A Casa do Caminho de lá e de cá

A Casa do Caminho de e de cá

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

No longo período em que ficamos fora da capital paulista perdemos contato com muitos episódios, inclusive do lançamento do livro “O Caminho da Casa de Cristal”, alusivo aos 40 anos da Casa do Caminho, de autoria de Tânia Redigolo.

Ao nos reinserirmos em atividades do Grupo Espírita Casa do Caminho, na Vila Clementino, em São Paulo, além do ambiente fraterno com que fomos recepcionados juntamente com a família, reencontramos muitos companheiros de outros momentos em que frequentamos esse centro e do movimento espírita paulista.

A leitura, embora tardia do citado livro, lançado em 2011, nos remeteu a muitas recordações gratas além de nos propiciar informações que não tínhamos conhecimento.

A origem espiritual do Centro, com base em mensagens obtidas por vários médiuns, mostrando o planejamento espiritual com muita antecedência para o preparo de uma equipe que viria a atuar no plano terrestre. Assim, surgem relatos que identificam o líder inca que viveu no Peru com tarefas específicas no sentido de humanizar alguns cultos primitivos, agora designado como Itaporã, e que participou do planejamento espiritual para a reunião de um grupo de espíritos afins e que vieram a fundar e consolidar o Grupo Espírita Casa do Caminho e o seu desdobramento na área assistencial, a SAFRATER com a Creche e Núcleo Tiãozinho.

No desenrolar das agradáveis narrativas da autora, verificamos que nos primeiros contatos que mantivemos com esse Centro nos anos 1990, ainda numa casa fisicamente adaptada, conhecemos alguns remanescentes da equipe de fundadores e valorosos seareiros.

Lembranças agradáveis da primeira fase em que estivemos ligados a esse Centro, dos contatos que tivemos com alguns dos citados no livro. Entre estes, Hernani Guimarães Andrade, autêntico pesquisador nas hostes espíritas, fundador também do IBPP. Aliás ele prefaciou um de nossos primeiros livros: “Os Sábios e a Sra. Piper. Provas da comunicabilidade dos espíritos” (Ed. O Clarim). A médium e dirigente Assumpta Rizzatti; a dirigente e cantora lírica Assunção de Lucca, de quem fomos vizinhos e até estivemos juntos em Congresso em Portugal. Na interface com a USE-SP, período em que fomos presidente, convivemos com companheiros ligados a esse Centro: o casal Marlene e Paulo Roberto Pereira da Costa; Maria Aparecida Valente, que chegou a publicar livro pela USE-SP; os assistentes sociais Odair Cretella de Oliveira e Régis Lang. Aliás, este último, o atual presidente do Centro. Nesse Centro reencontramos Luiz Armando de Freitas, da revista Informação; também conhecemos Alcíone Novelino, a filha do dr.Thomaz Novelino. E, interessante, ali atuava intensamente Áurea Medeiros, originária de Guararapes, cidade vizinha à nossa terra natal, Araçatuba, que conhecemos nos tempos de eventos de mocidade espírita, e, que desencarnou precocemente.

O livro focaliza o esforço e a dedicação dos fundadores e primeiros trabalhadores da Casa do Caminho, registra as principais atividades e eventos ali concretizados até chegar à atual situação contando com edificações modernas e bem planejadas: uma movimentada sede doutrinária com reuniões diárias em vários horários, no bairro de Vila Clementino, e um intenso labor assistencial em uma grande sede em bairro na região do Jabaquara.

Muito instrutiva e até curiosa a relação de casos pitorescos envolvendo os dirigentes e colaboradores da Casa. Como também algumas mensagens dos mentores da Casa do Caminho. Ao final, a autora apresenta a Galeria de Diretorias e Conselhos, e, de fotos das várias épocas.

Para finalizar destacamos que no Mundo Espiritual, a equipe que atuou na fundação do Grupo foi “vinculada aos carismas preconizados por Paulo de Tarso” e ao lema “fora da caridade não há salvação”, e, nessa preparação “foi fundado primeiramente na Espiritualidade, onde recebeu o nome de Casa de Cristal…” Aí foram “delineados todos os projetos que seriam implantados na nova Casa”.

Fonte:

Redigolo, Tânia. O caminho da Casa de Cristal. 40 anos da Casa do Caminho. São Paulo. 2011. 188p. (disponível na livraria do Grupo Espírita Casa do Caminho, fone: 11- 2348-2230).

(*) Colaborador do Grupo Espírita Casa do Caminho, São Paulo; ex-presidente da USE-SP e da FEB.

E as previsões?

E as previsões?

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Toda passagem de ano gera expectativas e muitas ideias vinculadas às tradicionais previsões.

Nos últimos tempos muitos repetem sobre a fase que vivemos e que chamam de transição planetária. Realmente, estamos em momento de transições, mas estas nunca deixaram de existir porque o Universo não é estático. Acontece que há fases em que ocorrem transformações profundas e rápidas. Por isso torna-se importante a análise num largo espaço de tempo para se verificar o ritmo das mudanças.

Por isso torna-se importante a análise num largo espaço de tempo para se verificar o ritmo das mudanças. Em nossos dias, a comunicação instantânea propicia muitas vezes visões mais catastróficas. Em realidade muitos fenômenos materiais e transformações da Humanidade, em geral, sempre existiram, mas não havia a disseminação das informações de maneira globalizada. E como a mídia destaca mais as tragédias, fica-se com uma impressão que o “mundo está em total ebulição”.  

O Espiritismo tem sua fundamentação nas obras de Allan Kardec e seu último livro “A Gênese” e que tem como subtítulo “Os milagres e as predições segundo o Espiritismo”, e, no final, dois capítulos: “Os tempos são chegados” e “Sinal dos tempos”. A partir desta obra lançada em 6 de janeiro de 1868 (152 anos anteontem) desenvolvemos a linha de raciocínio que foge das tradicionais interpretações feitas a partir da aceitação da escatologia e da parusia. Evidentemente que são pensamentos desenvolvidos nos dois milênios por alas cristãs.

Assim, considerando o livro citado, “A Gênese”, destacamos o trecho: “O resultado final de um acontecimento pode, pois, ser certo, já que está nos desígnios Deus. Mas, como frequentemente, os detalhes e o modo de execução são subordinados às circunstâncias e ao livre-arbítrio dos homens; os caminhos e os meios podem ser eventuais”. Portanto, “os Espíritos podem nos alertar sobre o conjunto, se for útil que sejamos prevenidos. Mas para precisar o lugar e a data, eles deveriam conhecer previamente a decisão que tal ou qual indivíduo tomará.” Interessante notar que Kardec dá mais importância às transformações morais e espirituais do que às alterações físicas cíclicas e naturais de nosso orbe.

Uma característica marcante de nossa época é o processo complexo de reajustamento de todos os valores humanos. Daí os intensos e continuados choques de pensamentos e de posições. Embora ocorram momentos mais críticos no processo civilizatório, sempre se dá um passo na senda do progresso.

A propósito, o guia espiritual de Chico Xavier, o espírito Emmanuel, tratou do assunto em várias obras deste médium. Mas há um trecho do livro “Busca e acharás” que nos parece muito apropriado para a época que vivemos: “Reconhecemos todos que o mundo atravessa agitadas crises de transição. Mas podes ser, onde estiveres, a escora de fé, em que outros se apoiem.”

O cultivo da religiosidade, de valores e o cultivo de virtudes podem trazer grandes contribuições para a criação da serenidade e firmeza no enfrentamento dos impasses e dificuldades do mundo atual. Como anotou Allan Kardec em sua obra inicial, “O Livro dos Espíritos”: “O progresso da Humanidade tem seu princípio na aplicação da lei de justiça, de amor e de caridade, lei que se funda na certeza do futuro”.

Esses fatores, ou opções do livre-arbítrio do homem, é que podem delinear as previsões para o futuro. Sempre há a opção de se começar um “novo amanhã”.

(O autor residiu em Araçatuba, onde foi professor da FOA e dirigente espírita. Atualmente reside em São Paulo e é ex-presidente da Federação Espírita Brasileira).

Publicado no jornal “Folha da Região”, Araçatuba, 08/01/2020, página A2.

Coração não cansa e não dorme

Coração não cansa e não dorme

Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus. – Jesus (Mateus, 5:8)

Arnaldo Divo Rodrigues de Camargo (*)  

A orquestração do Universo é maravilhosa.

Quando me debruço na fonte a ver a água cantando, correndo distante, e o vento assobiando lá fora, e meu coração aqui seguindo suas passadas, fico imaginando o Criador e sua obra.

Quando despertamos para a realidade do Espírito imortal, de que absolutamente nada na matéria é definitivo, inclusive a vida física é temporária, passamos a compreender a inutilidade da ambição e do orgulho, a estupidez do egoísmo em acumular, a tolice das disputas materiais, a incoerência das tolas mágoas e do ressentimento que acumulamos no coração, pobrezinho.

Nosso pequeno reino feito de desejos e interesses (consciência), onde nascem e moram nossos pensamentos e sentimentos – ainda temos muitas dificuldades de administrá-lo bem, e quem sofre as consequências é o nosso coração, órgão vital e que, como Deus, não cansa e não dorme.

O coração sofre o impacto, quando o corpo está acordado ou mesmo dormindo, das emoções do seu comandante, que somos nós, o governador dessas ações serenas ou desiquilibradas. Como diz o autor de O pequeno príncipe, Antoine de Saint-Exupéry: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.

Lembro aqui de uma porção de provérbios chineses que falam de nossas ações e de seu reflexo em nosso coração, essa máquina divina, que responde de imediato e com presteza à mente quando recebe afeto, porque o amor faz mudar o seu próprio ritmo.

“Quem abre o coração à ambição, fecha-o à tranquilidade.”

“A gente todos os dias arruma os cabelos: por que não o coração?”

“Os nossos desejos são como crianças pequenas: quanto mais lhes cedemos, mais exigentes se tornam.”

Para não sobrecarregar esse órgão tão importante pela nossa permanência aqui, escutemos o pensamento do sábio e filósofo chinês, Confúcio: “Quando a raiva, o vício, a paixão crescerem, pense nas consequências”.

(*) Arnaldo Divo Rodrigues de Camargo é bacharel em direito com especialização em dependência química pela USP-SP/GREA; diretor da Editora EME. 

Transcrito de:

O Consolador. Revista Semanal de Divulgação Espírita. N.651. Edição de 05/01/2020; http://www.oconsolador.com.br/ano13/651/ca3.html

Ano Novo e as Previsões

Ano Novo e as Previsões

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Em toda passagem de ano, são comuns as ideias sobre previsões e expectativas.

Em artigo que publicamos na Revista Internacional de Espiritismo (1), expusemos as motivações para escrevermos sobre o tema, que também foi transcrito pelo site do GEECX (http://grupochicoxavier.com.br/base-para-interpretacao-das-profecias/).

Com algumas adequações, eis sinteticamente o raciocínio desenvolvido no artigo citado.

De início, torna-se importante recorrermos à Obra da Codificação. Em A Gênese, há trechos marcantes do Codificador: “O resultado final de um acontecimento pode, pois, ser certo, já que está nos desígnios Deus. Mas, como frequentemente, os detalhes e o modo de execução são subordinados às circunstâncias e ao livre-arbítrio dos homens; os caminhos e os meios podem ser eventuais. Os Espíritos podem nos alertar sobre o conjunto, se for útil que sejamos prevenidos. Mas para precisar o lugar e a data, eles deveriam conhecer previamente a decisão que tal ou qual indivíduo tomará.” Inclusive Kardec comenta sobre “a forma misteriosa e cabalística da qual Nostradamus nos oferece o exemplo mais completo dá-lhe certo prestígio aos olhos do homem comum, que lhe atribui tanto mais valor quanto mais sejam incompreensíveis.”

Em outra parte, Kardec lembra que “a humanidade contemporânea tem também seus profetas; mais de um escritor, poeta, literato, historiador ou filósofo pressentiu, em seus escritos, a marcha futura dos acontecimentos que se veem realizar atualmente. […] Mas, frequentemente também, ela é o resultado de uma clarividência especial…” Sobre o futuro, o Codificador também alerta que “a fraternidade será a pedra angular da nova ordem social, mas não há fraternidade real, sólida e efetiva sem estar apoiada sobre uma base inabalável. Essa base é a fé; não a fé em tais ou quais dogmas particulares que mudam com o tempo e os povos e que se apedrejam mutuamente…”

Portanto, Kardec pondera que “a época atual é a da transição: os elementos das duas gerações se embaralham. Colocados no ponto intermediário, presenciamos a partida de uma e a chegada da outra, a cada qual se distingue no mundo pelas características que lhe são próprias.” Na sequência, tece considerações sobre a “nova geração marchará para a realização de todas as ideias humanitárias compatíveis com o grau de adiantamento ao qual tenha chegado. […] A nova geração, devendo fundar a era do progresso moral, distingue-se por uma inteligência e uma razão geralmente precoces, somadas ao sentimento inato do bem e das crenças espiritualistas. É o sinal incontestável de um certo grau de adiantamento anterior.”

Interessante notar que Kardec dá mais importância às transformações morais e espirituais do que às alterações físicas cíclicas de nosso orbe.

Em histórica obra elaborada antes da eclosão da 2ª Guerra Mundial, Emmanuel discorre sobre o porvir, de uma forma bem geral, analisando no capítulo “A América e o futuro” alguns aspectos como: “Em torno dos seus celeiros econômicos, reunir-se-ão as experiências europeias, aproveitando o esforço penoso dos que tombaram na obra da civilização do Ocidente para a edificação do homem espiritual, que há de sobrepor-se ao homem físico do planeta, no pleno conhecimento dos grandes problemas do ser e do destino. […] Nos campos exuberantes do continente americano estão plantadas as sementes de luz da árvore maravilhosa da civilização do futuro.” E surgem algumas anotações sérias sobre o futuro da Humanidade: “Mas é chegado o tempo de um reajustamento de todos os valores humanos. Se as dolorosas expiações coletivas preludiam a época dos últimos ”ais” do Apocalipse, a espiritualidade tem de penetrar as realizações do homem físico, conduzindo-as para o bem de toda a Humanidade. […] O cajado do pastor conduzirá o sofrimento na tarefa penosa da escolha e a dor se incumbirá do trabalho que os homens não aceitaram por amor. Uma tempestade de amarguras varrerá toda a Terra. […] Condenada pelas sentenças irrevogáveis de seus erros sociais e políticos, a superioridade europeia desaparecerá para sempre, como o Império Romano, entregando à América o fruto das suas experiências, com vistas à civilização do porvir. Vive-se agora, na Terra, um crepúsculo, ao qual sucederá profunda noite; e ao século XX compete a missão do desfecho desses acontecimentos espantosos.”

As anotações de Emmanuel são, no geral, coerentes com textos evangélicos: “No mundo tereis grandes tribulações, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João, 16,33). O versículo seguinte, no entendimento espírita, pode ser interpretado como intensos intercâmbios com o “céu aberto”, ou seja, manifestações de ordem espiritual: “Na verdade, na verdade vos digo que daqui em diante vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (João, 1, 51).

A essa altura, são cabíveis as advertências registradas no Novo Testamento com relação aos “falsos profetas”. Entre outras: “Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas,… Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? […] Portanto, pelos seus frutos os conhecereis (Mateus, 7, 15, 20).

As interpretações deturpadoras e alarmantes de profecias e previsões de domínio público e ainda outras que são atribuídas a médiuns já desencarnados muitas vezes causam inseguranças e temores. Isso sem se discutir a questão doutrinária e a coerência do perfil e das obras públicas dos eventuais envolvidos.

Sobre isso, Emmanuel analisa em tom esclarecedor: “[…] em sobrevindo a divisão das angústias da cruz, muitos aprendizes fogem receando o sofrimento e revelando-se indignos da escolha. Os que assim procedem, categorizam-se à conta de loucos, porquanto, subtrair-se à colaboração com o Cristo, é menosprezar um direito sagrado.”

Em entrevista concedida a Fernando Worm (Janela para a vida) Chico Xavier atribui a Emmanuel a resposta a questão sobre o futuro da humanidade daqui um milênio: “Com a cooperação do homem, a Divina Providência, no curso de um milênio, pode esculpir primores indefiníveis de paz e amor, progresso e união para a Humanidade”.

E, finalmente, para os novos crentes na “parusia” – que ainda aguardam um retorno do Cristo -, Emmanuel anotou de forma clara: “Os homens esperam por Jesus e Jesus espera igualmente pelos homens.”

Nessas rápidas pinceladas sobre o polêmico tema profecias, entendemos que merece ser estudado e analisado com base nas Obras Básicas da Codificação e aquelas que são coerentes e complementares às mesmas. Há necessidade de bom senso e fundamentação em conhecimentos científicos atuais e, no nosso caso, fidelidade às obras de Allan Kardec. O pouco estudado livro A Gênese, deve merecer mais atenção na seara espírita!

***

“O progresso da Humanidade tem seu princípio na aplicação da lei de justiça, de amor e de caridade, lei que se funda na certeza do futuro” – Allan Kardec (LE, Conclusão IV).

Referência:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Base para interpretação das profecias. Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCIV. N. 7. Agosto de 2019. p. 370-372.

Um minuto com Chico Xavier

Um minuto com Chico Xavier

Regina Stella Spagnuolo

Conta-nos o Prof. Lauro Pastor, residente em Campinas, amigo de Chico Xavier desde Pedro Leopoldo, que certa vez, ao visitá-lo, caminhando em sua companhia pelas ruas da cidade, se depararam com uma procissão. A igreja-matriz de Pedro Leopoldo ficava, como fica, na mesma rua onde se ergueu o Centro Espírita “Luiz Gonzaga”; à época, os católicos organizavam algumas procissões ditas de desagravo contra os espíritas. Observando que a procissão, com diversos acompanhantes e andores, se aproximava, o Prof. Lauro sugeriu a Chico que apressassem o passo, pois, caso contrário, não poderiam depois atravessar a rua – a menos que cortassem a procissão pelo meio, o que seria uma afronta.

Pedindo ao amigo que não se preocupasse, Chico parou na esquina e, enquanto a procissão seguia o seu roteiro, manteve-se o tempo todo em atitude de respeito e de oração, ainda convidando o amigo para que ambos se descobrissem, ou seja, tirassem o chapéu – sim, porquanto, naqueles idos de 1950, Chico também usava chapéu.

O Prof. Lauro disse-nos que nunca mais pôde esquecer aquela lição de tolerância religiosa que lhe foi dada por Chico, enfatizando ainda que foi dessa maneira que, aos poucos, o médium venceu a resistência de seus opositores da Doutrina.

Exemplos de Chico Xavier que, nem sempre, em nossa atual condição evolutiva, temos assimilado; fazemos da religião uma paixão clubística, sem atinarmos que Jesus não hesitava, inclusive, de comparecer às sinagogas dos judeus, sem significar, todavia, que lhes endossasse a ritualística em que “a pretexto de longas orações, devoravam as casas das viúvas”…

De: Histórias de Chico Xavier, elaborada pelo Grupo de Estudo Allan Kardec.
Extraído de:
Revista digital O Consolador, edição de 22/12/2019.

http://www.oconsolador.com.br/ano13/650/umminutocomchico.html

Jugo de Jesus é mais suave

Jugo de Jesus é mais suave

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Nas tarefas da "peregrinação" de um sábado de novembro de 1983, os comentários foram em torno do trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo:

"Vinde a mim, todos os que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomais sobre vós o meu jugo e aprendei comigo que sou brando e humilde de coração…"

Como de de hábito, Chico convidava para expositores para fazerem uso da palavra. Havia o lembrete para que falassem em torno de dois minutos. Geralmente, o professor Tomaz Silva falava em primeiro lugar para "modular" os demais expositores.

Chico Xavier arrematou com pensamentos inspirados por Emmanuel.

Comentou que na natureza tudo progride sob o jugo e passou a estabelecer comparações: a usina que sob jugo controla a água, aproveitando-a; o animal que sob o jugo da canga se transforma em útil transportador de peso; o motor do veículo que sob jugo da disciplina torna-se em instrumento útil do processo…

No final, Chico concluiu:

"Todos estamos sob a lei do jugo, mas a do Cristo é mais suave" e concitou todos à paciência, à calma, à cooperação porque o amor e a caridade são imprescindíveis para a aceitação do jugo do Cristo.

Lembrou também que todas as vezes que as ações não sáo pautadas no amor e na caridade, pode-se aguardar as consequências…

Extraído de:

Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier. O homem, a obra e as repercussões. 1.ed. Cap. 1.16. Capivari: EME; São Paulo: USE-SP. 2019.

O pai espiritual de Chico Xavier

O pai espiritual de Chico Xavier

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A leitura atenta do romance histórico inicial de Emmanuel fica evidenciado um aspecto acima de tudo paternal. Na vida de Chico Xavier, o seu orientador atua como um pai espiritual. Aliás, coerente com as necessidades de ajustes espirituais que redundaram da vivência de ambos no Século I, na relação de pai e filha, bem descritos em Há dois mil anos.

Por isso, são interessantes algumas observações do médium com relação a seu guia espiritual. O respeito que Chico nutria por Emmanuel transpareceu em inúmeros momentos, desde a orientação inicial da “disciplina” junto ao açude de Pedro Leopoldo. Emmanuel mantinha o médium dentro do planejamento espiritual, com prioridade para os livros.

No transcorrer o primeiro programa “Pinga Fogo” Chico fez o depoimento:

“Emmanuel tem sido para mim um verdadeiro pai na Vida Espiritual, pelo carinho com que me tolera as falhas e pela bondade com que repete as lições que devo aprender. Em todos esses anos de convívio estreito, quase diário, ele me traçou programas e horários de estudo, nos quais a princípio até inclui datilografia e gramática, procurando desenvolver os meus singelos conhecimentos de curso primário, em Pedro Leopoldo, o único que fiz até agora, no terreno da instrução oficial. […] O tempo de convivência com o Espírito de Emmanuel, nosso guia, parece que criou entre ele e eu um processo de conhecimento e palavra por osmose. Vão me perdoar… eu não sei definir o problema. Sei que ele está presente, mas ele não permite que faça muitas observações mediúnicas, para que eu me mantenha estritamente dentro do programa e não com qualquer distração para observações marginais.” 1

Há inúmeros casos relatados na literatura espírita e no filme “Chico Xavier” (2010) evidenciando a presença marcante de Emmanuel na vida de Chico, alguns jocosos, mas todos claramente educativos.

Pouco recordado é o relato Ramiro Gama, amigo do médium dos tempos de Pedro Leopoldo, sobre um conhecido confrade de São Paulo que certa feita chegou ao Centro Espírita Luiz Gonzaga. Abraça o médium e diz: “- Vim de São Paulo especialmente para lhe dar um beijo. E dando-lhe o beijo na face, conclui: beijando-o, tenho a impressão de que beijei seu querido Guia Emmanuel. E o Chico com toda candidez e humildade: – Não, meu caro Irmão, você não beijou Emmanuel mas sim o seu burrinho, que sou eu”.2

Particularmente, ouvimos comentários muito significativos durante visitas que fizemos ao médium em Uberaba. Em visita a Chico Xavier em sua residência, em janeiro de 1977, cerca de dois meses após sofrer um enfarte, ouvimos sobre a advertência do pai espiritual enérgico. Chico mostrou-nos a quantidade de medicamentos que estava utilizando. Sempre fazendo brincadeiras dizia, sorrindo, que estava escravo deles… Porém, ficando sério, contou ao grupo de visitantes que, certa feita, contrapondo-se a momentos passageiros de desânimo, Emmanuel afirmou-lhe incisivo: "A vida é dura para quem é mole…"3

E não parou por aí. Chico estava acamado, em convalescença após o enfarte e, segundo ele próprio, preocupado com seu estado e suas atividades. Emmanuel surgiu e saindo daquela costumeira linguagem evangélica de seus livros, disse-lhe: "Saia dessa cama senão você irá para a tumba!" Chico esforçou-se mais ainda no processo de recuperação e de retorno aos seus afazeres. Sempre de bom humor, naquele mesmo dia Chico comentou que não seria daquela vez que partiria e que não era o desejo dele também: "Partir agora e depois perder uns vinte anos de bobeira na nova reencarnação até começar trabalhar, eu prefiro continuar trabalhando agora…"3

Realmente, Chico sobreviveu mais 25 anos dedicados ao trabalho mediúnico.

Meses depois, em outra visita ao médium, acompanhávamos a "peregrinação" no bairro dos Pássaros Pretos. Estávamos ao lado de Chico e sua equipe de colaboradores. Chico entregava pães e dirigia palavras de bom ânimo aos necessitados que se postavam em fila. A certo momento, alguém fez alguma reclamação sobre saúde. Chico fez, então, rápido comentário para os circunstantes, chamando atenção de que ele não era nenhum privilegiado: "Na minha infância, sofria castigos físicos aplicados pela minha madrasta. Ainda jovem fiquei cego de um olho e tenho muitas dores e trato o outro há muitos anos. Submeti-me a algumas cirurgias médicas e, há pouco, sofri um enfarte. Um dia cansado de tantos tratamentos, pedia forças. Emmanuel apareceu e disse-me: – Você veio para ser tratado e não para ser curado…"3

Referências:

1) Gomes, Saulo (Org.). Pinga-fogo com Chico Xavier. 1.ed. Catanduva: Intervidas. 2010. 269p.

2) Gama, Ramiro. Lindos casos de Chico Xavier. 5.ed. São Paulo: LAKE. 246p.

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier – o homem, a obra e as repercussões. 1.ed. Capivari: EME, São Paulo: USE-SP. 2019. 223p.

 

Chico Xavier exalava perfume

Chico exalava perfume

Nena Galves

Chico Xavier foi operado no Hospital Santa Helena em São Paulo, em 30 de agosto de 1968. Era uma noite de inverno, o frio era intenso, mantínhamos uma calma aparente, mas as expectativas nos atemorizavam.

Chico fez sua recomendações com orientações para nosso procedimento caso desencarnasse. Trazia embrulhado um pacotinho que deu ao Galves (meu marido). Suas economias, segundo ele, para pagar a cirurgia e as despesas do hospital. Galves guardou o dinheiro com lágrimas nos olhos.Chico apenas nos pedia proteção e carinho numa hora tão difícil.

Em princípio, ele seria operado da próstata, mas o plano espiritual encarregou-se de também liberar Chico de uma hérnia da qual era portador há bastante tempo. Assim foi feito. Chico foi beneficiado na mesma oportunidade com retirada de várias sequelas provenientes dos maus tratos na infância, quando sua madrinha, uma pessoa doente, como classificava Chico, espetava-lhe garfos no abdômen.

O inverno era bastante rigoroso, mas o quarto permanecia sempre aquecido sem que para isso precisássemos recorrer à aparelhagem apropriada. Mais tarde, Chico nos relatou que os espíritos benfeitores revezavam-se, em contínua vigilância, para preservar o ambiente de qualquer interferência menos benéfica a seu restabelecimento.

Chico manifestou o desejo de agradecer aos funcionários mais humildes, que muito haviam colaborado para seu bem estar em um período tão difícil. Pediu a Galves que adquirisse e lhe trouxesse ao hospital, dez dúzias de rosas coloridas. Amparado por Galves e Suzana dirigiu-se à enfermaria, à cozinha, à portaria e a agradecer as preces feitas em seu favor, oferecia rosas e beijava as mãos de quem lhe haviam servido em anonimato.Um perfume vindo do plano espiritual exalava a cada beijo ou gesto de Chico, era também um agradecimento dispensado por ele.

Voltou ao leito cansado, com lágrimas nos olhos e o coração agradecido. Os corredores e demais dependências por onde Chico havia passado permaneceram perfumados por um bom tempo. Este é um dos muitos momentos que nos revelam a grandeza espiritual deste médium. Quando Chico estava no leito, impossibilitado de movimentar-se, todos sentíamos este perfume que exalava de suas roupas, de seus travesseiros, do copo onde ele encostava seus lábios, enfim, em tudo que ele tocava. Quando orávamos em seu favor, as rajadas de perfume que recebíamos eram mensagens que os espíritos nos mandavam em agradecimento, assegurando-nos que estavam conosco.

Muitos amigos quiseram colaborar no custeio à cirurgia, mas foi desnecessário. Antes que fosse efetuado o pagamento das despesas hospitalares e profissionais, elas foram totalmente dadas por acertadas. O Hospital Santa Helena, por meio de sua diretoria, nada cobrou pelos procedimentos e hospedagem. Os médicos fizeram questão de nada cobrar, também.

(Galves, Nena. Até Sempre Chico Xavier. São Paulo: CEU)

Um olhar diferente acerca das aflições humanas

Um olhar diferente acerca das aflições humanas

Entrevista com Deusa Samu,  por Orson Peter Carrara

Deusa Maria Samú, natural de Piripiri (PI), reside em São Paulo, capital. Psicóloga clínica e hospitalar pós-graduada em Tanatologia, é espírita desde 1990. Vinculada à instituição Seara Bendita, é expositora e coordenadora da Reunião de Pais da Área de Infância e Juventude. Palestrante bastante requisitada, tem-se especializado em falar sobre o luto, com o objetivo de confortar famílias. Suas respostas na presente entrevista abordam essa e outras questões pertinentes às aflições humanas.

P – Como se tornou espírita?

R – Tornei-me espírita na década de 1990 quando minha vizinha me emprestou o livro "A Reencarnação de Perter Proud", um best-seller de Max Ehrlich. Fiquei fascinada, fui estudar e não parei mais.

P – E seu gosto pela Psicologia, como foi?

R – O gosto pela Psicologia foi acidental porque eu queria Psiquiatria, mas como tinha que passar o dia todo na faculdade, e eu tinha um bebê para cuidar, optei pela Psicologia.

P – Donde vem seu interesse pelo luto, tema constante de suas abordagens?

R – O interesse pelo luto veio após o desencarne do meu segundo filho, Rafael. Eu já havia optado pela área hospitalar e queria muito intermediar a interação entre equipe médica e família.

P – Que fato mais lhe chama atenção nas aflições humanas?

R – O que mais me chama a atenção nas aflições humanas é a percepção da falta de Deus na vida das pessoas. Independente de religião, esse é um ponto crucial.

P – Nos atendimentos profissionais e mesmo nos atendimentos fraternos da atividade espírita, o que se destaca?

R – Atendendo profissionalmente ou fraternalmente, o que mais se destaca é a ausência de "respostas" na fala das pessoas em sofrimento, que entendo que seja decorrente da ausência de Deus.

P – Há uma maneira eficaz de alterar essa realidade relativa às angústias humanas?

R – Para alterar essa realidade pertinente às angústias, lanço mão da questão 919 de O Livro dos Espíritos, na qual aprendemos que o autoconhecimento é a melhor opção. Entender nossa identidade de espíritos imortais temporariamente na carne é decisivo para refinarmos nossa atuação no mundo.

P – Qual é sua percepção da atuação do movimento espírita em favor das criaturas humanas que frequentam e participam dos centros espíritas?

R – A atuação do movimento espírita é de crucial importância porque aparelha as pessoas para lidar melhor com os desafios típicos de um planeta de provas e expiações.

P – Se pudesse algo sugerir aos espíritas, o que seria?

R – Minha sugestão aos espíritas seria o estudo aprofundado da doutrina e usaria também a frase de Emmanuel: "Fazer é a melhor maneira de aconselhar". Logo, praticar o que se prega aponta para a vitória da coerência.

P – De suas lembranças, que fato sobressai?

R – Das minhas lembranças o que sobressai é a percepção clara da presença dos bons espíritos me inspirando a ir muito além da técnica e me aproximar da dimensão humana do irmão que me procura. Eu não vejo o "paciente" e sim um "irmão".

P – Algo mais que gostaria de acrescentar?

R – Eu acrescento aqui a necessidade de não "separarmos" a nossa fé e os postulados dessa doutrina abençoada da nossa prática profissional. De outra forma, é preciso evitarmos "dupla personalidade".

P – Suas palavras finais.

R – Minhas palavras finais seriam dizer da minha gratidão por esta oportunidade e apelar para você que lê minhas palavras: Conceber Deus e assumir sua identidade de espírito imortal, vivenciando o Amor em todas as oportunidades que se lhes apresente, é a melhor opção que você pode fazer hoje. A frase que mais ouço (atendendo pacientes terminais) é: "não deu tempo"; então o tempo é hoje, agora.

Transcrito de:

Revista digital O Consolador, edição 645, de 17 de novembro de 2019: http://www.oconsolador.com.br/ano13/645/entrevista.html

Joana d’Arc, a santa clariaudiente

Joana d’Arc, a santa clariaudiente

Inúmeras são, sem dúvida alguma, as polêmicas que envolvem, até os dias atuais, a vida militar, política, religiosa e espiritual da santa católica Joana d’Arc.

Conforme alguns sociólogos e historiadores contemporâneos, Joana nasceu, possivelmente, em 1412, no Reino de Lorena, o qual pertencia à França medieval.

Não podemos negar, de certa maneira, que esta santa revelou, ainda muito jovem, enorme sensibilidade humana para as coisas relacionadas com o mundo metafísico, sobrenatural ou espiritual. De fato, Joana afirmava abertamente que recebia mensagens espirituais orais do santo são Miguel, da santa Catarina de Alexandria, bem como da santa Margarida de Antioquia.

Assim, e segundo os ensinamentos técnicos, filosóficos e científicos do moderno kardecismo europeu, Joana realmente pode ter recebido mensagens espirituais através de vozes, pois ela é considerada pela história uma verdadeira paranormal clariaudiente, isto é, espécie de dom mediúnico em virtude do qual o médium ouve vozes e sons, os quais não podem ser percebidos pelos sentidos biológicos considerados comuns pela medicina materialista.

Ressalte-se, ainda, que essa santa teve significativa participação militar, política, religiosa e espiritual no que tange à Guerra dos Cem Anos, a qual, como sabemos, foi travada entre a França e a Inglaterra durante os séculos XIV e XV. Realmente, e conforme alguns relatos históricos ligados à Idade Média, esta médium europeia comandou, algumas vezes e com certo êxito, o exército francês contra as invasões promovidas pela Inglaterra.

Não obstante o enorme sucesso de suas campanhas militares, essa heroína francesa foi capturada pelas tropas inimigas no ano de 1430, e foi entregue aos cuidados do bispo Pierre Cauchon. Logo após a sua prisão, esta mártir cristã foi levada a julgamento perante as autoridades responsáveis de sua época, e foi acusada, entre outros aspectos, da prática de crimes militares, sociorreligiosos e políticos. Por conseguinte, Joana d’Arc acabou, com apenas 19 anos de idade, sendo condenada à morte na fogueira em maio de 1431. De acordo com vários pesquisadores do assunto, a execução de Joana foi presenciada por milhares de pessoas na cidade de Ruão, e suas cinzas foram, logo em seguida, jogadas no famoso rio Sena.

Alguns anos após a sua injusta e lamentável morte na fogueira, o processo que condenou Joana foi rigorosamente revisado por ordem do papa Calisto III, e os responsáveis pela revisão consideraram o processo jurídico e canônico totalmente inválido. Consequentemente, essa heroína francesa foi absolvida, entre outros aspectos, das acusações de heresias, de bruxarias e de feitiçarias.

Assim, Joana d’Arc se tornou, a partir de então, uma verdadeira mártir do cristianismo medieval, moderno e pós-moderno. Ressalte-se, por fim, que Joana foi beatificada e canonizada pela Igreja Católica Apostólica Romana somente no século XX pelo papa Bento XV.

Ricardo Lebourg Chaves

Colaborador de “O Tempo”, de Belo Horizonte.

Nota do GEECX:

Sugerimos aos interessados a leitura do livro:

Denis, Léon. Joanna D’Arc, médium. FEB.