Antonio Cesar Perri de Carvalho
Conheci o Espiritismo na infância, acompanhando minha mãe e um tio (Bebé e Rolandinho Perri Cefaly) em reuniões espíritas em Araçatuba e em Biriguí. Também participava de atividades de visitas a instituições e hospitais, quando levávamos lanches. Nos idos de 1961, adolescente ainda, acompanhei o início de funcionamento da Instituição Nosso Lar, no então bairro nascente e periférico – o loteamento do Planalto, em Araçatuba. Frequentava a reunião pública dos domingos, com explanações sobre “O Evangelho segundo o Espiritismo” e o “O Livro dos Espíritos” e passes. Lembro-me do salão bem simples, onde havia também a oferta de sopa aos frequentadores. O lugar era mesmo bem singelo, com suas salas sem forro e mobiliário recebido por doações.
Nas décadas seguintes, visitei outros ambientes que também me marcaram bastante. Um deles foi um grupo espírita dirigido por Gedeão Fernandes de Miranda, no bairro do Goulart, pioneiro do espiritismo em Araçatuba, então nonagenário. Localizava-se em um sítio, no Bairro do Goulart. Outra experiência foi assistir às reuniões de Chico Xavier, no Grupo Espírita de Prece, e participar dos atendimentos da chamada “peregrinação”, em Uberaba. Também vêm à minha lembrança o centro dirigido por Langerton Neves, num sítio de Peirópolis (MG) e o Centro Espírita Fé e Amor, fundado por Sinhô Mariano – tio de Eurípedes Barsanulfo –, na Fazenda Santa Maria, em Sacramento (MG). A simplicidade ficou em evidência, no grupo espírita de Manaquiri (AM), localizado a duas horas de barco de Manaus, e que se reunia em um ambiente tipo choupana indígena, sem energia elétrica, às margens de um pequeno rio amazônico.
Uma experiência marcante no exterior foi nossa participação no IV Congresso Espírita Guatemalteco, com temas sobre educação moral, e realizado em San Marcos. Esta cidade se localiza nos chamados altiplanos guatemaltecos e durante a viagem se vislumbram vários vulcões. Na região há predomínio de descendentes dos maias. Num dia frio e chuvoso, chamou-nos a atenção que os frequentadores do Congresso, descem das montanhas, muitos a pé, e chegam aos grupos, com suas famílias. Alguns chegam com vestes típicas e com as crianças pequenas presas em suas costas. Permanecem atentos às palestras o tempo todo. Seus filhos, crianças e jovens, tiveram participação artística e temática, relacionadas com o Congresso. Ao dialogarmos com os moradores da região, demonstravam um grande respeito pelos visitantes. E de nossa parte sentíamos um forte impacto, motivado pela extrema simplicidade deles e as manifestações de intenso interesse pelos assuntos espíritas. Aliás, um conhecimento ancestral, ligado à tradição dos nativos maias daquele país. Ao final, cada familia levava livros espíritas para casa, pois houve farta distribuição de livros espíritas em espanhol,
É assim que me permito recordar também as experiências do cristianismo primitivo como meios de incentivo a essas reflexões e adequações em todas as áreas de atuação. No livro “Boa Nova”, psicografado por Chico Xavier, há oportuna crônica sobre o Sermão do Monte e que antes de proferir as Bem-Aventuranças – pobres e aflitos; sedentos de justiça e misericórdia; pacíficos e simples de coração – Jesus teria dialogado com interlocutores de Cafarnaum: “É também sobre os vencidos da sorte, sobre os que suspiram por um ideal mais santo e mais puro do que as vitórias fáceis da Terra, que o Evangelho assentará suas bases divinas.”
Entre elas, as recomendações do Doutor da Lei – Paulo de Tarso – que se transformou em homem do povo: “Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador dele” (I Coríntios, 9:22-23).
Antonio Cesar Perri de Carvalho residiu em Araçatuba até 1989. Foi presidente da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e da Federação Espírita Brasileira.
Artigo publicado em Folha da Região, Araçatuba, 5/8/2015, p.2. |