Análise tipográfica das sete primeiras edições de A Gênese de Allan Kardec

Especial:

Análise tipográfica das sete primeiras edições de A Gênese de Allan Kardec

por Charles Kempf e Michel Buffet

 

Conforme relatado na edição 110 da Revue Spirite (1o trimestre de 2018), pesquisas recentes de vários pesquisadores latino-americanos permitiram estabelecer, com base em documentos mantidos na Biblioteca Nacional da França (BNF) e Arquivos Nacionais (AN), a sequência das edições do 5o. livro básico de Allan Kardec:(1)

- As primeiras quatro edições são estritamente idênticas, diferentemente dos vários testemunhos (ver abaixo) e das biografias de Allan Kardec; 

- Foram impressos em outubro de 1867, em 3.000 exemplares, correspondendo às 3 primeiras edições, depois, em fevereiro de 1869, 2.000 exemplares, correspondentes à quarta edição, durante a vida do autor;

- A 5ª edição, revisada, corrigida e ampliada, foi publicada apenas em dezembro de 1872, mais de três anos após a desencarnação do autor. Nós publicamos na Revista Espírita supra, com a permissão do autor, Simoni Privato Goidanich, uma tradução do capítulo 23 de seu livro, El legado de Allan Kardec, dando os detalhes da pesquisa que ela fez em Paris. (2)

A análise complementar que propomos neste artigo refere-se essencialmente à parte tipográfica. 

Foi feito pelo nosso irmão Michel Buffet, que conhece bem esse trabalho, tendo trabalhado na imprensa. Sua análise foi realizada em cinco exemplares originais deste livro que conseguimos reunir: a 1ª, a 2ª, a 3ª edição, todas datadas de 1868, bem como a 5ª edição revisada, corrigida e aumentada, sem data, mas das quais o depósito legal no BNF data de dezembro de 1872 e a sétima edição, datada de 1883, pouco antes da denúncia da possível adulteração de Henri Sausse na revista Le Spiritisme, 2o. ano, n. 19, primeira quinzena, dezembro 1884, que reproduzimos mais adiante neste artigo.(3)

Este tipo de análise só pode ser precisa manuseando-se os volumes impressos originais, dada a definição por vezes insuficiente de digitalização disponível on-line, e também a capacidade de examinar o papel e a intensidade da pressão tipográfica. Infelizmente, não temos uma cópia original da 4ª edição, então a análise foi limitada ao seu conteúdo. Adicionamos também o texto de um documento original por Allan Kardec, provando a adulteração cometida por P.-G. Leymarie na transcrição deste documento na Revista Espírita de 15 de março de 1887 e em Obras Póstumas.

Comparação de diferentes edições de A Gênese:

O conteúdo da 1ª, 2ª, 3ª e 4ª edição são rigorosamente idênticos. Estas edições foram tiradas das mesmas formas de composições tipográficas originais (tipo móvel). Temos as mesmas lacunas nas mesmas letras nas mesmas páginas. Os conteúdos da 5ª e 7ª edições são idênticos entre si. A 5ª edição é uma completa recomposição a partir de uma fundição de diferentes caracteres, justificando que para o mesmo texto, a formatação da linha é diferente, exigindo um layout completo, e que com as modificações feitas é adicionada uma busca diferente, alterando a paginação. As 4ª e 5ª edições são diferentes e a importância das diferenças mostra que temos que fazer uma recomposição total. Portanto, são edições diferentes. As edições 5a e 7a são idênticas em seu conteúdo, mas são diferenciadas pela qualidade: podemos verificar que a 7a. usou impressões digitais. Estas impressões(4) ou espaços em branco são feitas a partir da composição original em caracteres livres, permitindo, quando há mais correções para fazer (correções que são feitas letra por letra pelo compositor), para ter a página (ou a forma de impressão imposta) em questão neste molde oco ou em branco e poder fazer um molde de liga de chumbo-antimônio que será fiel à página (ou a forma imposta de impressão) em questão. Há claramente uma perda de qualidade compreensível devido à impressão. Este não é o caso nas primeiras cinco edições, tiradas de uma composição tipográfica original no tipo móvel (Fig. 1).

O problema dos clichês não surge para as cinco primeiras edições, e o problema da fundição para a composição das quatro primeiras edições também não aparece, já que a 5ª edição foi completamente recomposta. As quatro primeiras edições têm 460 páginas e a 5ª e 7ª edições têm 472 páginas. Isso poderia dar crédito à palavra "aumentada" na página de título. No entanto, comparando as duas versões, a quarta contém 125.979 palavras, enquanto a quinta contém apenas 125.006, cerca de 1.000 palavras a menos na revisão "aumentada". Isso é compreensível pela grande quantidade de parágrafos que foram excluídos na 5ª edição, enquanto pouco texto novo foi adicionado. O aumento no número de páginas é explicado apenas pela recomposição, e não pelo aumento do texto. A palavra "aumentada" na capa é, portanto, abusiva, Allan Kardec certamente não teria cometido tal coisa. Para impressores, qualquer documento deve incluir um nome de impressora, além do editor, se houver um.

Ao verificar os nomes das impressoras em diferentes edições, podemos ver que:

- A 5a edição apresenta: Tipografia Rouge Frères et Comp. Rue du Four St. Germ., 43.

- A 3ª edição apresenta: Paris. – Tipografia ROUGE FRERE, DUNON ET FRESNE. Rue du Four Saint- Germain, 43. Este é o mesmo endereço e nome da mesma impressora, de acordo com afirmação de P.-G. Leymarie, que as primeiras seis edições foram feitas por essa impressora. No que diz respeito à análise do papel utilizado, o da segunda e terceira edições parece idêntico. O da 1ª edição parece ser da mesma gramatura, mas o papel é menos suave, e a espessura total das 460 páginas é ligeiramente superior: 23,5 mm, contra 23 mm para o primeiro. Isto continua a ser confirmado por uma análise mais detalhada e uma análise complementar de um exemplar original da 4ª edição.

 

      

Impressões, reimpressões e edições:

De acordo com os documentos reunidos no livro de Simoni Privato, e cuja autenticidade foi confirmada por nós, as informações adicionais sobre o depósito legal e os pedidos de autorização para impressão são os seguintes:

- 7 de outubro de 1867: pedido de autorização para impressão de 3.000 exemplares por Typ. ROUGE FRERE, DUNON ET FRESNE. Conforme explicado abaixo, essa primeira impressão corresponde à 1ª, 2ª e 3ª edições, de 1.000 exemplares cada, vendidas em 1868 e em 1869.

- 7 de fevereiro de 1869: pedido de autorização para uma impressão de mais 2.000 exemplares por tipografia ROUGE FRERE, DUNON ET FRESNE. Essa segunda impressão corresponde à 4ª edição, estritamente idêntica às três primeiras, vendidas até 1872. Depósito Legal na Biblioteca Nacional da França: – Janeiro de 1868 para a 1ª edição.

- Dezembro de 1872 para a 5ª edição. Não houve outro depósito legal nesse intervalo, o que confirma que todas as edições eram idênticas antes da 5ª edição. Também é possível acompanhar as edições para venda ao longo do tempo, examinando as menções na Revista Espírita, nos livros publicados na época e no “Catálogo Racional das obras que podem ser usadas para fundar uma Biblioteca Espírita”:

- A Revista Espírita de 1867, cuja coleção anual foi publicada no início de 1868, não menciona o número da edição, por isso é a primeira.

- O mesmo se aplica à edição de janeiro de 1868, página 31, anunciando o lançamento do livro em 6 de janeiro de 1868.

- A edição de fevereiro de 1868, página 64, anuncia o esgotamento da 1ª edição e o lançamento da 2ª edição. Podemos ver que as primeiras 1.000 cópias se passaram em um mês, sob o efeito do lançamento de um novo livro por um renomado autor. Veremos outra confirmação disso mais tarde, de acordo com um manuscrito de Allan Kardec.

- A edição de março de 1868, página 95, anuncia o quase esgotamento da 2ª edição e o lançamento da 3ª edição. Vemos que as 1.000 cópias seguintes venderam bem no segundo mês, levando ao lançamento da 3ª edição, esgotando bem 3.000 cópias da primeira tiragem.

- A coleção anual da Revista Espírita de 1868, publicada no início de 1869, menciona a 3ª edição, pouco antes da segunda impressão, cujo pedido de autorização foi feito em meados de fevereiro de 1869.

- A capa das cópias originais das edições mensais da Revista Espíritade 1869, inclui o catálogo de obras de Allan Kardec. As edições de janeiro, fevereiro, setembro, outubro e novembro de 1869 mencionam a 3ª edição.

- A coleção anual da Revista Espírita de 1869, publicada no início de 1870, ainda menciona a 3ª edição. Os dois últimos elementos acima podem sugerir que a 3ª edição só foi aprovada no final de 1869 e o ritmo de vendas caiu. No entanto, essas capas não parecem ter sido atualizadas sistematicamente, e o que confirma é o “Catálogo Racional”, cuja primeira edição foi publicada por Allan Kardec em março de 1869 e anexada à Revista Espírita do mês de abril de 1869 (o último composto por Allan Kardec antes de sua desencarnação em 31 de março de 1869). Infelizmente, ainda não conseguimos encontrar uma cópia original deste catálogo, mas as seguintes edições do mesmo ano, publicadas em agosto de 1869 já pela Livraria Espírita, localizada na rue de Lille, 7 (de que ainda não participava Pierre Gaëtan Leymarie), citar a 4ª edição de A Gênese, confirmando assim o esgotamento da 3ª edição da primeira edição de 1867, e a venda da 4ª edição, correspondente à tiragem cujo pedido de autorização foi feito por ordem de Allan Kardec em fevereiro de 1869. Esta quarta edição sempre menciona A. Lacroix, Verboeckhoven et Cie, Éditeurs, o escritório da Revista Espírita em Rua e Passagem Ste-Anne, 59, e a data de 1868. Já que o pedido de impressão é de fevereiro de 1869. É de se perguntar por que o ano não foi mudado em 1869 e o endereço da Passage Sainte Anne para rue de Lille: provavelmente é por causa do novo endereço, anunciado apenas por Allan Kardec na revista Revista Espírita de abril de 1869, ainda não havia sido definido no início da impressão, em fevereiro de 1869, e não era essencial mudar o ano, sendo a quarta edição idêntica às três primeiras de 1868.

Quanto à editora, sua falência em Paris data de 1872, e não desde 1869, como afirmado por P.-G. Leymarie.

(Este artigo terá continuidade na próxima edição desta revista.)

Referências:

1 – Tradução LMSF- Le Mouvement Spirite Francophone - de: Kempf, Charles; Buffet, Michel. Analyse typographique des sept premières éditions de La Genèse d’Allan Kardec. Revue Spirite. Supplément spécial de fin d’année. 161o année. 4ème trimestre 2018.

2 – No Brasil: O legado de Allan Kardec. Ed.USE-SP, 2018.

3 – Disponível em: Enciclopédia Espírita: www.spiritisme.net; www.kardecpedia.com; O legado de Allan Kardec, Ed.USE-SP, 2018.

4 – Na impressão, o estereótipo (etimologicamente, "tipo em relevo") também é chamado de clichê. Este é um termo específico para impressão tipográfica. Os moldes em folhas flexíveis, os "brancos", possibilitaram a obtenção de imagens dobradas, adaptáveis aos cilindros de impressão das impressoras tipográficas, que imprimiam a maioria dos jornais até o surgimento da impressão offset.

Extraído de Revista digital O Consolador:

http://www.oconsolador.com.br/ano12/600/especial.html

 

ANO NOVO, TEMPO DE RECOMEÇAR

ANO NOVO, TEMPO DE RECOMEÇAR

Arnaldo Divo Rodrigues de Camargo (*)

"Quem a tudo renuncia, tudo receberá" (São Francisco de Assis)

Inspirado o apóstolo de Jesus exorta-nos à renúncia para que venhamos a receber aquilo que realmente vai nos fazer melhor.

Vamos buscar viver como irmãos que se amparam mutuamente, fazendo diferença neste Ano Novo que se inicia.

Quem sabe o que quer, traça caminhos, estabelece metas e busca motivação para alcançá-las.

Não adie compromissos, comece logo a realizar seus sonhos e, quando preciso, aceite mudanças, como os rios que contornam as barreiras, mas seguem adiante em busca do mar.

Uma coisa certa é que as coisas estão sempre mudando.

Quem deseja alcançar um futuro de serenidade e sucesso precisa dar o primeiro passo; um bom começo é estudar, buscando conhecimento intelectual, moral e espiritual.

Sem base ninguém se sustenta.

E manter a persistência nos objetivos é a menor distância para o êxito.

Lembre-se de que o pensamento positivo tende sempre a se expandir em direção ao bem.

Confiança em Deus e fé no futuro devem ser sempre o alicerce.

Portanto, hoje quero desejar a você: Que onde você estiver, Deus guarde você!

Nas dificuldades e dores, Deus sustente você!

Por onde você andar, Deus guie você!

No que você decidir, Deus ilumine você!

Neste novo ano, Deus lhe conceda 365 dias de saúde e prosperidade! E por toda a sua vida…

Deus continue protegendo e abençoando você!

Ninguém vive isolado. Precisamos uns dos outros e é necessário se doar.

Lembre-se de que é dando que se recebe… carinho, amor, fraternidade.

Porque de repente, num instante fugaz, os fogos de artifício anunciam que o Ano Novo está presente, e o Ano Velho ficou para trás.

(*) Editor das editoras EME e Nova Consciência, Capivari, SP.

Felicidade na Terra-FCX e H.Pires

No livro Astronautas do além, cada capítulo tem um intróito, uma mensagem psicografada por Chico Xavier e depois comentários de Herculano Pires.

A passagem de ano é sugestiva para se refletir no tema "Felicidade na Terra".

Felicidade na Terra

(Chico Xavier)

O tema central que nos reunia as conversações era o da felicidade na Terra. Todos os companheiros se referiam ao assunto quase calorosamente, quando a nossa reunião de estudos foi iniciada. O Livro dos Espíritos nos ofereceu a questão 921,18 sobre os entendimentos em foco. Ao término de nossas tarefas foi o nosso caro amigo espiritual André Luiz quem veio encerrar os comentários, com a página “Paz Íntima”.

Paz íntima

(André Luiz)

Guarda sempre:

• a confiança em Deus e em ti mesmo;

• a consciência tranquila;

• o tempo ocupado no melhor a fazer;

• a palavra construtiva;

• a oração com trabalho;

• a esperança em serviço;

• a paciência operosa;

• a opinião desapaixonada;

• a bênção da compreensão;

• a participação no progresso de todos;

• a atitude compassiva;

• a verdade iluminada de amor;

• o esquecimento do mal;

• a fidelidade aos compromissos assumidos;

• o perdão incondicional das ofensas;

• o devotamento ao estudo;

• o gesto de simpatia;

• o sorriso de encorajamento;

• o auxílio espontâneo ao próximo;

• a simplicidade nos hábitos;

• o espírito de renovação;

• o culto da tolerância;

• a coragem de olvidar-se para servir;

• a perseverança no bem.

Conservemos semelhantes traços pessoais, na experiência do dia-a-dia, e adquiriremos a ciência da paz íntima com o privilégio de encontrar a felicidade pelo trabalho, no clima do amor.

O esquema da felicidade

(J. Herculano Pires)

Viver é fácil. Mas existir é muito difícil.

As plantas e os animais vivem naturalmente.

Os homens não podem apenas viver; precisam, também, acima de tudo, existir.

As filosofias existenciais confirmam a tese espírita ao sustentar, em nossos dias – como novidade filosófica – que o homem é um existente, um ser que existe conscientemente.

No Espiritismo aprendemos que a vida é infinita, mas as existências sucessivas na Terra e noutros mundos materiais são finitas.

Aquelas filosofias dizem que o homem nasce com sua facticidade, nasce feito, mas, durante a existência, deve superar-se a si mesmo, deve transcender a sua condição humana.

O Espiritismo nos ensina que a transcendência é o objetivo das existências sucessivas. Bastaria isso para nos mostrar que a Filosofia Espírita antecipou o pensamento filosófico do nosso tempo e o transcendeu, revelando outra forma de existência, que é perispiritual, a de após a morte, em que o espírito passa a existir no perispírito ou corpo espiritual.

A transcendência humana, que Sartre negou na sua filosofia existencial, mas que a maioria dos filósofos existencialistas sustenta como real, é acessível ao conhecimento humano, como Kardec demonstrou através da pesquisa cientifica.

Hoje as próprias ciências materiais estão comprovando isso. As duas maiores provas, ambas irrefutáveis, foram feitas pelas pesquisas parapsicológicas (prova da natureza extrafísica do homem) e pelos físicos e biólogos soviéticos, com a descoberta do corpo energético ou corpo bioplástico do homem. Colocado nesses termos o problema da vida humana na Terra, podemos facilmente compreender que a felicidade terrena é uma questão de adaptação da criatura às condições da sua existência. Essa adaptação não representa simples acomodação, pois a principal condição a ser levada em conta é a da necessidade de transcendência.

À luz do Espiritismo, o homem não é apenas um existente, mas um interexistente, um ser que vive entre duas formas existenciais: a material e a espiritual. Atender somente às exigências existenciais seria acomodar-se, como queriam os estoicos, às condições imediatas. É necessário atender também às exigências do espírito que estão em nossa própria consciência.

A interexistência é, assim, uma forma de equilíbrio. O esquema da felicidade, que André Luiz nos apresenta, é um verdadeiro trabalho técnico. O encadeamento das proposições é perfeito e cada uma delas exige um estudo especial. “A confiança em Deus e em ti mesmo” implica o problema da fé divina e da fé humana colocado por Kardec. E da sua realização em nós decorre a proposição seguinte: “a consciência tranquila”. Essas proposições, analisadas em si mesmas e na sua sequência, dariam um livro que poderíamos intitular A Técnica de Existir. Os Espíritos não se comunicam à toa. Suas mensagens devem ser lidas e meditadas com atenção e profundidade.

(Xavier, Francisco Cândido; Pires, José Herculano; Espíritos diversos. Astronautas do além. Cap. 27. São Bernardo do Campo: GEEM)

Natal e o presente do aniversariante

Natal e o presente do aniversariante

Almir Del Prette (*)

Convencionou-se comemorar o nascimento de Jesus, o Cristo, no dia 25 do mês de dezembro.

Tornou-se também prática comum nos últimos séculos o comportamento de presentear parentes, amigos, colegas, auxiliares…

Essas duas práticas derivadas das chamadas religiões cristãs têm alguns aspectos saudáveis, mas tudo o que acontece nesse período merece uma reflexão à luz da revelação espírita.

A parte saudável seria a de trazer para o cotidiano, as mensagens de Jesus, possibilitando uma maior compreensão entre pessoas, um olhar mais humano em direção aos necessitados que fazem parte do grande contingente populacional, mesmo de alguns dos países classificados na lista dos desenvolvidos.

Todavia, a contraparte se apresenta como um alerta no sentido de que, além de recursos materiais, alimento, roupa, abrigo, assistência médica as pessoas, em geral, estão sedentes de paz, compreensão, amor.

As informações advindas de consultórios dos terapeutas apontam que, lamentavelmente, nesse período, observa-se um agravamento do número de episódios de depressão e outros problemas psicológicos.

O consumismo inconsequente elegeu para este período a figura de Noel como um marqueteiro eficiente que não cobra royalty e Jesus é apenas episodicamente lembrado…

O ritornelo do shopping hipnotiza os incautos e a troca de coisas deixa para segundo plano o intercambio de afeto.

E o aniversariante?

Qual seria o presente que Jesus gostaria de ganhar? Por incrível que pareça, sem ter se referido a uma data convencionada, o Mestre fez vários apontamentos nesse sentido.

Por exemplo, segundo o registro de Matheus, 25, 35-45: "Quando estive com fome me deste de comer… com sede me saciaste…nu me vestiste…forasteiro me acolheste… doente me visitaste, na prisão me fostes ver (…)".

Convido o leitor a identificar outras passagens e que cada um de nós reflita sobre a melhor maneira para se lembrar do aniversariante.

(*) São Carlos: SEOB.

De: Notícias do Movimento Espírita – São Paulo, SP, sexta-feira, 07 de dezembro de 2018 – Compiladas por Ismael Gobbo.

Jesus nasce no período de Augusto

Jesus nasce no período de Augusto

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Há várias informações na literatura espírita sobre os momentos que antecederam o nascimento de Jesus e fortalecendo a ideia de um preparativo para tal acontecimento histórico.1

O imperador romano Augusto – primeiro imperador e com o maior tempo de mandato: 41 anos (27 a.C.-14 d.C.) -, iniciou o longo período de paz, conhecido como Pax Romana2, depois de muitas décadas de guerra civil durante a fase republicana de Roma. Foi um governo de ordem e respeito à hierarquia; conservador e austero; esforçou-se para reviver as virtudes esquecidas das antigas tradições e da religião; tentou controlar a moral pública e o casamento; reorganizou a administração, inclusive das províncias, e as forças armadas; executou grandes obras e saneou as finanças do Estado; estimulou a cultura e a literatura latina.1

O consagrado historiador do cristianismo, Daniel Rops, chega a afirmar que “nada há, daquilo que os homens podem pedir a Deus, que Augusto não tenha proporcionado ao povo romano e ao universo”.2

Análise da historiadora Norma M. Mendes, considera que Augusto não era um tirano e era possuidor de virtudes estóicas, se encaixando no conceito de soberano como benfeitor universal.3

Por ocasião de sua morte, um senador propôs dar o nome de Augusto ao mês de seu nascimento e morte, daí ter surgido a designação do mês de agosto, do latim augustus, no calendário gregoriano. Outro senador sugeriu que todo o espaço de tempo decorrido entre o seu nascimento e sua morte recebesse o nome de "século de Augusto". Durante seu reinado, sua esposa Lívia exerceu muita influência política. Foi substituído por Tibério, filho de Lívia e portanto seu enteado. A ação de Jesus ocorreu no período de Tibério.

No livro Boa Nova, pela psicografia de Chico Xavier, o espírito Humberto de Campos confirma a visão histórica sobre o papel desempenhado pelo notável imperador e acrescenta comentários sobre sua missão na Terra:

“Uma nova era principiara com aquele jovem enérgico e magnânimo. O grande império do mundo, como que influenciado por um conjunto de forças estranhas, descansava numa onda de harmonia e de júbilo, depois de guerras seculares e tenebrosas. Por toda parte levantavam-se templos e monumentos preciosos. O hino de uma paz duradoura começava em Roma para terminar na mais remota de suas províncias, acompanhado de amplas manifestações de alegria por parte da plebe anônima e sofredora. A cidade dos césares se povoava de artistas, de espíritos nobres e realizadores. Em todos os recantos, permanecia a sagrada emoção de segurança, enquanto o organismo das leis se renovava, distribuindo os bens da educação e da justiça. […] Ele, que era o regenerador dos costumes, o restaurador das tradições mais puras da família, o maior reorganizador do Império, […] seu nome foi dado ao século ilustre que o vira nascer. Seus numerosos anos de governo se assinalaram por inolvidáveis iniciativas. A alma coletiva do Império nunca sentira tamanha impressão de estabilidade e de alegria. A paisagem gloriosa de Roma jamais reunira tão grande número de inteligências.[…] É que os historiadores ainda não perceberam, na chamada época de Augusto, o século do Evangelho ou da Boa Nova. Esqueceram-se de que o nobre Otávio era também homem e não conseguiram saber que, no seu reinado, a esfera do Cristo se aproximava da Terra, numa vibração profunda de amor e de beleza.[…]”4

O espírito Emmanuel, no livro A caminho da luz, psicografado por Francisco Cândido Xavier, faz a análise sob a ótica espiritual e destacamos do item designado “O século de Augusto”: “[…] eis que ia cumprir-se a missão do Cristo, depois de instalados os primeiros Césares do Império Romano. A aproximação e a presença consoladora do Divino Mestre no mundo era motivo para que todos os corações experimentassem uma vida nova, ainda que ignorassem a fonte divina daquelas vibrações confortadoras. Em vista disso, o governo de Augusto decorreu em grande tranquilidade para Roma e para o resto das sociedades organizadas do planeta. Realizam-se gigantescos esforços edificadores ou reconstrutivos. Belos monumentos são erigidos. O espírito artístico e filantrópico de Atenas revive na pessoa de Mecenas, confidente do imperador, cuja generosidade dispensa a mais carinhosa atenção às inteligências estudiosas e superiores da época, quais Horácio e Vergílio, que assinalam, junto de outras nobres expressões intelectuais do tempo, a passagem do chamado século de Augusto, com as suas obras numerosas.”5

Na mesma obra, Emmanuel assinala um momento importante da evolução terrestre: “Examinando a maioridade espiritual das criaturas humanas, enviou-lhes o Cristo, antes de sua vinda ao mundo, numerosa coorte de Espíritos sábios e benevolentes, aptos a consolidar, de modo definitivo, essa maturação do pensamento terrestre.”5 E considera como fatores:

“[…] os pródromos do Direito Romano e a organização da família assinalavam o período da maioridade terrestre. […] A Terra não podia perder a sua posição espiritual, depois das conquistas da sabedoria ateniense e da família romana.”5 Era chegado o momento para a vinda do Cristo: “[…] As legiões magnânimas do Cristo aprestam-se para as últimas preparações de seus gloriosos caminhos na face do mundo. O Evangelho deveria chegar como a mensagem eterna do amor, da luz e da verdade para todos os seres.”5

O “século de Augusto” e o momento da “maioridade terrestre” foram períodos marcantes na história da Humanidade e como uma preparação para a atuação do Cristo.

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cristianismo nos séculos iniciais. Análise histórica e visão espírita. Cap. 1.2. Matão: O Clarim. 2018.

2) Rops, Daniel. Trad. Pinheiro, Eduardo. História da igreja de Cristo. I. A igreja dos apóstolos e dos mártires. 2.ed. Porto: Livraria Tavares Martins. 1960. 724p.

3) Mendes, Norma Musco. O sistema político do principado. In: Silva, Gilvan Ventura; Mendes, Norma Musco (Org.). Repensando o império romano: perspectiva socioeconômica, política e cultura. Cap.I. Rio de Janeiro: Mauad; Vitória: EDUFES, 2006.

4) Xavier, Francisco Cândido. Boa Nova. Pelo espírito Humberto de Campos. 36.ed. Cap. 1. Brasília: FEB. 2013.

5) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. A caminho da luz. 38.ed. Cap.11 e 13. Brasília: FEB. 2013.

(Ex-presidente da FEB e da USE-SP)

Extraído de: Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCIII. N. 11. Dezembro de 2018. P. 600-01.

D.Cida, de Uberaba, amiga dos doentes e de Chico

D.Cida, de Uberaba, amiga dos doentes e de Chico

Aparecida Conceição Ferreira (Dona Cida) (*)

A cidade de Uberaba, além de sua beleza e prosperidade, abriga, em seu seio, importantes personagens do movimento espírita brasileiro. Uma delas, que trabalhou ao lado de Chico Xavier, é Dona Aparecida Conceição Ferreira, que se projetou nacionalmente pela fundação do "Hospital do Fogo Selvagem", especializado no tratamento dos portadores do "Pênfigo Foliáceo", uma doença cujos sintomas se assemelham a labaredas que percorrem o corpo e deixam na pele verdadeiras marcas de queimadura.

"Dona Cida" começou esse trabalho no ano de 1957, quando trabalhava como enfermeira no Isolamento da Santa Casa de Uberaba. Como o tratamento do Pênfigo era difícil e dispendioso, o hospital acabou por suprimi-lo. A abnegada servidora de Jesus não titubeou: levou os doentes para a sua própria casa. Pedindo esmolas nas vias públicas e recorrendo aos meios de comunicação, sobretudo com a ajuda dos jornalistas Moacir Jorge e Saulo Gomes, este, através da extinta TV Tupi, e contando com o irrestrito apoio de Chico Xavier, Dona Cida ergueu o grande complexo hospitalar destinado ao tratamento da insidiosa enfermidade. Depois, com a alteração dos estatutos surgiu o "Lar da Caridade", que chegou a abrigar mais de trezentos desamparados ao mesmo tempo.

Embora conhecesse Chico Xavier, e dele recebesse ajuda desde o início, tornou-se espírita somente em 1964. Foi o Chico quem a incentivou a fundar o Centro Espírita "Deus e Caridade", onde ele comparecia para transmitir passes e receber mensagens psicografadas, grande parte delas assinadas por Maria Dolores e Jesus Gonçalves. Em visita à abençoada seareira, agraciada com o título de Cidadã Uberabense por seus méritos, a "Folha Espírita" dela obteve longa entrevista, da qual destaca alguns lances de sua maravilhosa existência.

As origens: "De acordo com os assentamentos nasci em Igarapava, Estado de São Paulo, filha de Maria Abadia de Almeida, às 4 horas da manhã, no dia 19 de maio de 1917. Meus avós maternos foram Manoel Inocêncio Ferreira e Joaquina Angélica de Jesus. Pelos registros tenho a idade de 82 anos, mas acredito que tenha 86. Nunca vi meu pai e fui criada por avô e tio. Casei-me em Igarapava, no dia 14 de junho de 1934, com Clarimundo Emidio Martins. Lá fiquei até a idade de 36 anos, onde tive meus cinco filhos. De Igarapava fui para Nova Ponte, onde exerci o magistério na zona rural."

Em Uberaba: "De Nova Ponte, vim para Uberaba, onde fiz de tudo para manter minha família. Até limpeza de cisternas, porque quando cheguei na chácara onde fui morar não havia o que comer. Então, saía limpando cisternas. Eu descia no fundo dos poços, e eles puxavam o barro. Depois, me dediquei à horta. Os médicos da Beneficência Portuguesa vinham comprar as verduras e com isso não precisava sair vendendo."

Enfermeira: "O dono da chácara foi candidato a Prefeito e perdeu a eleição. Dizia ele que gostava do meu trabalho, mas não daqueles que vinham à minha casa. Verdade seja dita, eu não trabalhei na campanha dele. E eu lhe falava: "Quem vem na minha casa é melhor que eu", e procurei um jeito de sair de lá. Foi uma cabeçada, sofri bastante. Certo dia, o Dr. Jorge me convidou para trabalhar no hospital. Relutei muito, porque o quadro que eu presenciei no Isolamento era terrível: doentes com tuberculose, tétano, febre amarela… Mas acabei aceitando porque a oferta ia subindo, subindo… Afinal, me oferecerem três mil e trezentos, enquanto meu marido ganhava cento e oitenta."

Problemas: "Eu trabalhava no hospital havia dois anos e alguns meses. Venceu o mandato daquela diretoria, e entrou outra. A eleição foi dia 4, e dia 6 eles tomaram posse. Os novos diretores parece que tinham alguma rixa com nosso médico, que era irmão do Pedro Aleixo e partidário da UDN. A turma que ganhou era do PTB. Falaram para mim: "Olha, hoje não tem almoço para os doentes, pode mandar todos pra casa". "Como?" , eu disse, "eles não têm dinheiro, estão ruins." "Ordem dada, ordem executada", replicaram. Ou seja, não havia apelação, os doentes estavam na rua."

Em busca de socorro: "Eu procurava consolar os doentes dizendo-lhes: "Não chorem, não, nós vamos fazer uma passeata e o povo vai nos ajudar" . Fui a uma rádio pediram-me para "refrescar a cabeça", noutra, a mesma coisa, no jornal, igual. Eu não sabia que estava brigando com a nata da cidade: Prefeito, Escola de Medicina, Saúde Pública. Me mandaram pra casa e fui muito triste, nervosa, matutando como fazer. Eram doze doentes. Fomos para minha casa."

Momento de decisão: "Em casa, um de meus filhos me disse: "A senhora escolhe, ou nós ou os doentes". Não vacilei e respondi: "Hoje, fico com os doentes, porque eles têm Deus e eu por eles, vocês estão crescidos e vão se virar". Chamei todos eles para dentro, e entraram chorando. E aí os vizinhos me davam um caixote; o outro, um colchão; outro uma tábua; e eu agasalhei os doze. Fui fazer o almoço, eram três ou quatro horas da tarde. A gente estava só com o café da manhã. Enquanto fazia comida, gritava para minhas filhas esquentarem água para eles tomarem banho na lata de querosene e assim permanecemos ali por dois dias."

Asilo São Vicente de Paulo: "No fim de dois dias, chegaram os diretores da Escola de Medicina e da Saúde Pública para ver as condições, que eram precárias. E aí arrumaram o Asilo São Vicente de Paulo, para que ficássemos dez dias porque, no final de dez dias, como prometiam, iriam arrumar alguma coisa melhor. Foram dez anos, nunca mais vi eles. Foi o tempo que eu levei para construir isso aqui, com a graça de Deus e a ajuda do povo."

Preconceitos: "Havia muito preconceito para com os doentes. Eu saía para pedir esmolas com três deles. Muita gente nos via e descia da calçada. Eu falava: "Não saiam não, porque se vocês saírem, apanham". Se nós entrávamos nos ônibus, o pessoal descia. Fomos pedir em uma casa daqui, cuja dona se dizia espírita e os meninos tocaram no portão. Antes que subíssemos, ela mandou passar álcool no portão para desinfetar. A doença do pênfigo é triste, é horrorosa, o doente na primeira fase é um pedaço de carne podre. E o povo tinha medo, porque ninguém conhecia, nós vencemos. Para fazer esta casa aqui foi uma luta, tantos foram os abaixo-assinados para que não fosse feita…"

Oito dias no xadrez: "Aqui não tem um grão de areia dado pela Prefeitura, nem pelo Estado ou a União. Foi o povo quem me ajudou. O pessoal espírita daqui fazia a campanha "Auta de Souza" e traziam as coisas para mim. Mas não dava para manter a casa, porque no final de um mês eu tinha trinta e cinco doentes. Fui para São Paulo e ficava no Viaduto do Chá, em frente da Light. Punha um lençol, as meninas segurando, e eu com um sino dizia: "Me dêem uma esmola pelo amor de Deus, para os doentes do Fogo Selvagem de Uberaba". E aí o povo ia jogando níqueis. Na época, foram dois vereadores daqui passear em São Paulo: um advogado e um médico. Achando que eu estava desmoralizando Uberaba, fizeram Ofícios para o Chateaubriand (**) e para a Delegacia. Fiquei oito dias no xadrez, até que uma advogada, Doutora Izolda, me tirou. Quem mandou ela me tirar, não sei até hoje, pois ela já morreu."

No Palácio dos Campos Elíseos com Scheilla: "Um dia, eu e o Lauro (**) estávamos andando na Avenida Rio Branco, nos Campos Elíseos, e eu o convidei para entrar. Atônito, ele disse: "Você está doida, nós estamos sujos, fedendo a suor, entrar aí no palácio do governador?". Mostrei as fotos dos doentes ao policial da portaria, ele ficou muito revoltado e me mandou segui-lo. … Passamos por saguões, escadas e tapetes vermelhos. Dona Leonor (**) estava conversando com um senhor. Em outra poltrona, estava sentado Don Evaristo e na terceira, nós. Ela acabou de conversar com os dois, e chegou nossa vez. Quando ela ia fazer menção de se sentar eu disse: "A Scheilla quebrou um vidro de perfume". Entre nós e a Dona Leonor ficou igual neblina e aquele perfume sufocando. Precisamos procurar ar. Quando melhorou, ela perguntou o que queríamos e lhe disse que pedia ajuda para o Hospital do Pênfigo. Ela disse: "Eu não posso ajudar, porque a senhora mora em Minas, e eu sou de São Paulo". Mas acabou me dando uma máquina de costura, duas peças de cretone e dez contos. Mas fiquei pensando: "O Chico não está aqui, como é que veio aquele perfume?"

O primeiro passe: "No mesmo dia em que estivemos com Dona Leonor, à noite, eu e o Lauro fomos a um Centro Espírita, uma casa velha, com muita gente. Logo que começou, o presidente da mesa falou: "A pessoa do fogo selvagem que estiver aí faça o favor de se dirigir à mesa". Não fui. Quando acabaram os trabalhos, todos foram saindo, menos aqueles da mesa. O presidente tornou a falar sobre a pessoa do "Fogo Selvagem". Eu me apresentei, e ele pediu-me desculpas porque não sabia quem eu era e falou que o "Mentor da Casa" tinha dito que era para eu dar um passe na Presidente do Centro, que já fazia três meses estava entrevada. Eu nunca tinha dado passe, mas agüentei firme. Subimos aquela escada de madeira em caracol e lá chegamos. Ela se chamava Mafalda, uma portuguesa. Estava sob um cortinado "chic", a turma rodeou a cama dela, e me puseram frente-a-frente. Eu iniciei a oração, senti algo estranho e pensei: "Nossa Senhora, agora vai sair bobagens aqui". Dei o passe e fomos embora. Dizem que em três dias ela andou. Aí, eu falei: "Preciso ser Espírita, porque a coisa está me apertando. A comida, ganhamos do povo espírita, agora a Scheilla me deu essa permissão, esse passe". Dona Mafalda me ajudou muito, fazia bingos, rifas, jantares, até quando morreu de câncer."

Chico Xavier: "Tantos e tantos foram os episódios interessantes que pude vivenciar com Chico Xavier. Certa vez, eu estava fazendo campanha em São Paulo, a situação estava difícil, e aquele dia não estava bom para pedir esmolas. Estava na Avenida Paulista, em frente da Televisão, amargurada, fazendo minha oração, triste, porque não estava rendendo nada. De repente, eu olho e vejo o Chico na outra calçada. Até que eu procurasse um lugar para passar e ir de encontro com o Chico, cadê o Chico? Que Chico, nada… Mas, daquela hora em diante, as coisas melhoraram para mim, desci a Brigadeiro e fui para o Anhangabaú, e ali a mina nasceu… Meu primeiro encontro com o Chico foi quando eu tinha uma doente muito obsediada; na época, eu dizia que ela estava doida. Fazia quinze dias que ela não dormia e nem deixava ninguém dormir. O Chico tinha acabado de chegar aqui. Um acadêmico de Medicina, Aldroaldo, me convidou para levar a doente ao Chico. Eu disse: "Sou católica, não queria ser espírita, porque tinha comigo que para servir a Deus não precisava mudar de seita, em qualquer delas se pode servir". Então, o Aldroaldo apareceu com uma "chimbica" junto com outro estudante. A doente queria saltar pela janela, a colocamos no meio. Chegamos lá no Chico, o quarto era pequeno e estava repleto de gente. O Chico estava de pé, escrevendo. Mas eu não vi o Chico, eu vi o Castro Alves. Nem me lembrei que Castro Alves tinha morrido. Falei: "Que Chico, que nada, é Castro Alves, com cabelo à " la garçon", grisalho". Por fim, eu disse: "Vamos embora, vamos embora". Na volta, a doente veio moderada, entrou dentro do carro sozinha e dormiu a noite toda…"

O Espiritismo: "Eu detestava o Espiritismo. Só a partir de 1964 é que me aproximei do Espiritismo, quando estava fazendo a campanha de tijolos para esta casa. Como já disse, fiquei pensando, não é possível, o povo faz campanhas de mantimentos e os trazem para mim, o povo me agrada, me dão dinheiro, a Scheilla me aparece em São Paulo. Naquela noite, eu não dormi, matutando: "Eu vou lá na mulher, nunca tinha dado passe na vida, me mandam dar passe, só virando espírita". E o Espiritismo não é brincadeira, é coisa muito séria, não se pode brincar com o Espiritismo. Às vezes, você vai em um Centro pensando que vai levar e você volta carregada. Eu não brinco".

Uma mensagem aos Espíritas: "Aos que buscam desenvolver algum trabalho, a minha mensagem é de que tenham muito amor, muita sinceridade e que façam as coisas para si e não para os outros verem. Porque a maioria faz as coisas para os outros verem. E não importa o que os outros falam, porque todas as pessoas que vão fazer a caridade levam o título de "ladrona". Meu título era de ladrona. Alguém foi perguntar para o Chico, porque todos diziam que eu estava roubando. Porque quando eu comprava um terreno, diziam: "Comprou mais um terreno para o filho". Comprava outro, era a mesma coisa. Então, o Chico disse àqueles que foram lhe falar: "Me digam onde ela roubou, que eu vou ajudar ela a roubar". A partir daí, o povo foi parando de falar que eu roubava."

(*) D. Aparecida C. Ferreira (19-05-1917/22-12-2009).

(**) Lauro (acompanhante de campanha); Leonor (primeira dama, esposa do governador Ademar de Barros); Chateaubriand (jornalista Assis Chateaubriand).

(Sobre a vida e obra de Aparecida Conceição Ferreira sugerimos a leitura do excelente livro: "Uma Vida de Amor e Caridade", de Izabel Bueno, Editora Espírita Cristã Fonte Viva, Belo Horizonte-MG.)

Texto publicado originalmente no jornal Folha Espírita, São Paulo, 09/1999. Transcrito do Boletim Eletrônico “Notícias do Movimento Espírita”, São Paulo, SP, quarta-feira, 28 de novembro de 2018; Compiladas por Ismael Gobbo.

O projeto “Cartas de Kardec”

O projeto “Cartas de Kardec”

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Fomos distinguidos pela Fundação Espírita André Luiz – FEAL com dois honrosos convites ao longo do ano de 2018.

Em 26 de maio de 2018 para comparecer e usar da palavra no evento realizado no Centro Espírita Nosso Lar, bairro de Santana, em São Paulo, sobre o Centro de Documentação e Obras Raras da FEAL quando foi apresentado o “Projeto Cartas de Kardec”, inaugurado o Instituto Canuto Abreu junto à FEAL e lançada a tradução da 1ª. edição francesa de A gênese, editada pela FEAL. Na oportunidade, recebemos alguns esclarecimentos sobre o descumprimento de contrato anterior firmado pelo Instituto Canuto Abreu, neto de Canuto Abreu, e também sobre um acidente havido com o acervo de Canuto Abreu no local onde estavam depositados. Em consequência, Lian de Abreu Duarte passou oficialmente a guarda do acervo do Instituto Canuto Abreu para a FEAL. Registramos que estavam presentes ao evento além de lideranças de São Paulo, como a presidente da USE-SP Júlia Nezu, Simoni Privato Goidanich, autora do livro O legado de Allan Kardec, Jussara Korngold, presidente do United States Spiritist Council e Elsa Rossi, presidente da British Union of Spiritist Societies.

Outro fato marcante foi o convite para sermos um dos entrevistados no programa especial dedicado ao projeto “Cartas de Kardec”, relacionado com o Instituto Canuto Abreu, levado ao ar pela Rede Boa Nova (Rádio Boa Nova e TV Mundo Maior), vinculada à Fundação Espírita André Luiz, no dia 21 de novembro de 2018.1 O Instituto Canuto Abreu é depositário de muitos manuscritos e documentos de Allan Kardec obtidos na França por Silvino Canuto Abreu antes da 2a Guerra Mundial. Também contém as históricas correspondências entre Canuto Abreu e Chico Xavier e um riquíssimo acervo de livros e periódicos.

Com a passagem da guarda do riquíssimo acervo para a FEAL é que surge o “Projeto Cartas de Kardec”.2 A FEAL reuniu equipe de especialistas contratados e voluntários para proceder à recuperação, identificação, estudo grafotécnico, tradução e catalogação dos manuscritos e documentos. Estes serão paulatinamente disponibilizados ao público por meio digital.

A nossa admiração por Silvino Canuto Abreu (1892-1980) foi precoce em função da tradução que o mesmo fez da 1ª edição de O livro dos espíritos, lançada em exemplar bi-lingue: O primeiro livro dos espíritos de Allan Kardec – 1857 (Companhia Editora Ismael, 1957). Outras obras do autor que muito me impressionaram foram: Bezerra de Menezes (Ed.FEESP) e O livro dos espíritos e sua tradição histórica e lendária (Ed. Lar da Família Universal).

Posteriormente em nossa trajetória de ações no movimento espírita pela amizade e apoio às gestões de Nestor João Masotti na USE-SP, FEB e CEI; pelos contatos com o casal Paulo Machado e Elza Mazzonetto desde antes deles fundarem o Museu Espírita de São Paulo; e com Oceano Vieira de Melo; na condição de presidente da FEB mantivemos muitos contatos com o neto de Canuto Abreu, Lian de Abreu Duarte.

Durante nossa presidência na FEB houve a passagem do Museu Espírita de São Paulo para a FEB, a criação do Espaço Cultural da FEB e a assinatura de contratos com Lian, como representante do Instituto Canuto Abreu. Lamentavelmente, após deixarmos a presidência, surgiram percalços depois de 2015 e os citados contratos não foram integralmente cumpridos.3,4,5

O movimento espírita vive momentos de resgates históricos neste ano de 2018. Iniciaram-se com as pesquisas e os documentos sobre as edições de A Gênese na França, bem registrados no livro O legado de Allan Kardec, de Simoni Privato Goidanich6, culminando com a tradução da 1a edição francesa de A gênese pela FEAL; prosseguem pesquisas na França sobre fatos do século XIX, com apoio de Le Mouvement Spirite Francophone; o filme-documentário "Espiritismo à Francesa: a derrocada do Movimento Espírita Francês pós-Kardec"7, produção da Luz Espírita/Autores Espíritas Clássicos, focalizando o enfraquecimento e desaparecimento quase absoluto do Espiritismo, tanto na França, seu berço, quanto na Europa logo após a desencarnação de Allan Kardec; o lançamento da edição bi-lingue e digital do livro Beaucoup Lumière/Muita luzde Berthé Fropo, amiga do casal Kardec; e, agora com as pesquisas sobre manuscritos inéditos de Kardec e correspondências entre Canuto Abreu e Chico Xavier.

Nossa expectativa é que todo esse movimento redundará na redação de nova página da história do Espiritismo, mas completando e/ou revisando páginas anteriores!

Referências:

1) Link para acesso ao programa: https://www.youtube.com/watch?v=nqA5u5Moa3o;

2) Link para acesso ao Projeto: https://www.catarse.me/cartasdekardec;

3) FEB assume Museu Espírita de São Paulo. Reformador. Ano 131. N. 2.211. Junho de 2013. P. 234.

4) Inaugurações de Espaços iniciam as comemorações dos 130 anos da FEB. Reformador. Ano 132. N. 2.218. Janeiro de 2014. P. 49-51.

5) Aberta Exposição sobre Chico Xavier na FEB-Rio. Reformador. Ano 132. N. 2.225. Agosto de 2014. P. 503.

6) Goidanich, Simoni Privato. O legado de Allan Kardec. 1.ed. São Paulo: USE. 2018. 446p.

7) Link para acesso ao documentário: https://www.youtube.com/watch?v=Ywf8Ftu2eUo;

8) Fropo, Berthé. Trad. Lopes, Ery & Miguez, Rogério. Muita luz. Ed.digital Autores Espíritas Clássicos, 2017: http://luzespirita.org.br/leitura/pdf/L158.pdf

(*) Presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (1990-1994 e 1997-2000); diretor e vice-presidente da FEB (2004-2012); presidente interino e presidente da Federação Espírita Brasileira (2012-2015); membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional (2007-2016).

25 anos da Campanha “Viver em família”

25 anos da Campanha “Viver em família”

No ambiente familiar deve ocorrer não apenas a reunião do Evangelho no lar, mas o esforço pela vivência dos postulados espíritas e cristãos

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A Campanha “Viver em Família” completa 25 anos de lançamento, tendo por slogan “O melhor é viver em família. Aperte mais esse laço”.

Logo depois que assumimos a presidência da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, no segundo semestre de 1990, já se iniciava uma reunião de estudos sobre temas da família, e, que era coordenada pela nossa esposa Célia Maria Rey de Carvalho, contando com um grupo de colaboradores. Adotava-se uma programação que iniciamos com a esposa, poucos anos antes no Centro Espírita Luz e Fraternidade, de Araçatuba (SP).

O programa de estudo concretizado na sede da USE-SP foi a origem do livro Família & espiritismo, editado pela USE-SP, preliminarmente lançado como um opúsculo.1

No ano de 1992, durante reunião da diretoria da USE-SP, os companheiros Sander Salles Leite e Joaquim Soares informaram que a Organização das Nações Unidas-ONU, preparava-se para promover o "Ano Internacional da Família", em 1994 – com o objetivo de "contribuir para construir a família, a menor democracia no coração da sociedade"2 -, e que a USE-SP que havia promovido a "Campanha Integração da Família", em 1980, e que realizava reuniões de estudo e publicações sobre o tema, deveria apresentar uma proposta sobre o tema para o Conselho Federativo Nacional da FEB.

De fato, a USE-SP apresentou uma proposta de Campanha sobre Família na reunião do Conselho Federativo Nacional da FEB, em novembro de 1992. Foi formada uma Comissão que foi incumbida de elaborar uma proposta para a reunião do CFN da FEB do ano seguinte, integrada por representantes de São Paulo: Antonio Cesar Perri de Carvalho e Célia Maria Rey de Carvalho; Rio de Janeiro: Gerson Simões Monteiro e Lydiênio Barreto de Menezes: FEB: Nestor João Masotti e Paulo Roberto Pereira da Costa; havendo assessoria de Merhy Seba (SP). Assim, surgiu a proposta da Campanha "Viver em Família", a qual foi aprovada pelo Conselho Federativo Nacional da FEB em suas reuniões de novembro de 1993.

No final deste evento, à noite, houve o lançamento no Auditório do Senado Federal, em mesa integrada pelo senador Coutinho Jorge, espírita do Pará; pela FEB, o presidente Juvanir Borges de Souza, vice-presidentes Cecília Rocha, Nestor João Masotti e Altivo Ferreira; presidentes de Federativas Estaduais: Antonio Cesar Perri de Carvalho (SP), Jonas da Costa Barbosa (Pará), e mais alguns parlamentares.

O lançamento nacional da Campanha "Viver em Família" ocorreu em São Paulo, no dia 29 de janeiro de 1994, com realização da USE-SP na sede do Centro Espírita Nosso Lar, sendo desenvolvido o Seminário “Formação de equipes para a Campanha”. A mesa de instalação do evento foi integrada por: vice-presidentes da FEB Nestor João Masotti e Altivo Ferreira; Paulo Roberto Pereira da Costa, coordenador da Comissão Operacional da Campanha “Viver em Família” do CFN da FEB; Antonio Cesar Perri de Carvalho, presidente da USE-SP; Gerson Simões Monteiro, presidente da USEERJ; Teodoro Lausi Sacco, presidente da FEESP; Célia Maria Rey de Carvalho, Coordenadora da Campanha para o Estado de São Paulo; Ivan René Franzolim, presidente da Associação dos Jornalistas Espíritas do Estado de São Paulo; e Irinéia Terra, representante do C.E. Nosso Lar. Divaldo Pereira Franco proferiu a palestra de abertura. Seguiu-se o seminário desenvolvido durante o dia 30 de janeiro de 1994. Este evento marcante originou o livro Laços de família, editado pela USE-SP.2

A Comissão Estadual desta Campanha em São Paulo coordenada por Célia Maria Rey de Carvalho promoveu vários eventos em todo o Estado. Um seminário em nível estadual, promovido pela USE-SP gerou um outro livro: A família, o espírito e o tempo, editado pela USE-SP.3

Fato de máxima importância é que a família deve contar com um espaço integrado e conjunto no Centro Espírita, deixando-se de ser pulverizada – com barreiras etárias – apenas em reuniões específicas para crianças, jovens e adultos. E no ambiente familiar deve ocorrer não apenas a reunião do Evangelho no lar, mas o esforço pela vivência dos postulados espíritas e cristãos. Daí, as questões básicas de O livro dos espíritos: "Os laços sociais são necessários ao progresso e os laços de família estreitam os laços sociais. Eis aqui porque os laços de família são uma lei natural. […] Qual seria para a sociedade o resultado do relaxamento dos laços de família? ̶ Uma recrudescência do egoísmo."4

E o comentário de Emmanuel: “A melhor escola ainda é o lar, onde a criatura deve receber as bases do sentimento e do caráter. […] Como renovar os processos de educação para a melhoria do mundo? – As escolas instrutivas do planeta poderão renovar sempre os seus métodos pedagógicos, com esses ou aqueles processos novos, de conformidade com a psicologia infantil, mas a escola educativa do lar só possui uma fonte de renovação que é o Evangelho, e um só modelo de mestre, que é a personalidade excelsa do Cristo.”5

A propósito do momento do Evangelho no lar, recomenda Bezerra de Menezes: “Que tão belos serões renovadores do lar e dos corações obtenham êxito na boa educação da infância e dos iniciantes em geral, é o meu desejo.”6 Na literatura espírita – além das obras citadas -, há muitos subsídios para se estudar e analisar os temas sobre família.

Passados 25 anos do lançamento da Campanha “Viver em Família”, o cenário em que vivemos solicita muita atenção para o cultivo dos valores familiares. O momento requer a implementação do slogan da Campanha, inspirado em O livro dos espíritos: “O melhor é viver em família. Aperte mais esse laço”!

Referências:

1) Carvalho, Célia Maria Rey (Org.). Família & espiritismo. 6.ed. São Paulo: USE. 231p.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri (Org.). Laços de família. 8.ed. São Paulo: Ed. USE. 150p.

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri (Org.). A família, o espírito e o tempo. 1.ed. São Paulo: USE. 140p.

4) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos espíritos. Questões 774 e 775. Brasília: FEB.

5) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. O consolador. 29.ed. Questões 110 e 112. Brasília: FEB.

6) Bezerra de Menezes. Advertência aos pais. In: Pereira, Yvonne Amaral. A família espírita. 1.ed. Brasília: FEB. 117p.

Ex-presidente da FEB e da USE-SP.

De: Revista internacional de espiritismo. Ano 93. N.10. Novembro de 2018. P. 544-546.

Resgates da História do Espiritismo na França. II. Aparecimento da União Espírita Francesa

Resgates da História do Espiritismo na França. II. Aparecimento da União Espírita Francesa

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Oportuna publicação digital foi editada por Autores Espíritas Clássicos reunindo os discursos e decisões registradas nas Atas das reuniões ocorridas entre 24 de dezembro de 1882 e 15 de janeiro de 1883, relacionadas com a fundação da Union Spirite Française.1 A apresentação é de Alexandre Delanne, o grande amigo de Allan Kardec, que comentou: “Os princípios de nossa filosofia foram reunidos, como vós o sabeis, em corpo de doutrina por nosso mestre que nos faz muita falta, Allan Kardec: foi preciso seu gênio e a cooperação do mundo invisível para espalhar-se tanto e tão rápido, nas massas, nossas ideias tão justas, tão consoladoras e tão grandes. Sua partida da terra foi uma perda bem sensível para seus adeptos e um grande prejuízo no desenvolvimento de nossa doutrina. Desde sua morte, com efeito, o espiritismo, nós o constatamos, diminuiu sua marcha.” E cita como causa a guerra franco-prussiana e a dispersão dos espíritas, perdendo a “unidade no estudo”.1

Marcantes discursos foram feitos por Gabriel Delanne e por Léon Denis, este com apelo caloroso à união e à concórdia. O Estatuto da União Espírita Francesa define em seu Artigo 1o: “A união tem por objetivo o agrupamento de espíritas franceses, o estudo de todos os fenômenos espíritas, e a propagação da filosofia e da moral do espiritismo por todos os meios que as leis autorizam, e principalmente pela publicação de um jornal bimensal tendo por título: Le Spiritisme órgão da União Espírita Francesa.” A nova revista objetiva o ensino “conforme às ideias enunciadas por Allan Kardec, isto é simples, claro, e principalmente ao alcance dos novos adeptos, que não demandam senão a conhecer os costumes do mundo dos espíritos, a grande pátria a que nós devemos rever.”1

Treze anos após a desencarnação do Codificador, a publicação sobre a União Espírita Francesa registra momentos históricos sobre um ambiente de dissenção e de preocupações com a situação do Espiritismo. A fundação desta União foi reação às deturpações influenciadas por Leymarie junto à Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec e à Revista espírita. Da relação de 18 fundadores destacamos: Alexandre Delanne, Gabriel Delanne, Léon Denis, Berthé Froppo. Há grande número de assinaturas como membros da União e assinantes da nova revista. O apoio de Amélie Boudet, já nos últimos momentos de sua existência física, e o comprometimento dos fundadores da União Espírita Francesa, evidenciam que os genuínos amigos e seguidores de Allan Kardec eram idealistas e fiéis à sua obra.

Como uma síntese das últimas e complexas décadas do século XIX, foram reunidos artigos da época, da Revue Spirite e de Le Spiritisme, na publicação intitulada “Influenciações no espiritismo pós-Allan Kardec”, com tradução de Rogério Miguez (2018)2. Destacam-se textos de Henri Sausse, Berthe Fropo, Amélie Boudet, Gabriel Dellane, Léon Denis, Anna Blackwell, que tomaram a frente na defesa da Doutrina dos Espíritos. O tradutor ressalta “os informes de Henri Sausse e Berthe Fropo, quando desafiaram Pierre Leymarie a buscar a verdade sob a chancela de um Júri de Honra, que, ao que tudo indica, não foi aceito. Pois, quem está seguro do que diz, não teme ir à justiça do homem para esclarecer os fatos, se preciso for, porquanto, a de Deus se fará inexoravelmente, mas com brandura e misericórdia.”2

O tradutor Miguez pondera que “de modo algum pretendemos julgar Pierre Leymarie, pois este julgamento pertence a Deus, nada obstante: informar o movimento sobre discussões antigas que interessam a todos; demonstrar como há uma dúvida consistente sobre quem fez alterações em A gênese; construir uma parte da História do Espiritismo, destacando personagens antigas que permaneciam na obscuridade e que tiveram capital importância no desenvolvimento e divulgação da Doutrina; e mais, despertar a curiosidade dos espíritas em saber quantas dificuldades surgiram após o desencarne de Allan Kardec, será sempre oportuno, saudável e recomendado àqueles procurando apenas a verdade e nada mais.”2

Em 1889 Paris sedia o 2º. Congresso Espírita e Espiritualista3, no ano seguinte ao do pioneiro evento realizado em Barcelona. A publicação das Atas do Congresso de Paris registra que este reuniu “as principais escolas espiritualistas: os Kardecistas, os adeptos de Swedenborg, os Teosofistas, os Cabalistas e os Rosacruzes.” Houve a presença de muitas celebridades. A sessão inaugural foi presidida por J. Lermina, assistido pelo filósofo Charles Fauvety, pela duquesa de Pomar, Marcus de Veze e Eugène Nus. O relator dos trabalhos era Dr. Encausse (Papus), um ocultista, dirigente da revista hermética A iniciação. Havia Comissões sobre o espiritualismo em geral, filosofia e questões sociais, ocultismo, propaganda. Esta última era presidida por Léon Denis, que logo despertou a atenção dos congressistas e seu primeiro discurso foi entrecortado de aplausos e já se revelava como um líder.3,4

Nesse Congresso ocorreram fortes desentendimentos sobre certos pontos da Doutrina Espírita, inclusive com interferências de Leymarie. Durante as discussões Denis apareceu como o mais seguro defensor da tese kardecista. O presidente do Congresso havia aceitado essa tese com restrição, pois a considerava apenas uma hipótese de transição entre o conceito cristão e o do futuro. Contrapondo-se ao presidente, referindo-se às pequenas escolas dissidentes, que já criticavam a obra de Allan Kardec, Denis afirmou:

“Tem-se esforçado, dizia ele, por divulgar, na França, um Espiritismo chamado positivista, uma doutrina seca e fria nada tendo de comum com o Kardecismo. […] Allan Kardec tem sido, dizem, muito cauteloso e deu motivo em sua obra para as idéias místicas e católicas. Não é exato. O Mestre defendeu o Cristianismo e não o Catolicismo. Allan Kardec manteve a moral evangélica porque ela não é somente a moral de uma religião, de um povo, de uma raça, mas porque é uma moral superior, eterna, que ela reconstruiu e haverá de reconstruir tanto as sociedades terrenas como as sociedades do Espaço.”4

A Revue spirite, informa o lançamento de A gênese, em 2018, conforme a 1a edição de 1868, e comenta: “Nesta ocasião, vários pesquisadores espíritas de todo o mundo (Uruguai, Argentina, Colômbia, Brasil, Estados Unidos e França) realizaram pesquisas sobre o assunto, às vezes independentemente uns dos outros, e todos eles estabeleceram que há uma dúvida legítima sobre a presente edição de A gênese, que está em conformidade com a 5a edição publicada em 1872, que é depois da desencarnação de Allan Kardec”5 (tradução livre do autor). E divulga: “A gênese, elaborada por Le Mouvement Spirite Francophone, feita conforme os textos das quatro primeiras edições, publicadas durante a vida do autor”; ou seja as edições feitas por Allan Kardec em 1868. Esta revista francofônica transcreve um capítulo do livro de Simoni Privato Goidanich6 vertido para o francês. A Revue spirite é uma continuação da Revista fundada por Allan Kardec em 1858, sendo órgão oficial do Conselho Espírita Internacional editada por Le Mouvement Spirite Francophone.

Na “Nota do Editor” da nova edição francesa de A gênese, comenta-se que “a análise das modificações mostram que numerosas passagens foram suprimidas na 5a edição, outras modificadas…”7

Alguns fatos referentes aos 20 anos subsequentes à desencarnação de Allan Kardec já apontam momentos complexos vividos pelo Espiritismo na França e suas repercussões em vários países, e, que devem merecer reflexões em nossos dias.

(*) – Foi presidente da FEB e membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional.

Referências:

1) Fundação da União Espírita Francesa. Trad. Ferreira Filho, Abílio. Ed.digital Autores Espíritas Clássicos, 2018: http://www.autoresespiritasclassicos.com

2) Influenciações no espiritismo pós-Allan Kardec – Artigos de Revue spirite e Le spiritisme. Trad. Miguez, Rogério. Ed.digital Autores Espíritas Clássicos, 2018: http://www.autoresespiritasclassicos.com

3) Compte rendu du Congres Spirite et Spiritualiste Internacional. Paris: Librairie Spirite. 1890. 454p: https://drive.google.com/file/d/1dOy1i0uMvzA7MPOKx00S5kx_NumibWuZ/view?usp=sharing

4) Luce, Gaston. Trad. Maillet, Miguel. Vida e obra de Léon Denis. São Paulo: Edicel. 1968. 240p.

5) Nouvelle édition de La Genèse selon le spiritisme. Revue spirite. 161e année. 1ème trimestre 2018. P. 36-42.

6) Goidanich, Simoni Privato. O legado de Allan Kardec. 1.ed. São Paulo: USE. 2018. 446p.

7) Kardec, Allan. La Genèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme. 1.ed. Le Mouvement Spirite Francophone. 2018. 368p.

Extraído de: http://www.oconsolador.com.br/ano12/593/especial.html

Resgates da História do Espiritismo na França. I. Problemas da “Sociedade Anônima”

Resgates da História do Espiritismo na França. I. Problemas da “Sociedade Anônima”

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Os livros e periódicos espíritas brasileiros, trazem informações superficiais sobre o desenvolvimento do Espiritismo na França logo após a desencarnação de Allan Kardec, não necessariamente fundamentadas em pesquisas em fontes francesas e com replicagens de informações. Este cenário se altera com as facilidades da internet, com acesso direto a bibliotecas, coleções digitais de periódicos e de documentos. E, sem dúvida, as viagens internacionais tornaram-se mais fáceis.

Recentemente, têm surgido obras que resgatam cenários do Espiritismo na França ou, para o contexto da literatura mais divulgada no Brasil, de certa forma muito institucionalizada, podemos dizer que se está reescrevendo muitos episódios com base em fatos e documentos. Entre as produções recentes, citamos: Em Nome de Kardec, de Adriano Calsone1; Revolução Espírita: a teoria esquecida de Allan Kardec, de Paulo Henrique de Figueiredo2; O legado de Allan Kardec, de Simoni Privato Goidanich3, e o vídeo documentário “O espiritismo à francesa. A derrocada do movimento espírita francês pós-Kardec”4, com vários entrevistados. Há também edições digitais efetivadas pelo site Autores Espíritas Clássicos, com traduções de publicações francesas do século XIX.

Com base nestas obras pode-se conhecer melhor as dificuldades vivenciadas pelos seguidores e pela viúva de Allan Kardec, após a desencarnação deste em 1869. Importante contribuição foi a divulgação da brochura Beaucoup de lumière, de Berthe Fropo (Paris, 1884)5. Esta passou despercebida até a Biblioteca Nacional da França digitalizá-la e colocá-la ao alcance de todos. Traduzida como Muita luz é um subsídio precioso para a melhor compreensão dos percalços para a propagação do Espiritismo após a desencarnação do Codificador. Berthe Fropo aborda o ponto crucial do desvirtuamento doutrinário ocorrido no movimento espírita francês pós-Kardec, apresentando nomes dos que não agiam fielmente ao Codificador, dados em letras e cifras, já que o caso estava envolto em uma grave “questão financeira”. Seu livro é uma espécie de dossiê, um libelo público contra os dirigentes do Espiritismo de então e um apelo para os "espíritas sinceros" para, no discurso da autora, não aceitarem as ações dos “confrades desleais”. A autora destaca Pierre-Gaëtan Leymarie, editor-chefe da Revista Espírita, e também, na prática, o "chefe" da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, embora a presidência fosse formalmente ocupada pelo Sr. Vautier, que também ocupava o cargo de tesoureiro da instituição. O apelo de Fropo, em oposição a Leymarie e outros, apontando atividades das mais nocivas aos ideais do Espiritismo, minando-o pela base, culmina na fundação de uma nova instituição, a União Espírita Francesa, e do jornal Le Spiritisme que representaria a "autêntica Doutrina dos Espíritos".5

Gabriel Delanne e Berthe Fropo assumiram, respectivamente, a presidência e a vice-presidência da União Espírita Francesa. Houve estímulo em mensagens assinadas pelo espírito Allan Kardec, obtidas em várias sessões mediúnicas realizadas na residência da viúva do Codificador, em Villa Ségur. Com a concordância de Amélie Boudet, Gabriel Delanne e Berthe Fropo é lançado um plano doutrinário para se revitalizar a divulgação das obras de Kardec, que havia sido comprometida por Leymarie, que agia sob a influência de outros pensamentos, como a do Roustainguismo e mais intimamente a da Teosofia de Madame Blavatsky e do Coronel Olcott.5

Oportuna pesquisa, El legado de Allan Kardec, de Simoni Privato Goidanich foi editada e lançada pela Confederação Espírita Argentina, em Buenos Aires, em 2017. Em março de 2018 a União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo lançou a edição em português da referida obra.3 Simoni Privato Goidanich trata dos momentos significativos dos 10 anos após o lançamento de O livro dos espíritos; os papéis desempenhados por Léon Denis e Gabriel Delanne e o relacionamento de ambos com Kardec; os episódios sobre as primeiras edições francesas de A gênese; e a desencarnação do Codificador. Em seguida, aborda as questões legais sobre o nome e o pseudônimo de Kardec; a fundação da Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec; comenta o chamado “o ano terrível” (1872), relacionado com o lançamento da 5a edição de A gênese designada como “revisada, corrigida e aumentada”; o “processo dos espíritas” envolvendo Leymarie; os cerceamentos inflingidos à Amélie Boudet e sua desencarnação; a queima de arquivos e documentos da viúva de Kardec; o alerta do biógrafo de Kardec, Henri Sausse – “Uma infâmia” – apontando 126 alterações de texto na 5a edição de A gênese; as nefastas deturpações executadas por Leymarie em instituições e na Revista Espírita; as lutas e propostas renovadoras de Gabriel Delanne e León Denis e a fundação da União Espírita Francesa.

No livro de Simoni ficaram evidentes as alterações de propósitos da Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec, depois transformada por Leymarie em Sociedade Científica do Espiritismo, e, também na linha editorial da Revista Espírita: “as páginas estavam cada vez mais ocupadas com artigos sobre teosofia […] Estabeleceu-se um vínculo da Sociedade Teosófica com a Sociedade de Estudos Psicológicos e a Sociedade Anônima para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec”.3 No contexto de deturpações e polêmicas, as edições francesas de A Gênese, a partir da 5a edição de 1872 (aquela “revisada, corrigida e aumentada”) é que foram autorizadas traduções para diversos países, por Leymarie – como redator-chefe e diretor da Revue Spirite (1870 a 1901), gerente da Librairie Spirite (1870 a 1897) e presidente da Sociedade Anônima -, inclusive para o Brasil, primeiramente para Joaquim Carlos Travassos em 1875, e depois para Bezerra de Menezes, como presidente da FEB, em 1897.

Por outro lado, Simoni mostra que o pioneiro e líder espanhol José María Fernández Colavida traduziu e publicou a 2a edição de A Gênese, de 1868, em Barcelona (Espanha), mantendo-se fiel à edição de Kardec.3

Simoni comprova que até a desencarnação de Kardec ocorreram quatro edições de A Gênese, e que um único exemplar deste livro foi depositado legalmente durante a existência física de Allan Kardec na Biblioteca Nacional da França. Portanto, o Codificador não modificou o conteúdo da obra. Na época, o Ministério do Interior fiscalizava as publicações, pois a França vivia momentos políticos tensos durante o reinado de Napoleão III.3

(O artigo prossegue em edição próxima)

(*) – Foi presidente da FEB e membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional.

Referências:

1) Calsone, Adriano. Em Nome de Kardec. 1.ed.. Atibaia: Ed. Vivaluz. 2015. 288p.

2) Figueiredo, Paulo Henrique. Revolução Espírita: a teoria esquecida de Allan Kardec. 1.ed. São Paulo: Ed. MAAT. 2016. 640 p.

3) Goidanich, Simoni Privato. O legado de Allan Kardec. 1.ed. São Paulo: USE. 2018. 446p.

4) Lopes, Ery. Espiritismo à francesa. A derrocada do movimento espírita francês pós-Kardec. Vídeo. São Paulo: Luz Espírita. 2018: https://www.youtube.com/watch?v=Ywf8Ftu2eUo

5) Fropo, Berthé. Trad. Lopes, Ery & Miguez, Rogério. Muita luz. Ed.digital Autores Espíritas Clássicos, 2017: http://luzespirita.org.br/leitura/pdf/L158.pdf

Extraído de Revista digital O Consolador:

http://www.oconsolador.com.br/ano12/592/principal.html