Lavradores

Lavradores

“O lavrador que trabalha deve ser o primeiro a gozar dos frutos.” – Paulo. (2ª Epístola a Timóteo, 2:6.)

Há lavradores de toda classe. Existem aqueles que compram o campo e exploram-no, através de rendeiros suarentos, sem nunca tocarem o solo com as próprias mãos.

Encontramos em muitos lugares os que relegam a enxada à ferrugem, cruzando os braços e imputando à chuva ou ao sol o fracasso da sementeira que não vigiam.

Somos defrontados por muitos que fiscalizam a plantação dos vizinhos, sem qualquer atenção para com os trabalhos que lhes dizem respeito.

Temos diversos que falam despropositadamente com referência a inutilidades mil, enquanto vermes destruidores aniquilam as flores frágeis.

Vemos numerosos acusando a terra como incapaz de qualquer produção, mas negando à gleba que lhes foi confiada a bênção da gota d’água e o socorro do adubo.

Observamos muitos que se dizem possuídos pela dor de cabeça, pelo resfriado ou pela indisposição e perdem a sublime oportunidade de semear.

A Natureza, no entanto, retribui a todos eles com o desengano, a dificuldade, a negação e o desapontamento.

Mas o agricultor que realmente trabalha, cedo recolhe a graça do celeiro farto.

E assim ocorre na lavoura do espírito.

Ninguém logrará o resultado excelente sem esforçar-se, conferindo à obra do bem o melhor de si mesmo.

Paulo de Tarso, escrevendo numa época de senhores e escravos, de superficialidade e favoritismo, não nos diz que o semeador distinguido por César ou mais endinheirado seria o legítimo detentor da colheita, mas asseverou, com indiscutível acerto, que o lavrador dedicado às próprias obrigações será o primeiro a beneficiar-se com as vantagens do fruto.

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Fonte Viva. Cap. 31. FEB)

Espiritismo e nós

Espiritismo e nós

“Se me amardes, guardareis os meus mandamentos.” — JESUS — João, 14.15.

“O Espiritismo vem realizar, na época prevista, as promessas do Cristo. Entretanto, não o pode fazer sem destruir os abusos.” — Cap. XXIII, 17 1.

Todas as religiões garantem retiros e internatos, organizações e hierarquias para a formação de orientadores condicionados, que lhes exponham as instruções, segundo o controle que lhes parece conveniente.

A Doutrina Espírita, revivendo o Cristianismo puro, é a religião do esclarecimento livre.

Mas se nós, os espíritas encarnados e desencarnados, situarmos nossas pequeninas pessoas acima dos grandes princípios que a expressam, estaremos muito distantes dela, confundidos nos delírios do personalismo deprimente, em nome da liberdade.

Todas as religiões amontoam riquezas terrestres, através de templos suntuosos, declarando que assim procedem para render homenagem condigna à Divina Bondade. A Doutrina Espírita, revivendo o Cristianismo puro, é a religião do desprendimento. Entretanto, se nós, os espíritas encarnados e desencarnados, encarcerarmos a própria mente nas hipnoses de adoração a pessoas ou na ilusão de posses materiais passageiras, tombaremos em amargos processos de obsessão mútua, descendo à condição de vampiros intelectualizados uns dos outros, gravitando em torno de interesses sombrios e perdendo a visão dos Planos Superiores.

Todas as religiões cultivam rigoroso sentido de seita, mantendo a segregação dos profitentes. A Doutrina Espírita, revivendo o Cristianismo puro, é a religião da solidariedade. Contudo, se nós, os espíritas encarnados e desencarnados, abraçarmos aventuras e distorções, em torno do ensino espírita, ainda mesmo quando inocentes e piedosas, na conta de fraternidade, levantaremos novas inquisições do fanatismo e da violência contra nós mesmos.

Todas as religiões sustentam claustros ou discriminações, a pretexto de se resguardarem contra o vício. A Doutrina Espírita, revivendo o Cristianismo puro, é a religião do pensamento reto. Todavia, se nós, os espíritas encarnados e desencarnados, convocados a servir no mundo, desertarmos do concurso aos semelhantes, a título de suposta humildade ou por temor de preconceitos, acabaremos inúteis, nos círculos fechados da virtude de superfície.

Todas as religiões, de um modo ou de outro, alimentam representantes e ministérios remunerados. A Doutrina Espírita, revivendo o Cristianismo puro, é a religião da assistência gratuita. No entanto, se nós, os espíritas encarnados e desencarnados, fugirmos de agir, viver e aprender à custa do esforço próprio, incentivando tarefeiros pagos e cooperações financiadas, cairemos, sem perceber, nas sombras do profissionalismo religioso.

Todas as religiões são credoras de profundo respeito e de imensa gratidão pelos serviços que prestam à Humanidade. Nós, porém, os espíritas encarnados e desencarnados, não podemos esquecer que somos chamados a reviver o Cristianismo puro, a fim de que as leis do Bem Eterno funcionem na responsabilidade de cada consciência.

Exortou-nos o Cristo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.”

E prometeu: “Conhecereis a verdade e a verdade vos fará livres.” 

Proclamou Kardec: “Fora da caridade não há salvação.” 

E esclareceu: “Fé verdadeira é aquela que pode encarar a razão face à face.” 

Isso quer dizer que sem amor não haverá luz no caminho e que sem caridade não existirá tranquilidade para ninguém, mas estes mesmos enunciados significam igualmente que sem justiça e sem lógica, os nossos melhores sentimentos podem transfigurar-se em meros caprichos do coração.

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Livro da esperança. Cap. 77. Uberaba: CEC).

ENERGIA E BRANDURA

ENERGIA E BRANDURA

Na marcha do dia-dia, urge harmonizar as manifestações de nossas qualidades com o espírito de proporção e proveito, a fim de que o extremismo não nos imponha acidentes, no trânsito de nossas tarefas e relações.

Energia na fé; não demais que tombe em fanatismo.

Brandura na bondade; não demais que entremostre relaxamento.

Energia na convicção; não demais que se transforme em teimosia.

Brandura na humildade; não demais que degenere em servilismo.

Energia na justiça; não demais que seja crueldade.

Brandura na gentileza; não demais que denuncie bajulação.

Energia na sinceridade; não demais que descambe no desrespeito.

Brandura na paz; não demais que se acomode em preguiça.

Energia na coragem; não demais que se faça temeridade.

Brandura na prudência; não demais que se recolha em comodismo.

No caminho da vida, há que aprender com a própria vida.

Vejamos o carro moderno nas viagens de hoje; nem passo a passo, porque isso seria ignorar o progresso diante do motor; nem velocidade além dos limites justos, o que seria abusar do motor para descer ao desastre e à morte prematura.

Em tudo, equilíbrio, porque, se tivermos equilíbrio, asseguraremos, em toda parte e em qualquer tempo, a presença de caridade e paciência, em nós mesmos, as duas guardiãs capazes de garantir-nos trajeto seguro e chegada feliz.

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Alma e Coração. Lição nº 19. São Paulo: Pensamento).

Em torno da guerra

Em torno da guerra

A guerra será um desequilíbrio determinado por Deus?

Em hipótese alguma. Deus poderia ser considerado autor de desequilíbrios, quando constitui para nós outros a harmonia suprema? O flagelo da destruição representa o mais alto desequilíbrio dos homens, constitui seus instintos ferozes desencadeados, sua criminosa indiferença para com os poderes eternos, a resultante da tirania de suas leis. Busquemos figurar a solução para entendimento mais vasto.

O planeta é uma grande escola, onde o Espírito humano efetua um curso de aperfeiçoamento. O Senhor do Universo permite que os alunos organizem os regulamentos do enorme educandário à sombra de suas leis inelutáveis.

Eis que os discípulos se revoltam, disputam hegemonias injustificáveis, encarceram-se em concepções absurdas no capítulo da política, da filosofia, da religião. Surgem os atritos imensos. Depois do império da ambição, é o império da morte.

Quem poderia atribuir a Deus a desarmonia destruidora? Contra os que ousassem afirmá-lo, teremos a visão permanente das leis eternas, junto às quais Deus não permite a intervenção dos filhos inquietos.

Por mais que as nações se empenhem nos embates sangrentos, o sol continuará prestando benefícios a todos, indistintamente, o frio e a chuva chegarão a seu tempo, flores e frutos surgirão ao lado das batalhas.

Ainda que todos os milhões de alunos da grande escola marchassem uns contra os outros, ela continuaria equilibrada para todos, oferecendo a sagrada oportunidade que os discípulos ainda não chegaram a compreender. Vede, pois, a grande leviandade dos que ousam atribuir a Deus o movimento de incompreensão e ignorância das criaturas.

Poderíamos saber qual a nação que sairá vencedora do atual conflito europeu? (*)

Nenhum amigo ponderado dos homens, dos círculos de nossa Esfera espiritual, poderia opinar numa interrogação como essa.

Entretanto, como todo ensejo deve ser aproveitado para o bem, perguntamos de nossa parte: Onde encontraríamos o vencedor entre tantas desolações e ruínas?

Terminado o movimento, deveria haver na Terra um grande silêncio. O único triunfador seria Jesus Cristo, sem cujo fundamento de vida e verdade todos os protestos dos homens são inúteis.

O espetáculo é por demais doloroso para que se reflita em cânticos de vitória. Há corações maternos despedaçados, famílias dispersas, crianças que choram de fome, lares que se destroem sob tempestades de fogo.

Nas cidades bombardeadas, a dor se sobrepõe às esperanças. O sangue é uma ironia para o despotismo, a morte vagueia sobre a miséria das ruínas fumegantes e pergunta onde se encontra o espaço vital.

Os homens podem invocar o caráter sagrado dos princípios.

Mas todos os princípios generosos do mundo vieram do Cristo.

A criatura não poderá se gloriar de si própria. Por descuidarem da defesa desses patrimônios que Jesus lhes outorgou, eis que os homens movimentam a carreira das batalhas sangrentas, mobilizam canhões homicidas e semeiam carnificina e destruição.

Quando cair o último soldado, Jesus contemplará o campo ensopado de lágrimas e sangue, e chamando os contendores perguntará, com justiça: “Onde se encontra o vencedor?”

Emmanuel

(*) Obs.: Consta do original que a mensagem, trata de questões respondidas por Emmanuel, publicadas em 1942 na revista O Revelador, de São Paulo, capital) Reformador — Agosto de 1978.

De: Xavier, Francisco Cândido. Diversos espíritos; Weguelin, João Marcos (org.). Cartas do alto. Belo Horizonte: Vinha de Luz.

TRANSFORMAÇÃO

TRANSFORMAÇÃO

Emmanuel

Suspirando pelo domínio do espaço embriaga-se o homem, prelibando a contemplação dos reinos multifários da natureza cósmica, e, muitas vezes, fascinado pelas grandes promessas religiosas, antecipa-se ao julgamento da Humanidade, mentalizando cataclismas de variada expressão, com os quais cessaria a Divina Providência de reformar-nos a oportunidade de trabalho e progresso, burilamento e purificação sobre a Terra.

Entretanto, lembra-te de que para os milhares de consciências que hoje partiram ao encontro da grande renovação pelos braços da morte, todo o painel da existência sofreu modificação visceral e profunda…

Há revelações e surpresas todos os dias para quantos se vêem inelutavelmente chamados à definitiva transformação…

E, cada viajor constrangido à alteração dessa espécie, caminha segundo as suas próprias afinidades e preferências para a esfera que lhe corresponde aos desejos.

Não olvides que além da carne, em cuja protetora vestimenta agora estagias, outros círculos aguardam-te o cérebro e o coração.

Qual ocorre na experiência terrestre, em que diversos setores de atividade se entrosam no espaço de que dispomos, além do túmulo, os delinqüentes fazem a flagelação da penitenciária infeliz, os viciados constroem o cortiço da treva adequado à loucura em que respiram, os trabalhadores fiéis ao bem sustentam a oficina da caridade o túnel de esperança entre a dúvida humana e a certeza Divina.

Não vale desse modo, desertar do amor para o êxtase inútil, na previsão ociosa de paisagens e acontecimentos que surgirão, compulsórios, para quem se liberta e sim a educação constante de nossas próprias almas no estudo infatigável e no amor sem limites, porque o mundo que em verdade nos alçara ao Céu Pleno será o mundo de nós mesmos, quando puro e sem sombra, conseguir retratar a Grandeza Celeste.

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Refúgio. Cap.Transformação. São Paulo: IDEAL)

AÇÕES E REAÇÕES

AÇÕES E REAÇÕES

Ante a coleção das boas ações de alguém é forçoso se lhe analisem igualmente as reações diante da vida. Um e outro lado do bem.

* * *

Doarás o prato substancioso a quem te bate à porta em penúria; mas não se te azedará o coração, se o beneficiário te fere com palavras de incompreensão e desequilíbrio. Ofertarás tua própria alma, a favor dos amigos, aos quais te devotas; entretanto, se algum deles te malversa os tesouros afetivos que lhe puseste ao dispor, abençoá-lo-ás, como sempre o fizeste, conquanto nem sempre lhe possas compartilhar, de imediato, a intimidade ou a convivência.

* * *

Atenderás ao impositivo de auxiliar os companheiros que se te aderem aos pontos de vista; no entanto, aprenderás a respeitar os adversários e a reverenciar as qualidades edificantes de que se façam portadores.

* * *

Exteriorizarás entusiasmo e alegria, nas horas belas da estrada; todavia, demonstrarás coragem e paciência, nos dias amargos, quando tudo pareça despedaçar-te os sonhos e aniquilar-te as esperanças.

* * *

Tuas ações constituem recursos que sorveste na organização crediária da vida. Tuas reações, porém, são as garantias que lhes preservam a estabilidade ou os golpes que lhes desmerecem o valor, conforme o bem ou o mal a que te afeiçoes. Se as tuas reações forem constantemente elevadas, decerto que as tuas realizações serão sempre respeitáveis e dignas.

* * *

Pelas ações somos retratados, segundo as tintas da opinião de cada um. Pelas reações somos vistos em nossa estrutura autêntica.

* * *

Provas, aflições, problemas e dificuldades se erigem na existência, como sendo patrimônio de todos.

O que nos diferencia, uns diante dos outros, é a nossa maneira peculiar de apreciá-los e recebê-los.

Anotemos semelhante realidade, porquanto, em nos consagrando ao exercício real da caridade, a benefício do próximo e a favor de nós mesmos, é indispensável nos mantenhamos vinculados aos ensinamentos do Cristo, na hora de agir e de reagir.

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Rumo certo. Cap.10. FEB)

Vê e segue

Vê e segue

“Uma coisa sei: eu era cego e agora vejo.” – (João, 9:25.)

Apesar de o trabalho renovador do Evangelho, nos círculos da consolação e da pregação, desdobrar-se, diante das massas, semeando milagres de reconforto na alma do povo, o serviço sutil e quase desconhecido do aproveitamento da Boa Nova é sempre individual e intransferível.

Os aprendizes da vida cristã, na atividade vulgar do caminho, desfrutam do conceito de normalidade, mas se não gozam de vantagens observáveis no imediatismo da experiência humana, quais sejam as da consolação, do estímulo ou da prosperidade material, de maneira a gravarem o ensinamento vivo de Jesus, nas próprias vidas, passam à categoria de pessoas estranhas, muita vez ante os próprios companheiros de ministério.

Chegado a semelhante posição, e se sabe aproveitar a sublime oportunidade pela submissão e diligência, o discípulo experimenta completa transposição de plano.

Modifica a tabela de valores que o rodeiam.

Sabe onde se ocultam os fundamentos eternos.

Descortina esferas novas de luta, através da visão interior que outros não compreendem.

Descobre diferentes motivos de elevação, por intermédio do sacrifício pessoal, e identifica fontes mais altas de incentivo ao esforço próprio.

Em vista disso, freqüentemente provoca discussões acesas, com respeito à atitude que adota à frente de Jesus.

Por ver, com mais clareza, as instruções reveladas pelo Mestre, é tido à conta de fanático ou retrógrado, idiota ou louco.

Se, porém, procuras efetivamente a redenção com o Senhor, prossegue seguro de ti mesmo; repara, sem aflição e sem desânimo, as contendas que a ação genuína de Jesus em ti recebe de corações incompreensivos e estacionários, repete as palavras do cego que alcançou a visão e segue para diante.

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Fonte viva. Cap. 95. FEB)

A VIOLÊNCIA

A VIOLÊNCIA

Genericamente, por violência, tomamos a atitude agressiva, desconcertante, que produz choque e gera receios.

Sob este aspecto, a violência se espraia por todos os quadrantes da Terra, ameaçando a integridade física, moral e social da Humanidade, convocando os estudiosos do comportamento a encontrar a gênese dessa atual nefasta epidemia…

Sempre houve violência no Mundo; porém, não generalizada como hoje. Antes era exercida pela prepotência dos dominadores de povos e pelas castas que se permitiam privilégios absurdos, espoliando e afligindo os fracos que se lhes submetiam, inermes.

Se considerarmos, porém, mais atentamente, os fatores criminógenos que levam a criatura a delinquir, vitimada pela violência, identificaremos os estados da insatisfação íntima, dos distúrbios da emotividade, aliciados aos graves fatores socioeconômicos de alarmante gravidade.

Esta violência, no entanto, que é alucinação, desequilíbrio psíquico, chama a atenção, estarrece…

Outra forma de violência há, danosa e mais grave, portanto, merecendo maior investimento, a fim de ser bloqueada ou anulada nas suas nascentes virulentas, propiciadoras daquela que estruge nas avenidas elegantes e nos logradouros miseráveis do mundo, aviltando e destruindo. Porque lesa os centros do sentimento humano, passa despercebida ou dissimulada, ocultando-se nos sorrisos da desfaçatez e da impiedade aplaudidas pelos interesses subalternos, nos recintos das ilusões douradas, onde muitos se locupletam.

A presença, na sociedade, de velhinhos em desvalimento, sem albergue nem amparo; a negação do direito de mínimo socorro à saúde a centenas de milhões de enfermos; o desinteresse pela falta de pão e água, o incontestável e crescente número de seres em condições sub-humanas; o abandono a que se encontram relegadas incalculáveis legiões de menores carentes; a tremenda escassez de oportunidade para a educação de menores em formação da personalidade são um libelo vigoroso de acusação, constituindo a mais torpe forma de violência contra o homem, em desrespeito à inalienável condição de criatura, que as Leis e os cidadãos dominantes desprezam e abandonam, impondo, na escravidão da ignorância que se estabelece, apenas superlativas, injustas e ingratas…

Coexistirem o luxo e a miséria, a abundância e a escassez, o excesso e a ausência, gerando a indiferença dos primeiros pelos segundos, negando-se aqueles a entenderem os últimos, isto é fator preponderante e característico do estado de primitivismo em que transita o progresso, na Terra, longe dos valores éticos, únicos capazes de tornar a vida digna de ser vivida e o homem menos lobo do homem, irmão, portanto, do seu próximo.

Ultrajados pelo desdém dos poderosos, que lhes negam a oportunidade de fruir o mínimo das condições humanas, aliás, reconhecidas, essas condições, pelos governos detodos os países ditos civilizados, arrogam-se, na infelicidade em que se rebolcam o dever de tomar pela força o que lhes é negado pelo egoísmo.

O problema básico da violência é o desamor humano, matriz da avareza e da insensibilidade de que se revestem os falsamente ditosos.

Quando se compreenda a necessidade de leis mais justas, objetivando atender e amparar os fracos e oprimidos, antes que mais esmagá-los e esquecê-los; quando a bondade se voltar para o auxílio fraternal; quando o amor sensibilizar as mentes e os corações, que se volverão para a retaguarda, distendendo oportunidades de serviço e apoio, modificar-se-á a paisagem moral terrena, porque, incidindo nos fatores causais da miséria, realiza a terapia preventiva contra o mal, desaparecendo a violência oculta, e a que explode na desdita e na dor cederá terreno à confraternização e ao trabalho dignificante que impulsionarão a marcha ascensional da Terra e dos homens, para o estágio de mundo melhor e mais feliz.

O antídoto para qualquer tipo de violência é sempre o amor, tal como o estímulo aos estados agressivos decorre do egoísmo.

Herança nefasta dos instintos que predominam na natureza animal do homem, a violência se diluirá à medida em que se sobreponha a sua natureza espiritual, que é a presença do Pai Criador ínsita em todos os seres.

Benedita Fernandes

Página psicografada pelo médium Divaldo Pereira Franco, no Centro Espírita "Caminho da Redenção", em Salvador, no dia 18/12/1980:

- Divulgada pela União Municipal Espírita de Araçatuba (folheto, 1981). Publicada no jornal Flama Espírita, de Uberaba, de 24/10/1981;

- No livro: Franco, Divaldo Pereira. Terapêutica de emergência. 1.ed. Cap. 12. Salvador: LEAL. 1983;

- Nos livros: Carvalho, Antonio Cesar Perri. Dama da caridade. 2.ed. São Paulo: RADHU. 1987. P.89-91; Carvalho, Antonio Cesar Perri. Benedita Fernandes. A dama da caridade. 1.ed. Araçatuba: Cocriação. 2017. P.115-117;

- Fernandes, Benedita (Trad. J.E.) La violence. Revue spirite. 165 Anée. 4.Trimestre.P. 35-36. 2022.

Pacificação

Pacificação

“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.” – Jesus

(Mateus, 5: 9).

Mas que queria Jesus dizer por estas palavras: “Bemaventurados os que são brandos porque possuirão a Terra”, tendo recomendado aos homens que renunciassem aos bens deste mundo e havendo-lhes prometido os do Céu? “Enquanto aguarda os bens do Céu, tem o homem necessidade dos da Terra para viver. Apenas, o que ele lhe recomenda é que não ligue a estes últimos mais importância que aos primeiros.”

(ESE, Cap. 9, 5).

Escutaste interrogações condenatórias, em torno do amigo ausente.

Informaste algo, com discrição e bondade, salientando a parte boa que o distingue e, sem colocar o assunto no prato da intriga, edificaste em silêncio a harmonia possível.

Surpreendeste pequeninos deveres a cumprir, na esfera de obrigações que te não competem.

Sem qualquer impulso de reprimenda, atendeste a semelhantes tarefas, por ti mesmo, na. certeza de que todos temos distrações lamentáveis.

Anotaste a falta do companheiro.

Esqueceste toda preocupação de censura, diligenciando substitui-lo em serviço, sem alardear superioridade.

Foges de divulgar-lhe a infelicidade e dispões-te a auxiliá-lo no momento preciso, sem exibição de virtude.

Recebeste queixas amargas a te ferirem injustamente.

Sabes ouvi-las com paciência, abstendo-te de impelir os irmãos do caminho às teias da sombra, trabalhando sinceramente por desfaze-las.

Caluniaram-te abertamente, incendiando-te a vida.

Toleras serenamente todos os golpes, sem animosidade ou revide, e, respondendo com mais ampla abnegação, no exercício das boas obras, dissipas a conceituação infeliz dos teus detratores.

Descobriste a existência de companheiros iludidos ou obsedados que se fazem motivos de perturbação ou de escândalo, no plantio do bem ou na seara da luz.

Decerto, não lhes aplaudes a inconsciência, mas não lhes agravas o desequilíbrio, através do sarcasmo, e oras por eles, amparando-lhes o reajuste, pelo pensamento renovador.

Se assim procedes, classificas-te, em verdade, entre os pacificadores abençoados pelo Divino Mestre, compreendendo, afinal, que a criatura humana, isoladamente, não consegue garantir a paz do mundo, mas cada um de nós pode e deve manter a paz dentro de si.

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Livro da esperança. Uberaba: CEC)

Capacete da esperança

Capacete da esperança

“Tendo por capacete a esperança na salvação.” – Paulo. (1ª Epístola aos Tessalonicenses, 5:8.)

O capacete é a defesa da cabeça em que a vida situa a sede de manifestação do pensamento e Paulo não podia lembrar outro símbolo mais adequado à vestidura do cérebro cristão, além do capacete da esperança na salvação.

Se o sentimento, muitas vezes, está sujeito aos ataques da cólera violenta, o raciocínio, em muitas ocasiões, sofre o assédio do desânimo, à frente da luta pela vitória do bem, que não pode esmorecer em tempo algum.

Raios anestesiantes são desfechados sobre o ânimo dos aprendizes por todas as forças contrárias ao Evangelho salvador. A exigência de todos e a indiferença de muitos procuram cristalizar a energia do discípulo, dispersando-lhe os impulsos nobres ou neutralizando-lhe os ideais de renovação.

Contudo, é imprescindível esperar sempre o desenvolvimento dos princípios latentes do bem, ainda mesmo quando o mal transitório estenda raízes em todas as direções.

É necessário esperar o fortalecimento do fraco, à maneira do lavrador que não perde a confiança nos grelos tenros; aguardar a alegria e a coragem dos tristes, com a mesma expectativa do floricultor que conta com revelações de perfume e beleza no jardim cheio de ramos nus.

É imperioso reconhecer, todavia, que a serenidade do cristão nunca representa atitude inoperante, por agir e melhorar continuadamente pessoas, coisas e situações, em todas as particularidades do caminho.

Por isso mesmo, talvez, o apóstolo não se refere à touca protetora.

Chapéu, quase sempre, indica passeio, descanso, lazer, quando não defina convenção no traje exterior, de acordo com a moda estabelecida.

Capacete, porém, é indumentária de luta, esforço, defensiva.

E o discípulo de Jesus é um combatente efetivo contra o mal, que não dispõe de muito tempo para cogitar de si mesmo, nem pode exigir demasiado repouso, quando sabe que o próprio Mestre permanece em trabalho ativo e edificante.

Resguardemos, pois, o nosso pensamento com o capacete da esperança fiel e prossigamos para a vitória suprema do bem.

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Fonte viva. Cap. 94 FEB)