O MOVIMENTO ESPÍRITA FRANCÊS QUANDO DA DESENCARNAÇÃO DE ALLAN KARDEC
Charles Kempf (*)
Kardec estava preparando um plano para o futuro do movimento espírita: depois da Constituição do Espiritismo, na ata sobre o caixa do espiritismo na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas em 5 de maio de 1865, Kardec publicou o Projeto 1868 na Revue Spirite de dezembro de 1868.
Allan Kardec desencarnou “de pé”, subitamente, em pleno trabalho. Ele estava terminando de liberar o local no Passage Sainte-Anne, cujo contrato de aluguel terminava no mesmo dia 31 de março de 1869.
A Livraria tinha sido mudada para a rue de Lille, e os pertences pessoais, bem como o birô da Revue Spirite, foram mudados para a Villa Ségur.
Kardec nos legou as cinco obras da Codificação, incluindo os clichés e as impressões das folhas das revisões das duas últimas, além das obras complementares e a Revue Spirite até abril de 1869. Manuscritos encontrados recentemente mostram que ele ainda planejava outras obras, incluindo: O livro dos magnetizadores, com as relações entre o magnetismo e o espiritismo, e O estado social segundo o espiritismo. Também mencionou um curso de espiritismo.
Porém, a espiritualidade maior determinou que a missão estava cumprida e que ele podia regressar à Pátria espiritual. Kardec estava preparando um plano para o futuro do movimento espírita: depois da Constituição do Espiritismo, na ata sobre o caixa do espiritismo na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas em 5 de maio de 1865, Kardec publicou o Projeto 1868 na Revue Spirite de dezembro de 1868.
Uma versão revisada foi publicada por Pierre-Gaëtan Leymarie em Obras póstumas, 20 anos depois, em 1889. Esses textos e os princípios que eles contêm são conhecidos pelo movimento espírita, mas até hoje, não foram colocados em prática.
Em 1868, Kardec fez uma consulta junto a espíritas de confiança, solicitando ideias, opiniões, sugestões e comunicações dos Espíritos sobre esse plano. Nessa base, nos últimos dias da vida dele, Kardec estava refinando e detalhando seu plano: fragmentos foram encontrados em manuscritos, hoje do acervo AKOL Allan Kardec Online, e dos quais uma transcrição e análise foi feita por Júlio Nogueira no apêndice 4 do livro Nem céu, nem inferno, de Paulo Henrique de Figueiredo e Lucas Sampaio.
O plano de Kardec correspondia a uma fundação, com aporte em capital, a propriedade da Villa Ségur, e como fonte de renda, a Livraria Espírita, financiando as atividades e o desenvolvimento da Doutrina Espírita segundo as atribuições do “Comitê Central” a ser instalado na Villa Ségur.
Kardec publicou na Revue Spirite de abril de 1869, que incluía em anexo a primeira versão do Catalogue raisonné, os motivos para a fundação da Livraria Espírita, indicando que “não é uma empresa comercial; foi criada por uma sociedade de espíritas, tendo em vista os interesses da Doutrina, e que renunciam, pelo contrato que os ligam, a toda especulação pessoal. […] É administrada por um gerente, simples mandatário, e todos os lucros constatados pelos balanços anuais serão por ele lançados na Caixa Geral do Espiritismo.”
Mas Amélie e os fiéis que ela escolheu (Monvoisin, Joly, Desliens, Bittard, Tailleur e Guilbert) não entenderam bem esse plano, e criaram em junho de 1869 para a livraria uma Sociedade anônima puramente comercial, sem vínculo com a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Isto ocasionou uma divisão entre ambas as Sociedades e no movimento espírita, com a demissão do Sr Malet da presidência da SPEE, que tinha provavelmente entendido melhor o plano de Kardec. Como foi mostrado em vários relatos, essa divisão só foi aumentando nos anos seguintes, e no final do século 19, a Livraria e os direitos autorais de Allan Kardec acabaram sendo patrimônio da família Leymarie.
A visão de Kardec sobre o Movimento Espírita era bem ampla: na Revue Spirite de janeiro de 1868, publicou as Estatísticas do Espiritismo, indicando 4 a 10 milhões de espíritas nos EUA, e 1 milhão na Europa, dos quais 600 mil na França. Somente em Paris foram identificados em 1869 mais de dez grupos organizados, além dos grupos familiares. Obviamente, Kardec incluía entre os espíritas os espiritualistas americanos e ingleses.
Publicou na Revue Spirite de abril de 1869 a “Profissão de Fé Espírita Americana”, comentando que a diferença entre as duas escolas se reduz a bem pouca coisa, embora não se tenham copiado, chegando quase ao mesmo resultado pela observação dos fenômenos. Kardec acrescentou: “Os espíritas do mundo inteiro terão princípios comuns, que os ligarão à grande família pelo laço sagrado da fraternidade, mas cuja aplicação poderá variar conforme as regiões, sem que, por isto, seja rompida a unidade fundamental, sem formar seitas dissidentes que se atirem a pedra e o anátema, o que seria antiespírita em alto grau. […] O espiritismo é uma questão de fundo; prender-se à forma seria uma puerilidade indigna da grandeza do assunto. Eis por que os diversos centros, que estiverem no verdadeiro espírito do espiritismo, deverão estender-se a mão fraterna e se unirem no combate aos seus inimigos comuns: a incredulidade e o fanatismo.”
Flammarion, aos 27 anos, aceitou o convite de pronunciar o discurso em homenagem a Allan Kardec no funeral no cemitério Montmartre. Ele elogiou “o bem senso encarnado” e seu trabalho pioneiro pelo estudo racional da espiritualidade e das forças naturais que agem ao nosso redor, constituindo um antídoto ao materialismo, ao ateísmo e as superstições religiosas. Ele destacou o papel consolador que o espiritismo já tinha realizado, mas também a necessidade de investigações científicas dos fenômenos de efeito físico. Flammarion recusou o convite para suceder a Allan Kardec na presidência da SPEE, alegando que a maioria dos espíritas viam no espiritismo uma religião, e não uma ciência.
Allan Kardec foi muito claro, mas qual é a situação do movimento espírita hoje, quase 160 anos depois?
Continua dividido, com personalismos, apego aos cargos, veleidades de hegemonia, quase sem contato com os espiritualistas modernos, com muita pouca pesquisa séria sobre os fenômenos, com muito pouca abertura aos dois terços da humanidade que não são cristãos. Fora da caridade, não há salvação. Acrescentaremos que fora da caridade, não haverá movimento digno da Doutrina Espírita.
(*) Charles Kempf é engenheiro, ex-presidente da Federação Espírita Francesa, ex-secretário-geral do Conselho Espírita Internacional e trabalhador no Mouvement Spirite Francophone.
DE: Dirigente Espírita, março/abril de 2026, USE-SP (copie e cole): https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2026/03/rdDE-211.pdf