Nena Galves e o apoio de Chico Xavier

Nena Galves e o apoio de Chico Xavier

Entrevista por Orson Peter Carrara

Nena Galves: “Que o Espiritismo seja divulgado de maneira correta”

Espírita desde 1956, natural e residente em São Paulo, Encarnação Blasques, nossa entrevistada de hoje, é mais conhecida como Nena Galves. Vinculada ao Centro Espírita União – CEU (que completou 50 anos de inauguração da sede em 2017, na capital paulista), do qual é fundadora e dirigente dos trabalhos espirituais, Nena Galves viveu longamente com Chico Xavier, como nos conta na entrevista seguinte.

P – Quando e como foi fundado o Centro Espírita União?

Nena: Em 18 de dezembro de 1965, durante uma das visitas a Uberaba, que já realizávamos desde 1959, Chico psicografou uma mensagem de Dr. Bezerra de Menezes, na qual ele nos incentivava a retornar ao trabalho espírita, abandonado por nós havia algum tempo depois de vários tropeços. Ele nos orientava para que nos reuníssemos – eu e o Galves – no mesmo horário, todos os dias, num diálogo fraterno, estudando a doutrina espírita. Numa nova mensagem psicografada por Chico, Bezerra informava que o novo núcleo já estava formado no mundo espiritual. Em 5 de abril de 1967 foi inaugurada a sede do Centro Espírita União, num imóvel pequeno que a família havia recebido de herança dos avós de Galves, no bairro do Jabaquara. O nome também foi sugestão de Dr. Bezerra, para representar a aliança dos ensinamentos de Jesus e Kardec, o Mestre e o Discípulo. Aos poucos os amigos e colaboradores foram chegando. Uma tarefa assim não poderia ficar apenas nas mãos de duas pessoas. Sendo hoje uma instituição que congrega também uma editora e distribuidora de livros espíritas, como é sua condução administrativa, pois que vai além da atividade doutrinária propriamente dita? Desde o início, somente a condução espiritual do Centro ficou sob minha responsabilidade. A parte financeira/administrativa ficou por conta de Galves, hoje auxiliado pela nossa filha Roseli Galves. A livraria, a distribuidora e a editora estão num outro imóvel, que nos foi presenteado pelo Chico na região central da cidade (Avenida Rangel Pestana,233). Ali é uma casa comercial, uma empresa, que tem seus empregados (não são voluntários) e obrigações. É de lá que provém a maioria dos recursos financeiros para o trabalho assistencial realizado no Centro e para a atividade de divulgação do Espiritismo, por exemplo: o programa de tevê Vida além da Vida (TV Aberta). O lucro da livraria, portanto, é aplicado na casa espírita e em função da divulgação do Espiritismo.

P – Quantos títulos a editora tem publicado? Todos são da psicografia de Chico Xavier?

Nena: Temos 71 livros (65 psicografados por Chico Xavier) e 3 DVDs da Editora CEU. No caso dos títulos da psicografia de Chico Xavier, há dados de quantos exemplares já editados pela instituição? Acima de um milhão de exemplares dos títulos psicografados por Chico já foram editados. Mensalmente, também, distribuímos aproximadamente 30 mil mensagens impressas sobre temas diversos, psicografadas por Chico. Elas correm o mundo todo através da distribuição gratuita da livraria às casas espíritas, via Correio. É um trabalho permanente de divulgação da doutrina como Chico sempre nos ensinou, realizado por um grupo de voluntários no Centro Espírita União.

P – Comente conosco como começaram as visitas anuais do médium à instituição. E esta atividade consistia de lançamentos de livros e também de psicografias e atendimentos?

Nena – No mês de outubro de cada ano, Chico Xavier comemorava conosco a data de nascimento de Allan Kardec, ocorrido em 3 de outubro de 1804, em Lyon, na França. Fazia-se uma prece, lia-se um trecho do Evangelho e, enquanto realizávamos os comentários, Chico psicografava lindas mensagens. Esses festejos se prolongavam até a madrugada e havia lançamento de obras psicografadas pelo médium, editadas pelo CEU. Chico a todos beijava e consolava. A primeira aconteceu no Clube Atlético Juventus, uma noite que foi por nós patrocinada. A partir de 1977, quando se comemoraram também os 50 anos de mediunidade de Chico, esses encontros memoráveis começaram a ser realizados na sede do Centro Espírita União. Em média, mais de 1.500 pessoas participavam e ficavam em longas filas madrugada adentro para cumprimentar Chico.

P- Durante aqueles anos todos, o que mais lhe marcou a memória da convivência com o médium?

Nena – O carinho que tinha com todos e a disciplina que apresentava como médium, respeitando os espíritos, enaltecendo a obra de Kardec. Eram feitos a ele os pedidos mais diversificados e ele nunca os menosprezava. “Não cabe a nós medir a dor alheia”, dizia. Que gostaria de destacar aos leitores acerca dos ensinos colhidos junto ao médium? Chico deixou a nós inúmeros exemplos e muitos conselhos para que pudéssemos permanecer firmes na obra que construímos com a orientação espiritual que tivemos. A primeira: fidelidade a Jesus e a Kardec. A segunda: que o centro procurasse ter sempre independência financeira, não criasse vínculos com instituições para ser livre na sua divulgação doutrinária. Chico nos ensinou a trabalhar na tarefa espírita.

P – E o acervo reunido na instituição? De que se constitui? Como foi formado?

Nena – São objetos, títulos, roupas, livros, homenagens e fotografias que Chico deixava conosco quando vinha a São Paulo. Tudo sempre ficou em seu quarto, na nossa residência. Quando Chico desencarnou, tivemos a ideia de levar esse material para o Centro Espírita União, até porque essa herança não pertencia à nossa família, mas ao mundo espírita, e esse acervo deveria ser conhecido por outras pessoas.

P – Ele está aberto à visitação? Em caso positivo, quais os horários e dias disponíveis e contatos para tal iniciativa?

Nena – O acervo é aberto para visitação, por meio de solicitação de agendamento através do e-mail ceu@ceu.com.br.

P – Dos 50 anos do Centro Espírita União, o que, a seu ver, mais sobressai?

Nena – O atendimento aos necessitados de consolo espiritual e caridade material, aos que se interessam pelo conhecimento e esclarecimento do Espiritismo em sua pureza doutrinária, respeitando-se acima de tudo a obra codificada por Allan Kardec. Nesses 50 anos, o Centro Espírita União continua atuando da mesma forma como nos foi orientada pela Espiritualidade, com apoio de Emmanuel e do nosso patrono Dr. Bezerra Menezes.

P – De suas lembranças na experiência de vida e de prática espírita, o que mais lhe surge vivo à memória?

Nena – Aprendi que no convívio com o nosso próximo, trocando valores e experiências, nos enriquecemos mutuamente, evoluindo e servindo cada vez mais.

P – Fale-nos da participação de seu marido nesse contexto todo.

Nena – Eu nunca entendi de finanças, sou péssima em números, mas Galves sempre foi um comerciante, então era claro que a livraria ficasse sob sua responsabilidade, porque necessitava dessa experiência que eu não tinha. Também a minha mediunidade e a minha tarefa no centro foram-se ampliando. Então os espíritos souberam nos direcionar de acordo com nossas aptidões. Suas palavras finais. Quem divulga o Espiritismo somos nós, os espíritas, com palavras e ações. Sendo assim, que seja ele divulgado de maneira correta, com bons exemplos, conhecimento e honradez, com fidelidade a Jesus e a Kardec. O Espiritismo é novo e cabe a esta geração atual a responsabilidade de dar continuidade ao Espiritismo Cristão com a pureza como ele foi codificado, com o mesmo devotamento e carinho, como fizeram seus pioneiros.

Extraído de: http://www.oconsolador.com.br/ano11/542/entrevista.html

Anticristo. Senhor do Mundo

Anticristo. Senhor do Mundo

Leopoldo Cirne (1870-1941), ex-presidente da FEB, escreveu a obra Anticristo. Senhor do Mundo, tendo dois subtítulos: “O Espiritismo em falência” e “A obra cristã e o poder das trevas”. Impressa por Bedeschi e lançada no Rio de Janeiro em 1935, não foi reeditada e é encontrada em alguns sebos. Com 529 páginas, na 1ª Parte Cirne analisa em detalhes a trajetória do Cristianismo e na 2ª Parte focaliza o Espiritismo.

Define o objetivo da obra: “(…) apreciando a ação perturbadora do Anticristo na existência da igreja – alvo do seu inveterado rancor – do mesmo que em todas as manifestações da vida humana, em que essa interferência transparece, colher ensinamentos e advertências para salvaguarda dos que, nesta época de transformações e num radioso futuro que se avizinha, desejem sinceramente seguir a Jesus e necessitam estar apercebidos contra as insidiosas manobras dos que com propriedade são denominados inimigos da luz.” Considera que o Cristo empreende a obra de educação e redenção da humanidade e raciocina: “o princípio oposto – de separatividade [sic] e de egoísmo – que forma o substrato da natureza inferior do homem e constitui, na quase totalidade da espécie humana, o motivo preponderante de seus atos e impulsos? (…) esse princípio deverá chamar-se o Anticristo. Somos todos assim, enquanto consentimos em nós o predomínio do egoísmo com todos os seus derivados – ambição, vaidade, orgulho – e pelejamos denodadamente pela obtenção e acréscimo dos bens, posições e vantagens pessoais, com sacrifício dos outros e violação da lei de solidariedade (…)”

Cirne comenta a ação do Cristo, com citações dos evangelistas, de Atos e de epístolas de Paulo. Analisa dissenções, concílios e deturpações dos ensinos cristãos primitivos. Destaca o papel de Francisco de Assis; focaliza os complicados momentos do papado em Avignon e momentos subsequentes, o começo do grande cisma; inclui o sacrifício de Jan Huss. Lamenta os movimentos fanatizados das Cruzadas e da Inquisição. Dedica um capítulo à Reforma e transcreve trecho de carta de Lutero ao papa Leão X: “Não sei decidir ao certo se o papa é o Anticristo ou o apóstolo do Anticristo.” Comenta os papéis independentes de Copérnico, Giordano Bruno e Galileu. Analisa a França (século XVIII), com os desvarios da “Deusa Razão”. Destaca as lutas para a manutenção dos Estados pontifícios, culminando com o “acordo de Latrão” (século XX) com o governo italiano, que reconhece a soberania temporal do papa.

Na 2ª Parte, Cirne focaliza os momentos predecessores e concomitantes ao Espiritismo, de eclosão de muitos fenômenos mediúnicos e com notável trabalho de vários pesquisadores. Descreve o cenário dos primeiros grupos espíritas do Rio de Janeiro e as dificuldades da novel Federação Espírita Brasileira. Define a presidência de Bezerra como um “renascimento para a Federação, acerca de cujas sessões doutrinárias, em que foi restabelecido o estudo metódico de O Livro dos Espíritos”. Sendo vice-presidente, com a desencarnação de Bezerra, em 11 de abril de 1900, Leopoldo Cirne assume a presidência da FEB. De 1º a 3 de outubro de 1904, a FEB comemorou o centenário de nascimento de Allan Kardec e Cirne considera que a parte mais importante foi a reunião de representantes de instituições dos estados, oportunidade em que foi aprovado o documento “Bases de organização espírita”, formulado pela diretoria da Federação.

Outro destaque foi a inauguração, no dia 10 de dezembro 1911, da sede da FEB à Avenida Passos, no Rio de Janeiro. Em seguida aponta vários problemas: a Escola de Médiuns, um desafio para a época; questiona algumas mensagens atribuídas a Allan Kardec; registra a “inexperiência de alguns novos membros da diretoria”, ficando mais expostos às sugestões do Espírito das trevas. Essas dissenções culminaram na assembleia geral da FEB, no começo de 1914 e o final do pleito, resultado da manobra reacionária com exclusão do antigo presidente e dos companheiros com ele solidários na orientação doutrinária que vinha imprimindo aos trabalhos da Sociedade. Comenta: “(…) Até aos dois anos precedentes, ou melhor, enquanto a Federação foi uma sociedade pequenina e pobre, como tal modestamente instalada, a eleição anual de sua diretoria era uma formalidade sumaríssima, perfeitamente nos moldes das comunidades cristãs.”

Cirne se refere ao seu alijamento da presidência da FEB e se manteve afastado da entidade até sua desencarnação, mantendo palestras em outras instituições e redação de livros. Distanciado da FEB, Cirne critica o colégio eleitoral da Instituição e compara com a eleição do papa pelo sacro colégio dos cardeais. Critica também a apatia da Federação, que se omite em muitas questões sociais e o ensino leigo. Opina com restrições à obra de J.B.Roustaing. No final comenta as obras de Allan Kardec. Em seguida, defendendo os princípios espíritas, analisa a Teosofia e o Esoterismo.

     Leopoldo Cirne foi vice-presidente da FEB (1898-1900) na gestão de Bezerra de Menezes, sucedendo-o como presidente (1900-1914). Renovou os Estatutos da FEB (1902) instituindo o estudo das obras completas de Allan Kardec como referência básica da instituição. Em 1904 promoveu o I Congresso Espírita, evocativo do centenário do nascimento de Kardec. Esforçou-se para implantar a “Escola de Médiuns”; iniciou a promoção do Esperanto na FEB e junto ao movimento espírita (1909); construiu e inaugurou a sede própria da FEB (1911). Perdeu a eleição para a presidência em 1914, retirando-se da instituição. Foi conferencista; autor de livros: Memórias históricas do Espiritismo; Doutrina e Prática do Espiritismo; Anticristo, Senhor do Mundo; A personalidade de Jesus (publicação post mortem pela FEB). Tradutor das obras de Léon Denis: No invisível e Cristianismo e Espiritismo. Há várias mensagens do espírito Leopoldo Cirne, em obras editadas pela FEB, pelo médium Chico Xavier: Instruções psicofônicas; um dos personagens em Voltei, ao lado de Bezerra de Menezes, Inácio Bittencourt e Antônio Luís Sayão e, pela psicografia de Waldo Vieira, na obra Seareiros de volta.

Síntese de:

Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cristianismo, Espiritismo e o Anticristo. Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCII. No. 9. Outubro de 2017. http://espiritismoemmovimento.blogspot.com.br/2017/10/cristianismo-espiritismo-e-o-anticristo.html

 Dia dos mortos

Bibliografia – Dia dos mortos

Recordando a "Revista Espírita":

 

“Sessão Anual Comemorativa do dia dos Mortos (Sociedade de Paris, 1o de novembro de 1868) DISCURSO DE ABERTURA PELO SR. ALLAN KARDEC" 

 

"O Espiritismo é uma religião?

“Onde quer que se encontrem duas ou três pessoas reunidas em meu nome, aí estarei com elas.” (S. Mateus, 18:20)

Caros irmãos e irmãs espíritas, Estamos reunidos, neste dia consagrado pelo uso à comemoração dos mortos, para darmos àqueles irmãos nossos que deixaram a Terra um testemunho particular de simpatia, para continuarmos as relações de afeição e de fraternidade que existiam entre eles e nós, quando eram vivos, e para invocarmos sobre eles a bondade do Todo-Poderoso. Mas, por que nos reunirmos? Não podemos fazer em particular o que cada um de nós propõe fazer. A primeira parte deste discurso é tirada de uma publicação anterior sobre a Comunhão de pensamentos, mas que era preciso relembrar, por causa de sua ligação com a idéia principal. Qual a utilidade de assim nos reunirmos num dia determinado?

Jesus no-lo indica pelas palavras que referimos acima. Esta utilidade está no resultado produzido pela comunhão de pensamentos que se estabelece entre pessoas reunidas com o mesmo objetivo.

Comunhão de pensamentos! Compreendemos bem todo o alcance desta expressão? Seguramente, até este dia, poucas pessoas dela tinham feito uma ideia completa. O Espiritismo, que nos explica tantas coisas pelas leis que revela, ainda vem explicar a causa e a força dessa situação do espírito.

Comunhão de pensamento quer dizer pensamento comum, unidade de intenção, de vontade, de desejo, de aspiração. Ninguém pode desconhecer que o pensamento é uma força; mas uma força puramente moral e abstrata? Não: do contrário não se explicariam certos efeitos do pensamento e, ainda menos, a comunhão de pensamento. Para compreendê-lo, é preciso conhecer as propriedades e a ação dos elementos que constituem nossa essência espiritual, e é o Espiritismo que no-las ensina.

O pensamento é o atributo característico do ser espiritual; é ele que distingue o espírito da matéria; sem o pensamento o espírito não seria espírito. A vontade não é um atributo especial do espírito; é o pensamento chegado a um certo grau de energia; é o pensamento transformado em força motriz. É pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido. Mas, se tem a força de agir sobre os órgãos materiais, quanto maior não deve ser essa força sobre os elementos fluídicos que nos rodeiam! O pensamento atua sobre os fluidos ambientes, como o som age sobre o ar; esses fluidos nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Pode, pois, dizer-se com toda a verdade que há nesses fluidos ondas e raios de pensamentos que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e raios sonoros.

Uma assembleia é um foco onde irradiam pensamentos diversos; é como uma orquestra, um coro de pensamentos, onde cada um produz a sua nota. Disto resulta uma imensidão de correntes e de eflúvios fluídicos, dos quais cada um recebe a impressão pelo sentido espiritual, como num coro musical cada um recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição.

Mas, assim como há raios sonoros harmônicos ou discordantes, também há pensamentos harmônicos ou discordantes. Se o conjunto for harmônico, a impressão é agradável; se discordante, a impressão será penosa. Ora, para isto, não é necessário que o pensamento seja formulado em palavras; a irradiação fluídica não deixa de existir, quer seja ou não expressa. Se todas forem benéficas, os assistentes experimentarão um verdadeiro bem-estar e se sentirão à vontade; mas se se misturarem alguns pensamentos maus, produzirão o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido.

Tal é a causa do sentimento de satisfação que se experimenta numa reunião simpática; aí reina uma espécie de atmosfera moral salubre, onde se respira à vontade; daí se sai reconfortado, porque aí nos impregnamos de eflúvios fluídicos salutares. Assim também se explicam a ansiedade e o mal-estar indefinível que se sente num meio antipático, onde os pensamentos malévolos provocam, a bem dizer, correntes fluídicas malsãs.

A comunhão de pensamentos produz, pois, uma sorte de efeito físico que reage sobre o moral; só o Espiritismo poderia fazê-lo compreender. O homem o sente instintivamente, já que procura as reuniões onde sabe encontrar essa comunhão. Nessas reuniões homogêneas e simpáticas haure novas forças morais; poder-se-ia dizer que aí recupera as perdas fluídicas perdidas diariamente pela irradiação do pensamento, como recupera pelos alimentos as perdas do corpo material.

A esses efeitos da comunhão de pensamentos, junta-se um outro que é a sua consequência natural, e que importa não perder de vista: é o poder que adquire o pensamento ou a vontade, pelo conjunto dos pensamentos ou vontades reunidos. Sendo a vontade uma força ativa, esta força é multiplicada pelo número de vontades idênticas, como a força muscular é multiplicada pelo número dos braços.

Estabelecido este ponto, concebe-se que nas relações que se estabelecem entre os homens e os Espíritos, haja, numa reunião onde reine perfeita comunhão de pensamentos, uma força atrativa ou repulsiva, que nem sempre possui o indivíduo isolado.

[…]

Que os espíritas sejam, pois, os primeiros a aproveitar os benefícios que ele traz, e que inaugurem entre si o reino da harmonia, que resplandecerá nas gerações futuras.

Os Espíritos que nos cercam aqui são inumeráveis, atraídos pelo objetivo que nos propusemos ao nos reunirmos, a fim de dar aos nossos pensamentos a força que nasce da união. Ofereçamos aos que nos são caros uma boa lembrança e o penhor de nossa afeição, encorajamentos e consolações aos que deles necessitem. Façamos de modo que cada um recolha a sua parte dos sentimentos de caridade benevolente, de que estivermos animados, e que esta reunião dê os frutos que todos têm o direito de esperar."

Allan Kardec

(Revista Espírita, dezembro de 1868)

A laicidade do ensino nas escolas públicas

“Uma religião não pode pretender apropriar-se do espaço público para propagar a sua fé” –  Ministro Luís Roberto Barroso, do STF.

O Supremo Tribunal Federal perdeu uma grande oportunidade de referendar o caráter laico do Estado brasileiro. A Procuradoria-Geral da República, mediante ação direta de inconstitucionalidade, questionou dispositivo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação que permite o ensino obrigatório, embora de matrícula facultativa, do ensino religioso nas escolas públicas. Por interpretação que se tem dado àquela lei, ministros de confissões religiosas passaram a ministrar ensino confessional de religião nas escolas públicas. Para a PGR atenta contra a laicidade do Estado a docência por ministros de uma religião de seus dogmas em escolas públicas. Pretendia substituir o ensino confessional por conteúdos históricos das religiões, ministrados por professores públicos.

Apesar da forma brilhante com que o relator da ADI, Ministro Luís Roberto Barroso, acolhia, em seu voto, a pretensão do Ministério Público Federal, a ação acabou julgada improcedente pelo escore final de 5 a 6.

Mas fica para a História o lúcido voto de Barroso para quem ”cada família e cada igreja podem expor seus dogmas e suas crenças para seus filhos e seus fiéis sem nenhum tipo de embaraço. Da mesma forma, as escolas privadas podem estar ligadas a qualquer confissão religiosa, o que igualmente é legítimo. Mas não a escola pública. A escola pública fala para o filho de todos, e não para os filhos dos católicos, dos judeus, dos protestantes. E ela fala para todos os fiéis, portanto uma religião não pode pretender apropriar-se do espaço público para propagar sua fé”.

Acompanharam o voto do relator os ministros Luiz Fux, Rosa Weber, Marco Aurélio e Celso Mello. Este, o decano do STF, apresentou um verdadeiro libelo contra o ensino confessional nas escolas públicas e referendando o caráter laico do Estado.

Entretanto, falaram mais alto do que a moderna razão laica e livre-pensadora vetustas tradições que teimam em manter amarrados entre si Estado e religião. Ministros que se posicionaram contra o voto do relator, reconheça-se, não tiveram qualquer dificuldade em encontrar em velhas e surradas tradições que, antanho, se fizeram leis ou se converteram em doutrina e jurisprudência, razões para fundamentar seus votos. Convalidou-se, inclusive, acordo firmado entre a Santa Sé e o Brasil, no qual o estado brasileiro se compromete com “o ensino religioso católico e de outras confissões religiosas” nas escolas públicas.

 Onde se poderia avançar, por força de decisão soberana da mais alta Corte do país, retrocedeu-se.

É verdade que a lei não obriga o aluno a assistir às aulas de religião, cuja matrícula é facultativa. Mas, como se infere do voto de Barroso, a simples presença de ministro de uma entre tantas religiões em escola pública, ensinando seus dogmas, implica em privilégio atentatório à liberdade de crer ou de deixar de crer. Questões que dizem com crenças devem ser construídas autonomamente no íntimo do educando. A religião, ainda que respeitáveis seus propósitos, há de se circunscrever ao espaço privado do lar ou dos templos. A educação, a partir de pressupostos de validade universal, deve ter seus parâmetros regulados e fiscalizados pelo Estado. Só assim se há de tornar efetivo o princípio vigente nas Constituições de todos os países democráticos, inclusive o nosso.

A separação entre Estado e religião (ou religiões, que, cá, proliferam tentando teocratizar o Estado), é fruto do Iluminismo, conquista que não pode sofrer retrocessos. Aqui, sofreu, com o julgamento da ADI 4439.

(Extraído de: Editorial – OPINIÃO 256 – ANO XXIV – OUTUBRO 2017)

 

 

Bibliografia sobre Amelie Boudet:

"Mais Luz"

(Berthe Fropo – Beaucoup de Lumière, 1884) – Tradução de Ery Lopes e Rogério Miguez.

Berthe Fropo, amiga de Amelie Boudet, relata fatos de um período obscuro, após a desencarnação de Allan Kardec. Episódios geralmente desconhecidos do público espírita brasileiro.

Berthe Fropo, uma das fundadoras da Sociedade Espírita Francesa (1882) e amiga de Madame Rivail, publicou esta obra para registrar o ideal e as lutas de Amelie Boudet e problemas sérios que ocorreram e que envolvem o Sr. Leymarie.

 

ACESSO pelo link:

Berthe Fropo – "Muita Luz": 

http://www.autoresespiritasclassicos.com/Autores%20Espiritas%20Classicos%20%20Diversos/Berthe%20Fropo/Berthe%20Fropo%20.

Revista A Senda – Federação Espírita do Estado do Espírito Santo

 

Entrevistado: Antonio Cesar Perri de Carvalho

 

União –  Ação social – Ética

 

  1. Sabemos que ao longo dos últimos 53 anos você participou intensamente de vários momentos do Movimento Espírita Nacional e Internacional, com diversas ações na busca do ideal da Unificação. Nesse sentido, quais as reflexões necessárias, no momento atual, para a consolidação da Unificação do Movimento?

Perri:

Em função de várias experiências vivenciadas ao longo desse longo período de tempo e em todos os níveis de abrangência, consideramos que as Obras Básicas de Allan Kardec devem ser a base para os acordos de união e logicamente referencial para as práticas. Entendemos que a consolidação da unificação do movimento espírita deve passar por análises e avaliações fundamentadas em Allan Kardec: nos seus cinco livros principais, em Viagem Espírita em 1862, em Revista Espírita e em Obras Póstumas, que registram inúmeras orientações e relatos de diálogos e visitas que devem servir de principal referencial para os assuntos relacionados com união e relacionamento entre pessoas e instituições. Além do Codificador e muito coerente com suas recomendações há mensagens históricas sobre união e unificação psicografadas por Chico Xavier, como a pioneira, do espírito Emmanuel: "Em nome do evangelho" (1948); e o texto marcante de Bezerra de Menezes: "Unificação" (1963).* Entendemos que estas referências merecem profundas reflexões para balisarem estudos sobre a união espírita. Nessas, dispomos de orientações muito claras fundamentadas no ideal da união fraternal e que não se restringem apenas a acordos formais.

  1. Estamos, ainda, muito longe da conquista deste ideal?

Perri:

Inegavelmente houve muito progresso desde a proposta inicial conhecida como Bases de Organização Espírita (1904), dos tempos do presidente da FEB Leopoldo Cirne.* União e unificação devem ser entendidas como um processo e não obra acabada. Realmente devem dar a ideia de movimentação, de ação, imbricadas das bases espíritas e, claro, da moral cristã. Portanto, como nenhum ser ou instituição são perfeitos, é sempre cabível a avaliação e o aperfeiçoamento do processo. As pessoas, normas e instituições refletem o estado geral das condições éticas e morais do mundo de nossos dias. E os espíritos nos afiançam que nosso planeta está ainda distante do predomínio de valores voltados ao bem e à paz.

  1. O Movimento Espírita organizado tem propiciado atrativos para que o jovem se sinta pertencente ao trabalho na Casa Espírita?

Perri:

Essa questão nos preocupa intensamente. Quem conviveu com o trabalho e o dinamismo dos jovens espíritas de meados do século XX e conhece os dados estatísticos sobre religião em nosso país, dos Censos do IBGE dos anos 2.000 e 2.010, percebe que, comparativamente com outras religiões, o segmento jovem não evoluiu significativamente no movimento espírita.* Portanto, cremos que há muito a ser feito para se realizar diagnóstico real e desapaixonado da situação, buscando encaminhamentos que favoreçam a integração do jovem nos centros e no movimento espírita.

  1. No livro Perturbações Espirituais, Manoel Philomeno de Miranda, pela psicografia de Divaldo Franco, alerta os dirigentes espíritas sobre as tenebrosas organizações do Mal. Que antídotos os dirigentes devem adotar para se contraporem a essas investidas organizadas às Instituições Espíritas?

Perri:

Para se contrapor a essas investidas organizadas, é primordial a adoção da profilaxia do orgulho e do egoísmo, tão repetidos em O livro dos espíritos e em O evangelho segundo o espiritismo: “O egoísmo, esta chaga da humanidade, deve […] em si próprio, pois esse monstro devorador de todas as inteligências, esse filho do orgulho, é a fonte de todas as misérias terrenas.” (ESE, Cap. XI, item 11). Tudo o mais é decorrente dessas duas reações.

  1. O Codificador estabeleceu, em artigo publicado na edição de setembro de 1858 da Revista Espírita, quatro períodos de Propagação do Espiritismo; sendo o quarto período denominado de influência sobre a ordem social. No seu entendimento, quais seriam, hoje, as ações práticas que estão sendo desenvolvidas pelos espíritas, no sentido de que esta influência dos ensinamentos espíritas se faça sobre a ordem social?

Perri:

Ao longo do século XX, a dedicação dos espíritas, consolidou milhares instituições de assistência social em nosso país. Os espíritas passaram a ser respeitados pelo “bem que fazem”. Todavia, embora esteja incluído o item “Participação Social”, nos “Plano de Trabalho para o Movimento Espírita Brasileiro”, períodos 2007/2012 e 2013/2017, aprovados pelo CFN da FEB – e, aliás, este último se extingue neste ano -, entendemos que há muito a ser realizado no sentido de se registrar uma posição espírita mais evidente em várias vertentes da ordem social.

  1. Em seu artigo Ética e Moral na Atualidade, publicado na edição de mai/jun de 2017 de A Senda, você coloca, num dos parágrafos, quando aborda os aspectos ético-morais no momento de crise pelo qual passamos, o seguinte: “A seara espírita também é ambiente para o cultivo de valores ético-morais. E numa análise mais profunda pode-se verificar que a concepção e a prática da religião podem conduzir a equívocos. Num país de dimensões continentais as diferenças são evidentes. Torna-se imperioso o respeito à diversidade, pois não seriam convenientes as orientações, programas de estudos e de trabalhos padronizados.” Gostaria que explorasse um pouco mais essas considerações.

Perri:

No geral, por mais esforço que se faça, sempre há uma certa influência do meio e, para nós espíritas, também há o entendimento de influências de vivências de outros tempos e de outras reencarnações. O movimento espírita não está isento dessas influências. Nosso planeta não tem a característica da encarnação de seres perfeitos. Por isso, há posturas que podem lembrar movimentos e ações institucionais religiosas de outros tempos. Afinal, em O evangelho segundo o espiritismo (Cap. XVII, item 4) há a anotação de que “reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços em dominar suas más inclinações”.

A outra questão é que sendo espíritos encarnados, não somos iguais, temos experiências diversas e nos encontramos em estágios diferentes. Daí a razão de se evitar tratamentos às pessoas exigindo-se delas que sejam “à nossa imagem e semelhança” a começar de dentro do nosso ambiente familiar. Como respondeu Chico Xavier em entrevista em 1977: “[…] deveríamos refletir em unificação, em termos de família humana…”* Por isso entendemos que não cabem as padronizações ou adoção de cópias autênticas de projetos de trabalho e de estudo para todas instituições. As propostas de trabalho e de estudos devem ser sugestivas, abrindo-se espaço para as flexibilizações e adequações, à cada realidade e cada público alvo. O Espiritismo aqui está para restabelecer e trabalhar o projeto da Boa Nova, que deve criar um novo relacionamento pessoal e institucional!

(* – Citações extraídas de Carvalho, Antonio Cesar Perri. Centro espírita. Prática espírita e cristã. São Paulo: USE. 2016. 196p.)

- A Senda – Órgão da FEEES – Ano 95 – N. 187 – Set.-Out. 2017 – p. 15-16.

Primeira edição da Bíblia toda traduzida do grego para o português começa a ser lançada no Brasil

Tradução da Bíblia do grego, feita por especialista, isenta de interpretações religiosas, com interesse “histórico-linguístico, e não teológico”.

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Primeira edição da Bíblia toda traduzida do grego para o português começa a ser lançada no Brasil

Português Frederico Lourenço, que vem para Flip em julho, comenta diferenças no texto

POR LEONARDO CAZES

29/04/2017 4:30 / atualizado 29/04/2017 11:52

RIO – Os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, presentes no Novo Testamento, foram escritos originalmente em grego. Apesar da onipresença da Bíblia em lares e igrejas brasileiras — é o livro mais lido no país, segundo a pesquisa “Retratos da Leitura”, realizada pelo Ibope Inteligência para o Instituto Pró-Livro —, as edições do Brasil, e também de Portugal, foram traduzidas de várias línguas diferentes. A principal fonte foi o latim, graças à difusão ao longo de séculos pela Igreja Católica. Agora, chega às livrarias brasileiras, pela Companhia das Letras, uma tradução direta do grego feita pelo português Frederico Lourenço, professor de Estudos Clássicos, Grego e Literatura Grega da Universidade de Coimbra. O seu interesse pela Bíblia é “histórico-linguístico, e não teológico”, afirma ele, que já traduziu os outros livros do Novo Testamento e e está trabalhando no Velho Testamento. Esses volumes também serão lançados no Brasil.

Em entrevista ao GLOBO, o professor conta que decidiu encarar a empreitada após escrever “O livro aberto”, de ensaios sobre a Bíblia. Essa obra será lançada pela editora Oficina Raquel durante a 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em julho, da qual Lourenço será um dos convidados. Ele destaca que a nova tradução dá a oportunidade de ler um texto mais próximo da intenção original dos seus autores.

— Achei que faltava em português uma tradução feita para ser lida sob a perspectiva da história do primeiro cristianismo e não à luz das igrejas que vieram depois — explica. — Após ter decidido traduzir o Novo Testamento, decidi traduzir também o Antigo Testamento grego, por esse ser a Escritura judaica lida pelos primeiros cristãos.

A Bíblia grega nasceu em Alexandria, no Egito. Qual foi o contexto histórico que levou a essa empreitada, que teria envolvido cerca de 70 tradutores?

Não se sabe ao certo como nasceu a tradução do Antigo Testamento grego. A lenda dos 72 tradutores não passa disso mesmo, de uma lenda; mas o fato de ter sido necessário traduzir o Antigo Testamento hebraico para grego mostra a crescente helenização da cultura judaica em toda a zona oriental do Mediterrâneo. A Escritura não foi só traduzida para grego para que pudesse ser lida por não judeus; foi sobretudo para ser lida por judeus que já eram falantes de grego como língua materna.

O senhor aponta indícios de que os quatro evangelistas eram leitores da Bíblia grega. De que maneira isso pode ter influenciado a redação dos seus evangelhos?

Nota-se a presença da Bíblia grega em cada página do Novo Testamento, na forma como a Escritura judaica (o Antigo Testamento) é citada e também interpretada. O caso mais evidente que todos conhecem ocorre no primeiro capítulo de Mateus, com a citação de Isaías sobre a virgem que engravidará e dará à luz um filho. A palavra “virgem” não está na frase hebraica de Isaías; está só na tradução grega de Isaías. Os exemplos são incontáveis. Também nas cartas de Paulo vemos em cada página citações da Bíblia grega que têm uma fraseologia diferente da que conhecemos do texto hebraico.

O conceito de autoria dos evangelhos é bastante controverso. Devemos acreditar que os quatro evangelistas foram quatro pessoas diferentes?

Essa é uma questão que, ao fim de quase 2000 anos, continua em aberto. Eu penso que não é possível sabermos ao certo quem escreveu os quatro evangelhos. Para quem lê o texto em grego fica claro que Mateus e Lucas se inspiraram em Marcos, e que João pertence a uma tradição independente. Também não sabemos os nomes reais dos autores, porque nenhum evangelho está internamente assinado, como é o caso das cartas de Paulo ou do livro de Apocalipse. No caso do evangelho de João, custa-me acreditar na autoria coletiva, dado que o texto tem uma coerência estilística muito coesa, tirando o episódio da mulher adúltera e o último capítulo.

Toda tradução carrega uma dose de mediação. A Bíblia grega é capaz de nos aproximar de um texto dos evangelhos mais próximo de como eles foram escritos?

É o texto grego do Novo Testamento que nos leva mais perto das intenções da sua escrita. Por isso não concordo com Bíblias traduzidas do latim, do inglês ou do francês, como é o caso de muitas que circulam em língua portuguesa. No caso do Novo Testamento, temos sempre de partir do texto grego. No entanto, é impossível recuperar o texto original tal como ele foi primeiramente escrito, porque os manuscritos mais antigos que temos no Novo Testamento completo são do século IV. E depois disso há milhares de manuscritos até ao século XV, e todos apresentam diferenças.

O senhor enumera uma série de contradições entre os quatro evangelhos em episódios fundamentais da história de Jesus. Há uma explicação para a Igreja manter essa diversidade de versões?

Quando nós comparamos os evangelhos canônicos com os apócrifos, não temos dificuldade em entender a importância que foi dada a Mateus, Marcos, Lucas e João. Estão numa categoria conceitual e literária muito acima de qualquer evangelho apócrifo que tenha chegado até nós. Não se sabe a razão da manutenção dos quatro evangelhos em vez da opção pela fusão dos quatro num só, como fez Taciano, mas é algo que deve inspirar a nossa gratidão. Uma das maiores riquezas do cristianismo é termos esses quatro retratos diferentes de Jesus. O que me parece errado é desvalorizar as diferenças e fingir que os quatro dizem a mesma coisa.

Você poderia falar sobre o “O livro aberto”, que será lançado em julho, na Flip?

Nesse estudo procuro colocar as questões que se levantam quando lemos a Bíblia de uma perspectiva crítico-histórica, sem recurso à interpretação teológica. O que proponho é que as incoerências são uma característica compreensível, dado o fato de o Livro constituir a reunião de muitos livros escritos por pessoas diferentes em épocas diferentes. Proponho linhas de leitura para quem se interesse pela Bíblia fora do âmbito eclesiástico, seja ele católico ou protestante.

Afinal, a Bíblia que se lê na maioria dos lares e igrejas do Brasil está errada?

Essas Bíblias (traduzidas de outras línguas) não trazem diferenças na trama, mas trazem no pormenor. A melhor tradução será sempre aquela que leva o leitor a entrar nas complexidades e nos pormenores do grego e do hebraico. Uma tradução da Bíblia que fomente a ilusão de que o texto não levanta problemas linguísticos não é, na minha opinião, uma boa tradução. Aceito que, para leitura na igreja, se queira uma Bíblia traduzida de modo a facilitar o entendimento oral do texto. Mas depois em casa as pessoas podem interessar-se por conhecer os problemas que estão por trás das palavras que ouviram na igreja. É nesse sentido que eu pretendo contribuir para uma leitura crítica e informada da Bíblia.

Extraído de: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/primeira-edicao-da-biblia-toda-traduzida-do-grego-para-portugues-comeca-ser-lancada-no-brasil-21275396

O aguardado primeiro volume da tradução da Bíblia grega, a mais completa de todas.

Apresentação

Com apresentação, tradução e notas de Frederico Lourenço, tradutor premiado que já verteu para o português obras clássicas como Ilíada e Odisseia, esta edição, que será composta por seis volumes, toma por base o texto original do Novo Testamento, com seus 27 livros, e a versão grega do Antigo Testamento, também conhecida como "Bíblia dos Setenta", composta por 53 livros originalmente escritos em hebraico e traduzidos para o grego no século III a.C. Trata-se, portanto, da versão mais completa que há da Bíblia, na qual figuram inclusive partes que viriam a ser excluídas do cânone definitivo. Além disso, a versão grega traz sutis diferenças em relação à hebraica, de modo que ler o livro de Gênesis ou o Cântico dos Cânticos numa tradução que toma como base a variante grega é ler um novo texto. Marco fundamental da história do judaísmo, uma vez que simboliza o momento em que a cultura judaica se internacionaliza ao ser vertida para a língua franca de então, a Bíblia dos Setenta é também de inestimável importância para o estudo da história do cristianismo, uma vez que era a Bíblia das primitivas comunidades cristãs. É a partir dessa versão do Antigo Testamento que Jesus Cristo, pela mão dos evangelistas, cita a Escritura. Por meio de uma atitude ponderada e desprovida de preconceitos face aos problemas linguísticos suscitados, Lourenço oferece notas que esclarecem e contextualizam, respeitando com isso a sensibilidade dos leitores religiosos que desejam aprofundar seu conhecimento das Escrituras sem deixar de cumprir as expectativas daqueles interessados num olhar mais objetivo. Neste primeiro volume, o leitor encontrará os quatro evangelhos do Novo Testamento, e poderá desfrutar das particularidades da voz de cada Evangelista. A tradução rigorosa, marcada pela busca do sentido mais profundo das palavras originais, ressalta a dimensão literária deste que é o maior livro de todos os tempos.

Ficha Técnica

Título original: BÍBLIA – NOVO TESTAMENTO
Páginas: 424
Formato: 16.20 x 23.60 cm
Peso: 0.719 kg
Acabamento: Capa dura
Lançamento: 28/04/2017
ISBN: 9788535928815
Selo: Companhia das Letras

Tempo para reflexão e interação nos 70 anos de USE

      

Por Eliana Haddad e Izabel Vitusso

Conclusões das Rodas de Conversa

Ponto alto do evento, seis rodas de conversa abordaram assuntos preponderantes para o movimento espírita. Como foi enfatizado pelos organizadores, o congresso não terminava ali e deveria continuar nas casas espíritas, como um convite à reflexão e discussão sobre os vários itens apontados. Veja as principais conclusões apresentadas pelos coordenadores:

 

Qualidade doutrinária da literatura espírita

Por Marco Milani

É preciso ponderar o que pode ser aceito como novo conhecimento, separando-se os livros em espíritas e "pseudoespíritas". Para que algo possa ser considerado como uma nova informação para a doutrina é preciso haver evidências objetivas que comprovem a novidade. Passar pelo crivo da razão, por toda a comunidade espírita e científica.

Também o perigo da idolatria foi abordado, em função da fixação que algumas pessoas têm com relação a médiuns. Não é porque o médium é famoso, que todas as suas obras devam ser aceitas sem análise.

A seleção das obras para a livraria na casa espírita deve prezar a coerência doutrinária, sendo de reponsabilidade do dirigente. A biblioteca pode ter outro caráter e conter inclusive obras que tenham contradições, mas devidamente classificadas como tal.

 

Práticas estranhas ao centro espírita

Por Antonio Cesar Perri de Carvalho

O movimento espírita tem dificuldade de lidar com a crítica. Porem, feita de maneira equilibrada, não pode ser considerada como algo destrutivo. É preciso atentar para práticas estranhas, não somente com relação à mediunidade, mas também em questões doutrinárias, gestão administrativa e as inter-relações dos espíritas, entre dirigentes, colaboradores e frequentadores.

Sobre o passe, concluiu-se que por ser uma doação de sentimento, muito simples, não há necessidade de movimentos e encenações. É preciso atenção sobre os limites das atividades de cura para não se correr o risco da caracterização de curandeirismo e prática ilegal da medicina.

Outro ponto analisado foi o crescimento de instituições que acabam por requerer um autêntico comércio para sua manutenção. Herculano Pires foi lembrado, através de seus comentários no livro O evangelho em espírito e verdade sobre Paulo de Tarso, que libertava a religião da política e do negócio, para ser vivida em si mesma, com toda a independência moral.

A apometria foi claramente considerada como prática não espírita. Há também centros espíritas utilizando-se de cursos e técnicas de magnetismo, sendo preciso haver a identificação sobre diferenças entre prática espírita e práticas alternativas de terapias complementares, que estão fora da alçada do centro espírita.

 

Teorias científicas e espiritismo

Por Alexandre Fontes da Fonseca

Refletiu-se sobre a impropriedade de se utilizar teorias científicas modernas para explicações de conceitos espíritas. O espiritismo tem valor por si só e possui todos os ingredientes filosóficos para ser uma ciência legítima, sem deixar a desejar a nenhuma física, química, biologia, medicina, etc. Perante a tentação de aceitar essas novidades, somos seduzidos pelo linguajar técnico, sofisticado, com ar de moderno, e deixamos de lado a própria doutrina, esquecendo-nos de que ela tem valores intrínsecos. Qual engenheiro, ao fazer o projeto de um viaduto vai deixar de usar os conhecimentos da engenharia para fazer seu projeto? Por que nós, espíritas, não usamos os nossos termos e conceitos para explicar os fenômenos com os quais lidamos na nossa casa espírita?

Vários questionamentos surgiram sobre como fazer pesquisa segura dentro da doutrina, utilizando-se desses parâmetros. Essa é uma questão difícil, porque precisamos estudar mais o espiritismo para termos uma visão completa de conjunto. A Liga de Pesquisadores Espíritas (www.lihpe.net) tem dado contribuições ao conhecimento espírita de um modo cuidadoso e com respaldo na doutrina, assim como alguns periódicos, como o JEE – Jornal de Estudos Espíritas.

 

Sexualidade e afetividade sob a ótica espírita

Por Luiz Fernando Penteado

O espiritismo nos permite um aprofundamento frente aos novos reclamos da sociedade, mostrando a atualidade da sua filosofia. A casa espírita tem um papel preponderante, como espaço acolhedor, fonte de informação e desenvolvimento. Deve se preparar para que, além do conteúdo doutrinário, tenha condições de dar suporte às demandas sociais da atualidade.

A sexualidade é uma fonte transformadora, procriadora, que vai muito além do contexto biológico reforçado por toda a sociedade e pela mídia. Inclui comunhão, aprendizado. Homossexualidade é um assunto que todos devemos entender, até para vencer preconceitos.

Que o trabalho junto à criança e ao adolescente não se limite a dar a orientação sobre a sexualidade, mas a orientação moral, de valores e que aborde o amor como fonte geradora. Uma orientação que permita ao indivíduo entender a sexualidade de forma construtiva, no processo evolutivo, buscando-se a compreensão do amor e do autoconhecimento.

 

Política e espiritismo

Por Allan Kardec Pitta Veloso

O assunto política deve ser tratado na casa espírita sem partidarismo, paixão ou dogma. Allan Kardec considera a criatura humana em concepção diferente de outros autores da ciência política, como Thomas Hobbes, Jacques Rousseau, Karl Marx. O homem para o espiritismo é um ser preexistente e que vive depois da morte, fundamento que faz toda diferença na abordagem do tema.

A política deve buscar mudanças para melhor. Não há mundo melhor sem o homem melhor. O espiritismo tem contribuições brilhantes para a questão, para que se possa atuar na sociedade, inclusive na seara da política. O homem é o agente de transformação. Vários trechos de Kardec, em Obras póstumas, assinalam que essas mudanças se darão naturalmente quando homens de bem passarem a ser maioria nesse planeta.

 

O desafio de educar além de instruir

Por André Luiz Peixinho

Considerando-se os vários aspectos da educação, refletiu-se sobre como se dá a aprendizagem, utilizando-se de alguns informes da neurociência, mostrando a diferença entre o que é observado e o que é a verdadeira transformação, fazendo-se conexão com as aprendizagens que são mais significativas e que fazem parte da noção de espírito.

Sobre a importância do estudo espírita, é necessário que haja uma unidade do pensamento espírita. Sem querer transformar isso numa uniformização de práticas pedagógicas. E isso se daria pelo projeto educacional dos cursos regulares para que as pessoas, formando consensos, construam as estruturas possíveis na sociedade em geral. É preciso analisar se não estamos copiando os métodos laicos, de origem do paradigma materialista, para o contexto espírita.

A educação deve passar pelo que é essencial: o espírito.

A educação, de modo geral, insere o indivíduo na sociedade tornando um cidadão. É necessário refletir e construir o nosso próprio projeto pedagógico com um finalismo mais amplo, na revisão dos conceitos de níveis evolutivos.

Como o centro espírita poderia atuar na formação dos grupos de autoconhecimento como forma de crescimento pessoal, destacando-se os espaços de convivência, sendo fundamental a aprendizagem em grupo.

 

Publicado no jornal Correio Fraterno – São Bernardo do Campo (SP), Edição 476, julho/agosto 2017.

Acesso:

http://www.correiofraterno.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1991:tempo-para-reflexao-e-interacao-nos-70-anos-de-use&catid=103:especial&Itemid=2