Simplicidade para O Evangelho segundo o Espiritismo
Antonio Cesar Perri de Carvalho
Na época dos 160 anos de O evangelho segundo o espiritismo, há dois anos,veio a lume o livro que elaboramos com o objetivo de apresentar comentários de uma forma simples sobre os capítulos da significativa obra básica de Allan Kardec.1
Os temas tratados pelo Codificador nessa obra são os mais necessários para atender o público que procura as instituições espíritas, pois oferece consolo, esclarecimento, fortalecimento da fé e da esperança àqueles que, em geral, chegam às instituições espíritas premidos por aflições, dificuldades variadas e dúvidas existenciais. No contexto da atualidade, proliferam as aflições, ansiedades, dúvidas e até revoltas. Como se compreender a proposta de Jesus em mundo com tantas adversidades e contrastes?
Daí a razão de Kardec anotar na Introdução de O evangelho segundo o espiritismo: “Muitos pontos dos Evangelhos, da Bíblia e dos autores sacros em geral só são ininteligíveis, parecendo alguns até irracionais, por falta da chave que faculte se lhes apreenda o verdadeiro sentido. Essa chave está completa no Espiritismo, como já o puderam reconhecer os que o têm estudado seriamente e como todos, mais tarde, ainda melhor o reconhecerão”.2
Kardec analisa as bem-aventuranças expressas por Jesus no Sermão da Montanha e a melhor compreensão dessas expectativas futuras somente ocorre com a compreensão do mecanismo das vidas sucessivas, a progressão espiritual, e, consequentemente uma nova visão sobre a Justiça Divina, oferecida pelo espiritismo. No capítulo Bem-aventurados os aflitos, o mais longo de O evangelho segundo o espiritismo, há temas como: justiça das aflições, causas atuais das aflições, causas anteriores das aflições, esquecimento do passado, motivos de resignação, o suicídio e a loucura. Os ensinos de Jesus, notadamente os expressos no Sermão da Montanha, e sua prática de acolhimento, misericórdia e apoio, passam a ter coerência. Podem representar um refrigério para as almas atormentadas. Jesus trouxe as leis morais para se preparar uma nova época para a Civilização terrestre, mas a contrapartida de esforço e de realização, com base na adoção da Lei de Deus, é compromisso e responsabilidade de cada um.
Sem criar ideias de polemização com propostas vigentes na época de exclusivismos, o lema desfraldado em O evangelho segundo o espiritismo e que deu origem ao título do capítulo abre caminhos para todas as pessoas, sem distinções de crenças religiosas: “a máxima ‘Fora da caridade não há salvação’ é a consequência do ‘princípio de igualdade diante de Deus e da liberdade de consciência”.
Com base em conceito do Codificador sobre a igualdade entre direito pessoal e direito do próximo expresso no Capítulo XI de O evangelho segundo o espiritismo, fica claro que a sublimidade da religião cristã está em que ela tomou por base princípios de respeito ao direito do próximo. Sobre as qualidades que distinguem o homem de bem, assentadas na prática moral trazida por Jesus, anota Kardec: “respeita nos seus semelhantes todos os direitos que lhes são assegurados pelas leis da Natureza, como gostaria que respeitassem os seus”; “reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para dominar as suas más inclinações”.2
Assim, o registro de João “Deus é amor” (I João 4, 8), com a compreensão do mecanismo das vidas sucessivas, torna ultrapassada a antiga ideia de um “deus” exclusivista, julgador e punidor. No mundo de seres imperfeitos como a Terra, o importante é o esforço para superações e há valiosos exemplos de vida na história do próprio cristianismo, como o apóstolo Paulo e o teólogo Agostinho. Isso fica muito claro no final da mensagem espiritual de Paulo de Tarso sobre o novo conceito: “o verdadeiro espírita e o verdadeiro cristão são uma e a mesma coisa, pois todos os que praticam a caridade são discípulos de Jesus, independente do culto ao qual pertençam”.
Na atualidade, há continuadas referências à transição em que o planeta Terra estaria atravessando. No conceito espírita, no contexto de um mundo de provas e expiações, não se pode olvidar que se trata de um processo educativo, passo a passo, com o esforço individual de todos para que o conjunto da Humanidade apresente sinais de aperfeiçoamento moral e espiritual. E Jesus é o “tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo”3.
Portanto é a sinalização para a caminhada espiritual em direção ao modelo, são os ensinos do Mestre. Realmente há uma rota a ser seguida pela Civilização, em coerência com os ensinos de respeito, paz e amor daquele que se apresentou como “caminho, verdade e vida”. Levando em consideração subsídios esclarecedores e educativos dessa obra básica de Kardec, e as experiências concentradas nessas últimas décadas, sentimo-nos estimulado a elaborar um livro contendo comentários sobre todos os capítulos de O evangelho segundo o espiritismo, mas com estrutura e abordagens simples, para favorecer a leitura a um maior contingente de espíritas.1
Em cada capítulo transcrevemos versículos do Novo Testamento, selecionados por Kardec na abertura dos capítulos de seu livro. Efetivamos comentários objetivos referentes ao significado do texto bíblico, destacamos ideias centrais da análise feita pelo Codificador e as instruções espirituais inseridas na obra. Em nossa ótica, a grande maioria das pessoas que procuram os centros são integrantes de uma faixa sócio-cultural mais simples. Nas abordagens nas reuniões públicas deve-se levar em consideração o público-alvo predominante na instituição. Igualmente, no conjunto da literatura espírita, deve haver obras acessíveis, no desenvolvimento do conteúdo e, sem dúvida, no valor aquisitivo das mesmas para se tornar uma aquisição mais viável a esse público.
Essas preocupações encontram guarida em conclamação do espírito Erasto: “Ide, pois, e levai a palavra divina: aos grandes que a desprezarão, aos eruditos que exigirão provas, aos pequenos e simples que a aceitarão; […] Arme-se a vossa falange de decisão e coragem! Mãos à obra! o arado está pronto; a terra espera; arai!”2.
Todavia, torna-se oportuna a lembrança que o ex-doutor da Lei Paulo de Tarso procurava atender a todos. Sem adotar a postura antiga de um autêntico sábio do judaísmo e sem distinções nas atenções materiais, morais e espirituais, portava-se como anotou em recomendações que são históricas: “Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns” (I Coríntios 9, 22).
Cabe aos centros espíritas levar em consideração os momentos complexos vividos no mundo, com continuados e intensos impactos na sociedade em geral, e valorizar a mensagem contida em O evangelho segundo o espiritismo que colabora com a compreensão do complexo cenário atual. Há mais de 160 anos consolando e esclarecendo!
Referências:
1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Evangelho com simplicidade. Matão: O Clarim. 2024. 161p.
2) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O evangelho segundo o espiritismo. Cap. XX. Rio de Janeiro: FEB. 1986.
3) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos espíritos. Q. 625. Rio de Janeiro: FEB. 1997.