áureo alguns itens geram polêmicas, como seu primeiro item, e que em algumas gestões vários itens foram atualizados através de documentos, como: Orientação ao centro espírita e Orientação aos órgãos de unificação.

Kardec diz que não há nenhum documento, nenhum contrato entre os espíritas para que eles se reúnam. O que deve haver é a fraternidade entre os homens. E, também, que um dos maiores obstáculos que poderiam entravar a propagação da doutrina seria a falta da unidade.

Jesus conclama para que coloquemos a candeia acima do alqueire e a nossa postura é de construção sempre. Não é de dissensão, de desarmonia, mas de construir, de modificar, de melhorar o que já está estabelecido." (Rosana Amado Gaspar)

Um documento histórico

"No movimento espírita, a gente tem uma ideia de conservação, mas vamos lembrar quantas constituições o Brasil já teve nesses anos. Existe alguma coisa mais importante do que a constituição do país? Ou um acordo de união escrito num momento histórico significativo, marcante, um documento cabível para aquele momento? Temos que pensar nisso. O que é documento histórico e o que é vigente.

O mais importante é que haja uma maior atuação administrativa das federativas no CFN. Pressupõe-se que o presidente de uma federativa tenha vivência espírita de seu estado e isso deve ser valorizado no Conselho. Essa era uma ideia do ex-presidente Nestor Masotti e nossa, que o sucedemos. Todavia há dificuldade em se compreender por que a diretoria da FEB é eleita por um conselho superior, composto por pessoas físicas e não por federativas. E essas pessoas físicas são indicadas pela diretoria da FEB. Em mais de 130 anos de existência, a FEB teve apenas dois presidentes que caminharam efetivamente (pelo Movimento Espírita) do tempo de mocidade espírita, direção de centro espírita, direção de órgão de unificação, direção de federativa, até chegar à presidência.” (Antonio Cesar Perri de Carvalho)

Transcrito de:

Jornal Dirigente Espírita, USE-SP, São Paulo. Ano XXX, No. 174. Novembro/Dezembro de 2019. P. 8 e 9.

Base para interpretação das profecias

Base para interpretação das profecias

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Há pouco tempo ocorreram dois fatos coincidentes: recebi convite para desenvolver palestra sobre o tema “Profecias espíritas: sim ou não?” no Centro Espírita N.S.Nazaré, em Itupeva (SP); o outro fato ocorreu num grupo de mensagens onde um confrade escreveu: “Há espíritas fazendo mais previsões do que ciganos…”

De imediato, lembramos que em função de algumas interpretações que são feitas sobre a chamada “transição planetária”, reunimos a equipe da antiga secretaria geral do Conselho Federativo Nacional da FEB que fez um estudo, em seguida publicado em série de três artigos na revista Reformador1, tendo como fundamentação as obras de Allan Kardec, notadamente A Gênese.

Realmente é um tema que deve merecer estudo na seara espírita, principalmente à luz da sesquicentenária obra A Gênese. Aliás, esta tem como subtítulo “Os milagres e as predições segundo o Espiritismo”, e, no final, dois capítulos: “Os tempos são chegados” e “Sinal dos tempos”.2 Logicamente, a partir desta obra estabelecemos a linha de raciocínio para desenvolvermos a palestra proposta.

De início, cabe um breve retrospecto à “Escatologia”, que significa "estudo das últimas coisas", um ramo do conhecimento que trata dos acontecimentos do fim dos tempos descritos na Bíblia e é um tema que surge em muitos livros da Bíblia. A escatologia bíblica cristã, ao considerar a consumação de todas as coisas, cuida de explicar a vida após a morte, o fim dos tempos, o retorno de Jesus, a ressurreição, o Juízo Final. Ocupa-se também do estudo do final dos tempos e da segunda vinda do Cristo. Paulo de Tarso tece considerações sobre tais temas em suas epístolas e chega a lutar com dificuldades em virtude de deturpações e extremismos criadas pela temática, conforme registra em sua 2ª Epístola aos Tessalonissenses. Da mesma forma, o apóstolo sempre lutou contra os chamados “falsos profetas”.

A essa altura devemos fazer um registro pois na história e tradição judaica têm destaque os profetas.

O chamado profetismo bíblico deve merecer atenção à parte conforme destaque feito por Herculano Pires em sua obra O Espírito e o Tempo3. Em síntese, Herculano Pires considera: o profeta tinha ligações diretas do Deus individual com o indivíduo humano e não necessita mais dos sacerdotes, nem dos deuses; profeta hebreu seria um indivíduo tridimensional: o social; o mediúnico; e o espiritual. Eram plenos de dignidade pessoal, de consciência da sua missão divina, e não temiam denunciar os poderosos do tempo. A tônica da tendência religiosa hebraica responde pela característica espiritual do profetismo, que atinge a sua maior amplitude graças ao fato histórico da vulgarização do monoteísmo.3

Desses fatos pode-se compreender a origem das informações proféticas e anúncios de finais do mundo que sempre estiveram presentes notadamente na trajetória do Cristianismo. Todavia, torna-se importante recorrermos à Obra da Codificação.

Em A Gênese, há trechos marcantes do Codificador: “O resultado final de um acontecimento pode, pois, ser certo, já que está nos desígnios Deus. Mas, como frequentemente, os detalhes e o modo de execução são subordinados às circunstâncias e ao livre-arbítrio dos homens; os caminhos e os meios podem ser eventuais. Os Espíritos podem nos alertar sobre o conjunto, se for útil que sejamos prevenidos. Mas para precisar o lugar e a data, eles deveriam conhecer previamente a decisão que tal ou qual indivíduo tomará.”2

Inclusive Kardec comenta sobre “a forma misteriosa e cabalística da qual Nostradamus nos oferece o exemplo mais completo dá-lhe certo prestígio aos olhos do homem comum, que lhe atribui tanto mais valor quanto mais sejam incompreensíveis.”2

Em outra parte, Kardec lembra que “a humanidade contemporânea tem também seus profetas; mais de um escritor, poeta, literato, historiador ou filósofo pressentiu, em seus escritos, a marcha futura dos acontecimentos que se veem realizar atualmente. […] Mas, frequentemente também, ela é o resultado de uma clarividência especial…”2

Sobre o futuro, o Codificador também alerta que “a fraternidade será a pedra angular da nova ordem social, mas não há fraternidade real, sólida e efetiva sem estar apoiada sobre uma base inabalável. Essa base é a fé; não a fé em tais ou quais dogmas particulares que mudam com o tempo e os povos e que se apedrejam mutuamente…”2

Portanto, Kardec pondera que “a época atual é a da transição: os elementos das duas gerações se embaralham. Colocados no ponto intermediário, presenciamos a partida de uma e a chegada da outra, a cada qual se distingue no mundo pelas características que lhe são próprias.”2

Na sequência, tece considerações sobre a “nova geração marchará para a realização de todas as ideias humanitárias compatíveis com o grau de adiantamento ao qual tenha chegado. […] A nova geração, devendo fundar a era do progresso moral, distingue-se por uma inteligência e uma razão geralmente precoces, somadas ao sentimento inato do bem e das crenças espiritualistas. É o sinal incontestável de um certo grau de adiantamento anterior.”2

Interessante é que Kardec dá mais importância às transformações morais e espirituais do que às alterações físicas cíclicas de nosso orbe.

Em histórica obra elaborada antes da eclosão da 2ª Guerra Mundial, Emmanuel discorre sobre o porvir, de uma forma bem geral, analisando no capítulo “A América e o futuro” alguns aspectos como: “Em torno dos seus celeiros econômicos, reunir-se-ão as experiências europeias, aproveitando o esforço penoso dos que tombaram na obra da civilização do Ocidente para a edificação do homem espiritual, que há de sobrepor-se ao homem físico do planeta, no pleno conhecimento dos grandes problemas do ser e do destino. […] Nos campos exuberantes do continente americano estão plantadas as sementes de luz da árvore maravilhosa da civilização do futuro.”4

E surgem algumas anotações sérias sobre o futuro da Humanidade: “Mas é chegado o tempo de um reajustamento de todos os valores humanos. Se as dolorosas expiações coletivas preludiam a época dos últimos ''ais'' do Apocalipse, a espiritualidade tem de penetrar as realizações do homem físico, conduzindo-as para o bem de toda a Humanidade. […] O cajado do pastor conduzirá o sofrimento na tarefa penosa da escolha e a dor se incumbirá do trabalho que os homens não aceitaram por amor. Uma tempestade de amarguras varrerá toda a Terra. […] Condenada pelas sentenças irrevogáveis de seus erros sociais e políticos, a superioridade europeia desaparecerá para sempre, como o Império Romano, entregando à América o fruto das suas experiências, com vistas à civilização do porvir. Vive-se agora, na Terra, um crepúsculo, ao qual sucederá profunda noite; e ao século XX compete a missão do desfecho desses acontecimentos espantosos.”4

As anotações de Emmanuel são, no geral, coerentes com textos evangélicos: “No mundo tereis grandes tribulações, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João, 16,33). O versículo seguinte, no entendimento espírita, pode ser interpretado como intensos intercâmbios com o “céu aberto”, ou seja, manifestações de ordem espiritual: “Na verdade, na verdade vos digo que daqui em diante vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (João, 1, 51).

A essa altura, são cabíveis as advertências registradas no Novo Testamento com relação aos “falsos profetas”. Entre outras: “Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, … Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? […] Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. (Mateus, 7, 15, 20).

As interpretações deturpadoras e alarmantes de profecias e previsões de domínio público e ainda outras que são atribuídas a médiuns já desencarnados muitas vezes causam inseguranças e temores. Isso sem se discutir a questão doutrinária e a coerência do perfil e das obras públicas dos eventuais envolvidos. Sobre isso, Emmanuel analisa em tom esclarecedor: “[…] em sobrevindo a divisão das angústias da cruz, muitos aprendizes fogem receando o sofrimento e revelando-se indignos da escolha. Os que assim procedem, categorizam-se à conta de loucos, porquanto, subtrair-se à colaboração com o Cristo, é menosprezar um direito sagrado.”5

E, finalmente, para os novos crentes na “parusia” – que ainda aguardam um retorno do Cristo -, Emmanuel anotou de forma clara: “Os homens esperam por Jesus e Jesus espera igualmente pelos homens.”6

Nessas rápidas pinceladas sobre o polêmico tema profecias, entendemos que merece ser estudado e analisado com base nas Obras Básicas da Codificação e aquelas que são coerentes e complementares às mesmas. Há necessidade de bom senso e fundamentação em conhecimentos científicos atuais e, no nosso caso, fidelidade às obras de Allan Kardec. O pouco estudado livro A Gênese, deve merecer mais atenção na seara espírita!

Referências:

1) Equipe Secretaria Geral do CFN da FEB (Org.) Transição para a Nova Era. Reformador. N. 126. Outubro de 2010; A transição e o caminho para a Nova Era. Reformador. N.127. Novembro de 2010; A transição e o papel do Espiritismo. Reformador. N.128. Dezembro de 2010.

2) Kardec, Allan. A gênese. Os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Cap. XVII e XVII. São Paulo: FEAL. 2018.

3) Pires, José Herculano. O espírito e o tempo. 1ª parte. Cap. IV. São Paulo: Ed.Pensamento, 1964.

4) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. A caminho da luz. Cap. 24 e 25. Brasília: FEB. 2013.

5) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Pão nosso. Cap. 104. Rio de Janeiro: FEB. 2005.

6) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Fonte viva. Cap. 17. Rio de Janeiro: FEB. 2005.

(Extraído de: Revista Internacional de Espiritismo, edição de agosto de 2019)

(*) Ex-presidente da FEB e da USE-SP.

Homenagem a Alexandre Sech

Homenagem a Alexandre Sech

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Desencarnou Alexandre Sech, em Curitiba, no dia 2 de outubro de 2019. Nasceu em Ponta Grossa (Paraná) no dia 17/10/1936. Era casado com Maderli, sendo pais de oito filhos, tendo netos e bisneto.

Atuou no movimento espírita desde os tempos de Mocidade Espírita em Ponta Grossa. Participou da reorganização do Centro Espírita “Luz Eterna”, de Curitiba, na década de 1960. Neste local, junto com a esposa, amigos como dr. Célio Trujillo Costa, Ney de Meira Albach e Neuton de Meira Albach, deram início em 1970 ao programa de estudos conhecido como COEM – Centro de Orientação e Educação Mediúnica.

Antes disso, estiveram em Uberaba onde receberam mensagem de Bezerra, psicografada por Chico Xavier, no dia 17/5/1969, de onde destacamos um trecho: “Trabalhemos, visando a essa bendita realização: a mediunidade ajustada a Kardec, para que o ensinamento de Jesus seja realmente vivido”.1 No Centro citado criaram também o “Programa Básico de Doutrina Espírita”.

Conhecemos Alexandre e toda a equipe a partir da amizade em comum com Divaldo Pereira Franco, iniciando por visita de Alexandre em atividade deste orador em Araçatuba, em abril de 1972. Seguidas de viagens nossas a Curitiba. Em fevereiro de 1974, fomos responsáveis pela implantação do programa "Centro de Orientação e Educação Mediúnica" (COEM), no Centro Espírita "Luz e Fraternidade", em Araçatuba (SP). Esta foi a adoção pioneira no Estado de São Paulo do programa elaborado pelo Centro Espírita "Luz Eterna" (de Curitiba), sob a liderança de Alexandre Sech, Célio T. Costa, Ney e Neuton Albach.2

O COEM é um programa de estudos que tem por base O livro dos médiuns e demais obras da Codificação, bem como algumas obras subsidiárias e utiliza o processo preconizado por Allan Kardec do aprendizado gradativo e sistemático, partindo do simples para o complexo. Os bons resultados da aplicação do referido programa foram evidentes favorecendo a formação de equipe de trabalho e a expansão de atividades do Centro Espírita. Em seguida esse programa de estudos foi adotado em vários locais do Estado de São Paulo, como o Grupo Espírita Batuíra, de São Paulo, e instituições de Santos, Bauru, Araraquara, Osasco, Rancharia e Franca; também de vários outros Estados e alguns países.

Juntamente com Alexandre e Maderli e nossa esposa Célia, estivemos juntos em visita a Chico Xavier na Comunhão Espírita de Uberaba. E em vários eventos no Estado de São Paulo, Curitiba, Ponta Grossa e no Rio de Janeiro. Alexandre Sech atuou também como médium, inclusive psicógrafo. Sech foi atuante junto à Federação Espírita do Paraná durante várias décadas. Ligado à FEP foi durante anos médico e também diretor do Hospital Psiquiátrico Bom Retiro, tendo a esposa, que é psicóloga, como diretora administrativa.

Em Araçatuba, onde éramos dirigente da então União Municipal Espírita, hoje USE Intermunicipal de Araçatuba, iniciamos eventos regionais anuais como a Jornada sobre Mediunidade e depois a Confraternização de Espíritas da Alta Noroeste, sempre com a atuação de Alexandre e equipe do Centro Espírita Luz Eterna, de Curitiba. Naquela época Alexandre contribuiu a com a publicação Encontro com a Cultura Espírita (Ed. O Clarim). Proferiu palestras nas várias regiões do país.

Algum tempo depois em entrevista realizada em Araçatuba com Divaldo Pereira Franco, a respeito de desenvolvimento mediúnico este se referiu à experiência local nos idos de 1983: “O melhor método de orientação ao desenvolvimento mediúnico ainda é o COEM, para estudo, porque predispõe, ensino; como o próprio nome diz orienta, naturalmente que adaptado a cada necessidade local. Como por exemplo, sei que aqui em Araçatuba – com conversei muito com o Cesar, através dos anos -, a aplicação do COEM é realizada dentro das chamadas necessidades do movimento espírita de Araçatuba […] Mas este é o método kardequiano: estudo, reflexão, exercício, meditação…”2

Anos depois com nossas mudanças de cidades e atuações junto à União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, na capital paulista, e em Brasília, junto à Federação Espírita Brasileira e Conselho Espírita Internacional, estivemos com Sech em outros eventos, como encontro promovido pelo CEI, na sede da FEB, em 2002, e, no 4º. Congresso Espírita Mundial, em Paris, em 2004.

Nosso último encontro ocorreu por ocasião de palestra nossa, na condição de presidente da FEB, por ocasião de comemoração do centenário do Centro Espírita Mensageiro da Paz, na sede da Federação Espírita do Paraná, em 2013.

Há alguns anos Alexandre estava adoentado e afastado de suas atividades espíritas e profissionais. Alexandre Sech encerrou sua atuação profissional como psiquiatra. O Conselho Regional de Medicina do Paraná homenageou-o em 2013 quando completou 50 anos de sua formatura como médico pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná. Recebeu em solenidade do Dia do Médico, o Diploma de Mérito Ético-Profissional por ter alcançado os 50 anos de formado com histórico exemplar. Na ocasião, foi o filho médico quem lhe entregou a comenda. Teve participação ativa na constituição de entidades representativas do setor hospitalar.3

Registramos nossa homenagem e gratidão ao amigo Alexandre Sech que durante décadas interagimos em ações espíritas e familiares, explicitando que sua influência foi muito importante no início dos anos 1970, decisiva para a reorganização do Centro Espírita “Luz e Fraternidade”, de Araçatuba, que fomos um dos fundadores, e também para a ativação do movimento espírita naquela região.

Fontes:

1) Centro de Orientação e Educação Mediúnica – COEM. Centro Espírita Luz Eterna, Curitiba. Vol. 1, 2010 (apostila).

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Centro Espírita. Prática espírita e cristã. Cap. 5.4.4 . São Paulo: USE. 2016.

3) https://www.crmpr.org.br/Nota-de-pesar-psiquiatra-Dr-Alexandre-Sech-CRMPR-1469-11-52515.shtml (consulta em 14/10/2019).

(*) – Foi dirigente espírita em Araçatuba (SP); presidente da USE-SP e da FEB; ex-membro da Comissão Executiva do CEI.

Obs.- fotos: homenagem no CRM-Pr, 2013; Jornada sobre Mediunidade em Araçatuba (1976), Sech com esposa, Ney Albach, Célio Costa e esposa. 

(Texto publicado em: Boletim de Notícias (de Ismael Gobbo), e, Revista digital O Consolador)

Quem sabe?

Quem sabe?

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Pela passagem da data de desencarnação de Bittencourt Sampaio (10 de outubro) e homenageando-o com palestra que proferimos na semana sobre vultos espíritas no Grupo Espírita Casa do Caminho, de São Paulo, lembramos de conhecida canção, uma “modinha” muito repetida no início do Século XX e lembrada por muitos: “Quem sabe?”

Nas estrofes iniciais, e repetidas, diz a letra: “Tão longe de mim distante,/ Onde irá teu pensamento./ Quisera saber agora…”

O fato histórico é que essa letra é de autoria de Bittencourt Sampaio, destacado pioneiro do movimento espírita brasileiro. Ele a escreveu quando estudava Direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atualmente da USP), em São Paulo. Também de sua autoria a letra do Hino desta Faculdade da USP. Ambas foram musicadas pelo seu amigo de juventude, Carlos Gomes.

A passagem do conhecido letrista por São Paulo gerou uma homenagem a ele: a rua Bittencourt Sampaio, esquina com rua Santa Cruz, bairro de Vila Mariana.

O pioneiro espírita Francisco Leite de Bittencourt Sampaio (1834-1895), nascido em Sergipe, atuou no Rio de Janeiro como jurista, político, jornalista, literato e espírita vinculado a grupos que originaram a FEB.

Bittencourt atuava de maneira simples e dedicada nos ambientes espíritas da cidade do Rio de Janeiro, inclusive como receitista de homeopatia no "Grupo Confúcio", entidade que integrava a diretoria desde 1873. Participou também da Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade, da qual foi um dos fundadores em 1885, depois desdobrada como "Grupo do Saião", destinado ao estudo e prática dos Evangelhos, e "Grupo Ismael", e esta veio a integrar à Federação Espírita Brasileira (fundada em 2/1/1884). Como médium recebeu belas e instrutivas mensagens de Espíritos Superiores. Fato histórico foi a publicação de seu livro A Divina Epopéia de João Evangelista em 1882. Reproduz o Evangelho de João, em versos decassílabos, em versos heróicos. Considera “O Evangelista apóstolo do amor foi o maior poeta da antiguidade depois de Job, de Salomão e David”. Esta obra pioneira somente veio a ser editada pela FEB no ano de 1938. Admiramos o autor, embora não concordemos com algumas de suas interpretações doutrinárias.

Ocorrências posteriores foram relatadas por Bezerra Menezes, como médico, na sua obra A loucura sob novo prisma, sobre reuniões de tratamento espiritual com participação de figuras notáveis como o médium Frederico Pereira da Silva Júnior, Pedro Richard, Antônio Luís Saião, Francisco Leite Bittencourt Sampaio, e outros companheiros.

Interessante episódio histórico relaciona mais uma vez Bittencourt e Bezerra. A FEB estava em crise e, em julho de 1895, Bezerra de Menezes, que já havia sido presidente por um ano, foi procurado por membros da diretoria da Federação. Bezerra estava cansado, doente, abatido pela dissensão entre os irmãos espíritas, e não aceitou o convite, mas pediu um tempo para pensar. No dia seguinte, compareceu ao Grupo Ismael, onde dirigia os trabalhos. Abriu a reunião, mas parecia aflito e preocupado. Depois da prece de abertura, feita por Bittencourt Sampaio, e após o recebimento de mensagens psicografadas, Bezerra usou da palavra no momento da explanação dos temas evangélicos, e se referiu às desavenças no Movimento Espírita e sobre o convite que havia recebido. Confessou-se fraco, mas acabou sendo convencido do compromisso. Bittencourt desencarnou três meses após este episódio, no dia 10 de outubro de 1895.

O livros de Francisco Cândido Xavier fazem referências a Bittencourt Sampaio em Crônicas de Além Túmulo, Voltei, e Instruções psicofônicas.

Trechos da letra de “Quem sabe?”, embora na época escrita com outra motivação, nos sugerem a reflexões sobre as expectativas e inseguranças que permeiam os tormentosos tempos atuais. Ou seja, quem sabe como e para onde vamos?

Aí destacamos de texto de autoria do espírito Bittencourt Sampaio, concluindo uma mensagem inserta em Instruções psicofônicas:

“[…] Não ignorais que a civilização de hoje é um grande barco sob a tempestade… Mas, enquanto mastros tombam oscilantes e estalam vigas mestras, aos gritos de equipagem desarvorada, ante a metralha que incendeia a noite moral do mundo, Cristo está no leme! Servindo, pois, infatigavelmente, repitamos, confortados e felizes: Cristo ontem, Cristo hoje, Cristo amanhã!…"

Fontes:

- Aragão, Silvan (Org.). Bittencourt Sampaio. Nebulosa radiante. Aracaju: FEES. 2016.

- Associação Médico Espírita do Brasil. Adolfo Bezerra de Menezes. Biografia. Acesso: http://www.amebrasil.org.br/html/perfil_bezerra.htm (julho de 2016).

- Carvalho, Antonio Cesar Perri. Bittencourt Sampaio e a Epopéia do Evangelho. Reformador. No 2.219, fevereiro de 2014, p.78-81.

- Menezes, Adolfo Bezerra. A loucura sob novo prisma. Cap.II. Rio de Janeiro: FEB. 1946.

- Xavier, Francisco Cândido. Espíritos diversos. Instruções psicofônicas. Cap.64. Brasília: FEB.

(*) Ex-presidente da USE-SP e da FEB.

O fenômeno tio Juca

O fenômeno tio Juca – Médium marcante e exemplo de solidariedade

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Por ocasião de nossa estada em Vitória da Conquista (Bahia), para cumprir programa do XII Encontro da Casa Espírita Francisco Cândido Xavier, também proferimos palestra no Centro Espírita André Luiz. Numa noite fria de agosto de 2019, ao chegarmos no “André Luiz”, fomos recepcionado afetuosamente por Aurora Benjamim Rocha, antiga médium, uma das fundadoras do Centro (em 1985) e dirigente, sempre acompanhada de seu esposo Edmundo Santos Rocha, o atual presidente.

Na oportunidade ela se referia a palestras nossas proferidas em Congressos Estaduais da Bahia e, como comentávamos sobre alguns livros ali expostos, ela nos ofertou a obra O fenômeno Tio Juca (também disponível em livrarias virtuais) – que desconhecíamos a existência -, informando que tem constatado a presença deste espírito no Centro. Trata-se de livro que reúne registros sobre atuações do médium José Soares de Gouveia (1898-1965), conhecido familiarmente como Juquinha e em geral como Tio Juca.

O autor é Eusínio Gaston Lavigne (1873-1973), descendente de franceses que foi líder político e prefeito de Ilhéus (Bahia), espírita e autor de diversos livros. A apresentação é assinada pelo dr. Roberto Requião, de Feira de Santana. Lavigne organizou o livro em três partes: O fenômeno Tio Juca. Faculdades psíquicas; Tio Juca: O cidadão e o cristão operante. Fatos que definem sua personalidade, caráter e inclinação para o bem e a solidariedade humana; Tio Juca: Memória prodigiosa. Fatos excepcionais e edificantes e anedotas reais de fundo educativo. Cada uma das partes conta com cerca de 30 relatos de casos.

Logo após nosso retorno ao lar passamos a ler o livro citado. À medida que nos aprofundávamos na leitura aumentava o interesse pelos inúmeros fatos colecionados sobre o notável médium. Tio Juca viveu no Ceará, Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro, em função de ser funcionário público federal no cargo de “fiscal de consumo”. Casado e com filhos, com raízes familiares e residência mais prolongada na Bahia.

Em Salvador fundou a “Casa do Tio Juca”, para atendimento de crianças e que chegou a contar com reconhecimento de utilidade pública. Há relatos de inúmeros alertas espirituais para se evitar acidentes, sonhos premonitórios, várias curas, localização de pessoas e objetos, chamamentos espirituais para atendimento de pessoas em risco, apoio financeiro a pessoas, encaminhamento de pessoas para uma vida equilibrada, tudo sempre com muita motivação de solidariedade humana. O interessante é que os fenômenos eram sempre espontâneos, inesperados e contavam com rápidas providências do médium. Um caso surpreendente foi a localização de uma jovem desaparecida há cerca de 20 anos na Amazônia. Insistentemente orientado por espíritos, de maneira voluntária e sem ter nenhum conhecimento do episódio, com base nas informações insistentes de natureza espiritual, empreendeu uma longa e complicada viagem, uma autêntica aventura, ele a localizou numa tribo indígena, bem integrada e realizando um trabalho que a satisfazia. Em seguida, já tendo descoberto onde residia a mãe da jovem, em Manaus, procurou-a e informou-a de que a filha estava viva e bem, e não queria retornar à antiga condição familiar e social, entregando-lhe um medalhão de família, devolvido pela jovem. Inúmeras pessoas foram repentinamente beneficiadas pelas ações espontâneas de solidariedade praticadas por Tio Juca, atendendo à sua intuição ou claramente orientado por Espíritos.

Sempre fiel cumpridor de seus deveres profissionais e totalmente avesso a qualquer forma de corrupção passou por momentos difíceis e até sofreu um atentado contra sua vida, sendo alvejado várias vezes. Atendido em hospital e pelos espíritos, recuperou-se rapidamente surpreendendo a equipe médica, remanescendo sequelas até menores face à gravidade das lesões imediatas. Tio Juca superou as limitações orgânicas e perdoou o atirador. Entre as dezenas de registros sobre episódios que demonstram vários dons mediúnicos, há informações que se relacionam com momentos da história do país. Tio Juca foi amigo de padre Cícero e num dos momentos em que estavam juntos, coincidiu com a visita do então temível Lampião, que respeitava o anfitrião; teve muitos contatos com Juarez Távora, que chegou a concorrer em eleição presidencial; era admirado pelo presidente Getúlio Vargas; e teve contatos com muitas personalidades do início e até meados do século XX. Tio Juca, acompanhado de sua família, visitou Chico Xavier em Pedro Leopoldo, em abril de 1952, e recebeu a informação sobre sua missão.

Fato inesperado e curioso na leitura do livro sobre o médium e que nos chamou a atenção, pois em alguns casos são citados alguns médicos que tiveram alguma relação com Tio Juca e que se constituem em referências para nós.

Assim, além dos valorosos exemplos como portador de uma variedade de dons mediúnicos, de dedicação ao próximo, de superação de dificuldades e de uma vida digna, encontramos no livro também casos que envolvem médicos que também passaram por nossa trajetória de vida. Há informações sobre o renomado pediatra paulista, o dr. Mário Margarido. O fato é que quando contávamos pouco mais de um ano de idade, nossos genitores nos trouxeram para consulta com ele em São Paulo, oportunidade em que houve um preciso diagnóstico e a tranquilização para a família. Este médico tornou-se espírita, conforme caso relatado no livro. Hoje existe até uma praça em São Paulo com o nome do notável pediatra. Em outro relato é citado o dr. Lauro Neiva, que atuou profissionalmente no Rio de Janeiro. Por volta de 1971, por intermédio de um tio médico residente naquela cidade, conhecemos livros desse facultativo sobre a utilização da aveloz para o tratamento do câncer e sobre as terapêuticas espirituais realizadas no Santuário de Frei Luiz, em Jacarepaguá. Na época chegamos a visitar esta instituição. Episódio mais próximo da atualidade, tem haver com o dr. Luís Barreto Vieira, oriundo de Vitória da Conquista e radicado em Salvador. Tivemos a oportunidade de dialogar com este médico em muitos eventos espíritas em função de livros de autoria dele sobre concepção e relacionados com campanhas para se evitar o aborto.

O biógrafo chegou a publicar alguns textos sobre Tio Juca no jornal A Tarde, de Salvador. Nesses artigos e no livro destaca perfis do Tio Juca como exemplo de moralidade familiar, profundo respeito à profissão e fiel cumpridor de deveres, espírito público, memória e inteligência invulgares e portador de virtudes cristãs. No final do livro Eusínio Lavigne afirma: “se a bondade pudesse ser personificada numa criatura humana, esta não seria senão o próprio Tio Juca”.
Fonte:
Lavigne, Eusínio. O fenômeno Tio Juca. 1.ed. São Paulo: Editora Mnêmio Túlio. 2006. 199p.

(*) – Ex-presidente da USE-SP e da FEB; ex-membro da Comissão Executiva do CEI.

Publicado e transcrito de:

Revista Internacional de Espiritismo, Ano XCIV, No. 9, outubro de 2019, p.456-457.

Há 215 anos nascia Allan Kardec

Há 215 anos nascia Allan Kardec

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Em 3 de outubro de 1804, em Lyon nascia Hippolyte Léon Denizard Rivail. No transcorrer de sua existência veio a ser dedicado e prestigiado educador francês, e, a partir do lançamento de O livro dos espíritos (1857), conhecido com o pseudônimo de Allan Kardec e reconhecido como o Codificador do Espiritismo.

No presente ano transcorreram 160 anos da publicação de seu livro O que é o espiritismo? ( Qu'Est-ce Que le Spiritisme em francês). Trata-se de uma breve introdução ao Espiritismo lançada em 1859. Este livro tem cerca de um quarto da extensão de O livro dos espíritos. É uma espécie de introdução ao estudo da Doutrina Espírita, como Kardec colocou como sub-título da obra; discorre sobre os pontos fundamentais do Espiritismo, em linguagem fácil e acessível a todas as inteligências.

Interessante é que após 150 anos após desencarnação de Kardec, ocorrida em março de 1869, recentemente estão sendo valorizados documentos, periódicos e livros franceses, quase desconhecidos no Brasil, que trazem esclarecimentos sobre episódios que ficaram ocultados ou obscurecidos sobre a vida de Kardec e sua esposa, e sobre a divulgação de suas obras imediatamente após sua desencarnação.

O filme “Kardec” lançado em maio de 2019 alcançou cerca de um milhão de espectadores nos cinemas brasileiros e agora se encontra disponível no “Netflix”. Durante a exibição do filme foi lançado o livro Kardec. A história por trás filme, onde Wagner de Assis e Marcel Souto Maior fazem significativos depoimentos sobre o projeto e a execução do filme e apresentam suas visões sobre o Codificador. Wagner relata vários momentos da filmagem. O filme “Kardec” deve provocar nos espíritas o desafio de se estudar mais o Codificador!

Em nosso país surge o início da divulgação de manuscritos e de documentos, o Projeto “Cartas de Kardec”, riquíssimo acervo que estava em poder da família de Silvino Canuto Abreu, finalmente doados à Fundação Espírita André Luiz, de São Paulo.

Com disponibilização de documentos digitalizados em cartórios da França e de obras digitalizadas do acervo de várias bibliotecas, principalmente da Biblioteca Nacional da França, muitos episódios sobre a vida e obra de Allan Kardec estão vindo à tona.

Todavia, em nosso meio se faz necessária a conscientização de que a maior homenagem ao Codificador será sempre o estudo, a divulgação e prática do Espiritismo de conformidade com suas Obras Básicas.

Passado um século e meio da desencarnação de Allan Kardec, ao lado da expansão do Espiritismo, há muitas “novidades”, “modismos” e “personalismos”, o que torna muito necessário o estudo e a difusão das Obras Básicas. Daí a importante “Campanha Comece pelo Começo”, idealizada por Merhy Seba, patrocinada pela USE-SP em meados dos anos 1970 e aprovada pelo CFN da FEB em novembro de 2014.

(*) Ex-presidente da USE-SP e da FEB.

Filme “Paulo de Tarso e a história do cristianismo primitivo” está chegando

Filme “Paulo de Tarso e a história do cristianismo primitivo” está chegando

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Na manhã do dia 21 de setembro, sábado, houve a pré-estreia do filme “Paulo de Tarso e a história do cristianismo primitivo”, dirigido por André Marouço. O evento aconteceu no Cinema Frei Caneca do Espaço Cultural Itaú, em São Paulo. Sala lotada, com o diretor do filme, com alguns atores, figurantes, colaboradores, apoiadores e convidados para o evento. Entre estes, dirigentes de várias Instituições de São Paulo.

Na oportunidade fomos entrevistados pela TV Mundo Maior, Rádio Boa Nova e pela A2 Filmes e externamos nossa opinião sobre o momento da pré-estreia desse filme. Face às perguntas formuladas, comentamos em síntese alguns fatos, visões e expectativas.

De maneira inesperada viemos a colaborar com o conteúdo, como um dos comentadores. Estávamos proferindo palestra e lançando nosso livro "Epístolas de Paulo à luz do Espiritismo" (Ed. O Clarim), em Araçatuba (SP), em julho de 2016, e André Marouço estava presente tratando dos preparativos para a instalação de antena retransmissora da TV Mundo Maior naquela cidade. Na oportunidade, o conhecido diretor de filmes conversou conosco, sobre o sonho dele e ainda numa etapa inicial, em dar prosseguimento a filmes sobre os primeiros momentos do Cristianismo. Pouco tempo depois já gravamos com Marouço nossas apreciações sobre Paulo de Tarso e suas Epístolas.

Consideramos Paulo de Tarso como o maior responsável pela difusão inicial dos ensinos de Jesus e o consolidador do Cristianismo ao fundar grupos de seguidores de Jesus nas principais províncias do império romano. Seus ensinos registrados nas Epístolas abordam temas que o colocam como um predecessor de vários princípios adotados pela Doutrina Espírita. Especificamente a essência moral de seus escritos é compatível com “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.

Em nossa opinião, trata-se de produção cinematográfica para extrapolar uma versão de lazer. Além de focalizar momentos marcantes da vida e obra de Paulo e de registrar belas imagens dos locais históricos por onde ele andou, como Grécia, a cidade de Roma e as atualmente conhecidas como Oriente Médio e Turquia, o filme é um agradável "docudrama", pois acrescenta comentários e esclarecimentos sobre os principais episódios, com citações de Atos dos Apóstolos e das Epístolas de Paulo. O filme teve como curador e principal comentarista Severino Celestino, Professor Doutor em Ciências da Religião da Universidade Federal da Paraíba, contando com comentários intercalados por André Luiz Ruiz, José Carlos de Lucca, Jorge Damas Martins e por nós.

Nossa expectativa é que o longa metragem sobre Paulo de Tarso possa motivar não apenas o público espírita. O apóstolo da divulgação dos ensinos de Jesus é fonte de estudos e pesquisas por todos os segmentos do cristianismo. Haja vista a enorme quantidade de livros disponíveis sobre Paulo em editoras internacionais. Esperamos que o espectador saia do cinema não apenas os com belos registros visuais e documentais mas também com matérias estimuladoras para reflexões.

O filme será lançado nos cinemas no dia 3 de outubro.

(*) Foi dirigente espírita em Araçatuba, e, presidente da USE-SP e da FEB.

O filme “Divaldo – O Mensageiro da Paz”

O filme “Divaldo – O Mensageiro da Paz”

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Lançado nos cinemas no dia 12 de setembro, o filme "Divaldo – O Mensageiro da Paz” focaliza as primeiras décadas da trajetória do médium e orador Divaldo Pereira Franco.

O filme foi produzido pela Estação da Luz e dirigido por Clóvis Mello. Três atores – uma criança, um jovem e um adulto jovem – fizeram o papel de Divaldo desde sua infância em Feira de Santana até aproximadamente o final dos anos 1960.

Focaliza o início do fenômeno mediúnico ainda na infância, o apoio que recebeu de uma médium de Salvador e, na sua adolescência, ele se muda para Salvador, é levado a um Centro Espírita onde aprende a lidar com sua mediunidade. A partir daí surge a fundação do Centro Espírita Caminho da Redenção, no bairro da Calçada. O filme destaca o início das atividades de oratória e exibe as ações filantrópicas junto a comunidades carentes e a implantação da ação educacional na criação de crianças abandonadas e órfãs. Em função disso foi criada a Mansão do Caminho, ainda anexa ao Centro. O filme encerra após a desencarnação de sua genitora dona Ana Franco, momentos em que Divaldo já havia iniciado a publicação de livros psicográficos, a partir da obra “Messe de Amor”.

Esse filme desenvolve oportunas considerações doutrinárias e dá foco no papel da orientadora espiritual Joanna de Ângelis.

Após cumprirmos roteiro de viagens para palestras, juntamente com a esposa e casal amigo, conseguimos assistir ao filme neste final de semana, justamente para prestigiar os primeiros dias exibição.

Apreciamos o enredo e a filmagem e nos recordamos de muitas informações da época retratada.

Conhecemos Divaldo Pereira Franco num evento jovem interestadual – a COMBESP -, sediado em nossa terra natal, Araçatuba (SP), em abril de 1962. A partir do encontro inicial tivemos seguidos contatos pessoais e por correspondência com Divaldo. Durante 30 anos Divaldo se hospedou em Araçatuba na residência de nossa genitora e no nosso lar.

Acompanhamos o surgimento dos livros desde o inicial – “Messe de Amor” (1964). Visitamos suas obras em Salvador em várias oportunidades. Na primeira delas, em 1972, o Centro Espírita Caminho da Redenção funcionava no bairro da Calçada, próximo ao centro da cidade. A Mansão do Caminho era muito menor do que a atual e ainda existiam as casas com as crianças e as tias.

Em função desses momentos, acompanhamos as notícias sobre os últimos anos da existência física de sua genitora.

Em parceria com Divaldo elaboramos uma obra com frases – em ordem alfabética – do espírito Joanna de Ângelis – “Repositório de Sabedoria”, em dois volumes – e também “Em Louvor à Vida”, com mensagens de um tio nosso e recentemente reeditado pela Editora LEAL. Como presidente da USE-SP participamos da organização do livro editado por esta Entidade: “Diálogo com Dirigentes e Trabalhadores Espíritas”; na condição de diretor da FEB, atuamos como um dos organizadores do livro “Em Nome do Amor. A Mediunidade com Jesus”, editado pela FEB.

Depois desses períodos, estivemos com Divaldo em inúmeros eventos no Brasil e no exterior, culminando com as homenagens que ele recebeu na Câmara dos Deputados, inclusive com o lançamento do movimento “Você e a Paz” naquele recinto e na sede da FEB, inauguração de exposição sobre Divaldo na FEB, em momento em que éramos o presidente da Federação Espírita Brasileira, em novembro de 2014.

O filme sobre Divaldo deve ser prestigiado pelo movimento espírita.

(*) Ex-presidente da USE-SP e da FEB.

UNIÃO – MAIS DE UM SÉCULO DE EXPERIÊNCIAS

UNIÃO – MAIS DE UM SÉCULO DE EXPERIÊNCIAS

O mundo conturbado pede, efetivamente, ação transformadora

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O presente artigo sintetiza nossa palestra na abertura do Encontro Comemorativo dos 70 anos do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita (São Paulo, 20/10/2018).1

Bezerra de Menezes alimentou o ideal de união. Após sua desencarnação (11/04/1900) surgem marcantes ações do presidente Leopoldo Cirne (gestão 1900-1913), eficiente administrador e impulsionador da divulgação das obras do Codificador.1,2

Cirne reformulou os estatutos da FEB, em assembleia realizada em 05/11/1901, retirando os poderes discricionários concedidos a Bezerra, pois este assumiu em época de crise no ano de 1895, e eliminando a cláusula que recomendava o estudo das obras de J.B. Roustaing. Cirne considerava que esta cláusula prejudicava a união da família espírita em torno da FEB.1,3

Leopoldo Cirne promoveu o I Congresso Espírita, em homenagem ao Centenário de nascimento de Allan Kardec, com a participação de mais de duas mil pessoas, de 1o a 3/10/1904, quando apresentou o trabalho Bases da Organização Espírita, que passou a orientar a ação de união dos espíritas, estimular a fundação de Federações Estaduais e filiar diretamente os centros. A nosso ver este é o marco dos esforços institucionais iniciais de união. Em 1904, existiam apenas duas federativas: a do Paraná e a do Amazonas.2,3

A primeira entidade federativa paulista, a União Espírita do Estado de São Paulo, fundada por Antônio Gonçalves da Silva – Batuíra, em 24/5/1908, foi inspirada no documento Bases da Organização Espírita.1 Com a saída de Cirne da FEB em fevereiro de 1914 ocorreram revisões e um certo retrocesso em relação às ações do citado presidente. Distanciado de instituições, Cirne defendia Kardec como ponto de união e lamentava que muitas lideranças não estariam compreendendo uma nova fase do movimento espírita.2,3

Em face das crescentes insatisfações desenvolveu-se um movimento para se discutir o Espiritismo no Brasil e efetivou-se o Congresso Constituinte Espírita Nacional em março de 1926, no Rio de Janeiro, criando-se uma federativa nacional, a Liga Espírita do Brasil, tendo como órgão máximo a Assembleia Espírita do Brasil.1,2

Naquela época ocorria intensa movimentação no Estado de São Paulo, com experiências no interior: aos 15/03/1931, em reunião realizada em São Carlos (SP) Cairbar Schutel fundou a Associação Espírita de Propaganda do Estado de São Paulo, com finalidade claramente federativa, contando com representantes de 83 instituições4; Benedita Fernandes, aos 30/08/1942 criou a União Espírita Regional da Noroeste em Araçatuba (SP).5

Na Capital formaram-se quatro instituições federativas: Sinagoga Espírita Nova Jerusalém, União Federativa Espírita Paulista, Federação Espírita do Estado de São Paulo e Liga Espírita do Estado de São Paulo. Nesse contexto, aconteceu o 1o Congresso Espírita do Estado de São Paulo, realizado em São Paulo de 1o a 5/6/1947, com a presença de 551 instituições. As entidades patrocinadoras acima citadas abriram mão da ação federativa e foi criada a União Social Espírita; depois denominada União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, a única federativa fundada como decisão plenária de um Congresso Estadual.1,6,7

O ano de 1948 registrou importantes eventos jovens: a Concentração de Mocidades Espíritas do Brasil Central e Estado de São Paulo – COMBESP, reunindo jovens de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e depois o Distrito Federal (Brasília); um certame autônomo que foi um celeiro para formação de expositores e lideranças e repetido anualmente em rodízio por várias cidades destes Estados até 1966.1,2 Liderado por Leopoldo Machado, de Nova Iguaçú (RJ), foi realizado o 1o Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil (Rio de Janeiro, 17 a 25/7/1948), constituindo-se o Conselho Consultivo de Mocidades Espíritas do Brasil.1,2

A essa altura já se planejava por idealistas da USE-SP a realização do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita. Ocorreu em São Paulo de 31/10 a 5/11/1948, com apoio e atuação de dirigentes das Federações Espíritas do Rio Grande do Sul, Paraná e a Catarinense; União Espírita Mineira; Liga Espírita do Brasil; Conselho Consultivo das Mocidades Espíritas do Brasil; Lar de Jesus de Nova Iguaçú (RJ); Centro Espírita de Cuiabá; pessoas com procurações de instituições de Sergipe, Bahia, Pará, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte e várias lideranças.1,7

Para esse evento foi destinada a primeira psicografia de Chico Xavier sobre união, “Em nome do Evangelho”, por Emmanuel, dirigida aos seus participantes e organizadores. O último parágrafo é marcante: “O mundo conturbado pede, efetivamente, ação transformadora. […] unamo-nos no mesmo roteiro de amor, trabalho, auxílio, educação, solidariedade, valor e sacrifício que caracterizou a atitude do Cristo em comunhão com os homens, servindo e esperando o futuro, em seu exemplo de abnegação, para que todos sejamos um…” 1,2,7

A Comissão de Teses do Congresso, entre outros itens, concluiu: “Promover entendimentos com as entidades máximas e federativas dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios, ao sentido de consertar a forma de unificação direcional do Espiritismo; […] O poder legislativo nacional será exercido por um Conselho Confederativo, sediado na Capital da República, e composto de um representante de cada Estado, do Distrito Federal e dos Territórios, eleitos pelas uniões ou federações dessas circunscrições, com mandato de cinco anos.”1,7

A proposta não foi recepcionada pelo presidente da FEB. Por ocasião do 2o Congresso da Confederação Espírita Pan-americana, realizado pela Liga Espírita do Brasil em outubro de 1949, no Rio de Janeiro, compareceram líderes de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pará, e do Rio de Janeiro (então Distrito Federal), e, repentinamente ocorreram entendimentos com o presidente da FEB, Wantuil de Freitas. Alguns líderes que participavam deste Congresso compareceram à sede da FEB, para uma reunião com seu presidente e diretores. Após reiterarem a proposta para uma Confederação ou Conselho Superior do Espiritismo, novamente rejeitada por Wantuil de Freitas e por diretores da FEB, este apresentou outra proposição com dezoito itens, com os princípios para a união e unificação do Movimento Espírita, e com detalhamentos complementares para o funcionamento do Acordo. Houve aceitação da proposta pelos presentes.1,2,7 Esse Acordo foi registrado como Grande Conferência Espírita do Rio de Janeiro, também chamado “Acordo de Cavalheiros” e cognominado por Lins de Vasconcellos como “Pacto Áureo”.2

Com base nesse “Pacto” foi instalado em 1o/1/1950 o Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira (CFN), dirigido pelo presidente da FEB e que vem funcionando ininterruptamente, com representantes das federativas de todos Estados.1,2 Ainda em 1950, efetivou-se a “Caravana da Fraternidade” com a finalidade de divulgar os objetivos da unificação e colher adesões de onze estados do Norte e do Nordeste ao “Pacto Áureo”. Era integrada por representantes de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro; depois juntando-se um representante de Pernambuco. Ao final visitaram Chico Xavier, em Pedro Leopoldo (MG), e receberam duas mensagens psicográficas. Leopoldo Machado fez todos registros, publicados na forma de livro: A caravana da fraternidade.1,2

Vários anos depois, Carlos Jordão da Silva relembrou os bastidores do “Pacto Áureo” em entrevista para o Anuário Espírita 1974: “Após as reuniões do Congresso Pan-americano e recolhidos todos os participantes das delegações em seus respectivos hotéis, cerca de uma hora da manhã, resolvemos sair para tomar um pouco de ar e dirigimo-nos para determinada praça próxima ao nosso hotel e para a nossa surpresa todas as delegações foram chegando ao mesmo local, como que convocadas por forças invisíveis. Achamos graça por ter o Plano Espiritual nos reunido daquela forma e aquela hora da madrugada e ali mesmo marcamos uma reunido para as 8 horas da manhã, no Hotel Serrador, onde estávamos hospedados, eu e minha Senhora, e, realizada tal reunido, incumbiu-se Artur Lins de Vasconcellos Lopes a tarefa de aproximar-se da FEB para promover o encontro.”1,2,7

Ao analisar, item a item, o “Pacto Áureo” em nosso livro União dos espíritas1,2 concluímos que o “Pacto” deve ser revisto pois seu texto está superado, devendo-se citar explicitamente a fundamentação em todas obras básicas de Allan Kardec e eliminar vários itens operacionais que podem ter sido adequados para os momentos iniciais, mas atualmente não são aceitáveis. Em nosso entendimento e experiência, o “Pacto Áureo” é importante referencial histórico, mas deve ser revisto para aplicação mais adequada, considerando-se o contexto atual do movimento espírita, os textos sobre o tema alinhavados pioneiramente pelo Codificador e outros de autoria dos espíritos Bezerra e Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier.2

Ao finalizar, cabe a reflexão com que encerramos o livro União dos espíritas2, tendo como sub-título: Para onde vamos?

Referências:

1) Palestra – 70 anos do CBUE e Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita. Arquivos digitais no site: www.usesp.org.br (em Documentos/Documentação histórica).

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? 1.ed. Capivari: Ed. EME. 2018.

3) Cirne, Leopoldo. Antichristo. Senhor do Mundo. 1.ed. 2a Parte. Rio de Janeiro: Bedeschi. 1935. Edição digital: http://luzespirita.org.br/leitura/pdf/L163.pdf

4) Monteiro, Eduardo Carvalho; Garcia, Wilson. Cairbar Schutel – o bandeirante do Espiritismo. Matão: O Clarim. 1986.

5) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Benedita Fernandes – a dama da caridade. Araçatuba: Ed.Cocriação/USE Regional de Araçatuba. 2017.

6) Anais do 1o Congresso Espírita do Estado de São Paulo. São Paulo: USE. 1947.

7) Monteiro, Eduardo Carvalho; D’Olivo, Natalino. USE – 50 anos de unificação. São Paulo: USE. 1997.

— O autor foi presidente da FEB, da USE-SP e membro da Comissão Executiva do CEI.

 

(Transcrito de: Revista Internacional de Espiritismo. Matão, Setembro de 2019.P. 404-406).