Chico Xavier: 90 anos de marcos históricos iniciais

Antonio Cesar Perri de Carvalho(*)

Entre maio e julho deste ano transcorrem 90 anos de alguns marcos históricos na trajetória de Francisco Cândido Xavier, relacionados com o início de seus labores espíritas em Pedro Leopoldo (MG).

No seio de família simples, pobre e numerosa do casal Cidália e João Cândido Xavier – com muitos filhos dos dois casamentos deste senhor -, ocorriam fatos que preocupavam a todos. A filha Maria Xavier, estava doente e não conseguiam diagnóstico adequado e nem tratamento. Era a irmã mais velha de Chico Xavier, este com 17 anos de idade.

Chico Xavier relata em “Palavras minhas”, como prefácio de Parnaso de além-túmulo, sua primeira obra psicográfica, lançada em 1932:

“Até 1927, todos nós não admitíamos outras verdades além das proclamadas pelo catolicismo, mas, eis que, uma das minhas irmãs, em maio do ano referido, foi acometida de uma terrível obsessão; a medicina foi impotente para conceder-lhe uma pequenina melhora sequer. Vários dias consecutivos foram para nossa casa, horas de amargos padecimentos morais. Foi quando decidimos solicitar o auxílio de um nosso distinto amigo, espírita convicto, o Sr. José Hermínio Perácio…”1

Em entrevista a seu amigo dr. Elias Barbosa, de Uberaba,  comenta que ele e sua família “ se voltaram para a Doutrina Espírita por motivo de cura de uma das suas irmãs que sofrera um processo obsessivo.”2 E responde ao entrevistador:

— Recordo-me. Minha primeira tarefa espírita foi a prece que se fez em torno de minha irmã doente, no próprio quarto em que ela se achava. […]

— Desde a primeira reunião de preces e passes, na manhã de 7 de maio de 1927, ela se restabeleceu…” 2

A partir de então, Chico Xavier tornou-se espírita, graças ao casal Carmem e José Hermínio Perácio e esclarece o decisivo papel deste casal:

“— Explicando-me o que eu sentia, em matéria de mediunidade, desde a infância, quando fiquei órfão de mãe, aos cinco anos de idade, amparando-me em minhas necessidades espirituais, ensinando-me a orar e presenteando-me com “O Evangelho, segundo o Espiritismo” e “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, os dois livros que me deram os alicerces de minha fé espírita-cristã e me orientaram para aceitar a mediunidade e respeitar os Bons Espíritos.” 2

A partir do atendimento de sua irmã Maria, o jovem Chico Xavier deu início a posicionamentos muito rápidos.

Quarenta dias após, no dia 21 de junho de 1927 foi fundado o Centro Espírita Luiz Gonzaga. Logo depois Chico Xavier psicografou pela primeira vez. Ele detalha em entrevista os companheiros presentes na histórica reunião do dia 7 de julho de 1927 e comenta que o espírito manifestante não se identificou, tendo assinado como “um espírito amigo”, porém Chico Xavier se recorda do episódio:

“— Estávamos em reunião pública e depois da evangelização, D. Carmen Perácio, médium de muitas faculdades, transmitiu a recomendação de um benfeitor espiritual para que eu tomasse o lápis e experimentasse a psicografia. Obedeci e minha mão de pronto escreveu dezessete páginas sobre deveres espíritas… Senti alegria e susto ao mesmo tempo. Tremia muito quando terminei.” 2

Chico Xavier relata no seu livro pioneiro, já citado, o desabrochar de sua psicografia:

“Resolvemos, então, com ingentes sacrifícios reunir um núcleo de crentes para estudo e difusão da doutrina, e foi nessas reuniões que desenvolvi-me como médium escrevente, semi-mecânico, sentindo-me muitíssimo feliz, por se me apresentar essa oportunidade de progredir, datando daí o ingresso do meu humilde nome nos jornais espíritas, para onde comecei a escrever sob a inspiração dos bondosos mentores espirituais que nos assistiam.”1

Por ocasião do cinquentenário dessas mesmas efemérides, nos idos de 1977, entrevistamos Chico Xavier e várias lideranças da época sobre o trabalho do notável médium. Na época Chico Xavier declarou a um jornal: “Sou sempre um Chico Xavier lutando para criar um Chico Xavier renovado em Jesus e, pelo que vejo, está muito longe de aparecer como espero e preciso…”3

Em apenas 60 dias -, o jovem Chico Xavier tornou-se espírita, fundou um Centro Espírita e psicografou pela primeira vez. Era o marcante e decisivo início de longa trajetória de renúncia, dedicação, amor e iluminação espiritual!

 

Referências:

  1. Xavier, Francisco Cândido. Espíritos diversos. Parnaso de além túmulo. 19.ed. Palavras minhas. Brasília: FEB. 2010.
  2. Barbosa, Elias. No mundo de Chico Xavier. 2.ed. Cap. 2. Araras: IDE. 1975.
  3. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier. O homem e a obra. 1.ed. São Paulo: USE. 1997. p.36-46.

(*) Ex-presidente da FEB e da USE-SP.

(Síntese de artigo do autor publicado em Revista Internacional de Espiritismo, Ano XCII, N. 2, Abril de 2017)

Kardec morreu?

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Allan Kardec desencarnou no dia 31 de março de 1869, em Paris. A efeméride é sempre recordada.

Nossa indagação é se, na prática, Kardec teria morrido, isto é, as suas obras e propostas! Vale conferir…

Coincidentemente em abril transcorrem os 160 anos do lançamento de “O Livro dos Espíritos”, e os aniversários de episódios marcantes como a fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritos – primeiro centro espírita do mundo -, o lançamento da “Revista Espírita” e de “O Evangelho segundo o Espiritismo”.

No conjunto, torna-se oportuna a análise e reflexão se na instituição espírita a que estamos vinculados e nosso âmbito de atuação, as obras e o pensamento do Codificador Allan Kardec, como se encontrariam? Estariam com a pulsante vitalidade, bem vivos?

A título de sugestão – como parâmetro para a verificação -, recordamos apenas alguns trechos dos textos kardequianos:

"Quando o homem praticar a lei de Deus, terá uma nova ordem social fundada sobre a justiça e a solidariedade, e ele mesmo também será melhor.” (1)

“A verdadeira adoração é a do coração. […] Deus prefere aqueles que o adoram do fundo do coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal, àqueles que creem honrá-lo por meio de cerimônias que não os tornam melhores para os seus semelhantes.” (1)

"[…] desenvolvimento dessas ideias: o primeiro é o da curiosidade provocada pela estranheza dos fenômenos; o segundo é o do raciocínio e das filosofias; o terceiro, o da aplicação e das consequências." (1)

“Este dom de Deus não é concedido ao médium para seu deleite e, ainda menos, para satisfação de suas ambições, mas para o fim da sua melhora espiritual e para dar a conhecer aos homens a verdade.” (2)

“A bandeira que desfraldamos bem alto é a do Espiritismo cristão e humanitário, em torno do qual já temos a ventura de ver, em todas as partes do globo, congregados tantos homens, por compreenderem que aí que está a âncora de salvação, a salvaguarda da ordem pública, o sinal de uma Nova Era para a Humanidade.” (2)

“As qualidades que, de preferência, atraem os bons Espíritos são: a bondade, a benevolência, a simplicidade do coração, o amor do próximo, o desprendimento das coisas materiais. Os defeitos que os afastam são: o orgulho, o egoísmo, a inveja, o ciúme, o ódio, a cupidez, a sensualidade e todas as paixões que escravizam o homem à matéria.” (2)

“O homem que pratica o bem — isto dito em tese geral — deve, pois, esperar contar com a ingratidão, ter contra ele aqueles que, não o praticando, são ciumentos da estima concedida aos que o praticam. Os primeiros, não se sentindo fortalecidos para se elevarem, procuram rebaixar os outros ao seu nível, pondo em xeque, pela maledicência ou pela calúnia, aqueles que os ofuscam” (3)

"[…] o ensino moral […] conservou-se constantemente inatacável. Diante desse código divino, a própria incredulidade se curva. É terreno onde todos os cultos podem reunir-se, estandarte sob o qual podem todos colocar-se, quaisquer que sejam suas crenças, porquanto jamais ele constituiu matéria das disputas religiosas, que sempre e por toda a parte se originaram das questões dogmáticas." (4)

“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.” (4)

“[…] Se a ordem social colocou sob o seu mando outros homens, trata-os com bondade e benevolência, porque são seus iguais perante Deus; usa da sua autoridade para lhes levantar o moral e não para os esmagar com o seu orgulho. Evita tudo quanto lhes possa tornar mais penosa a posição subalterna em que se encontram.” (4)

“Repelir as comunicações de além-túmulo é repudiar o meio mais poderoso de instruir-se, já pela iniciação nos conhecimentos da vida futura, já pelos exemplos que tais comunicações nos fornecem. A experiência nos ensina, além disso, o bem que podemos fazer, desviando do mal os Espíritos imperfeitos, ajudando os que sofrem a desprenderem-se da matéria e a se aperfeiçoarem. Interdizer as comunicações é, portanto, privar as almas sofredoras da assistência que lhes podemos e devemos dispensar.” (5)

“Para que cada qual trabalhe na sua purificação, reprima as más tendências e domine as paixões, preciso se faz que abdique das vantagens imediatas em prol do futuro, visto como, para identificar-se com a vida espiritual, encaminhando para ela todas as aspirações e preferindo-a à vida terrena, não basta crer, mas compreender.” (5)

“Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem.” (6)

“A Terra, no dizer dos Espíritos, não terá de transformar-se por meio de um cataclismo que aniquile de súbito uma geração. A atual desaparecerá gradualmente e a nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que haja mudança alguma na ordem natural das coisas. […] Em cada criança que nascer, em vez de um Espírito atrasado e inclinado ao mal, que antes nela encarnaria, virá um Espírito mais adiantado e propenso ao bem. Muito menos, pois, se trata de uma nova geração corpórea, do que de uma nova geração de Espíritos.” (6)

"O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas." (7)

Oportuna a recomendação de Bezerra de Menezes:

“Seja Allan Kardec, não apenas crido ou sentido, apregoado ou manifestado, a nossa bandeira, mas suficientemente vivido, sofrido, chorado e realizado em nossas próprias vidas. Sem essa base é difícil forjar o caráter espírita-cristão que o mundo conturbado espera de nós pela unificação.” (8)

Referências:

  1. Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos espíritos. Questões 630, 653, 654, Conclusão V. Brasília: FEB.
  2. Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos médiuns. Itens 220, 335, 350. Brasília: FEB.
  3. Kardec, Allan. Trad. Noleto, Evandro Bezerra.Viagem espírita de 1862 e outras viagens de Allan Kardec.Cap. Discursos pronunciados na reuniões gerais de Lyon e Bordeaux. FEB.
  4. Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O evangelho segundo o espiritismo. Introdução; Cap. XVII, itens 3 e 4. Brasília: FEB.
  5. Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O céu e o inferno. 1ª. Parte, Cap.XI, item 15; 2ª. Parte, cap. I, item 14. Brasília: FEB.
  6. Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. A gênese. 53.ed. Cap. I, item 13; Cap. XVIII, item 27. Brasília: FEB.
  7. Kardec, Allan. Trad. Noleto, Evandro Bezerra. O Espiritismo é uma religião? Revista Espírita. Dezembro de 1868. Brasília: FEB.
  8. Equipe Secretaria-Geral do Conselho Federativo Nacional. (Resp. Equipe: Antonio Cesar Perri de Carvalho.) Orientação aos órgãos de unificação. Cap. VI. Rio de Janeiro: FEB.

(Ex-presidente da USE-SP e da FEB)

O Evangelho de João

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O apóstolo João, após sair de Jerusalém, viveu na Ásia Menor e orientava as igrejas desta região, principalmente junto à igreja de Éfeso, fundada por Paulo. Considera-se que João é testemunha genuína da tradição dos Apóstolos.

Ainda jovem e acompanhando o Mestre, João – chamado “filho do trovão” (Atos, 20.31) -, segundo Jesus, passou a ser o “discípulo amado”; corajosamente, seguiu-o na noite da prisão e o acompanhou até a crucificação, quando foi designado para cuidar de Maria. É aceito que a mãe de João era irmã de Maria. João conduziu Maria à cidade de Éfeso no ano 37 d.C. e ela desencarnou com 64 anos de idade no ano 46 d.C., naquela região, na montanha de Bilbul.1 A convivência com a mãe de Jesus foi uma oportunidade ímpar para a compreensão dos valores cristãos.

Com relação à época do aparecimento dos Evangelhos, registramos que a 1a Epístola aos Tessalonicenses, escrita por Paulo em Corinto no ano 51 d.C., seria o primeiro texto de autoria do Apóstolo e também o texto pioneiro do Novo Testamento.2 Em realidade os Evangelhos surgiram após a redação de todas Epístolas de Paulo. É aceito que a seguinte cronologia de aparecimento dos Evangelhos: Marcos, provavelmente no ano 64 d.C; Lucas, logo em seguida; Mateus, no ano 70 d.C., e, João, no período entre 90 e 100 d.C.3

Os três primeiros evangelhos registram as obras do Cristo desde a prisão e encarceramento de João Batista, durante um ano apenas.3 Por isso João transmitiu em seu evangelho os eventos que os evangelistas precedentes haviam omitido e as ações do Mestre nesse espaço de tempo. Isso é assinalado na frase: “Este foi o início dos sinais que Jesus fez” (João 2,11). Portanto, João registra as ações de Cristo antes de João Batista ser encarcerado; os outros três evangelistas citam os eventos após a prisão e encarceramento do Batista. Ciente de que o lado humano havia sido exposto nos evangelhos precedentes, escreveu impelido pelos discípulos e divinamente inspirado pelo “Espírito Santo”, um evangelho espiritual.

O estudioso bíblico Champlin3 reproduz a opinião de Ernest Renan de que o evangelho de Lucas é o mais belo livro que jamais foi escrito. Por outro lado, comenta que, considerados juntamente, os evangelhos de Lucas e Atos dos Apóstolos representam pouco mais do que um quarto do volume total do Novo Testamento. Significa que Lucas contribuiu  para o conjunto do Novo Testamento com mais material, do que qualquer outro autor, e, que o Evangelho de Lucas juntamente com Atos dos Apóstolos tem mais material do que as epístolas de Paulo.

João, o único discípulo que não foi executado pelos adversários, residiu em Éfeso até sua desencarnação – já nonagenário -, no início do Século II. Na sua longa existência, João conviveu com Paulo que, em uma de suas viagens passou três anos em Éfeso e depois deu atribuições a Timóteo e Tito para atuarem cidade.2 Teve contatos com cristãos pioneiros de várias partes e que receberam sua influência e são incluídos na chamada patrística, ou seja, a filosofia cristã dos primeiros séculos, elaborada pelos chamados “pais da igreja”. Conheceu também as dificuldades e as influências negativas que eram vividas pelos primeiros grupos cristãos.1,2,3

O estudioso bíblico Norman R. Champlin cita o líder reformista do século XVI: “Lutero costumava dizer que se pudéssemos preservar somente o evangelho de João e a Epístola aos Romanos, o cristianismo seria salvo.”3

No romance histórico 50 anos depois Emmanuel registra uma observação significativa: “Paulo e João nos revelaram o Cristo Divino, Filho do Deus Vivo, na sua sublimada missão universalista, a redimir o mundo.”4


Referências:

  1. Silva, Severino Celestino.Comunidades do Caminho. História do Cristianismo Nascente.1.ed. Cap. 20,22,23. João Pessoa: Ideia, 2014.
  2. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do espiritismo. 1.ed.
  3. Champlin, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. Vol. 1, 2, 3. São Paulo: Hagnos, 2014.
  4. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. 50 anos depois. 1.e.esp. 1ª. parte, cap.VI. Rio de Janeiro: FEB. 2002.

(*) – Síntese do artigo: Carvalho, Antonio Cesar Perri. João em prosa e verso. Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCII, n.1. Fevereiro de 2017.

Casa Espírita x Consultório

Vladimir Alexei

Com o habitual respeito aos pensamentos diferentes, pedimos licença para iniciar novo debate sem a pretensão de esgotar o assunto. O objetivo é tão somente refletir em torno de um tema que tem incomodado alguns espíritas pela tenuidade entre atividades da Casa Espírita e aquilo que alguns palestrantes têm feito ao usarem a tribuna espírita.

É oportuno frisar que, ao compreendermos que somos seres em franco progresso espiritual, ainda que esse progresso seja quase imperceptível, como asseveram os espíritos na Codificação, toda discussão no campo das ideias fortalecem a dialética espírita e ficam no campo das ideias, não sendo endereçada a pessoa em específico.

Emmanuel define a mente como o “Espelho da Vida em toda parte”. Herculano Pires, o metro que melhor mediu Kardec (nos dizeres de Emmanuel) define a Casa Espírita como um “espelho côncavo em que todas as atividades doutrinárias se refletem e se unem, projetando-se conjugadas no plano social geral, espírita e não espírita.” Esse pensamento de Herculano é convergente com o projeto do Codificador.

Allan Kardec em seu Projeto 1868, discorre, dentre outros tópicos, a respeito da necessidade de se existir um estabelecimento central para o estudo do Espiritismo. Esse estabelecimento seria para o estudo e a propagação doEspiritismo. Mais adiante, comenta o Codificador que dois ou três meses do ano seriam consagrados a visitas aos diversos centros para imprimir-lhes uma boa direção. Quer dizer: as viagens para aprimorar o conhecimento e falar a respeito da doutrina já foram previamente pensadas por Kardec.

Por mais claro que seja o pensamento do Codificador, nestes 160 anos em que comemoramos o surgimento da Doutrina Espírita com a publicação de O Livro dos Espíritos, parece que nos vemos às voltas com algumas polêmicas que nem deveriam existir. A tribuna espírita serve para que oradores, expositores, palestrantes transmitam os ensinamentos doutrinários. Entretanto, nestes 160 anos, falamos a respeito dos mesmos temas, com ênfases diferentes e no presente a ênfase tem sido muito mais em aspectos psicológicos, adstritos a diagnósticos que mais funcionam como rótulos do que esclarecimento à luz de uma ciência. Quase a extensão de um consultório.

Resgatamos publicação de Leopoldo Cirne de 1921 (“Doutrina e Prática do Espiritismo I e II), em seu volume segundo, página 255, dizendo que “OCristianismo (…) em sua primitiva fase como em seu ressurgimento com o Espiritismo, não veio instituir moldes excêntricos para os que nele se iniciam, senão formar nos homens uma consciência nova (…).” Continua na página 259 em outros termos: “Induzidos a ser esse Evangelho vivo, em sua ação modificadora sobre os costumes e a vida social, tem que antes de tudo praticar entre si os preceitos da doutrina (…).” Em outras palavras Leopoldo Cirne já advertia para a importância do que deveria ser propagado em uma Casa Espírita: Evangelho e Doutrina Espírita.

Acontece, porém, que na atualidade, com todo o esforço e carinho possíveis empreendidos por estudiosos que fazem uso da palavra para propagar o Espiritismo, encontramos pensamentos alheios ao que preconiza a doutrina de forma a falar de quase tudo, menos de Espiritismo. Histórias bem construídas, exemplos riquíssimos pelo nível de detalhe que sensibilizam à lágrimas, mas pobres em caracteres doutrinários capazes de realizar o que Leopoldo Cirne, o Leon Denis brasileiro, alertou: modificação de costumes. Uma hipótese de que essa abordagem não tem sido suficiente é o consumo de antidepressivos e estabilizadores de humor entre espíritas. E não há aqui hipocrisia ou condenação. Existem casos e casos. Entretanto questiono, nessa reflexão: se fosse terapeuta, se precisasse de psicotrópico utilizaria ou apenas recomendaria o uso? Evidentemente que essa pergunta não faz o menor sentido dentro de uma Casa Espírita. Lá é lugar de estudar a Doutrina e Evangelho.

É fato que Allan Kardec no primeiro capítulo do livro “A Gênese”, item oito nos diz que o “Espiritismo, tendo por objeto o estudo de um dos elementos constitutivos do Universo (ou seja, elemento espiritual), toca na maior parte das ciências.” Isso já nos dizia o insigne José Marques Mesquita (pela USEERJ) em seu livreto “A relação entre a Psicologia e o Espiritismo”.  Mesquita continua dizendo-nos que, dentre as ciências em que o Espiritismo toca mais de perto se destaca a Psicologia, cujo sentido da palavra em sua origem grega significa “Ciência da Alma”.

Discorre ainda José Mesquita sobre a Psicologia Experimental, surgida na época em que o Espiritismo já estava maduro (1870). O citado autor faz um belo trabalho mostrando a evolução da Psicologia Experimental em suas vertentes comobehaviorismo, psicanálise, psicologia humanista, psicologia transpessoal (a vedete dos terapeutas espíritas por seu caráter transcendente aos limites da psicologia humanista). E em todo o trabalho o autor evidencia a coerência e a importância de se caminhar junto a Psicologia com o Espiritismo.

José Marques Mesquita, porém, nos dá uma aula de Espiritismo. Em uma de suas páginas finais (42) o autor diz: “a finalidade do Espiritismo é esclarecer o homem de todas as coisas, a fim de libertá-lo da ignorância sobre si mesmo e sobre o verdadeiro sentido de sua vida, que é o de se sua contínua evolução em direção à meta para o qual ele foi criado, que é a perfeição (…).” Soube, com muita sensibilidade, coordenar a ordem de importância nos estudos.

O Espiritismo como ciência que estuda a relação do espírito com o mundo material, a origem e o destino dos espíritos pode se valer de todas as ciências para explicar a toda a gente o quanto seus ensinamentos são profundos e transformadores. Para isso, Marques atribuiu o peso adequado: reconheceu a importância da Psicologia, assim como nós outros, porém, como acessório e não peça principal em uma Casa Espírita. A Psicologia, se usada de forma adequada, possui espaço transformador, quando seus esclarecimentos forem complementares ao que diz a Doutrina Espírita. Sem Doutrina Espírita e Evangelho, a Psicologia é mais uma ciência incompleta e imperfeita, na acepção científica do termo, por ignorar sua razão principal de existir: a alma (Espírito encarnado, segundo Kardec). Menos psicologismos em palestras e mais Doutrina Espírita com Evangelho do Cristo.

Mulher decidida pelo bem

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Oito de março é o “dia internacional da mulher”, proposta oriunda do final do Século XIX, nos EUA e na Europa, como luta feminina por melhores condições de vida, trabalho e direito de voto.

Na época, no Brasil, a maioria das mulheres exercia as atividades do lar, poucas estudavam e exerciam profissões.

Nesse cenário, se inicia em Araçatuba (SP) um labor liderado por uma mulher. Fato marcante é que a pioneira não era detentora de nenhuma facilidade ou “passaporte social” que assegurasse o sucesso de seu empreendimento.

Trata-se de Benedita Fernandes, descendente de escravos libertos e semi analfabeta, com o agravamento de que vitimada por obsessão espiritual foi considerada “louca”. Tratada por espíritas de Penápolis chegou em Araçatuba em meados dos anos 1920, trabalhando como lavadeira no Patrimônio de Dona Ida, hoje bairro Santana.

Fiel ao compromisso, quando curada, de trabalhar pelo bem e pelos pobres, com a colaboração de lavadeiras passou atender crianças abandonadas e doentes mentais. Nos seus atendimentos, como médium, Benedita conseguia acalmar os desequilibrados mentais e dava conforto a crianças. Iniciaram a construção de simples casinhas de madeira, para concretizar o sonho de fazer o bem.

Com os bons resultados obtidos e com o apoio de espíritas e pessoas da cidade, Benedita fundou no dia 6 de março de 1932 a Associação das Senhoras Cristãs – marco na cidade e região no campo da assistência social – surgindo o lar para crianças, Asilo para doentes mentais, albergue noturno, escola com apoio do Município, sempre no bairro Santana.

Benedita tornou-se uma referência no bem, contando com apoio dos espíritas, população em geral, Loja Maçônica Tupi, de lideranças políticas como Aureliano Valadão Furquim e Plácido Rocha.

Inclusive, familiares nossos – Perri e Marinelli – mantiveram contatos com Benedita.

Após seu falecimento em 1947, a Associação passou por adequações e momentos difíceis e com o tempo centralizou seus esforços no Sanatório, depois Hospital Benedita Fernandes. Com mais de 80 anos de funcionamento, em nossos dias, em atendimento a política governamental da área da saúde mental, passa por desativação e adequação em modalidades de Centro de Atenção Psicossocial e já está em funcionamento o CAPS-ad Benedita Fernandes, no mesmo bairro.

Na semana da mulher e também da fundação da Associação das Senhoras Cristãs, reverenciamos o vulto feminino de Araçatuba, vencedora de preconceitos e diversas dificuldades, um marco histórico do surgimento dos Hospitais Psiquiátricos no Estado de São Paulo.

Pela sua atuação – uma “dama da caridade” -, definimos o título de livro sobre Benedita, que lançamos no cinquentenário da Associação das Senhoras Cristãs (1982), e será brevemente reeditado de forma ampliada e atualizada.

Benedita Fernandes: uma mulher decidida pelo bem!

(*) Foi presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e da Federação Espírita Brasileira.

Bagagem

Richard Simonetti

           Bias, de Priene (século VI a.C.), um dos sete sábios da antiga Grécia, pontificava por elevados dotes intelectuais. Mais que isso: era íntegro e honesto. Jamais colocou seu talento e sua inteligência a serviço de interesses menos dignos. Diante de questões litigiosas, que exigiam um mediador sábio e justo, dizia-se:

           – É uma causa para o cidadão de Priene!

           Sua presença conciliatória serenava os ânimos e garantia o triunfo da verdade e da justiça.

           Quando Ciro II, o Grande (585-529 a.C.), ambicioso rei persa, iniciou suas guerras de conquista, estabelecendo um dos maiores impérios da antiguidade, as cidades gregas estavam em seu caminho.

           Em breve Priene foi sitiada. Instalou-se o pânico. Os moradores trataram de fugir. Em atabalhoado esforço, buscavam levar a maior quantidade possível de pertences. A confusão era enorme. Grande agitação, ânimos exaltados, choro, histeria coletiva…

           A exceção: Bias. Deixou a cidade tranquilamente, sem carregar nada. Os amigos estranharam.

           – E os seus bens?

           O filósofo sorriu, explicando:

           – Trago tudo comigo.

           Referia-se aos seus valiosos dotes de cultura, conhecimento e virtude. Em qualquer lugar, esses patrimônios inalienáveis lhe garantiriam subsistência honesta e digna.

                                                        ***

           Enfrentamos, na experiência humana, crises periódicas que exigem o resgate do passado ou testam as aquisições do presente.

Moléstia insidiosa.

Acidente inesperado.

Perda de um bem.

Demissão na atividade profissional.

Fracasso de um empreendimento.

Ruptura da ligação afetiva.

Defecção do amigo.

Morte do ente querido.

           Sitiados pela adversidade, somos chamados a deixar as posições em que nos acomodamos, à procura de caminhos novos que se desdobram a nossa frente.

           Detalhe importante: a crise é também um teste de avaliação. Revela nossa posição espiritual. Dependendo de nossas reações, podemos ser reprovados, com o compromisso de repetir estágios ou ganhar honrosa promoção.

           Reclamamos da sorte?

           Tropeçamos na inconformação?

           Caímos no desânimo?

           Mergulhamos no desajuste?

           Lamentável!

           Superficial é a nossa crença, frágil o nosso ânimo, precária a nossa estabilidade.

           Encaramos a adversidade com bom ânimo?

           Confiamos em Deus?

           Cultivamos a serenidade?

           Estamos dispostos a enfrentar o desafio?

           Ótimo!

           Demonstramos possuir um patrimônio de valiosas aquisições espirituais.

           E trazemos “tudo conosco”, a nos sustentar o equilíbrio e a paz, onde estivermos.

(Transcrito de: Notícias do Movimento Espírita – http://www.noticiasespiritas.com.br/2017/FEVEREIRO/20-02-2017.htm)

 

Cidade de São Paulo: homenagem ao apóstolo

Paulo e São Paulo

Antonio Cesar Perri de Carvalho

No livro Epístolas de Paulo à luz do Espiritismo destacamos que Emmanuel desenvolveu quase 1.400 capítulos sobre versículos do Novo Testamento (diversos livros e Editoras) e mais de um terço são referentes às epístolas de Paulo.1

Também comentamos a admiração de Emmanuel por Paulo, registrada em várias obras de Chico Xavier, a começar do notável depoimento em mensagem de 13/3/1940: “Lede as cartas de Paulo e meditai. O convertido de Damasco foi o agricultor humano que conseguiu aclimatar a flor divina do Evangelho sobre o mundo. Muitas vezes foi áspero. A terra não estava amanhada e se em alguns pontos oferecia leiras brandas e férteis, na maioria, era regiões em espinheiro e pedregulho. Paulo foi lidador de sol a sol. […] Conheci-o em Roma, nos seus dias de trabalho mais rude e de provações mais acerbas. Vi-o uma vez unicamente, quando um carro de Estado transportava o senador Públio Lentulus, ao longo da Porta Ápia, mas foi o bastante para nunca mais esquecê-lo. […] Trocamos algumas palavras que me deram a conhecer a sua inteireza de caráter e a grandeza de sua fé. O fato ocorria pouco depois da trágica desencarnação de Lívia e eu trazia o espírito atormentado. As palavras de Paulo eram firmes e consoladoras. […] Lede-o sempre e não vos arrependereis.”2

Em 3/8/1949, o espírito Neio Lucius, revela o acolhimento do senador após sua desencarnação (79 d.C.): 'É que também Paulo, na vida espiritual, jamais descansou. Quando o senador romano desencarnou, extremamente desiludido, em Pompéia, foi contemplado com os favores do sublime convertido. Paulo sempre se consagrou às grandes inteligências afastadas do Cristo, compreendendo-lhes as íntimas aflições e o menosprezo injusto de que se sentem objeto no mundo, ante os religiosos de todos os matizes, quase sempre especializados em regras de intolerância.”2

Herculano Pires comenta essa mensagem: “Amparado pelo Apóstolo dos Gentios, conseguiu Publius Lentulus transitar nas avenidas escuras da carne, em existências várias, até encontrar uma posição em que pudesse servir ao Divino Mestre com o valor e o heroísmo daquela que lhe fora companheira no início da Era Cristã. E assim temos em Manuel da Nóbrega o homem de raciocínio elevado, entregue a si mesmo em plena selva, onde tudo estava por fazer.”3

Na apresentação de Paulo e Estêvão, Emmanuel define: “Nosso escopo essencial não poderia ser apenas rememorar passagens sublimes dos tempos apostólicos, e sim apresentar, antes de tudo, a figura do cooperador fiel, na sua legitima feição de homem transformado por Jesus Cristo e atento ao divino ministério. […] Entre perseguições, enfermidades, apodos, zombarias, desilusões, deserções, pedradas, açoites e encarceramentos, Paulo de Tarso foi um homem intrépido e sincero, caminhando entre as sombras do mundo, ao encontro do Mestre que se fizera ouvir nas encruzilhadas da sua vida.”4

Na trajetória espiritual do senador romano há citações a Paulo e suas epístolas. Em 50 anos depois: “Paulo e João nos revelaram o Cristo Divino, Filho do Deus Vivo, na sua sublimada missão universalista, a redimir o mundo.”5 De Ave, Cristo!, transcrevemos: “Por muito tempo, ainda, o programa dos cristãos não se afastará das legendas do Apóstolo Paulo” e em outros momentos transcreve versículos de epístolas paulinas.”6 No romance Renúncia, em diálogo de Alcíone com Damiano, há referência à Epístola a Timóteo, citações de exemplos de Paulo e suas viagens.7

Paulo considerou Emmanuel: “o agricultor humano que conseguiu aclimatar a flor divina do Evangelho sobre o mundo”2; reconhecemos o autor espiritual como o principal exegeta do Novo Testamento à luz do Espiritismo!

Esclarecida a relação entre Emmanuel e Paulo de Tarso, lembramos que a cidade de São Paulo foi fundada no dia 25/1/1554 por Manuel da Nóbrega. A cidade e o Estado homenageiam o Apóstolo da Gentilidade, o que foi evocado por Chico Xavier na cerimônia pública e televisada da Câmara Municipal de São Paulo, no dia 19/5/1973, em que recebeu o título de “Cidadão Paulistano”. Em livro de Clóvis Tavares – amigo de Chico Xavier – e publicada com aprovação deste enquanto encarnado, esclarece-se que Nóbrega era uma das reencarnações do senador Lêntulus.

Registros históricos de conhecimento público anotam que Nóbrega, que atuava em São Vicente, subiu ao Planalto de Piratininga e resolveu fundar uma escola,  escolhendo o dia 25 de janeiro, data da tradição católica comemorativa da conversão do apóstolo Paulo. Anotou Neio Lúcius: "[…] Pelo amor profundo, devotado por ele à inesquecível figura de Paulo, poderá você concluir das razões que levaram o esforçado jesuíta a dar o nome do grande apóstolo à cidade que lhe mereceu especiais cuidados no lançamento, a ponto de esperar o aniversário da conversão do doutor de Tarso e, em janeiro, para iniciar os primórdios da grande metrópole brasileira, colocando-a sob a proteção do amigo da gentilidade."2

A cidade de São Paulo surgiu a partir de uma escola, homenageando o apóstolo da gentilidade, consolidando no seu desenvolvimento marcas significativas de educação, religiosidade e trabalho.

Herculano Pires comentou a relação entre Paulo e Nóbrega: “Dura foi a luta pela conversão do gentio. […] Paulo exerceu o apostolado dos gentios para o Cristianismo. Nóbrega foi o Apóstolo dos Gentios no Brasil nascente, preparando o terreno para o seu apostolado espírita do futuro.”3

Referências:

1. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do Espiritismo. Cap.1. Matão: O Clarim.

2. Tavares, Clóvis. Amor e sabedoria de Emmanuel. Cap.4 e 5. Araras: IDE.

3. Xavier, Francisco Cândido; Pires, José Herculano; Espíritos diversos. Diálogo dos vivos. Cap.23. São Bernardo do Campo: GEEM.

4. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Paulo e Estêvão. Breve notícia.  Brasília: FEB.

5. Idem. 50 anos depois. 1ª. parte, cap.VI. Brasília: FEB.

6. Idem. Ave cristo. Cap.1. Brasília: FEB.

7. Idem. Renúncia. Cap.3. Brasília: FEB.

(Extraído de: Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cidade de São Paulo: homenagem ao apóstolo. Correio Fraterno do ABC. Ano 50. N.473. Janeiro-fevereiro de 2017. P.8-9).

A interpretação espírita da Bíblia é feita de modo racional

José Reis Chaves

Há dois modos de interpretar a Bíblia: o literal e o metafórico. O literal é o mais usado pela Igreja, já o metafórico é mais comum entre as igrejas protestantes e evangélicas, o que tem provocado frequentemente interpretações muito polêmicas sobre os textos bíblicos. Daí a grande divisão das igrejas evangélicas, que existem hoje aos milhares.

De fato, a interpretação metafórica, às vezes, dá margem a entendimentos tão absurdos feitos por nossos irmãos evangélicos, que acabam tornando a Bíblia um livro descaracterizado com relação a sua mensagem de grandes verdades a respeito dos caminhos que levam a nossa salvação ou libertação. E com o surgimento da doutrina espírita, então, é que essas interpretações bíblicas metafóricas das igrejas evangélicas tomaram um rumo no qual, como se diz, acredite nele quem quiser! Realmente, interpretações descabidas metafóricas estão sendo feitas para tirar da Bíblia todas as suas passagens referentes à reencarnação e à mediunidade e, pois, ao contato com os espíritos.

Vejamos alguns exemplos de interpretações absurdas e que, inclusive, têm passado para os próprios textos de algumas bíblias evangélicas, com o que estão fazendo mais falsificações da Bíblia. Saul, por intermédio da médium de Endor, comunicou-se com o espírito do profeta Samuel já desencarnado. Os teólogos evangélicos, negando o que o texto bíblico diz claramente, têm a ousadia de falar que se trata de uma alegoria, e que não foi Samuel, mas o “diabo” que se manifestou a Saul enganando-o.

Caros leitores, deixamos que vocês mesmos concluam se é a Bíblia que diz a verdade ou se são os evangélicos que insistem em afirmar contra ela que é o “diabo” que falou com Samuel! Textualmente, afirma a passagem bíblica: “Samuel disse a Saul: Por que me inquietaste fazendo-me subir?” Essa verdade de que foi mesmo Samuel, e não o “diabo” que se comunicou com Saul está lá na Bíblia (1 Samuel 28: 15). E, então, com quem está a verdade, com os evangélicos ou com a Bíblia? Também, em outra parte dela, lemos: “Samuel, até depois de morto, profetizou” (Eclesiástico 46: 20). Ademais, tudo que o espírito de Samuel disse a Saul, no episódio acima citado, realizou-se.

Outra passagem bíblica que é uma pedra no sapato dos evangélicos é a da transfiguração de Jesus no monte Tabor. E não é bem essa transfiguração que é tão importante nesse fato, mas o contato envolvendo Jesus, Pedro, Tiago e João, de um lado, e do outro, os espíritos de Moisés e Elias, que viveram encarnados aqui na Terra, havia muitos séculos.

E eis mais um exemplo que é da Primeira Carta de João (João 4:1) falsamente interpretado de modo escandaloso por nossos irmãos evangélicos. João nos aconselha para examinarmos os espíritos (no plural), para sabermos se eles são bons (de Deus), ou maus (do mal), mas os evangélicos afirmam que João nos adverte para sabermos se o espírito é do próprio Deus ou do “diabo”. Perdoem-me a expressão “Vão ver tanto ‘diabo’ assim na China!”.

Com essas passagens bíblicas e outras, está provado que a Bíblia demonstra que existe a comunicação entre nós e os espíritos desencarnados, apesar de Moisés (não Deus), em Deuteronômio capítulo 18, a proibir. Aliás, se ele proíbe essa comunicação, conclui-se racionalmente que é porque ela existe mesmo!

Publicado originalmente em Coluna de O Tempo, BH, MG. 06/02/17.

Como está o atendimento em sua Casa Espírita?

Vladimir Alexei R. Rocha (MG)

É comum em cursos para iniciantes nos estudos doutrinários, expositores informarem categoricamente que a recepção da Casa Espírita é o seu “cartão de visitas”. Uma vez bem recebido, tudo fluirá naturalmente. E há verdade nessa afirmação. O carinho com que se é recebido em uma Casa Espírita faz toda a diferença. Sim! Lembramos do carinho e não da citação de capítulo ou versículo ou textos de obras doutrinárias. Entretanto, o voluntário da casa espírita é um cidadão comum (na maioria das vezes). E como o Brasil passa por uma crise aguda de qualidade na prestação de serviços em todos os seguimentos da Sociedade, como está o atendimento em sua Casa Espírita?

Os predicados para um bom atendimento na Casa Espírita não mudaram: fraternidade, paciência, atenção, respeito salpicados de amor fazem os corações combalidos que ali adentram, sentirem refrigério em suas almas. Nenhuma técnica, nenhum conhecimento intelectual substitui o amor. O amor é o alimento que sublima: o verdadeiro remédio para os males do presente. Assim sendo, entendemos ser necessário acima das técnicas, exercitar, colocar em prática o amor que se manifesta em todos nós de diferentes maneiras.

Como somos espíritos em evolução, progredindo lentamente, mas crescendo a cada reencarnação, em meio a diversidade que nos envolve, temos no amor a plataforma segura para um atendimento fraterno de qualidade. Estudar os muitos perfis, compreender os diversos comportamentos, como temos feito nos últimos anos nas casas espíritas, suscitou outra reflexão: o resultado não tem sido eficaz. É atribuído a C.G.Jung a frase que sintetiza o que desejamos passar: “conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana seja apenas outra alma humana”. No afã de auxiliar, aqueles que nos antecederam e que foram lideranças positivas no Movimento Espírita, trouxeram técnicas e procedimentos de diagnósticos psicológicos e até psicanalíticos para as casas espíritas e houve um “boom” de melhoria no diagnóstico e na identificação do perfil daqueles que adentravam as casas espíritas. Mas parou por aí.

Com o passar do tempo, percebe-se, na atualidade, que os ensinamentos eram ferramentas poderosas para que o educando pudesse ampliar seus recursos cognitivos, aprender mais na relação com o próximo. Mas, como o “canto da sereia”, fomos seduzidos por uma linguagem amistosa, coerente e que fortalecia o atendente da casa espírita para saber que, quando chega alguém com distúrbios emocionais, do tipo nervoso ou com tendências ao autocídio, a maneira de abordar seria diferente daquele que busca a casa espírita para resgatar dos escaninhos da própria alma a conexão com o Evangelho do Cristo. O trabalho dos pioneiros é sério e digno do nosso maior respeito, entretanto, me parece que ligamos o botão do “piloto automático”: os cursos nas casas espíritas ensinam “mais do mesmo”; são sempre os mesmos tarefeiros a ministrarem os treinamentos e são sempre os mesmos frequentadores a percorrerem todos os treinamentos. Alguns vão à casa espírita todos os dias, fazem todos os cursos, participam de todas as atividades, todos os dias e são excelentes companheiros, mas nenhum dirigente os aborda para entender o que ele vive. Porque há, em todo excesso, algo errado. Mas faltam trabalhadores nas casas espíritas!!! Claro que faltam!! Quais os incentivos para se frequentar uma casa espírita? Um dirigente narcisista? Um médium missionário? Regimentos militares? Misticismo?

O atendimento das casas espíritas, reflete o que vive cada casa com suas respectivas lideranças. Alguns maquiam o atendimento com técnicas, instruindo os voluntários a plantarem um sorriso amarelo quando chega alguém, todavia, com o passar do tempo percebe-se, pela mesmice, tratar-se apenas de marketing mal direcionado. Um dia falaremos sobre o marketing porque tem muita gente que não tem a menor ideia do que seja, mas lê algo na internet ou redes sociais e sai reproduzindo sem conhecimento. É a ansiedade do brasileiro de “adequar” métodos e técnicas desprezando a essência…

Como fazer então? A resposta final não é nossa. Um caminho indicado há dois mil anos por Jesus continua em franca ascensão: simplicidade. O último degrau da sofisticação. O que nos conecta com os valores morais superiores da Vida é o Evangelho à luz da Doutrina Espírita. Sem viver os ensinamentos do Evangelho as casas espíritas serão mais uma agremiação religiosa fadada ao fracasso em sua missão de  educar e consolar corações.

A propagação do Evangelho a partir do exemplo e do papel das suas lideranças é fundamental para o sucesso. Exemplo da liderança, perseverança na divulgação e fraternidade são temperos para que o consolo e a educação sejam estampados em letreiros luminosos nas recepções das nossas casas espíritas, indicando que ali há, com todas as dificuldades porque passam seus integrantes, a certeza na grandeza do porvir e no amor do Cristo! Mobilizemos nossos tarefeiros estimulando-os ao estudo contínuo, mas principalmente à fraternidade entre eles. Que haja mais interação entre os colaboradores. Que se conheçam mais, que convivam mais, além dos portais da casa espírita. Assim agindo, fortaleceremos os laços que nos unem como Verdadeiros Cristãos.

Paz e alegria a todos!

Casas e Causa

Antonio Cesar Perri de Carvalho

 

No Movimento Espírita é natural que exista a preocupação com a existência de sedes das instituições e, se possível, que sejam próprias.

Nessas sedes se desenvolvem as atividades em geral e, no contexto atual, é desejável que elas ofereçam conforto e boa aparência sem, no entanto, resvalar na grandiosidade e no luxo. Evidentemente que devem ser adequadas ao cumprimento de suas finalidades e também ao meio onde foram edificadas.

A propósito, Emmanuel assim define o Centro Espírita:

“Um centro espírita é uma escola onde podemos aprender e ensinar, plantar o bem e recolher-lhe as graças, aprimorar-nos e aperfeiçoar os outros, na senda eterna.”1

E André Luiz sugere sobre as condições físicas:

“O recinto das reuniões pede limpeza e simplicidade”.2

A análise histórica poderá ser boa conselheira no sentido de se verificar o que ocorreu com os movimentos religiosos que se fundamentaram nas edificações materiais e na estrutura organizacional.

Com base em Paulo – “Temos um altar”3 – Emmanuel comenta sobre o “Altar íntimo”: 

“Até agora, construímos altares em toda parte, reverenciando o Mestre e Senhor. […] Materializado o monumento da fé, ajoelhamo-nos em atitude de prece e procuramos a inspiração divina. […] Apresentemos, portanto, ao Senhor as nossas oferendas e sacrifícios em quotas abençoadas de amor ao próximo, adorando-o, através do altar do coração, e prossigamos no trabalho que nos cabe realizar.”4 
Sobre o assunto, também merecem atenção as sedes de Órgãos e de Entidades Federativas, que têm a tarefa de dinamizar a união e a unificação. 

O documento de trabalho Orientação aos Órgãos de Unificação, aprovado pelo Conselho Federativo Nacional da FEB, define conceitos relacionados com o tema, como as ações de Entidade Federativa como Centro Espírita e campo experimental: 

“Em algumas condições a Entidade Federativa pode executar ações chamadas de campo experimental. O campo experimental, agregado à própria Entidade Federativa, ou a um ou mais Centros Espíritas por ela designados, deve ser entendido como um local onde estão sendo implementados projetos, pesquisas e programas de estudo e de prática, inclusive com o objetivo de avaliá-los e convalidá-los. Historicamente, a Entidade Federativa pode ter se estruturado em um Centro Espírita e este pode ter mantido suas atividades, que não devem ser confundidas com as de campo experimental. A estrutura e as atividades que caracterizam um Centro Espírita devem atender às recomendações de Orientação ao Centro Espírita. A Entidade Federativa que mantém campo experimental ou um Centro Espírita deve priorizar suas atividades federativas, de forma coerente com seus estatutos. O campo experimental ou o Centro Espírita podem colaborar com a formação de equipes de trabalho para as atividades federativas, nas quais deve-se privilegiar a participação representativa e as experiências bem sucedidas de todo o território de abrangência da Federativa.”5

A sede física de um Órgão deve ser entendida como um ponto de referência. Na realidade, deve-se trabalhar com o conceito ampliado de sede – estendida –, e relacionada com a seara espírita e a comunidade em que se inserem.

“Entende-se por atividade federativa as ações que visem a difusão da Doutrina Espírita, a união fraterna entre as instituições espíritas e os espíritas, bem como o apoio aos Centros Espíritas, propiciando o trabalho em equipe e a preparação de trabalhadores. As ações devem ser implementadas pela Entidade Federativa e seus órgãos, em todo o território de sua abrangência.”5

As sedes devem ser entendidas como postos de trabalho, prioritariamente voltadas para a preparação de trabalhadores espíritas. O foco de atenção dos trabalhadores e o público-alvo não devem estar circunscritos a trabalhos internos, ou seja, às atividades intramuros. A ação envolve toda a área de abrangência do Órgão ou da Federativa. 

O desenvolvimento de atividades com base em objetivos bem definidos enseja condições para o planejamento consubstanciado em prioridades. A execução do plano de trabalho da instituição é fim, enquanto a sede e as necessárias estruturas organizacionais são meios. A edificação física e a organização administrativa são importantes, mas a dinamização das atividades-fim são indispensáveis, para que “prossigamos no trabalho que nos cabe realizar”.

As soluções para os problemas administrativos, inclusive das sedes das instituições, e as recomendações para as suas atividades “devem ter como parâmetro o que é simples e viável para a maioria das instituições”6 brasileiras, pois urge a difusão dos princípios espíritas em todas as faixas sociais, até mesmo favorecendo o acolhimento dos simples no Movimento Espírita.7

A transição para a Nova Era já se inicia e o Espiritismo deve “cumprir seu papel – de consolo, apoio, esclarecimento e contribuição para a libertação espiritual”.7

A Causa é mais importante do que a Casa!

 
Referências
1) XAVIER, Francisco C. O centro espírita. Pelo Espírito Emmanuel. In: Reformador, ano 59, n. 1, p. 9(5), jan. 1951.

2) XAVIER, Francisco C.; VIEIRA, Waldo. Desobsessão. Pelo Espírito André Luiz. 5. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap. 10.

3) HEBREUS, 13:10.

4) XAVIER, Francisco C. Fonte viva. Pelo Espírito Emmanuel. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap. 93.

5) CARVALHO, Antonio Cesar Perri de (Organizador). Orientação aos órgãos de unificação. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap. 8, it. 3.1, subit. Conceituações, p. 91-92.

6) União com fidelidade, simplicidade e fraternidade. In: Reformador, ano 129, n. 2.185, p. 29(147)-31(149), abr. 2011.

7) Acolhimento dos simples. In: Reformador, ano 129, n. 2.183, p. 22(60)-24(62), fev. 2011.

 

Extraído de: Carvalho, Antonio Cesar Perri. Casas e causa. Reformador. Ano 129. N.2.186. Maio de 2011. P. 186-187.

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Livro "Centro Espírita. Prática espírita e cristã", do mesmo autor, Ed. USE-SP, 2016.