75 anos da USE-SP – marcos históricos e relevância

75 anos da USE-SP – marcos históricos e relevância

        

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O dia 05 de junho assinala a data em que foi fundada a União Social Espírita, no ano de 1947, a atual União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo.

A origem da USE-SP já foi inédita, pois surgiu como decisão do 1o Congresso Espírita do Estado de São Paulo, realizado na capital paulista, com a representação de 551 instituições, incluindo dez mocidades espíritas autônomas. A proposta da criação da USE e de sua estrutura foi a vencedora entre 34 teses apresentadas, definindo a união de quatro entidades já existentes e que se propunham a realizar trabalho federativo. É a única federativa estadual do Brasil que surge com base em decisão de Congresso Estadual.1,2

Também assinala pioneirismo, a estrutura descentralizada, com organização em órgãos municipais e regionais, criando uma estrutura em rede, e a representatividade de centros espíritas. Isto é a USE-SP é constituída na sua base de associados pessoas jurídicas, fazendo juz ao seu nome porque reúne sociedades espíritas. A diretoria executiva é eleita pelo Conselho Deliberativo Estadual, previamente constituído em Assembleia Geral de representantes de centros espíritas.1,3,4

O entusiasmo da época de sua fundação levou-a à atuação nos preparativos e na realização do marcante 1o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita (São Paulo, 1948)5, e, nas tratativas que redundaram na assinatura do “Pacto Áureo” com a FEB (outubro de 1949). Desse acordo desdobrou-se a instalação do Conselho Federativo Nacional da FEB (janeiro de 1950) e a “Caravana da Fraternidade” (outubro e novembro de 1950).1,2,4,6

Ao longo de sua existência USE sempre estimulou a união dos espíritas, com base no estudo e difusão das obras de Allan Kardec. O livro USE – 50 anos de unificação, de autoria de Eduardo Carvalho Monteiro e Natalino D’Olivo1 teve sua gênese quando a USE, por seus presidentes, nós e Atílio Campanini, incentivamos a elaboração de um livro histórico, o qual integraria as futuras comemorações do cinquentenário de fundação da instituição. Lançado durante o X Congresso Estadual de Espiritismo da USE (São Paulo, 1997), o livro do cinquentenário da USE, focaliza a instituição modelar quanto à sua origem democrática (resultou da decisão de dirigentes de centros espíritas e nesse particular constitui experiência única e pioneira no Brasil) possui, entre seus méritos, o fato de reunir documentos importantes sobre sua história institucional no Estado de São Paulo e no Brasil.

Desde meados do século XX, as mocidades espíritas tiveram intensa e participativa atuação junto à USE-SP. Em 1956 já surgia um evento regional, a Concentração de Mocidades Espíritas da Noroeste do Estado de São Paulo (COMENOESP), depois seguida pela região Nordeste e outras regiões do Estado. Esse ativo movimento ofereceu condições para que a cidade de Marília sediasse a 1a Confraternização de Mocidades e Juventudes Espíritas do Brasil (COMJEB), em abril de 1965. E, em abril de 1967, a USE-SP promoveu seu evento estadual, a 1a Confraternização de Mocidades e Juventudes do Estado de São Paulo (COMJESP). Tivemos a honra de participar dos eventos pioneiros citados, o nacional e o estadual.1,2,4

Foram presidentes da USE-SP: Edgard Pereira Armond – 1947/1950; Francisco Carlos de Castro Neves – 1950/1952; Luiz Monteiro de Barros – 1952/1958; 1970/1974; Carlos Jordão da Silva – 1958/1970; Nestor João Masotti – 1974/1982; Antonio Schilliró – 1982/1986; Nedyr Mendes da Rocha: 1986/1990; Antonio Cesar Perri de Carvalho – 1990/1994; 1997/2000; Attílio Campanini – 1994/1997; 2000/2006; José Antonio Luiz Balieiro – 2006 a 2012; Júlia Nezu de Oliveira – 2012/2018; Aparecido José Orlando – 2018/2021. Atualmente, desde 2021, é Rosana Amado Gaspar.2,4

Cabe o destaque que um integrante de órgão da USE foi vice-presidente da FEB e dois ex-presidentes da USE foram presidentes da FEB.6

Em Roda de Conversa em Homenagem aos 75 anos da USE SP, realizada em transmissão ao vivo no dia 14 de maio de 2022, Marco Milani coordenou uma entrevista com os ex-presidentes Cesar Perri, Júlia Nezu e Aparecido J. Orlando, e, a atual presidente Rosana Gaspar. Os quatro dirigentes entrevistados comentaram as questões: Qual foi o maior desafio que você enfrentou na gestão? Qual é a relevância da USE para o movimento espírita paulista? Como vê o futuro da USE no movimento espírita? Esse evento histórico foi transmitido ao vivo pelos canais do YouTube e Facebook da USE SP.7

Na citada Roda de Conversa, atendendo às questões formuladas destacamos algumas ações nos momentos em que estávamos na condição de gestor da instituição, como: a criação do jornal Dirigente Espírita; a ênfase à Editora da USE, com mais de 30 publicações na década de 1990; participação em Bienais Livro; elaboração de novo Estatuto que unificou a sigla USE em todos os órgãos; estímulo a temas e ações sobre centro espírita e dirigentes, tendo como marco inicial o 8o Congresso Estadual de Espiritismo em 1992; apoio à Campanha Comece pelo Começo; eventos sobre educação e a proposta para a Campanha Viver em Família, aprovada pelo CFN da FEB em novembro de 1993; característica de união com autonomia, expressa em vários momentos, como: no artigo “Pragmatismo na unificação”, publicado em Dirigente Espírita (agosto de 1991); na proposta da USE de moção de apoio das Instituições que integram o Conselho Federativo Nacional, com base nas obras de Kardec e vislumbrando a dinamização do CFN, que foi aprovada por unanimidade na Reunião do CFN em 09 de novembro de 1997 (Reformador, edição de dezembro de 1997); e no Acordo de União com várias instituições paulistas em maio de 2000, que ofereceu condições para a realização do Encontro Espírita do Estado de São Paulo – ENCOESP, no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, nos dias 19 a 21 de janeiro de 2001.4,6,7

À vista das experiências marcantes vividas pela USE-SP, várias delas pioneiras e inéditas, passamos a comentar sobre a relevância da USE para o movimento espírita. Sinteticamente enumeramos alguns fatos, como a já lembrada origem em Congresso deliberativo (1947); estatuto com base na representatividade de centros (pessoas jurídicas); ação em rede e não hierarquizada; destaca atuação na preparação e realização do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita (1948); as propostas de campanhas como Comece pelo Começo, que completa 50 anos, e a Viver em Família; início de ações de orientação ao dirigente espírita; valorização do Conselho Deliberativo Estadual, integrado por representantes de todas regiões do Estado; limites para recondução em cargos diretivos (desde o Estatuto aprovado durante nossa gestão).6,7

Ao ensejo dos 75 anos da USE-SP, além do respeito e valorização dos esforços pelas experiências empreendidas, entendemos que atualmente há uma responsabilidade muito grande, um autêntico desafio, no sentido de se estimular a adequação e a dinamização do movimento espírita, no contexto da sociedade multicultural, multicêntrica e midiática de nossos dias.

Referências:

1) Anais do 1o Congresso Espírita do Estado de São Paulo. Edição digital: https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2020/07/1947-Anais-1.pdf;

2) Monteiro, Eduardo Carvalho; D’Olivo, Natalino. USE – 50 anos de unificação. São Paulo: USE. 1997.

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Centro espírita. Prática espírita e cristã. São Paulo: USE. 2016.

4) Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? Capivari: EME. 2018.

5) Anais do 1o Congresso Brasileiro de Unificação Espírita. Edição digital: https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2020/02/anais_1_congresso.pdf;

6) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Pelos caminhos da vida. Memórias e reflexões. Araçatuba: Cocriação. 2021.

7) Roda de Conversa em Homenagem aos 75 anos da USE SP – Link: https://www.youtube.com/watch?v=erZtNzXOs8s;

Pesquisa aponta mudanças na religiosidade

Pesquisa aponta mudanças na religiosidade

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Recentemente, em meados de maio de 2022, participamos de dois programas “on line” em que estabelecemos relações integradas sobre o movimento espírita, família e o contexto da atualidade.

Atuamos nos programas “Roda de Conversa em Homenagem aos 75 anos da USE SP”, coordenada por Marco Milani, em que abordamos sobre as expectativas com relação ao futuro do movimento espírita1, e, em outro programa, desenvolvemos o tema “Papel da mãe na educação do espírito imortal”, com coordenação de Najla Loureiro em evento Associação Espírita Célia Xavier, de Belo Horizonte (MG)2.

Nos dois eventos virtuais focalizamos o resultado de pesquisa recente sobre a religiosidade do segmento mais jovem do país efetivada pelo Datafolha e divulgada no início de maio de 2022.

A pesquisa do Datafolha3 mostra que entre os jovens de 16 a 24 anos, o percentual dos sem religião chega a 25% em âmbito nacional. Especificamente no Rio de Janeiro e São Paulo, o crescimento dos brasileiros que se dizem "sem religião" é ainda mais marcante, particularmente entre os jovens. Os sem religião na faixa etária de 16 a 24 anos são numerosos: em São Paulo chegam a 30% dos entrevistados, superando evangélicos (27%), católicos (24%) e outras religiões (19%); no Rio de Janeiro, chegam a 34%, também acima de evangélicos (32%), católicos (17%) e demais religiões (17%). Os responsáveis pela pesquisa entrevistaram alguns especialistas sobre esse tema. Entre outras análises comentaram: "Então esse sujeito é sem religião porque não está vinculado a uma igreja, porque não frequenta, mas pode ter crenças relacionadas a alguma religião que já teve ou ter uma dimensão mais pluralista da religiosidade".3

Em contato com socióloga e pesquisadora do Instituto Superior de Estudos da Religião, Regina Novaes, essa observou que a fase dos 16 aos 24 anos, onde os "sem religião" são mais presentes, é uma fase de experimentação. Entre os fatores que podem explicar esse cenário há o aumento de famílias plurirreligiosas e a ampla rede de múltiplas fontes de informação, completamente diferente das faixas etárias, por exemplo, dos idosos, “cuja sociabilidade muitas vezes é restrita à família e à igreja”. Há a hipótese de que "A maior parcela dos sem religião tem a ver com uma desinstitucionalização, o que quer dizer que o sujeito está afastado das instituições religiosas, mas ele pode ter uma visão de mundo e até mesmo práticas pessoais informadas por crenças religiosas".3

Nas análises de especialistas sobre a pesquisa do Datafolha parece-nos claro que "há uma trajetória de busca e experimentação que foi colocada para as novas gerações que não era colocada para as antigas"; o afastamento de instituições religiosas, e que há “outros modos de ter fé".

Esses dados da atualidade devem representar um estímulo para oportunas e rápidas análises e avaliações no contexto do movimento espírita, com destaque para as formas de atuação dentro dos centros espíritas; o nítido afastamento da faixa etária que foi um dos principais objetos da pesquisa do Datafolha que, especificamente, sobre a faixa jovem no segmento espírita, já vínhamos apontando resultados preocupantes do censo do IBGE de 2010.4

E, sem dúvida para o preparo e adequações necessárias para se lidar com as famílias dos frequentadores, e notadamente das faixas etárias jovens, que parecem não estar muito presente ou ativa no seio do movimento espírita.4

Referências:

1) Link para acesso do programa da USE-SP (copie e cole): https://www.youtube.com/watch?v=erZtNzXOs8s;

2) Link para acesso do programa da AECX (copie e cole): https://www.youtube.com/watch?v=kKmIESZdadA;

3) Jovens sem religião superam católicos e evangélicos (copie e cole): https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2022/05/09/jovens-sem-religiao-superam-catolicos-e-evangelicos-em-sp-e-rio.ghtml; consulta em 27/05/2022;.

4) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Pelos caminhos da vida. Memórias e reflexões. Araçatuba: Cocriação. 2021. 632p.

Viagem histórica de Chico Xavier aos EUA

Viagem histórica de Chico Xavier aos EUA

           

Antonio Cesar Perri de Carvalho

No dia 22 de maio de 1965, Chico Xavier e Waldo Vieira embarcaram para os Estados Unidos. Trata-se de viagem histórica: a primeira viagem de Chico Xavier ao exterior e a pioneira incursão de vulto espírita notável em terras da América do Norte.

Os dois médiuns, acompanhados por Irineu Alves, permaneceram por dois meses nos Estados Unidos, visitando nove Estados daquele país.(1) Essa viagem foi resultante de muitos contatos com espíritas já radicados nos Estados Unidos, principalmente Salim Salomão Haddad que mantinha continuados contatos com Chico Xavier.

Naquela excursão doutrinária foram visitadas muitas instituições e bibliotecas. Destacam-se: Biblioteca do Congresso, em Washington; Biblioteca Pública de Nova York; local onde viveram as Irmãs Fox; vários institutos espiritualistas; Biblioteca da Organização das Nações Unidas, em Nova York; sempre procurando informações de caráter espírita ligadas à estatística e divulgação. Os visitantes estabeleceram contato com o casal Phyllie e Salim Haddad, Newton Harrison; Luis Guerreiro Ovalle, do grupo de imigrantes latino-americanos, em Miami.

Foi assinado contrato com a Philosophical Library, de Nova York, para a publicação do “Ideal Espírita” em inglês. Na presença dos dois médiuns visitantes houve fundação da Comunhão Espírita Cristã dos EUA (o “Christian Spirit Center”), iniciativa de Salim Haddad, que passou a ser um marco para o estudo e divulgação do Espiritismo nos EUA.

Nessa memorável viagem Chico Xavier e Waldo Vieira foram levados por amigos lá radicados para visitarem o túmulo do presidente John Kennedy no histórico Cemitério de Arlington, contíguo a Washington.

Várias mensagens foram psicografadas nos Estados Unidos, algumas delas em inglês e assinadas por vultos daquele país, e que foram publicadas no livro Entre irmãos de outras terras (2). Nesta obra não há nenhuma referência sobre o acima citado vulto americano.

Dos Estados Unidos os dois médiuns seguiram para a Europa. Mas, há um fato ocorrido na noite de 28 de Julho de 1971, em momento histórico para São Paulo e para o Brasil: o marcante ”Pinga Fogo” do Canal 4 – TV Tupi de São Paulo. Francisco Cândido Xavier, o médium psicógrafo de Uberaba, submeteu-se aos entrevistadores em programa ao vivo. Um dos entrevistadores, Almir Guimarães, transmite pergunta de Mauro Marcondes Filho, advogado, que “deseja saber se os seus guias espirituais já o informaram sobre a situação espiritual de Kennedy, De Gaulle, Stalin e Churchill, os maiores líderes políticos deste século”.

Chico Xavier responde: "— Seria para mim muito difícil estabelecer um sistema de informações nesse particular, conquanto admire profundamente o presidente Kennedy. Não tenho maior conhecimento dessa missão do general De Gaulle, que admiro também muitíssimo, e Churchill, por haver comandado a empresa de defender a civilização ocidental; e de Stalin também não tenho maior conhecimento. Sei por informações de amigos norte-americanos que o presidente Kennedy continua trabalhando (no mundo espiritual) pelo progresso das idéias de emancipação e pela integração das raças e pela fraternidade do povo americano e dos povos dos continentes do mundo. É o único de que eu posso dar informações." (3)

Independentemente dessa viagem histórica, há um episódio marcante relacionado com as terras americanas que é interessante. Em outra obra psicografada por Chico Xavier, Estante da Vida, o espírito Humberto de Campos registra uma entrevista com o espírito Marylin Monroe – “Encontro em Hollywood” -, em que a atriz desencarnada relata seu estado de fadiga, doente, e que “a tese do suicídio não é verdadeira como foi comentada”.(4)

O livro Entre Irmãos de Outras Terras, já traduzido para o inglês por Vanessa Anseloni, traz análises e recomendações significativas.

Entre as orientações, destacamos um trecho de autoria de André Luiz:

"Fugir da exibição pessoal. Guardar discrição e simplicidade. Acatar os sistemas de trabalho espiritual que observe diferentes daqueles a que se afeiçoe. Evitar críticas e discussões. Furtar-se de comprometer a Doutrina Espírita em quaisquer atitudes, mormente aquelas que se relacionem com o interesse próprio." (2)

Referências:

1. Alves, Irineu. Chico Xavier e Waldo Vieira nos EE.UU. e na Europa. Anuário Espírita 1966. Araras: IDE. 1966. P. 65-85.

2. Xavier, Francisco Cândido; Vieira, Waldo. Espíritos diversos. Entre irmãos de outras terras. 3 ed. 1a. parte, cap. 1. Rio de Janeiro: FEB. 1976. (Traduzido: Among Brothers of Other Lands. EDICEI).

3. Xavier, Francisco Cândido; Gomes, Saulo (Org). Pinga-Fogo com Chico Xavier. Catanduva: Intervidas. 2010. P.66.

4. Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Irmão X. Estante da vida. 10 ed. Cap. 1. Rio de Janeiro: FEB. 2009.

95 anos da conversão de Chico Xavier

95 anos da conversão de Chico Xavier

Antonio Cesar Perri de Carvalho

No dia 07 de maio completou-se 95 anos do início do processo acelerado de conversão de Chico Xavier.

Embora médium natural desde os cinco anos de idade Chico Xavier chegou a ser chamado “menino aluado” pela sua madrinha, nos primeiros contatos que ele mantinha com sua mãe desencarnada Maria João de Deus.(1)

Fato histórico aconteceu na casa da família Xavier, em Pedro Leopoldo, no dia 07 de maio de 1927, para o atendimento da jovem Maria da Conceição Xavier, uma das irmãs mais velhas de Chico e que se encontrava obsidiada. O casal de médiuns Carmem e José Hermínio Perácio lá compareceu e o jovem Chico, com 17 anos de idade e católico praticante, acompanhou as leituras, prece e passe para o atendimento de sua irmã. No final, o espírito Maria João de Deus enviou recado ao filho Chico: “Os livros à nossa frente são dois tesouros de luz”, referindo-se a “O Livro dos Espíritos” e “O Evangelho segundo o Espiritismo” que o casal visitante deixava naquele lar.(1)

Chico leu avidamente as duas obras de Kardec e poucos dias depois estava convencido do magistral conteúdo e no dia 21 de junho de 1927 juntamente com irmãos e amigos fundava o Centro Espírita Luiz Gonzaga, em Pedro Leopoldo. Logo depois, no dia 08 de julho de 1927 psicografou uma mensagem pela primeira vez, assinada “um espírito amigo”.(1,2)

Em “Palavras minhas” na abertura do livro pioneiro “Parnaso de Além Túmulo” o próprio médium relata seus percalços iniciais até o contato com o casal Perácio.

Em julho de 2010, aproveitando compromissos nossos na Semana Chico Xavier no Centro Espírita Luiz Gonzaga, em Pedro Leopoldo, fomos a Sabará (MG) levados por Wagner Gomes Paixão e acompanhado de nossa esposa Célia Maria Rey de Carvalho e do filho Flávio Rey de Carvalho. Contando com carinhosa recepção entrevistamos Sidália juntamente com seu irmão Paulo Pedro Pena, filhos de Maria da Conceição Xavier. Os irmãos Sidália e Paulo nos relataram fatos marcantes da dedicação da genitora deles ao Espiritismo, as dificuldades dela e de familiares. Visitamos as obras fundadas por Maria da Conceição e seu marido em Sabará. Logo depois publicamos uma entrevista na revista “Reformador”, com o casal de filhos de Maria da Conceição.(2)

Carlos Alberto Braga Costa elaborou detalhada e bem documentada pesquisa sobre a família Xavier, priorizando Maria da Conceição Xavier Pena (1907-1980), seus familiares, obras que fundaram em Sabará e as relações de Chico Xavier com essa irmã. Tivemos a honra de prefaciar esse livro histórico.(3)

Assim, destacamos que a genitora desencarnada de Chico indicou o roteiro novo ao filho.

A partir do dia 07 de maio de 1927 iniciava-se a missão do notável médium de nossa Civilização e com ações céleres, pois num período de 60 dias Chico Xavier leu os “tesouros” – as duas obras citada de Allan Kardec, efetivou-se a fundação do Centro Espírita Luiz Gonzaga, de Pedro Leopoldo, e ali ocorreu sua primeira psicografia.

Referências:

1) Gama, Ramiro. Lindos casos de Chico Xavier. 19ª ed. São Paulo: LAKE. 214p.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier. O homem, a obra e as repercussões. 1.ed. Capivari: EME; São Paulo: USE-SP. 2019. 224p.

3) Costa, Carlos Alberto Braga. Chico Xavier. Do calvário à redenção. Combatentes pacíficos. 1.ed. Capivari: EME. 2019. 272p.

Guerra e paz

Guerra e paz

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Nos últimos meses o mundo acompanha estarrecido o que seria inimaginável nesse século: a invasão de um país com terríveis atrocidades. Há tentativas de justificativas e falas diplomáticas, mas é evidente o desrespeito à soberania de um país e a direitos e valores humanos.

Em meio a um turbilhão de pensamentos para se buscar a explicação espiritual sobre o triste episódio de nossos tempos, veio à nossa mente a trajetória do destacado literato russo Lev Nikolaievitch Tolstoi, conhecido apenas como Leon Tolstoi (1828-1910). Esse carismático escritor tornou-se conhecido com seu romance Guerra e paz, onde focaliza a invasão da Rússia por Napoleão Bonaparte, entremeando enredo de amores e aventuras de alguns personagens. Inicialmente foi publicado em série em periódico entre 1865 e 1869. Torna-se interessante pinçarmos alguns lances da linha de pensamento desenvolvida por Tolstoi.

Os analistas do escritor comentam que na década de 1870, ele viveu uma profunda crise moral, em seguida caminhando para interesses espirituais. No romance Ressurreição (1899) defende idéias ligadas à justiça social, fundamentando-se em filosofia econômica do intelectual Henry George. Tolstoi critica a injustiça das leis humanas e as posições falsas e hipócritas das igrejas cristãs. Sua vida foi marcada por protagonismos políticos e religiosos e nos seus últimos anos defendia o amor e a não-violência. Seria uma resistência ou ação não violenta para se atingir uma meta sociopolítica através de protestos simbólicos, de não cooperação econômica ou política, até a desobediência civil, mas sem o uso da violência. Tolstoi baseia-se em frase de Cristo sobre o oferecimento da “outra face”, para se evitar a violência e a vingança.

Nessa nova etapa de sua existência, deteve-se no estudo do Sermão da Montanha e se transformou numa espécie de anarquista cristão e pacifista. Ao longo de sua vida na conturbada Rússia dos Czares, claramente se nota uma evolução na sua visão sobre a sociedade.

No fundo procurava entender a essência da “lei áurea” ensinada pelo Cristo. Como espírito liberto, utilizando a mediunidade de Yvonne do Amaral Pereira, elaborou a obra Ressurreição e vida1, publicada em 1964. O autor espiritual desenvolve seis contos ou mini-romances, que seriam reais, ambientados na Rússia dos czares Romanov. A temática ressurreição é tratada em referência às aparições de Jesus. Destacamos que o autor espiritual acrescenta ao título de sua obra como encarnado Ressurreição, o verbete “vida”, no sentido amplo de vida espiritual.

Nessa obra mediúnica, o espírito Tolstoi realça que apenas uma sólida educação moral-intelectual com base nos ensinos de Jesus poderá encaminhar o homem para o cultivo das virtudes e relata o encontro espiritual com um luminar do cristianismo e a aceitação de seus ensinos:

“Foi esse um dos mestres que encontrei aquém do túmulo. Seus ensinamentos, os exemplos de ternura em favor do próximo, que me deu, revigoraram minhas forças. Sob seus conselhos amorosos orientei-me, dispondo-me a realizações conciliadoras da consciência. E se tu, meu amigo, desejas encontrar aquele reino de Deus de que Jesus dá notícias, ama os desgraçados! Cada lágrima que enxugares em seus olhos, cada conselho bom que dispensares ao pobre desarvorado da vida é mais um passo que darás em direção a esse reino que, finalmente, encontrarás dentro do teu próprio coração, que assim aprendeu o cumprimento da suprema Lei: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo…”1 Trata-se de uma alusão a registros de Mateus (22, 37-39).

As ideias de Tolstoi sobre não-violência e, depois, do “lado de lá”, são claramente vinculadas ao amor ao próximo e oferecem subsídios para algumas considerações doutrinárias sobre os preocupantes episódios da atualidade.

Torna-se oportuna a fundamentação em trechos das obras básicas de Allan Kardec. Em O livro dos espíritos há o esclarecimento porque o homem é impelido à guerra:

“Predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e transbordamento das paixões. No estado de barbaria, os povos um só direito conhecem — o do mais forte. Por isso é que, para tais povos, o de guerra é um estado normal. À medida que o homem progride, menos frequente se torna a guerra…”2

“Que se deve pensar daquele que suscita a guerra para proveito seu? – Grande culpado é esse e muitas existências lhe serão necessárias para expiar todos os assassínios de que haja sido causa, porquanto responderá por todos os homens cuja morte tenha causado para satisfazer à sua ambição.”2

O espírito Francisco Xavier deixa claro em O evangelho segundo o espiritismo:

“Quando a caridade regular a conduta dos homens, eles conformarão seus atos e palavras a esta máxima:

‘Não façais aos outros o que não quiserdes que vos façam.’ Verificando-se isso, desaparecerão todas as causas de dissensões e, com elas, as dos duelos e das guerras, que são os duelos de povo a povo”.3

Após a citação dessas obras do Codificador, destacamos que habitamos um mundo chamado de provas e expiações, onde ocorrem constantes embates entre luz e trevas. Há muitas expectativas, mas o mundo de regeneração se estabelecerá com um longo processo de transformação.

Essa caminhada – com uma cultura de paz – começa pela transformação do indivíduo e a profilaxia das várias formas de violência (verbal, física, social e vibratória), mas precisa ser elaborada desde os lares – alicerces da sociedade -, nas instituições de ensino, nas relações sociais em geral para que reflitam nas propostas, ações e decisões político-partidárias. A não-violência deve ser cultivada desde as bases da sociedade.

Referências:

1) Pereira, Yvonne Amaral. Pelo espírito Léon Tolstoi. Ressurreição e vida. Cap. Conclusão. Brasília: FEB.

2) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos espíritos. Q. 742-745. Brasília: FEB.

3) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O evangelho segundo o espiritismo. Cap.XII, item 14. Brasília: FEB.

Nota:

Síntese de artigo “O amor e a não-violência”, do mesmo autor, publicado na revista digital A Senda, da FEEES, maio-junho de 2022. Acesse a revista pelo link(copie e cole): https://www.feees.org.br/revista-senda/a-senda-maio-junho-2022/

Mães em livros de Chico Xavier

Mães em livros de Chico Xavier

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Pela passagem do “dia das mães”, focalizamos informações e trechos de algumas obras psicografadas por Chico Xavier. Na realidade o tema é desenvolvido em vários estilos e por diversos autores espirituais em muitos livros do médium.

De início, destacamos episódios sobre sua mãe, Maria João de Deus, desencarnada aos 29/09/1915 quando Chico tinha apenas cinco anos de idade. Muitos relatos existem sobre os momentos difíceis vividos pela criança que era médium natural e via e ouvia sua mãe, sempre ameaçado e punido pela madrinha Rita que o considerava um “menino aluado”. Até que seu pai casou-se com Cidália Batista, que reuniu todos os filhos do marido e Chico a considerou um “anjo bom”.(1)

Fato histórico aconteceu na casa da família Xavier, em Pedro Leopoldo, no dia 07 de maio de 1927, para o atendimento da jovem Maria da Conceição Xavier que se encontrava obsidiada. O casal de médiuns Carmem e José Hermínio Perácio lá compareceu e o jovem Chico, com 17 anos de idade e católico praticante, acompanhou as leituras, prece e passe para o atendimento de sua irmã. No final, o espírito Maria João de Deus enviou recado ao filho Chico: “Os livros à nossa frente não dois tesouros de luz”, referindo-se a “O Livro dos Espíritos” e “O Evangelho segundo o Espiritismo” que o casal visitante deixava naquele lar. Chico leu avidamente as duas obras de Kardec e poucos dias depois estava convencido do magistral conteúdo e no final de junho de 1927 juntamente com irmãos e amigos fundava o Centro Espírita Luiz Gonzaga, em Pedro Leopoldo.(1)

A genitora desencarnada de Chico indicou o roteiro novo ao filho. Iniciava-se a missão do maior médium de nossa Civilização.

No ano de 1935 vinha a lume a obra “Cartas de uma morta”, do espírito Maria João de Deus, editado pela LAKE de São Paulo. Esse histórico segundo livro psicografado por Chico tem sua mãe como autora espiritual. Ela descreve vários momentos de sua situação espiritual e apresenta diversos aspectos do mundo dos Espíritos, chegando até a descrição sobre o planeta Marte.(2)

Entre muitas produções psicográficas de Chico Xavier no ano de 1971, surge a de número 108 – “Mãe” -, uma antologia mediúnica publicada pela Casa Editora O Clarim.(3) Nessa obra foram reunidas dezenas de mensagens psicografadas pelo médium e assinadas por diversos espíritos. Em “Mãe”, Wallace Valentim Rodrigues assina substancioso prefácio historiando a origem da comemoração do “dia das mães”, idealizado pela americana Anna Jarvis.

O espírito Meimei faz a apresentação espiritual: “Mãezinha. Enquanto o mundo te adorna a presença com legendas sublimes, abrilhantando-te o nome, quis trazer-te a homenagem de meu reconhecimento e de meu carinho, segundo as dimensões de tua bondade, e te rememorei os sacrifícios… – se te posso entregar algo mais, deixa que te oferte o meu próprio coração, neste livro de ternura, por dádiva singela de minha confiança e carinho, num ramalhete de amor. Uberaba, 01 de março de 1.971”. (3)

Dessa Antologia Mediúnica destacamos alguns trechos. O espírito Maria João de Deus homenageia Celina, da equipe de Maria: “Quando elevamos ao céu nosso olhar suplicante, há para todos nós, os que se afligem na provação, uma carinhosa e compassiva Mãe que nos ampara e consola… Compadece-se de nossa dor, contempla-nos com misericórdia e manda-nos então o anjo da sua bondade, para balsamizar nossos padecimentos… É Celina, a suave mensageira da Virgem, a Mãe de todas as mães, o gênio tutelar da humanidade sofredora…” (3)

Sempre terna, Maria Dolores anota: “Entretanto, meu Deus, mais do que tudo, agradeço-te em prece enternecida O regaço materno que me trouxe para a glória da vida!… Em tudo, em todo o tempo e em toda a parte, sê bendito, Senhor, Pela santa Mãezinha que me deste, me tesouro de amor!” (3)

André Luiz alerta: “Mães da Terra! Mães anônimas! Sois vasos eleitos para a luz da reencarnação! Por maiores se façam os suplícios impostos à vossa frente, não recuseis vosso augusto dever, nem susteis o hálito do filhinho nascente – esperança do Céu a repontar-vos do peito!… Não surge o berço em vosso coração por acaso.” (3)

Notável orientador, Emmanuel pondera: “Quando te vejas, diante de filhos crescidos lúcidos, erguidos à condição de dolorosos problemas do espírito, recorda que são eles credores do passado a te pedirem o resgate de velhas contas. Busca auxiliá-los e sustentá-los com abnegação e ternura, ainda que isso te custe todos os sacrifícios, porque, no justo instante em que a consciência te afirme tudo haveres efetuado 129 para enriquecê-los de educação e trabalho, dignidade e alegria, terás conquistado em silêncio, o luminoso certificado de tua própria libertação.” (3)

Sempre poeta, Bittencourt Sampaio refere-se a Maria: “Filhas da terra, mães, irmãs, esposas,/ No turbilhão dos homens e das cousas,/ Imitai-A no dor do vosso trilho!…/ Não conserveis do mundo o brilho e as palmas,/ E encontrareis no íntimo das almas, A alegria do reino de Seu Filho!” (3)

Nessa síntese fica clara a relação amorosa e orientadora de Maria João de Deus com o filho e este, como psicógrafo, sendo intermediário de esclarecimentos sobre o papel das mães na ótica espiritual.

Referências:

1) Gama, Ramiro. Lindos casos de Chico Xavier. 19ª ed. São Paulo: LAKE. 214p.

2) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Maria João de Deus. Cartas de uma morta. 9ª ed. São Paulo: LAKE. 86p.

3) Xavier, Francisco Cândido. Espíritos diversos. Mãe. Antologia mediúnica. 3ª ed. Matão: O Clarim. 224p.

Datas espíritas marcantes de abril

Datas espíritas marcantes de abril

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O mês de abril assinala algumas efemérides marcantes para o movimento espírita.

Eis algumas datas significativas:

2 de abril:

No ano de 1910 nasceu Francisco Cândido Xavier, em Pedro Leopoldo (MG) que veio a desempenhar inigualável missão devotado à mediunidade, ao próximo e ao bem.

11 de abril:

Na cidade do Rio de Janeiro desencarnava o dr. Adolfo Bezerra de Menezes, no ano de 1900, o marcante líder espírita do século XIX e presidente da FEB.

12 de abril:

Desencarnava em Tours (França), no ano de 1927, Léon Denis, um autêntico continuador de Allan Kardec e consolidador do movimento espírita francês.

13 de abril:

Nascia no ano de 1879 em João Pessoa (Pb), Leopoldo Cirne, destacado presidente da FEB.

15 de abril:

Em Paris, no ano de 1864, Allan Kardec lançava “Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo”, depois designado “O Evangelho segundo o Espiritismo”.

18 de abril: Allan Kardec lançava em Paris “O Livro dos Espíritos”, marco inaugural do Espíritismo, no ano de 1857.

Interessantes são as relações entre os vultos lembrados com essas duas obras básicas do Codificador.

Chico Xavier leu as duas obras aos 17 anos de idade em seguida ao atendimento do casal Perácio à sua irmã Maria da Conceição. Mais tarde Emmanuel recomendou que ele sempre fosse fiel a Jesus e a Kardec. Em todas as reuniões públicas nos Centros de Pedro Leopoldo e Uberaba, Chico as iniciava com a leitura de “O Livro dos Espíritos” e “O Evangelho segundo o Espiritismo”.

Bezerra de Menezes e mais intensamente Leopoldo Cirne estimularam estudos e palestras sobre esses livros na FEB.

Léon Denis escreveu várias obras aprofundando temas desses livros e sempre foi extremamente fiel a Kardec.

Muito oportuna a mensagem intitulada “Unificação”, de autoria do espírito Bezerra de Menezes e psicografada por Chico Xavier no ano de 1963. Destacamos um trecho:

“Seja Allan Kardec, não apenas crido ou sentido, apregoado ou manifestado, a nossa bandeira, mas suficientemente vivido, sofrido, chorado e realizado em nossas próprias vidas. Sem essa base é difícil forjar o caráter espírita-cristão que o mundo conturbado espera de nós pela unificação.”

Bezerra de Menezes – 122 anos da partida espiritual

Bezerra de Menezes – 122 anos da partida espiritual

Antonio Cesar Perri de Carvalho (1)

No dia 11 de abril de 1900 desencarnava o dr. Adolfo Bezerra de Menezes, no Rio de Janeiro. Foram alguns meses de situação terminal após sofrer um acidente vascular cerebral.

A vida de Bezerra de Menezes foi extremamente profícua de realizações em favor do cidadão do século XIX. Era um vulto extremamente conhecido e respeitado na então capital do país, a cidade do Rio de Janeiro.

A trajetória frutífera de Adolfo Bezerra de Menezes (1831-1900) foi detalhada na portentosa pesquisa sobre sua vida e obra, o recente livro “Bezerra de Menezes: o homem, seu tempo e sua missão”, de autoria de Luciano Klein.

Bezerra se envolveu de maneira dedicada em diferentes frentes de atuação, protagonizando lances que o diferenciavam no século XIX, pelo amor vivido em cada atitude, a bem de todos, como médico, político, empresário, pesquisador/cientista, escritor, tradutor e biógrafo.

O novo livro com mais mil páginas detalha várias nuances da dedicada atuação de Bezerra junto à população em geral e surgem informações inéditas fundamentadas em pesquisas e reproduções da imprensa do Rio de Janeiro, do século XIX. A pesquisa de Luciano Klein contribui com subsídios para a compreensão da atuação de Bezerra. Além de ser o médico extremamente dedicado e detentor do diploma oficial de “Médico dos Pobres”, o vulto nobre exerceu ações político-partidárias, parlamentares e executivas nos períodos do Império e início da República.

Aliás esse conjunto de atividades ocupou Bezerra durante a maior parte de sua existência, pois a conversão ao Espiritismo e sua atuação como espírita se desenvolveram nos últimos 13 anos de sua vida. Inclusive Bezerra exerceu atividades político-partidárias até concomitante aos seus encargos espíritas.

Além da leitura de "O livro dos espíritos", os contatos com médiuns na fase prévia à sua conversão ao Espiritismo foram marcantes, inclusive o tratamento espiritual do filho, Adolfo Júnior, alvo de obsessão e tratado por médiuns espíritas, fato motivador para a pesquisa de Bezerra que gerou a obra “A Loucura sob novo Prisma”. Esse livro de Bezerra, que muito apreciamos, foi inicialmente editado pelos seus filhos em 1920, e, posteriormente pela FEB em 1946.

Na última década de existência, Bezerra manteve relações com lideranças espíritas inclusive na então novel Federação Espírita Brasileira, da qual foi presidente em duas oportunidades (1889-1890 e 1895-1900) e vice-presidente (1890-1891). Bezerra enfrentou muitas resistências nos encargos espíritas e no contexto do nascente movimento espírita da cidade do Rio de Janeiro.

As ideias de Bezerra sobre união dos espíritas, registradas em vida em jornais leigos da cidade e na revista Reformador, na realidade foram institucionalizadas e implementadas pelo seu vice-presidente na FEB e sucessor, Leopoldo Cirne, notadamente a partir do Congresso que este convocou para comemorar o Centenário de nascimento de Kardec, em outubro de 1904, quando foi aprovado o documento “Bases de Organização Espírita”.

Registramos nosso respeito e homenagens ao eminente vulto do Espiritismo em nosso país.

Referência: Klein, Luciano. Bezerra de Menezes. O homem, seu tempo e sua missão. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora. 2021. 1192p.

1) Foi presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e da Federação Espírita Brasileira; foi membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional.

Chico Xavier – vulto do bem e da paz

Chico Xavier – vulto do bem e da paz

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Dia 2 de abril, há 112 anos atrás, nascia Chico Xavier, em Pedro Leopoldo (MG).

Fato marcante foi a homenagem por ocasião do Centenário de nascimento do médium na terra natal, no dia 02 de abril de 2010, com participação da Banda da Polícia Militar de Minas Gerais e a inauguração do Memorial Chico Xavier, anexo ao Centro Espírita Luiz Gonzaga, que ele fundou em 1927.

Na época, como diretor da Federação Espírita Brasileira, tivemos a honra de coordenar em nível nacional o “Projeto Centenário de Chico Xavier”, executado durante o ano de 2010, que redundou em mais de 600 comemorações em todo o país. Aí se incluiu a criação do “Espaço Cultural Chico Xavier” na Fazenda Modelo, em Pedro Leopoldo, a terra natal de Chico Xavier, e um Congresso Espírita Brasileiro.

Reflexos e desdobramentos marcantes prosseguem.

Haja vista os filmes “Chico Xavier”, “Nosso Lar” e “E a vida continua…”; os dois últimos baseados em livros psicografados por Chico Xavier.

Evento histórico aconteceu na sede da Organização das Nações Unidas-ONU, em Nova York, aos 06 de agosto de 2010: o “Tributo a Chico Xavier”, no qual comparecemos juntamente com Nestor Masotti.

Em 2012, a TV SBT promoveu uma competição sobre vultos e Chico Xavier foi o vencedor, sendo considerado “O Maior Brasileiro de Todos os Tempos”.

O Governo de Minas Gerais criou a “Comenda da Paz Chico Xavier”.

Provavelmente como repercussão das comemorações do Centenário de Chico, fomos agraciados e recebemos a honraria das mãos do governador do Estado Antonio Anastasia, em cerimônia realizada em Uberaba em março de 2013.

A “Rede Amigo Espírita” (RAETV) produziu um marco histórico, não apenas para o movimento espírita brasileiro, mas mundial. Contando com parcerias de webTVs e webRádios e concretizou o maior evento on line, em agosto de 2020 -, e com um objetivo nobilíssimo: em homenagem aos 110 anos de nascimento de Chico Xavier e no final do evento havia cerca de 500 mil visualizações.

Em livro lançado no ano passado – Pelos caminhos da vida. Memórias e reflexões (Cocriação Editora, Araçatuba), registramos nossas homenagens ao grande vulto do Espiritismo, em função dos momentos que ainda residente em Araçatuba, visitávamos com frequência Chico Xavier em Uberaba, e, até episódios recentes que repercutem a vida e obra do notável vulto.

Atualmente, a Estação Dama da Caridade Benedita Fernandes, canal do You Tube gerado em Araçatuba, focaliza a vida e obra do médium aos sábados às 17 horas no programa “Chico Xavier – 20 anos da partida…”

Chico Xavier prossegue sendo lembrado pelo exemplo de vida e pelos seus livros psicografados, como um arauto do bem e da paz!

(*) Foi dirigente em Araçatuba, presidente da USE-SP e da FEB.

Drama dos refugiados e as portas de acolhimento e solidariedade

Drama dos refugiados e as portas de acolhimento e solidariedade

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A invasão da Ucrânia provocou inimagináveis dramas humanos em níveis sociais gerais e familiares. Dados da ONU registram que esse triste episódio gerou a maior crise humanitária da Europa após a 2ª Guerra Mundial. Quem poderia imaginar que no período de um mês ocorreu o maior fluxo migratório da história européia recente, pois mais de três milhões e setecentos mil pessoas precisaram sair da Ucrânia em direção aos países europeus das fronteiras a oeste, principalmente para a Polônia.

Aliás, a solidariedade política e humana foi indelevelmente marcada pela Polônia, recebendo refugiados ou servindo como local de trânsito para outros países. Nas proximidades da fronteira com a Ucrânia foram montados postos de atendimento, tendas de apoio estabelecidas por pessoas físicas e organizações internacionais de apoio humanístico. Inclusive, vimos registros da presença da tradicional organização Cáritas, ligada à Igreja Católica. A Europa e vários países se abriram para receber os refugiados vindos da Ucrânia. Inclusive, informações oriundas da Polícia Federal do Brasil dão conta que até a 3ª semana de março, cerca de 900 ucranianos já haviam desembarcado no país.

É sabido que alguns Estados do Sul do país contém antigas colônias de imigrantes daquele país. As fugas de refugiados para países europeus, sem dúvida, também têm cenas de desrespeito aos direitos humanos. Mas no momento tem predominado o acolhimento a eles. Aliás, nas primeiras décadas do Século XX o Brasil acolheu milhares de refugiados provenientes da Ucrânia, Armênia, antiga Rússia e outros países próximos, em virtude das revoluções e guerras locais. E, sem dúvida, de muitos judeus.

Na nossa infância chegamos a conhecer uma idosa e excelente professora de piano em nossa terra natal, a sra. Camila Tomashinsky, que orientou familiar nossa. A família dela precisou fugir da Rússia porque eram ligados artisticamente ao último Czar Romanov, em seguida à queda do monarca. A cidade de Araçatuba a homenageou colocando seu nome em Escola Municipal de Ensino Básico.

Nos últimos anos, nosso país recebeu grandes contingentes de imigrantes da Venezuela, do Haiti, vários países da África, do Oriente Médio e Afeganistão.

Em novembro de 2015, em viagem doutrinária para Viena, tivemos a oportunidade de conhecer um posto da organização Cáritas, para atendimento a refugiados principalmente sírios. Ficamos impressionados com as situações das famílias atendidas e recebemos informações sobre o apoio do governo da Áustria da época. Fizemos o registro artigo na Revista Internacional de Espiritismo e depois no nosso recente livro Pelos caminhos da vida. Memória e reflexões.(1)

O drama dos refugiados e as oportunidades que se abrem em tarefas de acolhimento e de solidariedade criam cenários muito marcantes na atualidade.

A propósito, nada mais oportuno do que transcrevermos trechos de texto do espírito Emmanuel:

“Em Doutrina Espírita falas de calamidades e tempos difíceis, simbolizando a própria situação como sendo a de alguém que se vê ante o rigor da tempestade. […] Não te esqueças, assim, dos companheiros expostos à intempérie, que te batem às portas do coração. Chegam de todas as procedências. Trilharam caminhos ásperos à procura de entendimento. […] Acolhe-os como puderes e faze-lhes o bem que possas. São refugiados em tua construção de fé sem serem ainda viajores de espírito perfeito. Qual nos ocorre, erigem-se por agora à posição de criaturas em evolução, entre erro e acerto, sombra e luz. E se alguém te recriminar porque lhes estendas braços fraternos, insiste no bem e estende o bem, recordando as palavras do próprio Cristo quando asseverou não ter vindo à Terra para curar os sãos”.(2)

O pensamento de Emmanuel é muito sugestivo para profundas reflexões.

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Pelos caminhos da vida. Memórias e reflexões. Cap. 5.9. Araçatuba: Cocriação. 2021.

2) Xavier, Francisco Cândido. Espíritos diversos. Caminhos de volta. Cap. Renovação em toda parte. São Bernardo do Campo: GEEM. 1975.