Alfaias

“Naquele  dia,  quem  estiver  no  telhado,  tendo  as suas  alfaias em casa, não desça a tomá­-las.”  Jesus (Lucas, 17:31)

A palavra do Mestre não deixa margem a hesitações.

Naturalmente, todo aprendiz vive na organização que lhe é própria. Cada qual permanece em casa, isto é, na criação individual ou no campo de testemunho a que o Senhor o conduziu.

Geralmente, porém, jamais está sozinho.

Reduzido ou  extenso, há sempre um séquito de afeições a acompanhá­-lo. Muita vez, contudo, a companheira, o pai e o filho não conseguem mover­-se além das zonas inferiores de compreensão, quando o discípulo, pelos nobres esforços despendidos, se equilibra, vitorioso, na parte mais alta do entendimento. Chegados a semelhante situação, muitos trabalhadores aplicados experimentam dificuldades de vulto.

Não sabem separar as alfaias de adorno dos vasos essenciais, as frivolidades dos deveres justos e sofrem dolorosos abalos no coração.

Indispensável se precatem contra esse perigo comum.

Cumpra­-se a obrigação sagrada, atenda­se, antes de tudo, ao programa da Vontade Divina, exemplifique-­se a fraternidade e a tolerância, acendendo­-se a lâmpada do esforço próprio, mas que se não prejudique o serviço divino da ascensão, por receio aos melindres pessoais e às convenções puramente exteriores.

Um lar não vive simplesmente em razão das alfaias que o povoam, transitoriamente, e sim pelos fundamentos espirituais que lhe construíram as bases. Um homem não será superior porque satisfaça a opiniões passageiras, mas sim porque sabe cumprir, em tudo, os desígnios de Deus.

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Vinha de luz. Cap. 134. FEB)

 

Viver em paz

“… Vivei em paz…” – Paulo (2ª Epístola aos Coríntios, 13:11)

Mantém-te em paz.

É provável que os outros te guerreiem gratuitamente, hostilizando-te a maneira de viver; entretanto, podes avançar em teu roteiro, sem guerrear a ninguém.

Para isso, contudo – para que a tranqüilidade te banhe o pensamento –, é necessário que a compaixão e a bondade te sigam todos os passos.

Assume contigo mesmo o compromisso de evitar a exasperação.

Junto da serenidade, poderás analisar cada acontecimento e cada pessoa no lugar e na posição que lhes dizem respeito.

Repara, carinhosamente, os que te procuram no caminho…

Todos os que surgem, aflitos ou desesperados, coléricos ou desabridos, trazem chagas ou ilusões. Prisioneiros da vaidade ou da ignorância, não souberam tolerar a luz da verdade e clamam irritadiços… Unge-te de piedade e penetra-lhes os recessos do ser, e identificarás em todos eles crianças espirituais que se sentem ultrajadas ou contundidas.

Uns acusam, outros choram.

Ajuda-os, enquanto podes.

Pacificando-lhes a alma, harmonizarás, ainda mais, a tua vida.

Aprendamos a compreender cada mente em seu problema.

Recorda-te de que a Natureza, sempre divina em seus fundamentos, respeita a lei do equilíbrio e conserva-a sem cessar.

Ainda mesmo quando os homens se mostram desvairados, nos conflitos abertos, a Terra é sempre firme e o Sol fulgura sempre.

Viver de qualquer modo é de todos, mas viver em paz consigo mesmo é serviço de poucos.

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Fonte viva. Cap. 123. FEB) 

Súplica de Mulher

E disseste Senhor: “Ide e pregai”.
Aqui estou
Para ouvir-te a palavra e dar-lhe desempenho,
Muito embora os defeitos que ainda tenho,
Para estender às criaturas
As notícias do amor de Nosso Pai…

Que dizer, entretanto,
Ao coração que se encharcou de pranto
Pelo extremo cansaço?
Ao companheiro que se entrega ao crime,
Sem que eu consiga desarmar-lhe o braço?
Ao homem sem apoio a que se arrime,
Vendo um filhinho enfermo,
Entre a penúria e a morte?
E ao outro que se rende a desmando profundo,
Criando chagas vivas para o mundo
Sem mão que as reconforte?

Que falarei, Senhor,
À criança que vaga sem amor,
Ao coração de Mãe com um filho ao colo,
A estirar-se no solo,
Em aflição tremenda,
Com febre e inanição,
Sem qualquer agasalho que as defenda,
Sem qualquer proteção?
Que palavras direi, Senhor Jesus,
Aos que andam sem luz.
E anseiam por fugir, num derradeiro aceno,
Entornando na boca a dose de veneno?

Que frases tecerei, Amado Amigo,
Aos que vão, em saber, entre a sombra e o perigo,
Nas trilhas da descrença
Sobre as quais se conjuga
A droga utilizada para a fuga?
Aos que caem, por fim, no desespero inglório,
Buscando apoio e luz, na paz de um sanatório?

Que falarei, Senhor,
Aos que perderam corações queridos
E esquadrinham na lousa
O conforto que tarda,
Procurando na cinza o que a cinza não guarda?

Que direi aos doentes
Que acordam sobre a mesa
De abençoada cirurgia,
Ao se verem sem mãos
Ou reclamando as pernas amputadas?

Que direi, meu Jesus,
Aos pais que viram mortos
Filhos queridos nas estradas
Ou nas pedras da rua,
Através de terríveis acidentes,
Sem saberem que a vida continua
Em planos diferentes?

Ah! sim, Jesus, já sei o que dizer…
Direi que sempre existes
E que reanimarás todos os tristes,
Que pela fé que nos alcança
Temos contigo a fonte da esperança;
Que a ninguém deixarás, de espírito sozinho,
Que nos socorrerás de caminho em caminho,
Na proteção com que nos agasalhas,
Que embora as nossas falhas,
Nós todos somos teus
Tutelados que levas para Deus!…

E se alguém estranhar
Seja eu a singela mensageira
A proclamar o brilho de teu nome,
Dentro da imperfeição que me consome
E nas fraquezas de que me assinalo,
Direi aos companheiros de quem falo
Dos amados amigos que me deste,
Que te espalham no mundo a Bondade Celeste,
Trabalhando e servindo, em qualquer parte,
Ao seguir-te e ao louvar-te…

E, quanto a mim, Senhor,
Que me entrego, de todo e sem reservas,
Ao teu apostolado redentor,
Explicarei que me conservas,
Em minha ignorância e pequenez,
Tão-só para levar,
Seja onde for,
O meu simples cartaz
Enfeitado de amor,
Entre flores de paz,
Sobre o qual escrevi
Com tua permissão,
Estas sete palavras de oração,
De fé, respeito e luz:
– “Confiamos em Deus na bênção de Jesus”.

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Maria Dolores. Maria Dolores. São Paulo: IDEAL)

Entendamo-nos

“Mas, sobretudo, tende ardente caridade uns para com os outros.” – Pedro (1ª Epístola de Pedro, 4:8)

Não existem tarefas maiores ou menores. Todas são importantes em significação.

Um homem será respeitado pelas leis que implanta, outro será admirado pelos feitos que realiza. Mas o legislador e o herói não alcançariam a evidência em que se destacam, sem o trabalho humilde do lavrador que semeia o campo e sem o esforço apagado do varredor que contribui para a higiene da via pública.

Não te isoles, pois, no orgulho com que te presumes superior aos demais.

A comunidade é um conjunto de serviço, gerando a riqueza da experiência. E não podemos esquecer que a harmonia dessa máquina viva depende de nós.

Quando pudermos distribuir o estímulo do nosso entendimento e de nossa colaboração com todos, respeitando a importância do nosso trabalho e a excelência do serviço dos outros, renovar-se-á a face da Terra, no rumo da felicidade perfeita.

Para isso, porém, é necessário nos devotemos à assistência recíproca, com ardente amor fraterno.

Amemos a nossa posição na ordem social, por mais singela ou rudimentar, emprestando ao bem, ao progresso e à educação as nossas melhores forças.

Seremos compreendidos na medida de nossa compreensão.

Vejamos nosso próximo, no esforço que despende, e o próximo identificar-nos-á nas tarefas a que nos dedicamos.

Estendamos nossos braços aos seres que nos cercam e eles nos responderão com o melhor que possuem.

O capital mais precioso da vida é o da boa-vontade. Ponhamo-lo em movimento e a nossa existência estará enriquecida de bênçãos e alegrias, hoje e sempre, onde estivermos.

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Fonte viva. Cap. 122. FEB)

 

 

Os três crivos

Comentários-Lógica

Certa vez, um homem esbaforido achegou-se ao grande filósofo e sussurrou-lhe aos ouvidos:

– Escuta, Sócrates… Na condição de teu amigo, tenho alguma coisa muito grave para dizer-te, em particular…

– Espera!… -ajuntou o sábio prudente. Já passaste o que vais me dizer pelos três crivos?

– Três crivos? -perguntou o visitante espantado.

– Sim, meu caro amigo, três crivos. Observemos se tua confidência passou por eles. O primeiro é o crivo da verdade. Guardas absoluta certeza, quanto àquilo que pretendes comunicar?

– Bem, – ponderou o interlocutor, – assegurar mesmo, não posso…Mas ouvi dizer e …então…

– Exato. Decerto peneiraste o assunto pelo segundo crivo, o da bondade. Ainda que não seja real o que julga saber, será pelo menos bom o que me queres contar?

Hesitando, o homem replicou:

– Isso não… Muito pelo contrário…

-Ah! – tornou o sábio – então recorramos ao terceiro crivo, o da utilidade, e notemos o proveito do que tanto te aflige.

– Útil?!… aduziu o visitante ainda agitado. – Útil não é.

– Bem – rematou o filósofo num sorriso, – se o que tens a confiar não é verdadeiro, nem bom e nem útil, esqueçamos o problema e não te preocupes com ele, já que de nada valem casos sem edificação para nós!…

Aí está, meu amigo, a lição de Sócrates, em questão de maledicência…

Irmão X

(Xavier, Francisco Cândido. Diversos Espíritos. Aulas da Vida. São Bernardo do Campo: GEEM)

A CALÚNIA

Calúnia

“Paulo, contudo, não somente cometeu a ingratidão, como envenenou o espírito doutras senhoras, traiu outros amigos e destruiu a alegria e a paz doutros santuários domésticos. Observando Ismália aflita e Alfredo desesperado, nas recordações dele, vemos as imagens criadas pelo caluniador, para seus próprios olhos. Nossos amigos deste Posto evoluíram, transpuseram a fronteira da mágoa, escaparam aos monstros do ódio, vestem-se hoje de luz; no entanto, Paulo os vê como imagina, para escarmento de suas culpas. O criminoso nunca consegue fugir da verdadeira justiça universal, porque carrega o crime cometido, em qualquer parte. Tanto nos círculos carnais, como aqui, a paisagem real do Espírito é a do campo interior. Viveremos, de fato, com as criações mais intimas de nossa alma.

[…] Lembra-se de Paulo, o caluniador? Não os viu carregando pesados fardos mentais? Cada um de nós traz, nos caminhos da vida, os arquivos de si mesmo. Enquanto os maus exibem o inferno que criaram.

[…] A calúnia é uma serpente que ameaça o coração.

[…] A calúnia é um monstro invisível, que ataca o homem através dos ouvidos invigilantes e dos olhos desprevenidos.

[…] a calúnia, quando fere uma consciência tranquila não passa de serpente mentirosa, a transformar-se em flor de virtude nova, quando enfrentada com o valor duma coragem serena e cristã.

André Luiz

(Trechos de: Xavier, Francisco Cândido Xavier. Pelo espírito André Luiz. Os mensageiros. Cap. 17, 27, 38. FEB)

Que ovelha somos?

“Eu sou o bom pastor e
conheço as minhas ovelhas
e das minhas sou conhecido.”
– Jesus (João, 10: 14) 

 

O pastor atento se identifica com o rebanho de tal maneira, que define de pronto qualquer das ovelhas mantidas a seu cuidado.

 

Conhece as mais ativas.

Descobre as indiferentes.

Nomeia as retardatárias.

Registra as que lideram.

Classifica a lã que venha a produzir.

Tudo faz, em favor de todas.

 

Por sua vez, as ovelhas, pouco a pouco, percebem, dentro da limitação que as caracteriza, o modo de ser do pastor que as dirige.

 

Habituam-se aos lugares que lhe são prediletos.

Respeitam-lhe os sinais.

Acatam-lhe as ordens.

Reconhecem-lhe o poder diretivo, sem confundir-lhe a presença.

Na imagem, temos a divina missão do Cristo para conosco.

 

O Pastor Compassivo conhece cada uma das ovelhas do redil humano, tudo fazendo para guiá-las ao campo da Luz Celeste.

 

Incentiva as indiferentes.

Acalma as impetuosas.

Fortalece as mais fracas.

Apoia as mais responsáveis.

 

Sopesa o valor de todas, segundo as peculiaridades e tendências de cada uma.

 

E, de igual modo, as ovelhas do rebanho terrestre, gradativamente, vêm a conhecer e a sentir a existência abençoada do Bom Pastor.

 

Entendem-lhe os ensinamentos e admoestações.

Reverenciam a excelência do seu Amor.

Confiam serenamente em sua Misericórdia.

 

Esposam-lhe os ideais e buscam corresponder-lhe à vontade, destacando-o, nos quadros da vida, por intermediário do Pai Excelso.

 

Desse modo, cabe-nos atender ao chamamento do Mestre, melhorando as condições da vida, no mundo, com base em nossa própria renovação.

 

Nesse programa de luta, vale indagar de nós mesmos:

 

– Que ovelha somos?

 

E com semelhante pergunta, busquemos na disciplina, ante o Cristo de Deus, a nossa posição de servidores do bem, na certeza de que a humildade conferir-nos-á sintonia com o Divino Pastor, para que, sublimando e servindo, atinjamos com ele o Aprisco Celeste na imortalidade vitoriosa.

 

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Espíritos diversos. O Espírito da Verdade. Cap. 74. FEB)

DIANTE DO BEM

Diante de cada dia que surge, reflitamos na edificação do bem a que somos chamados.

Para isso, comecemos abençoando pessoas e acontecimentos, circunstâncias e coisas, para que o melhor se realize.

De princípio costumam repontar no cotidiano os problemas triviais do instituto doméstico.

Habitualmente aparece o assunto palpitante da hora, solicitando-nos atenção. Saibamos subtrair-lhe a sombra provável projetando nele a réstea de luz que sejamos capazes de improvisar.

Logo após, de imediato, estamos quase sempre defrontados pelos contratempos de ordem familiar. Renteando com eles, usemos o verbo calmante e conciliador para que as engrenagens do lar funcionem lubrificadas em bálsamo de harmonia.

Mais adiante é o grupo de trabalho com os pontos fracos à mostra. Abracemos com paciência e alegria as tarefas excedentes que se nos imponha, esquecendo essa ou aquela falha dos companheiros e trazendo à nós sem queixa ou censura a obrigação que ficou por fazer.

Em seguida é o campo vasto das relações, com as surpresas menos felizes que sobrevenham: o amigo modificado, a trama da incompreensão, a atitude mal interpretada, o irmão que se vai para longe de nós…

A cada ocorrência menos agradável procuremos responder com os nossos mais altos recursos de entendimento, justificando o amigo que se transforma, desfazendo sem mágoa o emaranhado das trevas, removendo equívocos em pauta e apoiando o colega que se afasta, oferecendo-lhe a íntima certeza com referência à continuidade de nossa estima.

Tudo o que existe é peça da vida e se aqui ou além, a deficiência aparece, isso significa que a obra do Bem, nessa ou naquela peça da vida está pedindo a nossa colaboração a fim de que lhe doemos o pedaço de Bem, que porventura ainda lhe falte. 

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Mãos Unidas. Cap.3. Araras: IDE)

O povo e o Evangelho

"E não achavam meio de lhe fazerem mal, porque todo o povo pendia para ele, escutando-o.”
(Lucas, 19:48)

A perseguição aos postulados do Cristianismo é de todos os tempos.

Nos próprios dias do Mestre Divino, nos círculos carnais, já se exteriorizavam hostilidades de todos os matizes contra os movimentos da iluminação cristã.

Em todas as ocasiões, no entanto, tem sido possível observar a gravitação do povo para Jesus. Entre Ele e a multidão, nunca se extinguiu o poderoso magnetismo da virtude e do amor.

Debalde surgem medidas draconianas da ignorância e da crueldade, em vão aparecem os prejuízos eclesiásticos do sacerdócio, quando sem luz na missão sublime de orientar; cientistas presunçosos, demagogos subornados por interesses mesquinhos, clamam nas praças pela consagração de fantasias brilhantes.

O povo, porém, inclina-se para o Cristo, com a mesma fascinação do primeiro dia. Indiscutivelmente, considerados num todo, achamo-nos ainda longe da união com Jesus, em sentido integral.

De quando em quando, a turba experimenta pavorosos desastres. Tormentas de sangue e lágrimas varrem-lhe os caminhos.

A claridade do Mestre, contudo, acena-lhe à distância. Velhos e crianças identificam-lhe o brilho santificado.

Os políticos do mundo formulam mil promessas ao espírito das massas; raras pessoas, entretanto, se interessam por semelhantes plataformas.

Os enunciados do Senhor, todavia, em cada século se renovam, sempre mais altos para a mente popular, traduzindo consolações e apelos imortais.

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Vinha de luz. Cap. 47. FEB)