O que Jesus requer de seus discípulos

O que Jesus requer de seus discípulos

Vladimir Alexei

A renúncia é uma virtude moral de suma importância para a evolução do espírito.

Para melhor entendimento sobre o tema, Vinicius, em sua obra “Em torno do Mestre”, caracteriza a renúncia como, coragem moral, disposição de ânimo, resistência às seduções do mundo, colocando acima de tudo “o ideal de justiça e amor”, legados pelo Cristo.

A coragem moral para enfrentar os desafios com dignidade, ante as investidas de pensamentos e sentimentos que eclodem, volta e meia, a partir de gatilhos mentais disparados no enfrentamento cotidiano. Aprende-se, exercitando o autoconhecimento, a compreender melhor o que são esses gatilhos em cada um de nós. Em seguida, sem receitas prontas, por meio de trabalho árduo de renúncia, dúvidas e dedicação, o indivíduo conseguirá analisar com mais calma e disposição para mudar aquilo que suscita sentimentos controversos e menos felizes. Disposição de ânimo para não sucumbir aos primeiros obstáculos. É comum o discípulo, diante das dificuldades, escolher caminhos menos pedregosos.

Entretanto, as tribulações da caminhada testam nossa resignação e firmeza diante do propósito de servir na Seara do Cristo. Serviço que não pede formação, cultura ou distingue religião, apenas ânimo decidido para levar conforto espiritual e esperança aos mais necessitados.

Resistência às seduções do mundo, talvez, dentre as demais virtudes, seja a menos compreendida. Não se trata de batalha armada contra inimigo declarado e sim, luta íntima em favor dos valores superiores da vida, diante de um adversário muito próximo, que transita ainda dentro de nós mesmos: a ignorância. Resistir aos ímpetos de instintos materiais é um passo importante que a razão nos convida a vivenciar.

Razão é a educação dos impulsos, a transformação dos instintos que causam inquietação na alma, pela serenidade progressiva que ilumina os passos daqueles que se esforçam por vencer a si mesmos. Tudo isso ocorrendo em conjunto, evolvendo ativamente os mais nobres valores de Justiça e Amor como aqueles trazidos pelo Cristo. Um passo de cada vez. Um dia de cada vez, continuamente, sempre para o Alto.

Belo Horizonte das Minas Gerais, 19 de agosto de 2020.

SIGNIFICADO RACIONAL DO QUE É ANJO NA BÍBLIA

SIGNIFICADO RACIONAL DO QUE É ANJO NA BÍBLIA

José Reis Chaves (*)

Anjos para cristãos e judeus é um assunto confuso. Vamos mostrar que os anjos são espíritos humanos de alto nível de evolução e, também, que tanto eles como os espíritos dos mortos bons ou maus se comunicam conosco segundo o espiritismo e a Bíblia.

Anjo em grego é “aggelos” e significa mensageiro, enviado e “office boy” do mundo espiritual para nós. E porque é do mundo espiritual, passou-se a entender que é enviado por Deus, mas não é diretamente por Deus, pois, Ele tem seus espíritos trabalhando no seu projeto (Hebreus 1: 14 e versículos seguintes). E todo enviado do mundo espiritual é espírito, mas nem todo espírito é enviado.

Os líderes protestantes e evangélicos evitam falar em anjos, exatamente porque anjos são espíritos. Aliás, eles não aceitam a doutrina católica dos anjos da guarda. E a Igreja tem também seus santos que são espíritos. E algumas correntes cristãs nem aceitam que os anjos têm livre-arbítrio.

A Bíblia ensina que os espíritos angélicos e humanos foram criados por Deus. A doutrina espírita, que é também uma ciência de observação estudada e comprovada, inclusive, por cientistas de Prêmio Nobel, é, pois, a que mais entende de espíritos. E ela diz também que os anjos foram criados por Deus. Mas, para ela, como vimos, por eles serem também espíritos humanos já muito evoluídos, eles podem ser também de outros mundos. E, como se sabe, existem graus de perfeição entre os espíritos já angélicos e os ainda humanos. Uns são mais elevados e outros menos. O mais importante é que são espíritos, que são inteligentes e que são, pois, seres diferentes dos materiais. E como todo ‘enviado’ do mundo espiritual é um espírito, é comum entende-se por ‘anjo’ um ‘espírito’, ao invés de ‘enviado’.

Vejamos uma passagem bíblica que nos mostra que anjo é mesmo espírito humano já bem evoluído. São Pedro estava preso e esperava-se que fosse degolado. Mas ele escapou da prisão com a ajuda de um anjo. E quando Pedro chegou ao portão da casa de Maria, mãe de João, cognominado Marcos, e a criada Rode, que foi abri-lo para ele, ficou assustada, pois imaginava que ele já estivesse morto. E, ao avisar aos donos da casa e visitantes que se tratava de Pedro, eles ficaram também assustados dizendo: “Deve ser o anjo dele”. (Atos 12: 15). E aqui temos duas provas robustas bíblicas aceitas pelos primeiros cristãos: a de que, para eles, anjo é mesmo um espírito humano; e a outra é a de que tanto os anjos como os espíritos dos mortos se comunicam conosco.

Aliás, quando Moisés (não Deus) proibiu o contato com os espíritos dos mortos é porque esse contato existe mesmo, pois ele não era doido de proibir o que não existe!

(*) Coluna no diário O TEMPO, de Belo Horizonte.

Blog: https://www.facebook.com/groups/1964680747152496/

A justiça, o Amor e a Verdade

A justiça, o Amor e a Verdade

Vladimir Alexei

É comum, nos apostilamentos em que se estuda ao longo de décadas no movimento espírita, tratar as “três revelações” como sendo um processo distinto, ou até mesmo evolutivo do pensamento humano e alguns mais ousados, diriam do pensamento do Cristo.

Assunto normalmente abordado nos estudos introdutórios, encerra aprendizado para todos os gostos e conhecimentos. A organização do conhecimento, seja ele em qual esfera for, passa por uma seleção de informações que serão priorizadas, em detrimento de outras. É natural que seja assim.

Um exemplo tratado por Edgar Morin (educador contemporâneo, nonagenário), é a passagem do geocentrismo (Ptolomeu) para o heliocentrismo (Copérnico). Os elementos de estudo (os planetas) foram os mesmos. A forma de abordagem é que mudou, ou, nos dizeres do educador, “a forma de ver o mundo mudou”.

Os exemplos existem aos montes, o que nos permite uma provocação filosófica: o que pretensos estudiosos do espiritismo chamam de “atualizar Kardec”, não seria mais indicado evoluir a maneira de enxergar os textos doutrinários, do que necessariamente modificá-los? Trazendo essa reflexão para o meio espírita, as “três revelações” podem ilustram essa proposta.

É consenso em cursos e palestras registrados pela rede mundial de computadores, que a Revelação trazida por Moisés simboliza a necessidade de se ter uma organização fundamentada em leis para uma melhor convivência social. Parte dessas leis foram obtidas por uma “mediunidade direta”: Moisés foi o intermediário para o Decálogo. Outras foram elaboradas pelo próprio Moisés (já que foi médium para receber o decálogo, nada impede que ele tenha sido médium inspirado para elaborar as demais leis, ainda que frágeis em termos de “justiça universal”).

Evidentemente que, como o conhecimento humano naquela época, algo em torno de dois mil e seiscentos anos antes de Cristo, era infinitamente menor do que hoje, o registro de tudo aquilo que era necessário para o aprendizado da humanidade ficou restrito a leis que foram interpretadas da maneira que deram conta. Isso explica os abusos e absurdos que as leias da época permitiam. O que, talvez, não justifique as barbaridades que vemos na atualidade, já que evoluímos em conhecimento e compreensão… Após séculos de incorreções nos processos evolutivos e de mudança das leis que regiam os homens, encarna Jesus, o Espírito mais puro que já esteve entre nós. Sua vinda é tão marcante que seus ensinamentos foram sintetizados em uma simples, porém, complexa palavra: Amor. Séculos após a manifestação do amor mais sublime que a Terra já teve na história (do Ocidente e do Oriente, ainda que a preferência de dois terços da humanidade esteja dividida entre outros mensageiros de menor envergadura espiritual, mas de profunda relevância naquilo que lhes cabia difundir e vivenciar), coube a Allan Kardec ser o fundador da doutrina que melhor conseguiu representar o Amor Divino, a Justiça Divina, por meio da Verdade Universal.

A verdade que conhecemos é relativa, assim como a justiça que aplicamos e o amor que vertemos. Embora haja evolução, nos encontramos em estágios diferentes nessa espiral: a justiça, em tempos de preconceito, racismo, homofobia é tão ou mais importante do que o amor que sublima os sentimentos mais puros que o indivíduo consegue expressar. A Justiça Divina, ainda que compreendida sob a limitação humana, quando colocada em prática aplaca ansiedades coletivas, abrindo caminhos para o trabalho conjunto. Essa talvez seja uma verdade relativa, ou fragmentos de uma verdade, fruto de um pensamento “complexo”, porque tudo está, de certa forma, conectado, entrelaçado, sem fronteiras delineadas.

Vivemos, nos dizeres de Morin, o “paradigma da simplificação”. Disjunção, abstração e redução tornaram-se sinônimos para explicar aquilo que é Revelado pelos Espíritos Superiores. Essa “necessidade” de simplificar torna o aprendizado empobrecido porque a convivência com a “dúvida”, o desgaste de horas afio tentando compreender o que seja “justiça”, “amor” e “verdade” abriu espaço para definições capengas, limitantes e deficitárias, transformando oportunidade de aprendizado em “necessidade de conhecer mais”. Assim, temos visto, no meio espírita, catedráticos em Espiritismo, profundos “registradores de informações doutrinárias”, verdadeiros “decoradores”, com muitas dificuldades de colocar em prática tudo aquilo que conhecem “de cor”.

O desafio de ser “justo” foi recortado, já que entendido, mas não praticado. O desejo de “amar” tornou-se longínquo porque o estudo resumido e simplificado evidencia mais a distância evolutiva de Jesus em relação a nossa, do que a grandeza do Seu gesto e a beleza da caminhada ascensional da humanidade para compreender melhor a ação de “Amar”. Com isso a “verdade” se restringiu a ser a “dona do pedaço”, ditando a “última palavra” de forma simplificada, reducionista e distante. O problema não está e nunca esteve na Doutrina Espírita e sim no “Espírita”. Estudar implica dor. Angústias de não conseguir compreender o que se deseja e necessita. É a dor do crescimento, da mudança, e não do sofrimento.

A Justiça, o Amor e a Verdade são iluminadas, quando o estudo é empreendido com os elementos de cada um desses princípios, de forma conjugada. Não mais a “justiça de Moises” e sim a “necessidade de ser Justo” hoje e para sempre; o Amor de Jesus, pelo “Amor com Jesus”, pois “Amor” é verbo, é ação; e a Verdade Universal, pela Verdade que o Espírita empreende para ser Justo e Amoroso em Viver. Já dissemos em outras abordagens: a audácia de pensar com independência, causa estranheza, leva a críticas ácidas, por vezes veladas, por uma simples razão: é mais fácil falar de amor, justiça e verdade, parecendo ser justo, amoroso e verdadeiro, quando, na realidade, ainda temos uma grande caminhada pela frente.

É isso que nos motiva: compreender melhor a Vida, sob a égide do Cristo e da Doutrina Espírita.

Belo Horizonte das Minas Gerais, 03 de agosto de 2020.

Pequenas notas sobre Kardec, Emmanuel e a transição planetária

Pequenas notas sobre Kardec, Emmanuel e a transição planetária 

André Ricardo de Souza (*)

Entre os livros elaborados por Allan Kardec a partir de reflexões dele e respostas dos espíritos consultados, a chamada transição planetária – conjunto de grandes mudanças neste nosso orbe – é abordada sobremaneira em A gênese.

Já entre as obras de Emmanuel, o mentor espiritual do principal médium da história do espiritismo: Francisco Cândido Xavier, esse tema tem destaque em A caminho da luz.

Neste modesto artigo, é enfocado em ambos os livros o atual período de grande mudança (transição) pelo qual o globo passa. Muito se fala no meio espírita sobre a passagem entre os mundos: 1) primitivo; 2) de provas e expiações: 3) de regeneração. No primeiro, correspondente à “infância da humanidade”, observa-se a ausência ainda de uma referência moral coletiva.

Do ponto de vista histórico e sociológico corresponde ao período politeísta em que a fidelidade a diversos deuses legitimava frequentes conflitos de morte entre vários indivíduos e grupos, sendo o assassinato e sua vingança do mesmo modo socialmente aceitos por todos os povos. A consolidação do monoteísmo judaico com Moisés e o decorrente imperativo divino de não matar – chamado no meio espírita de Primeira Revelação – inaugura um novo tempo histórico, a saída da tal “infância”. Com a vinda dos ensinamentos de Jesus – a Segunda Revelação -passamos da adolescência à condição adulta da humanidade, quando a responsabilização pelos equívocos é, naturalmente, maior.

Pois bem, no último capítulo do livro A gênese, intitulado “Os tempos são chegados”, Kardec afirma no item 5: “Essa fase que se elabora neste momento é o complemento necessário do estado precedente, como a idade viril é o complemento da juventude”. Reproduzindo mensagem do espírito Doutor Barry – o codificador espírita, faz revelar que tal período de transição começara quase um século antes da publicação daquela obra, mas, definitivamente, não mostra quando cessará. Em contrapartida, diz claramente como ele se dará, conforme os trechos que seguem:

“7. – Mas uma mudança tão radical quanto a que se elabora, não pode se cumprir sem comoção; há luta inevitável entre as ideias. Desse conflito nascerão forçosamente perturbações temporárias, até que o terreno seja diluído e o equilíbrio restabelecido. Será, pois, dessa luta de ideias que surgirão os graves acontecimentos anunciados, e não cataclismos, ou catástrofes puramente materiais (…) 14. – A Humanidade tornou-se adulta, tem novas necessidades, aspirações maiores, mais elevadas (…) É a um desses períodos de transformação, ou querendo-se, crescimento moral, que a Humanidade chegou. 20- (…) A geração que desaparece levará consigo os seus preconceitos e os seus erros; a geração que se levanta, banhada numa fonte mais depurada, imbuída de ideias mais sadias, imprimirá ao mundo o movimento ascensional no sentido do progresso moral, que deve marcar a nova fase da Humanidade (…) 27. – (…) Tendo chegado esse tempo, uma grande emigração se cumprirá entre aqueles que a habitam; aqueles que fazem o mal pelo mal, e que o sentimento do bem não toca, não sendo mais dignos da Terra transformada, dela serão excluídos (…) 28. – A época atual é de transição (grifo meu); os elementos das duas gerações se confundem. Colocados no ponto intermediário, assistimos à partida de uma e à chegada da outra (…) 33. – (…) É de se notar-se que, em todas as épocas da história, as grandes crises foram seguidas de uma era de progresso. 34- É um desses movimentos gerais que se opera neste momento, e que deve trazer o remanejamento da Humanidade.”

No livro A caminho da luz, Emmanuel faz um resumo sinteticamente comentado de toda a trajetória da Terra, desde sua formação geológica até a terceira década do século XX. Fazendo menção à Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914 e 1918, ele anuncia,no penúltimo capítulo,o acontecimento em breve do segundo grande conflito militar internacional que acabou por ocorrer na década seguinte. Na sequência, o mentor de Chico Xavier afirma:

“Então a Terra, como aquele mundo longínquo de Capela (sistema planetário de onde aqui vieram espíritos exilados quando estávamos ainda na fase primitiva, observação minha) ver-se-á livre das entidades endurecidas no mal”.

Daí se pode depreender que no pensamento de Emmanuel a transição ao mundo de regeneração terminaria após a Segunda Guerra Mundial, o que não se verificou de fato. Porém uma interpretação, a meu ver, mais sólida é a de que teria iniciado, a partir daquele grande conflito, o período em que espíritos muito endurecidos não mais têm permissão para reencarnar na Terra – condizentemente, portanto, com o postulado de Kardec – e que ainda está em curso. Em outras palavras, o término daquele terrível acontecimento no meio do século XX não é apontado por Emmanuel como o início da nova grande fase do nosso planeta, mas sim o início de um período que faz parte do processo de transição, marcado pela interdição reencarnatória de espíritos que tiverem aqui sua última oportunidade.

Além de anunciar a Segunda Guerra Mundial, Emmanuel também fez outra previsão certa quanto ao deslocamento do poder político-econômico e militar e também do papel civilizatório no mundo:

“(…) a superioridade europeia desaparecerá para sempre, como o Império Romano, entregando à América (entenda-se às Américas, observação minha) o fruto das suas experiências, com vistas à civilização do porvir”.

Intitulado “O espiritismo e as grandes transições”, o penúltimo capítulo de A caminho da luz, tal como o último de A gênese, não aponta quando a transição planetária terminará, porém faz uma expressiva revelação, mencionando uma “nova reunião da comunidade das potências angélicas do sistema solar, da qual Jesus é um dos membros divinos”. Lembrando-se que a reunião anterior desse tipo aconteceu antes da vinda do mestre divino. Sem haver documento escrito a respeito, parte dos espíritas acredita que essa reunião já ocorreu, mas seja como for, ela está ligada, de algum modo, ao término do período transitório para o mundo de regeneração, caracterizado pela maturidade humana, que, bem entendido, ainda não significará o fim de todos os males planetários.

(*) Professor da UFSCar, colaborador de Centro Espírita em Vila Nova Cachoeirinha, São Paulo.

Esperança, com ela, a fé se renova e a serenidade volta ao coração

Esperança, com ela, a fé se renova e a serenidade volta ao coração

“Em meio à pandemia da COVID-19, é natural que fiquemos ansiosos com o amanhã, mas convictos da misericórdia Divina, alimentamos a confiança no presente e no futuro, fazendo o que nos compete fazer aqui e agora.

A mensagem da Diretoria Executiva expressa a nossa confiança no presente e, sobretudo, no futuro, sejam eles quais forem. Deus não erra. Ele tem suas razões e seus métodos de agir. Confiemos, sempre. Assim pensando, estamos lançando mais uma edição de nosso jornal, na versão impressa e virtual, em plena pandemia – e, desta vez, o tema central é Caridade, em função do Dia da Caridade, que se comemora no Brasil, em 19 de Julho, desde 1966.”

Em sintonia com a temática da caridade, inserimos a biografia de São Vicente de Paulo (*), um dos expoentes da Codificação Espírita, cuja existência, no Séc. XVI, foi devotada a essa virtude e, no espaço Curiosidades históricas (*), dados sobre a Santa Irene, autora espiritual da prece de Cáritas, uma das preces mais apreciadas, em nosso meio espírita e também, por outras crenças.

[…] Vamos juntos esperançar, renovar a fé e dar as boas vindas à serenidade. Pense Nisso. Pense Agora.”

Merhy Seba

(Trechos transcritos de: Editorial do jornal Roteiro Espírita, órgão do Centro Espírita Meimei, Ribeirão Preto, julho-agosto de 2020, p.2).

(*) O autor se refere no Editorial a outras matérias desse jornal.

Federação do Espírito Santo oferece apoio emocional durante isolamento social

Federação do Espírito Santo oferece apoio emocional durante isolamento social

Matéria publicada na Folha on line (https://www.folhaonline.es/casas-espiritas-do-es-oferecem-amparo-psicologico-durante-pandemia/)

Durante o período de isolamento social em decorrência da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), muitas pessoas diagnosticadas com doenças psicológicas tiveram o quadro agravado e outras passaram a sofrer de depressão e ansiedade.

Pensando em um modo de continuar oferecendo amparo a essas pessoas apesar da suspensão das atividades presenciais, no dia 10 de maio, a Federação Espírita do Estado do Espírito Santo (FEEES) deu início ao atendimento fraterno online. O serviço é um canal de escuta, que conta com mais de 40 atendentes preparados para oferecer apoio, e não tem por objetivo substituir o atendimento psicológico ou psiquiátrico e sim complementá-lo.

Fabiano Santos, presidente da FEEES, conta que o atendimento fraterno já é oferecido pelas casas espíritas habitualmente mas, devido à pandemia, foi preciso adaptá-lo. “O serviço é uma das atividades da casa espírita, que tem por objetivo acolher aqueles que sofrem de alguma patologia, seja depressão, ansiedade, ou até aflições causadas por dificuldades financeiras ou problemas de saúde. E sabemos que, durante o período de isolamento social, o número de pessoas que sofrem com doenças mentais aumentou, então, com as casas fechadas, resolvemos criar o serviço online, porque não poderíamos deixar essas pessoas desamparadas em um momento tão difícil”. “Trata-se de um serviço complementar e não substitutivo”, explica Fabiano sobre o atendimento, que não tem o intuito de substituir o atendimento psicológico ou psiquiátrico.

A diretora da área de Atendimento Espiritual da FEEES, Rejane Lemos Teixeira do Nascimento, conta que, em sete semanas, o projeto já atende a 280 pessoas que residem não apenas no estado, como também em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e até em outros países, como França e Estados Unidos. “Antes de darmos início ao atendimento, fizemos uma pesquisa com as 112 casas espíritas do Espírito Santo e convidamos aqueles que trabalhavam há pelo menos dois anos com atendimento espiritual presencial para se tornar um atendente”, relata. Hoje, o atendimento conta com uma equipe de 41 atendentes preparados, que se organizam para disponibilizar o canal de escuta das 08h às 22h, todos os dias da semana. De acordo com Rejane, a maior parte dos atendidos têm entre 21 e 40 anos e buscam o serviço por conflitos de relacionamento, depressão, ansiedade ou ideação suicida.

Para esses casos, o atendimento fraterno conta com o suporte de profissionais no apoio emocional. A equipe de especialistas é composta por integrantes da Associação Médico-Espírita do Estado do Espírito Santo (AMEEES). Rejane esclarece ainda que o serviço pode ser acessado por pessoas de qualquer religiosidade. “Não há discriminação, cerca de 50% dos atendidos não são espíritas”.

Para uma sessão de atendimento fraterno, basta ligar para o número (27) 3300-5000 e aguardar na fila até ser encaminhado a um dos atendentes. O serviço é gratuito e tem como propósito acolher e amparar aqueles que precisam de alguém para ouvi-los. Telefone: (27) 3300-5000.

Misericórdia e reconciliação

Misericórdia e reconciliação

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Com a ênfase dada por Allan Kardec ao ensino moral, em “O Evangelho segundo o Espiritismo” torna-se possível aprofundarmos os ensinos de Jesus com base nos princípios espíritas. Uma diferença substancial entre o Antigo e o Novo Testamento é nova visão sobre Deus e sua justiça apresentada por Jesus, trazendo a bandeira da lei do amor.

O sermão da montanha é uma autêntica proclamação de bases para uma nova sociedade. Entre outras bem-aventuranças, um diferencial importante do Novo Testamento surge nas palavras:

“Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque obterão misericórdia” (Mateus, 5:7.), mais à frente corroborado pelo registro do evangelista: “Se perdoardes aos homens as faltas que cometerem contra vós, também vosso Pai celestial vos perdoará os pecados; mas, se não perdoardes aos homens quando vos tenham ofendido, vosso Pai celestial também não vos perdoará os pecados” (Mateus, 6:14 e 15.).

O Codificador prossegue no capítulo X da obra básica citada, transcrevendo também: “Se, portanto, quando fordes depor vossa oferenda no altar, vos lembrardes de que o vosso irmão tem qualquer coisa contra vós — deixai a vossa dádiva junto ao altar e ide, antes, reconciliar-vos com o vosso irmão; depois, então, voltai a oferecê-la” (Mateus, 5:23 e 24.).

Claramente ressaltam as propostas de misericórdia e de reconciliação, separando-as dos atos religiosos tradicionais, ritualísticos e formais. A propósito dessa proposta, Kardec anota “Jesus ensina que o sacrifício mais agradável ao Senhor é o que o homem faça do seu próprio ressentimento”.

Em rápidas pinceladas faremos algumas relações bibliográficas sobre o tema. Em síntese, o Codificador deixa claro no Capítulo XI:

“Quando as adotarem para regra de conduta e para base de suas instituições, os homens compreenderão a verdadeira fraternidade e farão que entre eles reinem a paz e a justiça. Não mais haverá ódios, nem dissensões, mas tão somente união, concórdia e benevolência mútua.”

Sobre essa proposta, muitas vezes de difícil praticização, também encontramos registros do apóstolo Paulo em sua 2ª Epístola aos Coríntios, que foi escrita reunindo recomendações em função dos choques de posturas entre os que tinham ideias judaizantes, outros intelectualizadas e os fieis seguidores dos ensinamentos de Jesus. Eis alguns versículos marcantes:

“3.3 Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração. […] 5.17 Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. […] 5.19 Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação. 5.20 De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus.”

Paulo deixa claro que não se trata de mero formalismo de perdão e de reconciliação, por isso enfatiza “tábuas de carne do coração” e a nova postura de “embaixadores da parte de Cristo”. A propósito das situações complexas que se vive no relacionamento entre as pessoas, na mesma Epístola, Paulo recomenda:

“4.8 Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. 4.9 Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos.” Essas lembranças de textos de Mateus, Paulo e Kardec podem servir de orientação e estímulo para refazimento de formas de relacionamento. Sem dúvida, não é fácil, um grande exercício de superação.

Todavia, encontramos em texto do espírito Batuíra um comentário muito real:

“Companheiros transfigurados em desafetos integram o quadro natural de nossas provas. Tenhamos coragem e suportemo-los. Decerto não será possível beijar-lhes as mãos quando se voltem contra nós, mas podemos orar por eles, tolerar-lhes as investidas, desculpar-lhes em pensamento os ataques e abençoá-los no silêncio de nossas reflexões”.

Referências:

1) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O evangelho segundo o espiritismo. Cap. X e XI. FEB.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do espiritismo. Cap. 6. Matão: O Clarim.

3) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Batuíra. Mais luz. Cap. Ante o futuro. São Bernardo do Campo: GEEM.

(Foi presidente da USE-SP e da FEB)

As epidemias e os espíritas – alguns registros históricos

As epidemias e os espíritas – alguns registros históricos

Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

A Revista espírita do período de Allan Kardec é muito rica de matérias doutrinárias e informativas. O Codificador opinava sobre temas do momento.

Agora que convivemos com uma pandemia torna-se interessante transcrevermos trechos da matéria “O Espiritismo e o cólera”1, oportunidade que Kardec publica uma carta enviada por um advogado de Constantinopla:

"[…] Os jornais informaram o rigor com o qual o terrível flagelo vem de maltratar em nossa cidade e vizinhanças, tudo em atenuando suas devastações. Algumas pessoas, dizendo-se bem informadas, dão o número de coléricos falecidos em 70 mil,…”

Em mensagem espiritual há o comentário:

“Certamente, seria absurdo crer que a fé espírita seja um ‘brevet’ de garantia contra o cólera. Mas como está cientificamente reconhecido que o medo, enfraquecendo ao mesmo tempo o moral e o físico, torna mais impressionável e mais suscetível de ser atingido pelas moléstias contagiosas; é evidente que toda causa tendente a fortificar o moral é um preservativo.”

E também do espírito doutor Demeure:

“O melhor preservativo consiste nas precauções de higiene sabiamente recomendadas por todas as instruções dadas a respeito; estão acima de toda limpeza, o afastamento de toda causa de insalubridade e focos de infecção, a abstenção de todo excesso. Com isto deve evitar-se a mudança de hábitos alimentares, salvo para evitar as coisas debilitantes. É preciso igualmente evitar os resfriados, as transições bruscas de temperatura, e abster-se, a menos por necessidade absoluta, de toda medicação violenta, que possa trazer perturbação na economia. Sabeis que, muitas vezes, em casos semelhantes, o medo é pior do que o mal.”

Na edição seguinte da Revista espírita, em dezembro de 1865, Kardec informa deu início a uma campanha em favor dos flagelados, aberta no escritório da Revista: “Em benefício dos pobres de Lyon e das vítimas do cólera”.

Em nosso país há alguns registros relacionando espíritas e momentos de epidemias.

De início, destacamos um episódio interessante sobre Antonio Gonçalves da Silva, o Batuíra, o português que se fixou em São Paulo, transformando-se em grande exemplo espírita: “Eis alguns traços da personalidade de Batuíra pela pena do festejado escritor Afonso Schmidt: ‘Em 1873, por ocasião da terrível epidemia de varíola que assolou a capital da Província, ele serviu de médico, de enfermeiro, de pai para os flagelados, deu-lhes não apenas o remédio e os desvelos, mas também o pão, o teto e o agasalho.”2

No século XX a autêntica pandemia que assolou o mundo – a gripe espanhola -, provocou alguns fatos vinculados ao movimento espírita. Em artigo recente publicado na Revista internacional de espiritismo, David Liesenberg comenta sobre essa última pandemia, do ano de 1918. Cita registros do jornal O Clarim, como o aumento da demanda das receitas homeopáticas na sede da FEB, no Rio de Janeiro, e, as mudanças que Cairbar Schutel adotou no Centro Espírita Amantes da Pobreza, em Matão (SP). Para atender solicitações do Governo, as reuniões públicas domingueiras noturnas foram antecipadas para as 17 horas.3

A epidemia da gripe espanhola veio encontrar Eurípedes Barsanulfo em plenas atividades em Sacramento (MG), tomando providências para a provisão de medicamentos na sua farmácia. Familiares e colaboradores foram contaminados4 e ele prosseguia “à cabeceira dos seus enfermos, auxiliando centenas de famílias pobres”.5 E o pioneiro dedicado sucumbiu vitimado por essa epidemia e desencarnou aos 1o de novembro de 1918.

Depois desses registros históricos, passam por nossa memória as epidemias que acometiam as crianças, durante nossa infância, como a varíola e a poliomielite, pois a primeira vacina contra esta última – a Salk – somente surgiu em 1955 e logo depois a Sabin. Nossa família tomava cuidados extremos para evitar a contaminação. Certa feita, com um pequeno e passageiro sinal de dificuldade motora na perna levaram-nos às pressas para uma consulta com renomado especialista da capital paulista, concluindo-se que havia sido apenas decorrência de pequeno acidente. Tempos depois quando começaram a surgir casos em nossa cidade, chegaram a nos levar junto os pequeninos irmãos a uma cidade onde não havia o surto da chamada paralisia infantil. Dessa maneira, fomos convivendo com notícias próximas e distantes de várias situações que aterrorizavam as famílias.

Já atuando na docência odontológica e na especialidade de cirurgia bucal, em 1985 surgem as contaminações da AIDS, a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (HIV), e de início causando muitas dúvidas e pânicos. Como dever estudamos a nova enfermidade e passamos a adotar os cuidados e prevenções devidas ao profissional que realizava intervenções em pacientes. Como docente passamos a nos preocupar em orientar e divulgar as formas de prevenção e surgiram aulas, seminários, palestras, publicações e uma grande campanha regional de esclarecimento. Naquele contexto, estávamos elaborando juntamente com Divaldo Pereira Franco o livro Em louvor à vida, onde comentamos mensagens de autoria de nosso tio médico desencarnado Lourival Perri Chefaly.6 De maneira inédita para a época, o livro editado em 1987 trazia a psicografia “AIDS e profilaxia” e nossos comentários “Informações sobre a AIDS” e “A profilaxia com reformas espirituais”. Entre alguns registros gravados na época encontra-se disponível a nossa atuação em grande congresso espírita em São Paulo, no ano de 1991.7

Como sugestão à reflexão sobre as epidemias, consideramos válidas as recomendações do doutor Demeure acima transcritas1 e, por oportuno, reproduzimos trecho da mensagem do espírito Lourival Perri Chefaly:

“Pensar na saúde e fomentá-la através dos pensamentos otimistas é impositivo indispensável ao progresso e à paz. Saúde/doença – binômio do corpo e da mente – são conquistas do ser, que deve aprender a optar por aquela que melhor condiz com as aspirações evolutivas, desde que a harmonia ideal será alcançada através do respeito à primeira ou mediante a vigência da segunda”.6

Referências:

1) Kardec, Allan. Trad.Abreu Filho, Júlio. Revista espírita. O Espiritismo e o cólera. Novembro de 1865; Idem. Em benefício dos pobres de Lyon e das vítimas do cólera. Dezembro de 1865. Vol. VIII. São Paulo: EDICEL.

2) Oliva Filho, Apolo. A vida surpreendente de Batuíra. Página eletrônica: http://geb.org.br/quem-somos/historia/batuira (consulta em 04/07/2020).

3) Liesenberg, David. Epidemia e os sinais dos céus. Revista Internacional de espiritismo. Ano XCV. N.6. Julho de 2020. P.292-294.

4) Novelino, Corina. Eurípedes, o homem e a missão. Cap. O desenlace. Araras: IDE. 1979.

5) Ferreira, Inácio. Subsídio para história de Eurípedes Barsanulfo. Uberaba: do autor. 1962. P.112.

6) Franco, Divaldo Pereira; Carvalho, Antonio Cesar Perri. Pelo espírito Lourival Perri Chefaly. Em Louvor à vida. 1.ed. Cap. AIDS. Salvador: LEAL. 1987.

7) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Aids na visão Espírita. Página eletrônica: http://grupochicoxavier.com.br/historico-aids-na-visao-espirita/ (consulta em 04/07/2020).

(*) Foi dirigente espírita em Araçatuba, presidente da USE-SP e da FEB.

Lembranças das datas de Benedita e Chico Xavier

Lembranças das datas de Benedita e Chico Xavier

Antonio Cesar Perri de Carvalho

No dia 27 de junho transcorrem 137 anos de nascimento de Benedita Fernandes (1883-1947), pioneira da assistencial social espírita em Araçatuba e região.

Acometida da chamada “loucura”, perdeu contato com a família e vagou pelo Estado até chegar em Penápolis. Em função dos temores que ela provocava na população acharam prudente colocá-la numa cela da Cadeia Pública. Por coincidência o carcereiro era espírita e observou que ela seria portadora de uma cruel obsessão espiritual. O carcereiro Padial e o dirigente espírita João Marchezi se dispuseram a tratá-la espiritualmente e ela recobrou a consciência.

Em meados dos anos 1920 Benedita se estabeleceu em Araçatuba e começou a trabalhar como lavadeira no então Patrimônio de Dona Ida, atual bairro Santana. Grata pela cura obtida resolveu se dedicar com as companheiras lavadeiras a atender crianças abandonadas e aqueles que eram rotulados de “loucos”. A todos atendia com carinho e autoridade e, como médium, conseguia equilibrá-los. Aos 06/03/1932 ela fundou a Associação das Senhoras Cristãs. Dessa Associação, contando com o apoio dos espíritas, maçons, autoridades e população em geral, surgiram várias obras assistenciais e principalmente o Sanatório, depois conhecido como Hospital Psiquiátrico Benedita Fernandes.

Benedita tornou-se um ícone, como pioneira da assistencial social espírita e merecendo o respeito da comunidade. Era muito prestativa, atendendo as pessoas com a aplicação do chamado passe. Nessa condição certa feita foi levada à residência de uma bisavó nossa, atendendo-a e suscitando respeito e admiração em nossa família.

Em função de mudanças na política governamental de saúde mental, o Hospital foi encerrado e substituído pelos CAPS, sendo que o Centro de Apoio Psicossocial, com o nome dela e contando com o apoio de voluntários vinculados à Associação das Senhoras Cristãs Benedita Fernandes. Com Contratos de Gestão com a Prefeitura Municipal de Araçatuba surgiram: CAPS I – Centro de Atenção Psicossocial Infantil, CAPS III – Centro de Atenção Psicossocial Adulto e duas Residências Terapêuticas.

No final de 2020, será lançado o filme “Benedita: uma heroína invisível. O legado da superação”, com roteiro e direção de Sirlei Nogueira (de Araçatuba, SP); co-produção: Lalucci Filme e Cocriação Editora; direção de produção Samuel Lalucci. O filme se baseia nosso livro Benedita Fernandes. A dama da caridade (Ed.Cocriação/USE Regional de Araçatuba). Conta com um clipe especial, com música tema de Paula Zampp e maestro Mário Henrique; intérpretes Paula Zampp e Gabriel Rocha. Atua como atriz principal Sílvia Tiodoro, que interpreta Benedita. Há entrevistas e depoimentos de várias pessoas, inclusive conosco como autor do livro.

No dia 30 de junho completa-se 18 anos da desencarnação de Chico Xavier (1910-2002). Com uma longa vida dedicada ao próximo e intermediário de centenas de espíritos, tornou-se o principal médium da história do Espiritismo.

Mais de quatro centenas de livros psicográficos em vários estilos. Podemos destacar: os romances históricos, comentários doutrinários, sobre as obras de Kardec, descrições sobre o mundo espiritual, comentários sobre o Novo Testamento, crônicas, poesias e as famosas cartas familiares. As obras de Chico Xavier ensejaram a elaboração de peças teatrais, filmes, documentários e pesquisas. Inúmeras entrevistas estão disponíveis em textos e gravações.

O exemplo de vida e suas obras mediúnicas representaram um autêntico “divisor de águas” no movimento espírita brasileiro e Chico Xavier passou a ser uma referência para o povo brasileiro. Ao longo de duas décadas nós tivemos o privilégio de visitá-lo e de acompanhar suas atividades na Comunhão Espírita Cristã e no Grupo Espírita da Prece. Sempre atencioso conosco e familiares, entre outros comentários, com constância fazia referência ao espírito Benedita Fernandes.

Aliás, uma mensagem que muito nos marcou na nossa juventude, foi a de autoria do espírito Hilário Silva intitulada “Num domingo de calor”. Eis uns trechos:

"Benedita Fernandes, abnegada fundadora da Associação das Senhoras Espíritas Cristãs, de Araçatuba, no Estado de São Paulo, foi convidada para uma reunião de damas consagradas à caridade, para exame de vários problemas ligados a obras de assistência. E porque se dedicava, particularmente, aos obsidiados e doentes mentais, não pode esquivar-se. […] Entretanto, a presença da conhecida missionária causava espécie. O domingo era de imenso calor e Benedita ostentava compacto mantô de lã, apenas compreensível em tempo de frio. Benedita Fernandes, embora constrangida, obedeceu com humildade e só aí as damas presentes puderam ver que a mulher admirável, que sustentava em Araçatuba dezenas de enfermos, com o suor do próprio rosto, envergava singelo vestido de chitão com remendos enormes.” (Psicografia pelo médium Francisco Cândido Xavier, em reunião da noite de 27/7/1963).

Fontes:

- Carvalho, Antonio Cesar. Benedita Fernandes. A dama da caridade. Araçatuba: Ed.Cocriação/USE Regional de Araçatuba. 2017.

- Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier. O homem, a obra e as repercussões. 1.ed. Capivari: EME; São Paulo: USE-SP. 2019. 224p.

(Foi dirigente espírita em Araçatuba, presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e da Federação Espírita Brasileira).

O impacto emocional no fechamento das casas espíritas

Matéria para reflexão e estudo:

Entrevista

O impacto emocional no fechamento das casas espíritas

Eliana Haddad

Atuando como diretor do Departamento de Atendimento Espiritual no Centro Espírita, da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, o psicólogo Fernando Porto analisa este momento desafiador da história da humanidade. Ele destaca a importância da atenção dos dirigentes e lideranças espíritas sobre os impactos que sofrerão a participação e frequência nas casas espíritas e fala sobre as mudanças dos hábitos e os problemas emocionais e espirituais ocasionados pela crise. Acompanhe a entrevista.

1 – Como você analisa essa experiência do fechamento dos centros espíritas?

Fernando – Essa questão nos permite uma inadiável reflexão sobre o verdadeiro papel do centro espírita perante a sua comunidade e a sociedade. O saudoso filósofo Herculano Pires já havia nos alertado que “se os espíritas soubessem o que é o centro espírita, quais são realmente a sua função e a sua significação, o espiritismo seria hoje o mais importante movimento cultural e espiritual da Terra”. A convivência autêntica se estabelece pela comunhão de pensamentos guiados a um propósito comum. A quantidade de pessoas não garante conexão com a espiritualidade superior, mas a ‘afinidade e sintonia’ no verdadeiro bem. Será que nós temos valorizado e aproveitado nosso tempo de convivência no centro espírita, ou buscado frequentá-lo apenas em benefício próprio? Ele tem sido um espaço para estudo e reforma íntima ou para uma atitude passiva, conforme hábitos religiosos antigos? Em relação ao fechamento das instituições, é preciso considerar a necessidade de respeitar as autoridades sanitárias perante a pandemia, e considerar a situação de cada região, para que não nos tornemos agentes de perturbação.

2 – Muitas atividades realizadas antes presencialmente estão sendo substituídas por lives, estudos online, encontros virtuais. Isso é bom ou ruim para nossa evolução?

Fernando – O benfeitor Emmanuel na obra Paulo e Estevão nos ensina que “o valor da tarefa não está na presença pessoal do missionário, mas no conteúdo espiritual do seu verbo, da sua exemplificação e da sua vida”. Assim como o ‘pastor conhece suas ovelhas’, o dirigente espírita precisa estar conectado às necessidades do público frequentador do centro espírita e, se os dispositivos tecnológicos são as ferramentas disponíveis no momento, cabe aos responsáveis se inteirarem de seu funcionamento e disponibilizarem alternativas para o público espírita. Nem a tecnologia ou a atividade presencial são os fatores determinantes para nossa evolução. Se não houver a internalização dos princípios espíritas e a sua aplicação na vida prática, de nada adianta o uso da tecnologia mais avançada disponível, pois esta apenas representa um recurso ou instrumento, dependendo a nossa evolução do seu bom uso ou não.

3 – O que traz mais danos emocionais? Este isolamento ou vivermos afastados de nós mesmos, voltados mais para os aspectos exteriores da vida?

Fernando – Existem duas atitudes possíveis por parte do ser humano diante do sofrimento. Enquanto uma parte das pessoas aproveitará a situação de isolamento social para uma reflexão sobre seu estilo de vida, suas prioridades e seus relacionamentos, outros, por já carregarem em seu íntimo conflitos e transtornos psicológicos, se encontrarão em uma condição de maior vulnerabilidade. Há uma crescente preocupação que fatores como decréscimo do poder aquisitivo, isolamento social, as restrições no acesso aos tratamentos de transtornos mentais e suporte religioso agravem os índices de depressão e suicídio. É difícil prever qual realidade encontraremos no pós-pandemia. Em um cenário otimista, as pessoas terão se adaptado a um novo modo de vida, no qual a realidade virtual suprirá as necessidades mais imediatas; no cenário pessimista, haverá um comprometimento físico e mental em parte da população, e precisaremos estar preparados para o acolhimento fraterno dos nossos irmãos mais necessitados de auxílio. A fé no futuro e a confiança em Deus são condições indispensáveis, em quaisquer circunstâncias para a superação desses transtornos.

4 – Como o centro espírita influencia no equilíbrio emocional de seus frequentadores e trabalhadores?

Fernando – Chegará um dia em que reconheceremos em toda a parte a presença de Deus. Que não se atribua ao dirigente espírita ou ao médium, pessoas falíveis, aquilo que nos compete realizar, afinal o reino dos céus nasce de fato nos corações. O centro espírita tem por missão atender à necessidade geral dos indivíduos, particularmente aos espíritos combalidos pelas angústias do mundo, aos pobres em espírito destituídos do esclarecimento superior e ainda aos necessitados do pão material e espiritual. E é para esses que ele se faz mais necessário.

5 – O afastamento temporário das casas espíritas nos faz pensar o quanto podemos desenvolver relações de dependência emocional com elas. Como podemos avaliar isso?

Fernando – O papel essencial do centro espírita deveria ser o de preparar os espíritas para não dependerem dele. Em outras palavras, em vez de simplesmente enxugarmos as lágrimas, precisamos ensinar o nosso semelhante a sorrir, reconhecer-se como ser imortal, estimular o desenvolvimento de suas potencialidades. A instituição espírita, como qualquer outra, é um meio e não um fim em si mesma.

6 – Você acha que podemos acabar enxergando como desnecessárias as atividades presenciais do centro espírita?

Fernando – O homem é um ser social e tem necessidade de afeto, de demonstrá-lo por meio de gestos e de receber o calor humano da mesma forma. O centro espírita não somente é a nossa escola e oficina de trabalho, como é um espaço que oferece uma atmosfera espiritual saneada para a realização de determinadas atividades específicas. Lembremos da reunião mediúnica na assistência aos desencarnados, das crianças ávidas de afeto e educação, dos idosos reféns da própria solidão, das pessoas que estão em desespero, ou em busca de um lugar onde encontrem paz, pois vivem o conflito constante em seus lares. Alguns podem até pensar que o centro espírita é totalmente desnecessário, pelo menos até o momento em que os problemas baterem em sua porta.

7 – Em sua opinião o que deveriam fazer os dirigentes espíritas ao retornarem as atividades do centro espírita?

Fernando – Deveríamos inicialmente refletir se é conveniente abrir de imediato, mesmo com a autorização das autoridades e pensar de que modo isso será feito e em quais condições as atividades serão desenvolvidas e as novas ações a serem implementadas. Há um ponto essencial a ser debatido no movimento espírita, um aspecto ‘positivo’ da crise que vivemos. Os objetivos principais do espiritismo são o combate à incredulidade e ao fanatismo, a superação das chagas humanas, o egoísmo e o orgulho. Será que o modelo atual vigente, baseado no método catequético no qual o frequentador é colocado em uma postura passiva e cômoda tem nos levado aos resultados que buscamos? Logo, o tempo de que dispomos para a convivência no centro espírita precisa ser suficientemente significativo, marcante e enriquecedor, fundado em relações autênticas, no estudo e na prática legitimamente espíritas. O nosso compromisso exige de nós ir ao encontro do sofrimento do outro, praticar a caridade, estimular os jovens para que se envolvam com centro espírita, compartilhando responsabilidades. A sabedoria diz que não se aplicam velhas soluções para problemas novos. Em outras palavras, o centro espírita necessita se transformar em ‘universidade do espírito’ para formar o cidadão do futuro sintonizado com a regeneração a ser instaurada no mundo.

8 – Sendo a religiosidade uma das caraterísticas do ser humano, você acredita que estamos passando por alguma mudança nessa relação de transcendência?

Fernando – Para que a religiosidade caminhe na direção da verdadeira espiritualidade, é fundamental a mudança de paradigma em relação à nossa compreensão sobre religião, entendendo-a como moralidade e comunhão de pensamentos, sem submissão aos aspectos exteriores. A religiosidade se baseia essencialmente no serviço ao próximo e na consciência reta do dever cumprido. Portanto, para que haja a mudança nessa relação de transcendência, precisamos abrir nossos corações para o amor, estabelecermos uma conexão autêntica com o Criador e nos tornarmos instrumentos de sua vontade pelo bem de todos. Somente assim se cumprirá a promessa do Cristo de que “haverá um só rebanho e um só pastor”.

9 – Quais os nossos maiores desafios emocionais e espirituais no momento?

Fernando – Quando as emoções se desestruturam, ocorrem as ‘perturbações neuróticas’, base de muitos transtornos mentais. As emoções negativas se ‘apoderam’ de nós de uma maneira involuntária. Infelizmente, a maioria das pessoas tem uma falsa impressão de que somos vítimas e não temos responsabilidade alguma sobre o processo. Acreditamos que a culpa pelo que sentimos se deve a fatores externos, aos acontecimentos da vida, ou aos atos e palavras das outras pessoas com as quais convivemos. Por outro lado, em um outro extremo, há aqueles que se culpabilizam e se martirizam, em um processo autodestrutivo, pelos acontecimentos considerados ‘negativos’, segundo seus pontos de vista. O primeiro cuidado a ser tomado é aprender a se responsabilizar pelos próprios sentimentos, combater a rebeldia que nos impede de aceitar a ordem natural das coisas. Faz-se necessário a autoaceitação, porque podemos estabelecer 7 exigências excessivas além da nossa capacidade. O autoconhecimento é o nosso maior desafio, pois ele possibilita a compreensão da exata dimensão de nossos compromissos, da nossa missão aqui na Terra. E, a partir de então, adotar a postura do equilíbrio, na emotividade e no pensamento, na palavra e na ação. Eduquemos nossa vida mental, evitando os fatores causadores de desequilíbrio e buscando a sustentação na meditação, na oração, na leitura edificante e, principalmente, cultivando pensamentos positivos e sentimentos elevados para obtenção de uma saúde mais plena e duradoura.

10 – O que diria para os que estão aflitos, querendo voltar à rotina das palestras, passes e estudos nos centros espíritas?

Fernando – É preciso que sobesem os prós e contras, tenham consciência dos riscos, procurem se informar em fontes fidedignas e sigam os procedimentos de segurança indicados. Pensamos que, se o frequentador pertencer aos grupos de risco, ele deve evitar se expor de modo desnecessário. Quanto aos demais, caso se sintam equilibrados, ponderem a pertinência ou não da participação presencial. O espiritismo é uma doutrina que promove a autonomia, a autoconsciência e a responsabilidade dos atos de cada um a partir de sua livre escolha.

Texto publicado no jornal Correio Fraterno – edição 493 – maio/junho 2020 – p 4 e 5.