Providência Divina gera interreligiosidade

Providência Divina gera interreligiosidade

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O diálogo interreligioso sobre o tema “A Providência Divina em nossas vidas” com base em A gênese (Capítulo II, itens 20 a 37) foi um dos momentos significativos da 38ª Confraternização de Espíritas do Maranhão – CONESMA, promovida pela Federação Espírita Maranhense, nos dias 11 a 13 de fevereiro, na cidade de São Luís.

O reverendo Geraldo Magela, da Igreja Anglicana, citou versículos do Evangelho sobre “as aves do Céu” e os “lírios do campo” e falou sobre o aprimoramento sensibilidade, para “ouvirmos a voz de Deus”, lembrando que Deus age por nosso intermédio.

O ministro Odorico Paula Garcez, da Igreja Messiânica, exemplificou a “oração em ação”, com a aplicação do “Johrey” para o público. Destacou Deus como princípio e algumas leis: do espírito que precede a matéria; de causa e efeito; a identidade do espírito-matéria; da ordem, destacando sempre a grande Natureza.

O pai de santo Tabajara Silva Borges, falando pelas religiões de matriz africana, considerou que este momento é uma providência divina; lembrou que “trocamos de bênçãos” entre os dois planos e destacou que o povo precisa alimentar a alma; afirmou que não interessa a designação dada a Deus, pois o importante é saber interpretar a providência divina.

Expressando-se pelos espíritas, a expositora Heloísa Pires (SP), destacou questões de O livro dos espíritos e itens de A gênese, sintetizando que “Deus é amor”; o papel educativo das nossas encarnações e lembrando que a dor nos desperta para os compromissos com Deus e de construção de nossa felicidade e de uma Terra melhor, enfatizando significados da oração Pai Nosso.

Após as citadas apresentações, os quatro convidados responderam a uma pergunta geral: “Qual a relação entre fé e Providência Divina”?

Incumbido pela organização do evento, coube a nós, procedermos à síntese e às considerações finais. Comentamos o ambiente de harmonia reinante e que as manifestações dos representantes de religiões foi muito interessante pela convergência das abordagens relacionadas com o tema, destacando-se o respeito a Deus, a fé e a apuração da sensibilidade para identificação da Providência Divina, chegando-se a comentar princípios similares ao Espiritismo. Também em respeito aos representantes de outros cultos, relatamos rapidamente o contato que tivemos, em função de afazeres espíritas, com cada uma das religiões representadas.

Na obra sesquicentenária – A gênese – Allan Kardec faz abordagens fundamentais sobre a revelação no Capítulo I e no Capítulo seguinte, sobre Deus, discorre sobre: Existência de Deus; A natureza divina; A providência; A visão de Deus.

Desse Capítulo II, destacamos trechos do Codificador:

“A ação do Criador na criação é o que chamamos de Providência Divina. […] A Providência é a solicitude de Deus para com suas criaturas. […] Compreendemos o efeito, o que já é muito.”

O diálogo interreligioso na CONESMA, com o tema central “Os tempos são chegados”, foi uma forma criativa e oportuna para se comemorar os 150 anos de A gênese, ensejando oportunidade para se analisar a pertinência de vários pontos abordados pelos representantes de religiões.

(*) Expositor convidado pela FEMAR. Ex-presidente da FEB.

Chico com crianças e a Providência Divina

Chico com crianças e a Providência Divina

"Uma vez, em Pedro Leopoldo, eu ensinava catecismo às crianças, mas um dia me proibiram. Eu ensinava catecismo para quarenta crianças… E fui proibido porque me tornara espírita.

Fiquei em casa. Mas as crianças queriam o tio Chico…

Então as famílias levaram as crianças lá em casa. E eu fiquei com muita pena, porque na igreja elas tinham lanche.

Já eram duas horas e eu só tinha água e uns pedacinhos de pão em casa.

Eram quarenta crianças… Como eu iria alimentar aquelas crianças?

Eu fiz uma prece e pedi a Deus que me ajudasse, porque elas não podiam ficar sem comer. Como é que eu iria fazer?

Estávamos embaixo de uma árvore. E, então, um vento muito estranho começou a balançar as folhas da árvore. O vento uivava entre os galhos daquela árvore.

Uma vizinha saiu e perguntou: — Chico, que é isso? Que barulho é esse?

— O vento…

— O vento?!… E essas crianças aí?

— Catecismo!…

— Você não deu nada para elas comerem?

— Não tenho!…

— Oh, Chico! Eu tenho, aqui, bolo e pão.

E a outra vizinha do lado também apareceu e perguntou: — O que foi isso, Chico? Que vento foi esse?

— O vento…

— E essas crianças aí?

— O catecismo…

E assim, doze famílias se reuniram e passaram a oferecer o alimento, o lanche daquelas crianças, por causa do vento.

"Ora e pede. Em seguida, presta atenção. Algo virá por alguém ou por intermédio de alguma coisa, doando-te, na essência, as informações ou os avisos que solicites."

Ah, o vento…"

(Relato repassado por Neusa Assis-Donda-, de Uberaba)

Obs.: fato sobre Chico Xavier jovem, logo após sua conversão ao Espiritismo, em Pedro Leopoldo.

FATO SOBRE SÃO LUÍS GONZAGA

FATO SOBRE SÃO LUÍS GONZAGA

O número de pessoas que procurava o Chico em seu emprego era cada vez maior e isso foi se tomando um problema muito grande.

José Xavier, seu irmão e companheiro de reuniões espíritas, sugeriu que as pessoas poderiam ser encaminhadas à sua sapataria, onde conversaria com elas até a hora em que o Chico saísse do serviço e pudesse atendê-las.

Assim foi feito. As pessoas passaram a ser encaminhadas para a sapataria de José Xavier. Durante onze anos, José conversou com obsidiados de toda espécie. Muitos chegavam até amarrados.

Certa noite, o espírito de Emmanuel avisou o Chico de que dentro de alguns minutos iriam chamá- lo. O José não estava bem. Quando chamaram, o Chico já se aprontara e foi para a casa de seu irmão.

Seus familiares logo lhe disseram: — Chico, não se preocupe, o médico disse que o José vai voltar. Emmanuel, então, diz ao Chico: — O médico amigo está com a razão. O José vai voltar, mas não irá reconhecê-lo, nem a nenhum outro familiar. Consta de suas provas cármicas que ele deve ficar onze anos num hospício.

Decorridas algumas horas, o Chico viu que vários espíritos formavam um círculo em torno da cama de José.

Perguntou ao espírito de Emmanuel do que se tratava e este informou:

— Vamos pedir ao Senhor que os onze anos que o José conversou com obsidiados em sua sapataria sejam levados em consideração e ao invés de ficar todos esses anos alienado, vamos pedir que ele desencarne já. Mais algum tempo e chegou a resposta autorizando o desencarne. Chico viu José sair do corpo. Era absolutamente igual ao que ficara imóvel.

Alguns meses se passaram. José apareceu ao Chico. — Como está? pergunta-lhe o Chico. — Não muito bem, respondeu-lhe. Parece que meu cérebro não cabe em minha cabeça. Sinto muita tontura. José desencarnou onze anos antes do prazo previsto, com a autorização do Plano Espiritual Superior e estava nessa condição. Imaginem os que vão para lá pelas portas enganosas do suicídio.

Mais alguns meses e o José lhe aparece novamente nas mesmas condições.

Falou-lhe, então, o Chico. — José, hoje é dia de São Luís Gonzaga. E o Santo virá à Terra abençoar toda instituição que tem o seu nome. Certamente vai passar em frente ao Centro Espírita Luís Gonzaga. José para lá se dirigiu. Quando o Santo apareceu, toda a rua ficou iluminada. Era uma luz tão intensa que o José não conseguiu olhá-lo. Ficou de joelhos e começou a orar: — São Luís Gonzaga, eu queria que o senhor me ajudasse a ficar bom. Só quero o meu equilíbrio para continuar conversando com obsessores e obsidiados nas praças públicas, nos bares, nos cinemas, nos clubes. José viu, então, uma mão como se fosse feita de luz que lhe deu um lírio com um perfume indescritível.

Ele aspirou a flor, que desapareceu, penetrando- lhe o nariz. Quando o Santo acabou de passar, continuando sua jornada de luz, José estava completamente restabelecido em seu equilíbrio.

Do Livro "Chico, de Francisco" – Adelino da Silveira Capítulo "SÃO LUÍS GONZAGA" Editora Cultura Espírita União – CEU: http://www.ceu.com.br/

Decisão

DECISÃO

Francisco Habermann (*)

Fiquei impressionado com declaração de ilustre Procuradora de Justiça aposentada que confessou: “cansei de enxugar gelo”.

Referia-se ela à interminável tarefa de conferir as legalidades e, invariavelmente, encontrar irregularidades, falcatruas, desvios, marcas de desonestidades e outras mazelas do procedimento humano diante das instituições governamentais. Não raro de complicadas consequências à sociedade. Na defesa do Estado, cumpriu suas tarefas honradamente, foi homenageada pelo trabalho brilhante realizado sob sua atuação profissional ilibada, mas não quis permanecer na ativa. Pediu sua merecida aposentadoria.

De volta à sua cidade natal, ocupou-se com atribuições voluntárias – como faz até hoje – dirigindo instituições de amplo alcance social e caritativo. Granjeia enorme prestigio social e significativo apoio da comunidade em seus projetos. Um exemplo de pessoa.

Por felicidade, conhecia-a desde sua juventude quando ela, cursando a Escola Normal ( formação pedagógica ), frequentava outro simultâneo da época, o curso Clássico. Aluna brilhante que sempre fora, atuou como professora enquanto se preparava para o ingresso em curso superior. Foi admitida na Faculdade de Direito da USP ( São Francisco ), na capital. Formou-se e, com mestrado e doutorado acadêmico realizados com destaque, fez brilhante carreira na Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo Estadual.

Um dia, resolvi convida-la para fazer uma palestra-homenagem aos formandos de um curso superior na área biológica. Fiquei entusiasmado quando aceitou o convite. Criou-se uma expectativa. Salão ornamentado, Congregação da Instituição acadêmica presente, seus diretores à frente, professores e os formandos, todos engalanados. Após as formalidades cerimoniais, o dirigente máximo da solenidade convida-a para o pronunciamento tão esperado. Nestas ocasiões solenes, o expositor se dirige aos formandos. Trata-se de formal cumprimento pela conquista realizada e também a oportunidade de uma última recomendação, uma derradeira aula. Foi o que se seguiu.

Do auditório, ouvia-se apenas o ruído da respiração quase suspensa do grupo de formandos. Todos de olhar fixo na oradora, mulher imponente, respeitada e muito simpática. “Meus queridos e amados discípulos desta Instituição renomada”. Um sorriso se abriu no semblante dos formandos, delas e deles. Fui testemunha desta belíssima cena. E também da seguinte. “Vocês, agora, têm um desafio na vida profissional. Deverão reavaliar o significado de seus títulos, diplomas, medalhas, atestados…” Ficaram todos muito sérios perante a surpresa do anúncio. Estava só começando. E continuou: “Na vida, o que vale é o que produzimos com o coração, com os sentimentos, com amor, com a compaixão sincera, respeitada sempre a ética. Nada disso é representado com papeis, diplomas, metais, placas, riquezas acumuladas ou outras marcas materiais…” Disse muito mais, mas sua recomendação final marcou-me: “A cor destas ações éticas que emanam do coração é a da honestidade. Jamais desbota”.

Seria bom que todo o Brasil assim entendesse, especialmente nesta semana decisória. Obrigado, Doutora ( ops… desculpa citar o título! ).

(*) Movimento espírita de Botucatu (SP)

RELIGIÃO E POLÍTICA

RELIGIÃO E POLÍTICA

Aylton Paiva (*)

É comum as pessoas dizerem que a religião e a política não se combinam. Que não se deve discutir política.

Na primeira afirmação há confusão entre a religião formal e a politicalha e mesmo com a política partidária.

Na segunda afirmação continua haver confusão e ignorância, pois poucas pessoas, e mesmo poucos espíritas, sabem o significado do termo política e as suas diferentes categorias.

O termo política precisa ser convenientemente entendido para que se saiba que, em sua essência, a política não é incombinável com a religião, ou melhor esclarecendo, com a religiosidade.

Então, nesse emaranhado de desconhecimentos só pode haver mesmo confusão e desentendimento.

Abordando apenas a religião cristã, em suas múltiplas interpretações, seu fundamento são as palavras de Jesus, narradas pelos evangelistas. A essência desses ensinamentos são: a Justiça e o Amor. Disse Jesus: “Amará o teu próximo com a ti mesmo.” ( Matheus, 22:39) e “ Tratai todos os homens com quereríeis que eles vos tratassem. (Lucas, 6:31). Revelando o amor solidário o Mestre conta a Parábola do Samaritano (Lucas, 10:25).

Esses mesmos fundamentos norteiam a Política quando a entendemos como: ” A ciência e a arte da administração justa para o Bem comum.”. O que só pode ser feito baseando-se nos valores da justiça e do amor solidário.

A confusão surge e o repúdio aparece quando, por ignorância, se confunde a Política com a política partidária e com a ” politicalha “. A política partidária é instrumento fundamental do processo democrático que, se não é perfeito, é o melhor na atual fase do processo sócio político da humanidade.

Destarte, das agremiações partidárias é que devem sair, pelo exercício do voto livre dos cidadãos, as pessoas que ocuparão os cargos nos poderes Legislativos e Executivos, nos níveis: municipal, estadual e nacional.

Já a “ politicalha” é o uso indevido dos cargos políticos legais e legítimos por pessoa canalha que quer se beneficiar da política para a satisfação dos seus interesses egoísticos individuais e de grupos. Esta merece sempre a indignação individual e coletiva e os meios legais para anulá-la. Não se deve levar, pois, para o ambiente do centro ou do movimento espírita a política no sentido da política partidária e, menos ainda, da” politicalha”.

No entanto, a Política como ciência e arte da administração justa para o bem comum, já está no conteúdo das Leis Morais, 3ª parte de O livro dos Espíritos, ditado pelos Mentores Espirituais e organizado e sistematizado por Allan Kardec. Esse conteúdo referente à administração justa e amorosa, expressando a solidariedade está contido nos capítulos: Da lei do trabalho, Da lei Da lei de reprodução, Da Lei de destruição, Da lei de sociedade, Da lei do progresso, Da lei de igualdade, Da lei de liberdade, Da lei de justiça, de amor e de caridade e Da perfeição moral.

Portanto, esse conteúdo que se relaciona com a Filosofia, com a Sociologia, com a Economia, com a Política, com o Direito, com a Ecologia e com os ensinamentos de Jesus sobre a Justiça e o Amor deve merecer o estudo de todos os espíritas e deve ser estudado nos centros, instituições espíritas e em palestras, seminários e congressos espíritas.

Tal visão da Política os espíritas precisam ter para serem cidadãos conscientes dos direitos e deveres individuais e coletivos e, assim, terem critérios para avaliação dos candidatos indicados pelos partidos para os cargos nos Poderes Legislativo e Executivo, no âmbito do Município, do Estado e da União.

Como todo cidadão, o espírita deve, portanto, ser consciente da Política. Conforme sua vocação ou aptidão poderá participar ou não da política partidária. Todavia, jamais poderá participar da “politicalha”, sob pena de declinar dos seus conceitos éticos e morais. “Amará o teu próximo como a ti mesmo.”. Jesus ( Mateus, 22:39).

(*) INSTITUTO ESPÍRITA DE PESQUIS, ESTUDO E AÇÃO SOCIAL – www.iepeas.blogspot.com.br

Breve histórico da Revue Spirite em língua francesa

Breve histórico da Revue Spirite em língua francesa

Charles Kempf  (*)

 

Este ano de 2018 marca o 160º. aniversário da primeira publicação da Revue Spirite de Allan Kardec em janeiro de 1858.

Na capa, Allan Kardec define o conteúdo da seguinte forma: "A narrativa de manifestações materiais ou inteligentes de espíritos, aparições, evocações, etc., bem como todas as notícias relacionadas ao Espiritismo. – O ensinamento dos espíritos sobre as coisas do mundo visível e do mundo invisível; sobre as ciências, a moralidade, a imortalidade da alma, a natureza do homem e seu futuro. – A história do espiritismo na antiguidade; seu relacionamento com magnetismo e sonambulismo; A explicação das lendas e das crenças populares, a mitologia de todos os povos, etc. "

A Revue Spirite – Journal d’Études Psychologiques – foi publicado mensalmente sob a responsabilidade direta de Allan Kardec até sua desencarnação em 31 de março de 1869. Allan Kardec transformou-a em uma espécie de tribuna livre, na qual ele avaliou a reação dos homens e a opinião dos espíritos sobre certos assuntos, ainda hipotéticos ou mal compreendidos, enquanto esperam sua confirmação pelo critério da concordância e universalidade do ensino dos espíritos. Inúmeros capítulos dos livros básicos da Codificação, na íntegra ou após pequenas modificações, surgiram através da Revue Spirite.

De maio de 1869 a agosto de 1871, foi dirigida por A. Desliens, que era secretário de Allan Kardec. Ela foi então dirigida por Pierre-Gaëtan Leymarie, de quem acabou se tornando propriedade pessoal, herdada por sua viúva, Marina Leymarie, e seu filho Paul Leymarie, que não era mais genuinamente espírita, mas que a dirigiu até 1919, com interrupções entre agosto de 1914 e julho de 1915 e entre outubro de 1915 e dezembro de 1916, durante a Primeira Guerra Mundial. Neste período, a Revue Spirite sofreu muitos desvios com relação à doutrina espírita, identificados por vários pesquisadores brasileiros, incluindo Adriano Calsone, em seus livros Em nome de Kardec e Madame Kardec, e Simoni Privato Goidanich, em seu livro El Legado de Allan Kardec. Em resposta, a Union Spirite Française foi fundada em 1883, bem como a revista Le Spiritisme, substituída em 1896 pela Revue Scientifique et Morale du Spiritisme, ambas dirigidas por Gabriel Delanne.

Em 1920, Jean Meyer retomou os direitos da Revue Spirite e retorna para um conteúdo mais fiel à doutrina espírita, e ela absorveu a Revue Scientifique et Morale du Spiritisme com a desencarnação de Gabriel Delanne em 1926. Hubert Forestier assumiu a direção da Revue Spirite em 1931, após a desencarnação de Jean Meyer, mantendo-o até sua própria desencarnação em 1971, com interrupção entre junho de 1940 e outubro de 1947, durante a Segunda Guerra Mundial. Foi então André Dumas que novamente desviou o objetivo espírita original da Revue Spirite, renomeando-a Renaître 2000 em 1977.

Vários espíritas sinceros, incluindo Roger Perez, Louis Serré e Roland Tavernier, reiniciaram a publicação da Revue Spirite em 1989, seguindo a orientação inicial de Allan Kardec. É a continuação deste trabalho que o Conselho Internacional Espírita está atualmente promovendo, confiando sua realização ao Movimento Espírita Francófono. Os recursos necessários vêm das assinaturas, que podem ser feitas em todo o mundo em linha em www.revuespirite.org

O Movimento Espírita Francófono está colocando progressivamente todas essas revistas em download gratuito no site da Enciclopédia Espírita (www.spiritisme.net), para a grande satisfação de muitos pesquisadores e estudantes espíritas em todo o mundo.

(*) Editor de Revue Spirite; ex-secretário geral do Conselho Espírita Internacional.

Extraído do Boletim “Notícias do Movimento Espírita” (http://www.noticiasespiritas.com.br/2018/JANEIRO/10-01-2018.htm)

Obs.: desde 2008 o CEI edita nos Estados Unidos a Revista em inglês: The Spiritist Magazine.

150 anos de A Gênese: divulgação e estudo

150 anos de A Gênese: divulgação e estudo

Antonio Cesar Perri de Carvalho

 

Com A Gênese completa-se o quinto volume das chamadas Obras Básicas da Codificação, que foi lançada no dia 6 de janeiro de 1868, em Paris, conforme anúncio da Revista Espírita de janeiro de 1868.(1) 

Allan Kardec destaca no subtítulo: “A Doutrina Espírita é o resultado do ensino coletivo e concordante dos espíritos. A Ciência é chamada a constituir a Gênese segundo as leis da Natureza. Deus prova sua grandeza e seu poder pela imutabilidade de suas leis, e não pela sua suspensão. Para Deus, o passado e o futuro são o presente.” Os temas são desenvolvidos em três partes – A gênese segundo o Espiritismo; Os milagres segundo o Espiritismo; As predições segundo o Espiritismo -, desdobrando-os em dezoito capítulos.

Entre esses temas destacamos no capítulo “Fundamentos da Revelação Espírita” considerações amplas e lúcidas sobre a questão da revelação e faz significativa colocação: "[…] o que caracteriza a revelação espírita é que a sua origem é divina, que a iniciativa pertence aos espíritos e que a elaboração é o fruto do trabalho do homem.”(2) Trata-se de clara afirmação sobre a responsabilidade dos encarnados – detentores do livre arbítrio -, notadamente nas condições de liderança, gestão nas instituições e as ações do movimento espírita. O Mundo Espiritual orienta, mas as decisões dependem de nossas escolhas, o que é um incentivo à reflexão, à conscientização e à ativa participação dos encarnados. Nesse capítulo é analisada a relação entre Espiritismo e Ciência: “[…] o Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente; que a Ciência, sem o Espiritismo, acha-se impossibilitada de explicar certos fenômenos somente pelas leis da matéria, e que é por haver ignorado o princípio espiritual que ela se deteve no meio de tão numerosos impasses; que sem a Ciência, faltaria apoio e comprovação ao Espiritismo e ele poderia iludir-se. Se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas, teria sido uma obra abortada, como tudo o que surge antes do seu tempo.”(2) Eis marcante ponderação, em época em que as religiões tradicionais eram dogmáticas e não valorizavam a ciência: “Caminhando com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem que está errado em um determinado ponto, ele se modificaria sobre esse ponto; se uma nova verdade se revela, ele a aceita.”(2)

O Codificador teve a autonomia intelectual para analisar o desenvolvimento do planeta e da civilização procedendo a uma analogia dos chamados dias bíblicos com os períodos geológicos e de maneira totalmente diferenciada das religiões tradicionais. O assunto perispírito é tratado em vários capítulos do livro, ficando mais clara a compreensão dos fenômenos: “O perispírito é o traço de união entre a vida corporal e a vida espiritual: é por ele que o espírito encarnado está em contínuo contato com os desencarnados; é por ele, enfim, que ocorrem, com o homem, fenômenos especiais que não têm sua origem na matéria tangível, e que, por essa razão, parecem sobrenaturais.”(2)

Os chamados “milagres” e as aparições de Jesus são analisados descortinando-se o mundo espiritual e o conhecimento sobre as propriedades do perispírito: “As aparições de Jesus após a sua morte são narradas por todos os evangelistas com detalhes circunstanciados que não permitem que se duvide da realidade do fato. […] perfeitamente explicadas pelas leis fluídicas e pelas propriedades do perispírito, e não apresentam nada de anormal com os fenômenos do mesmo gênero, dos quais a história antiga e contemporânea oferece numerosos exemplos, sem deles excetuar a tangibilidade.”(2) A polêmica sobre o desaparecimento do corpo do Cristo é tratada no Cap. XV da 1a edição: “A que se reduziu o corpo carnal? Este é um problema cuja solução não se pode deduzir, até nova ordem, exceto por hipóteses, pela falta de elementos suficientes para firmar uma convicção. Essa solução, aliás, é de uma importância secundária e não acrescentaria nada aos méritos do Cristo, nem aos fatos que atestam, de uma maneira bem peremptória, sua superioridade e sua missão divina. Não pode, pois, haver mais que opiniões pessoais sobre a forma como esse desaparecimento se realizou, opiniões que só teriam valor se fossem sancionadas por uma lógica rigorosa, e pelo ensino geral dos espíritos; ora, até o presente, nenhuma das que foram formuladas recebeu a sanção desse duplo controle. Se os espíritos ainda não resolveram a questão pela unanimidade dos seus ensinamentos, é porque certamente ainda não chegou o momento de fazê-lo, ou porque ainda faltam conhecimentos com a ajuda dos quais se poderá resolvê-la pessoalmente. Entretanto, se a hipótese de um roubo clandestino for afastada, poder-se-ia encontrar, por analogia, uma explicação provável na teoria do duplo fenômeno dos transportes e da invisibilidade. (O Livro dos Médiuns, caps. IV e V.).”(2)

Por outro lado, o tema da atualidade – transição planetária –, é apreciado nos capítulos de “As predições segundo o Espiritismo” e “Os tempos são chegados”: “Ouvimos em todas as partes: São chegados os tempos marcados por Deus, em que grandes acontecimentos ocorrerão para a regeneração da Humanidade. Em que sentido nós devemos entender essas palavras proféticas? […] Para a maioria dos fieis, elas apresentam qualquer coisa de místico e de sobrenatural, parecendo-lhes prenunciadoras da subversão das leis da Natureza. […] porque tais palavras não anunciam a perturbação das leis da Natureza, mas sim o cumprimento dessas leis.”(2) As situações de transformações têm parcelas de responsabilidade do ser humano no contexto social e no cenário físico, haja vista os atuais conhecimentos sobre o meio ambiente. A grande transformação há de ser ética e moral: “Até o presente, a humanidade tem realizado progressos incontestáveis. Os homens, com a sua inteligência, chegaram a resultados que jamais haviam sido alcançados, sob o ponto de vista das ciências, das artes e do bem-estar material. Ainda lhes falta um imenso progresso a realizar: o de fazerem reinar entre eles a caridade, a fraternidade e a solidariedade, para assegurar o bem-estar moral.”(2)

Nesse contexto, a ideia sobre a nova geração não ficaria circunscrita ao ambiente espírita, havendo a relação entre transição e nova geração: “Trata-se, pois, muito menos de uma nova geração corpórea do que de uma nova geração de espíritos. Assim, aqueles que esperam ver a transformação ocorrer através de efeitos sobrenaturais e maravilhosos, ficarão decepcionados.”(2)

Em nossos dias, é necessário o estudo desses temas para se evitar interpretações superficiais e até estranhas para o período em que vivemos. Interessante síntese sobre A Gênese, logo após seu lançamento, surge em apreciação do espírito São Luís, na Revista Espírita, de fevereiro de 1868: “A religião, antagonista da Ciência, respondia pelo mistério a todas as questões da filosofia céptica. Ela violava as leis da Natureza e as adaptava à sua fantasia, para daí extrair uma explicação incoerente de seus ensinamentos. Vós, ao contrário, vos sacrificais à Ciência; aceitais todos os seus ensinamentos sem exceção e lhe abris horizontes que ela supunha intransponíveis. […] Um livro escrito sobre esta matéria deve, em consequência, interessar a todos os espíritos sérios.”(1)

Independentemente da polêmica sobre alterações na 5edição francesa dessa obra e das traduções feitas a partir da mesma, destacamos que ao ensejo do sesquicentenário do lançamento de A Gênese torna-se muito necessário a divulgação e o estudo do mesmo na seara espírita.(3)

Kardec, intelectual experimente e inspirado, elaborou A Gênese com apreciações sobre os fundamentos da revelação espírita e as relações com a Ciência. Analisa a evolução do planeta e do homem, os chamados milagres de Jesus e os conceitos sobre “sinais dos tempos”. São temas oportunos para a atualidade. Nesse contexto e ao ensejo da oportuna Campanha “Comece pelo Começo”, os 150 anos de A Gênese deve ser uma motivação para se implementar seu estudo, divulgação e valorização na seara espírita.

Referências:

1) Kardec, Allan. Trad. Bezerra, Evandro Noleto. Revista Espírita. Ano XI. No. 1. 1868. Rio de Janeiro: FEB.

2) Kardec, Allan. Trad. Sêco, Albertina Escudeiro. A gênese. 3.ed. Cap. I, itens 13, 16 e 55; Cap. XIV, item 22; Cap. XV, Itens 61, 67-68; Cap. XVIII, itens 6 e 26. Rio de Janeiro: Ed. CELD. 2010.

3) Artigo: http://grupochicoxavier.com.br/a-genese-150-anos-valor-da-obra-e-suas-primeiras-edicoes-francesas/ (Acesso em 07/01/2018).

 

(Adaptação do artigo: http://www.oconsolador.com.br/ano11/548/especial.html)

(Ex-presidente da FEB e da USE-SP)

Efemérides marcantes para o Ano Novo – 2018

Efemérides marcantes para o Ano Novo – 2018

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O ano de 2018 será marcado por comemorações relacionadas com diversas efemérides espíritas.

Episódio histórico importante relacionado com o trabalho de Allan Kardec foi o lançamento, há 160 anos, em janeiro de 1858 da “Revista Espírita”, que ele editou mensalmente até sua desencarnação. Este periódico reúne artigos, resenhas de livros, notícias e comentários muito significativos, sendo uma fonte histórica do Espiritismo. Desde alguns anos atrás a “Revista Espírita” é editada pelo Conselho Espírita Internacional.

No dia 6 de janeiro transcorrem 150 anos da publicação do livro “A Gênese”, por Allan Kardec. Essa obra completa o conjunto dos cinco principais livros do Codificador do Espiritismo, as chamadas Obras Básicas da Doutrina Espírita.

Allan Kardec destaca no subtítulo: “A Doutrina Espírita é o resultado do ensino coletivo e concordante dos espíritos. A Ciência é chamada a constituir a Gênese segundo as leis da Natureza. Deus prova sua grandeza e seu poder pela imutabilidade de suas leis, e não pela sua suspensão. Para Deus, o passado e o futuro são o presente.” Os temas são desenvolvidos em três partes – A gênese segundo o Espiritismo; Os milagres segundo o Espiritismo; As predições segundo o Espiritismo -, desdobrando-os em dezoito capítulos.

Há 80 anos, no dia 30 de janeiro de 1938, Cairbar Schutel completava sua vida terrestre. Nas primeiras décadas do século XX Cairbar Schutel foi um marco como grande divulgador do Espiritismo a partir do Centro Espírita Amantes da Pobreza e da Editora O Clarim, em Matão (SP), em ações por ele iniciadas: assistência aos necessitados, palestras, polêmicas, jornal “O Clarim”, a “Revista Internacional de Espiritismo”, livros e programas radiofônicos pioneiros. Neste ano também se completa 150 anos do nascimento de Cairbar Schutel, ocorrido na cidade do Rio de Janeiro no dia 22 de setembro de 1868. É chamado “o Bandeirante do Espiritismo”.

Outro fato histórico do início do Espiritismo foi a fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, por Allan Kardec, em 1o de abril de 1858, em Paris. Há 160 anos atrás surgia o primeiro centro espírita do mundo. Há vários registros sobre as reuniões da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas nas edições de Revista Espírita, e nos livros O livro dos médiuns, O céu e o inferno e Obras Póstumas. O Regulamento da Sociedade está publicado em O livro dos médiuns.

De 17 a 25/7/1948 foi realizado o 1o Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil na cidade do Rio de Janeiro, liderado pelo incansável Leopoldo Machado, grande incentivador das mocidades espíritas. Também será completado 70 anos da realização do 1o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, de 31 de outubro a 5 de novembro de 1948, em São Paulo, promovido pela USE-São Paulo. Este evento gerou a primeira psicografia de Chico Xavier sobre união e unificação que foi assinada por Emmanuel – “Em nome do Evangelho” -, e dirigida aos participantes do evento.

No dia 1o de novembro de 1918, completa-se um século da desencarnação de Eurípedes Barsanulfo em Sacramento (MG), considerado o “Apóstolo do Triângulo Mineiro”. Numa existência de apenas 38 anos fundou escola, centro espírita e farmácia e atuou como médium de curas e grande defensor do Espiritismo. É uma referência na cidade de Sacramento e na história do Espiritismo no Brasil.

Os eventos e as personalidades citadas produziram repercussões no movimento espírita.

As boas obras e os bons exemplos devem ser referenciais importantes para as novas gerações, daí a razão da necessidade de se evocar episódios históricos marcantes.

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“Ano Novo é também renovação de nossa oportunidade de aprender, trabalhar e servir” – Emmanuel. (Texto completo: http://grupochicoxavier.com.br/carta-de-ano-novo-3/)

(*) – Foi presidente da FEB e da USE-SP.

Reflexão para o Ano Novo

Reflexão para o Ano Novo

Richard Simonetti

Desperta, ó tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará. Andai prudentemente, não como néscios e, sim, como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual é a vontade do Senhor. (Epístola aos Efésios, 5:14-17)

Considerando o tempo como o grande tesouro que Deus nos oferece em favor de nossa evolução, onde estivermos poderemos adquirir valiosos patrimônios de experiência e conhecimento, virtude e sabedoria, se não deixarmos que se escoem os minutos, as horas, os dias, os anos, mergulhados no sonambulismo que caracteriza tanta gente, que dorme o sono da indiferença, sob o embalo da ilusão. O século marca, extrinsecamente, o período de uma vida, valioso patrimônio que Deus nos oferece para experiências evolutivas na Terra.

Mas o valor intrínseco, real do século dependerá do que fizermos dos três bilhões, cento e cinquenta e três milhões e seiscentos mil segundos que o compõem. A bondade, o amor, a ternura, a mansuetude, a humildade, a compreensão, a paciência, a fé, são valores que “compramos” à custa de dedicação, renúncia, sacrifício, esforço, mas são inalienáveis, jamais os perderemos, habilitando-nos à alegria e à paz onde estivermos, vivendo em plenitude.

Todavia, se não fizermos bom uso do tempo, um século poderá representar para nós mera semeadura de inconsequência e vício, rebeldia e desatino, com colheita obrigatória de sofrimentos e perturbações. Imperioso, portanto, que aproveitemos as horas. Podemos começar com o que há de errado em nós.

O vício, por exemplo, não representa apenas perda, mas, sobretudo, comprometimento do tempo, com repercussões negativas para o futuro. Quantos minutos perde o fumante, por ano, no ritual das baforadas de nicotina? Quantas horas precisa trabalhar para alimentar o vício e pagar o tratamento de moléstias que decorrem dele? Quantos dias abreviará de sua existência por comprometer a estabilidade orgânica? Quantos anos sofrerá depois, com os desajustes espirituais correspondentes?

E o maledicente, quantos minutos perde diariamente, divagando sobre aspectos menos edificantes do comportamento alheio? E quantas existências gastará depois, às voltas com males que, a custa de enxergar nos outros, sedimentará em si mesmo?

O propósito de vencer um vício, a contenção da língua, a disciplina da palavra e das emoções, os ensaios de humildade, o treinamento da paciência, a disposição de aprender, o desejo de servir e muito mais, devem fazer parte de nosso empenho de cada dia. Afinal, Deus nos oferece a bênção do Tempo para as experiências humanas, mas fatalmente receberemos um dia a conta pelos gastos, na aferição de nossa vida, como explica Laurindo Rabelo no notável soneto “O Tempo”.

Deus pede estrita conta do meu tempo,

É forçoso do tempo já dar conta;

Mas, como dar sem tempo tanta conta,

Eu que gastei sem conta tanto tempo!

Para ter minha conta feita a tempo

Dado me foi bem tempo e não fiz nada.

Não quis sobrando tempo fazer conta,

Quero hoje fazer conta e falta tempo.

O vós que tendes tempo sem ter conta,

Não gasteis esse tempo em passatempo:

Cuidai enquanto é tempo em fazer conta.

Mas, ah! se os que contam com seu tempo

Fizessem desse tempo alguma conta,

Não choravam como eu o não ter tempo.

As três velas

As três velas

Richard Simonetti

Na igreja, três velas conversavam.

Disse a primeira: – Sou a Paz. Estou cansada. As pessoas não se empenham por manter-me acesa. Vivem tensas e nervosas. Negam-me o oxigênio da reflexão.

Disse a segunda: – Sou a Fé. Infelizmente, sou supérflua para as pessoas. Não estão interessadas em dar um sentido religioso à existência. Negam-me o oxigênio da espiritualidade.

Disse a terceira: – Eu sou o Amor! As pessoas ignoram-me porque só conseguem pensar nelas mesmas. Não enxergam nem mesmo quem está ao seu lado. Negam-me o oxigênio da solidariedade.

Em breves instantes, a luz que havia nelas bruxuleou e morreu, fazendo-se a escuridão na igreja.

Nesse instante entrou um menino trazendo uma vela acesa, chama forte e firme. Com ela reacendeu as três, que voltaram a refulgir.

E disse-lhes: – Fiquem tranquilas. Sempre virei reanimá-las.

Esta singela história reporta-se às quatro bases que sustentam nosso equilíbrio e nos proporcionam condições para vivermos felizes. As três primeiras, como já enunciei, amigo leitor, são a Paz, a Fé e o Amor. A Paz é o tempero da felicidade. Impossível viver feliz sem ela. Mesmo que tenhamos a satisfação de todos os nossos desejos, se não tivermos Paz, nada disso terá sentido.

Em face de nossas limitações e fraquezas, é difícil sustentar a Paz diante das atribulações humanas. Conseguimos por algum tempo, mas a chama logo bruxuleia e surgem tensões, angústia, depressão…

A Fé é nossa defesa diante da adversidade. É complicado enfrentar os embates da vida sem a certeza da existência de um Poder Supremo que nos criou, que nos sustenta, que nos conduz. O problema é que a Fé situa-se por suave perfume para as horas floridas. Se surgem espinhos no jardim da existência, ela logo arrefece. Pretendemos que Deus atenda às nossas expectativas, mas raramente correspondemos às expectativas de Deus. Não entendemos as respostas do Céu às nossas rogativas e achamos que Deus nos abandonou.

- Ledo engano! Deus nunca nos abandona!

A todos estende mão complacente, mas será que estamos estendendo as mãos para o Senhor? O Amor é a Lei Maior do Universo. Exprime-se como um exercício de solidariedade, que inspira a derrubada das barreiras de nacionalidade, raça e crença, para que sejamos na Terra uma grande família, feliz e ajustada. Amar, portanto, em sua expressão maior – trabalhar pelo próximo – é o alento da vida. Haverá tônico mais poderoso, a sustentar-nos o bom ânimo, do que as boas ações, quando nos vinculamos ao serviço do Bem, empenhados em servir? Haverá alegria que se compare a que sentimos quando visitamos o enfermo, atendemos o necessitado, harmonizamos a família? Isso tudo é Amor! O problema é que as pessoas ainda não entendem o que é amar. Pensam que amar é sufocar o ser amado com exigências, sustentar o desejo de comunhão sexual, edificar um céu particular de egoísmo a dois. Falso amor esse, que não se sustenta, que se desgasta com a convivência, a rotina, os desentendimentos, gerando frustrações e angústias.

Percebe-se que a Paz, tempero da felicidade, a Fé, armadura da alma, e o Amor, sustento da Vida, não estão consolidados em nossa alma. São frágeis chamas que se apagam facilmente, ao vento das paixões, dos vícios, dos interesses imediatistas, dos dissabores…

Por isso é tão importante o mês de dezembro, em que somos visitados por celeste menino que traz uma vela muito especial, de chama poderosa. Com ela reacende as demais para que a Paz, a Fé e o Amor renasçam em nós. O nome do menino, todos sabemos: Jesus.

A vela sublime, maravilhosa, é a Esperança.

É por isso que nas comemorações do Natal nos sentimos mais tranquilos, mais inclinados à atividade religiosa, mais sensíveis aos apelos da solidariedade, convictos de que podemos construir um futuro melhor.

O grande desafio que o Natal nos propõe é o de luta ingente contra nossas imperfeições para que a Paz, a Fé e o Amor deixem de ser meras esperanças, a cada Natal, convertendo-se em chamas perenes a iluminar e aquecer a nós e àqueles que nos rodeiam. Então os Sinos de Belém repicarão na festa maior.

O nascimento de Jesus em nossos corações.