A “catarse espiritual” do pretérito ao presente

A “catarse espiritual” do pretérito ao presente

Antonio Cesar Perri de Carvalho

No livro Entre vidas. Cá e lá1, desenvolvemos um tipo de autobiografia, mais relacionada com situações sugestivas de uma condição de interexistência.

A nuance de interexistência, é bem esclarecida pelo filósofo Herculano Pires que criou a palavra e o conceito: “é o Ser que transcende a simples projeção na existência ao romper os limites do nascimento e da morte. […] A interexistência é a situação da essência que não se encontra na existência. É o intermúndio em que o ser se completa na morte".2

Nessas óticas de interpretação, o novo livro contempla depoimento sobre trajetória de vida com o objetivo de suscitar aos leitores o estudo sobre temas relacionados com eventos medianímicos e/ou repercussões de influências advindas de vidas pretéritas: reflexões sobre a ocorrência de fenômenos e lembranças de existências anteriores na infância e adolescência; as relações com o movimento espírita de outros países e, no conjunto, incentivar análises sobre o estado de espírito individual e a compreensão sobre o contexto social e espiritual de nações que temos relacionamentos.

Pela delicadeza dos assuntos tratados, à guisa de prefácios enriquecemos o livro com as opiniões de lideranças espíritas com experiências na área psíquica/espiritual: Vanessa Cristina Zilli Anseloni (Virgínia, EUA), Célio Trujillo Costa (Curitiba, Pr) e Deusa Samu (São Paulo).

O psiquiatra Célio Costa considera que “poderíamos dizer que se tratou de uma ‘catarse espiritual’ de reflexos de situações passadas e do trabalho espiritual a ser desenvolvido na presente existência” e cita Sigmund Freud: “que os sentimentos e ações que não podem ser admitidos para a vida regular do indivíduo, o consciente recalca para o inconsciente, que aí passa, sob a forma de energia, a circular como uma entidade independente, como se fosse um verdadeiro agente estranho à própria pessoa”. Opina que “a catarse é que resolverá o problema de esse ‘ser intruso’ […] o falar sobre esses sentimentos e admiti-los perdoando-se, ou realizar ações contrárias às que determinaram o conflito emocional, trará a cura. […] o fundamento espiritual da reencarnação e teremos explicação mais profunda sobre a catarse. Aquilo que foi feito errado perante a Lei Natural ou não realizado, por variadas circunstâncias, e que estava na programação numa existência, permanece na consciência espiritual registrada no perispírito. O perispírito, corpo espiritual, é o reservatório da memória energética de nossas virtudes e dos defeitos que ainda temos que corrigir. […] quando a Ciência admitir o corpo espiritual e a reencarnação, verá que aquilo que não é compatível com a Lei Natural e que é recalcado pelo consciente atual, permanece na consciência espiritual e que deverá fazer a "catarse" em nova programação reencarnatória”.1

A abordagem entre o “cá e lá”, autêntico depoimento, suscita reflexões sobre diversas nuances de experiência de vida, considerando as análises dos prefaciadores e a espinha dorsal dos esclarecimentos fundamentais em O livro dos espíritos3: “Não temos, é certo, durante a vida corpórea, lembrança exata do que fomos e do que fizemos em anteriores existências; mas temos de tudo isso a intuição, sendo as nossas tendências instintivas uma reminiscência do passado”. “Exercem os Espíritos alguma influência nos acontecimentos da vida? – Certamente, pois que te aconselham”.

Interessante a coerência dos registros do livro Entre irmãos de outras terras4 com manifestações de espíritos ligados a vivências norte-americanas: Ernest O’Brien anota: “Todo ser humano é rodeado de oportunidades sem fim e de infinitas possibilidades. A lei cármica retribui a você do modo como você a recebe. Procure conhecer-se e praticar as boas ações sempre. Experimente. […] A própria vida exige a morte como um renascimento; entre ambas, nossa consciência permanece. Experiências vêm, experiências vão; neste ínterim nossa consciência prossegue”.

Fica claro que merecem algumas considerações o aparecimento de alguns episódios medianímicos na infância e a relação estabelecida com influências de vida pretérita. Foi importante para o encaminhamento a tratamento espiritual da então criança, depois seguindo-se o engajamento em atividades assistenciais e doutrinárias em instituição espírita.1,5

As eventuais manifestações mediúnicas na infância e adolescência, devem merecer atenção nas instituições espíritas, não se restringindo a participações nas chamadas aulas de evangelização infanto-juvenil. Há necessidade de um atendimento integrado que envolve áreas ligadas à mediunidade e à família. E, em alguns casos, orientações psicológicas desde que vinculadas à uma linha mais espiritualista.

Marcantes foram os múltiplos fatos espontâneos ocorridos ao longo da existência, pois provavelmente a espiritualidade permitiu revelações e intuições em continuadas coincidências de informações espirituais e de “achados” até de maneira serindipitosa em várias viagens pela Europa.

Passadas sete décadas de existência corpórea intensamente vivida, ao fazer uma retrospectiva, na realidade, temos a sensação de terem sido várias existências simultâneas.1,5

Referências:

1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Entre vidas. Cá e lá. Matão: Casa Editora O Clarim. 2026. 224p.

2) Pires, José Herculano. O ser e a serenidade. Ensaio de antologia interexistencial. São Paulo: Paidéia. 2008. 152p.

3) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. O livro dos espíritos. Q. 393, 522 e 525. Rio de Janeiro: FEB. 1997.

4) Xavier, Francisco Cândido; Vieira, Waldo. Por Espíritos diversos. Entre irmãos de outras terras. Cap. 5, 33 e 35. Rio de Janeiro: FEB. 1966.

5) Carvalho, Antonio Cesar Perri. Pelos caminhos da vida. Memórias e reflexões. Araçatuba: Cocriação. 2021. 632p; eBook Kindle pela Amazon:(copie e cole): https://www.amazon.com.br/dp/B0HHHF2HHP