O diálogo entre a tradição judaica e a prática espírita em São Paulo
- Síntese de entrevista para Eliana Haddad do jornal Correio Fraterno -
Em entrevista concedida a Eliana Haddad, para o jornal espírita Correio Fraterno, a escritora Andréa Kogan comenta seu estudo da intersecção entre a tradição judaica e a doutrina espírita no Brasil, especialmente na cidade de São Paulo.
A entrevistada é Doutora em ciência da religião pela PUC-SP, tradutora e é referência acadêmica no estudo. Seu livro Espiritismo judaico (Ed. Labrador) traz o resultado da sua tese de doutorado que investigou como alguns judeus conseguem entrelaçar as raízes ancestrais do judaísmo aos princípios de Allan Kardec, realizando práticas espíritas em suas casas.
Em entrevista exclusiva ao jornal Correio Fraterno, ela, que é judia e estuda a doutrina espírita, compartilha sua experiência de observação, por mais de seis anos, de famílias judaicas paulistanas praticantes do espiritismo, bem como os desafios e a riqueza desses encontros, que retratam não apenas um recorte importante na sua vida acadêmica, mas o exemplo da boa convivência nos diálogos inter-religiosos.
Nesta síntese extraída do jornal citado, entre as interessantes respostas à entrevistadora, Andréa Kogan, esclarece:
“O judaísmo não é só religião. Pode ser uma cultura, uma nacionalidade, uma identidade, um povo etc. No Brasil vemos uma variedade de “crenças, espiritualidades, religiões”: uma pessoa vai à missa de manhã e a um terreiro à noite, por exemplo. No caso dos judeus, em determinados lugares, o espiritismo caminha lado a lado com o judaísmo. E tais praticantes dizem mesmo que são judeus e espíritas. […] O judaísmo é uma religião monoteísta. Os judeus acreditam num Deus único. Podemos entender que o judaísmo é considerado uma religião nos termos modernos, mas ele é muito mais. O judeu pode ser um judeu ateu, um judeu espírita, um judeu budista etc. É possível ser judeu por questão cultural, por identidade, e nem todos cumprem as normas da Torá. É um povo que caminha junto, que tem certos hábitos.”
Sobre a relação de judeus com o espiritismo, eis uns trechos:
“Os judeus com quem eu falei para elaborar meu estudo têm essas práticas pessoais dentro das suas casas e levam muito bem essa dualidade, porque já nasceram em lares espíritas. Vejo que a questão mais delicada é a mediunidade. Todos sabemos que a mediunidade não é fenômeno exclusivo espírita. […] a convocação dos mortos é a única coisa proibida pela Torá; qualquer tipo de necromancia. Há relatos bíblicos sobre isso, há literatura mística também, mas não é algo natural e aceito por todos. Até conheci pessoas judias não ortodoxas com mediunidade que chegaram a ir em reunião espírita, mas disseram: “não é para mim, porque a Torá me proíbe de fazer isso”. […] Sou filha de pais liberais em relação a esses assuntos. Fui criada num ambiente judaico, escola judaica e clube judaico, mas não num ambiente religioso fechado. Tudo era falado às claras. Aos 13 anos, li o livro do Roberto Muszkat [Quando se pretende falar da vida, GEEM]. Ele havia desencarnado aos 19 anos. Tinha acabado de entrar na faculdade de medicina para seguir a mesma carreira do pai. O doutor David Muszkat era amigo do meu pai e deu-lhe um exemplar desse livro. Li e fiquei muito impressionada com as 22 cartas do Roberto, psicografadas pelo Chico Xavier.”
Sobre a repercussão de seu livro entre judeus, comenta Andréa:
“A comunidade ortodoxa não vai ler meu livro, pois é uma “literatura laica, secular”. Ao fazer palestras em ambientes judaicos, algumas pessoas ficam talvez mais incomodadas. Mas é assim mesmo em todas as religiões e espiritualidades. Quando você trata destas questões delicadas, há sempre incômodos.”
Mas, Andréa considera que seu livro traz uma contribuição cultural para a sociedade:
“[…] porque falo da riqueza cultural, da diversidade brasileira, e precisamos tratar disso. Faz parte do brasileiro ter duplas ou múltiplas religiosidades. As pessoas se sentem legitimadas quando há um livro falando sobre o que elas vivem.”
Para Andréa Kogan, ao responder sobre os jovens:
“[…] a gente vê hoje até no cuidado com o vocabulário, quando preferem dizer que não têm religião, que têm espiritualidade. Não querem se comprometer. Isso é um fenômeno contemporâneo.”
Trechos de entrevista publicada em:
Correio Fraterno. Março-abril de 2026. P. 4-5.
Correio.News (copie e cole):
https://correio.news/entrevista/o-dialogo-entre-a-tradicao-judaica-e-a-pratica-espirita-em-sao-paulo