Juventude espírita: antecedentes históricos e primeiros tempos

Juventude-RIE

As iniciativas pioneiras do movimento jovem, que conquistou expressão e abrangência nacional.

Antonio Cesar Perri de Carvalho

De tempos imemoriais há registros de ações e admoestações vinculadas à etapa juvenil assinalados por filósofos, historiadores e evangelistas. 1

Entre os apóstolos diretos e indiretos do Cristo havia jovens, como João, o evangelista, como também relacionados com Paulo de Tarso. Um dos personagens que deu nome ao romance Paulo e Estêvão, este último foi o primeiro mártir do Cristianismo com aproximadamente com anos e atuava como expositor da Boa Nova. Em Portugal, o culto a “Santo” Estêvão encontra-se associado à festa dos rapazes nas aldeias de Trás-os-Montes, como uma “padroeiro”. João Marcos e Timóteo atuaram junto a Paulo, em momentos diferentes. Marcos veio a ser um dos evangelistas e o “apóstolo da gentilidade” dedicou duas de suas epístolas são dirigidas a Timóteo.

Na história da igreja, há vários jovens com atuação histórica, como Joana D’Arc e Luiz Gonzaga. Este último “santo” viveu apenas 23 anos e é considerado “padroeiro da juventude e dos estudantes”. Seu nome denomina muitas escolas católicas e o centro espírita fundado por Chico Xavier, em Pedro Leopoldo. Nos albores do “novo espiritualismo”, um médium começa a atuar com 18 anos, Andrew Jackson Davis, nos Estados Unidos, e descreve uma colônia espiritual -“Summerland” – com jovens.

No início da elaboração das obras da Codificação, Allan Kardec contou com médiuns jovens como Ruth Celine Japhet e as irmãs Caroline e Julie Baudin. Contemporâneos e seguidores de Kardec tiveram papel destacado desde a juventude: Camille Flammarion, Gabriel Delanne e Léon Denis. Nas primeiras décadas do Movimento Espírita brasileiro houve histórica atuação de jovens como o vice-presidente e presidente da FEB Leopoldo Cirne, Eurípedes Barsanulfo e Francisco Cândido Xavier.

Na mesma época em que o médium de Pedro Leopoldo, com 22 anos de idade, tinha sua obra Parnaso de Além Túmulo lançada pela FEB, surgiam as primeiras mocidades espíritas, em geral autônomas: 1930 – Mocidade Espírita de Bebedouro (SP); 1932 – União da Juventude Espírita do C. E. Maria de Nazaré, Santana, São Paulo (SP); 1932 – Sociedade de Moças “Pioneiras Sociais” – Presidente Soares (MG); 1933 – Mocidade Espírita de Araçatuba (SP); 1934 – Associação dos Moços Espíritas de Santos (SP); 1936 – Juventude Espírita Amaral Ornellas, Rio de Janeiro (RJ); 1936 – Mocidade Espírita de Nova Iguaçu (RJ); 1937 – União das Mocidades Espíritas de São Paulo (UMESP), São Paulo (SP); 1937 – Mocidade Espírita Bezerra de Menezes, de Três Rios (RJ); 1940 – União da Mocidade Espírita de Uberaba (MG).2,3,4,5

 Em nossa terra natal – Araçatuba (SP) – na passagem dos anos 1930/40, Ivan de Albuquerque viveu uma parte de sua juventude e manteve amizade com familiares nossos. Lá fundou um núcleo juvenil no Centro Espírita “Cairbar Schutel”.

Na década de 1940 surge o profícuo trabalho de Leopoldo Machado com a chama “Cruzada do Espiritismo de Vivos”, tendo como propostas: abertura dos Centros Espíritas para a sociedade; criação de Mocidades Espíritas e de Escolas de Moral Cristã. Nesse período foram criados: a União das Juventudes Espíritas do Distrito Federal (31/8/1947), formada por 11 Mocidades Espíritas do Rio de Janeiro; a Mocidade Espírita Cairbar Schutel, de Matão- SP (16/09/1947); o Conselho Consultivo de Mocidades Espíritas do Brasil (24/7/1948). Este último relacionado com o 1º. Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil (17 a 25/7/1948) efetivado na cidade do Rio de Janeiro, liderado pelo incansável líder Leopoldo Machado.

O ano de 1948 registra importantes fatos: surgiu a Concentração de Mocidades Espíritas do Brasil Central e Estado de São Paulo – COMBESP, reunindo jovens de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e depois o Distrito Federal (Brasília). Este certame foi um celeiro de formação de expositores e lideranças.2,3 Entre outubro e novembro, o Congresso Brasileiro de Unificação, em São Paulo, contando com adesão de lideranças adultas e jovens de Estados do Sul e do Sudeste do país. Os dois últimos eventos alimentaram propostas que geraram o “Pacto Áureo”, assinado com a FEB, em 1949, quando foi criado o Conselho Federativo Nacional da FEB.3 Logo depois houve o Ato de Unificação das Mocidades Espíritas do Brasil (13/11/1949). Em decorrência, esta data foi comemorada durante muitos anos como o “dia do moço espírita”, e, a criação do Departamento de Juventude da FEB (2/12/1949). Em janeiro de 1950 nasceu o jornal Brasil Espírita, de responsabilidade desse Departamento da FEB.

Em 1956, surgiu o primeiro evento regional do Estado de São Paulo, a “Concentração de Mocidades Espíritas da Noroeste do Estado de São Paulo” (COMENOESP), e logo depois das regiões Nordeste, Leste e Capital do mesmo Estado. Sob os auspícios dos Conselhos Regionais da região do Triângulo Mineiro surgiu em 1964 a COMETRIM – Confraternização de Mocidades Espíritas do Triângulo Mineiro.6 Depois, por sugestão de Chico Xavier passou incluir também os adultos e inclui mais um “M” na sigla: “[…] acreditamos que as reuniões e confraternizações de Mocidades Espíritas – que a nosso ver deveriam ser também acompanhadas de reuniões e confraternizações de adultos espíritas, é trabalho de muito valor…”7. Pouco antes, o CFN da FEB, em eventos regionais iniciava a discussão sobre temas do Movimento Espírita. Em 1962, o Simpósio Centro-Sulino, realizado em Curitiba, aprovou deliberações significativas para as Mocidades Espíritas.8,9 Com base neste documento recomendou-se a suspensão da COMBESP, encerrada na mesma cidade onde surgiu: Barretos (SP), em 1966, estimulando-se a promoção de eventos estaduais, pelas Entidades Federativas Estaduais. Outra recomendação é que as Mocidades e Juventudes Espíritas se transformassem ou fossem criadas como departamentos de centros espíritas.  Durante muito tempo poucos conclaves foram concretizados neste novo modelo, como a Confraternização de Mocidades e Juventudes Espíritas do Estado de São Paulo, iniciada em 19673 e mantida até nossos dias. Os eventos estaduais surgiram após as recomendações do 1º. Simpósio Centro Sulino, promovido pelo CFN da FEB, no ano de 1962, e houve a cessação das COMBESPs. Assim surgiu, por exemplo, a 1ª. Confraternização de Mocidades e Juventudes Espíritas do Estado de São Paulo (1967).

O entusiasmo juvenil gerou a formação de grupos, inicialmente autônomos e depois como departamentos de instituições espíritas. O movimento jovem conquistou expressão, com abrangência nacional. Daí a razão da efetivação da 1ª. Confraternização de Mocidades e Juventudes Espíritas do Brasil – COMJEB, realizada em Marília (SP), em 1965, contando com o apoio da FEB10.

Ainda no final dos anos 1960, o Departamento de Mocidades da USE-SP promoveu Cursos Intensivos para a Preparação de Dirigentes de Mocidades Espíritas, liderado por equipes principalmente das cidades de Lins e de Bauru.11

Como partícipe das ações jovens no Estado de São Paulo, nos anos 1960, vivemos momentos importantes e históricos relacionados com a juventude espírita do Estado de São Paulo e do país, e, fundamos a Mocidade Espírita Irma Ragazzi Martins, em Araçatuba, em 1964. Entre as lideranças que conhecemos na época, está Altivo Ferreira que atuou na juventude na passagem dos anos 1930/40 e durante a década de 1940, e que nos enriqueceu com algumas informações.5

Referências:

1) Perri de Carvalho, Antonio Cesar. Jovens no movimento espírita. Reformador. Ano 131, No.2.214, setembro de 2013, p. 326-328.

2) Perri de Carvalho, Antonio Cesar. Abordagem sobre a juventude. In: Autores diversos, Rumos para uma nova sociedade. São Paulo: Ed. USE. 1996. p.145-155.

3) Idem, Espiritismo e modernidade. São Paulo: Ed. USE. 1996. p.65-66.

4) Oliva Filho, Apolo. As realizações juvenis espíritas, Anuário Espírita 1967, Araras: IDE. p. 95-97.

5) Ferreira, Altivo. Registro de informações pessoais ao articulista, 2013.

6) Cometrim: uma experiência no campo da unificação. Anuário Espírita 1966. Araras: IDE. p. 148-151.

7) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Entrevistas. Araras: IDE, 1972. p.112-114.

8) 1º Simpósio Espírita Centro-Sulino. Unificação. Órgão da USE. Abril de 1963. p. 5-6.

9) Conselho Federativo Nacional. Reformador. Ano 80. No.9. Setembro de 1962. p.202.

10 ) I COMJEB – Acontecimento espírita do ano. Anuário Espírita 1967, Araras: IDE. p.172-175.

11) II Curso Intensivo para a Preparação de Dirigentes de Mocidades Espíritas  Anuário Espírita 1970, Araras: IDE. p.231.

Obs.: O autor solicita de quem os possuir, informações sobre dados dos anos 1930/1950.

Publicada na Revista Internacional de Espiritismo, edição de julho de 2015, p.310-312.

CHICO XAVIER E EVENTOS MARCANTES DE JULHO

Chico e Manoel Quintão-1938Chico Xavier e Manoel Quintão (1938)

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Na trajetória da vida de Chico Xavier, alguns eventos importantes transcorreram no mês de julho, e, principalmente no dia 8, todos na cidade de Pedro Leopoldo (MG).

Com dezessete anos de idade, recém conhecedor do Espiritismo, no dia 8 de julho de 1927, Chico Xavier fez sua primeira psicografia numa reunião pública do novel Centro Espírita Luiz Gonzaga. Atendendo a conselho da médium Carmem Pena Perácio dispôs-se a escrever e psicografou dezessete páginas assinadas por “um espírito amigo”.1

Cinco anos depois, depois do interesse e apoio de Inácio Bittencourt e de Manoel Quintão, a FEB lançou o primeiro livro mediúnico de Chico, no dia 8 de julho de 1932.1,2 Em entrevista, o médium destacou: “Não exagero afirmando que, dentre os amigos encarnados, devemos a Manoel Quintão o lançamento do Parnaso de além túmulo, em 1932”.1

No dia 8 de julho de 1941, o espírito Emmanuel conclui a elaboração de Paulo e Estêvão, assinando a apresentação do romance histórico.3 A obra foi psicografada ao longo de poucos meses, no ambiente simples e bucólico da Fazenda Modelo, em Pedro Leopoldo (MG). No ano seguinte, foi editada pela Federação Espírita Brasileira. Chico declarou que este romance e uma obra de Maria João de Deus foram as que mais o sensibilizaram durante a psicografia.1

Nos 10 anos iniciais de suas tarefas, Chico Xavier já se diferenciava e demonstrava características ímpares.

Em entrevista a Elias Barbosa, face à pergunta sobre “o método que Emmanuel tem seguido em seu desenvolvimento mediúnico”, Chico responde: “- Estudo e trabalho, com disciplina e dever cumprido”.1

As citadas efemérides nos ensejam reflexões sobre o importante período de consolidação dos labores mediúnicos de Chico Xavier nos ambientes simples da pequena cidade interiorana de Minas Gerais.

Repetimos que: “Em que pesem a importância e a significação do labor do médium ao longo de mais de sete décadas, as centenas de obras psicografadas, o reconhecimento e as homenagens de que foi e continua sendo alvo em nosso país, destacamos a concretude de seus exemplos de dedicação, simplicidade, humildade e amor ao próximo.”4

 

Fontes:

  1. Barbosa, Elias. No mundo de Chico Xavier. 2. ed. Araras: IDE. 1975. 166p.
  2. Xavier, Francisco Cândido. Parnaso de além túmulo. Palavras minhas. 19. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010. P. 31-36.
  3. Xavier, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. ed. esp. Rio de Janeiro: FEB, 2002, Cap. Breve notícia, p.8-9.
  4. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier – 13 anos depois. http://grupochicoxavier.com.br/chico-xavier-13-anos-depois/

Chico Xavier – 13 anos depois

ChicoXavier-13anos desencarnação

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A 30 de junho transcorrem 13 anos da desencarnação de Chico Xavier.

Passado esse período de tempo, tivemos oportunidade de refletir várias vezes sobre a vida e a obra do notável medianeiro.

Em nossa tela mental sempre repassam os tempos em que seus livros eram lançados e enviados como “novidades” pela Editora da FEB e a cada livro de Emmanuel e de André Luiz que chegava ao Grupo de Estudos – que apesar de nossa idade precoce, participávamos ativamente em Araçatuba (SP) -, havia a sensação de alegria e de expectativas. Mais à frente acompanhamos as históricas entrevistas na TV Tupi, em 1968 e a série dos “Pinga Fogo”.

Os exemplos que presenciamos e os diálogos com Chico, em visitas assíduas, durante mais de duas décadas nos marcaram profundamente. A leitura de suas obras mediúnicas, desde nossa adolescência e as releituras continuadas sempre ensejam momentos de novas descobertas ou compreensões aprofundadas.

Em nossas atuações em diversos níveis de abrangência na USE-SP, na FEB e no CEI procuramos estimular a difusão e o estudo das obras psicografadas por Chico Xavier, como apoio à compreensão das Obras Básicas de Allan Kardec.

Sempre repetimos que Chico Xavier é um “divisor de águas” no Movimento Espírita brasileiro.

Em que pesem a importância e a significação do labor do médium ao longo de mais de sete décadas, as centenas de obras psicografadas, o reconhecimento e as homenagens de que foi e continua sendo alvo em nosso país, destacamos a concretude de seus exemplos de dedicação, simplicidade, humildade e amor ao próximo.

Treze anos depois de sua liberação corpórea, a singeleza com que se colocava como um “cisco” continua a repercutir.

É oportuna a transcrição de trecho de entrevista quando foi homenageado pelo cinquentenário de suas atividades mediúnicas:

“Sou sempre um Chico Xavier lutando para criar um Chico Xavier renovado em Jesus e, pelo que vejo, está muito longe de aparecer como espero e preciso…” *

(*) – Perri de Carvalho. O homem e a obra. Ed. USE, 1997.

As 400.000 alterações da Bíblia e as suas abusivas interpretações

José Reis Chaves
Belo Horizonte, MG

 

Infelizmente, a Bíblia é uma das obras mais alteradas do mundo. Só Lutero retirou dela sete livros. E, atualmente, as suas alterações são, principalmente, para ocultar as verdades da reencarnação e do espiritismo nela encontradas com uma clareza meridiana. O americano Bart D. Ehrman, o maior biblista do mundo atual, diz, em “O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse?”, que ela tem cerca de 400.000 alterações, Prestígio Editora, Rio, (RJ), com selo da Ediouro Publicações. Acredite nesses adulteradores quem quiser! E nada ficará oculto!  (Mateus 10: 26).

    Jesus ensinou que, para chegarmos ao reino de Deus, nós temos que nascer “de novo” da água e do espírito (João 3: 3). Nascer “de novo” do espírito é mudança de vida para melhor ou evolução. E nascer “de novo” da água (líquido amniótico) é reencarnar. E o excelso Mestre até fez questão de reforçar a sua tese reencarnacionista dizendo: é necessário nascer “de novo” da carne, ou seja, nascer “de novo” dos pais. Ora, isso é “ipsis verbis” e “ipsis litteris” reencarnação. A prova disso é que os tradutores estão mudando a tradução da expressão “anothen” (“de novo”) para a “do Alto”, para ocultar a ideia da reencarnação. E isso porque os adversários dela estão assustados com o fato de, hoje, ¾ da população do mundo a aceitam, e, ainda, com o aval da Ciência não materialista! E por que, só agora, depois de 1.900 anos, querem mudar a tradução de “Anothen” (“de novo”) para a “do alto”? Isso demonstra o seu desespero para ocultarem a reencarnação.

   Também porque nossos irmãos pastores evangélicos que, em sua maioria, não sabem hebraico, grego e latim, e, consequentemente, não têm um melhor conhecimento da Bíblia, interpretam-na erradamente para seus fiéis.

  Assim, como se não bastassem as cerca 400.000 alterações da Bíblia, eles ensinam aos seus fiéis as mais absurdas interpretações dela, o que gera grandes confusões doutrinárias entre eles, levando-os a mudarem de igreja, a todo instante, como se muda de roupa!

  E os maiores adulteradores da Bíblia não são, pois, os seus tradutores, mas seus intérpretes. Realmente, há líderes religiosos que abusam escandalosa e desesperadamente das interpretações bíblicas, colocando-as absurdamente como contrárias à reencarnação e ao espiritismo, com medo de seus fiéis tornarem-se espíritas. E, então, inventam cada uma de arrepiar! Por exemplo, a Bíblia afirma que nós somos deuses e filhos do Altíssimo (João 10: 34; e Salmo 82: 6). Há um pastor que interpreta essas passagens assim: “A Bíblia se refere aos juízes.” Acontece que os homens que são juízes não deixam de continuar sendo deuses, e antes mesmo de serem juízes, já eram deuses como todos nós os somos!

  E, de fato, esses deuses de que fala a Bíblia são mesmo os espíritos humanos ou “daimones”, que podem ser bons ou maus e que se manifestam através dos médiuns. (Números 11: 24 a 30). Ora, se Moisés condenou o contato com os espíritos (Deuteronômio capítulo 18), é porque, certo ou errado, esse contato existe mesmo!

  Além disso, o próprio Jesus se comunicou com os espíritos de Moisés e Elias (Mateus 17: 3), na sessão espírita da Transfiguração!

 

(Texto recebido em email de José Reis Chaves. Transcrito do Boletim digital “Notícias do Movimento Espírita”, São Paulo, SP, segunda-feira, 22 de junho de 2015, Compiladas por Ismael Gobbo)

 

 

Partitura da vida

Ligia Nogueira

Por que tantas pessoas parecem não saber o que fazer?
Por que tantos se sentem sozinhos em meio à multidão?
Por que tantos não sabem o que querem?
E não ouvem dentro de si a canção?

A música veio preencher a pausa que havia no meu coração

Não há nada que me faça mais feliz que poder me libertar dessa prisão
De costumes que a sociedade nos impôs
Baseados numa ética sem razão

Escrevo na partitura da vida
Uma música que dure mil compassos
Em notas de um tema que não tem repetição
Repleta de contrastes surpreendentes
Que ninguém pode prever a duração

A música veio preencher a pausa que havia no meu coração

Eu queria uma fermata pra segurar mais tempo essa emoção
De sentir correr pelo meu sangue o desejo de não viver em vão
Embora os contratempos insistam em persistir
Eu ainda tenho tempo pra sentir a música que traz a pulsação

E embora haja muitas modulações
No fim todos nós temos que encontrar o tom
Deixar o sentimento dominante ressaltar
E fazer nascer uma nova canção

Procuro viver a vida em harmonia
Com uma escala de prioridades
Unindo o ritmo à melodia

A vida é como uma leitura à primeira vista
E às vezes nos esbarramos em algumas notas
E temos que voltar de onde paramos
Para corrigir as nossas faltas

O Nosso Regente Maior é sempre muito paciente
E nos aguarda pra cantar um hino envolvente
Que termina numa cadência perfeita
Com os sons da Sinfonia Eternidade

Ligia Nogueira, graduada em Canto Lírico pela Universidade de Brasília, Cantora do Madrigal e Professorada de Canto Coral da Escola de Música de Brasília. Colaboradora e voluntária de instituições espíritas e hospitais do Distrito Federal.

Campanha Comece pelo Começo

Campanha Comece pelo Começo-CFN

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A Campanha “Comece pelo Começo” tem por foco a valorização das obras da Codificação Espírita – de Allan Kardec, como indicação ao estudo e conhecimento da Doutrina Espírita: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese.

Historicamente, o lançamento original dessa campanha ocorreu em São Paulo, em 1972, pela USE na Capital, e, em 1975, pela USE Estadual.(1) A campanha foi idealizada por Merhy Seba. (2) Em nível nacional esta Campanha foi aprovada pelo CFN da FEB, em reunião de novembro de 2014.(3) Em maio do corrente, durante o 3º Encontro da Área de Comunicação Social Espírita do Conselho Federativo Nacional da FEB houve o lançamento da Campanha.

Numa época de proliferação de livros espíritas – e com a influência de vários modismos -, criando desfocagens na literatura básica e daquela a esta relacionada, e também pelo fato de muitos cursos se basearem em material apostilado, torna-se muito importante que os centros e o Movimento Espírita deem prioridade para a divulgação e o estímulo à leitura e ao estudo das Obras Básicas do Espiritismo.

Os espíritas, incluindo os neófitos, devem ser orientados para o manuseio e a leitura diretamente nos livros. Nas palestras públicas dos centros, deve-se criar o hábito e a orientação para os expositores, para citarem as obras de Allan Kardec. Nas ofertas de reuniões de estudos dos centros, torna-se indispensável a inclusão das Obras Básicas, orientando-se os estudos diretamente nelas, a partir de 2012. (3)

No histórico encontro inicial de Chico Xavier com o espírito Emmanuel, nos idos de 1931, esta Entidade alertou-o sobre a disciplina e para que sempre permanecesse fiel a Jesus e a Kardec. Nas reuniões públicas do referido médium, em Pedro Leopoldo e em Uberaba, as leituras para nortearem os estudos eram sempre O Livro dos Espíritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo.

 Evidente que não foi coincidência o fato do espírito Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, ter elaborado obras que especificamente homenagearam o Centenário da Codificação Espírita: Religião dos Espíritos, Seara dos Médiuns, Livro da Esperança, Justiça Divina.

Como espírito, Bezerra orienta para o estudo das obras do Codificador. Na mensagem “Unificação”, ele cita Kardec em sete parágrafos, como o trecho:

“[…] estabeleçamos em cada lugar, onde o nome do Espiritismo apareça por legenda de luz, um grupo de estudo, ainda que reduzido, da Obra Kardequiana, à luz do Cristo de Deus.”(4)

 

1)      Pela primeira vez assistimos exposição de Merhy Seba sobre o tema na II COMJESP (Marília, 1972).

2)      Informações – Merhy Seba: merhyseba@ig.com.br

3)      Durante nossa gestão na FEB.

4)      Mensagem recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier, em reunião da Comunhão Espírita Cristã, em 20/4/1963, em Uberaba, MG. Publicação em Orientação aos Órgãos de Unificação (FEB).

Obra “Paulo e Estêvão” – Origem e Objetivos

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O portentoso romance Paulo e Estêvão foi psicografado por Chico Xavier, numa etapa ainda inicial dos labores do médium, ou seja nos primeiros 10 anos de sua produção psicográfica.

A obra foi psicografada ao longo de poucos meses, no ambiente simples e bucólico da Fazenda Modelo, em Pedro Leopoldo (MG), sendo a apresentação redigida pelo autor espiritual Emmanuel no dia 8/7/1941. Um ano depois, foi editada pela Federação Espírita Brasileira.

Torna-se interessante estabelecer-se a relação entre o Autor Espiritual e Paulo. Em relato de 1940 Emmanuel relata o contato inicial entre ambos: “[…] Conheci-o, em Roma, nos seus dias de trabalho mais rude de provações mais acerbas. Vi-o uma vez unicamente, quando um carro de Estado transportava o senador Públio Lêntulus, ao longo da Porta Ápia, mas foi o bastante para nunca mais esquecê-lo. […] Trocamos algumas palavras que me deram a conhecer a sua inteireza de caráter e a grandeza  de sua fé. O fato ocorria pouco depois da trágica desencarnação de Lívia e eu trazia o espírito atormentado”. Amigo dos primeiros tempos de Pedro Leopoldo e autor de livro publicado com autorização de Chico Xavier, Clóvis Tavares comenta: “Conta-nos o Espírito de Néio Lúcio (o mesmo Cnéio Lucius do 50 Anos Depois) […], que o Apóstolo Paulo, no plano espiritual, sempre se dedicou a auxiliar ‘as grandes inteligências afastadas do Cristo, compreendendo-lhes as íntimas aflições e o menosprêzo injusto de que se sentem objeto no mundo […]. E foi com êsse sentimento de bondade e compreensão que o Espírito do Apóstolo da Gentilidade estendeu as bênçãos do seu auxílio ao culto senador romano, quando de sua desencarnação na tragédia de Pompéia, continuando a ampará-lo espiritualmente em suas posteriores existências terrenas”. “Emmanuel nunca mais o esqueceu […]. Na personalidade de Nóbrega, em homenagem ao convertido de Damasco, chega a adiar a inauguração do Colégio de Piratininga, a que dá o nome de São Paulo, para o dia da conversão do Apóstolo, que a Igreja comemora a 25 de janeiro” (2).

No romance histórico Renúncia há significativo diálogo entre Alcíone, a personagem central da obra, Jaques Davenport, e outros, em Paris: “— Sr. Jaques, gostaria me dissésseis qual o método aqui adotado para a leitura. […] — Lá na Espanha — explicou a jovem delicadamente — líamos apenas um versículo de cada vez e esse mesmo, não raro, fornecia cabedal de exame e iluminação para outras noites de estudo. Chegamos à conclusão de que o Evangelho, em sua expressão total, é um vasto caminho ascensional, cujo fim não poderemos atingir, legitimamente, sem conhecimento e aplicação de todos os detalhes” (4). No diálogo, Alcíone também faz referência a Epístola de Paulo a Timóteo.

Este diálogo não é um fato isolado na obra de Emmanuel, pois nos nove livros em que o autor espiritual comenta versículos do Novo Testamento, a fonte predominante para sua inspiração são os Atos dos Apóstolos e as Epístolas de Paulo.

Estabelecida a relação entre o autor espiritual e o apóstolo, entendamos agora os objetivos para a elaboração de Paulo e Estêvão: “[…] para atingir os fins a que nos propomos, transferindo ao papel humano, com os recursos possíveis, alguma coisa das tradições do plano espiritual acerca dos trabalhos confiados ao grande amigo dos gentios. […] não é nosso propósito levantar apenas uma biografia romanceada. […] Nosso melhor e mais sincero desejo é recordar as lutas acerbas e os ásperos testemunhos de um coração extraordinário, que se levantou das lutas humanas para seguir os passos do Mestre, num esforço incessante” (3).

A homenagem a Estêvão – primeiro mártir do Cristianismo e vítima do outrora doutor da Lei Saulo -, também é esclarecida por Emmanuel: “Outra finalidade deste esforço humilde é reconhecer que o Apóstolo não poderia chegar a essa possibilidade, em ação isolada no mundo. Sem Estevão, não teríamos Paulo de Tarso. […] A contribuição de Estevão e de outras personagens desta história real vem confirmar a necessidade e a universalidade da lei de cooperação. […] sem cooperação, não poderia existir amor; e o amor é a força de Deus, que equilibra o Universo” (3).

Na época da publicação foram divulgados três artigos na revista Reformador, assinalando o lançamento da obra. Destacamos que na edição de julho de 1942, o articulista Alexandre Dias assinala: “as cenas e os cenários bem traçados, como a perfeita caracterização dos personagens, prendem a atenção do leitor…” (1)

O contexto singelo em que o romance foi produzido e o seu conteúdo sugerem reflexões, adequadas para a atualidade, sobre a simplicidade dos labores dos cristãos.

Referências:

1 DIAS, Alexandre. Paulo e Estêvão. Reformador. Ano 60, p. 164, jul.1942.

2. TAVARES, C. Amor e Sabedoria de Emmanuel. Cap.4.  São Paulo: Ed. Calvário, 1970.

3. XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. ed. esp. Rio de Janeiro: FEB, 2002, Cap. Breve notícia, p.8-9.

4. XAVIER, Francisco C. Renúncia. Pelo Espírito Emmanuel. ed. esp. Rio de Janeiro: FEB, 2002, 2ª. parte, Cap. 3, Testemunhos de fé, p.327-329.

As cartas do apóstolo Paulo

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Na obra histórica Paulo e Estêvão, Emmanuel detalha trechos de Atos e das Epístolas de Paulo. Como principal divulgador da mensagem do Mestre, fundou as chamadas igrejas cristãs (ecclesia - local de reunião, atualmente significando “igreja”) e elaborou as epístolas. Emmanuel relata que Paulo estava preocupado por não poder atender a todas as solicitações das igrejas nascentes. Em uma meditação noturna, recebe a seguinte orientação: "Não te atormentes com as necessidades do serviço. É natural que não possas assistir pessoalmente a todos, ao mesmo tempo […] Poderás resolver o problema escrevendo a todos os irmãos em meu nome; os de boa vontade saberão compreender, porque o valor da tarefa não está na presença pessoal do missionário, mas no conteúdo espiritual do seu verbo, da sua exemplificação e da sua vida. Doravante, Estêvão permanecerá mais aconchegado a ti, transmitindo-te meus pensamentos…” (1)

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A nova “esquina de pedra”

Antonio Cesar Perri de Carvalho

            O inolvidável Wallace Leal V.Rodrigues publicou em 1975 a portentosa obra A esquina de pedra. Fundamenta-se em textos de Job, dos Salmos e de Isaías, respectivamente, sobre a “pedra de esquina”, “a cabeça da esquina” e a “pedra preciosa de esquina”. Passa por Atos: “Esta é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina” (Atos, 4,11) e focaliza Pedro: “É uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados” (I Pedro, 2:6-8).

            O autor romancea ou se recorda de fatos que se passam no período do imperador Constantino, focalizando momentos em que ocorreram as descaracterizações do Cristianismo primitivo e puro, época de muitos sacrifícios de cristãos e tendo como pano de fundo a benquerença do romano Prisco e da cristã Galla, em Sebastes, na região da Capadócia. Depois de muitas enxertias na prática rotineira dos cultos, “uma divergência ameaça dividir a igreja […] a questão é esta: devemos considerar Jesus Cristo como um Deus que assumiu forma humana ou simplesmente como um homem que atingiu uma perfeição quase divina?” (1). Estavam às vésperas do Concílio de Nicéia: “Verás o Cristianismo desaparecer e ceder lugar a uma nova doutrina à qual denominarão Catolicismo” […] Mas um dia o Cristianismo se erguerá das cinzas” (2)  

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