Mês de homenagens a Chico Xavier e suas obras

Mês de homenagens a Chico Xavier e suas obras

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Chico Xavier nasceu aos 2 de abril de 1910, em Pedro Leopoldo (MG) e neste ano por uma série de coincidências cumprimos no mês de seu nascimento um grande roteiro de viagens, palestras e lançamento de livro alusivo ao médium.

O livro Chico Xavier – o homem, a obra e as repercussões, de nossa autoria, e editado conjuntamente pela EME e USE-SP veio a lume na passagem de março para abril, o que ensejou uma série de eventos de lançamento da obra e de palestras alusivas ao homenageado.

Atendemos a convites de cidades paulistas, a começar da Capital, onde comparecemos em dois centros cujas fundações foram estimuladas por Chico Xavier: o “Batuíra” e o “União”. Também no Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa Espírita, onde desenvolvemos reuniões de estudo. No interior paulista, atuamos em Piracicaba; na Feira do Livro e em Centros de São José do Rio Preto, inclusive no mais antigo o “Allan Kardec”; Fernandópolis; Biriguí; Guararapes; em Rubiácea, inaugurando nova sede do Centro; e no “Luz e Fraternidade” de Araçatuba, onde há 47 anos atrás fomos um dos fundadores.

Na sequência atendemos a convites do Estado do Rio de Janeiro, em São Gonçalo, onde o “Batuíra” atende comunidade da periferia; em Niterói, no “Irmã Rosa”, o mais antigo da cidade, com 98 anos; neste local, estava de passagem e recebemos a visita de Pierre Etienne Jay, que traduziu livros de Chico para francês, nos tempos em que o CEI editava muitos livros. Na cidade do Rio de Janeiro, comparecemos em locais extremos como Barra da Tijuca – no bem frequentado CEJA-, e o bairro da Tijuca, e de permeio, Copacabana.

Destacamos que na Tijuca, fizemos palestra no Grupo Espírita Regeneração, fundado por Bezerra de Menezes, há 128 anos; e, como parte das comemorações dos 90 anos da Congregação Espírita Francisco de Paula, atuamos no seminário “Legado de Chico Xavier para a Humanidade”, onde o companheiro Carlos Alberto Braga Costa (Belo Horizonte, MG) também desenvolveu tema sobre seu livro em lançamento “Chico Xavier – do calvário à redenção" (Ed.EME).

Em algumas cidades proferimos mais de uma palestra. Assim, em abril, além de outras palestras variadas, especificamente, proferimos vinte palestras sobre temas do livro sobre Chico e lançando-o em centros de tamanhos variados em várias cidades dos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em todos locais notamos o bom trabalho junto às bases, que são os centros espíritas, e companheiros receptivos aos temas abordados. Com satisfação encontramos muitos confrades que conviveram ou visitaram o notável médium, com destaque para o casal Galves que eram anfitriões de Chico em São Paulo.

O nosso recente esforço concentrado relacionado com a vida e obra de Chico Xavier, até superou aquele outro em que atuamos no ano de 2010 por ocasião do Centenário de Chico Xavier. Essa divulgação temática é para nós uma forma de demonstrarmos nossa gratidão e reconhecimento ao muito que usufruímos não apenas das obras, mas também do feliz privilégio das contínuas visitas que empreendemos, juntamente com a esposa, durante mais de 20 anos ao notável médium nos dois centros em que ele atuou em Uberaba e no C.E. União, de São Paulo. Inclusive, essa foi a motivação para elaborarmos o novo livro que traz também de forma inédita, a apreciação de episódios que vivemos durante o período de 16 anos após a desencarnação de Chico.

Em síntese, entendemos que se faz necessário o chamamento: para a valorização do estudo das obras de Allan Kardec e de Chico Xavier; para a coerência entre tais obras; para a humildade e dedicação de Chico; para a simplicidade do cristianismo primitivo; para se repensar o formalismo e alguns focos em aparências, vigentes na atualidade.

Para concluir, transcrevemos frase de nosso livro, proferida por Chico nos idos de 1977: “Sou sempre um Chico Xavier lutando para criar um Chico Xavier renovado em Jesus e, pelo que vejo, está muito longe de aparecer como espero e preciso…”

(*) Ex-presidente da USE-SP e da FEB; ex-membro da Comissão Executiva do CEI.

A fraternidade no diálogo espiritual

A fraternidade no diálogo espiritual

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O Grupo Espírita Casa do Caminho, de São Paulo, tem promovido estudos continuados em que o seminário “papel dos esclarecedores nos grupos mediúnicos” tem sido repetido e aprofundado.

Trata-se de tema que deve merecer muita atenção nesses grupos dos centros espíritas.

O tema nos remete, de início, a Chico Xavier que atuou no Centro Espírita Luiz Gonzaga desde a fundação em 1927 até sua mudança para Uberaba, no início de 1959. Nesse local atendeu semanalmente muitos milhares de pessoas que o procuravam sedentos de consolo e esclarecimento espiritual. A partir desses diálogos com Chico Xavier com as pessoas, sempre solícito e fraternal, iniciava-se um atendimento que, sem dúvida, envolvia o tratamento espiritual dos encarnados e dos desencarnados que eram por eles atraídos. Alguns desses espíritos eram encaminhados para postos de acolhimento do Mundo Espiritual, outros eram envolvidos na esfera de atendimento do próprio Centro em função de suas reuniões. Nas reuniões mediúnicas Chico Xavier atuava não apenas como médium de espíritos esclarecidos e orientadores, mas também para manifestação de espíritos enfermiços. Ademais, um grupo de colaboradores do Centro Espírita Luiz Gonzaga, incluindo Chico Xavier, constituíu o Grupo Meimei, voltado ao atendimento de espíritos enfermiços.

O inesquecível médium mineiro transmitiu a Arnaldo Rocha, que era o coordenador desse Grupo, algumas recomendações: “[…] porque se deve dialogar com os Espíritos sem qualquer ideia de doutrinação. […] transmitiu-me as orientações iniciais de Emmanuel: nunca discutir com a entidade comunicante e nem falar que ela já ‘morreu’…”1

De início, a compreensão e a tradição religiosa do espírito comunicante deve ser respeitada. Entre muitos exemplos há a série de cartas familiares de espírito que desencarnou convicto das tradições do judaísmo.2,3

Há muitas obras que tratam da prática do diálogo com os espíritos enfermiços. Iremos nos restringir apenas a alguns, resultantes da mediunidade de Chico Xavier. Entre estes, Instruções psicofônicas, que é resultado das transcrições das gravações do já citado Grupo Meimei, coordenado por Arnaldo Rocha. Deste livro e da entrevista com Arnaldo destacamos a mensagem de Emmanuel: “Sem o carinho e a receptividade do coração, sofreremos o império do desespero. Sem o devotamento e a decisão do braço, padeceremos a inércia. Contudo, para que o trio funcione com eficiência, são necessários três requisitos na máquina de ação em que se expressam: Confiança. Boa-vontade. Harmonia.”4

Em outra obra que relaciona a prática mediúnica com a moral ensinada por Jesus, Emmanuel orienta: “Cultivar o tato psicológico, evitando atitudes ou palavras violentas, mas fugindo da doçura sistemática que anestesia a mente sem renová-la.”5

A essa altura cabem dois comentários sintéticos do espírito Emmanuel sobre o atendimento de espíritos enfermiços: “[…] com a mediunidade esclarecida, é fácil aliviá-los e socorrê-los.”5 “[…] Reunamo-nos nas bases a que nos referimos, sob a inspiração do Cristo, Nosso Mestre e Senhor, e as nossas reuniões mediúnicas serão sempre um santuário de caridade e um celeiro de luz. ”4

Os livros do Espírito André Luiz, conhecidos como série Nosso Lar, esclarecem magistralmente os processos de libertação espiritual. Todavia, em Desobsessão estão disponíveis várias recomendações práticas para uma reunião: “O médium de incorporação, como também o médium esclarecedor, não podem esquecer, em circunstância alguma, que a entidade perturbada se encontra, para eles, na situação de um doente ante o enfermeiro. […] O esclarecimento não será, todavia, longo em demasia”.6

Deve ficar claro que os espíritos citados em vários locais empregam as expressões: espíritos enfermiços; como parentes nossos enfermos; doente ante o enfermeiro… O membro da equipe mediúnica que atua como dialogador tem um papel muito importante e os orientadores espirituais comparam-no a um enfermeiro ante um doente, referindo-se aos espíritos necessitados, como enfermiços, como se fossem parentes nossos enfermos… Ou seja, o tom da fraternidade deve prevalecer no diálogo com os espíritos necessitados de acolhimento, apoio e esclarecimento.

A resultante dos esclarecimentos espirituais nos remete a um episódio significativo. No dia 2 de abril de 2010, exatamente no dia do Centenário de nascimento de Chico Xavier, houve a inauguração do Memorial do Luiz Gonzaga, anexo a centro de mesmo nome, em Pedro Leopoldo, a terra natal do médium. Na oportunidade representamos o presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB) e estavam presentes representantes da Municipalidade, Banda da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, dirigentes da União Espírita Mineira (UEM), Arnaldo Rocha, Oceano Vieira de Melo, Terezinha de Oliveira (de Campinas), parentes e amigos de Chico Xavier. No final da cerimônia assistimos a um fato inesquecível e emocionante: o mestre de cerimônias solicitou que abrissem uns engradados cobertos, que se encontravam cheios de pombas, e estas iniciaram voos. Em comentário do cerimonial, fez-se uma comparação ao voo livre das pombas, em um belo bailado aéreo: “[…] a libertação das almas iluminadas pelo Evangelho à luz do Espiritismo, que por aqui estiveram, ao se desprenderem do corpo físico”.3

Essa frase é muito marcante! O exemplo no bem persistente de Chico Xavier, o seu amor em ação, fizeram dele um valoroso intermediário para a libertação de almas.

Referências:

1) Livros pioneiros obtidos de gravações de psicofonias. Reformador. Ano 129. N.2.190. Setembro de 2011. P. 329-331.

2) Xavier, Francisco Cândido; Muszkat, Roberto; Muszkat, David. Quando se pretende falar da vida. São Bernardo do Campo: GEEM. 1983.

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier. O homem, a obra e repercussões. Cap. 2.7. Capivari: Ed. EME. 2019.

4) Xavier, Francisco Cândido. Espíritos diversos. Instruções psicofônicas. Cap. 59. Rio de Janeiro. FEB.

5) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Seara dos médiuns. Cap. 55. FEB.

6) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito André Luiz. Desobsessão. Cap. 37. FEB.

Transcrito de:

Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCIV. N.3. Abril de 2019. P.140-141.

O incêndio da Notre Dame de Paris

O incêndio da Notre Dame de Paris

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Em roteiro de palestras pela região com lançamento de nosso recentíssimo livro Chico Xavier – o homem, a obra e as repercussões, na noite do dia 15 de abril, fomos repentinamente motivados a alterar parte do conteúdo de nossa palestra na Sociedade Espírita Allan Kardec, em Biriguí.

No final da tarde ficamos impactados pelo trágico incêndio na Catedral Notre Dame de Paris. Em apresentação prévia à palestra no evento em Biriguí, a cantora Jéssica, entoou belas músicas incluindo a belíssima “Ave Maria”.

Repentinamente começamos a pensar no papel histórico do grande monumento parisiense que, traduzindo o nome da Catedral, é “Nossa Senhora”. Em rápidos momentos fomos imaginando a alteração da palestra, mas vinculando com obras de Chico Xavier. O tema central seria preservado, em função do conteúdo de nosso livro em lançamento.

De passagem citamos episódios históricos ligados àquela Catedral de Paris. Popularizada pelo corcunda de Notre Dame; ambiente de canonização de Joanna D’Arc, do desrespeito no “período do Terror” com a entronização da “deusa Razão”, da coroação do imperador Napoleão… E focalizamos citações à Notre Dame na obra psicográfica de Chico Xavier.

Iniciamos com referência ao romance histórico Renúncia (Cap.2), do espírito Emmanuel, psicografado por Chico Xavier, onde há registros sobre a personagem principal do enredo transcorrido no século XVII, cantando na Notre Dame de Paris, para obter recursos ao pequeno e doente jovem familiar: “Alcíone andou muitos quilômetros de ruas e praças, estudando o local adequado à iniciativa. Algo cansada, parou junto ao templo de Nossa Senhora e entrou. Descansou longamente em preces fervorosas, lembrando que não haveria melhor local para o empreendimento que o adro daquela casa consagrada à Mãe Santíssima. […] Alcíone começou a cantar, mas, com tanta harmonia e sentimento, que dir-se-ia um anjo baixado à Terra para transmitir aos homens as suaves belezas do crepúsculo. Em breves instantes, transeuntes, clérigos, fidalgos e gente do povo formavam em torno compacta assistência. Cada canção era aplaudida freneticamente.”

No livro A caminho da luz, análise espiritual de nosso processo civilizatório, o espírito Emmanuel comenta os excessos ocorridos durante a Revolução francesa e ao período do Terror, como “teatro de trágicos acontecimentos”. E refere-se ao contexto da época do nascimento de Allan Kardec: “dois meses antes de Napoleão Bonaparte sagrar-se imperador, obrigando o papa Pio VII a coroá-lo na igreja de Notre Dame, em Paris, nascia Allan Kardec, aos 3 de outubro de 1804…”

Em obras psicográficas de Chico Xavier há citações sempre muito respeitosas a Maria, a mãe de Jesus. Há um livro Maria, mãe de Jesus, que é uma antologia com mensagens e preces transcritas de obras de Francisco Cândido Xavier e Yvonne Pereira.

O incêndio provoca impactos pois se trata de edificação com cerca de 900 anos de história. Todavia, não nos esqueçamos que além da simbologia do templo tradicional, deve-se meditar sobre a excelência do conceito de templo do espírito, da pessoa como “casa espiritual” e da lembrança de que esta inclui o cultivo de orações e de esforços pela prática do bem, em qualquer lugar.

= O autor foi dirigente em Araçatuba e é ex-presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e da Federação Espírita Brasileira.

Observação: no dia do incêndio citado, o autor proferiu palestra em Biriguí (SP) e inseriu este conteúdo ao abordar as obras de Chico Xavier. Artigo publicado no jornal “Folha da Região”, de Araçatuba, no dia 17/4/2019, pág.2.

Desafio do momento

União…

Desafio do momento

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Há muitas mensagens espirituais com conceitos e recomendações sobre união e unificação. Mas cabe aos encarnados a responsabilidade pelas ações e a análise sobre como está sendo praticada a união:

"[…] o que caracteriza a revelação espírita é o fato de sua origem ser divina, de a iniciativa pertencer aos Espíritos e de sua elaboração ser fruto do trabalho do homem.”1

Nessas condições são oportunas algumas devem merecer reflexões. Em mensagem pioneira, Emmanuel associa a prática da união com a vivência do Evangelho:

“Compreendendo a responsabilidade da grande assembleia de colaboradores do Espiritismo brasileiro, formulamos votos ardentes para que orientem no Evangelho quaisquer princípios de unificação, em torno dos quais entrelaçam esperanças.”2

Em 1975 Bezerra de Menezes aponta o foco e o envolvimento real:

“Mantenhamos unidos, em Jesus, para edificar e acender Kardec no caminho de nossas vidas, porque unicamente assim, agindo com a fraternidade e progredindo com o discernimento, é que conseguiremos obter os valores que nos erguerão na existência em degraus libertadores de paz e ascensão.”2

Nesses termos, devemos olhar para dentro de nossa seara com o objetivo de sentirmos os eventuais desafios: as obras da Codificação são a base das práticas? Como está o respeito ao próximo mais próximo? Como estão organizadas e como funcionam as instituições espíritas? Quais valores definem as indicações de companheiros para assumirem os encargos e cargos nas instituições? Em que ambiente se processam as escolhas de dirigentes nas instituições? Como os dirigentes e colaboradores de um centro interagem com os pares de outros centros? Como são tratadas as eventuais dificuldades e enganos doutrinários de instituições congêneres? Os líderes, expositores e médiuns são vistos com deslumbramento, como superiores ou mais evoluídos? Os temas da atualidade ou novos são tratados no ambiente espírita?

Cada questão deve ser refletida e sugerimos a analogia com as colocações de Emmanuel:

“O mundo conturbado pede, efetivamente, ação transformadora. […] se faz impraticável a redenção do Todo, sem o burilamento das partes, unamo-nos no mesmo roteiro de amor, trabalho, auxílio, educação, solidariedade, valor e sacrifício que caracterizou a atitude do Cristo em comunhão com os homens, servindo e esperando o futuro, em seu exemplo de abnegação, para que todos sejamos um…”2

No “mundo conturbado” de nossos dias – que se caracteriza por polêmicas, crescimentos, transformações e adequações-, e, na intimidade do espírita são perceptíveis sentimentos predominantes de união? Sem estas condições torna-se muito difícil a ideia de unificação entre sociedades espíritas. A palavra unificação pode significar “padronização”, ideia completamente antagônica aos princípios de união, por isso Emmanuel destacou “burilamento das partes” e união “no mesmo roteiro”.

A unificação no sentido de convergência e somatória de esforços é possível dentro da diversidade de situações, fundamentando-se no Codificador. Kardec define:

"O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral […], e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas."3

Referências:

1) Kardec, Allan. Trad. Imbassahy, Carlos de Brito. A gênese. 1.ed. Cap. 1. São Paulo: FEAL. 2018.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? Cap. 5. Capivari: Ed.EME. 2018.

3) Kardec, Allan. Trad. Noleto, Evandro Bezerra. O Espiritismo é uma religião? Revista Espírita. Dezembro de 1868. Ano XII. FEB. 2005.

(*) Ex-presidente da FEB e da USE-SP.

(Extraído de: Revista Senda, FEEES, N.196, Ano 97, mar.-abr.2019, p.9)

A REGENERAÇÃO NÃO É PALINGENESIA, É SÓ NESTA

A REGENERAÇÃO NÃO É PALINGENESIA, É SÓ NESTA

José Reis Chaves (*)

Vamos novamente ao assunto da reencarnação que, na Bíblia em grego, a língua original do Novo Testamento, aparece com o seu sinônimo “palingenesia”, que passou para o português com a mesma palavra ou “ipsis litteris”.

Por isso, insisto para que os queridos leitores dessa coluna consultem essa palavra palingenesia nos dicionários de português, em que verão que ela significa de fato retorno à vida, novo nascimento. E àqueles que conhecem a Língua Grega, recomendo também que a consultem nos dicionários gregos.

Segundo as estatísticas atuais, são mais de setenta e cinco por cento da população mundial que creem na reencarnação, independente de religião. E todas as crenças têm adeptos dela, inclusive o Islamismo, como se pode ver no Alcorão (Surate II, 26, e Surate XVII, 52; e o Sufismo).

Muitos falam que a palavra reencarnação não está na Bíblia. De fato não. Mas isso porque ela só foi criada por Kardec, na segunda metade do século dezenove, enquanto que os últimos escritos bíblicos datam do final do século um. A reencarnação ou palingenesia está sim, pois, na Bíblia em várias partes. (Para saber mais, recomendo meu livro A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, lançado também em Inglês.) E a palingenesia pertenceu ao cristianismo até o Segundo Concílio Ecumênico de Constantinopla em 553, quando foi retirada por influência do imperador Justiniano e sua esposa Teodora.

Dissemos numa coluna anterior que a palingenesia é o elo de ligação entre todas as religiões, exatamente porque ela conta com adeptos em todas as religiões. Mas não disse que é o único elo!

Vou citar apenas dois exemplos bíblicos da palingenesia: Jesus falava sobre a volta de Elias para preparar, como precursor, a vinda do Messias: “Então os discípulos entenderam que Jesus lhes tinha falado sobre João Batista”. (Mateus 17: 13). Ainda no Evangelho é dito: “Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E se se o quereis reconhecer, ele mesmo é o Elias que estava para vir. Quem tem ouvidos para escutar, que escute!” (Mateus 11: 13, 14 e 15). Tem, pois, que ser mesmo, como se diz, muito cara de pau, para negar que João Batista é reencarnação de Elias!

Que os tradutores da Bíblia, adversários da reencarnação, corrijam, portanto, seu erro de tradução da palavra bíblica palingenesia por regeneração, entre eles: Tito 3: 5, com o propósito claro de ocultar as várias vidas terrenas constantes da Bíblia. E não é Deus e Jesus que nos regeneram, pois Eles respeitam o nosso livre-arbítrio. Somos nós mesmos, através da vivência do Evangelho que nos regeneramos.

E é no período da palingenesia que ocorre a nossa lenta regeneração (evolução).

A regeneração, pois, apenas está na palingenesia, que não é a própria regeneração!

(*) coluna do jornal O Tempo, de Belo Horizonte.

Chico Xavier – O homem amor

Chico Xavier – O homem amor

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Pela passagem da efeméride do nascimento de Chico Xavier – dia 2 de abril – naturalmente nos recordamos de episódios marcantes do grande médium.

Coincidentemente, neste momento, vem a lume nossa obra Chico Xavier. O homem, a obra e as repercussões.1

Desta obra, destacamos alguns trechos em que transcrevemos:

“Profundo admirador da vida e da obra de Chico Xavier nesses anos após sua desencarnação vivemos momentos excepcionais acompanhando fatos históricos e repercussões relacionadas com o médium que consideramos um “divisor de águas no movimento espírita brasileiro”. Nas condições de diretor e presidente da Federação Espírita Brasileira e membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional tivemos empenho em valorizar os exemplos de vida e os livros psicográficos de Chico Xavier em vários níveis de atuação e de trabalhar pela divulgação e estudo de seus livros. Os episódios e comentários relacionados com fatos que vivenciamos após a desencarnação de Chico Xavier estão fundamentados não apenas na nossa visão, mas são localizáveis nas publicações, como livros e periódicos espíritas do período do ano de 2002 até nossos dias.

Como preparativos para as comemorações do Centenário de nascimento de Chico Xavier e depois em desdobramentos desta efeméride, tivemos oportunidade de conviver com os ambientes em que Chico atuou em Pedro Leopoldo e em Uberaba, conhecer vários de seus colaboradores e de entrevistá-los para a revista Reformador e para a elaboração do livro em que atuamos como um dos organizadores: Depoimentos sobre Chico Xavier (FEB, 2010). Na fase do citado Centenário e durante nosso período na presidência da FEB, Pedro Leopoldo ganhou um grande destaque no movimento espírita, sediando inúmeros eventos.

Até nossos dias, as belas e ricas lembranças do médium, oriúndas das visitas constantes que fazíamos à Comunhão Espírita Cristã e ao Grupo Espírita da Prece, são muito vivas em nossa memória. Pelo conjunto de momentos próximos ao Chico e vivenciando as repercussões de sua ação benfazeja, sentimo-nos privilegiado e com o forte compromisso de divulgar e estimular a valorização da história de vida e da magnífica obra mediúnica de Francisco Cândido Xavier.

Passados mais de 16 anos após a partida de Chico Xavier para o mundo espiritual, seus exemplos e obras psicográficas prosseguem bem vivos no seio não apenas da seara espírita, mas junto à população brasileira. Há muitas frases que identificam a maneira de ser de Chico Xavier.

Reproduzimos uma que externa também as reações do médium frente às críticas e momentos difíceis que soube superar em sua longa existência:

“A Doutrina é de paz… Emmanuel tem me ensinado a não perder tempo discutindo. Tudo passa… As pessoas pensam o que querem a meu respeito – pensam e falam. Estou apenas tentando cumprir com o meu dever de médium. […] Devo prosseguir trabalhando. […] Já saio da cama com muito serviço, e é assim o dia todo. Lamento os companheiros que ainda não descobriram a alegria de viver de espírito desarmado. Depois, eles se queixam de depressão, falta de fé… Graças a Deus, nunca briguei com ninguém…”2

Ao refletirmos sobre a vida e a obra do notável vulto espírita e do Brasil e as repercussões que se ampliam vêm à nossa mente o fato belíssimo que assistimos nas comemorações dos 100 anos de seu nascimento, defronte ao Centro Espírita Luiz Gonzaga, em Pedro Leopoldo: o voo em autêntico bailado das pombas brancas e cinzentas. É inimaginável o quanto Chico Xavier e suas obras fizeram pela “[…] libertação das almas iluminadas pelo Evangelho à luz do Espiritismo, que por aqui estiveram, ao se desprenderem do corpo físico”, e, complementamos com a multidão incalculável de encarnados enlaçados pelo acolhimento fraterno, pelo consolo e pelos esclarecimentos de que ele foi protagonista exemplar.

Embora, certamente, não fosse o desejo do médium, sempre simples e humilde, as repercussões de sua vida e as homenagens de que é alvo representam o reconhecimento à história de vida de um homem voltado ao bem, do ‘homem amor’!”

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier. O homem, a obra e as repercussões. Capivari/São Paulo: EME/USE-SP. 2019. 224p.

2) Agenda Chico Xavier 2019. Capivari: Ed.EME. 2018.

(*) – Ex-presidente da FEB e da USE-SP; ex-membro da Comissão Executiva do CEI.

150 anos da desencarnação de Allan Kardec

150 anos da desencarnação de Allan Kardec

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

No 31 de março transcorrem 150 anos da desencarnação do Codificador. O fato ocorreu em Paris, no ano de 1869, entre 11 e 12 horas, quando Kardec contava 64 anos de idade e estava trabalhando no escritório da Passage de Sainte-Anne. Houve repentinamente o rompimento de um aneurisma, sendo chamado seu amigo Alexandre Delanne para um socorro, que foi infrutífero. Alexandre morava num apartamento em outra parte dessa mesma Passage.

O sepultamento de Kardec foi feito no Cemitério de Montmartre. Apenas um ano depois seu corpo foi transladado para o Cemitério Père Lachaise, onde foi construído o dólmen com a famosa frase “Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar tal é a Lei”. O túmulo de Kardec, nesse cemitério histórico de Paris, continua a ser dos mais visitados.

A efeméride é lembrada em vários locais e, tradicionalmente, em Paris. A Fédération Spirite Française realiza no dia 30 de março deste ano a comemoração do aniversário da desencarnação de Allan Kardec, a “Journée Allan Kardec”, no Cemitério Père Lachaise, junto ao dolmen; e em auditório, conferência sobre o tema “150 anos da desencarnação de Allan Kardec”.

Passado um século e meio, devemos analisar o impacto e a expansão do Espiritismo.

Com foco em nosso país, nota-se que uma grande quantidade de centros espíritas, perto de 15 mil. Embora a quantidade de espíritas declarados nos censos do IBGE seja relativamente pequena, em torno de quatro milhões, estima-se que o número de simpatizantes das ideias espíritas alcance dez mais a quantidade de espíritas declarados. A quantidade de obras de Kardec publicadas por dezenas de editoras em nosso país é vastíssima, chegando a ser o autor francês mais lido no Brasil. Logo mais, no mês de maio será lançado nas telas de cinema o filme “Kardec”.

Entre muitos fatos, merece destaque que há meio século, o espírito Emmanuel homenageou as obras da Codificação, elaborando pela psicografia de Chico Xavier, os livros: Religião dos espíritos, Seara dos médiuns, Livro da esperança, Justiça divina. Muito embora inúmeros livros de Chico Xavier se refiram às obras de Kardec. Há poucos dias, transcorreram 40 anos da desencarnação de Herculano Pires, o jornalista e filósofo paulista, e que Emmanuel se referiu a ele como “o metro que melhor mediu Kardec”.

Em nossos dias, face às muitas “novidades”, “modismos” e “personalismos”, se faz muito necessária a valorização e o estímulo ao estudo e difusão das Obras Básicas. Daí a importante "Campanha Comece pelo Começo", idealizada por Merhy Seba, patrocinada pela USE-SP em meados dos anos 1970 e aprovada pelo CFN da FEB em novembro de 2014.

Um fato interessante é que apenas tanto tempo após a desencarnação de Kardec é que, nos últimos anos, estão sendo valorizados documentos, periódicos e livros franceses, quase desconhecidos no Brasil, e que apontam para o esclarecimento de episódios que ficaram ocultados ou obscurecidos sobre a vida de Kardec e sua esposa e, especificamente sobre a divulgação de suas obras imediatamente após sua desencarnação. Recentemente têm vindo à tona pesquisas inéditas sobre obras de Kardec e fatos do movimento espírita francês. Em nosso país, justamente próximo ao Sesquicentenário da desencarnação do Codificador eclodiu o início da divulgação de manuscritos de sua autoria e de documentos, o chamado Projeto “Cartas de Kardec”, riquíssimo acervo que estava em poder da família de Silvino Canuto Abreu e que foram doados à Fundação Espírita André Luiz, de São Paulo.

150 anos após a desencarnação de Kardec, a maior homenagem a ser prestada ao valoroso espírito será sempre o estudo, a divulgação e prática do Espiritismo de conformidade com suas Obras Básicas.

(*) – Ex-presidente da USE-SP, da FEB; e ex-membro da Comissão Executiva do CEI.

Madame Kardec na Vila Ségur

Madame Kardec na Villa Ségur

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Nas primeiras viagens a Paris, início dos anos 1970, registradas na Revista Internacional de Espiritismo, visitamos locais históricos ligados ao Codificador, e, inclusive estivemos no local onde havia a Villa de Ségur.

Nas anotações de Allan Kardec há registros sobre os projetos para a Villa Ségur. Kardec se preparava para sua aposentadoria na Villa Ségur e a transferência da livraria para um novo endereço, que seria no início de abril de 1869 a da Rue de Lille. Mas, poucos dias antes foi colhido pela desencarnação.

A vila de Ségur (Villa de Ségur, em francês) era, àquela época, uma área praticamente rural, se comparada à turbulência urbana do centro de Paris. Lá, o casal Kardec adquiriu uma grande propriedade, onde o codificador pretendia construir um grande complexo espírita, incluindo um museu do Espiritismo e um asilo para os confrades menos favorecidos, além de uma residência particular para ele e sua esposa. Kardec reformou Ségur e construiu quatro casas, e uma quinta para um tal Roquet que, posteriormente a Sra. Kardec a comprou.  

Não houve tempo para ele realizar todo o projeto, mas foi lá que a viúva Kardec morou até sua desencarnação.

Recentemente há informações que têm vindo à tona com base em documentações: o livro da amiga do casal Kardec, a sra. Berthé Froppo, apenas traduzido para o português em 2017: Beaucoup Lumière; o livro Madame Kardec, a história que o tempo quase apagou, de Adriano Calsone; e informações disponibilizadas pela página eletrônica "Imagens e Registros Históricos do Espiritismo", sempre com a colaboração de Charles Kempf.

Agora essa página eletrônica divulga a planta baixa da Villa Ségur (com todos os créditos a Charles Kempf), a ilustração da rua e o detalhamento de algumas cifras.

E informam também que está comprovado que a viúva de Kardec, recebeu herança de sua família. A herança do pai de Amélie não foi compartilhada com o irmão, que já havia falecido, conforme foi comprovado. Amélie recebia 32 aluguéis provenientes de cinco edificações na Villa Ségur. A informação sobre 32 locações é de Berthe Fropo (Beaucoup Lumière), assim como sobre as cinco edificações, que aliás, não eram todas térreas. A renda anual destes aluguéis seria de 12.169 francos, conforme deduzimos de seu inventário (Berthé Froppo fala de 8.000 a 10.000 francos na revista Le Spiritisme da 2ª quinzena de outubro de 1883). Pode-se confirmar também cinco edificações na planta baixa. Mas parte deste dinheiro deveria estar sendo doado a sete pessoas, que continuariam recebendo trimestralmente uma renda vitalícia, como se registra no seu testamento e no seu inventário. E algumas destas pessoas também ajudariam os enfermos e idosos. A fonte desta última informação é a correspondência da Sra. Jouffroy à revista Le Spiritisme da 1ª quinzena de fevereiro de 1887, que ainda menciona ocupar "o andar em cima do dela ".

Com o crescimento e replanejamento urbano da capital francesa, a Villa de Ségur, hoje totalmente urbanizada, se enquadra no 7° distrito (arrondissement, em francês), área nobre da cidade,  atrás e próxima da Torre Eiffel. 

Fonte e transcrições parciais:

facebook.com/HistoriaDoEspiritismo / Imagens e Registros Históricos do Espiritismo.

(*) Ex-presidente da FEB e da USE-SP; ex-membro da Comissão Executiva do CEI.

O grande leão de Deus

O grande leão de Deus

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Em portentosa obra sobre o apóstolo Paulo – O grande amigo de Deus1, a autora Taylor Caldwell destaca frases entre os capítulos que são significativas. Dela mesma: “Qualquer semelhança entre o mundo de São Paulo de Tarso e o mundo de hoje é puramente histórica”; de autoria de Santo Agostinho: “Pois ele foi um verdadeiro leão vermelho, o grande leão de Deus”.

Trata-se da romancista britânica Taylor Caldwell que lançou nos EUA em 1970 a obra Great lyon of God (O grande leão de Deus), sobre a vida do apóstolo Paulo. No Brasil a obra foi traduzida com o título O grande amigo de Deus1, sendo muitas vezes editada. A autora Janet Miriam Holland Taylor Caldwell (1900-1985) adota vários pseudônimos em seus livros. Ela também é autora da bem conhecida obra Médico de homens e de almas, sobre Lucas.

No seu livro ela destacou outras nuances sobre Paulo: “muitos romances e livros acerca de São Paulo contaram com maravilhosas minúcias o que ele fez e realizou na vida e nas viagens missionárias. Estou interessada no que ele foi, um homem como nós, como seus próprios desesperos, dúvidas, ansiedades, raivas e intolerâncias, e ‘apetites de carne’. Muitas obras preocuparam-se apenas com o Apóstolo. Estou preocupada com o homem, o ser humano, tanto quanto com o intimorato santo”. Com base em pesquisas e muita inspiração Taylor Caldwell recria em forma de romance a vida de “Saul de Tarshish”, como ela se refere a Saulo de Tarso.

A obra é extremamente interessante e muito rica de detalhes, mas como muitos romances, nem tudo pode ser considerado autêntico do ponto de vista da fundamentação histórica.

Todavia, há fatos sobre a autora que devem ser lembrados. Ela viveu o drama de se declarar católica, não aceitar a reencarnação, e, em vários momentos que foi submetida à regressão da memória, personificava vivências em momentos de várias épocas e, ao retornar ao estado de lucidez ficava surpresa com os relatos registrados pelos profissionais da área psicológica. Certa feita a médium Dorothy Raulenson fez fascinantes revelações sobre a escritora2: “A Sra. Caldwell teria vivido também como dançarina na corte do Imperador Domiciano, em Roma. Naquela existência, teria sido convertida ao Cristianismo pelo próprio apóstolo João, no seu exílio, na ilha de Patmos, isto, de certa forma, explicaria sua familiaridade com as figuras de Paulo e de Lucas, que ela trata com muito carinho e minúcia em dois dos seus melhores livros. A médium menciona ainda a posição religiosa do Espírito Senhora Caldwell: ela vem oscilando milenarmente entre o amor e o ódio, perante a figura de Deus. Ainda hoje, escreve sobre ele com certas tonalidades amorosas, mas o repudia. – O mais curioso, diz a médium, é que lá, muito no fundo, ela pensa que é uma parceira de Deus. Seria, pois, esse invencível orgulho o terrível aguilhão que a leva a atravessar todas as vidas angustiosas e cheias de frustrações?”2

Assim, existe a hipótese de que Taylor Caldwell em alguns momentos escrevesse também em transe, anímico e/ou mediúnico.

Voltando à figura central do romance, Paulo de Tarso. Aos valores humanos destacados pela romancista mesclam-se os espirituais, pois no ambiente das religiões ele é uma marcante referência. Taylor Caldwell é profunda admiradora de Paulo: “Saul exerceu mais influência no mundo ocidental e na cristandade do que a maioria de nós conhecemos, pois o judeu-cristianismo, que ele diligentemente espalhou para o mundo, é o alicerce da jusrisprudência, moral e filosofia modernas do Ocidente…”1

No estudo que elaboramos sobre o cristianismo3 focalizamos o papel de Paulo e buscamos as opiniões de pesquisadores de diferentes épocas.

O conhecido pensador Joseph Ernest Renan considera Paulo como um homem eminente, que desempenhou um dos papéis de mais relevo na fundação do cristianismo, admitindo que seus textos são superiores aos dos outros apóstolos. O historiador Daniel Rops é taxativo: “Lendo o Novo Testamento, ficamos com a impressão de que a sementeira cristã se resume em São Paulo”.3

A essa altura, é oportuna a observação de Taylor Caldwell, destacando o vigor e a coragem do vulto histórico e critica momentos do Século XX: “O judeu-cristianismo defronta-se nestes dias com a maior provação de sua história, pois de forma extensa e terrível tornou-se secular e prega o ‘Evangelho Social’ ao invés do ‘Evangelho de Cristo’.”1

O acadêmico e pároco anglicano contemporâneo Nicholas T. Wright, autor de estudos sobre Paulo, opina que a ação do Apóstolo tem “uma dimensão política, entrelaçada num tecido único da teologia e de sua vida”, porém destaca que a história vivida e narrada por Paulo “é uma história de amor e não de poder.”3

Essas apreciações são coerentes com a essência do conteúdo do romance Paulo e Estêvão, onde Emmanuel afirma: “Paulo de Tarso foi um homem intrépido e sincero, caminhando entre as sombras do mundo, ao encontro do Mestre que se fizera ouvir nas encruzilhadas da sua vida.”4

Para o filósofo espírita Herculano Pires: “Paulo, que exemplifica o drama da transição da consciência judaica para a cristã, adverte que Deus não deseja cultos externos, semelhantes aos dedicados às divindades pagãs, mas "um culto racional", em que o sacrifício não será mais de plantas ou animais, mas da animalidade, ou seja, do ego inferior do homem. A religião se depura dos resíduos tribais, despe-se dos ritos agrários e da complexidade que esses ritos adquiriram no horizonte civilizado. Torna-se espiritual. Os próprios apóstolos do Cristo não compreendem de pronto essa transição. Pedro chefia o movimento que Paulo chamou "judaizante", tendendo a fazer do Cristianismo uma nova seita judaica. Mas Paulo é a flama que mantém o ideal do Cristo. Inteligente e culto, é um dos poucos homens capazes de compreender a nova hora que surge, e por isso o Cristo o retira das hostes judaicas, para colocá-lo à frente do movimento cristão.”5

Sem dúvida, o apóstolo Paulo foi o maior divulgador e o principal consolidador do cristianismo. Suas viagens, exemplos e textos delinearam o então nascente movimento cristão.6 Todas ações foram possíveis em função de sua autonomia intelectual, determinação e fé inabalável; ele não fazia “médias”.

Portanto é adequado o apelido de “leão de Deus”.

Os depoimentos e recomendações de Paulo devem merecer nosso interesse. Daí a importância do estudo das Epístolas de Paulo à luz do Espiritismo. O principal é captar-se a essência das recomendações ético-morais do Apóstolo. Além da fundamentação nas obras de Allan Kardec contamos com excelentes subsídios da exegese efetivada pelo Espírito Emmanuel em várias obras psicografadas por Francisco Cândido Xavier.6

Referências:

1) Calwell, Taylor. Trad. Alves Velho, Octávio; Sanz, José. O grande amigo de Deus. 31 ed. Rio de Janeiro: Record. 2014. 700p.

2) Taylor Caldwell – Uma biografia. Consulta em 20/01/2019: www.autoresespiritasclassicos.com/biografias%20espiritas/T/Taylor%20Caldwell.doc

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Cristianismo nos séculos iniciais: aspectos históricos e visão espírita. Cap. 2.5. Matão: O Clarim. 2018.

4) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Paulo e Estêvão. Brasília: Ed. FEB. 2012. 488p.

5) Pires, José Herculano. O espírito e o tempo. 1a Parte, Cap. V. São Paulo: Ed. Pensamento. 1964.

6) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do espiritismo. 1.ed. Matão: O Clarim. 2016. 188p.

(*) O autor foi presidente da USE-SP e da FEB; ex-membro da Comissão Executiva do CEI.

Extraído de:

Revista Internacional de Espiritismo. Ano XCIV. No. 2. Edição de março de 2019. P. 79-80.

Nestor, as batalhas e a trombeta

Nestor, as batalhas e a trombeta

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Nestor João Masotti teve intensa atuação no movimento espírita do país e no exterior. Durante décadas, dos eventos jovens até à USE-SP, FEB e CEI, sempre tivemos muito contato e ações conjuntas. Acompanhamos muitas lutas de Nestor em vários níveis e momentos.

Passado poucos anos de sua desencarnação, sentimos falta de menções ao seu trabalho e vimos alguns textos atribuídos ao seu espírito… Parece-nos que deveríamos relembrar sua destacada contribuição.

Aliás, quando se comenta sobre algum vulto do momento ou na condição de “ex”, e, de mensagens mediúnicas no meio espírita, muitas vezes há muitas inferências e inclusões de julgamentos pessoais e parciais. Há poucos anos, em entrevista à TV, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, atendendo à pergunta sobre as continuadas críticas que recebeu dos governos que o sucederam, comentou que ao analisar as informações verificou que em realidade haviam criado um outro “personagem”. O entrevistado citou o conto do conhecido literato argentino Jorge Luís Borges – “Borges y yo”-, incluído no livro O fazedor, onde se comenta as diferenças sentidas por Borges sobre o que divulgam e como ele próprio se vê. Ao final, encerra o conto: “Eu não sei qual dos dois escreve esta página”…

Voltando ao Nestor: inicialmente elaboramos dois textos sobre sua participação internacional.1,2 E, agora, fazemos uma síntese sobre sua atuação nacional.

Durante sua gestão como presidente da FEB o acompanhamos em ações de unificação, de preparação de trabalhadores e de divulgação doutrinária, principalmente em função de nosso encargo como secretário geral do Conselho Federativo Nacional da FEB. Nos momentos complexos em seguida ao abrupto afastamento de Nestor da presidência da FEB, por razões de saúde, por sua indicação assumimos a presidência interina da FEB. Vimo-nos à frente de encargos pesados, mas contamos com a colaboração do Conselho Diretor e Diretoria Executiva da FEB, em reuniões que se fizeram necessárias com periodicidade quinzenal para o equacionamento de situações complexas.

Sobre sua atuação lembramos que Nestor foi presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo. Esta experiência é que foi ampliada como presidente da FEB, e transcrevemos trechos de livro nosso3:

Nestor João Masotti (Pindorama, SP, 1927; Brasília, 2014). Foi o 21o presidente (2001-2013, mas afastado desde 2012). Antes da presidência foi secretário geral do CFN. Reformulou a sede da Editora da FEB no Rio de Janeiro e estimulou a ampla divulgação das obras de Allan Kardec, a tradução da Revista Espírita e das obras do Codificador. Tentou a retirada de cláusula sobre Roustaing no Estatuto da FEB, mas sua proposta foi interrompida por demorada ação judicial, liberada apenas na época de sua desencarnação. Na sua gestão foram realizados dois Congressos Espíritas Brasileiros (2007 e 2010); comemorações do Bicentenário de nascimento de Allan Kardec com emissão de selo comemorativo pelos Correios; Sesquicentenário de O Livro dos Espíritos com emissão de selo comemorativo pelos Correios e o “Projeto Centenário de Chico Xavier” (2010); foram cunhadas medalhas pela Casa da Moeda em homenagem a Chico Xavier (2010); Sesquicentenário de O livro dos médiuns (2011); Centenário da Sede Histórica do Rio (2011). O CFN aprovou: Atividade de Preparação de Trabalhadores Espíritas (2002), que gerou o curso “Capacitação Administrativa da Casa Espírita”; Campanha “Construamos a Paz Promovendo o Bem!” (2002); “Plano de Trabalho para o Movimento Espírita Brasileiro (2007-2012)”; Campanha “O Evangelho no Lar e no Coração” (2008); Orientação aos órgãos de unificação (2009); Regimento Interno do Conselho Federativo Nacional da FEB (2011). A FEB apoiou: a criação do Movimento Nacional Em Defesa da Vida-Brasil sem Aborto; reforma das instalações da Fazenda Modelo e construção do Memorial do C.E. Luís Gonzaga de Pedro Leopoldo (MG); os filmes “Chico Xavier”, “Nosso Lar” e “E a Vida Continua…” Simultaneamente ao cargo de Presidente da FEB exerceu também o cargo de secretário-geral do Conselho Espírita Internacional.

Entre os momentos do afastamento de Nestor e após sua desencarnação, já como presidente efetivo da FEB tivemos oportunidade de conduzir algumas homenagens, registrando nosso reconhecimento ao amigo de muitos anos.

No dia seguinte à eleição na FEB, no dia 17 de março de 2013, acompanhado de nossa esposa Célia, estivemos em São Paulo especialmente para visitar Nestor e entregar-lhe uma placa de prata, em nome do Conselho Superior e da direção da FEB. Ele se encontrava em fase de tratamento, hospedado na casa de sua irmã Norma. Ali, além das citadas, também estavam presentes sua esposa Maria Euny e o ex-diretor da FEB e da USE-SP Paulo Roberto Pereira da Costa.

Na cerimônia de passagem do Museu Espírita de São Paulo para a FEB, aos 18 de abril de 2013, o ex-presidente Nestor foi homenageado, oportunidade que estavam presentes três diretores da FEB, incluindo nossa esposa, os fundadores do Museu e vários confrades da capital paulista.

Por ocasião da reunião do Conselho Federativo Nacional da FEB, no dia 8 de novembro de 2013, procedemos à inauguração do Espaço Cultural da FEB, em Brasília, e foi introduzida a foto de Nestor na Galeria dos ex-presidentes, contando com a presença dele e esposa para o descerramento da foto.

Na abertura de reunião extraordinária do Conselho Federativo Nacional da FEB, no dia 22 de agosto de 2014, convidamos Nestor para se assentar à mesa, concedemos a palavra e o homenageamos, e este seria seu último aparecimento público.

Três dias após sua desencarnação, na tarde do dia 6 de setembro de 2014, ainda com suas irmãs presentes em Brasília, a esposa, filhos, genro, nora, netos, alguns diretores da FEB e amigos, procedemos à instalação de um painel em homenagem a Nestor no Espaço Cultural da FEB.

 

Dispomos de muita documentação, mas concluímos nosso sintético registro sobre Nestor na FEB lembrando de uma frase de Paulo que ele sempre repetia nas suas exposições verbais:

“Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha?” (1 Cor. 14, 8).

Referências:

1. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Papel internacional de Nestor Masotti. Revista internacional de espiritismo. Ano XCIV. N.1. Fevereiro de 2019. P.30-32.

2. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Nestor Masotti e a divulgação internacional de Kardec. O Consolador. Ano 12. N° 604. Edição de 03/02/2019: http://www.oconsolador.com.br/ano12/604/especial2.html

3. Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? Cap. 3.4. Capivari: Ed. EME. 2018.

(*) – Foi presidente da FEB (interino de maio de 2012 a março de 2013; efetivo de março de 2013 a março de 2015); diretor e secretário geral do CFN da FEB entre 2004 e 2012; membro da Comissão Executiva do CEI (2007-2016).