O filme “Paulo, Apóstolo de Cristo”

O filme “Paulo, Apóstolo de Cristo”

 

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O filme americano com o nome original “Paul, Apostle of Christ”, encontra-se em exibição em vários cinemas brasileiros. É dirigido por Andrew Hyatt, tendo como produtora a Sony Pictures. Duas figuras centrais no filme são o apóstolo Paulo, vivido por James Faulkner, e, o evangelista Lucas, protagonizado pelo ator Jim Caviezel, que atuou no filme “A Paixão de Cristo”.

O enredo se desenvolve principalmente no período em que Paulo de Tarso viveu seu segundo aprisionamento em Roma, detido na prisão Mamertine. Enquanto vivia seus últimos tempos à espera da execução já definida pelo imperador Nero, Paulo de Tarso recebeu a visita de Lucas, seu discípulo, autor de um Evangelho e médico. Lucas teve um papel destacado no filme, como uma ponte entre os seguidores de Jesus em Roma, liderados pelo casal Áquila e Priscila (ou Prisca) e o apóstolo prisioneiro.

O enredo do filme, como uma “licença cinematográfica”, mostra encenações relacionadas com o prefeito da prisão que, apesar do rigor no cumprimento da legislação romana, acabou reconhecendo o valor de Paulo e de Lucas, sendo sua filha curada por este último. Nas constantes visitas de Lucas, este convenceu Paulo a relatar os primeiros tempos do cristianismo e sobre sua própria trajetória. Muitas encenações do filme surgiram em função das memórias de Paulo ao discorrer sobre suas experiências. Surgia o registro de Lucas, conhecido como Atos dos Apóstolos. Os seguidores de Jesus se dispuseram a realizar várias cópias manuscritas que foram enviadas para diversos agrupamentos cristãos.

Pouco antes de ser executado Paulo é incitado a escrever uma carta, que ficou conhecida como 2ª. Epístola a Timóteo. Inclusive, trechos dessa última foram lidos nas encenações momentos finais da existência de Paulo, culminando com o versículo: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (1).

Interessante que a seara espírita tenha a informação que se encontra em fase final de edição o filme “Paulo de Tarso”, um docudrama dirigido por André Marouço e produzido pela TV Mundo Maior. Neste, ficará clara a visão espírita sobre os momentos iniciais do cristianismo.(2)

Paulo de Tarso foi o maior divulgador dos ensinos de Jesus e responsável pela consolidação dos agrupamentos pioneiros que reuniam os seguidores do Mestre. Valorizamos seus registros com destaque para as recomendações morais contidas nas suas Epístolas, sem se valorizar polêmicas do contexto da época ou pontos de discussão que posteriormente se constituíram em fundamentos para algumas correntes de pensamento religioso e até para justificativas de futuros dogmas.(3)

O momento enseja a leitura do livro “Paulo e Estêvão”, do espírito Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier.(4)

Referências:

1) 2 Timóteo 4, 7.

2) http://tvmundomaior.com.br/videos/filme-espirita-paulo-de-tarso-palestra-de-divulgacao/

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do espiritismo. Matão: O Clarim, 2016.

4) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Paulo e Estêvão. Brasília: FEB.

(*) Foi presidente da FEB e da USE-SP.

Extraído de: http://www.redeamigoespirita.com.br/profiles/blogs/o-filme-paulo-ap-stolo-de-cristo?xg_source=msg_appr_blogpost 

Quo vadis: de Roma à atualidade

Quo vadis: de Roma à atualidade

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

O movimento espírita requer alguns estudos e reflexões. Afinal de contas deve representar ação e uma dinâmica de avaliação continuada, sendo sempre válidas indagações como: o que pretendemos? para onde vamos?

Allan Kardec faz considerações amplas e lúcidas sobre a questão da revelação em A Gênese e com significativa colocação: "[…] o que caracteriza a revelação espírita é que a sua origem é divina, que a iniciativa pertence aos espíritos e que a elaboração é o fruto do trabalho do homem.”1

Aí se incluem algumas situações identificáveis em instituições espíritas de nossos dias à vista das alterações legais em nosso país nos últimos 30 anos e do contexto em geral.

Torna-se cabível também uma releitura do quase septuagenário “Pacto Áureo” para se verificar se suas cláusulas permanecem aplicáveis no cenário do movimento espírita atual.2

Como cidadãos do século XXI, observamos que no mundo dinâmico em que vivemos sucedem-se mudanças e inovações. Especialistas em gestão e transformações recomendam a valorização de novos talentos, nova cultura e novas formas de fazer as coisas, inclusive não se desprezando receios e preocupações.3

Todavia ao se analisar a atualidade torna-se interesse se conhecer a trajetória dos primeiros tempos do cristianismo realizando-se algumas analogias com o movimento espírita.4

Interessante é que na história do cristianismo nascente, há o registro do ex doutor da Lei Saulo de Tarso, que ao visitar a Casa do Caminho após sua conversão sentiu-se: “[…] torturado pela influência judaizante. Tiago dava a impressão de reingresso, na maioria dos ouvintes, nos regulamentos farisaicos. Suas preleções fugiam ao padrão de liberdade e do amor em Jesus Cristo.”5 Saulo de Tarso optou em deixar a tradicional e pioneira ecclesia de Jerusalém, iniciando sua grande tarefa de divulgador do Evangelho. Ao comentar a vida e obra de Paulo, Herculano Pires destaca a posição clara e marcante do Apóstolo: "Ele libertava a religião da política e do negócio. Para ele, a religião tinha que ser vivida em si mesma e vivida com toda a independência moral". A propósito de trecho de Atos sobre “muitos milagres e prodígios entre o povo pelas mãos dos apóstolos” o autor aponta que ali se encontra "uma das mais belas confirmações evangélicas da realidade e da verdade do Espiritismo e das suas práticas como continuação do cristianismo em espírito e verdade aqui na terra."6

Em portentosa obra, hoje raríssima, o ex-presidente da FEB Leopoldo Cirne faz ricas apreciações em Antichristo. Senhor do Mundo, tendo dois subtítulos: “O Espiritismo em falência” e “A obra cristã e o poder das trevas”, publicada no Rio de Janeiro em 1935.7 Cirne considera que o Cristo empreende a obra de educação e redenção da humanidade e raciocina: “o princípio oposto – de separatividade e de egoísmo – que forma o substrato da natureza inferior do homem e constitui, na quase totalidade da espécie humana, o motivo preponderante de seus atos e impulsos? […] esse princípio deverá chamar-se o Anticristo. Somos todos assim, enquanto consentimos em nós o predomínio do egoísmo com todos os seus derivados – ambição, vaidade, orgulho – e pelejamos denodadamente pela obtenção e acréscimo dos bens, posições e vantagens pessoais, com sacrifício dos outros e violação da lei de solidariedade…”7

Evidentemente que o conceito e a prática de religião determinam diferenças de comportamentos e a origem de eventuais problemas de relacionamento em geral. Nessa relação entre essência de proposta religiosa e institucionalização, entendemos como oportuna a reflexão nesses comentários do autor espiritual Emmanuel: "As instituições humanas vivem cheias de códigos e escrituras. Os templos permanecem repletos de pregações. Os núcleos de natureza religiosa alinham inúmeros compêndios doutrinários. O Evangelho, entretanto, não oculta os propósitos do Senhor. Toda a movimentação de páginas rasgáveis, portadoras de vocabulário restrito, representa fase de preparo espiritual, porque o objetivo de Jesus é inscrever os seus ensinamentos em nossos corações e inteligências. Poderemos aderir de modo intelectual aos mais variados programas religiosos, navegarmos a pleno mar da filosofia e da cultura meramente verbalistas, com certo proveito à nossa posição individual, diante do próximo; mas, diante do Senhor, o problema fundamental de nosso espírito é a transformação para o bem, com a elevação de todos os nossos sentimentos e pensamentos. O Mestre escreverá nas páginas vivas de nossa alma os seus estatutos divinos.”8

Daí o valor de se recorrer ao pensamento do Codificador. Kardec se refere ao “laço moral” e detalha o real caráter religioso do Espiritismo.9 A fundamentação em obras do Codificador Allan Kardec e textos sobre união psicografados por Chico Xavier são poderosos antídotos a deturpações que podem grassar no movimento espírita. Com base no relacionamento proposto pelo cristianismo fica mais fácil o entendimento do raciocínio de Emmanuel: “Pensa um pouco e entenderás que é sempre muito fácil ajuntar os interesses da Terra e fazer a união para o bem da força, mas apenas entesourando as qualidades do Cristo na própria alma é que nos será possível, em verdade, fazer a união para a força do bem.”10

A nosso ver é oportuna a lembrança de conhecida frase latina: Quo vadis?, que significa "Para onde vais?" ou "Aonde vais?". Teria surgido em um relato considerado apócrifo conhecido como "Atos de Pedro", quando o apóstolo estaria tentando fugir de um provável sacrifício em Roma. Jesus teria aparecido a ele e pergunta: Quo vadis? Em seguida Jesus também responde: "Vou a Roma para ser crucificado de novo". Pedro teria desistindo da fuga e retornado a Roma onde foi sacrificado. A frase latina e o episódio citado ficaram imortalizados no filme cinematográfico americano épico “Quo vadis” de 1951.

A propósito, há uma frase parecida registrada pelo apóstolo João: “Agora que vou para aquele que me enviou, nenhum de vocês me pergunta: Para onde vais?“11

O tema “união dos espíritas” é de fundamental importância para o bom desenvolvimento e o futuro do movimento espírita. O movimento espírita deve considerar a indagação “Para onde vais” e alinhar propostas e ações –- que efetivamente visem facilitar-se a disseminação dos ensinos do “Espírito da verdade”. Portanto é pertinente a questão para o movimento e a união dos espíritas – para onde vamos?

Referências:

1) Kardec, Allan. Trad. Sêco, Albertina Escudeiro. A gênese. 3.ed. Cap. I, item 13. Rio de Janeiro: Ed. CELD. 2010.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? 1.ed. Capivari: Ed. EME. 2018. 144p.

3) Immelt, Jeffrey R. Na liderança da transformação. Harvard Business Review. Setembro de 2017.

4) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cristianismo nos séculos iniciais: aspectos históricos e visão espírita. Matão: O Clarim [no prelo].

5) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Paulo e Estêvão. Ed. Esp. Brasília: FEB, 2012. 488p.

6) Pires, José Herculano. Org. Arribas, Célia. O evangelho de Jesus em espírito e verdade. 1.ed. Cap. 15. São Paulo: Editora Paidéia. 2016.

7) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cristianismo, Espiritismo e o Anticristo. Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCII. No. 9. Outubro de 2017. P. 474-477.

8) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Vinha de luz. 1.ed.esp. Cap. 81. Brasília: FEB. 2005.

9) Kardec, Allan. Trad. Noleto, Evandro Bezerra. O Espiritismo é uma religião? Revista Espírita. Dezembro de 1868. Ano XII. FEB. 2005.

10) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Seara dos médiuns. 19.ed. Cap. 46. Brasília: FEB. 2008.

11) João 16, 5.

(*) – Ex-presidente da FEB e da USE-SP.

Transcrição de: Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCIII. No. 4. Maio de 2018; acesso: https://www.oclarim.org/oclarim/materias/5737/revista/2018/Maio/-quo-vadis-de-roma-a-atualidade.html

Espíritas por um Mundo Melhor

Espíritas por um Mundo Melhor

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Na noite do dia 24 de abril, ocorreu a Solenidade Espíritas por um Mundo Melhor, no Auditório Prestes Maia da Câmara Municipal de São Paulo.

A família espírita da cidade de São Paulo tem história e tradição nobilitante.

O líder pioneiro António Gonçalves da Silva (1839-1909), conhecido como Batuíra, aos 6 de Abril de 1890, restabeleceu o Grupo Espírita Verdade e Luz que havia muito "se achava adormecido". Adquiriu então uma pequena tipografia, destinada a divulgação e propagação do Espiritismo, editando a publicação quinzenal "Verdade e Luz. Era também médium curador, sendo centenas as curas de caráter físico e espiritual que obtinha ministrando água fluidificada e aplicando passes. O local onde residiu e funcionaram instituições por ele criadas passou a ser conhecida como a rua do espírita e acabou tornando-se a atual Rua Espírita, no bairro Cambuci, próximo ao centro da Capital.

Contemporânea a ele destacou-se Anália Franco (1853-1919), professora, jornalista, poetisa e dedicada à filantropia. Fundou dezenas de escolas e asilos para crianças órfãs em várias cidades. Na cidade de São Paulo, fundou uma importante instituição de auxílio a mulheres e a região, antes afastada do centro, é hoje o bairro Jardim Anália Franco, onde também se situa o Shopping Anália Franco.

Aí estão logradouros públicos conhecidos da Capital paulista homenageando espíritas. Mas há dezenas de ruas com nomes de espíritas.

Muitas outras instituições surgiram na primeira metade do século XX. Destacamos também alguns fatos pioneiros paulistanos, como a fundação em 1937 da União das Mocidades Espíritas de São Paulo (UMESP), que foi um celeiro na preparação de lideranças e expositores; o histórico 1o. Congresso Espírita do Estado de São Paulo, em 1947, oportunidade em que foi fundada a USE; o Congresso Brasileiro de Unificação, efetivado em São Paulo, em 1948, germinando idéias de união dos espíritas e o documento “Proclamação aos espíritas”; a pioneira 1ª. Exposição do Livro Espírita, no centro da cidade de São Paulo, em abril de 1955; a magnífica comemoração pública do Centenário de O livro dos espíritos (abril de 1957); e, sem dúvida, as marcantes entrevistas de Chico Xavier na TV Tupi de São Paulo (1968, 1971, 1972).

Na citada solenidade da Câmara Municipal dezenas de instituições espíritas da Capital, principalmente filantrópicas, e lideranças espíritas foram homenageados. Houve homenagem especial à União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, que completou 70 anos de fundação no ano passado e conta com a união de cerca de 1.500 instituições espíritas.

Relação dos homenageados: União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE), Fundação Espírita André Luiz (FEAL), Júlia Nezu de Oliveira, Antonio Cesar Perri de Carvalho, Centro Espírita Caminheiros do Amor (CECA), Centro Espírita Luiza de Abreu Andrade, Livraria Allan Kardec Editora (LAKE), Grupo Espírita Manoel Bento (GEMB), Núcleo Assistencial Bezerra de Menezes (NABEM), Centro Espírita Casa Branca do Caminho, Sociedade de Estudos Espíritas 3 de Outubro, Congregação Espírita Maria Benta, União dos Delegados Espíritas de São Paulo (UDESP), Centro Espírita Nosso Lar – Casa André Luiz, Grupo Espírita Casa do Caminho (GECC), TV Mundo Maior, Rádio Boa Nova, Antonio Bartolomeu Cruzera, José Damião, Joel Beraldo, José Carlos de Lucca, Edelso da Silva Jr., Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo Eduardo Carvalho Monteiro (CCDPE).

Realmente desde o final do século XIX, um contingente imenso de seareiros atuaram e atuam na base do movimento espírita e próximos à comunidade na Capital paulista, e, no conjunto fazendo juz ao tema do evento: Espíritas por um Mundo Melhor.

Todos receberam um Diploma e o vereador que presidiu a Solenidade recebeu um exemplar de "O livro dos espíritos", ofertado pela USE-SP. Ocuparam a mesa e a tribuna, o vereador proponente Gilberto Natalini; a presidente da USE-SP Júlia Nezu de Oliveira; Antonio Cesar Perri de Carvalho, como ex-presidente da USE-SP e da FEB; e Afonso Moreira Júnior, um dos organizadores da Solenidade. Em sessão que durou quase duas horas houve destaque para o trabalho dedicado ao bem empreendido pelos espíritas. Ocorreram apresentações musicais da Guarda Civil Metropolitana e artistas convidados. O público era numeroso, incluindo familiares e amigos dos homenageados. O evento foi filmado pela Câmara, TV Mundo Maior e contou com presença de vários repórteres.

Informações:

http://grupochicoxavier.com.br/camara-municipal-de-sao-paulo-homenageia-espiritas/;

http://www.camara.sp.gov.br/blog/entidades-espiritas-ganham-homenagens-por-boas-iniciativas/#.WuKImOk9Nsk.facebook

(*) – Foi presidente da USE-SP e da FEB.

O “apelo” e a “advertência” aos pais

O “apelo” e a “advertência” aos pais

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Com o título Apelo aos pais foi editado pelo Centro Espírita Allan Kardec, de Campinas, livro que aborda assuntos como: pais e filhos, jovens, união conjugal, suicídio infantil, adoção, rejeição paterna, dinheiro e outros; autoria de Clara Lila González de Araújo.

No prefácio da obra destacamos: "o livro editado pelo Centro Espírita Allan Kardec, de Campinas (SP), enriquece a literatura espírita com análises e reflexões que, sem dúvida, devem merecer a atenção e o estudo por parte dos pais, educadores e colaboradores dos centros espíritas."(1)

A autora Clara Lila comenta que a palavra “apelo”, escolhida como título para a obra citada, “sugere alerta, convocação, urgência, como a chamar os pais, as mães e os filhos, os educadores, os evangelizadores, e demais espíritas, entrevendo suas possibilidades de analisar as contendas familiares e meditar sobre os seus prováveis desfechos.”(1)

Numa época de muitos afazeres e compromissos dos pais, as crianças nem sempre contam com a presença e o apoio direto e continuado de seus responsáveos, daí a oportunidade do “apelo”.

Por oportuno, lembramos que Bezerra de Menezes emprega a palavra “advertência”. Em “Advertência aos pais de família” incluída em A família espírita, este espírito afirma em mensagem de 26/01/1964: “Patrocinando, pois, um ensaio lítero-doutrinário-evangélico para auxílio às mães e aos pais de família, durante as noites de serão no lar, onde o Evangelho do Senhor e seus benefícios ao indivíduo e à sociedade serão ministrados e examinados, eu o faço no cumprimento dos próprios deveres para com o Consolador […] Que tão belos serões renovadores do lar e dos corações obtenham êxito na boa educação da infância e dos iniciantes em geral, é o meu desejo. […] Estas páginas, porém, foram escritas de preferência para os adultos de poucas letras doutrinárias e não propriamente para crianças, visto que para ensinar a Doutrina Espírita aos filhos é necessário que os pais possuam noções doutrinárias, um guia, um conselheiro que lhes norteie o caminho a seguir.”(2)

Entre 2013 e 2014, durante nossa gestão na FEB, foram publicados quatro volumes inéditos de Yvonne do Amaral Pereira: A família espírita, Evangelho aos simples, As três revelações, Contos amigos, que constituem uma série de obras voltada à família, a crianças e jovens e à reunião do Evangelho no lar. Estes livros foram elaborados pela médium entre 1964 e 1971 e contam com mensagens de Bezerra de Menezes.

Como Introdução de As três revelações o mesmo orientador espiritual em mensagem de 3/10/1967, comenta: “será bom que o espírita zele por suas crianças, preparando possibilidades futuras para a sua salvaguarda moral-espiritual. Erro será supor que a infância moderna se choque frente à verdade espírita e à transcendência evangélica.”(3) Yvonne Pereira comenta na apresentação de Evangelho aos simples, que não há a “pretensão de se impor à instrução doutrinária da criança, senão o desejo sincero de auxiliar uma tarefa espinhosa, que está a requerer de cada adepto do Espiritismo atenções urgentes e dedicações ilimitadas.”(4)

O conjunto dessas quatro obras de Yvonne A. Pereira constitui um formidável repositório para utilização em várias situações da difusão dos princípios espíritas, facilmente adaptáveis para diversas faixas etárias e sociais e se enquadrando em distintos contextos para o ensino espírita.

A nosso ver, essas obras de Yvonne podem servir de roteiro ou texto básico não apenas para as reuniões com crianças e adolescentes e de Evangelho no lar, mas também em reuniões com adultos, notadamente em ambientes cujo público alvo seja constituído de pessoas mais simples.

Emmanuel destaca que: “A melhor escola ainda é o lar, onde a criatura deve receber as bases do sentimento e do caráter.”(5)

Realmente, numa época tão complexa, urge o “apelo” e a “advertência” aos pais de família!

Referências:

1) Araújo, Clara Lila González. Apelo aos pais. Campinas: Ed. CEAK. 2018. 278p.

2) Pereira, Yvonne Amaral. A família espírita. Brasília: FEB. 2013. 117p.

3) Pereira, Yvonne Amaral. As três revelações. Brasília: FEB. 2014. 213p.

4) Pereira, Yvonne Amaral. Evangelho aos simples. Brasília: FEB. 2013. 101p.

5) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. O consolador. Questão 110. Brasília: FEB. 2013.

 

(*) – Foi presidente da FEB e da USE-SP.

Abril Espírita

Abril Espírita

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Em muitos órgãos legislativos, municipais e estaduais, há comemorações em homenagem aos espíritas, em torno do dia 18 de abril. Multiplicam-se pelo país as semanas, meses espíritas, seminários e palestras.

A data de nascimento do Espiritismo é o dia 18 de abril, pois no ano de 1857, Allan Kardec publicou O livro dos espíritos, a obra inicial e fundamental da Doutrina dos Espíritos!

No ano seguinte, em abril de 1858, Allan Kardec funda o primeiro centro espírita do mundo: a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Em abril de 1864, vem a lume a obra O evangelho segundo o espiritismo.

Saindo da esfera do Codificador, entre muitas efemérides, lembramos: 11/4/1900 – desencarnação de Bezerra de Menezes; 2/4/1910 – nascimento de Francisco Cândido Xavier; 12/4/1927 – desencarnação de Léon Denis. Apenas citando alguns homenageados em abril, já temos material extremamente farto para se pensar e planejar ações de difusão do Espiritismo e de estímulo à leitura.

E o dia 18 de abril costuma ser o balisador para as comemorações com eventos alusivos ao livro espírita!

As Obras Básicas de Kardec devem ser a base para o funcionamento das instituições espíritas.

Daí a oportunidade da Campanha Comece pelo Começo, instituída pela USE-SP desde 1975. Os livros de Léon Denis e seus exemplos de vida consubstanciam o epíteto de “continuador de Kardec”.

A história de vida de Bezerra de Menezes, seus livros como encarnado, e outros assinados pela psicografia de Chico Xavier são destacado repositório dignificando o bem.

Chico Xavier é um verdadeiro “divisor de águas” no movimento espírita brasileiro, com monumentais obras psicográficas e prolongada dedicação ao próximo, mantendo “fidelidade a Jesus e a Kardec”.

A nosso ver, as lembranças alusivas à fundação do primeiro centro espírita do mundo, devem se constituir em alavancas de estímulo ao compromisso de se divulgar e estudar as marcantes obras espíritas citadas.

O movimento espírita necessita revisitar as Obras Básicas e aquelas Complementares, mais clássicas e fundamentais, como vistas ao compromisso de se manter o rumo definido pelo Codificador.

O mês de Abril, com tantas efemérides significativas, deve ser um estímulo para o estudo, reflexões e a difusão espírita!

(*) – Foi presidente da USE-SP e da FEB.

Médiuns e mediunidades

Médiuns e mediunidades

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

 

Nas primeiras décadas do século XX Cairbar Schutel (1868-1938) foi um marco como grande divulgador do Espiritismo a partir do Centro Espírita Amantes da Pobreza e da Editora O Clarim, em Matão: assistência aos necessitados, palestras, polêmicas, jornal, revista, livros e programas radiofônicos.

Nos idos de Cairbar Schutel lançou seu livro Médiuns e mediunidades 1923. A mais recente edição, a décima primeira, conta com 133 páginas.

Ao longo do tempo, cremos que essa obra tenha cumprindo um papel importante junto aos leitores principiantes em assuntos espíritas e aqueles que precisam de abordagens mais simples e diretas. Schutel define claramente que se propôs fazer uma síntese de O livro dos médiuns, de Allan Kardec.

Oportuna sua colocação: “Dirigimo-nos aos humildes e simples, ‘os que sabem que não sabem’ e precisam aprender, os que querem se conhecer, os que anseiam por uma solução categórica do problema da imortalidade e da vida futura.” Reafirma seu escopo: “auxiliar o estudante nos primeiros passos no vasto campo das manifestações espíritas”.

Dessa maneira, Schutel aborda em capítulos curtos a essência dos ítens da obra que o Codificador considerou como o “guia dos médiuns e dos evocadores”. A definição de médium: “uma criatura humana, seja homem ou mulher, velho ou moço, que tem aptidões físicas e cujo corpo carnal é suscetível de sofrer a influência de outra criança, ou a de um Espírito”, é trabalhada também com várias citações ao “Doutor das Gentes”, como ele referiu ao apóstolo Paulo.

Surgem comentários oportunos e interessantes sobre os trechos da 1ª Epístola aos Coríntios, a respeito da diversidade de dons. Anota Cairbar: “[Paulo] todos procurarem os melhores dons, vale dizer, mediunidades, e aponta o caminho mais excelente para sejam bons os resultados experimentais. É assim que, depois de um eloquente discurso sobre a Caridade, faz realçar esta virtude em sua forma mais espiritualizada, ou seja, caracterizada por benevolência, tolerância, humildade, paciência, perseverança, condições estas de que devem se revestir os médiuns.”

A prática e as finalidades da mediunidade são focalizadas em várias partes do livro.

O autor ressalta que “a prática das virtudes é um excelente preservativo contra a influência dos espíritos inferiores”. Destaca que “o Evangelho é o fundamento sobre o qual se assentam as obras de Allan Kardec, ou seja, a grande, a incomparável filosofia Espírita”. Os vários tipos de mediunidades abordados na Obra Básica de Kardec merecem capítulos com observações e recomendações objetivas. Mas, também elaborou capítulos que permitem uma visão de conjunto fazendo abordagens sobre as manifestações dos espíritos através dos séculos, e também um resumo sobre o ensino dos espíritos.

Um fato histórico, pouco lembrado na atualidade, é que Cairbar Schutel se dedicou também a algumas experiências, as chamadas sessões de mesinha, ou das mesas girantes. Nestas condições obteve inclusive a identificação de espíritos ligados ao seu grupo de trabalho.

Opina que “a abstenção do estudo e da experimentação de um fenômeno, sob pretexto de perigo, não é consentânea com a razão, nem com a Ciência, como também é um entrave à lei do progresso e da Verdade”. Em vários capítulos faz referência à questão da identificação de espíritos comunicantes, destacando “o dom do discernimento dos Espíritos, que também é uma das formas de mediunidade, segundo afirma o Apóstolo Paulo, em sua Epístola aos Coríntios” e cita o evangelista João: “não creais em todo Espírito…”

Na sua Conclusão, Schutel transcreve mensagem de Vicente de Paulo direcionada a Kardec, de onde destacamos trechos: “O mundo material e espiritual que conheceis tão pouco ainda, formam como que duas conchas da balança perpétua […] chegar-se a Deus, amar, unir-se e seguir pacificamente o caminho cujos marcos se vêm com olhos da Fé e da Consciência”. Cairbar Schutel reverencia o Codificador: “A obra de Allan Kardec é inexcedível. De fato, de todos os Espíritos que têm vindo à Terra, ele é o verdadeiro mensageiro de Jesus, sob cuja direção agiu”; “julgamos a Codificação dos ensinos Espíritas o mais grandioso, o mais admirável fato do Poder Espiritual, da verdade do Espírito Imortal”.

E faz uma recomendação expressa: “Para a boa direção dos núcleos espalhados hoje por todas as cidades e vilas do Brasil, é indispensável que os seus fundadores se submetam aos Princípios Kardecistas, que constituem os fundamentos da Doutrina”.

O livro Médiuns e mediunidades teve um importante papel na época em que foi lançado e entendemos que, pelas abordagens diretas e objetivas para sintetizar, encontra-se atual e cabível em nossos dias. Em nossos tempos há necessidade de livros espíritas mais direcionados para o público-alvo das preocupações de Cairbar Schutel: os humildes e simples.

(*) – O autor foi presidente da FEB, da USE-SP e membro da Comissão Executiva do CEI.

De: Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCIII – no. 3. Abril de 2018. P.138-139.

 

E os congressos espíritas?

E os congressos espíritas?

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Historicamente, e de início, lembramos que monumentais obras surgiram em função dos primitivos Congressos Internacionais, como Depois da morte, de Léon Denis, e, Animismo ou espiritismo, de Ernesto Bozzano.

Evento marcante e pioneiro foi promovido pelo presidente da FEB Leopoldo Cirne para comemorar o centenário de nascimento de Allan Kardec, em 1904, e discutir propostas de união, quando surgiu o documento “Bases de Organização Espírita“.

Do 1º Congresso Espírita de São Paulo (1947) nasceu a União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo. (1)

O 1º Congresso Espírita de Unificação Espírita (1948) gerou propostas para a união dos espíritas brasileiros. (2)

No Congresso Nacional Espírita da Espanha (1992) foi aprovada a criação do Conselho Espírita Internacional. Vários congressos espíritas tiveram temas vinculados à comemoração de significativas efemérides do movimento espírita.

Desde os tempos de estudante universitário e como jovem espírita frequentamos congressos. Nas duas condições tivemos a oportunidade de vivenciar excelentes momentos de aprendizagem, intercâmbio e de confraternização. Também vivemos diferentes oportunidades de participar do planejamento e da organização de congressos nas áreas acadêmicas e espíritas. Em razão dessa vivência diferenciada e que atingiu várias décadas, atualmente observamos os congressos espíritas num misto de admiração e de muita preocupação.

Entre momentos e fatos marcantes, em que pesem os convites a lideranças e expositores expressivos no conhecimento doutrinário, nota-se que os congressos espíritas estão passando por situações e alterações preocupantes.

No tocante a temas e expositores, ocorrem algumas situações que dão a impressão do “mesmismo”, ou seja, programas com temas pomposos, dissociados das maiores demandas do movimento espírita; a repetição de grupos de expositores ao longo dos congressos promovidos pelas mesmas instituições, e, até algumas exaltações de egos. Mesmo que o evento não tenha as características do real conceito de “congresso” – geralmente ligado a conclusões deliberativas ou reunião que visa tratar de determinados assuntos, comunicar trabalhos, apresentar propostas ou trocar idéias -, espera-se que os eventos, com qualquer designação que tenha, tragam contribuições efetivas, com repercussões frutíferas às pessoas e ao movimento espírita. Há vários indícios de tendências de elitização, ou, pelo menos, de dissociação da realidade do movimento espírita. Escolha de recintos, muitas vezes pomposos e de alto custo de locação. Existência de “salas vip” para atendimento de convidados. Em alguns casos, até agentes de segurança cercando convidados. Comercialização de muitos produtos, lembrando até “feiras”, incluindo livros não necessariamente espíritas. Eventos planejados para gerar fonte de receita para a entidade promotora. Valores de taxas de inscrição altos, em geral acima das condições do espírita em geral.

Sem dúvida, nesse contexto, o ambiente de fraternidade, simplicidade e espontaneidade ficam diminuídos.

Todavia, há também diversos esforços interessantes. Tomamos a liberdade de destacar três episódios ligados a congressos espíritas; nos dois primeiros casos atuamos como dirigente da entidade promotora; respectivamente como presidente da USE-SP e da FEB, e no último relato na condição de convidado.

O primeiro episódio: nos idos de 1992, a União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo promoveu o 8º Congresso Estadual de Espiritismo, em Ribeirão Preto. Foi definido que o público alvo seria o dirigente e colaborador de centro espírita, justamente para tratar do tema central – centro espírita. Os coordenadores de cada sala /item de estudo, eram dirigentes de instituições do próprio Estado. No início do Congresso, os participantes receberam um caderno já contendo o resumo de todos os temas tratados. Em seguida ao evento a USE-SP promoveu seminários no Estado com o objetivo de multiplicar os temas abordados, já disponíveis também em fitas de vídeo cassete, que eram utilizadas na época. (1)

O segundo: por ocasião dos 150 anos de O evangelho segundo o espiritismo, em 2014, a FEB promoveu o 4º Congresso Espírita Brasileiro. Ocorreram alguns diferenciais: rompendo com a realização de eventos nacionais centralizados, o Congresso foi efetivado simultaneamente em quatro regiões do país: Manaus, Campo Grande, Vitória e João Pessoa, o que facilitou e ampliou a presença de espíritas de todas as partes do país. Embora o programa fosse comum, os expositores convidados foram selecionados em reuniões das Comissões Regionais do Conselho Federativo Nacional (CFN), incluindo a participação de conferencistas das regiões. Na escolha de sedes para os eventos, deu-se preferência a locais mais simples e menos custosos. A grande novidade foi que os congressistas, durante os eventos, recebiam em livros da FEB (preço de capa) o valor da taxa de inscrição previamente paga. Destacamos que o citado Congresso foi superavitário conforme prestação de contas apresentado ao CFN da FEB em 2014. (2)

E finalmente o terceiro: em junho de 2017, a comemoração dos 70 anos de fundação da USE-SP teve como ponto alto a realização do 17º Congresso Estadual de Espiritismo, na cidade de Atibaia. Além de palestras e salas com work shops temáticos, o diferencial foi a realização de “rodas de conversa” vinculadas ao tema central: “Passado, presente e futuro em nossas mãos”, Foram escolhidos seis temas para tais “rodas”, bem ligados a questões do centro e do movimento espírita: Qualidade doutrinária na literatura espírita; Práticas estranhas no centro espírita; Teorias científicas e Espiritismo; Sexualidade e afetividade; Política e Espiritismo; O desafio de educar além de instruir no centro espírita. Para atender a todos congressistas que se inscreviam em um tema, cada “roda de conversa” foi realizada em dois horários. No último dia, os coordenadores das “rodas de conversa” apresentaram em plenário a síntese das discussões e as conclusões ou recomendações de seus grupos. Ouvimos muitas manifestações destacando a oportunidade e o valor iniciativa.(3)

Isso posto, parece-nos que é chegado o momento para reflexões, avaliações e, provavelmente, o redirecionamento dos congressos espíritas.

Afinal, realizamos congressos espíritas por quê? Como? Para quê?

Fontes:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. História da USE [palestra]. 17o Congresso Estadual da USE-SP. Junho de 2017.

2) 4o Congresso Espírita Brasileiro. Reformador. Junho de 2014. P.53-57.

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Práticas estranhas no centro espírita. Revista internacional de espiritismo. Setembro de 2017.

(*) – Ex-presidente da USE-SP e da FEB.

Extraído de: Carvalho, Antonio Cesar Perri. Congressos espíritas: por quê? como? para quê? Revista Internacional de Espiritismo, Ano XCII, No. 12, janeiro de 2018. P.626-627.

Kardec: da desencarnação para a vida pulsante

Kardec: da desencarnação para a vida pulsante

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Em 31 de março de 1869, em Paris, desencarnou Allan Kardec com 64 anos, entre 11 e 12 horas, pelo rompimento de um aneurisma, em pleno labor de estudo e organização de novas tarefas espíritas e assistenciais. O sepultamento ocorreu no Cemitério de Montmartre. Um ano depois seu corpo foi transladado para o Cemitério do Père Lachaise, onde foi construído o dólmen com a famosa frase “Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar tal é a Lei”.

O túmulo de Kardec, no famoso cemitério histórico de Paris, continua a ser dos mais visitados.

A Fédération Spirite Française está realizando esse ano uma comemoração do aniversário da desencarnação de Allan Kardec, a “Journée Allan Kardec”, que começará no dia 31 de Março, às 11 horas, no Cemitério do Père Lachaise em Paris, diante do dolmen; à tarde, haverá um encontro no “Espace Réunion” com conferências e diálogos entre os participantes. Informa Charles Kempf que essas comemorações eram realizadas regularmente desde a desencarnação de Allan Kardec pelo movimento espírita francês até a segunda guerra mundial, como consta das revistas da época. Houve também encontros no Père Lachaise na ocasião da reunião do CEI em Paris em 1997, bem como do 4° Congresso Espírita Mundial em 2004. (1)

A maior homenagem, em qualquer parte, será sempre a valorização da obra do Codificador.

O fato mais significativo será a vida pulsante de seus ensinos na seara espírita e na comunidade em geral. Allan Kardec cumpriu muito bem a sua missão e num período de tempo curtíssimo, haja vista que lançou O livro dos espíritos, o marco inicial do Espiritismo, em abril de 1857 e desencarnou em março de 1869.

O trabalho do Codificador é de fundamental importância. As Obras Básicas e inaugurais da Doutrina Espírita – O livro dos espíritos, O livro dos médiuns, O evangelho segundo o espiritismo, O céu e o inferno e A gênese, efetivamente representam a base e devem ser o ponto comum, de convergência, do Movimento Espírita.

Agora em 2018, transcorrem 150 anos do lançamento de A gênese, obra pouco lida na seara espírita e que merece nossa atenção. Registros de contemporâneos de Kardec e Amélie Boudet têm vindo à tona, como Léon Denis, Gabriel Delanne, Henri Sausse e Berthé Fropo, e reavivados por pesquisa documental feita por Simoni Privato Goidanich, apontado sérias deturpações doutrinárias ocorridas logo após a desencarnação de Kardec, na Revista Espírita e na Sociedade Anônima que tinha por objetivo propagar as obras do Codificador. Naquela época produziram muitas alterações no texto da 5ª. edição de A gênese (1872).(2)

Os lamentáveis fatos nos remetem aos cuidados para a atualidade no sentido de manter viva a fidelidade às obras de Kardec. Numa época de proliferação de livros espíritas – e com a influência de vários modismos -, criando desfocagens sobre a literatura básica e de ações a ela relacionadas, e também pelo fato de que muitos cursos se basearem em material apostilado, torna-se muito importante que os centros e o Movimento Espírita dêem prioridade para a divulgação e o estímulo à leitura e ao estudo das Obras Básicas do Espiritismo.

Parece-nos cabível e muito necessária a Campanha “Comece pelo Começo” que tem por foco a valorização das obras da Codificação Espírita, de Allan Kardec, como indicação ao estudo e conhecimento da Doutrina Espírita através das cinco Obras Básicas acima citadas. Historicamente, o lançamento original dessa campanha ocorreu em São Paulo, em 1972, pela União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, pelo seu antigo Conselho Metropolitano Espírita, e, em 1975, pela USE Estadual. A campanha foi idealizada por Merhy Seba. Em nível nacional esta Campanha foi aprovada pelo Conselho Federativo Nacional da FEB, em reunião de novembro de 2014.(3)

O livro O legado de Allan Kardec de Simoni Privato Goidanich tem riquíssimo valor histórico e é restaurador de importantes episódios que se encontravam encobertos. No final, registra Simoni Privato Goidanich: “A responsabilidade ante o legado de Allan Kardec é de todos os espíritas, e cada um herdará as consequências de seus atos e de suas omissões”.(2)

Torna-se oportuna a reflexão sobre considerações de Emmanuel na mensagem “Ante Allan Kardec”:

“Perante as rajadas do materialismo a encapelarem o oceano da experiência terrestre, a Obra Kardequiana assemelha-se, incontestavelmente, à embarcação providencial que singra as águas revoltas com segurança. Por fora, grandes instituições que pareciam venerandos navios estalam nos alicerces, enquanto esperanças humanas de todos os climas, lembrando barcos de todas as procedências, se entrechocam na fúria dos elementos, multiplicando as aflições e os gritos dos náufragos que bracejam nas trevas. De que serviria, no entanto, a construção imponente se estivesse reduzida à condição de recinto dourado para exclusivo entretenimento de alguns viajantes, em tertúlias preciosas, indiferentes ao apelo dos que esmorecem no caos? […] Urge, desse modo, que os seus tripulantes felizes não se percam nos conflitos palavrosos ou nas divagações estéreis. Trabalhemos, ascendendo fachos de raciocínio para os que se debatem nas sombras. Todos concordamos em que Allan Kardec é o apóstolo da renovação humana, cabendo-nos o dever de dar-lhe expressão funcional aos ensinos com a obrigação de repartir-lhe a mensagem de luz, entre os companheiros de Humanidade.”(4)

Referências:

1) http://grupochicoxavier.com.br/homenagem-a-kardec-no-dolmen-do-pere-lachaise/ (Acesso em 28/3/2018).

2) Goidanich, Simoni Privato. O legado de Allan Kardec. 1.ed. São Paulo: USE/CCDPE. 2018. 447p.

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Em ações espíritas. 1.ed. Araçatuba: Cocriação/USE Regional de Araçatuba. 2017. 131p.

4) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Construção do amor. São Paulo: CEU.

(*) Ex-presidente da FEB e da USE-SP.

DEUS – O DESCONHECIDO AINDA

DEUS – O DESCONHECIDO AINDA

Arnaldo Divo Rodrigues de Camargo (*)

Quando depositamos nossa fé e confiança em Deus, que é só amor e misericórdia, ganhamos força e ânimo para vencer nossas dificuldades.

Ele nos entende na intimidade, pois quem criou conhece Sua criatura.

E a visão do Pai alcança lugares que ainda não vemos – estamos presos na matéria, e Ele é todo espiritual.

Só Deus é imaterial e imutável.

Através da prece podemos entrar em contato com Deus e solicitar a luz da sabedoria, para que Ele nos guie e oriente no caminho certo e bom a seguir.

Se para todo efeito tem uma causa, a causa do Universo é de uma inteligência suprema.

Quando vejo uma semente e sei que ela vai morrer para viver em plenitude, seja numa planta ou numa árvore, com todo o seu esplendor de madeira, folhas, flores e fruto, e na sua diversidade, eu me regozijo diante dessa Sabedoria Divina.

Quem contratou mineiros para abrir as minas de oxigênio? Sem o oxigênio, não sobreviveríamos mais que alguns minutos.

Quem contratou engenheiros para colocar alavancas invisíveis e sustentar no espaço nosso globo terreno? E a Terra gira numa velocidade imensa…

Quem contratou homens para depositar no Sol as madeiras, carvões ou combustíveis que produzem calor e luz e nos dão a sustentação da vida aqui na Terra?

Deus estabeleceu leis sábias e justas que governam o Universo e nossas vidas.

Creio que Deus não tem pressa, nem se zanga, nem grita conosco, e Sua doce influência é de forma saudável e amorosa.

Deus é espírito, a inteligência suprema, causa de tudo o que existe e nós,

Seus filhos, espíritos herdeiros deste Universo maravilhoso, onde cada um faz sua concepção desse nosso Criador.

Jesus chamou-O de Pai Nosso.

E você, como O percebe? Ele não se alimenta e não dorme, e deve ter bom humor quando nos vê imaginando essas coisas na Terra.

Se somos espíritos, somos uma centelha de luz; Deus é espírito também – será um círculo de luz ou de energia também?

(*) É editor da Editora EME (Capivari, SP).

O QUE ACONTECEU NO SEMINÁRIO “A GÊNESE: O RESGATE HISTÓRICO”?

O QUE ACONTECEU NO SEMINÁRIO "A GÊNESE: O RESGATE HISTÓRICO"?

Jáder Sampaio (*)

Quase cinco horas da manhã, saí correndo de casa para não perder o voo das seis e vinte rumo a São Paulo. Tem coisas na vida que se não participarmos pessoalmente, nos arrependemos, e pensei com meus botões que esse seminário era uma delas.

Os quase quinze anos de ENLIHPE tiveram por fruto um grande número de amizades com pessoas dedicadas e estudiosas do espiritismo da região da capital paulistana e de outros lugares no Brasil. Eduardo Monteiro tinha razão, é preciso que nos vejamos pessoalmente, para criar vínculos que a internet não cria, e às vezes até atrapalha.

Fiquei acompanhando os bastidores da organização, mercê dos amigos trabalhadores que se empenharam em traduzir o livro de Simoni Privato, trazê-la ao Brasil para apresentar o resultado de suas pesquisas e dialogar sobre seus achados com os brasileiros. Inicialmente o evento seria no auditório da USE. Como ele lotou, foi para outro espaço, que também ficou pequeno. Escolheu-se, por fim, o Teatro Gamaro, que comportou confortavelmente as 450 pessoas que foram. Sabe-se lá quantas acompanharam a transmissão simultânea da Rede Amigo Espírita… O interesse dos participantes era óbvio.

A incansável Julia Nezu montou uma mesa com representantes de federativas (São Paulo, Minas Gerais, Amazonas e Amapá) e de associações espíritas presentes (Associação Jurídico Espírita do Rio de Janeiro e da Bahia; Instituto Espírita de Estudos Filosóficos e Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas). Outras organizações espíritas estavam presentes, como a CEPA (Confederação Espírita Pan-Americana), Jornal Correio Fraterno, Instituto Espírita de Educação e TV Mundo Maior. Meu amigo Jáder Antunes foi colhido de surpresa, porque pensava que iria assistir confortavelmente no público, mas cumpriu o pedido da organização. A simpaticíssima presidente da Federação Espírita Amazonense, nos saudou um um abraço do tamanho de seu estado. A presença de Heloísa Pires atraiu aplausos dos presentes, uma vez que sua presença simbolizava todo o trabalho de Herculano Pires, da Paidéia (a editora das obras dele, e de outras), dela própria e de sua família, talvez menos conhecida fora de São Paulo, mas envolvida no trabalho de memória e divulgação do pensamento de Herculano.

Uma carta do presidente da Confederação Espírita Argentina, Gustavo Martinez, foi lida, apresentando Simoni e desejando sucesso ao evento. Ao se preocupar com qual edição de A Gênese publicar, ele acabou sendo o desencadeador e o apoiador de todo o trabalho que a pesquisadora nos apresentou. Nossos irmãos latino-americanos, mesmo sem tantos adeptos como o Brasil, são estudiosos e interessados no pensamento kardequiano, o que dá gosto de ver. Recordei-me da visão de futuro de Herculano, de Deolindo e de outros intelectuais espíritas do meio do século XX, que mantinham o intercâmbio e divulgavam o trabalho dos autores de língua hispânica no Brasil.

Fiquei pensando em alguns professores do meio acadêmico, que têm uma visão do espiritismo como algo minúsculo, místico, assistencialista apenas baseados na imagem criada pela grande imprensa e no diz-que-diz que ouviram de alguém. Não têm noção de quanto trabalho esse pessoal idealista faz, de quanta produção intelectual é realizada, do impacto social das sociedades espíritas. Fiquei pensando também nas pessoas que se restringem à sua casa espírita, que não acompanham nada do que acontece fora de seu minúsculo espaço. Confesso que mesmo estando estudando o espiritismo há tantas décadas, ao ver tudo isso, me senti pequenino. Há muito o que estudar e aprender com Allan Kardec, para não dizer dos demais autores espíritas.

Tenho certeza que o público tinha muito mais do que a mesa pôde apresentar. Escritores, jornalistas, autores, membros de federativas locais. Tanta gente que abracei e com quem conversei rapidamente nos intervalos… Tantas notícias. Tantas realizações desse pessoal desde a última vez em que estive em São Paulo.

Simoni preparou um novo seminário para seu público, mais rico do que o que apresentou na Confederação Espírita Argentina em 2017. Notei que ela conversou muito com os organizadores e analisou as perguntas que chegaram via internet. Preparou com cuidado o que ia falar e fez um trabalho bem interessante, mesmo para quem já havia lido o livro e assistido o seminário argentino. Chamou a atenção de todos a forma serena, mas clara e argumentada, como ela apresentou seu trabalho. Muitos olharam para si mesmos e questionaram-se se não teriam sido mais duros nas palavras caso estivessem em seu lugar. Simoni, contudo, não queria que a retórica fosse mais sonora que os fatos que ela levantou. O trabalho dela fala através dos documentos e argumentos. A síntese final deixa clara sua tese e como é sustentada. Não vou escrever muito sobre a apresentação da diplomata, porque desejo que os leitores do Espiritismo Comentado assistam o vídeo acima e concluam por si.

Dois depoimentos enriqueceram o evento. A falta de um parágrafo sobre o corpo de Jesus em "A Gênese" publicada em esperanto, e uma verdadeira aula sobre direito autoral dada por Manoel Felipe Menezes, do ministério público do Amapá, e sobre a Convenção de Berna, da qual o Brasil é signatário. Após toda essa nova informação que nos chega, considero que devemos manter o diálogo racional e aberto ao contradito, essência do espiritismo kardequiano, mas temos por dever a análise comparativa entre as quatro primeiras e a quinta edição de A Gênese, o que a própria mesa sugere ao apagar das luzes.

(*) – De Belo Horizonte; membro da Liga de Pesquisadores do Espiritismo (LIHPE).

Extraído de: http://espiritismocomentado.blogspot.com.br/2018/03/impressoes-pessoais-sobre-o-seminario.html