Reminiscências do centro de São Paulo

Reminiscências do centro de São Paulo

         

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O centro antigo da cidade de São Paulo sempre está presente em nossas reminiscências. Na realidade, são referentes a três momentos distintos de residência na capital paulista.

Na primeira etapa, durante a infância, recordamo-nos das tradicionais lojas de departamentos e das lanchonetes, estas então de chineses, que preparavam pasteis e pequenas pizzas; do café de máquina e do sorvete italianos que estavam surgindo na cidade. Lembramo-nos também que naquela época os homens que trabalhavam no centro da cidade utilizavam ternos e, muitas vezes, chapéu e alguns a gravata tipo "borboleta".

Numa segunda etapa de residência em São Paulo, vindo interior paulista, exercemos ações de gestão acadêmica junto à Reitoria da UNESP, na época situada na Praça da Sé, em tradicional prédio em estilo francês. As badaladas do carrilhão da Catedral da Sé ficaram marcados em nossa memória. 

Ao mesmo tempo lembrávamos sempre que a poucos metros dali situa-se o histórico Pátio do Colégio, onde Manuel da Nóbrega (o nosso Emmanuel), fundou a cidade).1

No trajeto para aquele trabalho, muitas vezes deixávamos a esposa Célia no histórico prédio Caetano de Campos, onde ela exercia função administrativa junto ao Conselho Estadual de Educação, defronte à Praça da República. Naturalmente, muitas vezes lembrávamos que naquela praça foi morto, durante o início da Revolução Constitucionalista, o estudante Euclides Miragaia, que era cunhado de um tio-avô nosso.

Nos encargos de Pró-Reitor contamos com alguns assessores que também eram espíritas: Mário da Costa Barbosa, nos últimos meses de sua existência, e, dos colegas Miguel Carlos Madeira (de Araçatuba) e Arif Cais (de São José do Rio Preto).

Concomitantemente ocupávamos cargos de direção na USE-SP. Na sede da Reitoria da UNESP, muitas vezes recebíamos a visita de lideranças espíritas e em função dos diálogos, vinham à tona também informações sobre momentos do passado ligados à região.

No século XIX, naquele tradicional centro paulistano, atuou o então estudante de Direito da Faculdade do Largo de São Francisco (atual USP), Bittencourt Sampaio, época em que escreveu letras que foram musicadas pelo seu amigo Carlos Gomes.2 Logo depois, por ali trabalhou o pioneiro espírita Batuíra, como profissional e instalou a poucos metros o seu teatro popular.3 As obras espíritas pioneiras de Batuíra ficavam num bairro vizinho e próximo ao centro da cidade.

Nas cercanias da Praça da Sé havia trabalhado o médico e ex-presidente da USE-SP Luiz Monteiro de Barros; do outro lado da Praça, Nestor João Masotti se aposentava da Secretaria da Fazenda, e, nossa companheira da USE, Marília de Castro, tinha escritório de advocacia. Certa feita recebemos a visita honrosa do deputado federal e militante espírita Freitas Nobre, com quem tínhamos amizade, e que mantinha escritório na vizinhança.

No período em que residimos em Brasília, retornamos inúmeras vezes a São Paulo em tarefas profissionais e espíritas.

Essa mescla de ações, evocações e lembranças, veio à tona na nossa saudação de agradecimento na solenidade em que recebemos a “Medalha Anchieta e Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo”, na Câmara de Vereadores de São Paulo, no ano de 2004.4

Na condição de diretor da FEB a representamos em três oportunidades em eventos públicos em defesa da vida (2007 a 2009), efetivados em grande mobilização na Praça da Sé, com a liderança de Marília de Castro. Também comparecemos na sede da OAB.

Como presidente da FEB, comparecemos na Livraria do Centro Espírita União, localizada ao lado da Praça da Sé, para o lançamento com a esposa Célia, de livro por nós organizado. Estava presente o casal de dirigentes Nena e Francisco Galves, antigos anfitriões de Chico Xavier, e amigos nossos.

Surge a terceira e atual etapa de vivência na capital paulista, com afazeres espíritas deslocados para outros bairros.

E retornamos ao auditório da Câmara de Vereadores de São Paulo, vizinha ao centro antigo, para recebermos um Diploma na Solenidade “Espíritas por um Mundo Melhor”. Na oportunidade, em 2018, fizemos uso da palavra enaltecendo o trabalho dos seareiros espíritas paulistas de todos os tempos.5

As lembranças dos momentos agradáveis e frutíferos vividos no centro antigo de São Paulo estão sempre vivas. Agora, em realidade, há várias regiões da cidade que se caracterizam como centros. A Metrópole ficou multicêntrica.

Fontes:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Emmanuel. Trajetória espiritual e atuação com Chico Xavier. Matão: O Clarim. 2020. 208p.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Prefácio. In: Aragão, Silvan (Org.) Bittencourt Sampaio. Nebulosa radiante. Aracaju: FEES. 2016. 70p.

3) Monteiro, Eduardo Carvalho. Batuíra. Verdade e luz. São Paulo: CCDPE. 2021. 160p.

4) Gobbi, Ismael. Cesar Perri é homenageado pela Câmara de São Paulo. Revista internacional de espiritismo. Ano LXXIX. N.5. Junho de 2004. P.269.

5) Página eletrônica: http://www.camara.sp.gov.br/blog/entidades-espiritas-ganham-homenagens-por-boas-iniciativas/#.WuKImOk9Nsk.facebook

 

Araçatubenses criaram Grupo em homenagem a Chico Xavier

Araçatubenses criaram Grupo em homenagem a Chico Xavier

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O Grupo de Estudos Espíritas Chico Xavier (GEECX) surgiu em função de ações de araçatubenses, fundado aos 29/03/2015, em Brasília (DF), na residência do casal Célia e Cesar Perri, na época naquela cidade, com participação dos filhos Flávio e Daniel, e de convidados que foram colaboradores dos anfitriões durante as atividades que eram empreendidas na Federação Espírita Brasileira.

Integrado por companheiros egressos do antigo Núcleo de Estudos e Pesquisas do Evangelho (NEPE da FEB), que foi extinto; e por outros que se agregaram, tendo como ponto em comum o interesse no estudo do Evangelho à luz do Espiritismo.

Esse Grupo objetiva promover o estudo, a prática e a difusão do Espiritismo, com base nas obras de Allan Kardec, e priorizar o estudo do Evangelho de Jesus à luz da Doutrina Espírita, com ênfase às obras psicografadas por Francisco Cândido Xavier; não visa manter as atividades típicas de um centro espírita e os participantes manterão vínculos com suas instituições de origem; fomentar atividades de compartilhamento de estudos e informações, com a consequente criação de uma rede (virtual e física) de interessados no estudo e compreensão de textos relacionados ao Evangelho de Jesus à luz do Espiritismo; estimular a publicação de material decorrente desses estudos e pesquisas, utilizando-se dos mais diversos veículos de comunicação e divulgação (livros, CD’s, DVD’s, internet, webTV, webRádio, e outros).

Inicialmente o GEECX manteve durante três anos reunião de estudos semanais na sede do Grupo da Fraternidade Espírita Irmão Estêvão, com apoio da Sociedade Divulgadora do Espiritismo Cristão – SODEC, em Brasília. Desde o início empregou as redes sociais.

No ano de 2018 passou a ter atuação presencial em São Paulo junto ao Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa Espírita Eduardo Carvalho Monteiro. Com a pandemia, transformou-se em reuniões virtuais. Mantém página eletrônica, com farto subsídio para o estudo do Evangelho; página no Facebook e informativo digital semanal; integrantes do GEECX mantiveram programas semanais de estudo sobre O evangelho segundo o espiritismo pela web rádio Fraternidade (de Uberlândia), pela TV Mundo Maior, de Guarulhos, e, pela web TV Rádio Brasil Espírita, de Maceió.

Na fase da pandemia, integrantes do Grupo têm desenvolvido palestras virtuais para instituições do país e para o exterior. O boletim semanal é publicado pelo informativo digital “Notícias Espíritas”, coordenado pelo araçatubense Ismael Gobbo. O GEECX mantém várias parcerias, inclusive com a Estação Dama da Caridade Benedita Fernandes. Relacionados com estudos do GEECX surgiram livros de autoria de Cesar Perri, com análises do Novo Testamento na ótica espírita, estímulo ao estudo e prática nos centros e no movimento espírita: Epístolas de Paulo à luz do espiritismo (O Clarim, 2016); Centro espírita. Prática espírita e cristã (USE-SP, 2016); Cristianismo nos séculos iniciais. Aspectos históricos e visão espírita (O Clarim, 2018); Chico Xavier. O homem, a obra e as repercussões (EME/USE-SP, 2019); Emmanuel. Trajetória espiritual e ação com Chico Xavier (O Clarim, 2020).

O GEECX atua voltado a estudos e difusão relacionados com o Evangelho à luz do Espiritismo.

Informações – Página eletrônica: www.grupochicoxavier.com.br

(*) Ex-presidente da USE-SP e da FEB.

(Transcrito do jornal Folha da Região, Araçatuba, 12/01/2021, Caderno A6)

Pedro e Paulo

Pedro e Paulo

André Ricardo de Souza (1)

Simão Pedro, como bem sabemos, foi o líder dos apóstolos – assim designado pelo Nosso Senhor Jesus Cristo – tendo ele se redimido da negação do mestre divino após a crucificação e conduzido a primeira comunidade cristã, retratada no livro bíblico Atos dos Apóstolos e na obra do espírito Emmanuel Paulo e Estêvão, psicografada por Francisco Cândido Xavier.

Nesse livro, tal comunidade é chamada de Casa do Caminho. Paulo Tarso, notoriamente, foi o convertido de Damasco, conforme as duas obras acima, que, de perseguidor se fez propagador do cristianismo, formando várias comunidades cristãs entre os povos pagãos, mediante suas viagens missionárias e a elaboração das epístolas bíblicas, sob orientação espiritual de Estêvão, de modo a tornar-se conhecido como o apóstolo dos gentios.

Neste pequeno escrito, queria relacionar esses pilares do cristianismo com dois homens contemporâneos, a meu ver, bastante especiais, cuja amizade tive a felicidade de desfrutar e que merecem reconhecimento.

O primeiro é Pedro Santini (1933-2018), que nasceu em uma família com doze irmãos na cidade paulista de Cafelândia. Foi agricultor, depois mecânico de automóveis e metalúrgico em São Paulo, onde participou muito ativamente, como liderança de fato e também dirigente, de dois centros espíritas na Zona Norte da cidade. Estes são: o Núcleo Espírita Segue a Jesus (NESJ) existente desde 1939 no bairro da Casa Verde, onde ele ingressou em 1965; e o Núcleo de Estudos Espíritas Apóstolo Mateus (NEEAM), fundado em 1953 na Vila Nova Cachoeirinha, que, junto com sua esposa Duzolina, ele conseguiu fazer retomar as atividades em 1989. O casal deu contribuições relevantes também em dois centros espíritas de diferentes municípios, igualmente paulistas: Juquitiba e Iguape.

O outro é Paul Singer (1932-2018), que com oito anos de idade veio de Viena, Áustria, ao Brasil com sua mãe costureira em fuga do nazismo por serem judeus. Tornou-se metalúrgico, depois professor de economia da Universidade de São Paulo (USP) e gestor de políticas públicas importantes na prefeitura paulistana (1989-1992) e no governo federal (2003-2016). Foi idealizador e dedicado a um conjunto de práticas fraternas de produção, consumo e crédito chamado de economia solidária, experiência que se encontra em alguns outros países também e tem registro no cristianismo nascente conforme Paulo e Estevão, que é a principal obra trazida a público por Chico Xavier, conforme dito por ele próprio (2).

Tal como o pescador de Cafarnaum, “seo” Pedro era também, caridosamente, muito acolhedor, alguém em quem boa parte das pessoas do NEEAM reconhecíamos uma espécie de “paizinho”. Vale dizer que efetivamente deste modo era chamado Simão Pedro pelos “filhos do Calvário” na Casa do Caminho. Certa vez, enquanto eu e minha mulher Margareth estávamos com ele e sua esposa na casa de ambos, em Ilha Comprida, “seo” Pedro e eu fomos pescar num riozinho e rimos bastante por não apanhar um só peixe e também nos lembramos dos irmãos pescadores: Simão Pedro e André.

Semelhantemente ao convertido de Damasco, o professor Singer ou Paulo Singer, como muitos o chamávamos,foi um operário que se tornou intelectual. Se aquele – que dominava as culturas: judaica, grega e romana – deixou de ser rabino para voltar a trabalhar como tecelão, este deixou de ser metalúrgico para se tornar um grande docente e pesquisador, porém sem perder a simplicidade operária. Tal como o jovem Timóteo foi para Paulo de Tarso, eu também, felizmente, pude ser para o professor quanto à economia solidária, tema sobre o qual organizamos um livro e atuamos juntos. Enfermo, pude visitá-lo várias vezes, até duas semanas antes do seu falecimento.

“Seo” Pedro e Paul Singer só estiveram juntos, no mesmo ambiente e com suas respectivas esposas, quando me casei com Margareth, mas nós não tivemos oportunidade de apresentar um ao outro.

Com um ano de diferença, ambos nasceram no mês de março: “seo” Pedro no dia 24 e Paul Singer em 28, tendo eu, felizmente, podido falar por telefone com aquele e presencialmente com este nessas datas em 2018, quando desencarnaram. Tenho dito e já escrevi que Singer, que se dizia ateu, foi muito generoso e a pessoa mais espiritualizada conhecida por mim nesta existência. Pouco depois da desencarnação de “seo” Pedro, conversei outra vez com sua esposa dizendo que ele foi a pessoa mais amorosa que conheci.

Aquele, com semelhanças a Simão Pedro e este a Paulo de Tarso, são para mim, realmente, grandes referências e amigos espirituais.

Notas:

1) Professor de sociologia da UFSCar, colaborador do paulistano Núcleo Espírita Coração de Jesus (NECJ), com origem e formação no Núcleo de Estudos Espíritas Apóstolo Mateus (NEEAM).

2) Página eletrônica do GEECX: http://grupochicoxavier.com.br/a-economia-solidaria-no-livro-paulo-e-estevao/

 

O Livro dos Médiuns completa 160 anos

O Livro dos Médiuns completa 160 anos

Antonio Cesar Perri de Carvalho

As informações sobre o lançamento de O livro dos médiuns foram publicadas em Revista espírita1, periódico mensal administrado por Allan Kardcec.

Na edição de janeiro de 1861 o Codificador informa sobre o lançamento, e, no mesmo ano, na edição de do mês de novembro, a Revista espírita traz duas notícias sobre O livro dos médiuns. A queima desse livro no “Auto de Fé de Barcelona” e o lançamento da 2ª edição da obra. Kardec considera a segunda edição “muito mais completa que a precedente: encerra numerosas instruções novas muito importantes e vários capítulos novos. Toda a parte que concerne mais especialmente aos médiuns, à identidade dos Espíritos, à obsessão, às questões que podem ser dirigidas aos Espíritos, as contradições, aos meios de discernir os bons e os maus Espíritos, a formação das reuniões espíritas, às fraudes em matéria de Espiritismo, recebeu desenvolvimento muito notáveis. No capítulo das dissertações espíritas, adicionamos várias comunicações apócrifas, acompanhadas de observações adequadas a dar os meios de descobrir a fraude dos Espíritos enganadores, que se apresentam com falsos nomes. Devemos acrescentar que os Espíritos reviram a obra inteiramente e trouxeram numerosas observações do mais alto interesse, de sorte que se pode dizer que é obra deles, tanto quanto nossa. Recomendamos com instância esta nova edição, como guia o mais completo, que para os médiuns, quer para os simples observadores.”1

Para o Codificador O livro dos médiuns é “o complemento de O Livro dos Espíritos e encerra a parte experimental do Espiritismo, assim como este último contém a parte filosófica.” Inclusive, ele colocou como subtítulo: “Guia dos médiuns e dos evocadores”.2

Nessa obra aniversariante, na 1a Parte, Kardec desenvolve “noções preliminares”, estabelecendo uma relação com temas tratados nas conclusões de O livro dos espíritos. Na 2a Parte desenvolve as informações, estudos e recomendações sobre as manifestações espíritas. Incluiu muitas instruções espirituais, inclusive marcantes mensagens de orientação assinadas por Erasto e por Timóteo. No capítulo que trata da “Formação dos médiuns”,

Kardec apresenta uma clara e incisiva conceituação sobre a finalidade da prática da mediunidade de acordo com o Espiritismo: “Este dom de Deus não é concedido ao médium para seu deleite e, ainda menos, para satisfação de suas ambições, mas para o fim da sua melhora espiritual e para dar a conhecer aos homens a verdade.”2

Ao completarmos 160 anos do lançamento de O livro dos médiuns, estão válidas as recomendações de Kardec expressas na obra que ele considerou “guia” para os médiuns e evocadores”.

No movimento espírita de nossos dias, é necessária a manutenção da Campanha “Comece pelo Começo”, que enfatiza o papel do estudo e da divulgação das Obras Básicas do Espiritismo: as cinco obras principais de autoria de Allan Kardec.

Fonte:

Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos médiuns. 2a Parte, Cap. XVII, item 220. FEB.

Kardec. Allan. Trad. Abreu Filho, Júlio. Revista espírita. Ano 4. 1861. São Paulo: EDICEL.

Centenário do Espiritismo em Araçatuba

Centenário do Espiritismo em Araçatuba

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Embora há 31 anos residindo fora de Araçatuba, mantemos alguns vínculos com nossa terra natal, inclusive com o movimento espírita local e regional. Afinal de contas desde tenra idade por lá militamos nas ações espíritas de assistencial social, mocidades, centros e de união durante algumas décadas.

Neste ano acontece o Centenário do Espiritismo em Araçatuba e vêm à tona muitas lembranças dos pioneiros que chegamos a conhecer, de várias lideranças e das diversas instituições espíritas da cidade.

No início de 1975 foi editado pela União Municipal Espírita de Araçatuba o primeiro livro de nossa autoria – O espiritismo em Araçatuba, contando com apresentação de Francisco Martins Filho. Nessa obra historiamos a origem dos núcleos espíritas, das ações assistenciais, dos movimentos jovens e dos esforços de unificação em Araçatuba.

Nessa publicação incluímos os dados biográficos dos vultos espíritas da cidade e uma entrevista com o pioneiro Gedeão Fernandes de Miranda (1894-1991), na época com 80 anos de idade, fundador da primeira instituição da cidade, aos 21 de abril de 1921, a União Espírita Paz e Caridade. A cidade contava apenas 13 anos de fundação. O referido Centenário é assinalado pela data de fundação dessa instituição, que mantém o Abrigo Ismael.

Assim, tivemos contatos com vários vultos pioneiros e seus familiares. Entre esses, além de Gedeão Fernandes de Miranda, conhecemos Ugolino Dall’Oca (1883-1968), imigrante italiano que chegou em Araçatuba em 1916. Sua família teve ação destacada no movimento espírita da cidade. Não chegamos a conhecer Benedita Fernandes, mas desde a infância ouvíamos referências a esse vulto benemérito no seio de nossa família e no movimento espírita local.

Como comemoração desses 100 anos do Espiritismo em Araçatuba, embora limitada pelo distanciamento social em virtude da pandemia, a USE Regional de Araçatuba, a editora Cocriação e o canal de internet “Estação Dama da Caridade Benedita Fernandes”, promovem palestras e entrevistas virtuais, colunas espíritas no jornal local Folha da Região, e foi lançada a Agenda Chico Xavier 2021 – Araçatuba, 100 anos de Espiritismo.

Essa “Agenda”, inovadora publicação de Araçatuba, além dos espaços para anotações diárias, contém mensagens e textos inspiradores de Chico Xavier, e, as principais datas comemorativas das Casas Espíritas de Araçatuba. Nas datas alusivas às instituições, há informações históricas e fotos significativas. Conta com miolo principal e capa dura espiralada da Editora EME. Uma edição especial limitada com 416 páginas.

Atualmente, o Espiritismo em Araçatuba dispõe de um bom número de instituições, vários livros publicados alusivos ao movimento local, antena retransmissora da TV Mundo Maior (FEAL) e conta com várias formas de divulgação.

(*) foi dirigente espírita em Araçatuba; presidente da USE-SP e da FEB.

QUEM, SEM SABER, TEM MAIS DE UMA RELIGIÃO

QUEM, SEM SABER, TEM MAIS DE UMA RELIGIÃO

José Reis Chaves

A Igreja do passado, porque a humanidade era ainda pouco evoluída, dizia que fora da Igreja não havia salvação. E isso criou uma crença de que todo mundo tinha que ser exclusivamente, somente católico.

Porém, posteriormente, a referida frase da Igreja foi dada, por ela mesma, como “vencida”. E o ensino de que as crianças que morriam sem o Batismo iam para o Limbo, caiu também em descrédito e foi anulado, igualmente, por ela própria.

Tomara que essas mudanças sejam prenúncios de outras novas e urgentes mudanças na Igreja, para que ela não continue diminuindo, levando muitos católicos, principalmente do Primeiro Mundo, à indiferença religiosa e à fuga para outras religiões.

É claro que os líderes religiosos têm que pregar apenas a sua religião, o que ocorre nem sempre por consciência, mas por conveniência, pois, sem isso, podem perder seu privilegiado emprego.

Assim também, por exemplo, os líderes religiosos a que nos referimos, se eles crerem na reencarnação, como sabemos de muitos desses casos, eles não podem falar, publicamente, que creem nela, uma vez que vão ter complicações profissionais.

É, pois, uma questão semelhante à do celibato obrigatório dos padres. Muitos são contrários a ele, mas não podem expressar, publicamente, essa sua opinião, antes de ela vir das altas autoridades eclesiásticas do Vaticano.

Mas o fato de religiosos ou não, pública ou ocultamente, crerem em outras doutrinas que não pertencem à sua religião, mesmo que seja apenas uma só doutrina, eles estão tendo mais de uma religião, pois, estão com um pé numa e outro pé noutra.

E, valendo-nos, outra vez, do exemplo da reencarnação, se vocês, meus queridos leitores, que me estão lendo, descobrem que ela é, realmente, uma verdade, mas que sua religião não professa, vocês, como já foi dito, de algum modo ou parcialmente, passam a ter outra religião, mas, às vezes, até mesmo inconscientemente!

E, nesse caso, vocês deixam de ser numa doutrina religiosa passivos para serem ativos. É o que acontece também com as crianças a respeito do Papai Noel. Antes, elas, passivamente, sofrem a ação de crerem nele. Depois, mais amadurecidas no entendimento da verdade sobre ele, elas desbancam o Papai Noel de ser ativo para ser passivo, já que ele, de presenteador, se torna o próprio presente, e até sem que elas o percebam, pois, isso acontece como se fosse automaticamente!

E, com a aceitação de outras doutrinas religiosas estranhas à nossa religião, ocorre também fato semelhante, pois, as próprias verdades doutrinárias novas se impõem, por si mesmas e, às vezes, até mesmo sem que percebamos que elas são contrárias à nossa religião. E são essas pessoas que estão mais próximas do verdadeiro rebanho de um só Pastor!

PS: 1) Tradução do Novo Testamento completo por este colunista, contato@editorachicoxavier.com.br (31) 3635-2585; 2) e, com ele também: “Presença Espírita na Bíblia” na TV Mundo Maior.

O novo ano

O novo ano

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O início de um novo ano sempre enseja esperanças de melhorias e expectativas de num mundo melhor. Esse é sempre o desejo natural de todos, mas há de se convir que um novo ano é uma mudança formal no calendário e naturalmente, na prática, é uma sequência de fatos e compromissos que vêm se desenrolando.

O ano de 2020 foi assinalado pela terrível pandemia do COVID-19. Um fato inimaginável que provocou o maior distanciamento social e as crises advindas dessa situação, que abrangem todas as áreas do mundo, gerando crises ainda nem todas plenamente mensuráveis.

Nos últimos meses do ano surgiram as vacinas, fruto do acelerado desenvolvimento científico e tecnológico. Mas a aplicação delas nos vários países está sujeita a questões políticas, econômicas e de logística. Já se sentiu que as estratégicas políticas nem sempre estão compromissadas com o bem estar geral das populações. Fica claro que as campanhas nacionais de vacinação em massa e das consequentes imunizações poderão ultrapassar o período do novo ano.

A essa altura já podemos imaginar que no novo ano apenas será iniciado um processo de controle da pandemia pelas vacinas. Sem dúvida advirão consequências e busca de soluções nas áreas políticas, econômicas, sociais, educacionais, de saúde, e, com relações com o próprio movimento espírita.

Em todos os cenários, são homens encarnados os responsáveis pelas decisões e ações. E estão imbricadas as questões vinculadas aos limites da compreensão humana.

A leitura atenta da obra “A Gênese”, de Allan Kardec contém considerações significativas sobre decisões relacionadas com o movimento espírita e a Civilização em geral.

No Cap. I encontra-se a anotação: “Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem”.

No final da obra, no Cap. XVIII, ao abordar “Sinais dos tempos”, o Codificador destaca: “A fraternidade será a pedra angular da nova ordem social; mas, não há fraternidade real, sólida, efetiva, senão assente em base inabalável e essa base é a fé, não a fé em tais ou tais dogmas particulares, que mudam com os tempos e os povos e que mutuamente se apedrejam, porquanto, anatematizando-se uns aos outros, alimentam o antagonismo, mas a fé nos princípios fundamentais que toda a gente pode aceitar e aceitará: Deus, a alma, o futuro, o progresso individual indefinito, a perpetuidade das relações entre os seres.”

Na base de tudo, podemos afirmar que o livre-arbítrio e o real compromisso de aprimoramento moral e espiritual dos homens serão os definidores das esperadas transformações que poderão se fortalecer num novo e melhor ano.

Que o ano novo seja melhor para todos nós!

O Espiritismo e o Natal de Jesus

O Espiritismo e o Natal de Jesus

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Por ocasião das comemorações do nascimento de Jesus vem à tona a visão espírita sobre Jesus. O Espiritismo, fundamentado nas Obras Básicas de Allan Kardec, é a chave interpretativa para compreendermos o papel do “tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo”, de acordo com O livro dos espíritos.

O espírito Emmanuel, no livro A caminho da luz, psicografado por Francisco Cândido Xavier, esclarece sobre o preparo para o nascimento de Jesus, notadamente nos comentários sobre “O século de Augusto”.

O evangelista Lucas registra o anúncio do nascimento de Jesus: uma informação espiritual. Aliás, como muitos episódios assinalados nas ações e as chamadas curas praticadas por Jesus. E essas relações prosseguiram e foram registradas pelos evangelistas ao descreverem a atuação de Jesus. Allan Kardec analisa os “milagres” na obra A Gênese. As aparições do Cristo após a crucificação representaram um marco de fundamental importância para a valorização e consolidação de seus ensinos e também para reanimar os discípulos e seguidores que ficaram abalados e até temerosos após a condenação e a execução do Mestre. Vários autores são unânimes na afirmação de que os episódios das aparições foram fatores impactantes para se firmar as propostas cristãs.

Um dos principais divulgadores do Espiritismo na França – Léon Denis -, entre várias obras, escreveu Cristianismo e Espiritismo, onde destaca fatos marcantes – as relações com os espíritos dos mortos – ligados aos discípulos do Cristo.

No conjunto da obra de Francisco Cândido Xavier, o exegeta Emmanuel e o espírito Humberto de Campos claramente elucidam a significação do Cristo para nós e do marco que ele representa para a Humanidade: “a porta”, “caminho, verdade e vida” e a “luz do mundo”!

Interessante o registro de João sobre a colocação do Cristo: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, encontrará a pastagem.”

Ao apresentar O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec comenta: “Muitos pontos dos Evangelhos, da Bíblia e dos autores sacros em geral só são ininteligíveis, parecendo alguns até irracionais, por falta da chave que faculte se lhes apreenda o verdadeiro sentido.”

As duas figuras – porta e chave – foram reunidas e comentadas em significativa mensagem do espírito Emmanuel, concluindo: “Jesus, a porta. Kardec, a chave”. Que o Natal de Jesus contribua para se evocar a essência dos seus ensinamentos à luz do Espiritismo!

Fonte:

Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cristianismo nos séculos iniciais. Análise histórica e visão espírita. Cap.1.2. Matão: O Clarim. 2020.(com citações de Kardec, Denis, Herculano Pires, Humberto de Campos, Emmanuel).

Os preparativos para o Natal de Jesus

Os preparativos para o Natal de Jesus

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Às vésperas das comemorações do nascimento de Jesus são oportunas algumas lembranças relacionadas com sua ação e ensinos.

A sua romagem terrena foi planejada. O espírito Emmanuel, no livro A caminho da luz, psicografado por Francisco Cândido Xavier, faz a análise sob a ótica espiritual e destacamos do item designado “O século de Augusto”:

“[…] eis que ia cumprir-se a missão do Cristo, depois de instalados os primeiros Césares do Império Romano. A aproximação e a presença consoladora do Divino Mestre no mundo era motivo para que todos os corações experimentassem uma vida nova, ainda que ignorassem a fonte divina daquelas vibrações confortadoras. Em vista disso, o governo de Augusto decorreu em grande tranquilidade para Roma e para o resto das sociedades organizadas do planeta. Realizam-se gigantescos esforços edificadores ou reconstrutivos. Belos monumentos são erigidos. O espírito artístico e filantrópico de Atenas revive na pessoa de Mecenas, confidente do imperador, cuja generosidade dispensa a mais carinhosa atenção às inteligências estudiosas e superiores da época, quais Horácio e Vergílio, que assinalam, junto de outras nobres expressões intelectuais do tempo, a passagem do chamado século de Augusto, com as suas obras numerosas.”1

Na mesma obra, Emmanuel assinala um momento importante da evolução terrestre:

“Examinando a maioridade espiritual das criaturas humanas, enviou-lhes o Cristo, antes de sua vinda ao mundo, numerosa coorte de Espíritos sábios e benevolentes, aptos a consolidar, de modo definitivo, essa maturação do pensamento terrestre.”1

E considera como fatores: “[…] os pródromos do Direito Romano e a organização da família assinalavam o período da maioridade terrestre. […] A Terra não podia perder a sua posição espiritual, depois das conquistas da sabedoria ateniense e da família romana.”1

Era chegado o momento para a vinda do Cristo:

“[…] As legiões magnânimas do Cristo aprestam-se para as últimas preparações de seus gloriosos caminhos na face do mundo. O Evangelho deveria chegar como a mensagem eterna do amor, da luz e da verdade para todos os seres.”1

No tocante à “maioridade terrestre” alcançada no período de Augusto, Emmanuel se refere aos progressos da família romana e lamenta a posterior decadência: “Que gênio maldito imiscuiu-se nessa organização sublimada em seus mais íntimos fundamentos, devorando-lhe as esperanças mais nobres, corrompendo-lhe os sentimentos, relaxando-lhes as energias?”1

O “século de Augusto” e o momento da “maioridade terrestre” foram períodos marcantes na história da Humanidade e como uma preparação para a atuação do Cristo.

Nos dias do nascimento de Jesus, os espíritos – identificados como “anjos” -, anunciaram:

“E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo: Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lucas 2, 10-11).

O nascimento – Natal de Jesus -, foi assinalado com informação de natureza espiritual. E essas relações prosseguiram e foram registradas pelos evangelistas ao descreverem a atuação de Jesus. Que a preparação para o nascimento e o anúncio de grande alegria possam nos inspirar a buscarmos nossa maioridade espiritual e representar momentos de expectativas e esperanças para todos nós!

Fonte:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cristianismo nos séculos iniciais. Análise histórica e visão espírita. Cap.1.2. Matão: O Clarim. 2020.

Cenários do movimento espírita

Cenários do movimento espírita

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Os estudos sobre acordos de união devem se relacionar com a avaliação e análise de cenários do movimento espírita atual. O movimento requer reflexões continuadas. Afinal de contas são sempre válidas algumas indagações: o que pretendemos? para onde vamos?

Algumas situações identificáveis em instituições espíritas de nossos dias merecem ser analisadas:

- Como se desenvolver valores como os da simplicidade, fraternidade e solidariedade legítimos andam pouco valorizados.

- Nos Centros Espíritas, como se desenvolve o atendimento espiritual dos que chegam? Como ocorre o acolhimento, consolo, esclarecimento e orientação?

- Mesmo sendo indiscutível a necessidade do estudo doutrinário, não poderia estar ocorrendo uma espécie de ambiente de escolarização formal na oferta e na relação entre os vários cursos doutrinários disponibilizados nas instituições espíritas? E o que dizer dos casos em que ocorrem certificações, como emissão de certificados?

- Algumas nuances da escola de Alexandria em geral e do Didaskaleion (escola para catequistas), do século III, não poderiam estar sendo reavivadas em formas de preparo de evangelizadores para a infância e de “instrutores” de cursos sobre mediunidade?

- Em relação à prática da mediunidade e a pretexto do preparo com base no estudo, de certa forma não estaria sendo cerceada por muitas normas e pré-requisitos?

- Não haveria o risco de se criar uma espécie de hierarquia entre os que completaram uma sequência de cursos doutrinários para poderem assumir coordenação de atividades e participação na gestão de grupos e de instituições espíritas?

- Até que ponto o trabalho apenas em nível cognitivo é válido? Ou são cabíveis propostas e ações efetivas para o cultivo de valores e sentimentos?

- As polêmicas a respeito da natureza do Cristo – à semelhança do docetismo –, não poderiam ser substituídas pela ênfase ao objetivo do ensino moral que Allan Kardec define em O evangelho segundo o espiritismo?

- No caso de livros espíritas, há situações em que as citações de versículos do Novo Testamento (ou de partes deles, as perícopes), originalmente utilizadas em obras nacionais e estrangeiras, foram substituídas por outras traduções bíblicas de diferentes das adotadas pelo autor. Isso não lembraria as alterações dos copistas religiosos do passado?

- Poderia estar ocorrendo uma eventual tendência de comercialização dos chamados “produtos espíritas”, como os livros e até de ingressos pagos para seminários doutrinários?

- Muitas instituições estariam perdendo o caráter espírita, inclusive em textos dos Estatutos, para assegurarem convênios com governos. Deve-se lembrar que – pela Constituição – o Estado brasileiro é laico, portanto ações assistenciais e promocionais subvencionadas por governos não podem ter características religiosas. O que seria mais importante, o compromisso espírita ou o atrelamento a projetos de governos?

- Parece estar havendo tendência de idolatria a médiuns, expositores e alguns dirigentes?

- Com referência aos congressos espíritas, há vários indícios de tendências de elitização, ou, pelo menos, de dissociação da realidade do movimento espírita. Escolha de recintos, muitas vezes pomposos e de alto custo de locação. Existência de “salas vip” para atendimento de convidados. Em alguns casos, até agentes de segurança cercando convidados. Comercialização de muitos produtos, lembrando até “feiras”, incluindo livros não necessariamente espíritas. Eventos planejados para gerar fonte de receita para a entidade promotora. Valores de taxas de inscrição altos, em geral acima das condições do espírita em geral. O ambiente de fraternidade, simplicidade e espontaneidade ficam diminuídos.

- Qual o critério, como se processa a escolha de representantes das instituições espíritas para a composição de conselhos e direção das entidades federativas?

Face a essas questões surge a indagação maior: qual o papel das entidades federativas estaduais, do Conselho Federativo Nacional da FEB e da própria Federação Espírita Brasileira, no sentido de favorecer ou de promover a profilaxia dessas situações apontadas? Como cidadãos do século XXI, observamos que no mundo dinâmico em que vivemos sucedem-se mudanças e inovações. Especialistas em gestão e transformações recomendam a valorização de novos talentos, nova cultura e novas formas de fazer as coisas, inclusive não se desprezando receios e preocupações.

Transcrito de:

Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? Cap. 6.1. Capivari: EME. 2018