Fatos pós-Kardec na França e as primeiras edições francesas de A Gênese. Resenha do livro El legado de Allan Kardec

Fatos pós-Kardec na França e as primeiras edições francesas de A Gênese

Resenha do livro El legado de Allan Kardec

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Oportuna e meticulosa pesquisa, o livro El legado de Allan Kardec, de Simoni Privato Goidanich foi lançado na sede da Confederação Espírita Argentina, em Buenos Aires, aos 3/10/2017. O livro foi redigido em espanhol; contém 440 páginas, em formato 21X14cm, e ilustrações de dezenas de documentos franceses. Editado pela Confederación Espiritista Argentina, com distribuição pela Amazon (amazom.com).

A autora Simoni Privato Goidanich é brasileira, bacharel em Direito e Mestre em Direito Internacional pela Faculdade de Direito da USP; atua como Diplomata; recebeu prêmios e frequentou a Harvard University. A serviço do governo brasileiro, já residiu nos Estados Unidos, no Uruguai e no Equador. Nos países onde tem residido, dedica-se ao trabalho no movimento espírita. Autora de artigos publicados em periódicos espíritas e dos livros: El legado de Allan Kardec; Divulgación del Espiritismo: Enseñanzas del ejemplo de José María Fernández Colavida; Mediumnidad y Pases: Preguntas y Respuestas; Oratoria a la Luz del Espiritismo; coautora do livro Pases a la Luz del Espiritismo. Organizadora e tradutora da trilogia Revista Espírita – Periódico de Estudios Psicológicos: Colección de Textos de Allan Kardec. Apresentadora do programa Reflexiones Espíritas, da Rádio Bezerra Online, de Miami (EUA). Reside atualmente em Montevidéu, Uruguai, com seu marido, que também é diplomata. Atua no Centro Espírita Redención e colabora com a Federación Espírita Uruguaya.

A apresentação do livro foi redigida por Gustavo N. Martínez, presidente da Confederação Espírita Argentina, tradutor para o espanhol de várias obras espíritas e inclusive de A Gênese, de Allan Kardec, com base na 1a edição francesa de 1868, editada pela C.E.A. no final do ano de 2017.

Simoni Privato Goidanich esteve pessoalmente em Paris acessando documentações oficiais e também na histórica Associação Espírita Constancia, de Buenos Aires, que funciona desde 1877. A autora faz um meticuloso levantamento em documentos dos Arquivos Nacionais da França e da Biblioteca Nacional da França, reproduzindo significativas páginas dos mesmos, tendo por foco o livro A Gênese e instituições como a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, a Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec, da sua sucedânea, a Sociedade Científica do Espiritismo, e, da então nascente União Espírita Francesa. Além dos documentos oficiais e de Atas, a autora faz sistemáticas citações da Revista Espírita (do período administrado por Kardec e dos anos seguintes), da revista Le Spiritisme, órgão da novel União Espírita Francesa, e de obras de Allan Kardec. Simoni cita muitas vezes o livro Beaucoup de Lumière (1884), de Berthe Fropo, atualmente disponibilizado em edição digital bilíngue: a tradução em português e o original em francês. Trata-se de espírita atuante, fiel a Kardec, e, amiga, vizinha e apoiadora de Amélie Boudet.

O livro de Simoni se divide em duas partes. Na primeira parte são tratados assuntos sobre momentos significativos dos 10 anos após o lançamento de O livro dos espíritos; os papéis desempenhados por Léon Denis e Gabriel Delanne no movimento espírita francês e o relacionamento de ambos com Kardec; todos os episódios sobre o lançamento e as primeiras edições francesas de A Gênese; e a desencarnação do Codificador.

Na segunda parte, a autora trata de questões legais sobre o nome e o pseudônimo de Kardec; a fundação da Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec; comenta o chamado “o ano terrível” (1872), relacionado com o lançamento da 5a edição de A Gênese designada como “revisada, corrigida e aumentada”; o “processo dos espíritas”; os cerceamentos inflingidos à sra. Allan Kardec e sua desencarnação; a queima de arquivos e documentos da viúva de Kardec; o alerta do biógrafo de Kardec, Henri Sausse – “Uma infâmia” – apontando 126 alterações de texto na 5a edição de A Gênese; as nefastas deturpações executadas por Pierre-Gaëtan Leymarie em instituições e na Revista Espírita; as lutas e propostas renovadoras de Gabriel Delanne e León Denis e a fundação da União Espírita Francesa, em 1882. No livro em análise ficaram evidentes as alterações de propósitos da Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec, depois transformada por Leymarie em Sociedade Científica do Espiritismo, e, também na linha editorial da Revista Espírita. Sobre esta revista fundada por Kardec, anota a autora Simoni que sob a direção de Leymarie: “as páginas estavam cada vez mais ocupadas com artigos sobre teosofia […] Estabeleceu-se um vínculo da Sociedade Teosófica com a Sociedade de Estudos Psicológicos e a Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec”. O livro de Simoni Privato Goidanich comprova que a Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec, dirigida por Leymarie, passou a ser dominada economicamente pelo acionista Jean Guérin, um grande proprietário, ex-dirigente político do departamento de Gironda (sendo Bordéus a capital), admirador e apoiador de J.B.Roustaing. O apoio financeiro de Guérin à Sociedade Anônima gerou a hipoteca dos bens da Sociedade e dos imóveis doados por Allan Kardec. Anos depois, tudo foi perdido por ação movida por herdeiros de Guérin. Um fato tormentoso neste ínterim foi a ampla circulação de um panfleto de divulgação da obra de Roustaing, defendido pela então direção da Revista Espírita, provocando forte reação dos amigos e defensores do legado de Kardec, inclusive Gabriel Delanne, Léon Denis e Berthe Fropo.

Dentro desse contexto de deturpações e polêmicas, as edições francesas de A Gênese, a partir da 5a edição de 1872 (aquela “revisada, corrigida e aumentada”) é que foram autorizadas para traduções em diversos países, por Leymarie, então dirigente da Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec. A autora Simoni mostra que o pioneiro e líder espanhol José María Fernández Colavida traduziu e publicou a 2a edição de A Gênese, de 1868, em Barcelona (Espanha), mantendo-se fiel à edição de Kardec.

Simoni comprova que até a desencarnação de Kardec ocorreram quatro edições de A Gênese. Na meticulosa pesquisa registrada e comentada no livro El legado de Allan Kardec, Simoni Privato Goidanich provou que um único exemplar de A Gênese, publicado em 1868, foi depositado legalmente durante a existência física de Allan Kardec na Biblioteca Nacional da França. Para a autora, esta edição é a definitiva e o Codificador não teria modificado o conteúdo. Entre outros fatos, a autora destaca o cuidado da época com que o Ministério do Interior fiscalizava as publicações, pois a França vivia momentos políticos tensos durante o reinado de Napoleão III.

O livro El legado de Allan Kardec tem riquíssimo valor histórico e é restaurador de importantes episódios que se encontravam encobertos.

No final, registra Simoni Privato Goidanich: “A responsabilidade ante o legado de Allan Kardec é de todos os espíritas, e cada um herdará as consequências de seus atos e de suas omissões”. Em nossa opinião o novo livro El legado de Allan Kardec reúne preciosas informações e documentação sobre as primeiras décadas em seguida à desencarnação de Allan Kardec, sendo um rico repositório da história do movimento espírita francês.

(Goidanich, Simoni Privato. El legado de Allan Kardec. 1.ed. Buenos Aires: Confederación Espiritista Argentina, 2017. 440p.)

 

(*) Foi presidente da FEB, da USE-SP e membro da Comissão Executiva do CEI.

 

Extraído de: http://www.redeamigoespirita.com.br/profiles/blogs/fatos-p-s-kardec-na-fran-a-e-as-primeiras-edi-es-francesas-de-a-g

 

A Gênese – 150 anos, valor da obra e suas primeiras edições francesas

A Gênese – 150 anos, valor da obra e suas primeiras edições francesas

 

Anúncio da Revista Espírita de janeiro de 1868 informa que A Gênese foi lançada no dia 6 de janeiro de 1868, em Paris.(1) Sabe-se também que o depósito legal deste livro no Ministério do Interior da França foi feito por Allan Kardec no dia 4 de janeiro de 1868.

Com esta obra completa-se o quinto volume das chamadas Obras Básicas da Codificação.

Os temas são desenvolvidos em três partes – A gênese segundo o Espiritismo; Os milagres segundo o Espiritismo; As predições segundo o Espiritismo -, desdobrando-os em dezoito capítulos.

Destacamos a importância do capítulo “Fundamentos da Revelação Espírita”, onde Kardec faz significativa colocação: "[…] o que caracteriza a revelação espírita é que a sua origem é divina, que a iniciativa pertence aos espíritos e que a elaboração é o fruto do trabalho do homem.”(2) Essa afirmação mostra a responsabilidade dos encarnados, notadamente nas condições de liderança, gestão nas instituições e as ações do movimento espírita. O Mundo Espiritual orienta, mas as decisões dependem de nossas escolhas. O Codificador discorre sobre a relação entre Espiritismo e Ciência e faz importante ponderação: “Caminhando com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem que está errado em um determinado ponto, ele se modificaria sobre esse ponto; se uma nova verdade se revela, ele a aceita.”(2)

Kardec, intelectual e inspirado, analisou o desenvolvimento do planeta e da civilização procedendo a uma analogia dos chamados dias bíblicos com os períodos geológicos e de maneira totalmente diferenciada das religiões tradicionais. E comenta a posição da Terra no amplo contexto do Cosmo.

O perispírito é abordado em vários capítulos do livro, ficando mais clara a explicação sobre a ocorrência dos fenômenos mediúnicos e dos chamados “milagres” e aparições de Jesus, descortinando-se o mundo espiritual: “As aparições de Jesus após a sua morte são narradas por todos os evangelistas com detalhes circunstanciados que não permitem que se duvide da realidade do fato. […] perfeitamente explicadas pelas leis fluídicas e pelas propriedades do perispírito…”(2)

Trata também da polêmica sobre o desaparecimento do corpo do Cristo, o que somente aparece na 1ª edição. O tema da transição planetária é apreciado nos capítulos “As predições segundo o Espiritismo” e “Os tempos são chegados”, e alerta: “Até o presente, a humanidade tem realizado progressos incontestáveis. Os homens, com a sua inteligência, chegaram a resultados que jamais haviam sido alcançados, sob o ponto de vista das ciências, das artes e do bem-estar material. Ainda lhes falta um imenso progresso a realizar: o de fazerem reinar entre eles a caridade, a fraternidade e a solidariedade, para assegurar o bem-estar moral.”(2)

Em comentários sobre a nova geração deve ficar claro que esta não estaria circunscrita ao ambiente espírita e faz a relação entre transição e nova geração. Estes temas deveriam ser estudados pelos espíritas até para se evitar interpretações superficiais e até estranhas com relação ao período em que vivemos.

A Revista Espírita, ao longo do ano de 1868, transcreveu vários trechos da nova obra com o objetivo de divulgá-la, traz mensagem de São Luís sobre o novo livro e noticia a 2a edição em março e a 3a edição em abril. Até a desencarnação de Kardec ocorreram quatro edições desta Obra Básica.(1,3)

A partir daí, surgem dúvidas sobre a fidedignidade das primeiras edições de A Gênese em francês, lançadas logo após a desencarnação do Codificador.

Em 2017 a Confederação Espírita Argentina (CEA) editou em espanhol a versão inicial de A Gênese, de janeiro de 1868, e, em reunião da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional, ocorrida em Bogotá (Colômbia), em outubro de 2017, deu conhecimento que apoiou a sra. Simoni Privato Goidanich, em pesquisa junto aos Arquivos Nacionais da França e na Biblioteca Nacional da França, localizadas em Paris, na própria CEA e na Associação Espírita Constancia, de Buenos Aires. A oportuna e detalhada pesquisa, o livro El legado de Allan Kardec, de Simoni Privato Goidanich (lançado na sede da Confederação Espírita Argentina, aos 3/10/2017) mostrou que um único exemplar, publicado em 1868, foi depositado legalmente durante a existência física de Allan Kardec na Biblioteca Nacional da França. Assim, para a autora, o Codificador não teria modificado o conteúdo de seu livro.(4,5,6) O livro de Simoni é um rico repositório da história do movimento espírita francês imediatamente após a desencarnação de Kardec.

Henri Sausse, o principal biógrafo de Kardec e dinâmico líder espírita francês, em artigos – um deles intitulado “Uma infâmia” – publicados no jornal Le Spiritisme, em 1884 e 1885, já levantava questões sobre as adulterações na 5a edição de A Gênese e apontou 126 alterações no texto original.(5)

Episódios históricos também ficam claros em livro Beaucoup de Lumière (1884), de Berthe Fropo, disponibilizado em edição digital bilíngue: a tradução em português e o original em francês. A autora foi espírita atuante; fiel a Kardec; amiga, vizinha e apoiadora de Amélie Boudet. Fropo comenta ações polêmicas e desvirtuamentos doutrinários nas mãos de Leymarie “por influência de ideologias outras, como o roustanguismo e — ainda mais fortemente — a mística doutrina da Teosofia de Madame Blavatsky e do Coronel Olcott.”(3) Nessas dúvidas antigas suspeita-se que as alterações de trechos de A Gênese teriam sido promovidas provavelmente por Pierre-Gaëtan Leymarie (1827-1901), como redator-chefe e diretor da "Revue Spirite" (1870 a 1901), gerente da "Librairie Spirite" (1870 a 1897) e presidente da “Sociedade para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec”(3,7), cuidando das edições e autorizações de traduções de obras de Kardec(3), e, inclusive das traduções pioneiras das obras de Kardec, em nosso país, no caso para Joaquim Carlos Travassos (1839-1915), com informação publicada na Revista Espírita. Com exceção de A Gênese, utilizando o pseudônimo de "Fortúnio", Travassos traduziu quatro obras da Codificação para o português, em 1875 e 1876.7 Há interessante observação de Zêus Wantuil em biografia sobre Travassos, sobre uma nota do tradutor: “[…] sem nos referirmos ao bom estilo do tradutor, é o judicioso esclarecimento, de fundo rustenista, que vem na obra ‘O Céu e o Inferno’…”(7)

As traduções para o português, em geral, foram feitas a partir da 5a edição francesa do ano de 1872. A tradução de A Gênese, realizada por Evandro Noleto Bezerra para a FEB, utiliza a 5a edição francesa. O tradutor inclui uma nota de rodapé no item 67 do capítulo XV, anotando que há uma diferença com relação à edição de 1868, com Kardec ainda encarnado. Justifica que “ao revisar a obra com vistas à 4a edição, Allan Kardec houve por bem suprimir o item 67 que constava nas edições anteriores”.(8) A editora do Centro Espírita Léon Denis, do Rio Janeiro, lançou um a tradução da edição francesa de 1868.(2)

Companheiros do “Le Mouvement Spirite Francophone” confirmaram-nos, recentemente, que a primeira impressão da 5a edição ocorreu em 1872, revisada, e verificou-se que muitos trechos foram eliminados da quarta para a quinta, inclusive no capítulo sobre o corpo de Jesus.

Por ocasião dos 150 anos de A Gênese, seria oportuno que as editoras brasileiras fizessem um esforço para se esclarecer as dúvidas sobre a fidedignidade das edições francesas após a desencarnação de Kardec e, se for o caso, acrescentar-se nota(s) explicativa(s) nas edições traduzidas para o português.

Os temas de A Gênese são oportunos para a atualidade e a comemoração dos 150 anos de seu lançamento deve ser uma motivação para se implementar seu estudo e divulgação no movimento espírita.

Referências

1) Kardec, Allan. Trad. Bezerra, Evandro Noleto. Revista Espírita. Ano XI. No. 1. 1868. Rio de Janeiro: FEB.

2) Kardec, Allan. Trad. Sêco, Albertina Escudeiro. A gênese. 3.ed. Cap. I, itens 13, 16 e 55; Cap. XIV, item 22; Cap. XV, Itens 61, 67-68; Cap. XVIII, itens 6 e 26. Rio de Janeiro: Ed. CELD. 2010.

3) Fropo, Berthe. Trad. Lopes, Ery; Miguez, Rogério. Muita luz. 1.ed. Edição digital: www.luzespirita.org.br; acesso em novembro de 2017.

4) Carta do presidente da Confederación Espiritista Argentina, Sr. Gustavo N. Martínez, de 14/10/2017, distribuída em reunião do Conselho Espírita Internacional, em Bogotá (Colômbia).

5) Goidanich, Simoni Privato. El legado de Allan Kardec. 1.ed. Buenos Aires: Confederación Espiritista Argentina, 2017. 440p.

6) Lançamento na C.E.A.: https://www.youtube.com/watch?v=DiuFGdPct_8&utm_source=CEA+ALL&utm_campaign=22508faa7a-EMAIL_CAMPAIGN_2017_11_28&utm_medium=email&utm_term=0_e9cbd2ff74-22508faa7a-288076637; Acesso em novembro de 2017.

7) Wantuil, Zêus. Grandes espíritas do Brasil. 1.ed. Cap. Joaquim Carlos Travassos. Rio de Janeiro: FEB. 1969.

8) Kardec, Allan. Trad. Bezerra, Evandro Noleto. A gênese. 1.ed. Cap. XV. Item 67. Rio de Janeiro: FEB. 2010.

 

Artigo de Antonio Cesar Perri de Carvalho – Síntese de: http://www.oconsolador.com.br/ano11/548/especial.html;

(Ex-presidente da FEB e da USE-SP)

Publicado em: http://www.redeamigoespirita.com.br/profiles/blogs/a-g-nese-150-anos-valor-da-obra-e-suas-primeiras-edi-es-francesas

 

“A Gênese” – Alerta da Argentina

"A Gênese" – Alerta da Argentina

 

Em 2017 a Confederação Espírita Argentina (CEA) editou em espanhol a versão inicial de A Gênese, de janeiro de 1868. A CEA divulgou os estudos que estimulou em texto distribuído em reunião da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional, ocorrida em Bogotá (Colômbia), em outubro de 2017, e também publicou El legado de Allan Kardec lançado em Buenos Aires. A CEA solicitou à sra. Simoni Privato Goidanich, uma pesquisa junto aos Arquivos Nacionais da França e na Biblioteca Nacional da França, localizadas em Paris, na própria CEA e na Associação Espírita Constancia, de Buenos Aires. Concluiu que um único exemplar, publicado em 1868, foi depositado legalmente durante a existência física de Allan Kardec na Biblioteca Nacional da França. Assim o Codificador não teria modificado o conteúdo e estes esclarecimentos se encontram no livro El legado de Allan Kardec, de Simoni Privato Goidanich, lançado na sede da C.E.A., em Buenos Aires, aos 3/10/2017.

"El legado de Allan Kardec", de Simoni Privato Goidanich: “Este livro é uma investigação histórica e doutrinária do movimento espírita na França, entre os anos 1867 e 1887, em que se destaca a questão da adulteração do trabalho que representa o ponto culminante da obra literária espírita de Allan Kardec: A Gênese , milagres e previsões de acordo com o espiritismo. Além disso, nesta investigação, outros eventos muito sérios são estudados no movimento espírita da época, bem como o exemplo de espíritas pioneiros que, nas circunstâncias mais adversas, conseguiram perseverar fieis ao legado de Allan Kardec. Os eventos narrados são baseados em evidências confiáveis de que o autor obteve pessoalmente nos Arquivos Nacionais da França e na Biblioteca Nacional da França, bem como na Confederação Espírita Argentina e na Associação Espírita Constancia, ambos de Buenos Aires. A presente pesquisa tem como objetivo ajudar a desfazer o erro histórico que levou muitas gerações desde o século XIX a ler e disseminar em vários países – como se fosse o definitivo – o conteúdo adulterado de A Gênese, milagres e previsões como espiritualismo. Da mesma forma, através do estudo da história de alguns espíritas da época, procura oferecer lições que possam servir para o progresso espiritual de cada um de nós. Portanto, mais do que um estudo do passado, este livro constitui um convite à reflexão e ação sobre a responsabilidade que temos ante o legado de Allan Kardec.”

• 440 páginas

• Editor: Confederación Espiritista Argentina (1 de agosto de 2017)

• Idioma: Espanhol

Extraído de: http://www.noticiasespiritas.com.br/…/DEZEMB…/21-12-2017.htm https://www.amazon.es/…/9…/ref=cm_sw_r_fa_dp_U_JmXmAb19HGW4A

Acesse:

1) Carta do presidente da Confederación Espiritista Argentina, Sr. Gustavo N. Martínez, de 14/10/2017, distribuída em reunião do Conselho Espírita Internacional, em Bogotá (Colômbia). (foto acima).

2) Goidanich, Simoni Privato. El legado de Allan Kardec. https://www.youtube.com/watch?v=mJDhrAgxYlU; acesso em novembro de 2017.

3) Lançamento na C.E.A.: https://www.youtube.com/watch?v=DiuFGdPct_8&utm_source=CEA+ALL&utm_campaign=22508faa7a-EMAIL_CAMPAIGN_2017_11_28&utm_medium=email&utm_term=0_e9cbd2ff74-22508faa7a-288076637; acesso em novembro de 2017.

ESTÊVÃO E O EVANGELHO


 

NOTA PRELIMINAR do GEECX:

 

O artigo “Estêvão e o Evangelho”, transcrito da revista Reformador, edição de agosto de 2012, trata de três diretrizes para o estudo e a divulgação da Boa Nova, com base em Estêvão. Esse texto fez parte de seminários realizados pela FEB, em várias regiões do país, sobre os 70 anos da obra Paulo e Estêvão (1942-2012). Esses seminários, iniciados em fevereiro de 2012, contaram com a participação de colaboradores que, a partir de setembro de 2012, passaram a integrar a Comissão do NEPE da FEB – como o autor do artigo (Flávio Rey de Carvalho), Haroldo Dutra Dias, Wagner Gomes da Paixão e Célia Maria Rey de Carvalho; também do então presidente interino da FEB Antonio Cesar Perri de Carvalho.

 

ESTÊVÃO E O EVANGELHO

Diretrizes para a assimilação e a divulgação de seu conteúdo

Flávio Rey de Carvalho

(transcrito de Reformador – agosto de 2012, p. 18-20)

Em meio às comemorações dos 70 anos da obra Paulo e Estêvão, escrita pelo Espírito Emmanuel por intermédio da psicografia de Francisco Cândido Xavier, muito se tem falado de Saulo e Paulo, porém, pouco sobre Estêvão – o primeiro mártir do Cristianismo –, que ocupa papel relevante na obra em questão. Tanto é que Emmanuel afirmou: “Sem Estevão, não teríamos Paulo de Tarso”.

Por conseguinte, o objetivo deste artigo consiste em destacar alguns breves pontos relativos à conduta adotada por Estêvão, quando ainda encarnado, para lidar com o entendimento do Evangelho e a sua explanação.

Conforme nos explicou Allan Kardec, na introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo:

"Toda a gente admira a moral evangélica; todos lhe proclamam a sublimidade e a necessidade; muitos, porém, assim se pronunciam por fé, confiados no que ouviram dizer, ou firmados em certas máximas que se tornaram proverbiais. Poucos, no entanto, a conhecem a fundo e menos ainda são os que a compreendem e lhe sabem deduzir as consequências. A razão está, por muito, na dificuldade que apresenta o entendimento do Evangelho que, para o maior número dos seus leitores, é ininteligível. A forma alegórica e o intencional misticismo da linguagem fazem que a maioria o leia por desencargo de consciência e por dever, como leem as preces, sem as entender, isto é, sem proveito. Passam-lhes despercebidos os preceitos morais, disseminados aqui e ali, intercalados na massa das narrativas. Impossível, então, apanhar-se-lhes o conjunto e tomá-los para objeto de leitura e meditações especiais."2

Na citação, Kardec diagnosticou a dificuldade de assimilação que há entre os conteúdos que constam dos textos evangélicos (nos quais estão os exemplos e as lições morais do Cristo) e a capacidade geral de cognição das pessoas. A tentativa de se inventariar as causas que motivam esse fato escapa à proposta deste artigo que, conforme já dito, busca somente destacar alguns pontos norteadores – com base em algumas frases de Estêvão – que possam nos ajudar na jornada da busca pelo entendimento do Evangelho assim como pela assimilação e pela aplicação prática de seus conteúdos.

Por volta de 35 d.C., Saulo de Tarso, que ocupava destacada posição no Sinédrio e era conhecido como fervoroso defensor da Lei de Moisés, seguiu, juntamente com seu amigo Sadoc, para verificar (no intuito de interditar) as pregações que ocorriam em humilde igreja em Jerusalém onde alguns homens, denominados do “Caminho”,3 supostamente estariam divulgando princípios “desonestos” em detrimento da Lei Mosaica. Naquele dia, a pregação foi feita por Estêvão – “moço, magro e pálido, em cuja assistência os mais infelizes julgavam encontrar um desdobramento do amor do Cristo”.4 Durante a preleção, conforme descreveu Emmanuel:

"Saulo de Tarso […] verificou a diferença entre a Lei e o Evangelho anunciado por aqueles homens estranhos, que a sua mentalidade não podia compreender. Analisou, de relance, o perigo que os novos ensinos acarretavam para o judaísmo dominante. Revoltara-se com a prédica ouvida, nada obstante a sua ressonância de misteriosa beleza. Ao seu raciocínio, impunha-se eliminar a confusão que se esboçava, a propósito de Moisés […]."5

Seguem-se então, por iniciativa do doutor da lei, séries de questionamentos e ataques direcionados verbalmente a Estêvão que, com serenidade e inspiração superior, soube contemporizar a situação oferecendo – conforme recomendara Jesus – a outra face.6

Acerca da questão, esclarecemos que não é nosso objetivo descrever os detalhes do debate ocorrido entre ambos, mas destacar três pontos da fala de Estêvão que nos podem ser úteis para o estudo e para a compreensão do Evangelho.

Em relação ao entendimento do Evangelho, durante a sua explanação, Estêvão revelou:

"[…] Se não vos falei como desejáveis, falei como o Evangelho nos aconselha, arguindo a mim próprio na íntima condenação de meus grandes defeitos. […]"7

Para melhor compreendermos a citação, recorremos ao livro Luz imperecível – organizado por Honório Onofre de Abreu –, que nos elucida:

"Incorporando-nos às figuras do próprio texto, habilitamo-nos a detectar em nós próprios, padrões ou atitudes, de ordem positiva ou negativa que lhes eram peculiares [àquela época], a nos sugerirem [hoje] implementação de recursos ou mudanças de base, nas profundezas da alma. A partir daí o texto vivifica. Pela autoanálise e na aplicação do “conhece-te a ti mesmo” levantamos caracteres peculiares àqueles personagens e que podem ou não estar presentes em nossa intimidade, tais sejam: hipocrisia, extremismo fanatizante, conhecimento não acionado, cegueira, paralisia ou surdez espirituais, ou quem sabe, nossa posição cadaverizada na indiferença ou na cristalização ante a dinamização da vida."8 (Grifo nosso.)

Outro ponto relevante a ser ressaltado, refere-se ao reconhecimento e ao respeito às nossas limitações circunstanciais e contingenciais de cunho cognitivo. Segundo Estêvão:

"– No tocante ao Evangelho […], já vos ofereci os elementos de que podia dispor, esclarecendo o que tenho ao meu alcance […]."9

Conforme explicou Emmanuel, as lições do Evangelho são como as “pérolas” que vamos colecionando individualmente, ao longo de nossa marcha evolutiva espiritual, até formar um colar. A montagem desse colar advém, incondicionalmente, do aprendizado, da assimilação e da aplicação das lições morais, legadas a nós por Jesus. Assim, não podemos ter tudo de uma só vez, visto que “cada conceito do Cristo ou de seus colaboradores diretos adapta-se a determinada situação do Espírito, nas estradas da vida”.10 E argumenta o autor espiritual:

"[…] o Evangelho, em sua expressão total, é um vasto caminho ascensional, cujo fim não poderemos atingir, legitimamente, sem conhecimento e aplicação de todos os detalhes. […] A mensagem do Cristo precisa ser conhecida, meditada, sentida e vivida. […]"11

Por último, Estêvão mencionou que, quando se trata do Evangelho:

"[…] Jesus teve a preocupação de recomendar a seus discípulos que fugissem do fermento das discussões e das discórdias. Eis por que não será lícito perdermos tempo em contendas inúteis, quando o trabalho do Cristo reclama o nosso esforço. […]"9

É incongruente cogitar o contrário, visto que o objetivo máximo do Evangelho é o de promover a harmonização dos Espíritos – por intermédio do incentivo à cooperação e à fraternidade, em contraposição ao orgulho e ao egoísmo – à Lei Divina de Amor, força que rege e harmoniza todo o Universo. Conforme explicou Emmanuel, é “indispensável abrir o coração à bondade, o cérebro à compreensão, a existência ao trabalho, o passo ao bem, o verbo à fraternidade…”12

Com tais diretrizes pinçadas do debate entre Saulo e Estêvão, o simples folhear superficial e automatizado das páginas evangélicas, sem reflexão e sem busca pelo entendimento, feito por mero “desencargo de consciência” e por simples “dever” – conforme consta na citação de Kardec no início do artigo – consiste em nada mais do que atividade inócua para a promoção do melhoramento do Espírito imortal. É chegado o momento de permitirmos que o Evangelho paulatinamente penetre em nosso âmago, isto é, conhecendo-o, meditando-o, sentindo-o e, finalmente, vivendo-o. Para isso, quando formos estudar a Boa Nova, procuremos seguir as recomendações de Estêvão, que foi o orientador espiritual de Paulo de Tarso na sua missão de divulgação do Cristianismo: 1) arguir a si próprio, estabelecendo uma relação de empatia com o conteúdo do texto; 2) entender o conteúdo do texto com moderação, respeitando seus limites cognitivos de modo a evitar cogitações e palpites infundados; 3) evitar discussões e discórdias, permitindo que o Evangelho cumpra o seu papel, isto é, promover a harmonização dos Espíritos à Lei Divina de Amor.

Referências:

1 XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 4. ed. esp. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Breve notícia, p. 9.

2 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 130. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Introdução, p. 24.

3 Segundo Emmanuel, trata-se de “primitiva designação do Cristianismo”. Cf. XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 4. ed. esp. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Pt. 1, cap. 3, nota de rodapé 1, p. 61.

4 XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 4. ed. esp. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Pt. 1, cap. 5, p. 92-93.

5 ______. ______. p. 97.

6 “Ouvistes que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, vos digo para não se opor ao malvado. Pelo contrário, ao que te bater na face direita, vira- lhe também a outra.” In: DIAS, Haroldo D. (Tradutor.) O novo testamento. Brasília: Edicei, 2010. Mateus, 5:38-39.

7 XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 4. ed. esp. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Pt. 1, cap. 5, p. 100.

8 ABREU, Honório Onofre de (Org.). Luz imperecível: estudo interpretativo do Evangelho à luz da Doutrina Espírita. 6. ed. Belo Horizonte: UEM, 2009. Apresentação, p. 23.

9 XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 4. ed. esp. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Pt. 1, cap. 5, p. 101.

10 ______. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Interpretação dos Textos Sagrados, p. 14.

11 ______. Renúncia. Pelo Espírito Emmanuel. 3. ed. esp. 3. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Pt. 2, cap. 3, p. 328.

12 XAVIER, Francisco C. Bênção de paz. 15. ed. São Bernardo do Campo: GEEM, 2010. Cap. 35, p. 102.

 

 

Nena Galves e o apoio de Chico Xavier

Nena Galves e o apoio de Chico Xavier

Entrevista por Orson Peter Carrara

Nena Galves: “Que o Espiritismo seja divulgado de maneira correta”

Espírita desde 1956, natural e residente em São Paulo, Encarnação Blasques, nossa entrevistada de hoje, é mais conhecida como Nena Galves. Vinculada ao Centro Espírita União – CEU (que completou 50 anos de inauguração da sede em 2017, na capital paulista), do qual é fundadora e dirigente dos trabalhos espirituais, Nena Galves viveu longamente com Chico Xavier, como nos conta na entrevista seguinte.

P – Quando e como foi fundado o Centro Espírita União?

Nena: Em 18 de dezembro de 1965, durante uma das visitas a Uberaba, que já realizávamos desde 1959, Chico psicografou uma mensagem de Dr. Bezerra de Menezes, na qual ele nos incentivava a retornar ao trabalho espírita, abandonado por nós havia algum tempo depois de vários tropeços. Ele nos orientava para que nos reuníssemos – eu e o Galves – no mesmo horário, todos os dias, num diálogo fraterno, estudando a doutrina espírita. Numa nova mensagem psicografada por Chico, Bezerra informava que o novo núcleo já estava formado no mundo espiritual. Em 5 de abril de 1967 foi inaugurada a sede do Centro Espírita União, num imóvel pequeno que a família havia recebido de herança dos avós de Galves, no bairro do Jabaquara. O nome também foi sugestão de Dr. Bezerra, para representar a aliança dos ensinamentos de Jesus e Kardec, o Mestre e o Discípulo. Aos poucos os amigos e colaboradores foram chegando. Uma tarefa assim não poderia ficar apenas nas mãos de duas pessoas. Sendo hoje uma instituição que congrega também uma editora e distribuidora de livros espíritas, como é sua condução administrativa, pois que vai além da atividade doutrinária propriamente dita? Desde o início, somente a condução espiritual do Centro ficou sob minha responsabilidade. A parte financeira/administrativa ficou por conta de Galves, hoje auxiliado pela nossa filha Roseli Galves. A livraria, a distribuidora e a editora estão num outro imóvel, que nos foi presenteado pelo Chico na região central da cidade (Avenida Rangel Pestana,233). Ali é uma casa comercial, uma empresa, que tem seus empregados (não são voluntários) e obrigações. É de lá que provém a maioria dos recursos financeiros para o trabalho assistencial realizado no Centro e para a atividade de divulgação do Espiritismo, por exemplo: o programa de tevê Vida além da Vida (TV Aberta). O lucro da livraria, portanto, é aplicado na casa espírita e em função da divulgação do Espiritismo.

P – Quantos títulos a editora tem publicado? Todos são da psicografia de Chico Xavier?

Nena: Temos 71 livros (65 psicografados por Chico Xavier) e 3 DVDs da Editora CEU. No caso dos títulos da psicografia de Chico Xavier, há dados de quantos exemplares já editados pela instituição? Acima de um milhão de exemplares dos títulos psicografados por Chico já foram editados. Mensalmente, também, distribuímos aproximadamente 30 mil mensagens impressas sobre temas diversos, psicografadas por Chico. Elas correm o mundo todo através da distribuição gratuita da livraria às casas espíritas, via Correio. É um trabalho permanente de divulgação da doutrina como Chico sempre nos ensinou, realizado por um grupo de voluntários no Centro Espírita União.

P – Comente conosco como começaram as visitas anuais do médium à instituição. E esta atividade consistia de lançamentos de livros e também de psicografias e atendimentos?

Nena – No mês de outubro de cada ano, Chico Xavier comemorava conosco a data de nascimento de Allan Kardec, ocorrido em 3 de outubro de 1804, em Lyon, na França. Fazia-se uma prece, lia-se um trecho do Evangelho e, enquanto realizávamos os comentários, Chico psicografava lindas mensagens. Esses festejos se prolongavam até a madrugada e havia lançamento de obras psicografadas pelo médium, editadas pelo CEU. Chico a todos beijava e consolava. A primeira aconteceu no Clube Atlético Juventus, uma noite que foi por nós patrocinada. A partir de 1977, quando se comemoraram também os 50 anos de mediunidade de Chico, esses encontros memoráveis começaram a ser realizados na sede do Centro Espírita União. Em média, mais de 1.500 pessoas participavam e ficavam em longas filas madrugada adentro para cumprimentar Chico.

P- Durante aqueles anos todos, o que mais lhe marcou a memória da convivência com o médium?

Nena – O carinho que tinha com todos e a disciplina que apresentava como médium, respeitando os espíritos, enaltecendo a obra de Kardec. Eram feitos a ele os pedidos mais diversificados e ele nunca os menosprezava. “Não cabe a nós medir a dor alheia”, dizia. Que gostaria de destacar aos leitores acerca dos ensinos colhidos junto ao médium? Chico deixou a nós inúmeros exemplos e muitos conselhos para que pudéssemos permanecer firmes na obra que construímos com a orientação espiritual que tivemos. A primeira: fidelidade a Jesus e a Kardec. A segunda: que o centro procurasse ter sempre independência financeira, não criasse vínculos com instituições para ser livre na sua divulgação doutrinária. Chico nos ensinou a trabalhar na tarefa espírita.

P – E o acervo reunido na instituição? De que se constitui? Como foi formado?

Nena – São objetos, títulos, roupas, livros, homenagens e fotografias que Chico deixava conosco quando vinha a São Paulo. Tudo sempre ficou em seu quarto, na nossa residência. Quando Chico desencarnou, tivemos a ideia de levar esse material para o Centro Espírita União, até porque essa herança não pertencia à nossa família, mas ao mundo espírita, e esse acervo deveria ser conhecido por outras pessoas.

P – Ele está aberto à visitação? Em caso positivo, quais os horários e dias disponíveis e contatos para tal iniciativa?

Nena – O acervo é aberto para visitação, por meio de solicitação de agendamento através do e-mail ceu@ceu.com.br.

P – Dos 50 anos do Centro Espírita União, o que, a seu ver, mais sobressai?

Nena – O atendimento aos necessitados de consolo espiritual e caridade material, aos que se interessam pelo conhecimento e esclarecimento do Espiritismo em sua pureza doutrinária, respeitando-se acima de tudo a obra codificada por Allan Kardec. Nesses 50 anos, o Centro Espírita União continua atuando da mesma forma como nos foi orientada pela Espiritualidade, com apoio de Emmanuel e do nosso patrono Dr. Bezerra Menezes.

P – De suas lembranças na experiência de vida e de prática espírita, o que mais lhe surge vivo à memória?

Nena – Aprendi que no convívio com o nosso próximo, trocando valores e experiências, nos enriquecemos mutuamente, evoluindo e servindo cada vez mais.

P – Fale-nos da participação de seu marido nesse contexto todo.

Nena – Eu nunca entendi de finanças, sou péssima em números, mas Galves sempre foi um comerciante, então era claro que a livraria ficasse sob sua responsabilidade, porque necessitava dessa experiência que eu não tinha. Também a minha mediunidade e a minha tarefa no centro foram-se ampliando. Então os espíritos souberam nos direcionar de acordo com nossas aptidões. Suas palavras finais. Quem divulga o Espiritismo somos nós, os espíritas, com palavras e ações. Sendo assim, que seja ele divulgado de maneira correta, com bons exemplos, conhecimento e honradez, com fidelidade a Jesus e a Kardec. O Espiritismo é novo e cabe a esta geração atual a responsabilidade de dar continuidade ao Espiritismo Cristão com a pureza como ele foi codificado, com o mesmo devotamento e carinho, como fizeram seus pioneiros.

Extraído de: http://www.oconsolador.com.br/ano11/542/entrevista.html

Anticristo. Senhor do Mundo

Anticristo. Senhor do Mundo

Leopoldo Cirne (1870-1941), ex-presidente da FEB, escreveu a obra Anticristo. Senhor do Mundo, tendo dois subtítulos: “O Espiritismo em falência” e “A obra cristã e o poder das trevas”. Impressa por Bedeschi e lançada no Rio de Janeiro em 1935, não foi reeditada e é encontrada em alguns sebos. Com 529 páginas, na 1ª Parte Cirne analisa em detalhes a trajetória do Cristianismo e na 2ª Parte focaliza o Espiritismo.

Define o objetivo da obra: “(…) apreciando a ação perturbadora do Anticristo na existência da igreja – alvo do seu inveterado rancor – do mesmo que em todas as manifestações da vida humana, em que essa interferência transparece, colher ensinamentos e advertências para salvaguarda dos que, nesta época de transformações e num radioso futuro que se avizinha, desejem sinceramente seguir a Jesus e necessitam estar apercebidos contra as insidiosas manobras dos que com propriedade são denominados inimigos da luz.” Considera que o Cristo empreende a obra de educação e redenção da humanidade e raciocina: “o princípio oposto – de separatividade [sic] e de egoísmo – que forma o substrato da natureza inferior do homem e constitui, na quase totalidade da espécie humana, o motivo preponderante de seus atos e impulsos? (…) esse princípio deverá chamar-se o Anticristo. Somos todos assim, enquanto consentimos em nós o predomínio do egoísmo com todos os seus derivados – ambição, vaidade, orgulho – e pelejamos denodadamente pela obtenção e acréscimo dos bens, posições e vantagens pessoais, com sacrifício dos outros e violação da lei de solidariedade (…)”

Cirne comenta a ação do Cristo, com citações dos evangelistas, de Atos e de epístolas de Paulo. Analisa dissenções, concílios e deturpações dos ensinos cristãos primitivos. Destaca o papel de Francisco de Assis; focaliza os complicados momentos do papado em Avignon e momentos subsequentes, o começo do grande cisma; inclui o sacrifício de Jan Huss. Lamenta os movimentos fanatizados das Cruzadas e da Inquisição. Dedica um capítulo à Reforma e transcreve trecho de carta de Lutero ao papa Leão X: “Não sei decidir ao certo se o papa é o Anticristo ou o apóstolo do Anticristo.” Comenta os papéis independentes de Copérnico, Giordano Bruno e Galileu. Analisa a França (século XVIII), com os desvarios da “Deusa Razão”. Destaca as lutas para a manutenção dos Estados pontifícios, culminando com o “acordo de Latrão” (século XX) com o governo italiano, que reconhece a soberania temporal do papa.

Na 2ª Parte, Cirne focaliza os momentos predecessores e concomitantes ao Espiritismo, de eclosão de muitos fenômenos mediúnicos e com notável trabalho de vários pesquisadores. Descreve o cenário dos primeiros grupos espíritas do Rio de Janeiro e as dificuldades da novel Federação Espírita Brasileira. Define a presidência de Bezerra como um “renascimento para a Federação, acerca de cujas sessões doutrinárias, em que foi restabelecido o estudo metódico de O Livro dos Espíritos”. Sendo vice-presidente, com a desencarnação de Bezerra, em 11 de abril de 1900, Leopoldo Cirne assume a presidência da FEB. De 1º a 3 de outubro de 1904, a FEB comemorou o centenário de nascimento de Allan Kardec e Cirne considera que a parte mais importante foi a reunião de representantes de instituições dos estados, oportunidade em que foi aprovado o documento “Bases de organização espírita”, formulado pela diretoria da Federação.

Outro destaque foi a inauguração, no dia 10 de dezembro 1911, da sede da FEB à Avenida Passos, no Rio de Janeiro. Em seguida aponta vários problemas: a Escola de Médiuns, um desafio para a época; questiona algumas mensagens atribuídas a Allan Kardec; registra a “inexperiência de alguns novos membros da diretoria”, ficando mais expostos às sugestões do Espírito das trevas. Essas dissenções culminaram na assembleia geral da FEB, no começo de 1914 e o final do pleito, resultado da manobra reacionária com exclusão do antigo presidente e dos companheiros com ele solidários na orientação doutrinária que vinha imprimindo aos trabalhos da Sociedade. Comenta: “(…) Até aos dois anos precedentes, ou melhor, enquanto a Federação foi uma sociedade pequenina e pobre, como tal modestamente instalada, a eleição anual de sua diretoria era uma formalidade sumaríssima, perfeitamente nos moldes das comunidades cristãs.”

Cirne se refere ao seu alijamento da presidência da FEB e se manteve afastado da entidade até sua desencarnação, mantendo palestras em outras instituições e redação de livros. Distanciado da FEB, Cirne critica o colégio eleitoral da Instituição e compara com a eleição do papa pelo sacro colégio dos cardeais. Critica também a apatia da Federação, que se omite em muitas questões sociais e o ensino leigo. Opina com restrições à obra de J.B.Roustaing. No final comenta as obras de Allan Kardec. Em seguida, defendendo os princípios espíritas, analisa a Teosofia e o Esoterismo.

     Leopoldo Cirne foi vice-presidente da FEB (1898-1900) na gestão de Bezerra de Menezes, sucedendo-o como presidente (1900-1914). Renovou os Estatutos da FEB (1902) instituindo o estudo das obras completas de Allan Kardec como referência básica da instituição. Em 1904 promoveu o I Congresso Espírita, evocativo do centenário do nascimento de Kardec. Esforçou-se para implantar a “Escola de Médiuns”; iniciou a promoção do Esperanto na FEB e junto ao movimento espírita (1909); construiu e inaugurou a sede própria da FEB (1911). Perdeu a eleição para a presidência em 1914, retirando-se da instituição. Foi conferencista; autor de livros: Memórias históricas do Espiritismo; Doutrina e Prática do Espiritismo; Anticristo, Senhor do Mundo; A personalidade de Jesus (publicação post mortem pela FEB). Tradutor das obras de Léon Denis: No invisível e Cristianismo e Espiritismo. Há várias mensagens do espírito Leopoldo Cirne, em obras editadas pela FEB, pelo médium Chico Xavier: Instruções psicofônicas; um dos personagens em Voltei, ao lado de Bezerra de Menezes, Inácio Bittencourt e Antônio Luís Sayão e, pela psicografia de Waldo Vieira, na obra Seareiros de volta.

Síntese de:

Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cristianismo, Espiritismo e o Anticristo. Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCII. No. 9. Outubro de 2017. http://espiritismoemmovimento.blogspot.com.br/2017/10/cristianismo-espiritismo-e-o-anticristo.html

 Dia dos mortos

Bibliografia – Dia dos mortos

Recordando a "Revista Espírita":

 

“Sessão Anual Comemorativa do dia dos Mortos (Sociedade de Paris, 1o de novembro de 1868) DISCURSO DE ABERTURA PELO SR. ALLAN KARDEC" 

 

"O Espiritismo é uma religião?

“Onde quer que se encontrem duas ou três pessoas reunidas em meu nome, aí estarei com elas.” (S. Mateus, 18:20)

Caros irmãos e irmãs espíritas, Estamos reunidos, neste dia consagrado pelo uso à comemoração dos mortos, para darmos àqueles irmãos nossos que deixaram a Terra um testemunho particular de simpatia, para continuarmos as relações de afeição e de fraternidade que existiam entre eles e nós, quando eram vivos, e para invocarmos sobre eles a bondade do Todo-Poderoso. Mas, por que nos reunirmos? Não podemos fazer em particular o que cada um de nós propõe fazer. A primeira parte deste discurso é tirada de uma publicação anterior sobre a Comunhão de pensamentos, mas que era preciso relembrar, por causa de sua ligação com a idéia principal. Qual a utilidade de assim nos reunirmos num dia determinado?

Jesus no-lo indica pelas palavras que referimos acima. Esta utilidade está no resultado produzido pela comunhão de pensamentos que se estabelece entre pessoas reunidas com o mesmo objetivo.

Comunhão de pensamentos! Compreendemos bem todo o alcance desta expressão? Seguramente, até este dia, poucas pessoas dela tinham feito uma ideia completa. O Espiritismo, que nos explica tantas coisas pelas leis que revela, ainda vem explicar a causa e a força dessa situação do espírito.

Comunhão de pensamento quer dizer pensamento comum, unidade de intenção, de vontade, de desejo, de aspiração. Ninguém pode desconhecer que o pensamento é uma força; mas uma força puramente moral e abstrata? Não: do contrário não se explicariam certos efeitos do pensamento e, ainda menos, a comunhão de pensamento. Para compreendê-lo, é preciso conhecer as propriedades e a ação dos elementos que constituem nossa essência espiritual, e é o Espiritismo que no-las ensina.

O pensamento é o atributo característico do ser espiritual; é ele que distingue o espírito da matéria; sem o pensamento o espírito não seria espírito. A vontade não é um atributo especial do espírito; é o pensamento chegado a um certo grau de energia; é o pensamento transformado em força motriz. É pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido. Mas, se tem a força de agir sobre os órgãos materiais, quanto maior não deve ser essa força sobre os elementos fluídicos que nos rodeiam! O pensamento atua sobre os fluidos ambientes, como o som age sobre o ar; esses fluidos nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Pode, pois, dizer-se com toda a verdade que há nesses fluidos ondas e raios de pensamentos que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e raios sonoros.

Uma assembleia é um foco onde irradiam pensamentos diversos; é como uma orquestra, um coro de pensamentos, onde cada um produz a sua nota. Disto resulta uma imensidão de correntes e de eflúvios fluídicos, dos quais cada um recebe a impressão pelo sentido espiritual, como num coro musical cada um recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição.

Mas, assim como há raios sonoros harmônicos ou discordantes, também há pensamentos harmônicos ou discordantes. Se o conjunto for harmônico, a impressão é agradável; se discordante, a impressão será penosa. Ora, para isto, não é necessário que o pensamento seja formulado em palavras; a irradiação fluídica não deixa de existir, quer seja ou não expressa. Se todas forem benéficas, os assistentes experimentarão um verdadeiro bem-estar e se sentirão à vontade; mas se se misturarem alguns pensamentos maus, produzirão o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido.

Tal é a causa do sentimento de satisfação que se experimenta numa reunião simpática; aí reina uma espécie de atmosfera moral salubre, onde se respira à vontade; daí se sai reconfortado, porque aí nos impregnamos de eflúvios fluídicos salutares. Assim também se explicam a ansiedade e o mal-estar indefinível que se sente num meio antipático, onde os pensamentos malévolos provocam, a bem dizer, correntes fluídicas malsãs.

A comunhão de pensamentos produz, pois, uma sorte de efeito físico que reage sobre o moral; só o Espiritismo poderia fazê-lo compreender. O homem o sente instintivamente, já que procura as reuniões onde sabe encontrar essa comunhão. Nessas reuniões homogêneas e simpáticas haure novas forças morais; poder-se-ia dizer que aí recupera as perdas fluídicas perdidas diariamente pela irradiação do pensamento, como recupera pelos alimentos as perdas do corpo material.

A esses efeitos da comunhão de pensamentos, junta-se um outro que é a sua consequência natural, e que importa não perder de vista: é o poder que adquire o pensamento ou a vontade, pelo conjunto dos pensamentos ou vontades reunidos. Sendo a vontade uma força ativa, esta força é multiplicada pelo número de vontades idênticas, como a força muscular é multiplicada pelo número dos braços.

Estabelecido este ponto, concebe-se que nas relações que se estabelecem entre os homens e os Espíritos, haja, numa reunião onde reine perfeita comunhão de pensamentos, uma força atrativa ou repulsiva, que nem sempre possui o indivíduo isolado.

[…]

Que os espíritas sejam, pois, os primeiros a aproveitar os benefícios que ele traz, e que inaugurem entre si o reino da harmonia, que resplandecerá nas gerações futuras.

Os Espíritos que nos cercam aqui são inumeráveis, atraídos pelo objetivo que nos propusemos ao nos reunirmos, a fim de dar aos nossos pensamentos a força que nasce da união. Ofereçamos aos que nos são caros uma boa lembrança e o penhor de nossa afeição, encorajamentos e consolações aos que deles necessitem. Façamos de modo que cada um recolha a sua parte dos sentimentos de caridade benevolente, de que estivermos animados, e que esta reunião dê os frutos que todos têm o direito de esperar."

Allan Kardec

(Revista Espírita, dezembro de 1868)

A laicidade do ensino nas escolas públicas

“Uma religião não pode pretender apropriar-se do espaço público para propagar a sua fé” –  Ministro Luís Roberto Barroso, do STF.

O Supremo Tribunal Federal perdeu uma grande oportunidade de referendar o caráter laico do Estado brasileiro. A Procuradoria-Geral da República, mediante ação direta de inconstitucionalidade, questionou dispositivo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação que permite o ensino obrigatório, embora de matrícula facultativa, do ensino religioso nas escolas públicas. Por interpretação que se tem dado àquela lei, ministros de confissões religiosas passaram a ministrar ensino confessional de religião nas escolas públicas. Para a PGR atenta contra a laicidade do Estado a docência por ministros de uma religião de seus dogmas em escolas públicas. Pretendia substituir o ensino confessional por conteúdos históricos das religiões, ministrados por professores públicos.

Apesar da forma brilhante com que o relator da ADI, Ministro Luís Roberto Barroso, acolhia, em seu voto, a pretensão do Ministério Público Federal, a ação acabou julgada improcedente pelo escore final de 5 a 6.

Mas fica para a História o lúcido voto de Barroso para quem ”cada família e cada igreja podem expor seus dogmas e suas crenças para seus filhos e seus fiéis sem nenhum tipo de embaraço. Da mesma forma, as escolas privadas podem estar ligadas a qualquer confissão religiosa, o que igualmente é legítimo. Mas não a escola pública. A escola pública fala para o filho de todos, e não para os filhos dos católicos, dos judeus, dos protestantes. E ela fala para todos os fiéis, portanto uma religião não pode pretender apropriar-se do espaço público para propagar sua fé”.

Acompanharam o voto do relator os ministros Luiz Fux, Rosa Weber, Marco Aurélio e Celso Mello. Este, o decano do STF, apresentou um verdadeiro libelo contra o ensino confessional nas escolas públicas e referendando o caráter laico do Estado.

Entretanto, falaram mais alto do que a moderna razão laica e livre-pensadora vetustas tradições que teimam em manter amarrados entre si Estado e religião. Ministros que se posicionaram contra o voto do relator, reconheça-se, não tiveram qualquer dificuldade em encontrar em velhas e surradas tradições que, antanho, se fizeram leis ou se converteram em doutrina e jurisprudência, razões para fundamentar seus votos. Convalidou-se, inclusive, acordo firmado entre a Santa Sé e o Brasil, no qual o estado brasileiro se compromete com “o ensino religioso católico e de outras confissões religiosas” nas escolas públicas.

 Onde se poderia avançar, por força de decisão soberana da mais alta Corte do país, retrocedeu-se.

É verdade que a lei não obriga o aluno a assistir às aulas de religião, cuja matrícula é facultativa. Mas, como se infere do voto de Barroso, a simples presença de ministro de uma entre tantas religiões em escola pública, ensinando seus dogmas, implica em privilégio atentatório à liberdade de crer ou de deixar de crer. Questões que dizem com crenças devem ser construídas autonomamente no íntimo do educando. A religião, ainda que respeitáveis seus propósitos, há de se circunscrever ao espaço privado do lar ou dos templos. A educação, a partir de pressupostos de validade universal, deve ter seus parâmetros regulados e fiscalizados pelo Estado. Só assim se há de tornar efetivo o princípio vigente nas Constituições de todos os países democráticos, inclusive o nosso.

A separação entre Estado e religião (ou religiões, que, cá, proliferam tentando teocratizar o Estado), é fruto do Iluminismo, conquista que não pode sofrer retrocessos. Aqui, sofreu, com o julgamento da ADI 4439.

(Extraído de: Editorial – OPINIÃO 256 – ANO XXIV – OUTUBRO 2017)

 

 

Bibliografia sobre Amelie Boudet:

"Mais Luz"

(Berthe Fropo – Beaucoup de Lumière, 1884) – Tradução de Ery Lopes e Rogério Miguez.

Berthe Fropo, amiga de Amelie Boudet, relata fatos de um período obscuro, após a desencarnação de Allan Kardec. Episódios geralmente desconhecidos do público espírita brasileiro.

Berthe Fropo, uma das fundadoras da Sociedade Espírita Francesa (1882) e amiga de Madame Rivail, publicou esta obra para registrar o ideal e as lutas de Amelie Boudet e problemas sérios que ocorreram e que envolvem o Sr. Leymarie.

 

ACESSO pelo link:

Berthe Fropo – "Muita Luz": 

http://www.autoresespiritasclassicos.com/Autores%20Espiritas%20Classicos%20%20Diversos/Berthe%20Fropo/Berthe%20Fropo%20.