Após 50 anos da ‘vida triunfante’ de Lourival Perri Chefaly

Após 50 anos da ‘vida triunfante’ de Lourival Perri Chefaly

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Dia 20 de fevereiro assinala os 50 anos (1976) da desencarnação de Lourival Perri Chefaly, na cidade do Rio de Janeiro.

Quando preparei a primeira redação do livro Em louvor à vida1, onde o tio Lourival foi o foco, comentei pessoalmente com Chico Xavier sobre o texto, em 1980. Ele se interessou e comentou: “Seu tio foi um grande inspirado… Foi uma vida gloriosa! Mas esse termo anda desgastado… Foi uma vida triunfante!”1

Conhecido pelo diminutivo Lolo, nasceu aos 06/08/1927 em São Carlos, filho de Antonieta Perri e de Diogo Cefaly, mas foi criado pelos tios avós Tida e Ernesto Perri vivendo em Porto Alegre, São Paulo e, em definitivo no Rio de Janeiro, onde trabalhou como médico. Casou-se em 1955 com a prima Suzi (Suzette). O casal teve quatro filhos, três netos e alguns bisnetos.

Como médico atuou plantonista do antigo SAMDU, em atendimentos familiares e passou por etapas como pediatra, cardiologista e finalmente cancerologista. Sempre manteve clínica particular e foi médico do Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro. Teve intensa atuação na Campanha Nacional de Combate ao Câncer e foi presidente do Centro de Estudos do Instituto Nacional de Câncer. Como membro do Lyons Club-Gávea, fazia palestras educativas sobre saúde.

Atuou intensamente na Igreja Episcopal (Anglicana) de Botafogo. Ao ser acometido da enfermidade que era o foco de suas atividades profissionais recebeu de seu irmão Rolandinho O livro dos espíritos e O evangelho segundo o espiritismo e pouco tempo depois escreveu-lhe informando que estava convencido do conteúdo.

Como espírita, juntamente com a esposa, colaborou com a Seara dos Servos de Deus, no bairro Botafogo, que era dirigida pela médium Dolores Bacelar que inclusive, recebia mensagens de Benedita Fernandes.

Na época colocamos nosso tio em contato com Divaldo Pereira Franco e estiveram juntos em atividades do orador no Rio de Janeiro e em Araçatuba.

Em viagem que o levamos a Uberaba, em atividades e residência de Chico Xavier, foi alvo de muita atenção por parte do médium, e depois de lembranças em todas as vezes que retornávamos à cidade. No final de 1974, estando adoentado em seu apartamento no Rio de Janeiro, surpreendentemente recebeu a visita de Chico Xavier, estando presentes os irmãos Bebé, Rolandinho e Walter.

Lutou durante 10 anos contra insidiosa enfermidade, demonstrando fé e serenidade. Ficamos muito sensibilizados com a doença e até acompanhamos os tios Lolo e Suzy durante um longo período de tratamento cirúrgico realizado em Manchester (Inglaterra), em 1971.

Desde a infância sentíamos uma grande afinidade com o tio e claramente aurimos suas influências benfazejas, visitando-o com constância ao longo dos anos e rotineiramente passando as férias em suas residências no Rio de Janeiro e no Rio das Ostras.

Muitas vezes acompanhávamos as tarefas de nosso tio como médico, em hospitais, no seu consultório particular, em palestras que proferia, em congressos médicos, e em cultos na Igreja Episcopal de Botafogo. Certa feita, o acompanhamos juntamente com o reverendo Kurt Kleeman em visita a um núcleo dessa Igreja na favela de Dona Marta.

O casal manteve intercâmbio e receberam apoio de muitos dirigentes e médiuns do Rio de Janeiro.

Seu nome designa a Sala de Leitura e o Centro de Estudos do Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro, com inauguração realizada em 2013.

Em função da admiração e gratidão pelo tio organizamos o livro Em louvor à vida1 contendo textos dele como encarnado e como desencarnado, estas pela psicografia de Divaldo Pereira Franco. Também temos uma orientação dele, a nós dirigida, psicografada por Chico Xavier.

Em obras recentes, incluímos comentários e análises sobre nossa relação com o tio e suas mensagens espirituais.2,3

Referências:

1) Franco, Divaldo Pereira; Chefaly, Lourival Perri; Carvalho, Antonio Cesar Perri. Em louvor à vida. 2.ed. Salvador: LEAL. 2016.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Pelos caminhos da vida. Memórias e reflexões. Cap. 1.10. Araçatuba: Cocriação. 2021.

3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Entre vidas. Cá e lá. Matão: O Clarim. 2026.

As diversas expansões de alegria e o carnaval

As diversas expansões de alegria e o carnaval

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Em várias partes do mundo e em todas as épocas sempre aconteceram festejos populares e em vários diapasões e motivações: religiosos, políticos, militares, cívicos, datas memoráveis, comemorações de feitos marcantes e várias formas no estilo de carnaval.

No Brasil, as manifestações de carnaval tiveram um intenso desenrolar envolvendo clubes, salões aristocráticos, desfiles de rua – os antigos “corsos” como eram chamados -, blocos de ruas e shows variados. Músicas que se tornaram históricas.

Inquestionavelmente são dos poucos momentos de afrouxamentos de tensões e expressões de alegria do povo em geral.

Nesse ponto – da alegria – é que se pode refletir.

A alegria pode ser natural ou induzida por vários procedimentos.

É lamentável que nessas comemorações ocorram condições que facilitam várias formas de excesso. A mídia em geral alerta sobre contextos que favorecem diversos tipos de desrespeito ao próximo. Criam-se ambientes e formas oportunistas de se romper limites interpessoais e de aceitável convivência social. Em consequência podem advir algumas repercussões não adequadas à saúde, à economia pessoal e várias formas que podem interferir nas relações equilibradas.

No movimento espírita, em décadas passadas houve momentos em que os feriados prolongados eram aproveitados para eventos reflexivos, de estudo e de confraternização.

Houve época que um texto do espírito André Luiz com afirmações que eram sempre lembradas: “O espírita não se prende a exterioridades. […] Afastar-se de festas lamentáveis, como aquelas que assinalam a passagem do carnaval, inclusive as que se destaquem pelos excessos de gula, desregramento ou manifestações exteriores espetaculares. A verdadeira alegria não foge da temperança” (Vieira, Waldo. Pelo espírito André Luiz. Conduta espírita, cap. 37. FEB. 1960).

Com certeza, na atualidade, podem surgir opiniões críticas, resistentes a esse registro espiritual, e, utilizando várias adjetivações e jargões vinculadas a determinadas compreensões relacionadas com alguns conceitos de “liberdade”.

Sem dúvida, a liberdade individual termina quando se delineia a do próximo.

E isso nas relações entre os espíritos encarnados e os desencarnados. Aí emerge uma antiga frase popular: “diga-me com quem andas e direi quem és”.

Essa ideia tem fundamento em dizeres de Jesus e nos esclarecimentos espíritas sobre a sintonia vibratória, parâmetros válidos para qualquer ambiente.(*)

Cada pessoa, empregando o livre-arbítrio, é responsável por seus atos e repercussões.(*) São anotações que podem sugerir algumas reflexões na ótica espiritual.

Todavia, sem dúvida, como considerou André Luiz: “A verdadeira alegria não foge da temperança”…

Ponderação válida para qualquer ocasião da vida.

(*) Sugestões para leituras e estudos:

1) Kardec, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Cap. VIII. FEB;

2) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Caminho, verdade e vida. Cap. 93. FEB;

3) Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito André Luiz. No mundo maior. Cap. A casa mental. FEB.

4) Franco, Divaldo Pereira. Pelo espírito Manoel Philomeno de Miranda. Sexo e obsessão. Posfácio – Cidade estranha. FEB;

5) Xavier, Francisco Cândido; Vieira, Waldo. Pelo espírito André Luiz. Sexo e destino. 1ª parte: Cap. 8 e 12. FEB.

A SACRALIZAÇÃO DOS CARGOS

A SACRALIZAÇÃO DOS CARGOS

Artigo de Jorge Hessen (DF): "A SACRALIZAÇÃO DOS CARGOS DO “ÓRGÃO MÁXIMO” DO MOVIMENTO ESPÍRITA BRASILEIRO"

O Espiritismo nasceu como projeto de emancipação moral e intelectual. Allan Kardec estruturou a doutrina sobre bases de liberdade de exame, controle racional e participação fraterna.

Nada mais distante desse ideal do que o cenário atual, em que parcelas do movimento espírita passaram a tratar dirigentes de órgãos federativos como se fossem autoridades sagradas, intocáveis e — pior — vitalícias. Forma-se uma casta administrativa que, em nome da “tradição”, converte serviço em poder.

Kardec advertiu com clareza que a doutrina não comportaria chefes permanentes e infalíveis: “o Espiritismo não terá pontífices; sua autoridade será a da razão e do controle universal” (1).

Em O Livro dos Médiuns o Codificador reforça que toda instituição espírita deve submeter-se ao crivo do bom senso e à rotatividade natural das funções (2).

No entanto, multiplicam-se diretorias que atravessam décadas, estatutos moldados para reconduções sucessivas e um vocabulário eclesiástico incompatível com a proposta kardeciana. O cargo, que deveria ser encargo transitório, converte-se em título honorífico.

Essa sacralização produz efeitos corrosivos.

O primeiro é o culto à personalidade. Médiuns e diretores passam a ser vistos como “eleitos da espiritualidade”, quando a doutrina ensina que mediunidade é prova e serviço, não certificado de elevação. Emmanuel recorda que “na obra cristã não há lugar para dominadores; somos todos servos imperfeitos em aprendizado” (3). Apesar disso, questionar decisões administrativas tornou-se quase heresia, e a crítica fraterna é confundida com perturbação espiritual.

O segundo efeito é o imobilismo doutrinário. Instituições capturadas por grupos perenes temem a renovação e repelem os mais jovens pensantes. Léon Denis já alertava que “toda ideia que se cristaliza em mãos de homens transforma-se em dogma morto” (4). Quando o movimento prefere preservar cadeiras a formar consciências, deixa de ser escola de almas para tornar-se cartório clerical.

O terceiro dano é o desvio metodológico. O Espiritismo avançou graças ao método kardequiano de comparação, debate e universalidade do ensino dos Espíritos. Substituí-lo por decisões de gabinete federativo é negar a própria gênese da doutrina. Kardec foi categórico: “melhor rejeitar dez verdades que aceitar uma mentira” (5). Hoje, porém, muitas deliberações federativas são acolhidas sem exame, apenas pelo peso do timbre institucional. Não se trata de negar a relativa importância da organização, mas de recordar que autoridade moral não nasce de eleição nem de carimbo. Emmanuel observa que “o poder que não serve converte-se em sombra para quem o detém” (6).

A instituição espírita deveria ser oficina de trabalho anônimo e não palanque de biografias. Urge resgatar medidas simples e kardecianas: urgente limitação de mandatos, prestação pública de contas, participação efetiva das bases, estudo rigoroso das obras fundamentais e separação entre gestão administrativa e direção doutrinária. Sem isso, continuaremos assistindo à metamorfose do movimento em vaticanismos inócuos com “igreja burocrática”, lotados de “bispos leigos” e carreiras “eclesiais”.

O maior inimigo do Espiritismo sempre foi o mesmo: orgulho e desejo de mando. Denis preveniu que “a verdade se obscurece quando os homens pretendem administrá-la como propriedade” (7).

Permaneceremos fiéis a Kardec apenas quando nenhum trabalhador se julgar dono da obra — e quando todo cargo voltar a ser o que nunca deveria ter deixado de ser: simples oportunidade de servir.

Referências Bibliográficas:

1 KARDEC, Allan. Revista Espírita. Paris: 1864.

2 KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Paris: 1861. 3 .

XAVIER, Francisco C.; EMMANUEL. Fonte Viva. Rio de Janeiro: FEB, 1956.

4 DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Paris: 1919.

5 KARDEC, Allan. A Gênese. Paris: 1868

6 XAVIER, Francisco C.; EMMANUEL. Pão Nosso. Rio de Janeiro: FEB, 1950.

7 DENIS, Léon. Depois da Morte. Paris: 1905.

DE (copie e cole): https://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com/2026/02/a-sacralizacao-dos-cargos-do-orgao.html?m=1

São Paulo: 472 anos e homenagens ao Apóstolo

São Paulo: 472 anos e homenagens ao Apóstolo

Antonio Cesar Perri de Carvalho 

Neste ano completou-se 472 anos da fundação da cidade de São Paulo.

Fundada no dia 25 de janeiro de 1554, pelo padre Manuel da Nóbrega. Este veio à então Colônia de Portugal acompanhando o primeiro governador Tomé de Souza, designado pelo rei Dom João III e com a missão específica de instalar o processo educacional no Brasil. Foi autor do primeiro livro escrito no país: “Cartas do Brasil”. Nóbrega (1517-1570) era bacharel em filosofia e direito canônico pelas Universidades de Salamanca e de Coimbra, antes de ingressar no jesuitismo.

O marco inicial da cidade foi o Colégio São Paulo, onde atualmente se localiza o Pátio do Colégio, no centro antigo da cidade, e funciona um museu alusivo à fundação da cidade e homenageando Manuel da Nóbrega e seu noviço José de Anchieta, considerados os dois primeiros evangelizadores do país. Em registros históricos de conhecimento público sabe-se que Nóbrega, que atuava em São Vicente, subiu ao Planalto de Piratininga e resolveu fundar uma escola, escolhendo o dia 25 de janeiro, que era a data comemorativa da conversão do apóstolo Paulo.

Assim, surgiu a cidade de São Paulo, significativamente a partir de uma escola e homenageando a apóstolo da gentilidade.

Esse episódio histórico foi evocado por Chico Xavier durante o 2o Pinga-Fogo, a longa entrevista na TV Tupi de São Paulo em dezembro de 1971, ao comentar que Manuel da Nóbrega foi uma das reencarnações do espírito Emmanuel. O médium também comentou que o espírito Paulo de Tarso esteve presente em missa realizada na região pelo padre Manoel de Paiva. Chico fez estas referências na cerimônia pública e televisada ao vivo da Câmara Municipal de São Paulo, no dia 19/5/1973, quando recebeu o título de “Cidadão Paulistano”.[1,2]

Mas essa revelação já havia sido feita por Chico Xavier e foi registrada em livro de Clóvis Tavares – amigo de Chico Xavier – e publicado com apoio deste enquanto encarnado: “Amor e Sabedoria de Emmanuel”, lançado em 1970 pela Editora Calvário e atualmente editado pelo IDE. [3]

O filósofo espírita paulista Herculano Pires comentou a missão de Nóbrega junto aos indígenas e aos portugueses que aqui vieram, e estabeleceu a relação entre Paulo e Nóbrega: “Dura foi a luta pela conversão do gentio. […] Paulo exerceu o apostolado dos gentios para o Cristianismo. Nóbrega foi o Apóstolo dos Gentios no Brasil nascente, preparando o terreno para o seu apostolado espírita do futuro.” [4]

Nóbrega era admirador de Paulo de Tarso. Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier elaborou o monumental romance histórico “Paulo e Estêvão” e analisou versículos das epístolas de Paulo em diversas obras. As relações entre o espírito Emmanuel e Paulo de Tarso comentamos em livros de nossa autoria, sobre as epístolas de Paulo, Chico Xavier e Emmanuel. [1,2,5]

O fundador Manuel da Nóbrega é homenageado não apenas no Pátio do Colégio, mas também em dois marcos e rua da cidade de São Paulo, como no Monumento à Fundação de São Paulo localizado em uma pequena praça da Rua Manoel da Nóbrega, bem próximo ao Parque do Ibirapuera, e uma rodovia no litoral paulista. Há um monumento em homenagem a Paulo de Tarso na Praça da Sé, próximo ao “marco zero”, aliás, o vulto segurando um pergaminho com a frase: “Senhor, que queres que eu faça”. Por ocasião do 4o Centenário de São Paulo, em 1954, foi divulgado cartaz evocando seu fundador.

O nome do Apóstolo designa a maior cidade do país e do Hemisfério Sul e o Estado!

A cidade do trabalho, de oportunidades, estudo, pesquisa, cultura, multiculturalidade, diversidade e do progresso – “a que nunca para” – há 472 anos homenageia o apóstolo Paulo!

Referências:

1. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Epístolas de Paulo à luz do Espiritismo. Matão: O Clarim. 2016.

2. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Chico Xavier – o homem, a obra e as repercussões. Capivari: EME. 2019.

3. Tavares, Clóvis. Amor e sabedoria de Emmanuel. São Paulo: Ed. Calvário. 1970.

4. Xavier, Francisco Cândido; Pires, José Herculano; Espíritos diversos. Diálogo dos vivos. Cap.23. São Bernardo do Campo: GEEM. 1974.

5. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Emmanuel. Trajetória espiritual e atuação com Chico Xavier. Matão: O Clarim. 2020.

Publicado no dia 25/01/2026 em: https://www.facebook.com/cesar.perridecarvalho/ 

O lado sombrio dos que buscam a luz no meio espírita

O lado sombrio dos que buscam a luz no meio espírita

Vladimir Alexei

Para todo argumento que evidencia as idiossincrasias do movimento de divulgação espírita, surge um contra-argumento — na maioria das vezes religioso e, em tantas outras, sem base alguma.

A internet abriu um leque infinito de oportunidades para a divulgação doutrinária. É possível, inclusive, que os meios convencionais, como cursos e encontros presenciais, passem a ter sua eficácia questionada. Contudo, essa liberdade trouxe excessos. Existem canais cujo conteúdo resume-se a apontar erros alheios, focando especialmente em divulgadores que geram mais "ibope" (likes).

É uma posição tentadora: do conforto do lar, com tempo para editar e confrontar o conteúdo criticado com as obras de Kardec, o crítico passa para os incautos a imagem de um baluarte da doutrina. Mas restaria saber: diante de uma plateia real, entre encarnados e desencarnados, esse crítico manteria a mesma habilidade ou estaria livre de erros? O problema é que tais canais pouco contribuem, pois apenas escancaram interpretações subjetivas e pessoais. Tentar mudar palestrantes e blogueiros é um erro quase doutrinário; eles já são conhecidos pelo que entregam.

No outro extremo, vemos casas espíritas geridas com "mão de ferro", onde toda decisão — da reforma do telhado à nova tarefa — é pautada em "orientações dos Espíritos". Embora digam que a decisão final é dos encarnados, criam um ambiente de insegurança onde todos aguardam sinais místicos para agir. Há casos de interpretação de sonhos que fariam Freud rolar no mundo espiritual. Questiona-se: o propósito nobre de construir ou ampliar justifica essa dependência mediúnica para questões administrativas? Recentemente, entre 2025 e 2026, acompanhamos polêmicas sobre a mediunidade.

É curioso notar: a maioria dos que ditam regras sobre o tema não são médiuns, não estudaram a fundo ou sequer leram O Livro dos Médiuns. Por outro lado, há quem conheça a letra da obra, mas não consegue acrescentar em vivência, porque como indivíduos conhecem, mas como membros de um time, se perdem.

O ponto central é o excesso.

A divulgação do Espiritismo, para muitos, tornou-se uma profissão: coaches financeiros, médiuns cobrando por "cartas do além", palestrantes que misturam o Evangelho com autopromoção profissional e o uso persistente dos Espíritos para validar agendas políticas.

Como dizem os especialistas: todo excesso esconde uma falta. Há uma inversão clara de valores. A ordem natural deveria ser: aprender (como fez Ernesto Bozzano), internalizar, transformar informação em conhecimento e, só então, divulgar. Como diria a máxima: "Pregue o Evangelho; se for preciso, use palavras". Infelizmente, vemos a era do "espírita polímata". Autoproclamar-se ou aceitar tal título — ostentado por gênios como Da Vinci ou Santos Dumont — revela uma falta de autocensura e de humildade.

Onde vamos parar? Médiuns cobrando por consolo e divulgadores em pedestais de vaidade combinam com o que o Espiritismo ensina?

A "Luz" tem sido ofuscada pela névoa densa da ignorância e do personalismo. Não se trata de julgar a moral alheia, mas de um pedido de atenção. Precisamos rever o planejamento de nossas casas e programas de estudo. Falta humildade. Nem tudo o que é "bem produzido" é feito na luz; muitas vezes, é apenas a sombra do orgulho projetada por quem busca os holofotes, mas esqueceu-se da transformação interior.

O movimento espírita não ficou "bagunçado" após a pandemia; ele enfrenta desafios de sustentabilidade desde que saiu das mãos de Kardec. Frequentemente criticado por suas origens nas elites francesas, o Espiritismo sobreviveu graças ao prestígio de quem o abraçou, mas hoje o cenário é outro.

O meio está repleto de intelectuais que estudam a fisiologia da glândula pineal, mas ignoram o aspecto moral da doutrina, tratando-o como algo de foro íntimo e interpretativo. A conta chegará para todos nós que batemos no peito dizendo-nos espíritas, mas que praticamos a doutrina mais para os outros do que para o nosso próprio aperfeiçoamento.

Divulgar o Espiritismo sem iluminar a própria sombra é carregar o peso de respostas que não se vivem. Ninguém é missionário sozinho. Trabalhar em conjunto não é buscar consenso absoluto, mas unir diferentes aptidões para, coletivamente, travar o "bom combate".

(Transcrição de matéria divulgada pelo articulista em redes sociais, em 18/01/2026, reside e atua em Belo Horizonte, MG)

O surpreendente Léon Denis

O surpreendente Léon Denis

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Janeiro assinala, entre outras efemérides, a data de nascimento de Léon Denis, dia 1o/01/1846 em Tours, e que teve uma longa e muita ativa existência corpórea até 1927.

Denis é o grande vulto do movimento espírita, autêntico continuador de Allan Kardec e consolidador do espiritismo na França. Suas ações, palestras e livros produziram influências e repercussões marcantes no seu país natal e em vários outros, como no Brasil. Autor de marcantes obras, entre outras. como: O problema do ser, do destino e da dor, No invisível, Cristianismo e espiritismo, Depois da morte.

Neste mês de janeiro de 2026, surgem citações e artigos interessantes que realçam alguns aspectos surpreendentes da personalidade de Denis.

Recebemos de um amigo, a solicitação de confirmação de um texto que seria de Denis. Contando com o apoio de Charles Kempf (Federação Espírita Francesa e Le Mouvement Spirite Francophone), esclarece-se que a frase não aparece em livros de Denis. Mas são trechos do discurso pronunciado por Léon Denis no Congresso Espírita e Espiritualista de Paris na sessão de 11 de setembro de 1889.

No referido Congresso, Denis responde ao Sr. Fauvety, após comentar o propósito de Allan Kardec de valorizar o cristianismo primitivo: “[…] ele lutou com lógica rigorosa contra tudo o que constitui o catolicismo moderno. […] “Não vos viemos dizer que devamos ficar confinados ao círculo, por mais vasto que seja, do Espiritismo kardequiano. Não; o próprio mestre vos convida a avançar nas vias novas, a alargar a sua obra”. Destaca princípios espíritas e afirma: […] nestas condições, estendemos as mãos a todos os inovadores, a todos os de boa vontade, a todos os que têm no coração o amor da Humanidade.”1

Charles Kempf lembra observações do Eduardo Carvalho Monteiro (1950-2005), de São Paulo, pesquisador do espiritismo e da maçonaria, que Charles Fauvety era maçom, e que naquela época, os maçons do Grande Oriente da França tinham retirado a noção de Deus em nome da liberdade de crença, o que motivou a saída de Léon Denis da Loja Maçônica Demófilos de Tours, alguns anos antes.

Verificamos que Charles Fauvety (1813-1894), era originário do protestantismo liberal e maçom, autor de livros e criador da "Religião Secular", que visava encontrar harmonia entre religião e razão, mantendo Deus apenas em um sentido panteísta e a imortalidade da alma apenas como uma probabilidade.

O pensamento de expresso por Denis no Congresso citado de 1889 poderia, durante praticamente um século, ser alvo de muitas críticas em razão de muita rigidez da então chamada “pureza doutrinária” e de uma compreensão provavelmente estreita dos objetivos dos princípios espíritas.

Daí a razão da necessidade de muita reflexão sobre o último discurso de Kardec: "O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. […] No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos vangloriamos por isto, porque é a Doutrina que funda os vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza. […] Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.”2

Nas primeiras décadas do século XXI há ares de inovações nas relações entre religiões, até com eventos interreligiosos. A frase de Léon Denis no seu discurso de 1889 merece ser bem refletida na atualidade!

Por outro lado, em artigo divulgado neste mês de janeiro “Entre o grito de Léon Denis o silêncio da Europa”, Wilson Garcia traz à tona pensamento desse vulto, relacionado com o atual contexto político, econômico e social da Europa.3 O articulista focaliza pensamentos de Denis desenvolvidos no livro Depois da morte4 sobre o que ele chamava de decadência moral ao escrever logo após o contexto histórico marcado pela humilhação nacional francesa após a Guerra Franco-Prussiana (1870–1871).

Anota Wilson Garcia: “A inquietação, porém, ultrapassava o campo militar ou diplomático. O que Denis denunciava era a erosão do ânimo coletivo, a perda do sentimento de pertença e de responsabilidade histórica. Para ele, quando uma sociedade deixa de acreditar em si mesma, a derrota já se consumou no plano moral, antes mesmo de qualquer agressão externa”. Oportuno destacarmos que Denis era estudioso da cultura celta e autêntico nacionalista francês interessado em temas do contexto em que vivia.

Por oportuno, destacamos que Denis é autor de livros como: O mundo invisível e a guerra (1919), Socialismo e Espiritismo (1924), O gênio céltico e o mundo invisível (1927).

Portanto, é interessante o artigo de Wilson Garcia, considerando que mais de um século depois, o diagnóstico de Léon Denis encontra ressonância inquietante na Europa contemporânea. Nessas condições, o articulista comenta que “entre o grito de Léon Denis e o silêncio europeu atual há mais do que um século de distância: há a passagem de sociedades que ainda acreditavam em destinos comuns para sociedades que administram a própria insegurança. O silêncio, porém, não é neutro. Ele corrói a ação, normaliza a paralisia e transforma prudência em resignação”.

Léon Denis, marcante vulto histórico do espiritismo, alvo de nossa admiração e respeito, registrou pensamentos que merecem reflexões na atualidade.

Referências:

1) Congrés Spirite et Spiritualiste. Paris. 11 de setembro de 1889, p. 156 [Ata].

2) Kardec, Allan. Trad. Noleto, Evandro Bezerra. O Espiritismo é uma religião? Revista Espírita. Dezembro de 1868. Brasília: FEB.

3) Garcia, Wilson. Entre o grito de Léon Denis o silêncio da Europa. Expediente-on-line – Blog do WGarcia, 13jan.2026: https://expedienteonline.com.br/entre-o-grito-de-leon-denis-e-o-silencio-da-europa/

4) Denis, Léon. Trad. sem identificação. Depois da morte. Brasília: FEB, 358p.

A pioneira espírita britânica Janet Duncan

A pioneira espírita britânica Janet Duncan

 

            

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Janet Duncan (1928-2026) fundou a primeira instituição espírita na Inglaterra, o Allan Kardec Study Group, em 1983.

Antes desse Centro pioneiro fundado por Janet Duncan em Londres, existiam as tradicionais “Spiritualists Churches”, ligadas à histórica “Spiritualist Association of Great Britain”, editora de vários livros sobre fatos espirituais e do jornal “Psychic News”, e, a “Society for Psychical Research” que reuniu acadêmicos e pesquisadores para a pesquisa de fatos espirituais.

Foi essa realidade que constatamos em viagens à Inglaterra em 1971 e 1973.1,2

Janet conheceu o espiritismo no período em que residiu em São Paulo, em atividades profissionais. Foi colaboradora do Grupo Espírita Batuíra, e, visitou várias vezes Chico Xavier. Ao retornar ao seu país. fundou o citado centro em Londres e criou a Allan Kardec Publishing Ltd, que editou em inglês os livros Agenda cristã, Nosso lar e O evangelho segundo o espiritismo.

Conhecemos pessoalmente Janet durante o 1o Congresso Espírita Internacional, realizado em Brasília em outubro de 1989.1,3

De 18 a 20 de outubro de 1991, realizou-se em São Paulo o Congresso Espírita Internacional – FEESPIRITA 91, no qual participaram muitos representantes do movimento espírita da Espanha, França, Bélgica, Portugal, Estados Unidos, Colômbia, Argentina e Janet Duncan do Reino Unido.1,3

Como presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo participamos desse Congresso em São Paulo e das reuniões dos visitantes estrangeiros que preparavam a criação de um Órgão Internacional, com o apoio da FEB. Naquela oportunidade, oferecemos um jantar de confraternização aos visitantes, na da sede da USE-SP.

Como desdobramento de reuniões realizadas em Liège e em São Paulo, foi fundado o Conselho Espírita Internacional, durante Congresso Espírita Espanhol-CEI, em Madrid, em novembro de 1992. Na fundação do CEI estavam presentes nove países, sendo Janet Duncan representante do Reino Unido.3

Estivemos com Janet em vários Congressos e eventos promovidos pelo CEI. No período de 30 de março a 1o de abril de 2001 comparecemos ao 4o Encontro da Coordenadoria de Apoio ao Movimento Espírita da Europa, efetivado em Berlim (Alemanha). A reunião foi presidida por Roger Perez (da França) que era o coordenador deste órgão regional do Conselho Espírita Internacional. Estavam presentes representantes da Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Itália, Holanda, Portugal, Suécia, Suíça e Reino Unido, e alguns membros da Comissão Executiva do CEI. Comparecemos como representante de Nestor João Masotti, secretário geral do CEI – que não pode comparecer porque havia sido eleito presidente da FEB havia 15 dias -, e com a tarefa de lançar La revue spirite, que passava a ser editada pelo CEI, o exemplar do 2o Trimestre de 2001, impressa na Casa Editora O Clarim.1,3

Nesse evento de Berlim aconteceu um fato histórico com o depoimento pessoal que nos fez Janet Duncan, representando o Reino Unido. Repentinamente ela nos confidenciou que se preparou psicologicamente, fez muitas preces antes de viajar a Berlim, comentando conosco sobre um trauma que viveu há muitos anos. Na condição de britânica nascida em 1928, como adolescente viveu os momentos terríveis da 2a Grande Guerra e os efeitos dos bombardeios aéreos praticados pelo regime nazista em Londres e outras cidades de seu país. Em maio de 1945 ela participou exultante com familiares das comemorações do final da Guerra, sendo inesquecível a cena do aparecimento do Rei Jorge VI, seus familiares e Winston Churchill, na sacada do Palácio de Buckingham. Passados mais de cinco décadas ela estava na cidade que havia simbolizado o grande risco ao seu país. Agora como espírita, rendia graças a Deus porque ela vinha a Berlim superando as cismas do passado, em paz e em tarefa de apoio ao movimento espírita.1

Desdobraram-se outros encontros com Janet juntamente com nossa esposa Célia e a visitamos em várias oportunidades. Extrapolando a formalidade britânica, fomos convidados duas vezes para o tradicional chá em sua residência. Até ela nos relatou sobre ramo escocês de sua família e mostrou-nos fotos antigas, e, também comentou sobre as transformações do bairro tradicional em que residia em Londres, após a chegada de imigrantes.

Em abril de 2005, juntamente com Nestor Masotti, desenvolvemos um seminário e acompanhamos em Londres a reunião em que se definia a alteração da entidade representativa do Reino Unido junto ao CEI. Desde a fundação do CEI, o Reino Unido foi representado pelo Allan Kardec Study Group, fundado e representado pela pioneira Janet Duncan. Com o aparecimento de novos centros e a fundação da British Union of Spiritist Societies (BUSS) a definição interna para a alteração da representação britânica junto ao CEI aconteceu em reunião que presenciamos naquela oportunidade. Ocorreram outros eventos em Londres e diversos países onde nos encontramos com Janet.3

Mesmo não mais representando o Reino Unido Janet Duncan prosseguiu em atividades no Allan Kardec Study Group e no início de 2020 teve editado pelo British Union of Spiritist Societies, sua tradução para o inglês da obra O evangelho segundo o espiritismo.

Com respeito e admiração tivemos amizade com Janet Duncan.

Por ocasião de sua desencarnação em Londres no dia 07/01/2026, Janet deixa um legado de muitos esforços, renúncias e dedicação ao movimento espírita: autêntica pioneira do espiritismo no Reino Unido!

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri; Kempf, Charles; Rossi. Elsa. Movimento espírita internacional. Origens, ideais e experiências. São Paulo: CCDPE-SP. 2025. 246p.

2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Anotações de viagem. Revista internacional de espiritismo. Dezembro de 1973, p.327-330.

3) Carvalho, Carvalho, Antonio Cesar Perri. Pelos caminhos da vida. Memórias e reflexões. Araçatuba: Cocriação. 2021. 632p.

Recordações de datas marcantes

Recordações de datas marcantes

Antonio Cesar Perri de Carvalho

O primeiro dia do ano nos leva a algumas lembranças de ordens históricas e sentimentais.
Inicialmente o registro da data de nascimento de Léon Denis, o grande vulto do movimento espírita, autêntico continuador de Allan Kardec e consolidador do espiritismo na França. Suas ações, palestras e livros produziram influências e repercussões marcantes no seu país natal e em vários outros, como no Brasil.
Denis nasceu no dia 1o/01/1846 em Tours e teve uma longa e muita ativa existência corpórea até 1927. Autor de marcantes obras, entre outras. como: “O problema do ser, do destino e da dor”, “No invisível”, “Cristianismo e espiritismo”, “Depois da morte”.
Mantemos grande admiração e respeito pelo vulto histórico do espiritismo!
Em nossa vivência, o dia 1o de janeiro nos remete a recordações sobre a médium Emília Santos, assinala o nascimento dela, no ano de 1896, no interior da Bahia.
Emília Santos teve profunda influência nos contatos iniciais que juntamente com a família tivemos com o espiritismo, nos tempos de Araçatuba (SP). E tudo num período curto e intenso de apenas sete anos, pois ela desencarnou em 1964. Ela foi a responsável pelo fortalecimento espiritual de nossa genitora e de tio, e, em nossa juventude, pela nossa introdução em ações práticas na Instituição Nosso Lar.
Em homenagem e gratidão a ela nosso tio Rolandinho criou a Casa da Sopa Emília Santos, como dependência da obra matriz, a Instituição Nosso Lar, esta fundada por ela, pela médium e nossa genitora Bebé.
A inauguração da Casa da Sopa Emília Santos ocorreu na data do natalício da médium: 1o de janeiro de 1966. Foi um evento marcante com a presença de convidados e colaboradores na campanha para a construção.
A inauguração dessa Casa nos remete a duas recordações sobre nossa participação. Na época, éramos presidente de Mocidade Espírita da Instituição que fundamos por sugestão dessa médium. Mantínhamos várias ações na Instituição Nosso Lar e dentro de pendores e habilidades que desenvolvíamos, elaboramos a capa do livrinho “Gotas espirituais”, com conteúdo organizado por José Rubens Braga da Silva, colaborador e expositor da Instituição. Esse livrinho foi utilizado como parte da campanha para a construção da obra. Outro detalhe, foi a incumbência que recebemos na época de organizar o jardim da Casa da Sopa.
Além das tradicionais reuniões nas passagens de ano, sempre valorizadas em nossa família, ficou muito marcada a evocação que ora registramos.
Fonte:
Carvalho, Antonio Cesar Perri. Pelos caminhos da vida. Memórias e reflexões. Araçatuba: Cocriação. 2021.

Os homens de boa vontade no ano novo

Os homens de boa vontade no ano novo

Antonio Cesar Perri de Carvalho

A passagem para um novo ano sempre motivou o homem e enseja esperanças de melhorias e expectativas de num mundo melhor.

Na realidade, um novo ano é uma mudança formal no calendário e naturalmente, na prática, é uma sequência de fatos e compromissos que vêm se desenrolando.

No contexto social há busca de soluções nas áreas políticas, econômicas, sociais, educacionais, de saúde, e, sem dúvida, com repercussões no próprio movimento espírita, que faz parte da sociedade.

Em todos os cenários, são homens encarnados os responsáveis pelas decisões e ações e vale a pena se recordar da obra “A Gênese”, de Allan Kardec, que no Cap. I encontra-se o registro: “Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem”.

Nessa mesma obra de Kardec, no Cap. XVIII, há considerações sobre a longa etapa que vivemos, os “Sinais dos tempos”. O Codificador destaca: “A fraternidade será a pedra angular da nova ordem social; mas, não há fraternidade real, sólida, efetiva, senão assente em base inabalável e essa base é a fé, não a fé em tais ou tais dogmas particulares, que mudam com os tempos e os povos e que mutuamente se apedrejam, porquanto, anatematizando-se uns aos outros, alimentam o antagonismo, mas a fé nos princípios fundamentais que toda a gente pode aceitar e aceitará: Deus, a alma, o futuro, o progresso individual indefinito, a perpetuidade das relações entre os seres.”

Para o Espiritismo fica claro que o livre-arbítrio e o real compromisso de aprimoramento moral e espiritual dos homens estão na base das esperadas transformações que poderão se fortalecer num novo e melhor ano.

A propósito, recordamos da pioneira psicografia de Chico Xavier sobre união: “Em nome do Evangelho” (Emmanuel, 1948), de onde destacamos os trechos: “O mundo conturbado pede, efetivamente, ação transformadora. […] unamo-nos no mesmo roteiro de amor, trabalho, auxílio, educação, solidariedade, valor e sacrifício que caracterizou a atitude do Cristo em comunhão com os homens, servindo e esperando o futuro, em seu exemplo de abnegação, para que todos sejamos um…” (Carvalho, Antonio Cesar Perri. Emmanuel. Trajetória espiritual e atuação com Chico Xavier. O Clarim). Nesse “mundo conturbado”, deve haver esforço para a disseminação do roteiro preconizado pelo Cristo, inclusive com o empenho dos espíritas.

É o apelo para os “homens de boa vontade” com que os espíritos anunciaram as “novas de grande alegria” por ocasião do nascimento de Jesus (Lucas 2: 10, 14).

O espírito Casimiro Cunha escreveu o poema “Carta de Ano Bom” (Xavier, Francisco Cândido. Espírito Casimiro Cunha. Cartas do Evangelho. São Paulo: Lake), de onde extraímos alguns trechos:

“Entre um ano que se vai

E outro que se inicia,

Há sempre nova esperança,

Promessas de Novo Dia…

 

[…] Considera, meu amigo,

Nesse pequeno intervalo,

Todo o tempo que perdeste

Sem saber aproveitá-lo.

 

[…] Ano Novo!… Pede ao Céu

Que te proteja o trabalho,

Que te conceda na fé

O mais sublime agasalho.

 

[…] Ano Bom!… Deus te abençoe

No esforço que te conduz

Das sombras tristes da Terra

Para as bênçãos de Jesus.”

Que o ano novo seja melhor para todos nós!

NATAL

NATAL

Meus irmãos,

 

Natal à vista, e começa a correria, 

fazem bazar,

fazem lista,

para a festa da alegria.

 

Uma faz louça bonita,

outra borda uma sacola

que se transforma em Pedrita,

em peteca ou numa bola.

 

Outra ainda faz vestidinho,

short, camisa, avental,

tudo com muito carinho,

com ternura fraternal.

 

Meus irmãos, ao dar aos pobres,

uma roupinha, um pão-doce,

estamos dando “migalhas”,

pelo que Jesus nos trouxe.

 

E, Ele, nos trouxe a Verdade,

nos deu da vida o Caminho,

ainda hoje nos aquece,

com Seu amparo e carinho.

 

E todos nós nos lembramos,

de que Ele nos disse assim:

o que fizerdes a eles,

estareis fazendo a mim.

 

Continuemos, portanto,

na tarefa fraternal

e teremos festa e tanto

meus irmãos, neste Natal.

Noel Rosa

Mensagem recebida no Culto do Evangelho no Lar de Martha, médium que a recebeu, em São Paulo, no dia 20 de setembro de 1968. Acreditamos que esta poesia não tenha sido publicada. Em setembro de 1967 foi fundado em Araçatuba o Coral Espírita Noel Rosa por iniciativa do Departamento de Mocidades da União Municipal Espírita de Araçatuba e estímulo da Professora Luiza Cardoso (da FEESP, de São Paulo). Esta, numa das viagens a Araçatuba, trouxe a poesia manuscrita endereçada aos integrantes do grupo. A médium Martha Gallego Thomaz desencarnou com 99 anos aos 4 de setembro de 2014. (DE: https://www.noticiasespiritas.com.br/2025/DEZEMBRO/18-12-2025.htm)

Na foto, de setembro de 1968, está o Coral Espírita Noel Rosa, em dia de apresentação em Araçatuba (SP). Entre os integrantes, jovens das famílias Rey, Rosa, Gobbi, Pagan, Bizzo. Entre estes, atuantes no movimento na atualidade: Célia Maria Rey de Carvalho, Maria Luzia de Almeida Rosa, Ismael Gobi. Na época, Cesar Perri era o diretor do Departamento de Mocidades da União Municipal Espírita de Araçatuba.