Humberto de Campos: de Parnaíba para a notoriedade
Antonio Cesar Perri de Carvalho
Um dos mais conhecidos escritores brasileiros, Humberto de Campos Veras, nasceu em Miritiba – hoje Humberto de Campos – no Maranhão, aos 25 de outubro de 1886; desencarnou no Rio de Janeiro em 05/12/1934.
Na então Capital da República, Humberto de Campos tornou-se famoso como brilhante jornalista e cronista; suas páginas foram "colunas" em todos os jornais importantes do País. Dedicou-se inteiramente à arte de escrever. Ingressou na Academia Brasileira de Letras em 1919. Exerceu o mandato de deputado federal pelo seu Estado natal, tendo seus mandatos sucessivamente renovados até ser cassado com a Revolução de 1930.
Escritor extremamente popular por atender a perguntas de missivistas e visitantes. Fez-se amado por todo o Brasil, especialmente na Bahia e São Paulo. Adotou vários pseudônimos, como o Conselheiro XX, que depois veio a ser adaptado para os livros espíritas, como Irmão X. Quando adoeceu, modificou completamente o estilo literário.
A obra O menino livre de Miritiba. Humberto de Campos1, oferece excelente oportunidade para se conhecer o escritor Humberto de Campos, com base em seus livros como encarnado e como espírito pela psicografia de Chico Xavier, e ainda com lances sobre sua vida desde a infância. O autor Cláudio Bueno da Silva focaliza momentos da vida de Humberto de Campos e relaciona suas obras como encarnado com as escritas pela psicografia de Chico Xavier.
Cláudio Bueno da Silva destaca que Humberto de Campos sempre focalizou a questão da morte: “Eu sou, ordinariamente, um homem que tem medo da morte” e o dilema “a certeza de que os outros aqui ficam e o morto não sabe para onde vai”. Num crônica sobre Finados, anotou: “Parece que a Morte, neste momento, se acha confundida com a Vida”. De outra feita, registrou o medo de “ter a sua memória enterrada com seu corpo”, e, ainda “espiando a morte, conhecer o engano da vida”.1
O autor citado não considera Humberto de Campos um materialista clássico: “se dizia cético, é curiosa a sua insistência em tratar dos assuntos transcendentais, místicos, religiosos, cuidando da vida e da morte. […] usava a ironia para disfarçar certo interesse recôndito. […] O ceticismo em Humberto de Campos talvez não tivesse raízes tão profundas”. O autor destaca que as crônicas do livro Sombras que sofrem, publicado no ano da desencarnação de Humberto de Campos, em 1934, mostram este último “preocupado em ajudar o próximo com as melhores ‘armas’ de que dispunha e que manejava muito bem: as palavras e as ideias”.1
Com frequência, o escritor maranhense fazia referência a textos bíblicos e casos relacionados com a Judeia. Escreve crônicas em forma de parábolas, com fundo moral e instrutivo e enaltece a caridade. Em Mealheiro de Agripa adverte: “Homens ricos e poderosos que vos banqueteais sobre miséria de Lázaro, escutai, se tendes ouvidos, a palavra dos profetas”. Em Notas de um diarista, comenta versículos de Mateus (19, 16-24): “Bom Mestre, que boas obras devo praticar para conseguir a vida eterna?”1
Fato interessante é que Humberto de Campos era amigo pessoal – de fazer visitas constantes -, do romancista Coelho Neto, maranhense e membro da Academia Brasileira de Letras. Soube que seu amigo quando se encontrava abatido era tratado, enquanto dormia, pela esposa e por uma doméstica que o “defumava com ervas prestigiosas”. Coelho Neto veio a se convencer do Espiritismo após um fato inusitado em que teve a certeza da sobrevivência espiritual de sua filha.
Passadas mais de nove décadas da desencarnação, a notoriedade de Humberto de Campos aumentou com as obras “do lado de lá”.
Após o lançamento das primeiras obras assinadas por Humberto de Campos surgiu o rumoroso processo movido por seus familiares, reclamando direitos autorais, em 1944. Chico Xavier e a FEB ganharam a causa no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. O assunto ganhou destaque na imprensa leiga da época e transformou-se no tema do livro A psicografia ante os Tribunais, de Miguel Timponi, editado pela FEB. Em função disso que passou a adotar o pseudônimo Irmão X. Algumas preocupações e focos desenvolvidos em textos pelo escritor Humberto de Campos são identificáveis e são ampliados nas obras psicografadas por Chico Xavier.
Como espírito escreveu diversas obras pela psicografia do médium Chico Xavier, doze publicadas pela FEB (entre 1937 e 1969): Crônicas de além-túmulo; Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho; Novas mensagens; Boa nova; Reportagens de além túmulo; Lázaro redivivo; Luz acima; Pontos e contos; Contos e apólogos; Contos desta e doutra vida; Cartas e crônicas; Estante da vida; pela Editora CEU: Relatos da vida (1988), e, pela Editora Boa Nova: Histórias e anotações (2010).
Sempre admirador do notável literato, ficamos sensibilizados pelas repercussões de sua obra, depois de nossas continuadas visitas à cidade de Parnaíba (Piauí), onde há vários familiares pelo lado paterno.
Na cidade, na rua com o nome dele, existe a casa onde ele residiu a partir de 1894, com sua genitora viúva dona Ana. Ali viveu alguns anos de sua meninice e plantou um cajueiro, muito citado em seus livros como encarnado. O cajueiro, mais que centenário, originou um logradouro público e passou a ser um monumento vivo da cidade.
Na sede da Academia Parnaibana de Letras, há o Memorial Humberto de Campos que contém vários materiais do escritor: fardão como membro da Academia Brasileira de Letras; máquina de datilografia, bengalas de final de vida, textos originais, livros originais, fotos e caricaturas, e, jornais de época do Rio de Janeiro.2
Em livro que ofertamos àquela comunidade em 2018, Os frutos do cajueiro. Ações espíritas em Parnaíba3, adotamos como símbolo os frutos do cajueiro, relacionando com o movimento espírita de Parnaíba, com marcantes obras sociais, e, em função de visitas, reunimos textos de nossas palestras e entrevistas em eventos espíritas em Parnaíba, pois sempre enfatizamos a repercussão de suas obras espirituais, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier; destacamos um retrato de Humberto de Campos com carinhosa dedicatória de sua genitora, Ana de Campos Veras, que ainda vivia naquela cidade em 1938, endereçada a Chico Xavier – “dedicado intérprete espiritual de meu saudoso Humberto”.
As obras de Humberto de Campos – de cá e de lá – merecem estudos em nossos dias!
Referências:
1. Silva, Cláudio Bueno. O menino livre de Miritiba. Humberto de Campos. 1.ed. Araras: IDE. 2018. 319p.
2. Entrevista na Academia Parnaibana de Letras. Acesso em 02/09/2026 (copie e cole): https://youtu.be/Q00ddJ00AtE?is=t3v_hEfX4msJK_ZL
3. Carvalho, Antonio Cesar Perri. Os frutos do cajueiro. Ações espíritas em Parnaíba. Parnaíba: Ed. Centro Espírita Caridade e Fé. 2018. 94p.