O surpreendente Léon Denis
Antonio Cesar Perri de Carvalho
Janeiro assinala, entre outras efemérides, a data de nascimento de Léon Denis, dia 1o/01/1846 em Tours, e que teve uma longa e muita ativa existência corpórea até 1927.
Denis é o grande vulto do movimento espírita, autêntico continuador de Allan Kardec e consolidador do espiritismo na França. Suas ações, palestras e livros produziram influências e repercussões marcantes no seu país natal e em vários outros, como no Brasil. Autor de marcantes obras, entre outras. como: O problema do ser, do destino e da dor, No invisível, Cristianismo e espiritismo, Depois da morte.
Neste mês de janeiro de 2026, surgem citações e artigos interessantes que realçam alguns aspectos surpreendentes da personalidade de Denis.
Recebemos de um amigo, a solicitação de confirmação de um texto que seria de Denis. Contando com o apoio de Charles Kempf (Federação Espírita Francesa e Le Mouvement Spirite Francophone), esclarece-se que a frase não aparece em livros de Denis. Mas são trechos do discurso pronunciado por Léon Denis no Congresso Espírita e Espiritualista de Paris na sessão de 11 de setembro de 1889.
No referido Congresso, Denis responde ao Sr. Fauvety, após comentar o propósito de Allan Kardec de valorizar o cristianismo primitivo: “[…] ele lutou com lógica rigorosa contra tudo o que constitui o catolicismo moderno. […] “Não vos viemos dizer que devamos ficar confinados ao círculo, por mais vasto que seja, do Espiritismo kardequiano. Não; o próprio mestre vos convida a avançar nas vias novas, a alargar a sua obra”. Destaca princípios espíritas e afirma: […] nestas condições, estendemos as mãos a todos os inovadores, a todos os de boa vontade, a todos os que têm no coração o amor da Humanidade.”1
Charles Kempf lembra observações do Eduardo Carvalho Monteiro (1950-2005), de São Paulo, pesquisador do espiritismo e da maçonaria, que Charles Fauvety era maçom, e que naquela época, os maçons do Grande Oriente da França tinham retirado a noção de Deus em nome da liberdade de crença, o que motivou a saída de Léon Denis da Loja Maçônica Demófilos de Tours, alguns anos antes.
Verificamos que Charles Fauvety (1813-1894), era originário do protestantismo liberal e maçom, autor de livros e criador da "Religião Secular", que visava encontrar harmonia entre religião e razão, mantendo Deus apenas em um sentido panteísta e a imortalidade da alma apenas como uma probabilidade.
O pensamento de expresso por Denis no Congresso citado de 1889 poderia, durante praticamente um século, ser alvo de muitas críticas em razão de muita rigidez da então chamada “pureza doutrinária” e de uma compreensão provavelmente estreita dos objetivos dos princípios espíritas.
Daí a razão da necessidade de muita reflexão sobre o último discurso de Kardec: "O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. […] No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos vangloriamos por isto, porque é a Doutrina que funda os vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza. […] Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.”2
Nas primeiras décadas do século XXI há ares de inovações nas relações entre religiões, até com eventos interreligiosos. A frase de Léon Denis no seu discurso de 1889 merece ser bem refletida na atualidade!
Por outro lado, em artigo divulgado neste mês de janeiro “Entre o grito de Léon Denis o silêncio da Europa”, Wilson Garcia traz à tona pensamento desse vulto, relacionado com o atual contexto político, econômico e social da Europa.3 O articulista focaliza pensamentos de Denis desenvolvidos no livro Depois da morte4 sobre o que ele chamava de decadência moral ao escrever logo após o contexto histórico marcado pela humilhação nacional francesa após a Guerra Franco-Prussiana (1870–1871).
Anota Wilson Garcia: “A inquietação, porém, ultrapassava o campo militar ou diplomático. O que Denis denunciava era a erosão do ânimo coletivo, a perda do sentimento de pertença e de responsabilidade histórica. Para ele, quando uma sociedade deixa de acreditar em si mesma, a derrota já se consumou no plano moral, antes mesmo de qualquer agressão externa”. Oportuno destacarmos que Denis era estudioso da cultura celta e autêntico nacionalista francês interessado em temas do contexto em que vivia.
Por oportuno, destacamos que Denis é autor de livros como: O mundo invisível e a guerra (1919), Socialismo e Espiritismo (1924), O gênio céltico e o mundo invisível (1927).
Portanto, é interessante o artigo de Wilson Garcia, considerando que mais de um século depois, o diagnóstico de Léon Denis encontra ressonância inquietante na Europa contemporânea. Nessas condições, o articulista comenta que “entre o grito de Léon Denis e o silêncio europeu atual há mais do que um século de distância: há a passagem de sociedades que ainda acreditavam em destinos comuns para sociedades que administram a própria insegurança. O silêncio, porém, não é neutro. Ele corrói a ação, normaliza a paralisia e transforma prudência em resignação”.
Léon Denis, marcante vulto histórico do espiritismo, alvo de nossa admiração e respeito, registrou pensamentos que merecem reflexões na atualidade.
Referências:
1) Congrés Spirite et Spiritualiste. Paris. 11 de setembro de 1889, p. 156 [Ata].
2) Kardec, Allan. Trad. Noleto, Evandro Bezerra. O Espiritismo é uma religião? Revista Espírita. Dezembro de 1868. Brasília: FEB.
3) Garcia, Wilson. Entre o grito de Léon Denis o silêncio da Europa. Expediente-on-line – Blog do WGarcia, 13jan.2026: https://expedienteonline.com.br/entre-o-grito-de-leon-denis-e-o-silencio-da-europa/
4) Denis, Léon. Trad. sem identificação. Depois da morte. Brasília: FEB, 358p.
