O céu e o inferno: arrependimento, expiação e reparação

O céu e o inferno: arrependimento, expiação e reparação

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O Codificador Allan Kardec viveu no Século XIX, época de “grandes luzes”, com marcantes descobertas e teorias que modificaram o modo de vida do homem, a sua própria concepção e o papel que representa no planeta; um período de polêmicas em todos os setores da vida francesa, choques entre momentos de autoritarismo, de liberalismo e de democracia, convivendo com o surgimento de diversas propostas sociais e impasses no âmbito da religião.

O livro O céu e o inferno, tendo por subtítulo de “A Justiça Divina Segundo o Espiritismo” é marcante!

Obra histórica e inédita lançada por Kardec há 161 anos, em agosto de 1865, em Paris.

Para fundamentar a nova visão, analisa estados de alma com base nas comunicações de espíritos desencarnados. No Prefácio, Kardec comenta: “O título desta obra indica claramente o seu objetivo. Nela reunimos todos os elementos destinados a esclarecer o homem quanto ao seu destino. Como em nossas publicações anteriores sobre a Doutrina Espírita, nada colocamos neste livro que seja produto de um sistema preconcebido ou de concepção pessoal, que aliás, não teria nenhuma autoridade. Tudo foi deduzido da observação e da concordância dos fatos”.

A 1a Parte do livro trata de Doutrina, com o exame comparado de diversas crenças sobre: O porvir e o nada; Temor da morte; O céu; O inferno; O purgatório; As penas futuras segundo o Espiritismo; Os anjos; Os demônios; Intervenção dos demônios nas modernas manifestações.

No ítem “código penal da vida futura”, Kardec esclarece que não “formula um código de fantasia no que respeita ao futuro da alma”, mas deduz “das observações de fatos”. Nessa visão caem naturalmente as penas eternas e os desdobramentos adoção de penitências, indulgências e complexos de culpa.

Como introdução aos textos das manifestações, Kardec acrescentou algumas informações sobre o espírito comunicante e até sobre o tipo de desencarnação que ocorreu, para sua melhor identificação e compreensão do teor da mensagem. Dessa maneira, elaborou uma classificação dos espíritos de acordo com as caraterísticas de seus estados de alma.

Trata-se de um marco oferecido pelo Codificador, rompendo com séculos de domínio de consciências, e descortinando uma nova visão sobre a Justiça Divina.

O livro contém análise de “Exemplos” e há numerosos casos que sustentam seu raciocínio. Sem pieguismo e com método de estudo, como em seus trabalhos em geral, analisa as manifestações dentro de uma classificação que estabeleceu de: Espíritos felizes; Espíritos em condições medianas; Espíritos sofredores; Suicidas; Criminosos arrependidos; Espíritos endurecidos; Expiações terrestres.

Há cinco mensagens de espíritos arrependidos. Destacamos a do espírito Verger. Eis a síntese do fato e da narrativa espiritual: no dia 03 de janeiro de 1857, o Monsenhor Sibour, arcebispo de Paris, ao sair da igreja de Saint-Étienne du Mont, foi ferido mortalmente pelo jovem padre Verger. O culpado foi condenado à morte e executado em 30 de janeiro. Sua narrativa: “Arrependo-me do que fiz e sofro por isso. Sou punido, porque reconheço meu erro e peço perdão a Deus. Sou punido pela consciência de minha falta de fé em Deus e porque sei agora que não devemos de forma alguma acabar com os dias de nossos irmãos”. Em seguida, o espírito comenta que se prepararia para uma nova existência…

A propósito, sobre o futuro da alma, deduzida das observações dos fatos, Kardec alinha algumas etapas ou momentos: “O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação. Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação.”

O entendimento dessas distintas situações de espíritos desencarnados – diferentes estados de alma -, de encarnados ou de desencarnados, se enquadra no conceito de que “a Natureza não dá saltos”, e este raciocínio é válido num continuum de espírito encarnado/processo de desencarnação/espírito desencarnado. Fica claro que “a lei divina se encontra escrita na consciência” de cada um. O Espiritismo responde às dúvidas existenciais mais frequentes: “para onde vou após a morte?”, o livro O céu e o inferno indica a resposta clara e fundamentada!

Fonte:

Kardec, Allan. Trad. Quintão, Manuel. O céu e o inferno. A Justiça Divina segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: FEB. 425p.