Valorização da vida e o setembro amarelo

Valorização da vida e o setembro amarelo

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A certeza de que somos espíritos reencarnados e em processo de educação favorece a compreensão da oportunidade da vida corpórea e do cultivo dos valores espirituais. Em O livro dos espíritos já se definia: “Qual o primeiro de todos os direitos naturais do homem? – O de viver. Por isso é que ninguém tem o de atentar contra a vida de seu semelhante, nem de fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal” (questão 880).

Nos livros psicografados há inúmeros comentários sobre o tema assinados por milhares de espíritos, como André Luiz, sobre o valor da vida corpórea: “O corpo é o primeiro empréstimo recebido pelo Espírito trazido à carne” (Vieira, W. Conduta Espírita, cap. 34. FEB); e também “A reencarnação é o meio, a educação divina é o fim” (Xavier, F.C. Missionários da Luz, cap. 12. FEB). A partir dessas fundamentações espirituais, torna-se interessante considerarmos o que representa o Espírito nos contextos íntimo e social; o equilíbrio entre corpo/espírito e melhores condições de vida. Esta última também inclui, evidentemente, o respeito e a valorização da vida corpórea.

No livro Em Louvor à Vida (Ed. LEAL), que elaboramos em parceria com o médium Divaldo Pereira Franco, com base em textos espirituais de nosso tio Lourival Perri Chefaly, destacamos um trecho: “Saúde e doença – binômio do corpo e da mente – são conquistas do ser, que deve aprender e optar por aquela que melhor condiz com as aspirações evolutivas, desde que a harmonia ideal será alcançada, através do respeito à primeira ou mediante a vigência da segunda.” Evidentemente que aí se incluem as causas e a profilaxia dos vários problemas que caracterizam desrespeito à vida. Ou seja, as medidas preventivas para se evitar quaisquer formas de interrupção da vida, incluindo o suicídio, o aborto, a eutanásia, e, sendo sempre importante o diagnóstico médico precoce de doenças, evitando-se que elas sejam reconhecidas em situações tardias e danosas.

Em recente programa “Um olhar para a vida”, do Canal Eudes Veras, em parceria com Rede Amigo Espírita e Estação Dama da Caridade Benedita Fernandes (https://youtu.be/8PR4ESJkJ9E), citamos alguns exemplos de valorização da existência corpórea de vultos conhecidos. Benedita Fernandes, pioneira espírita em Araçatuba, ao ser liberada da chamada “loucura”, que era uma forte e persistente obsessão, superou-se e se transformou na conhecida “dama da caridade”, dedicando sua vida em favor do próximo. Chico Xavier desencarnou aos 92 anos de idade, e ao longo de sua existência aceitou e submeteu-se a vários tratamentos médicos, a cirurgias e os cuidados pós-enfarte. Divaldo Pereira Franco, aos 93 anos de idade, há pouco tempo exemplificou ao se submeter a delicada cirurgia de coluna vertebral para possibilitar a continuidade de seu trabalho de difusão do bem.

Por oportuno, no mês de Setembro, que é chamado de amarelo, a cor que lembra o Sol, verão, prosperidade, felicidade e desperta a criatividade, é interessante a utilização da temática no meio espírita.

Daí a importância dos estudos, palestras e seminários que possam chamar atenção para a defesa da vida, no sentido de se valorizar a existência corpórea e o processo de educação espiritual.

(Foi dirigente espírita em Araçatuba; presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e da Federação Espírita Brasileira).

 

Rede Amigo Espírita assinala uma façanha histórica

Rede Amigo Espírita assinala uma façanha histórica

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

A “Rede Amigo Espírita” (RAETV) produziu um marco histórico – autêntica façanha -, não apenas para o movimento espírita brasileiro, mas mundial. A RAETV, com apoio de Zook Comunicação, e várias parcerias de webTVs e webRádios e concretizou o maior evento on line, durante dois dias – 22 e 23 de agosto de 2020 -, e com um objetivo nobilíssimo: em homenagem aos 110 anos de nascimento de Chico Xavier, contando com a coordenação do incansável José Aparecido dos Santos.

Pela primeira vez, no movimento espírita, aconteceu um grande evento on line com acesso livre, totalmente gratuito, e voluntário com 24 horas de duração, intercalando palestras, bate papos e músicas, reunindo convidados especiais e com transmissão simultânea em diversos canais.

No final da noite do último dia do evento, dia 23 de agosto, havia um total de 408.036 visualizações referentes apenas à RAETV, sem contar as parcerias (somando-se: 320.200 Youtube 1 + 8.276 Youtube 2 + 74.600 Facebook + 4.960 instagram). No terceiro dia após o evento já se atingia 490 mil visualizações das mídias da RAETV. Inclusive as apresentações se encontram disponíveis no You Tube da Rede Amigo Espírita.

Os expositores convidados foram pessoas que se inspiram na vida e obra de Chico Xavier, e que estão levando a sua mensagem para a literatura, a arte, a ciência, o cinema, o teatro e a música.

Eis os palestrantes: Carlos Alberto Braga Costa, Rossandro Klinjey, Rafael Papa, Gustavo Gandolfi, Simão Pedro, Marcel Souto Maior, Saulo César, Wagner de Assis, Renato Pietro, Magali Bischoff, Célia Diniz, Wagner Paixão, Antonio Cesar Perri de Carvalho, Alberto Almeida, Décio Iandoli Jr., Suely Caldas Schubert, Heloísa Pires, Eliana Barbosa, Quincas Veloso, Aluízio Elias, André Trigueiro. Além de palestras, Marcel Souto Maior e Antonio Cesar Perri de Carvalho também integraram bate-papos. Atuações artísticas: Cacá Resende, Anatasha Mekena, Fábio Júnior, Evandro Olivah, Plínio Oliveira.

Conhecemos José Aparecido dos Santos há décadas, pois nossa cidade natal Araçatuba, onde atuamos no movimento espírita até 1989, é muito próxima de Auriflama onde nosso amigo milita em centro espírita, local onde surgiu a Rede Amigo Espírita.

Quando ele criou a RAETV, em fevereiro de 2009, de forma amadora e muito simples, ninguém poderia imaginar o desenvolvimento que teria. Na época residíamos em Brasília, mas começávamos a notar o crescimento da Rede, encontrando com José Aparecido em alguns eventos, fomos nos surpreendendo com o desenvolvimento da sua abrangência e acompanhamos o aparecimento de voluntários que faziam parceria, de várias partes do Brasil.

Precisamos assinalar que a RAETV surgiu de forma diferente, sem ser “a galinha dos ovos de ouro”, com a persistência desmedida e simpatia de seu fundador foi conquistando espaço no meio espírita. Muitos companheiros idealistas o auxiliaram no anonimato.

Em alguns momentos chegamos a testemunhar que algumas mídias o segregavam e criavam dificuldades para suas transmissões em eventos. No fundo, alguns gostariam de influenciar ou até exercer uma certa censura nos programas e convidados da RAETV. José Aparecido abriu espaços para inúmeros expositores e eventos, ao passo que a chamada mídia institucional, geralmente se vincula a linhas de pensamento de dirigentes que, nem sempre são representativos reais do movimento.

Mais recentemente que as chamadas redes sociais passaram a exercer, inclusive no meio espírita, uma veiculação mais independente e com diversidade. O Brasil, pela condição continental, amálgama de imigrações e natural variedade cultural, apresenta diversidade em todas áreas do conhecimento e de manifestações de seu povo.

Ao final do marcante evento “Amigo Espírita Chico Xavier”, os antigos colaboradores da RAETV fizeram uma homenagem surpresa a José Aparecido dos Santos, coordenador do histórico encontro virtual. Em seguida, Márcio Monteiro divulgou um vídeo de reconhecimento ao fundador da Rede.

De nossa parte também acrescentamos o nosso reconhecimento ao valoroso companheiro e a toda equipe de voluntários da Rede Amigo Espírita pela dedicação à difusão do Espiritismo e, especificamente, pelo bem sucedido evento alusivo a Chico Xavier!

(*) Foi dirigente espírita em Araçatuba; ex-presidente da USE-SP e da FEB; ex-membro da Comissão Executiva do CEI; atualmente colaborador de instituições em São Paulo.

O que Jesus requer de seus discípulos

O que Jesus requer de seus discípulos

Vladimir Alexei

A renúncia é uma virtude moral de suma importância para a evolução do espírito.

Para melhor entendimento sobre o tema, Vinicius, em sua obra “Em torno do Mestre”, caracteriza a renúncia como, coragem moral, disposição de ânimo, resistência às seduções do mundo, colocando acima de tudo “o ideal de justiça e amor”, legados pelo Cristo.

A coragem moral para enfrentar os desafios com dignidade, ante as investidas de pensamentos e sentimentos que eclodem, volta e meia, a partir de gatilhos mentais disparados no enfrentamento cotidiano. Aprende-se, exercitando o autoconhecimento, a compreender melhor o que são esses gatilhos em cada um de nós. Em seguida, sem receitas prontas, por meio de trabalho árduo de renúncia, dúvidas e dedicação, o indivíduo conseguirá analisar com mais calma e disposição para mudar aquilo que suscita sentimentos controversos e menos felizes. Disposição de ânimo para não sucumbir aos primeiros obstáculos. É comum o discípulo, diante das dificuldades, escolher caminhos menos pedregosos.

Entretanto, as tribulações da caminhada testam nossa resignação e firmeza diante do propósito de servir na Seara do Cristo. Serviço que não pede formação, cultura ou distingue religião, apenas ânimo decidido para levar conforto espiritual e esperança aos mais necessitados.

Resistência às seduções do mundo, talvez, dentre as demais virtudes, seja a menos compreendida. Não se trata de batalha armada contra inimigo declarado e sim, luta íntima em favor dos valores superiores da vida, diante de um adversário muito próximo, que transita ainda dentro de nós mesmos: a ignorância. Resistir aos ímpetos de instintos materiais é um passo importante que a razão nos convida a vivenciar.

Razão é a educação dos impulsos, a transformação dos instintos que causam inquietação na alma, pela serenidade progressiva que ilumina os passos daqueles que se esforçam por vencer a si mesmos. Tudo isso ocorrendo em conjunto, evolvendo ativamente os mais nobres valores de Justiça e Amor como aqueles trazidos pelo Cristo. Um passo de cada vez. Um dia de cada vez, continuamente, sempre para o Alto.

Belo Horizonte das Minas Gerais, 19 de agosto de 2020.

SIGNIFICADO RACIONAL DO QUE É ANJO NA BÍBLIA

SIGNIFICADO RACIONAL DO QUE É ANJO NA BÍBLIA

José Reis Chaves (*)

Anjos para cristãos e judeus é um assunto confuso. Vamos mostrar que os anjos são espíritos humanos de alto nível de evolução e, também, que tanto eles como os espíritos dos mortos bons ou maus se comunicam conosco segundo o espiritismo e a Bíblia.

Anjo em grego é “aggelos” e significa mensageiro, enviado e “office boy” do mundo espiritual para nós. E porque é do mundo espiritual, passou-se a entender que é enviado por Deus, mas não é diretamente por Deus, pois, Ele tem seus espíritos trabalhando no seu projeto (Hebreus 1: 14 e versículos seguintes). E todo enviado do mundo espiritual é espírito, mas nem todo espírito é enviado.

Os líderes protestantes e evangélicos evitam falar em anjos, exatamente porque anjos são espíritos. Aliás, eles não aceitam a doutrina católica dos anjos da guarda. E a Igreja tem também seus santos que são espíritos. E algumas correntes cristãs nem aceitam que os anjos têm livre-arbítrio.

A Bíblia ensina que os espíritos angélicos e humanos foram criados por Deus. A doutrina espírita, que é também uma ciência de observação estudada e comprovada, inclusive, por cientistas de Prêmio Nobel, é, pois, a que mais entende de espíritos. E ela diz também que os anjos foram criados por Deus. Mas, para ela, como vimos, por eles serem também espíritos humanos já muito evoluídos, eles podem ser também de outros mundos. E, como se sabe, existem graus de perfeição entre os espíritos já angélicos e os ainda humanos. Uns são mais elevados e outros menos. O mais importante é que são espíritos, que são inteligentes e que são, pois, seres diferentes dos materiais. E como todo ‘enviado’ do mundo espiritual é um espírito, é comum entende-se por ‘anjo’ um ‘espírito’, ao invés de ‘enviado’.

Vejamos uma passagem bíblica que nos mostra que anjo é mesmo espírito humano já bem evoluído. São Pedro estava preso e esperava-se que fosse degolado. Mas ele escapou da prisão com a ajuda de um anjo. E quando Pedro chegou ao portão da casa de Maria, mãe de João, cognominado Marcos, e a criada Rode, que foi abri-lo para ele, ficou assustada, pois imaginava que ele já estivesse morto. E, ao avisar aos donos da casa e visitantes que se tratava de Pedro, eles ficaram também assustados dizendo: “Deve ser o anjo dele”. (Atos 12: 15). E aqui temos duas provas robustas bíblicas aceitas pelos primeiros cristãos: a de que, para eles, anjo é mesmo um espírito humano; e a outra é a de que tanto os anjos como os espíritos dos mortos se comunicam conosco.

Aliás, quando Moisés (não Deus) proibiu o contato com os espíritos dos mortos é porque esse contato existe mesmo, pois ele não era doido de proibir o que não existe!

(*) Coluna no diário O TEMPO, de Belo Horizonte.

Blog: https://www.facebook.com/groups/1964680747152496/

A justiça, o Amor e a Verdade

A justiça, o Amor e a Verdade

Vladimir Alexei

É comum, nos apostilamentos em que se estuda ao longo de décadas no movimento espírita, tratar as “três revelações” como sendo um processo distinto, ou até mesmo evolutivo do pensamento humano e alguns mais ousados, diriam do pensamento do Cristo.

Assunto normalmente abordado nos estudos introdutórios, encerra aprendizado para todos os gostos e conhecimentos. A organização do conhecimento, seja ele em qual esfera for, passa por uma seleção de informações que serão priorizadas, em detrimento de outras. É natural que seja assim.

Um exemplo tratado por Edgar Morin (educador contemporâneo, nonagenário), é a passagem do geocentrismo (Ptolomeu) para o heliocentrismo (Copérnico). Os elementos de estudo (os planetas) foram os mesmos. A forma de abordagem é que mudou, ou, nos dizeres do educador, “a forma de ver o mundo mudou”.

Os exemplos existem aos montes, o que nos permite uma provocação filosófica: o que pretensos estudiosos do espiritismo chamam de “atualizar Kardec”, não seria mais indicado evoluir a maneira de enxergar os textos doutrinários, do que necessariamente modificá-los? Trazendo essa reflexão para o meio espírita, as “três revelações” podem ilustram essa proposta.

É consenso em cursos e palestras registrados pela rede mundial de computadores, que a Revelação trazida por Moisés simboliza a necessidade de se ter uma organização fundamentada em leis para uma melhor convivência social. Parte dessas leis foram obtidas por uma “mediunidade direta”: Moisés foi o intermediário para o Decálogo. Outras foram elaboradas pelo próprio Moisés (já que foi médium para receber o decálogo, nada impede que ele tenha sido médium inspirado para elaborar as demais leis, ainda que frágeis em termos de “justiça universal”).

Evidentemente que, como o conhecimento humano naquela época, algo em torno de dois mil e seiscentos anos antes de Cristo, era infinitamente menor do que hoje, o registro de tudo aquilo que era necessário para o aprendizado da humanidade ficou restrito a leis que foram interpretadas da maneira que deram conta. Isso explica os abusos e absurdos que as leias da época permitiam. O que, talvez, não justifique as barbaridades que vemos na atualidade, já que evoluímos em conhecimento e compreensão… Após séculos de incorreções nos processos evolutivos e de mudança das leis que regiam os homens, encarna Jesus, o Espírito mais puro que já esteve entre nós. Sua vinda é tão marcante que seus ensinamentos foram sintetizados em uma simples, porém, complexa palavra: Amor. Séculos após a manifestação do amor mais sublime que a Terra já teve na história (do Ocidente e do Oriente, ainda que a preferência de dois terços da humanidade esteja dividida entre outros mensageiros de menor envergadura espiritual, mas de profunda relevância naquilo que lhes cabia difundir e vivenciar), coube a Allan Kardec ser o fundador da doutrina que melhor conseguiu representar o Amor Divino, a Justiça Divina, por meio da Verdade Universal.

A verdade que conhecemos é relativa, assim como a justiça que aplicamos e o amor que vertemos. Embora haja evolução, nos encontramos em estágios diferentes nessa espiral: a justiça, em tempos de preconceito, racismo, homofobia é tão ou mais importante do que o amor que sublima os sentimentos mais puros que o indivíduo consegue expressar. A Justiça Divina, ainda que compreendida sob a limitação humana, quando colocada em prática aplaca ansiedades coletivas, abrindo caminhos para o trabalho conjunto. Essa talvez seja uma verdade relativa, ou fragmentos de uma verdade, fruto de um pensamento “complexo”, porque tudo está, de certa forma, conectado, entrelaçado, sem fronteiras delineadas.

Vivemos, nos dizeres de Morin, o “paradigma da simplificação”. Disjunção, abstração e redução tornaram-se sinônimos para explicar aquilo que é Revelado pelos Espíritos Superiores. Essa “necessidade” de simplificar torna o aprendizado empobrecido porque a convivência com a “dúvida”, o desgaste de horas afio tentando compreender o que seja “justiça”, “amor” e “verdade” abriu espaço para definições capengas, limitantes e deficitárias, transformando oportunidade de aprendizado em “necessidade de conhecer mais”. Assim, temos visto, no meio espírita, catedráticos em Espiritismo, profundos “registradores de informações doutrinárias”, verdadeiros “decoradores”, com muitas dificuldades de colocar em prática tudo aquilo que conhecem “de cor”.

O desafio de ser “justo” foi recortado, já que entendido, mas não praticado. O desejo de “amar” tornou-se longínquo porque o estudo resumido e simplificado evidencia mais a distância evolutiva de Jesus em relação a nossa, do que a grandeza do Seu gesto e a beleza da caminhada ascensional da humanidade para compreender melhor a ação de “Amar”. Com isso a “verdade” se restringiu a ser a “dona do pedaço”, ditando a “última palavra” de forma simplificada, reducionista e distante. O problema não está e nunca esteve na Doutrina Espírita e sim no “Espírita”. Estudar implica dor. Angústias de não conseguir compreender o que se deseja e necessita. É a dor do crescimento, da mudança, e não do sofrimento.

A Justiça, o Amor e a Verdade são iluminadas, quando o estudo é empreendido com os elementos de cada um desses princípios, de forma conjugada. Não mais a “justiça de Moises” e sim a “necessidade de ser Justo” hoje e para sempre; o Amor de Jesus, pelo “Amor com Jesus”, pois “Amor” é verbo, é ação; e a Verdade Universal, pela Verdade que o Espírita empreende para ser Justo e Amoroso em Viver. Já dissemos em outras abordagens: a audácia de pensar com independência, causa estranheza, leva a críticas ácidas, por vezes veladas, por uma simples razão: é mais fácil falar de amor, justiça e verdade, parecendo ser justo, amoroso e verdadeiro, quando, na realidade, ainda temos uma grande caminhada pela frente.

É isso que nos motiva: compreender melhor a Vida, sob a égide do Cristo e da Doutrina Espírita.

Belo Horizonte das Minas Gerais, 03 de agosto de 2020.

Pequenas notas sobre Kardec, Emmanuel e a transição planetária

Pequenas notas sobre Kardec, Emmanuel e a transição planetária 

André Ricardo de Souza (*)

Entre os livros elaborados por Allan Kardec a partir de reflexões dele e respostas dos espíritos consultados, a chamada transição planetária – conjunto de grandes mudanças neste nosso orbe – é abordada sobremaneira em A gênese.

Já entre as obras de Emmanuel, o mentor espiritual do principal médium da história do espiritismo: Francisco Cândido Xavier, esse tema tem destaque em A caminho da luz.

Neste modesto artigo, é enfocado em ambos os livros o atual período de grande mudança (transição) pelo qual o globo passa. Muito se fala no meio espírita sobre a passagem entre os mundos: 1) primitivo; 2) de provas e expiações: 3) de regeneração. No primeiro, correspondente à “infância da humanidade”, observa-se a ausência ainda de uma referência moral coletiva.

Do ponto de vista histórico e sociológico corresponde ao período politeísta em que a fidelidade a diversos deuses legitimava frequentes conflitos de morte entre vários indivíduos e grupos, sendo o assassinato e sua vingança do mesmo modo socialmente aceitos por todos os povos. A consolidação do monoteísmo judaico com Moisés e o decorrente imperativo divino de não matar – chamado no meio espírita de Primeira Revelação – inaugura um novo tempo histórico, a saída da tal “infância”. Com a vinda dos ensinamentos de Jesus – a Segunda Revelação -passamos da adolescência à condição adulta da humanidade, quando a responsabilização pelos equívocos é, naturalmente, maior.

Pois bem, no último capítulo do livro A gênese, intitulado “Os tempos são chegados”, Kardec afirma no item 5: “Essa fase que se elabora neste momento é o complemento necessário do estado precedente, como a idade viril é o complemento da juventude”. Reproduzindo mensagem do espírito Doutor Barry – o codificador espírita, faz revelar que tal período de transição começara quase um século antes da publicação daquela obra, mas, definitivamente, não mostra quando cessará. Em contrapartida, diz claramente como ele se dará, conforme os trechos que seguem:

“7. – Mas uma mudança tão radical quanto a que se elabora, não pode se cumprir sem comoção; há luta inevitável entre as ideias. Desse conflito nascerão forçosamente perturbações temporárias, até que o terreno seja diluído e o equilíbrio restabelecido. Será, pois, dessa luta de ideias que surgirão os graves acontecimentos anunciados, e não cataclismos, ou catástrofes puramente materiais (…) 14. – A Humanidade tornou-se adulta, tem novas necessidades, aspirações maiores, mais elevadas (…) É a um desses períodos de transformação, ou querendo-se, crescimento moral, que a Humanidade chegou. 20- (…) A geração que desaparece levará consigo os seus preconceitos e os seus erros; a geração que se levanta, banhada numa fonte mais depurada, imbuída de ideias mais sadias, imprimirá ao mundo o movimento ascensional no sentido do progresso moral, que deve marcar a nova fase da Humanidade (…) 27. – (…) Tendo chegado esse tempo, uma grande emigração se cumprirá entre aqueles que a habitam; aqueles que fazem o mal pelo mal, e que o sentimento do bem não toca, não sendo mais dignos da Terra transformada, dela serão excluídos (…) 28. – A época atual é de transição (grifo meu); os elementos das duas gerações se confundem. Colocados no ponto intermediário, assistimos à partida de uma e à chegada da outra (…) 33. – (…) É de se notar-se que, em todas as épocas da história, as grandes crises foram seguidas de uma era de progresso. 34- É um desses movimentos gerais que se opera neste momento, e que deve trazer o remanejamento da Humanidade.”

No livro A caminho da luz, Emmanuel faz um resumo sinteticamente comentado de toda a trajetória da Terra, desde sua formação geológica até a terceira década do século XX. Fazendo menção à Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914 e 1918, ele anuncia,no penúltimo capítulo,o acontecimento em breve do segundo grande conflito militar internacional que acabou por ocorrer na década seguinte. Na sequência, o mentor de Chico Xavier afirma:

“Então a Terra, como aquele mundo longínquo de Capela (sistema planetário de onde aqui vieram espíritos exilados quando estávamos ainda na fase primitiva, observação minha) ver-se-á livre das entidades endurecidas no mal”.

Daí se pode depreender que no pensamento de Emmanuel a transição ao mundo de regeneração terminaria após a Segunda Guerra Mundial, o que não se verificou de fato. Porém uma interpretação, a meu ver, mais sólida é a de que teria iniciado, a partir daquele grande conflito, o período em que espíritos muito endurecidos não mais têm permissão para reencarnar na Terra – condizentemente, portanto, com o postulado de Kardec – e que ainda está em curso. Em outras palavras, o término daquele terrível acontecimento no meio do século XX não é apontado por Emmanuel como o início da nova grande fase do nosso planeta, mas sim o início de um período que faz parte do processo de transição, marcado pela interdição reencarnatória de espíritos que tiverem aqui sua última oportunidade.

Além de anunciar a Segunda Guerra Mundial, Emmanuel também fez outra previsão certa quanto ao deslocamento do poder político-econômico e militar e também do papel civilizatório no mundo:

“(…) a superioridade europeia desaparecerá para sempre, como o Império Romano, entregando à América (entenda-se às Américas, observação minha) o fruto das suas experiências, com vistas à civilização do porvir”.

Intitulado “O espiritismo e as grandes transições”, o penúltimo capítulo de A caminho da luz, tal como o último de A gênese, não aponta quando a transição planetária terminará, porém faz uma expressiva revelação, mencionando uma “nova reunião da comunidade das potências angélicas do sistema solar, da qual Jesus é um dos membros divinos”. Lembrando-se que a reunião anterior desse tipo aconteceu antes da vinda do mestre divino. Sem haver documento escrito a respeito, parte dos espíritas acredita que essa reunião já ocorreu, mas seja como for, ela está ligada, de algum modo, ao término do período transitório para o mundo de regeneração, caracterizado pela maturidade humana, que, bem entendido, ainda não significará o fim de todos os males planetários.

(*) Professor da UFSCar, colaborador de Centro Espírita em Vila Nova Cachoeirinha, São Paulo.

Esperança, com ela, a fé se renova e a serenidade volta ao coração

Esperança, com ela, a fé se renova e a serenidade volta ao coração

“Em meio à pandemia da COVID-19, é natural que fiquemos ansiosos com o amanhã, mas convictos da misericórdia Divina, alimentamos a confiança no presente e no futuro, fazendo o que nos compete fazer aqui e agora.

A mensagem da Diretoria Executiva expressa a nossa confiança no presente e, sobretudo, no futuro, sejam eles quais forem. Deus não erra. Ele tem suas razões e seus métodos de agir. Confiemos, sempre. Assim pensando, estamos lançando mais uma edição de nosso jornal, na versão impressa e virtual, em plena pandemia – e, desta vez, o tema central é Caridade, em função do Dia da Caridade, que se comemora no Brasil, em 19 de Julho, desde 1966.”

Em sintonia com a temática da caridade, inserimos a biografia de São Vicente de Paulo (*), um dos expoentes da Codificação Espírita, cuja existência, no Séc. XVI, foi devotada a essa virtude e, no espaço Curiosidades históricas (*), dados sobre a Santa Irene, autora espiritual da prece de Cáritas, uma das preces mais apreciadas, em nosso meio espírita e também, por outras crenças.

[…] Vamos juntos esperançar, renovar a fé e dar as boas vindas à serenidade. Pense Nisso. Pense Agora.”

Merhy Seba

(Trechos transcritos de: Editorial do jornal Roteiro Espírita, órgão do Centro Espírita Meimei, Ribeirão Preto, julho-agosto de 2020, p.2).

(*) O autor se refere no Editorial a outras matérias desse jornal.

Federação do Espírito Santo oferece apoio emocional durante isolamento social

Federação do Espírito Santo oferece apoio emocional durante isolamento social

Matéria publicada na Folha on line (https://www.folhaonline.es/casas-espiritas-do-es-oferecem-amparo-psicologico-durante-pandemia/)

Durante o período de isolamento social em decorrência da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), muitas pessoas diagnosticadas com doenças psicológicas tiveram o quadro agravado e outras passaram a sofrer de depressão e ansiedade.

Pensando em um modo de continuar oferecendo amparo a essas pessoas apesar da suspensão das atividades presenciais, no dia 10 de maio, a Federação Espírita do Estado do Espírito Santo (FEEES) deu início ao atendimento fraterno online. O serviço é um canal de escuta, que conta com mais de 40 atendentes preparados para oferecer apoio, e não tem por objetivo substituir o atendimento psicológico ou psiquiátrico e sim complementá-lo.

Fabiano Santos, presidente da FEEES, conta que o atendimento fraterno já é oferecido pelas casas espíritas habitualmente mas, devido à pandemia, foi preciso adaptá-lo. “O serviço é uma das atividades da casa espírita, que tem por objetivo acolher aqueles que sofrem de alguma patologia, seja depressão, ansiedade, ou até aflições causadas por dificuldades financeiras ou problemas de saúde. E sabemos que, durante o período de isolamento social, o número de pessoas que sofrem com doenças mentais aumentou, então, com as casas fechadas, resolvemos criar o serviço online, porque não poderíamos deixar essas pessoas desamparadas em um momento tão difícil”. “Trata-se de um serviço complementar e não substitutivo”, explica Fabiano sobre o atendimento, que não tem o intuito de substituir o atendimento psicológico ou psiquiátrico.

A diretora da área de Atendimento Espiritual da FEEES, Rejane Lemos Teixeira do Nascimento, conta que, em sete semanas, o projeto já atende a 280 pessoas que residem não apenas no estado, como também em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e até em outros países, como França e Estados Unidos. “Antes de darmos início ao atendimento, fizemos uma pesquisa com as 112 casas espíritas do Espírito Santo e convidamos aqueles que trabalhavam há pelo menos dois anos com atendimento espiritual presencial para se tornar um atendente”, relata. Hoje, o atendimento conta com uma equipe de 41 atendentes preparados, que se organizam para disponibilizar o canal de escuta das 08h às 22h, todos os dias da semana. De acordo com Rejane, a maior parte dos atendidos têm entre 21 e 40 anos e buscam o serviço por conflitos de relacionamento, depressão, ansiedade ou ideação suicida.

Para esses casos, o atendimento fraterno conta com o suporte de profissionais no apoio emocional. A equipe de especialistas é composta por integrantes da Associação Médico-Espírita do Estado do Espírito Santo (AMEEES). Rejane esclarece ainda que o serviço pode ser acessado por pessoas de qualquer religiosidade. “Não há discriminação, cerca de 50% dos atendidos não são espíritas”.

Para uma sessão de atendimento fraterno, basta ligar para o número (27) 3300-5000 e aguardar na fila até ser encaminhado a um dos atendentes. O serviço é gratuito e tem como propósito acolher e amparar aqueles que precisam de alguém para ouvi-los. Telefone: (27) 3300-5000.

Misericórdia e reconciliação

Misericórdia e reconciliação

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Com a ênfase dada por Allan Kardec ao ensino moral, em “O Evangelho segundo o Espiritismo” torna-se possível aprofundarmos os ensinos de Jesus com base nos princípios espíritas. Uma diferença substancial entre o Antigo e o Novo Testamento é nova visão sobre Deus e sua justiça apresentada por Jesus, trazendo a bandeira da lei do amor.

O sermão da montanha é uma autêntica proclamação de bases para uma nova sociedade. Entre outras bem-aventuranças, um diferencial importante do Novo Testamento surge nas palavras:

“Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque obterão misericórdia” (Mateus, 5:7.), mais à frente corroborado pelo registro do evangelista: “Se perdoardes aos homens as faltas que cometerem contra vós, também vosso Pai celestial vos perdoará os pecados; mas, se não perdoardes aos homens quando vos tenham ofendido, vosso Pai celestial também não vos perdoará os pecados” (Mateus, 6:14 e 15.).

O Codificador prossegue no capítulo X da obra básica citada, transcrevendo também: “Se, portanto, quando fordes depor vossa oferenda no altar, vos lembrardes de que o vosso irmão tem qualquer coisa contra vós — deixai a vossa dádiva junto ao altar e ide, antes, reconciliar-vos com o vosso irmão; depois, então, voltai a oferecê-la” (Mateus, 5:23 e 24.).

Claramente ressaltam as propostas de misericórdia e de reconciliação, separando-as dos atos religiosos tradicionais, ritualísticos e formais. A propósito dessa proposta, Kardec anota “Jesus ensina que o sacrifício mais agradável ao Senhor é o que o homem faça do seu próprio ressentimento”.

Em rápidas pinceladas faremos algumas relações bibliográficas sobre o tema. Em síntese, o Codificador deixa claro no Capítulo XI:

“Quando as adotarem para regra de conduta e para base de suas instituições, os homens compreenderão a verdadeira fraternidade e farão que entre eles reinem a paz e a justiça. Não mais haverá ódios, nem dissensões, mas tão somente união, concórdia e benevolência mútua.”

Sobre essa proposta, muitas vezes de difícil praticização, também encontramos registros do apóstolo Paulo em sua 2ª Epístola aos Coríntios, que foi escrita reunindo recomendações em função dos choques de posturas entre os que tinham ideias judaizantes, outros intelectualizadas e os fieis seguidores dos ensinamentos de Jesus. Eis alguns versículos marcantes:

“3.3 Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração. […] 5.17 Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. […] 5.19 Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação. 5.20 De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus.”

Paulo deixa claro que não se trata de mero formalismo de perdão e de reconciliação, por isso enfatiza “tábuas de carne do coração” e a nova postura de “embaixadores da parte de Cristo”. A propósito das situações complexas que se vive no relacionamento entre as pessoas, na mesma Epístola, Paulo recomenda:

“4.8 Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. 4.9 Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos.” Essas lembranças de textos de Mateus, Paulo e Kardec podem servir de orientação e estímulo para refazimento de formas de relacionamento. Sem dúvida, não é fácil, um grande exercício de superação.

Todavia, encontramos em texto do espírito Batuíra um comentário muito real:

“Companheiros transfigurados em desafetos integram o quadro natural de nossas provas. Tenhamos coragem e suportemo-los. Decerto não será possível beijar-lhes as mãos quando se voltem contra nós, mas podemos orar por eles, tolerar-lhes as investidas, desculpar-lhes em pensamento os ataques e abençoá-los no silêncio de nossas reflexões”.

Referências:

1) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O evangelho segundo o espiritismo. Cap. X e XI. FEB.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do espiritismo. Cap. 6. Matão: O Clarim.

3) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Batuíra. Mais luz. Cap. Ante o futuro. São Bernardo do Campo: GEEM.

(Foi presidente da USE-SP e da FEB)

As epidemias e os espíritas – alguns registros históricos

As epidemias e os espíritas – alguns registros históricos

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

A Revista espírita do período de Allan Kardec é muito rica de matérias doutrinárias e informativas. O Codificador opinava sobre temas do momento.

Agora que convivemos com uma pandemia torna-se interessante transcrevermos trechos da matéria “O Espiritismo e o cólera”1, oportunidade que Kardec publica uma carta enviada por um advogado de Constantinopla:

"[…] Os jornais informaram o rigor com o qual o terrível flagelo vem de maltratar em nossa cidade e vizinhanças, tudo em atenuando suas devastações. Algumas pessoas, dizendo-se bem informadas, dão o número de coléricos falecidos em 70 mil,…”

Em mensagem espiritual há o comentário:

“Certamente, seria absurdo crer que a fé espírita seja um ‘brevet’ de garantia contra o cólera. Mas como está cientificamente reconhecido que o medo, enfraquecendo ao mesmo tempo o moral e o físico, torna mais impressionável e mais suscetível de ser atingido pelas moléstias contagiosas; é evidente que toda causa tendente a fortificar o moral é um preservativo.”

E também do espírito doutor Demeure:

“O melhor preservativo consiste nas precauções de higiene sabiamente recomendadas por todas as instruções dadas a respeito; estão acima de toda limpeza, o afastamento de toda causa de insalubridade e focos de infecção, a abstenção de todo excesso. Com isto deve evitar-se a mudança de hábitos alimentares, salvo para evitar as coisas debilitantes. É preciso igualmente evitar os resfriados, as transições bruscas de temperatura, e abster-se, a menos por necessidade absoluta, de toda medicação violenta, que possa trazer perturbação na economia. Sabeis que, muitas vezes, em casos semelhantes, o medo é pior do que o mal.”

Na edição seguinte da Revista espírita, em dezembro de 1865, Kardec informa deu início a uma campanha em favor dos flagelados, aberta no escritório da Revista: “Em benefício dos pobres de Lyon e das vítimas do cólera”.

Em nosso país há alguns registros relacionando espíritas e momentos de epidemias.

De início, destacamos um episódio interessante sobre Antonio Gonçalves da Silva, o Batuíra, o português que se fixou em São Paulo, transformando-se em grande exemplo espírita: “Eis alguns traços da personalidade de Batuíra pela pena do festejado escritor Afonso Schmidt: ‘Em 1873, por ocasião da terrível epidemia de varíola que assolou a capital da Província, ele serviu de médico, de enfermeiro, de pai para os flagelados, deu-lhes não apenas o remédio e os desvelos, mas também o pão, o teto e o agasalho.”2

No século XX a autêntica pandemia que assolou o mundo – a gripe espanhola -, provocou alguns fatos vinculados ao movimento espírita. Em artigo recente publicado na Revista internacional de espiritismo, David Liesenberg comenta sobre essa última pandemia, do ano de 1918. Cita registros do jornal O Clarim, como o aumento da demanda das receitas homeopáticas na sede da FEB, no Rio de Janeiro, e, as mudanças que Cairbar Schutel adotou no Centro Espírita Amantes da Pobreza, em Matão (SP). Para atender solicitações do Governo, as reuniões públicas domingueiras noturnas foram antecipadas para as 17 horas.3

A epidemia da gripe espanhola veio encontrar Eurípedes Barsanulfo em plenas atividades em Sacramento (MG), tomando providências para a provisão de medicamentos na sua farmácia. Familiares e colaboradores foram contaminados4 e ele prosseguia “à cabeceira dos seus enfermos, auxiliando centenas de famílias pobres”.5 E o pioneiro dedicado sucumbiu vitimado por essa epidemia e desencarnou aos 1o de novembro de 1918.

Depois desses registros históricos, passam por nossa memória as epidemias que acometiam as crianças, durante nossa infância, como a varíola e a poliomielite, pois a primeira vacina contra esta última – a Salk – somente surgiu em 1955 e logo depois a Sabin. Nossa família tomava cuidados extremos para evitar a contaminação. Certa feita, com um pequeno e passageiro sinal de dificuldade motora na perna levaram-nos às pressas para uma consulta com renomado especialista da capital paulista, concluindo-se que havia sido apenas decorrência de pequeno acidente. Tempos depois quando começaram a surgir casos em nossa cidade, chegaram a nos levar junto os pequeninos irmãos a uma cidade onde não havia o surto da chamada paralisia infantil. Dessa maneira, fomos convivendo com notícias próximas e distantes de várias situações que aterrorizavam as famílias.

Já atuando na docência odontológica e na especialidade de cirurgia bucal, em 1985 surgem as contaminações da AIDS, a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (HIV), e de início causando muitas dúvidas e pânicos. Como dever estudamos a nova enfermidade e passamos a adotar os cuidados e prevenções devidas ao profissional que realizava intervenções em pacientes. Como docente passamos a nos preocupar em orientar e divulgar as formas de prevenção e surgiram aulas, seminários, palestras, publicações e uma grande campanha regional de esclarecimento. Naquele contexto, estávamos elaborando juntamente com Divaldo Pereira Franco o livro Em louvor à vida, onde comentamos mensagens de autoria de nosso tio médico desencarnado Lourival Perri Chefaly.6 De maneira inédita para a época, o livro editado em 1987 trazia a psicografia “AIDS e profilaxia” e nossos comentários “Informações sobre a AIDS” e “A profilaxia com reformas espirituais”. Entre alguns registros gravados na época encontra-se disponível a nossa atuação em grande congresso espírita em São Paulo, no ano de 1991.7

Como sugestão à reflexão sobre as epidemias, consideramos válidas as recomendações do doutor Demeure acima transcritas1 e, por oportuno, reproduzimos trecho da mensagem do espírito Lourival Perri Chefaly:

“Pensar na saúde e fomentá-la através dos pensamentos otimistas é impositivo indispensável ao progresso e à paz. Saúde/doença – binômio do corpo e da mente – são conquistas do ser, que deve aprender a optar por aquela que melhor condiz com as aspirações evolutivas, desde que a harmonia ideal será alcançada através do respeito à primeira ou mediante a vigência da segunda”.6

Referências:

1) Kardec, Allan. Trad.Abreu Filho, Júlio. Revista espírita. O Espiritismo e o cólera. Novembro de 1865; Idem. Em benefício dos pobres de Lyon e das vítimas do cólera. Dezembro de 1865. Vol. VIII. São Paulo: EDICEL.

2) Oliva Filho, Apolo. A vida surpreendente de Batuíra. Página eletrônica: http://geb.org.br/quem-somos/historia/batuira (consulta em 04/07/2020).

3) Liesenberg, David. Epidemia e os sinais dos céus. Revista Internacional de espiritismo. Ano XCV. N.6. Julho de 2020. P.292-294.

4) Novelino, Corina. Eurípedes, o homem e a missão. Cap. O desenlace. Araras: IDE. 1979.

5) Ferreira, Inácio. Subsídio para história de Eurípedes Barsanulfo. Uberaba: do autor. 1962. P.112.

6) Franco, Divaldo Pereira; Carvalho, Antonio Cesar Perri. Pelo espírito Lourival Perri Chefaly. Em Louvor à vida. 1.ed. Cap. AIDS. Salvador: LEAL. 1987.

7) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Aids na visão Espírita. Página eletrônica: http://grupochicoxavier.com.br/historico-aids-na-visao-espirita/ (consulta em 04/07/2020).

(*) Foi dirigente espírita em Araçatuba, presidente da USE-SP e da FEB.