Um imprescindível esclarecimento feito por Denis e Singer

Um imprescindível esclarecimento feito por Léon Denis e Paul Singer

André Ricardo de Souza (*)

Após a desencarnação de Allan Kardec, em 1869, León Denis (1846-1927) se tornou talvez o maior propagador do espiritismo, tendo sido este francês da aldeia de Foug, próxima à cidade de Tours, fiel à codificação do grande compatriota de Lyon.

Por sua vez, o economista Paul Singer (1932-2018), judeu austríaco de Viena e emigrado ao Brasil com sua mãe aos oito anos de idade, devido à perseguição nazista, foi docente da Universidade de São Paulo e também gestor de relevantes políticas públicas. Tendo sido meu professor e amigo próximo, Singer foi a pessoa mais espiritualizada que conheci nesta existência. Foi também o grande ideólogo e incentivador de um amplo conjunto de experiências de produção, consumo e crédito pautadas por princípios igualitários e democráticos. Tal conjunto tem o nome de economia solidária.

Uma experiência desse tipo é relatada no principal livro psicografado por Francisco Cândido Xavier, de 1941,conforme apontado por ele próprio: Paulo e Estêvão . [1]

Ambos, Denis e Singer, nasceram em famílias materialmente pobres, trabalharam ainda muito jovens, como operários, antes de se tornarem intelectuais. Também se dedicaram à causa do cooperativismo autogestionário, marcado pela distribuição tão equitativa quanto possível dos ganhos entre todos os membros (Nobre, 1982; Soares, 1984; Souza, 2018; Santos; Nascimento, 2018). Contudo, não creio que este tenha sido reencarnação daquele.

Outra semelhança entre eles é a crítica ao pensador e ativista alemão Karl Marx (1818-1883). León Denis rejeitou peremptoriamente a ideia marxista do “ódio entre classes sociais”, enfatizando a educação, em vez do conflito, como caminho para a positiva transformação da sociedade. Por seu turno, Paul Singer – que estudou profundamente,junto com outros pesquisadores uspianos, os textos de Marx -veio a apontar, já em sua maturidade, que eles não davam conta das condições necessárias para a equilibrada e perene transformação social.

Abro aqui um fundamental parêntese para dizer que a palavra cristianismo ainda causa temor e ojeriza em pessoas de determinados lugares do planeta devido às terríveis ocorrências históricas: Cruzadas e Inquisição, além do intolerante fundamentalismo que subiste. Continua, portanto, representando algo destruidor nesse imaginário.

Todavia, como bem sabemos, o cristianismo – tal como iniciado pelo Nosso Senhor Jesus Cristo e revivido por grandes missionários como Francisco de Assis, Matinho Lutero, Allan Kardec, Bezerra de Menezes, Marthin Luther King, Teresa de Calcutá, Chico Xavier e Papa Francisco – nada tem de destruidor, muito pelo contrário.

É preciso também dizer com todas as letras que tanto León Denis quanto Paul Singer dedicaram seus escritos e, mais que isso, suas vidas à busca de algo que também gera, ainda hoje, grande confusão interpretativa: o socialismo. Cada qual a seu modo escreveu a respeito e buscou efetivamente o socialismo fraterno, aquele que prima pela liberdade e é necessariamente democrático. Isso está presente no livro de Denis, decorrente de artigos editados na Revista Espírita em 1924: Socialismo e Espiritismo, publicado em 1982 no Brasil .[2] Trata-se de uma obra realmente importante e bela que ainda é negligenciada por parte do movimento espírita devido ao enviesado conhecimento do tema.

E está presente também no principal livro de Paul Singer: Utopia militante: repensando o socialismo, de 1998. Nesta obra, com base em dados históricos bem documentados, ele rejeita a ideia de socialismo centralmente planejado e autoritário, que é implantado mediante revoluções políticas. Como alternativa, Singer delineia o processo de‘revolução social’ que levou à passagem do feudalismo ao capitalismo industrial. E aponta para a possibilidade de um caminho de transformação lenta – com base em mudanças culturais – para o socialismo democrático, que ainda não existe e no qual o mercado seguirá tendo papel social importante, mas não tirânico e excludente, dado seu equilíbrio com o Estado e havendo nele destaque para a economia solidária. É preciso dizer que, tanto no pensamento de Denis quanto no de Singer, não está presente a ideia de igualdade absoluta entre todos os indivíduos e tampouco a privação da liberdade de nenhum deles.

Em consonância ainda, cabe lembrar que Emmanuel, o mentor espiritual de Chico Xavier, também tratou desse tema em quatro importantes obras, chegando a usar a expressão “socialismo cristão do porvir” . [3]

Danosas distorções, práticas infelizes e o decorrente medo, como visto, tornaram o cristianismo erroneamente interpretado, sendo que o mesmo – guardadas as devidas proporções – ocorreu em relação socialismo, termo, equivocadamente, abominado ainda por grande da população. Tal medo, muitas vezes, gera hostilidade e, grosso modo, prossegue sendo instrumentalizado politicamente. Mas, graças a Deus, os também missionários León Denis e Paul Singer, além de Emmanuel, nos auxiliam decisivamente na desmistificação e no esclarecimento a respeito.

Referências bibliográficas:

DENIS, León. Socialismo e Espiritismo. Matão, O Clarim, 1982.

NOBRE, Freitas. Prefácio. In: DENIS, León. Socialismo e Espiritismo. Matão, O Clarim, 1982.

SANTOS, Aline Mendonça; NASCIMENTO, Claudio. Paul Singer: democracia, economia e autogestão. Marília, Lutas Anticapital, 2018.

SINGER, Paul. Uma utopia militante: repensando o socialismo. Petrópolis, Vozes, 1998.

SOARES, Sylvio Brito. Páginas de León Denis. 2ª edição. Brasília, FEB, 1984.

SOUZA, André Ricardo de. Professor Paul Singer e a economia solidária. P2P & Inovação, v. 5, p. 43-52, 2018.

Notas:

[1] http://grupochicoxavier.com.br/a-economia-solidaria-no-livro-paulo-e-estevao/;

[2] Vale destacar um trecho do prefácio por quem foi marido de médica Marlene Nobre (1937-2015) e eminente deputado federal José Freitas Nobre (1921-1990): “Espiritismo e Socialismo estão unidos por laços estreitos, visto que o primeiro oferece ao segundo o que lhe falta a mais, isto é, o elemento de sabedoria, de justiça, de ponderação, as altas verdades e o nobre ideal sem o qual este último corre o risco de permanecer impotente ou de mergulhar na escuridão da anarquia.”

[3] Livros: Emmanuel, de 1938 (capítulo 21, terceiro parágrafo); A caminho da luz, de 1939 (capítulo 24, segundo item); O Consolador, de 1941 (questões:55 a 57); Caminho, verdade e vida, de 1949 (lição 61).

 

(*) O autor é professor de sociologia da UFSCar, colaborador do paulistano Núcleo Espírita Coração de Jesus e organizador, com Pedro Simões, dos livros: Espiritualidade e espiritismo (Porto de Ideias, 2017) e Dimensões identitárias e assistenciais do espiritismo (Appris, 2020). 

Problemas sociais, institucionais e pessoais na pandemia

Problemas sociais, institucionais e pessoais na pandemia

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A pandemia do COVID-19 provocou alterações em todos os níveis do cenário mundial. As prudentes orientações sanitárias de distanciamento social são indispensáveis e em algumas situações chegam ao nível de blecaute.

Em consequência surgiram problemas pessoais, sociais e familiares, envolvendo questões psicológicas, espirituais, educacionais, econômicas e financeiras.

A prolongada reclusão doméstica, a enorme quantidade de mortos e contagiados, a natural insegurança e até medo da morte, culminam levando a um cenário de “luto”. As teorias e propostas de solidariedade e fraternidade sugerem equacionamentos adequados, mas a prática permanece complicada dentro de contexto tão sério e comprometendo as pessoas em todos os seus ambientes de convivência.

Parcela considerável da população tem dificuldades de sobrevivência física e de acesso à saúde. Muitas famílias entraram em dificuldades em função de desempregos, diminuição e quase ausência de rendas.

Por outro lado, sente-se claramente as posições de autoridades negacionistas das questões básicas de prevenção de contágios e alguns até com imagem de indiferença com a dor provocada pelas mortes ou pelos pânicos em torno das mesmas. Até as providências de vacinações vem sendo objeto de polêmicas e de disputas políticas, desfocando-se das medidas técnicas e científicas.

Ou seja, falta apoio e orientação à população em geral e o cenário é muito conturbado.

Em função desse quadro preocupante e às vezes desolador, há problemas vividos pelos espíritas como cidadãos, no contexto de suas famílias, e também à vista das necessidades de subsistência das instituições a que são vinculados.

Se numa grande cidade, alguém fizer uma caminhada à guisa de exercício, se defrontará com abordagens seguidas de pedintes solicitando-se auxílios. Pelo whatsapp e pelas redes sociais em geral, há campanhas de instituições de várias regiões. Algumas chegam a solicitar compartilhamentos e indicações de espíritas de várias partes para encaminharem suas campanhas. No fundo, não percebem que todas instituições dos vários Estados e países certamente também enfrentam dificuldades financeiras.

E, sem dúvida, alguns frequentadores e colaboradores de centros podem estar passando por momentos delicados, além de estarem isolados da antiga salutar convivência fraterna. Há apelos e até pressões de todas as formas e em todos os momentos. Será que as instituições não deveriam se circunscrever a campanhas viáveis interna corporis, sem divulgação pelas redes sociais?

Por outro lado, as novas alternativas para os vários tipos de comunicação – reuniões e estudos – on line, multiplicam-se, mas devem respeitar valores morais e espirituais.

Fato interessante é que agora se concretiza a alternativa das instituições economizarem, sem o ônus financeiro para se garantir viagens e hospedagens de expositores convidados.

Todavia, as novidades levam a exageros. A nosso ver, as “lives” de caráter pessoal merecem uma análise especial. Isso porque surgem aquelas com recursos de “impulsos” e “turbinamentos” pagos para se ampliar a disseminação de mensagens nas redes sociais, e, observamos com muitas reservas e dúvidas os objetivos desses procedimentos que visam o crescimento numérico de “seguidores” e o emprego de plataformas do chamado marketing digital, muito empregado em meios empresariais.

Frente a questões tão delicadas, cabem muitas reflexões e avaliações. Para isso o Espiritismo dispõe de subsídios infindáveis, mas é necessária uma atenção na mensagem prevalente em O Evangelho segundo o Espiritismo. Evidentemente que há orientações e recomendações gerais para as premissas da fraternidade e da solidariedade, mas o saberes sobre o sentir, ouvir, adequar e agir serão muito importantes para se analisar caso a caso as problemáticas das pessoas e das instituições espíritas.

Dentro dos parâmetros espíritas e cristãos há meios para se rever posturas e ações, do âmbito pessoal até o social, mas as doses e o “timing” são variáveis e não se pode generalizar ou se padronizar.

Tempos difíceis: momentos para análises, avaliações e reflexões!

Como reflexão sugestiva para as superações: “As dificuldades de qualquer natureza são sempre pedras simbólicas, asfixiando-nos as melhores esperanças do dia, do ideal, do trabalho ou do destino, que recebemos na glória do tempo. É necessário saber tratá-las com prudência, serenidade e sabedoria” – Emmanuel1 .

1) Xavier, Francisco Cândido. Espíritos diversos. Vida em vida. Cap. Pedras. São Paulo: IDEAL.

Um olhar para a história das Mocidades

Circuito Aberto – Departamento de Mocidades da USE

Entrevista com Antonio Cesar Perri de Carvalho

Um olhar para a história das Mocidades

A reflexão “onde estamos e para onde vamos” ocupa a mente dos encarnados neste momento e também se encontra no planejamento de instituições espíritas. Neste sentido, entendemos ser primordial conhecer o caminho percorrido. Heródoto, o ‘pai da História’, asseverou a necessidade de “pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”.

Convidamos o escritor e palestrante espírita Antonio Cesar Perri de Carvalho para contar sua história junto às mocidades espíritas. Trabalhador ativo do Movimento Espírita, Perri foi Presidente da USE, da FEB e foi membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional. Quando jovem, teve seu primeiro contato com o movimento de mocidades em Araçatuba na 15ª Concentração de Mocidades Espíritas do Brasil Central e Estado de São Paulo – COMBESP, em abril de 1962. Colaborou nas aulas de Moral Cristã na Instituição Nosso Lar da mesma cidade e, aos 16 anos, fundou a Mocidade Espírita Irma Ragazzi Martins, como departamento daquela casa. Tornou-se participante e trabalhador assíduo de Concentrações e Confraternizações de Mocidades Espíritas, tendo participado da primeira edição da COMJESP, em 1967, em Ribeirão Preto, quando venceu os concursos de oratória e de trabalho escrito do evento. Na entrevista a seguir, passamos pela trajetória desse trabalhador do Movimento Espírita de Unificação e com isso olhamos para o passado do DM/USE, nos permitindo reflexões mais profundas sobre o presente e futuro das Mocidades e do Departamento.

DM – Como surgiram e como eram organizadas as mocidades espíritas?

Perri: Os grupos de jovens espíritas surgiram nas décadas 1930 e 1940, sendo a maioria independente das instituições espíritas. Destacamos que a União das Mocidades Espíritas de São Paulo-UMESP, de 1937, preparou inúmeras lideranças para São Paulo e para a futura fundação da USE-SP.  Em 1948 surgiu a Concentração de Mocidades Espíritas do Brasil Central e Estado de São Paulo–COMBESP, independente e reunindo jovens de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e depois o Distrito Federal (Brasília). Foi um celeiro para formação de expositores e lideranças. Em seguida foi criado o Conselho Consultivo de Mocidades Espíritas do Brasil, independente e relacionado com o histórico 1o Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil (Rio de Janeiro, julho/1948), liderado por Leopoldo Machado. Em 1956, surgiu o primeiro evento regional, a Concentração de Mocidades Espíritas da Noroeste do Estado de São Paulo-COMENOESP, e depois das regiões Nordeste, Leste e Capital.

DM - Percebe-se a separação das mocidades e dos centros espíritas neste início. Como ocorreu a unificação?

Perri: O Conselho Federativo Nacional da FEB promoveu eventos regionais para discussão de temas do Movimento Espírita. O Simpósio Centro-Sulino (Curitiba, 1962) aprovou deliberações para as Mocidades: a suspensão da COMBESP, encerrada em Barretos (1966); a promoção de eventos estaduais, pelas Federativas Estaduais; que as Mocidades e Juventudes se transformassem ou fossem criadas como departamentos de Centros Espíritas. Os eventos estaduais surgiram após as recomendações do citado Simpósio, inclusive a COMJESP (1967). Realçamos que as Mocidades contribuíram para o estímulo ao estudo, à preparação de recursos humanos e a dinamização dos centros e do movimento em meados do Século XX. Várias lideranças com atuações significativas no movimento espírita são oriundos desse período.

DM – Pelo apresentado, essa junção foi muito relevante para o movimento espírita da atualidade. Quais postulados você considera importantes para o movimento de unificação e para a coesão interna?

Perri: Consideramos necessária a revisão do movimento de unificação, pautando-o nas premissas de Allan Kardec, expressas no seu último discurso, com o conceito de laço moral e no Projeto 1868, a Constituição Transitória do Espiritismo, publicados na Revista espírita. No final de nossa presidência na USE-SP, no ano 2.000, foi elaborada a “Carta de Intenções de Acordo de União pela Difusão da Doutrina Espírita” assinada pela USE-SP e por instituições e entidades especializadas não vinculadas à proponente, tendo por objetivos a ação informal, respeito à individualidade, convivência e intercâmbio fraterno, ação conjunta pelas obras de Kardec.

DM – Vivemos uma mudança causada pela pandemia do coronavírus, gerando a migração para o ambiente virtual de várias mocidades e, infelizmente, a interrupção do funcionamento de algumas. Soubemos de outros momentos de mudança como este, por exemplo, durante o regime militar também houve mudanças em relação às mocidades. O que ocorreu e como se desenvolveram as atividades das mocidades e do movimento com os jovens nos anos seguintes?

Perri: No final dos anos 1960 surgiu o “Movimento Universitário Espírita” na região de Campinas com propostas que relacionavam ideias espíritas com linhas político-partidárias, as quais suscitavam muita atenção por parte do governo federal. Houve reação dos órgãos espíritas e se fortaleceu a departamentalização das mocidades. Nos anos 1970/80 surgiram propostas na FEB e em alguns Estados de junção dos Departamentos de Infância e de Juventude. Em São Paulo esses mantiveram-se separados. Num contexto geral, houve maior mobilidade de jovens para estudos universitários em cidades grandes e capitais. Esses fatores levaram a uma etapa com características diferentes das décadas de 1930/60. Houve estímulo para que as famílias – pais e filhos – se integrassem nas atividades dos centros. Os eventos jovens regionais e estaduais representaram estímulo para as mocidades.

DM – Diante de sua experiência no movimento de unificação, você enxerga algum diferencial para a retomada das atividades no pós-pandemia?

Perri: Há necessidade de análise sobre o novo momento: as características gerais e as peculiaridades regionais e locais; impacto das redes sociais; muitas atividades e eventos serão híbridos: presenciais e virtuais; ouvir-se o público alvo, os jovens, com relação a temas, ações e processos de comunicação. As mocidades devem ser analisadas separadamente da evangelização da infância; favorecer-se o protagonismo juvenil, criando-se espaços nos centros para que os jovens se sintam acolhidos e mais à vontade.

o0o

Agradecemos ao Cesar pela oportunidade que nos concedeu e desejamos que estas colocações auxiliem na manutenção, retomada ou criação de mocidades neste momento ou no pós-pandemia, bem como, fomentem um estreitamento na relação destas com as demais atividades das casas espíritas.

Transcrito de: Dirigente Espírita, órgão da USE-SP, edição novembro-dezembro de 2020. P.40-41; acesso (copie e cole): https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2020/11/DE180-1.pdf

O ESPÍRITA PODE CANDIDATAR-SE A CARGO POLÍTICO?

O ESPÍRITA PODE CANDIDATAR-SE A CARGO POLÍTICO?

Aylton Paiva (*)

De início devemos considerar que a pessoa qualificada como espírita é cidadão ou cidadã e tem direito a se candidatar a cargos públicos. Esse direito está resguardado na Constituição da República Federativa do Brasil, em seu artigo 14, § 3º, que possibilita a pessoascandidatar-se aos cargos políticos eletivos nos Poderes Legislativo e Executivo, nos três níveis de Poder: municipal, estadual e federal, atendendo às disposições legais.

A preocupação com o espírita candidatar-se é manifesta tendo em vista a confusão entre a Política e a “politicalha”. A primeira é a arte e a ciência da administração justa para o Bem comum; a segunda é o uso, por pessoas desonestas e inescrupulosas,de cargos políticos partidários, nos Poderes Legislativo e Executivo, nos três níveis: municipal, estadual e federal, apenas para atender seus interesses egoísticos e ilegais. O desonesto e inescrupuloso, infelizmente, também aparece em todas outras atividades humanas: no cidadão comum, nos exercícios profissionais, no comércio, na indústria, e até em frequentadores e dirigentes de cultos e templos religiosos. É questão de caráter: falta de ética, de honestidade.

Encontramos na Doutrina Espírita, em seu livro de Filosofia Espiritualista, o Livro dos Espíritos, codificado por Allan Kardec e ditado pelos Mentores Espirituais, sob a orientação e comando do Espírito Verdade, doze leis que regem a relação do ser humano com Deus, com os outros seres humanos, com a sociedade e com a vida, em seu sentido mais amplo: As Leis Morais. Essas leis trazem as diretrizes que os cidadãos e cidadãs devem seguir para se erigir uma sociedade mais justa e solidária. Vale lembrar a pergunta que Allan Kardec fez aos Mentores Espirituais:

- “Em que consiste a missão dos Espíritos encarnados? – Em instruir os homens, em lhes auxiliar o progresso, em lhes melhorar as instituições, por meios diretos e materiais (…) (Questão nº 573) (1)

Então, observamos que é necessário agir por meios diretos e materiais para promover o progresso da sociedade e das instituições. E o instrumento mais importante e eficiente, nesse caso, é, sem dúvida, o exercício em cargos políticos administrativos nos poderes: Legislativo e Executivo nos três níveis: municipal, estadual e federal. A forma para chegar a esses cargos, de conformidade com a Constituição da República Federativa do Brasil é através dos partidos políticos que possibilitam ao candidato concorrer, através da eleição, pelo voto secreto, aos referidos cargos.

Logo, a pessoa que se qualifique como espírita tem o direito de se candidatar aos cargos, se tiver vocação e aptidão para isso, consciente que é uma missão material e espiritual muito difícil e de muita responsabilidade. O que o cidadão ou cidadã espírita não deve fazer é levar a política partidária para o Movimento Espírita e para as Instituições Espíritas. Sentindo-se intimamente chamado ou chamada deverá:

“participar conscientemente da ação política na sociedade, sem relegar o estudo e a reflexão do Espiritismo a plano secundário. Pelo contrário o estudo e a reflexão dos temas espíritas deverão leva-lo a permanente participação, objetivando a aplicação concreta do amor e da justiça ao ser humano seja individual ou coletivamente.”(2).

Referências:

(1) O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, Ed. FEB.

(2) Espiritismo e Política: contribuições para a evolução do ser e da sociedade, Aylton Paiva, Ed. FEB.

 

(*) – Atuante na cidade de Lins (SP).

(Publicado no Boletim de Notícias Espíritas – Ismael Gobo – 15-10-2020: http://www.noticiasespiritas.com.br)

Finados – Meimei: lembranças e estudo sobre a sepultura

Finados – Meimei: lembranças e estudo sobre a sepultura

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Na bibliografia psicográfica de Chico Xavier, há vários textos de autoria do espírito conhecido com o pseudônimo de Meimei.

Depois de um casamento de curta duração, Arnaldo Rocha ficou viúvo de Irma de Castro Rocha em 1946. Esse espírito tornou-se autora de inúmeros textos pela psicografia de Chico Xavier, adotando o pseudônimo de Meimei. Chico Xavier e Arnaldo Rocha fundaram o Grupo Meimei, em Pedro Leopoldo, com a coordenação desse último. As transcrições das mensagens psicofônicas desse Grupo deram origem aos livros Instruções psicofônicas e Vozes do grande além, organizados por Arnaldo Rocha e editados pela FEB. Relatos e entrevistas de Arnaldo sobre Meimei se encontram em livro editado pela Casa Editora O Clarim.1

Fato recente e interessante é o estudo feito por pesquisadores de Belo Horizonte “Práticas religiosas no espaço cemiterial: observações sobre o Cemitério do Bonfim”, onde destacam também a sepultura de Meimei.2

A propósito da tradicional efeméride de Finados, com intensas visitas a cemitérios, torna-se oportuno o comentário sobre esses episódios à luz do Espiritismo.

No artigo de pesquisa citado, os autores informam sobre fatos relacionados com a sepultura de Meimei: “é possível constatar que não há uma procura da população pelo túmulo com a intenção de realizar agradecimentos e pedidos. Ainda assim, o que atrai a atenção para a sepultura dessa mulher? O que podemos utilizar como resposta está ligado à difusão de uma doutrina que busca o discurso científico, mas ao mesmo tempo nega o materialismo, premissa básica das ciências”.2

Os autores lembram da inscrição no túmulo de Kardec no Cemitério Père Lachaise (Paris), que sintetiza a concepção evolucionista da doutrina espírita: “Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei”. E passam a analisar os fatores propagadores do Espiritismo no seio da sociedade brasileira como atividades como a assistência social, as receitas de remédios homeopáticos e o emprego da água fluidificada. Esse caráter curativo, não só do espírito, mas também do corpo físico – se é que na concepção da doutrina espírita pode ser dito de forma separada – funcionou como atrativo para os novos adeptos do Espiritismo brasileiro, sendo Meimei um exemplo para essa corrente espiritual.2

Os pesquisadores resumiram aspectos da vida de Irma de Castro Rocha: “nasceu na cidade mineira de Matheus Leme, em 1922, e aos 20 anos mudou-se para a capital mineira, Belo Horizonte. Durante a infância sofria muito devido a sua frágil saúde. Sofria de nefrite crônica, o que a impediu de concluir os estudos na Escola Normal de Itaúna. Ao mudar-se de Itaúna, onde vivia desde os cinco anos de idade, para Belo Horizonte, na companhia de um parente, a jovem conheceu Arnaldo Rocha (1922-2012), que seria seu futuro esposo.”2 Depois citam livros espíritas que após o casamento, ocorrido em 1942, a jovem adoeceu e teve a sua saúde gravemente comprometida e desencarnou no dia primeiro de outubro de 1946, aos 24 anos de idade. Destacam no estudo que o viúvo Arnaldo Rocha era ateu, não se conformava com o triste desfecho e encontrou-se de maneira inesperada com um dos maiores médiuns do Brasil, Francisco Cândido Xavier (1910-2002) ou Chico Xavier como é popularmente reconhecido. Contam o detalhe que Arnaldo chorou quando Chico Xavier começou a falar de Meimei, pois este era o tratamento afetivo sob o qual o casal se tratava na intimidade, adotada “a partir da leitura que fizeram do livro Momentos de Pequim, do escritor sino-americano LinYutang. Ao final do livro, encontram o significado para o verbete Meimei: “Noiva Querida” ou “A Bem-Amada”.

No artigo citado comentaram: “Os laços entre o jovem cético e o médium Francisco Cândido Xavier se estreitaram, passando ambos a defenderem a mesma causa: a caridade através da prática do Espiritismo. Hoje é possível encontrarmos várias casas espíritas que recebem o nome de Meimei, nas quais os trabalhos no campo da espiritualidade buscam ajudar ao próximo através da prática da caridade.”2

Informam que o túmulo do casal Rocha está localizado no Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte: “Trata-se de um túmulo simples, de pó de pedra, que não é local de visitações ou peregrinações da população adepta do Espiritismo, uma vez que os espíritas não cultuam cemitérios e túmulos, ao contrário de outras religiões, como a católica. […] ocasionalmente, durante a realização das já mencionadas visitas guiadas ao espaço cemiterial é possível debater dentre os visitantes a importância daquele lugar de memória e destacar a função do cemitério como espaço de múltiplas manifestações religiosas.”2

Os pesquisadores concluem que “o túmulo no Bonfim é um bom exemplo para identificar o caráter múltiplo e diverso do espaço fúnebre por nós investigado, do ponto de vista religioso e devocional, desde sua fundação, no final do século XIX, e que reverbera na contemporaneidade”.2

Depreende-se que não há “romarias” ao túmulo de Meimei, o que demonstra a real atitude espírita de não se valorizar cultos exteriores em torno de monumentos e sepulturas. Como se encontra em O livro dos espíritos: “A visita de uma pessoa a um túmulo causa maior contentamento ao Espírito, cujos despojos corporais aí se encontrem, do que a prece que por ele faça essa pessoa em sua casa? R – Aquele que visita um túmulo apenas manifesta, por essa forma, que pensa no Espírito ausente. A visita é a representação exterior de um fato íntimo. Já dissemos que a prece é que santifica o ato da rememoração. Nada importa o lugar, desde que é feita com o coração.”3

Referências:

1) Rodrigues, Wallace Leal Valentim; Rocha, Arnaldo; Rocha, Alberto de Souza. Meimei, vida e mensagem. 5.ed. Matão: O Clarim. 2012. 256p.

2) Almeida, Marcelina das Graças; Santana, Julio César de Aguiar; Silva, Roberto Fernandes. Práticas religiosas no espaço cemiterial: observações sobre o Cemitério do Bonfim. Revista M. Estudos sobre a morte, os mortos e o morrer. V. 4, N. 8, p. 361-382, jul./dez. 2020.

3) Kardec. Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos espíritos. Questão 323. FEB.

(*) Ex-presidente da USE-SP e da FEB.

Interpretações de Emmanuel em versículos selecionados

Interpretações de Emmanuel em versículos selecionados

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Nas obras que comentam versículos bíblicos, muitas vezes encontram-se algumas diferenças em função das traduções adotadas nas várias versões da Bíblia.

Ao elaborar O evangelho segundo o espiritismo, Allan Kardec adotou a tradução feita por Lemaistre de Sacy, conhecido por sua tradução da Vulgata (Bíblia em latim) para o francês. Essa tradução tornou-se a mais difundida na França a partir do século XVIII.

Pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, o seu orientador Emmanuel elaborou milhares de textos realizando interpretações de versículos do Novo Testamento. Emmanuel é o autor espiritual de nove livros contendo comentários de versículos do Novo Testamento: Caminho, verdade e vida; Pão nosso; Vinha de luz; Fonte viva; Ceifa de luz, editados pela FEB; Segue-me (O Clarim); Palavras de vida eterna e Livro da esperança (CEC); Bênção de paz (GEEM). De início, o autor espiritual explicou o uso da expressão “num colar de pérolas”, na apresentação intitulada “Interpretação dos Textos Sagrados”, em Caminho, verdade e vida, para compreendermos seus estudos sobre os versículos:

“Em certas passagens, extraímos daí somente frases pequeninas, proporcionando-lhes fisionomia especial e, em determinadas circunstâncias, as nossas considerações desvaliosas parecem contrariar as disposições do capítulo em que se inspiram. Assim procedemos, porém, ponderando que, num colar de pérolas, cada qual tem valor específico e que, no imenso conjunto de ensinamentos da Boa Nova, cada conceito do Cristo ou de seus colaboradores diretos adapta-se a determinada situação do Espírito, nas estradas da vida.”1

Isso pode ser observado em uma obra elaborada com participação de vários autores lançada durante as comemorações do Sesquicentenário de O evangelho segundo o espiritismo na qual há um capítulo que apresenta a “Listagem dos comentários feitos por Emmanuel, não exaustiva, tratando-se, tão somente, da enumeração de algumas de suas mensagens constantes em obras psicografadas pelo médium Francisco Cândido Xavier.2

Registro importante é que nas edições originais dos livros citados de Emmanuel, ele emprega versículos do Novo Testamento adotando a tradicional tradução “revista e corrigida” de João Ferreira de Almeida, bem difundida à época no Brasil. As epígrafes (versículos selecionados) no início de cada capítulo é que dão o tom para as dissertações de Emmanuel. Este destaque é importante porque o linguajar do autor espiritual foi desenvolvido em torno da tradução citada e, eventualmente, versículos de outras traduções podem não ser coerentes com os textos de Emmanuel. O respeito a esse critério orientou-nos nas transcrições e nos estudos feitos em livros de nossa autoria relacionados com a bibliografia de Emmanuel e lançados pela Casa Editora O Clarim: Epístolas de Paulo à luz do espiritismo (2016); Cristianismo nos séculos iniciais. Análise histórica e visão espírita (2018); Emmanuel. Trajetória espiritual e atuação com Chico Xavier (2020).3,4,5

Em palestras e inclusive no “Seminário sobre o estudo de O evangelho segundo o espiritismo” realizado pela USE-SP em 29/10/2017, no Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa Espírita, de São Paulo, a questão das traduções bíblicas veio à tona no momento das perguntas. A resposta à dúvida foi fundamentada nos esclarecimentos que apresentamos em parágrafos anteriores do presente artigo.6

Emmanuel escreveu obras homenageando as obras básicas da Codificação. No Livro da esperança focaliza O evangelho segundo o espiritismo e no início de cada capítulo coloca uma epígrafe do Novo Testamento articulada à transcrição de um trecho de comentários na citada obra de Allan Kardec. Na apresentação, o autor espiritual saúda: “No luminoso centenário de O Evangelho segundo o Espiritismo, em vão tentamos articular, diante de ti, a nossa gratidão jubilosa!…”7

A título de ilustração de diferenças de traduções de algumas versões bíblicas, que por destoarem da palavra-chave do versículo selecionado por Emmanuel, podem criar uma desarmonia com o próprio texto do autor espiritual. Vejamos a epígrafe do capítulo 134 de Vinha de luz: "Naquele dia, quem estiver no telhado, tendo as suas alfaias em casa, não desça a tomá-las." – Jesus (LUCAS, 17:31).8

A palavra chave “alfaias” tem significados amplos: utensílio, móvel ou qualquer objeto, de uso doméstico ou pessoal. Objeto que se usa como enfeite, adorno; bijuteria, enfeite, jóia. Paramento ou enfeite de igreja. Na liturgia de algumas igrejas, pode significar: objeto usado para enfeite pessoal, adorno, jóia, ornamento; ou ainda: os paramentos são pequenos tecidos que, bordados, ganham uma função muito especial dentro do contexto litúrgico. Na maçonaria, alfaias são os paramentos usados pelos seus membros no ambiente das reuniões.

A citada palavra-chave, assim aparece em algumas traduções mais recentes: na Bíblia de Jerusalém: “utensílios”; na Tradução ecumênica da Bíblia (TEB): “objetos”.

Assim, ao lermos trechos da interpretação de Emmanuel sobre a citada epígrafe, e face às diferentes traduções, entendemos que a tradicional palavra “alfaia” seja mais condizente com o pensamento do autor espiritual:

“Não sabem separar as alfaias de adorno dos vasos essenciais, as frivolidades dos deveres justos e sofrem dolorosos abalos no coração. […] Um lar não vive simplesmente em razão das alfaias que o povoam, transitoriamente, e sim pelos fundamentos espirituais que lhe construíram as bases. Um homem não será superior porque satisfaça a opiniões passageiras, mas sim porque sabe cumprir, em tudo, os desígnios de Deus.”8

A propósito de traduções, há um fato histórico na área da literatura espírita. A obra Na hora do testemunho9, uma parceria de Herculano Pires com Chico Xavier, apontou um triste incidente: a adulteração de O Evangelho segundo o Espiritismo, usando atualização e simplificação de palavras em tradução publicada pela editora da FEESP, em julho de 1974. No livro citado há mensagens, crônicas, poemas e cartas, que Herculano Pires e Chico Xavier escolheram, para deixarem documentadas suas posições, quanto à importância da defesa da obra de Kardec contra as tentativas de adulteração. Leitura obrigatória para os espíritas para prevenções contra a estagnação simplória na crença e a aceitação de “mentores” deste e do outro mundo, que por meios tipicamente farisaicos atrelam facilmente os ingênuos e os vaidosos ao carro fantasioso das suas pretensões.

O famoso psicógrafo marcou uma posição firme e Herculano Pires destacou:

“O médium Francisco Cândido Xavier, apesar de sua costumeira isenção em polêmicas doutrinárias, acabou manifestando-se contra a adulteração e tomou posição firme e clara na defesa dos textos de Kardec. A maioria dos chamados líderes espíritas não se manifestou. A hora do testemunho provara mal, revelando a falta de convicção da maioria absoluta, e portanto esmagadora, do chamado movimento espírita brasileiro. Mas os resultados foram se manifestando mais tarde, com um crescente interesse do meio espírita pelas obras de Kardec em edições insuspeitas.”9

Sabe-se que a Editora parou de editar a tradução alterada.

Essa posição firme de Herculano Pires e de Chico Xavier, respectivamente marcados por Emmanuel como: “o metro que melhor mediu Kardec” e a “fidelidade a Jesus e a Kardec”, é coerente com as designações/orientações do citado mentor espiritual e com a mensagem de São Luís:

“Se as imperfeições de uma pessoa só a ela prejudicam, nenhuma utilidade haverá nunca em divulgá-la. Se, porém, podem acarretar prejuízo a terceiros, deve-se atender de preferência ao interesse do maior número. Segundo as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode constituir um dever, pois mais vale caia um homem, do que virem muitos a ser suas vítimas. Em tal caso, deve-se pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes.”10

Como se vive momentos de muitos modismos na literatura e na exposição espírita, transcrevemos trechos de mensagens do próprio Emmanuel:

“Os crentes e trabalhadores do Evangelho usam diversos meios para lhe fixarem as vantagens, mas raros lhe abrem as portas da vida. […] Recebem outros as advertências e luzes evangélicas, à maneira de negociantes ambiciosos, buscando convertê-¬las em fontes econômicas de grande vulto. Ainda outros procuram os avisos divinos, fazendo valer princípios egolátricos, em polêmicas laboriosas e infecundas. No imenso conflito das interpretações dever-se-ia, porém, acatar o pedido de Paulo de Tarso em sua segunda epístola aos Coríntios. O apóstolo da gentilidade roga para que ele e seus companheiros de ministério sejam recebidos nos corações.” E aí destacamos a epígrafe do texto: “Recebe¬-nos em vossos corações.” Paulo (II Coríntios, 7:2).8

Outro comentário oportuno:

“Realmente, por séculos sucessivos, temos realizado a transliteração do Evangelho em todos os climas culturais. […] Contudo não basta nos detenhamos na fraseologia brilhante, no gesto sutil ou nas aparências elogiáveis para demonstrar assimilação do ensinamento transformador. Cristianismo não é somente a forma da civilização que nos propomos construir com Jesus. […] Urge, pois, configurar a revelação não apenas no tesouro verbalístico que nos lastreia as conquistas filosóficas e artísticas de quase dois milênios. […] Todos nos encontramos à face do julgamento, pelo delito de lesa consciência, de vez que temos adulterado a mensagem do Divino Benfeitor de mil modos, em cada romagem no mundo. Jesus, porém, tolera-nos compassivo e reforma-nos o empréstimo de tempo e de valores novos… Mas, se é verdade que nenhum de nós está em condições de atirar a primeira pedra no irmão de caminho, cabe-nos a todos ouvir o Mestre Inesquecível em sua amorosa e segura advertência: – ‘Vai e não peques mais’.”11

Concluindo as sugestões para estudos e reflexões, destacamos o inolvidável Léon Denis:

“O Espiritismo será o que o fizerem os homens, Simila similibus! Ao contato da humanidade as mais altas verdades às vezes se desnaturam e obscurecem. Podem constituir-se uma fonte de abusos. A gota de chuva, conforme o lugar onde cai continua sendo pérola ou se transforma em lodo.”12

Referências:

1. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Caminho, verdade e vida. 1.ed.esp. Cap. Interpretação dos textos sagrados. Brasília: FEB. 2005.

2. Carvalho, Flávio Rey. Indicações de comentários feitos por Emmanuel acerca de trechos do Novo Testamento citados em O Evangelho segundo o Espiritismo. In: Carvalho, Antonio Cesar Perri; Carvalho, Célia Maria Rey (Org.). O evangelho segundo o espiritismo: orientações para o estudo. 1.ed. Cap. 13. Brasília: FEB. 2014.

3. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do espiritismo. 1.ed. Cap. 2. Matão: O Clarim. 2016.

4. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cristianismo nos séculos iniciais. Análise histórica e visão espírita. 1.ed. Cap. Apresentação. Matão: O Clarim, 2018.

5. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Emmanuel. Trajetória espiritual e atuação com Chico Xavier. 1.ed. Cap. 13. Matão: O Clarim. 2020.

6. Seminário sobre o estudo de O evangelho segundo o espiritismo. Texto bíblico usado nos livros originais de Emmanuel. Link: https://youtu.be/ZrJdTNwdxm0 (Acesso em 28/09/2020).

7. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Livro da esperança. 17.ed. Cap. Obrigado, Senhor! Uberaba: CEC. 2002.

8. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Vinha de luz. 1.ed.esp.Cap. 134 e 147. Brasília: FEB. 2005.

9. Xavier, Francisco Cândido; Pires, José Herculano. Na hora do testemunho. 1.ed. São Paulo: Paidéia. 1974. 120p.

10. Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O evangelho segundo o espiritismo. 131.ed. Cap. X. Item 21. Brasília: FEB. 2013.

11. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Construção do amor. 17.ed. Cap. Ante o Evangelho. São Paulo: CEU. 2002.

12. Denis, Léon. Trad. Cirne, Leopoldo. No invisível. 26.ed. Introdução. Brasília: FEB. 2014.

(*) O autor foi presidente da USE-SP e da FEB.

Extraído de:

Revista digital O Consolador. Ano 14. N° 693. Edição de 25/10/2020. Acesso: http://www.oconsolador.com.br/ano14/693/especial.html

Laços espirituais entre Chico Xavier e Emmanuel

Laços espirituais entre Chico Xavier e Emmanuel

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Há inúmeros depoimentos de Chico Xavier sobre suas relações espirituais com Emmanuel, desde a histórica visão nos idos de 1931 quando seu orientador se apresentou e ofereceu a orientação da “disciplina, disciplina, disciplina”. Sempre interessado pelas obras desse Espírito e relatos do médium sobre o mesmo, procuramos reunir preciosos registros.

À vista disso, planejamos um novo livro1 evitando mera repetição de casos já muito divulgados. Selecionamos alguns em que fomos testemunhas nos contatos com Chico e com seus amigos fieis da chamada “primeira hora”, que chegamos a conhecê-los. O desenvolvimento do conteúdo foi realizado a partir dos nossos estudos, observações e vivência em contactos com a vida e obra de Chico Xavier. Nos episódios que selecionamos, bem como a análise das obras de Emmanuel, notadamente dos chamados romances históricos, não tivemos o objetivo de estimular curiosidades, mas de relacionar com uma visão abrangente a trajetória espiritual do orientador espiritual de Chico, para melhor entendermos e valorizarmos o papel do notável exegeta do Novo Testamento à luz do Espiritismo.

Os romances históricos de autoria de Emmanuel oferecem relatos sobre vários vultos dos albores do Cristianismo, incluindo algumas vivências do autor espiritual e do médium. Dessas obras deve-se extrair a essência que pode ser relacionada com os esforços de aprendizagem e evolução espiritual. Daí, ser cabível a afirmação que gravamos de Arnaldo Rocha, o viúvo de Meimei: “Cada história tem seu enredo; mas as mortes de Públio Lentulus Sura, Públio Lentulus Cornelius, Nestório e Basílio nos revelam profundos ensinamentos sobre a lei de causa e efeito e a libertação pelo Evangelho. Afinal, todas elas tratam da mesma alma em evolução, ou seja, esse Espírito benéfico e amoroso que todos admiramos com nossos mais sinceros sentimentos, Emmanuel”.1

Embora Emmanuel não seja personagem do enredo de sua “obra prima” Paulo e Estêvão, destacamos contatos havidos entre o senador Lentulus e Paulo no cenário corpóreo e no Mundo Espiritual. Emmanuel é grato e profundo admirador da vida e epístolas do notável apóstolo. Realçamos comentários da época da edição do épico romance Paulo e Estêvão; foram publicados três artigos na revista Reformador, assinalando o lançamento da obra. Destacamos neste artigo que na edição de julho de 1942, o articulista Alexandre Dias assinala: “as cenas e os cenários bem traçados, como a perfeita caracterização dos personagens, prendem a atenção do leitor…”1 Conhecida liderança espírita daquela década Roberto Pedro Michelena (depois general), de Porto Alegre, declarou: “Mas o luminoso espírito de Emmanuel monopoliza-lhe, por alguns anos, a mediunidade ímpar. Dá-lhe o fabuloso romance Há dois mil anos que é sua própria autobiografia, de quando ele, Emmanuel, fora, ao tempo do Cristo, proconsul romano na Palestina. O enredo, a beleza e os ensinamentos cristãos desse livro, asseguram-lhe lugar culminante na literatura brasileira. É um retificador de almas! Segue-se, entre muitos outros, o épico romance Paulo e Estêvão”.1

O romance Ave, Cristo! foi concluído por Emmanuel no dia 18 de abril de 1953 e na passagem de novembro para dezembro já estava editado pela FEB. Rapidamente, Arnaldo Rocha recebeu o primeiro exemplar da nova obra autografada pelo médium. Ele é um dos personagens desse enredo do século III, bem como outros contemporâneos de Chico, e, tem muita relação com episódios subsequentes registrados no inspirado livro Esquina de pedra, de Wallace Leal Valentim Rodrigues (Casa Editora O Clarim).

Dos anos 1950 há um curioso relato de Ramiro Gama, amigo do médium dos tempos de Pedro Leopoldo, a respeito de um conhecido confrade de São Paulo que certa feita chegou ao Centro Espírita Luiz Gonzaga. Abraça o médium e diz: “- Vim de São Paulo especialmente para lhe dar um beijo. E dando-lhe o beijo na face, conclui: beijando-o, tenho a impressão de que beijei seu querido Guia Emmanuel. E o Chico com toda candidez e humildade respondeu-lhe: – Não, meu caro Irmão, você não beijou Emmanuel mas sim o seu burrinho, que sou eu”.1

No transcorrer do primeiro programa “Pinga Fogo” Chico fez um depoimento que deixa bem clara sua relação com o Espírito: “Emmanuel tem sido para mim um verdadeiro pai na Vida Espiritual, pelo carinho com que me tolera as falhas e pela bondade com que repete as lições que devo aprender. Em todos esses anos de convívio estreito, quase diário, ele me traçou programas e horários de estudo, nos quais a princípio até inclui datilografia e gramática, procurando desenvolver os meus singelos conhecimentos de curso primário, em Pedro Leopoldo, o único que fiz até agora, no terreno da instrução oficial. […] O tempo de convivência com o Espírito de Emmanuel, nosso guia, parece que criou entre ele e eu um processo de conhecimento e palavra por osmose. Vão me perdoar… eu não sei definir o problema. Sei que ele está presente, mas ele não permite que faça muitas observações mediúnicas, para que eu me mantenha estritamente dentro do programa e não com qualquer distração para observações marginais.”1

Particularmente, ouvimos comentários muito significativos durante visitas que fizemos ao médium em Uberaba. Em janeiro de 1977, cerca de dois meses após sofrer um enfarte, ele nos relatou a advertência do pai espiritual enérgico. Chico mostrou-nos a quantidade de medicamentos que estava utilizando. Sempre fazendo brincadeiras dizia, sorrindo, que estava escravo deles… Porém, ficando sério, contou ao grupo de visitantes que, contrapondo-se a momentos passageiros de desânimo, Emmanuel afirmou-lhe incisivo: "Sai da cama ou vai para a cova…" Chico tratou de se adequar rapidamente à nova situação e retornar às suas atividades e sobreviveu mais 25 anos dedicados ao trabalho mediúnico.

Na análise e reflexão sobre a trajetória espiritual de Emmanuel e o valoroso conteúdo de suas obras pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, dispomos de subsídios de inestimável valor para a educação do Ser fundamentada na Boa Nova com a ótica espírita!

Referência:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Emmanuel. Trajetória espiritual e ações com Chico Xavier. Matão: O Clarim. 2020. 208p.

De:

Revista internacional de espiritismo. Ano XCV. N.8. Setembro de 2020. P. 384-385.

Auto de fé de Barcelona e a queima de livros e de documentos

Auto de fé de Barcelona e a queima de livros e de documentos

      

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Na história do Espiritismo há o registro do terrível “Auto de Fé de Barcelona”, perpetrado no dia 9 de outubro de 1861, mas também outras situações assemelhadas não muito divulgadas.

O “Auto de fé de Barcelona” foi uma expressão cunhada por Allan Kardec ao se referir ao episódio ocorrido na cidade espanhola, por ordem de um bispo católico, quando obras suas e de outros autores espíritas foram confiscadas e queimadas em praça pública. Os livros foram encomendados pelo editor francês Maurice Lachâtre que havia montado uma livraria em Barcelona. A citada expressão foi utilizada pela primeira vez como subtítulo do artigo "O resto da Idade Média", publicado pelo Codificador em novembro daquele ano na Revue spirite.1

Todavia, também há situações estranhas internas do movimento espírita.

Em 1884, a amiga e colaboradora do casal Kardec, Berthe Fropo, no seu livro Beaucoup de lumière2, fez um paralelo com as tradicionais sentenças do tribunal da Inquisição, chamadas de autos de fé, ao relatar e comentar um fato promovido por membros da Sociedade que deveria dar continuidade e divulgação às obras do Codificador:

“O que teve de estranho ali foi que o legatário sendo uma Sociedade, uma entidade coletiva, não um de seus membros, não estava presente na retirada dos lacres, nem mesmo o Sr. Joly. Poder-se-ia dizer que só o Sr. Leymarie e seus familiares eram os herdeiros; eles foram ajudados pelo Sr. Vautier, tesoureiro e ao mesmo tempo administrador da Sociedade, o que fazia que ele controlasse a si mesmo. Não houve nem inventário, nem venda pública, exceto as coisas fora de serviço que foram vendidas para revendedores de segunda mão. Tudo aquilo era apenas questão de dinheiro, e tinha pouco valor aos meus olhos. Entretanto, o que me fez estremecer de indignação foi assistir a um verdadeiro auto de fé. O Sr. Vautier queimou pilhas de papéis e de cartas. Quantas comunicações e quantas anotações deixadas pelo mestre foram destruídas.”2

Em viagens doutrinárias pela Europa tivemos conhecimento de fatos acontecidos até meados do século XX durante situações de guerras, revoluções e em Estados totalitários, como: sequestro e queima de livros e documentos espíritas; perseguições e até execuções de lideranças. Chegamos a conhecer pessoas que presenciaram ou foram contemporâneos às tristes ocorrências.

Em nosso país, aconteceu a situação, hoje considerada estranha, de destruição dos originais psicográficos das obras Chico de Xavier. Em entrevista gravada e que publicamos, a antiga funcionária da Federação Espírita Brasileira Rúbia da Costa Guimarães declarou-nos:

“Os originais psicográficos de obras Chico foram destruídos. Na época não havia preocupação em se manter os originais, apenas as edições dos livros com suas emendas. Houve um momento em que Chico não concordou mais com tais revisões e se afastou do dr. Wantuil, nos final dos anos 1960 e ambos não tiveram mais contatos. Parecia um afastamento temporário, mas que perdurou.”3

Por outro lado, sem se caracterizar como destruição, mas num sentido amplo, poderia ser um episódio parecido, os casos em que foram alterados textos originais e traduções de obras espíritas.

Episódio pouco lembrado envolvendo Chico Xavier está registrado na história do movimento espírita e, especificamente, relacionado com a literatura espírita. Tentaram envolver Chico Xavier, mas este, com o apoio de Herculano Pires reagiu de maneira doutrinária e firme. A obra Na hora do testemunho4, uma parceria de Herculano Pires com Chico Xavier, apontou o triste incidente da adulteração de tradução de O Evangelho segundo o Espiritismo, usando atualização e simplificação de palavras em versão publicada pela editora da FEESP, em julho de 1974. Aquela edição, traduzida por Paulo Alves Godoy, “pôs em prática aquilo que denominou um plano de completa e total revisão de toda a Codificação Doutrinária de Allan Kardec, como se houvesse, na atualidade, algum ser humano capaz de ‘revisar’ ou ‘atualizar’ as obras básicas da Codificação.” O livro citado foi comercializado a preços populares, para maior divulgação.

Herculano escreveu vários artigos na imprensa. Esse material, várias mensagens, crônicas, poemas e cartas foram reunidos no livro Na hora do testemunho, no qual Herculano Pires e Chico Xavier definem suas posições, quanto à importância da defesa da obra de Kardec contra as tentativas de alteração de palavras. Os dois autores estranharam o episódio e consideraram que “não há explicação possível para esse fato, fora da doutrina da reencarnação. Paulo Alves Godoy tem sido fiel à Doutrina.”

O famoso psicógrafo marcou uma posição firme e Herculano Pires destacou: “O médium Francisco Cândido Xavier, apesar de sua costumeira isenção em polêmicas doutrinárias, acabou manifestando-se contra a adulteração e tomou posição firme e clara na defesa dos textos de Kardec. A maioria dos chamados líderes espíritas não se manifestou. A hora do testemunho provara mal, revelando a falta de convicção da maioria absoluta, e portanto esmagadora, do chamado movimento espírita brasileiro. Mas os resultados foram se manifestando mais tarde, com um crescente interesse do meio espírita pelas obras de Kardec em edições insuspeitas.” Sabe-se que a Editora parou de editar a tradução alterada.

Esse episódio histórico registrado no livro citado realça que os dois autores foram cumpridores das responsabilidades apontadas por Emmanuel. Este recomendou a Chico Xavier no início de suas atividades mediúnicas que sempre fosse “fiel a Jesus e a Kardec”, e, chamou Herculano Pires de “o metro que melhor mediu Kardec”.

Interessante que Chico Xavier sempre cordato e benevolente, deu o claro testemunho de fidelidade na defesa de obras essenciais.

Atualmente, há mais clareza para se valorizar a preservação de documentos e originais de livros.

Referências:

1) Kardec, Allan. Trad. Abreu Filho, Júlio. Os restos da Idade Média. Auto-de-Fé das obras espíritas em Barcelona. Revista espírita. Novembro de 1858. Vol. IV. São Paulo: EDICEL. p. 337-341.

2) Fropo, Berthe. Trad. Lopes, Ery; Miguez, Rogério. Muita luz. Cap. Como o Espiritismo é dirigido. Versão digital bi-lingue, de dezembro de 2018: https://www.luzespirita.org.br/leitura/pdf/L158.pdf

3) Guimarães, Rúbia da Costa. Vários momentos da difusão do livro. Entrevista. Reformador. Ano 132. N. 2.225. Agosto de 2014. P. 458-460.

4) Xavier, Francisco Cândido; Pires, José Herculano. Na hora do testemunho. 1.ed. São Paulo: Paidéia. 1974. 120p.

(*) Foi presidente da USE-SP e da FEB; ex-membro da Comissão Executiva do CEI.

DE: Boletim de Notícias”: http://www.noticiasespiritas.com.br/2020/OUTUBRO/09-10-2020.htm

 

216 anos do nascimento de Kardec

216 anos do nascimento de Kardec

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O dia 3 de outubro é tradicionalmente recordado no movimento espírita para se evocar a data de nascimento de Allan Kardec, ocorrida no ano de 1804, em Lyon.

É fato sabido que Hipppolyte Léon Denizard Rivail apenas nasceu naquela cidade francesa. Na realidade, nunca lá residiu e foi criado com a família de sua genitora em Bourg en Bresse e Saint Denis les Bourg, duas cidades do Departamento de Ain, próximas a Lyon; depois estudou em Yverdon (Suíça) e atuou como professor em Paris, onde veio a executar seu papel como Codificador do Espiritismo.

Resumimos dois artigos recentes que publicamos nas revistas A senda1 e Revista internacional de espiritismo2.

Neste ano, nos meses de julho e agosto, o documentário “Em busca de Kardec” foi exibido como um seriado de oito episódios pelo canal de TV “Prime Box Brasil“ e depois disponibilizado na internet pela “Prime-Amazon”. O documentário foi dirigido por Karim Akadiri Soumaïla, de nacionalidade francesa. O enredo evoca momentos da vida de Kardec, locais onde viveu e atuou na França e Suíça e as repercussões de suas obras na França e no Brasil.

Um século e meio após a publicação das obras do Codificador e de sua desencarnação, tornam-se importantes alguns destaques de seus pensamentos e propostas. As obras de Kardec contém os princípios do Espiritismo e ele define na Revista espírita de 1866: “Inscrevendo no frontispício do Espiritismo a suprema lei do Cristo, abrimos o caminho para o Espiritismo cristão; assim, dedicamo-nos a desenvolver os seus princípios, bem como os caracteres do verdadeiro espírita sob esse ponto de vista”.3

A nosso ver, são oportunas as transcrições de alguns trechos do Codificador relacionadas com o centro e o movimento. Kardec orienta as reuniões e pequenos grupos, o que é válido para grandes centros, ou, para se criar centros menores nos bairros de uma cidade: “Sendo o recolhimento e a comunhão dos pensamentos as condições essenciais a toda reunião séria…” […] “Uma reunião é um ser coletivo, cujas qualidades e propriedades são a resultante das de seus membros e formam como que um feixe. Ora, este feixe tanto mais força terá, quanto mais homogêneo for. Toda reunião espírita deve, pois, tender para a maior homogeneidade possível.” […] “Quanto mais numerosa é a reunião, tanto mais difícil é conterem-se todos os presentes. Ora, vinte grupos, de quinze a vinte pessoas, obterão mais e muito mais farão pela propaganda, do que uma assembleia de trezentos ou de quatrocentos indivíduos.”4

Sobre a mediunidade Kardec define: “Esse dom de Deus não é concedido ao médium para seu deleite e, ainda menos, para satisfação de suas ambições, mas para o fim da sua melhora espiritual e para dar a conhecer aos homens a verdade”6; e sobre o chamado “desenvolvimento”: “Ela se manifesta nas crianças e nos velhos, em homens e mulheres, quaisquer que sejam o temperamento, o estado de saúde, o grau de desenvolvimento intelectual e moral. Só existe um meio de se lhe comprovar a existência. É experimentar.”4

Importante proposta do Codificador: “A bandeira que desfraldamos bem alto é a do Espiritismo cristão e humanitário, em torno da qual já temos a ventura de ver, em todas as partes do globo, congregados tantos homens, por compreenderem que aí é que está a âncora de salvação, a salvaguarda da ordem pública, o sinal de uma era nova para a humanidade.”4

O Codificador destaca que o Espiritismo é uma religião diferente das tradicionais: "Qual é, pois, o laço que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato material, por nenhuma prática obrigatória. Qual o sentimento no qual se deve confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário…"3

A nosso ver é necessário assumir-se mais os papeis como espíritos encarnados com base em Kardec: "[…] o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem".5

Há um convite que deve ser sempre renovado: o estudo, a prática e a difusão dos conteúdos das cinco obras básicas de Allan Kardec e também de seus registros e depoimentos mensais contidos na Revista Espírita (janeiro de 1858-abril de 1869).

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Sem Kardec não há Espiritismo. A senda (FEEES). Ano 98. N. 205. Setembro-Outubro de 2020. Página eletrônica: http://www.feees.org.br/adm/arquivos/revistasetout_96.pdf

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Busca de Kardec ou de mim mesmo? Revista internacional de espiritismo. Ano XCV. N. 9. Outubro de 2020.

3) Kardec, Allan. Trad. Abreu Filho, Júlio. Revista espírita. Ano IX, V.4. Abril de 1866; Ano XI. V.12. Dezembro de 1868. São Paulo: Edicel.

4) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos médiuns. 80.ed. 1a parte, cap.III, Item 28; Parte 2: Cap. XVII, item 200; Cap. XXIX, itens 220, 331, 332, 348, 350; Cap. XXX. Brasília: FEB.

5) Kardec, Allan. Trad. Imbassahy, Carlos de Brito. A gênese. 1.ed. Cap. I, item 13. São Paulo: FEAL.

 

(*) Foi presidente da USE-SP e da FEB.

Filme Maudie – Sua Vida e Sua Arte

Filme Maudie – Sua Vida e Sua Arte

Célia Maria Rey de Carvalho (*)

O filme Maudie – Sua Vida e Sua Arte, retrata a vida da artista canadense Maud Kathleen Dowley, nascida em 07 de março de 1903 ao sul de Ohio, Nova Escócia no Canadá. Desde cedo apresentou artrite reumatoide que limitava seus movimentos além de possuir outras deficiências físicas.

Foi introduzida nas artes por sua mãe Agnes Dowley. Na juventude teve uma filha, em 1928, Catherine, que foi colocada para adoção, pois ela não tinha condição de criá-la. Maud ficou órfão em 1937 e foi morar com uma tia em Dgby, também na Nova Escócia. Não se dando bem com a tia, foi morar e trabalhar como doméstica na casa de Everett Lewis, vendedor de peixes de Mashalltown ao final de 1937, o que a impediu de voltar para casa da tia que não aceitava tal situação.

Everett era um homem extremamente rude, tosco, bruto, mas Maud, pela opção que fez, aceitava e tentava realizar as tarefas para as quais fora contratada, com extrema dificuldade, mas com extremo desvelo e carinho. Várias vezes mandada embora e como não tinha para onde ir, ficava e suportava os desafios impostos pelo serviço e pelo patrão. Em janeiro de 1938 ela e Everett se casaram, passando a chamar-se Maud Lewis. O filme mostra uma Maud extremamente humilde, resignada, dócil no falar, sorriso meigo, determinada e corajosa, mas sem imposição. Com uma vida extremamente pobre, Maud quase não saia da casa que ficava isolada 11 km da pequena cidade de Dgby.

Aos poucos foi cativando a simpatia e afeição do marido, bem como mudando alguns de seus hábitos toscos. Sem se impor, oferecia uma mesa posta para as refeições do mesmo, o que o levou a sentar-se e comer com melhores modos, alterando também outros hábitos domésticos. Começou a enfeitar as paredes da casa com suas pinturas de cores fortes, com motivos florais, pássaros e borboletas. O marido não gostou e disse que estava ela desobedecendo suas ordens. Ela respondeu que não, estava só cumprindo suas ordens de deixar a casa mais bonita. Aos poucos foi pintando em pequenos pedaços de madeira que encontrava nos objetos e móveis quebrados que o marido trazia para o quintal da casa.

Na sua humildade, obediência ao marido não se deixou contaminar pelos seus modos rústicos, nem cultivando qualquer sentimento de animosidade. Era seu lar, seu marido e o único lugar que podia ficar. Não discutia, não tentava impor suas ideias, apenas sugeria. Não questionava sua condição de pessoa discriminada pela sua aparência deformada. Aceitava os desafios da vida com coragem e determinação, mantendo seu mundo interior que era maior do que qualquer limitação física, de condições sócias e materiais.

Da única janela da casa via o mundo lá fora e isso bastava para sua imaginação livre e leve povoar sua mente, sua criatividade e seus dias de solidão. Suas pinturas revelavam o que ia em sua alma. As pessoas solicitavam para que ela pintasse para saber e entender o que se passava em seu íntimo. E seu mundo interior era colorido, alegre, vibrante. Todo tempo disponível depois de suas obrigações domésticas era destinado à pintura.

Foi a companhia silenciosa, mas sempre presente de seu marido, convencendo-o de fazer as coisas com breves observações e deixando que o tempo o fizesse entender e atendê-la. Não desafiava, mas agia na serenidade, na quietude de seus gestos, olhares e atos. Mudou a vida dele, apesar de continuar a sua maneira tosca de ser, mas com gestos disfarçados de carinho. Boa em contas, aos poucos, oferecendo sua ajuda, mas sempre exaltando o papel de comando que seu marido sempre frisava e exigia, ela ajudou-o em sua venda de peixe, anotando e controlando a entrada e saída do dinheiro. Nunca ficou com um centavo do dinheiro da venda de suas obras que era muito superior ao que o marido ganhava, deixando a ele o controle das finanças. Ele, percebendo que sua arte rendia dinheiro, começou a ajudá-la nos afazeres domésticos e no provimento de materiais necessários ao seu trabalho.

O que achei notável e que no filme bem transparece, foi a sua humildade e resistência pacífica na manutenção do seu modo de ser, de enxergar o mundo, de enfrentar suas dores e dar vazão à sua arte independente das condições adversas que o mundo e a pessoas lhe ofereciam. Sempre enxergava luz onde havia escuridão, alegria onde reinava a dor, poesia e colorido no cenário branco e preto dos longos períodos de inverno. Sua brandura se estendia aos animais que habitavam os arredores da casa, com eles conversando e acarinhando-os. Aliás, com os cachorros ela conversava muito, o que às vezes irritava seu marido.

Mas ela continuava sua maneira de ser. Morreu aos 67 anos, sem nunca interromper suas atividades de pintura, somente nos momentos em que era atendida no hospital devido aos problemas respiratórios que adquiriu pelo fumo, cheiro forte das tintas e ambiente insalubre de sua residência.

Emmanuel, no livro Pensamento e Vida (FEB), cap. 24 bem define: “Humildade não é servidão. É, sobretudo, independência, liberdade interior que nasce das profundezas do espírito, apoiando-lhe a permanente renovação para o bem. Cultivá-la é avançar para a frente sem prender-se, é projetar o melhor de si mesmo sobre os caminhos do mundo, é olvidar todo o mal e recomeçar alegremente a tarefa do amor, cada dia.” Essa era Maud na sua maneira de ser e vencer no mundo.

(*) Ex-diretora da USE-SP e da FEB. Colaboradora do GEECX, CCDPE e G.E.Casa do Caminho, São Paulo.