O lado sombrio dos que buscam a luz no meio espírita

O lado sombrio dos que buscam a luz no meio espírita

Vladimir Alexei

Para todo argumento que evidencia as idiossincrasias do movimento de divulgação espírita, surge um contra-argumento — na maioria das vezes religioso e, em tantas outras, sem base alguma.

A internet abriu um leque infinito de oportunidades para a divulgação doutrinária. É possível, inclusive, que os meios convencionais, como cursos e encontros presenciais, passem a ter sua eficácia questionada. Contudo, essa liberdade trouxe excessos. Existem canais cujo conteúdo resume-se a apontar erros alheios, focando especialmente em divulgadores que geram mais "ibope" (likes).

É uma posição tentadora: do conforto do lar, com tempo para editar e confrontar o conteúdo criticado com as obras de Kardec, o crítico passa para os incautos a imagem de um baluarte da doutrina. Mas restaria saber: diante de uma plateia real, entre encarnados e desencarnados, esse crítico manteria a mesma habilidade ou estaria livre de erros? O problema é que tais canais pouco contribuem, pois apenas escancaram interpretações subjetivas e pessoais. Tentar mudar palestrantes e blogueiros é um erro quase doutrinário; eles já são conhecidos pelo que entregam.

No outro extremo, vemos casas espíritas geridas com "mão de ferro", onde toda decisão — da reforma do telhado à nova tarefa — é pautada em "orientações dos Espíritos". Embora digam que a decisão final é dos encarnados, criam um ambiente de insegurança onde todos aguardam sinais místicos para agir. Há casos de interpretação de sonhos que fariam Freud rolar no mundo espiritual. Questiona-se: o propósito nobre de construir ou ampliar justifica essa dependência mediúnica para questões administrativas? Recentemente, entre 2025 e 2026, acompanhamos polêmicas sobre a mediunidade.

É curioso notar: a maioria dos que ditam regras sobre o tema não são médiuns, não estudaram a fundo ou sequer leram O Livro dos Médiuns. Por outro lado, há quem conheça a letra da obra, mas não consegue acrescentar em vivência, porque como indivíduos conhecem, mas como membros de um time, se perdem.

O ponto central é o excesso.

A divulgação do Espiritismo, para muitos, tornou-se uma profissão: coaches financeiros, médiuns cobrando por "cartas do além", palestrantes que misturam o Evangelho com autopromoção profissional e o uso persistente dos Espíritos para validar agendas políticas.

Como dizem os especialistas: todo excesso esconde uma falta. Há uma inversão clara de valores. A ordem natural deveria ser: aprender (como fez Ernesto Bozzano), internalizar, transformar informação em conhecimento e, só então, divulgar. Como diria a máxima: "Pregue o Evangelho; se for preciso, use palavras". Infelizmente, vemos a era do "espírita polímata". Autoproclamar-se ou aceitar tal título — ostentado por gênios como Da Vinci ou Santos Dumont — revela uma falta de autocensura e de humildade.

Onde vamos parar? Médiuns cobrando por consolo e divulgadores em pedestais de vaidade combinam com o que o Espiritismo ensina?

A "Luz" tem sido ofuscada pela névoa densa da ignorância e do personalismo. Não se trata de julgar a moral alheia, mas de um pedido de atenção. Precisamos rever o planejamento de nossas casas e programas de estudo. Falta humildade. Nem tudo o que é "bem produzido" é feito na luz; muitas vezes, é apenas a sombra do orgulho projetada por quem busca os holofotes, mas esqueceu-se da transformação interior.

O movimento espírita não ficou "bagunçado" após a pandemia; ele enfrenta desafios de sustentabilidade desde que saiu das mãos de Kardec. Frequentemente criticado por suas origens nas elites francesas, o Espiritismo sobreviveu graças ao prestígio de quem o abraçou, mas hoje o cenário é outro.

O meio está repleto de intelectuais que estudam a fisiologia da glândula pineal, mas ignoram o aspecto moral da doutrina, tratando-o como algo de foro íntimo e interpretativo. A conta chegará para todos nós que batemos no peito dizendo-nos espíritas, mas que praticamos a doutrina mais para os outros do que para o nosso próprio aperfeiçoamento.

Divulgar o Espiritismo sem iluminar a própria sombra é carregar o peso de respostas que não se vivem. Ninguém é missionário sozinho. Trabalhar em conjunto não é buscar consenso absoluto, mas unir diferentes aptidões para, coletivamente, travar o "bom combate".

(Transcrição de matéria divulgada pelo articulista em redes sociais, em 18/01/2026, reside e atua em Belo Horizonte, MG)

AGRADECER

AGRADECER

“E sede agradecidos.” — Paulo. (COLOSSENSES, CAPÍTULO 3, VERSÍCULO 15.)

É curioso verificar que a multidão dos aprendizes está sempre interessada em receber graças, entretanto, é raro encontrar alguém com a disposição de ministrá-las.

Os recursos espirituais, todavia, em sua movimentação comum, deveriam obedecer ao mesmo sistema aplicado às providências de ordem material.

No capitulo de bênçãos da alma, não se deve receber e gastar, insensatamente, mas recorrer ao critério da prudência e da retidão, para que as possibilidades não sejam absorvidas pela desordem e pela injustiça.

É por isso que, em suas instruções aos cristãos de Colossos, recomenda o apóstolo que sejamos agradecidos.

Entre os discípulos sinceros, não se justifica o velho hábito de manifestar reconhecimento em frases bombásticas e laudatórias.

Na comunidade dos trabalhadores fiéis a Jesus, agradecer significa aplicar proveitosamente as dádivas recebidas, tanto ao próximo, quanto a si mesmo.

Para os pais amorosos, o melhor agradecimento dos filhos consiste na elevada compreensão do trabalho e da vida, de que oferecem testemunho.

Manifestando gratidão ao Cristo, os apóstolos lhe foram leais até ao último sacrifício; Paulo de Tarso recebe o apelo do Mestre e, em sinal de alegria e de amor, serve à Causa Divina, através de sofrimentos inomináveis, por mais de trinta anos sucessivos.

Agradecer não será tão-somente problema de palavras brilhantes; é sentir a grandeza dos gestos, a luz dos benefícios, a generosidade da confiança e corresponder, espontaneamente, estendendo aos outros os tesouros da vida.

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Pão nosso. Cap. 163. FEB).

Da viúva Kardec às questões da atualidade em Dirigente Espírita

Da viúva Kardec às questões da atualidade em Dirigente Espírita


A revista digital Dirigente Espírita, órgão da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, na edição de janeiro/fevereiro de 2026, a presidente Julia Nezu destaca o 19o Congresso Estadual de Espiritismo em junho, sob o tema “O centro espírita no novo tempo”, que promoverá reflexões sobre a atuação das casas espíritas na atualidade.
Entre as matérias, Antonio Cesar Perri de Carvalho discute “Novas perspectivas para o movimento espírita”, propondo uma estrutura baseada no colegiado para enfrentar os desafios do século XXI. Marco Milani contribui com uma análise sobre a tríade “arrependimento, expiação e reparação” na justiça divina e oferece um alerta essencial sobre a manutenção da coerência doutrinária diante da ampla exposição digital e de práticas estranhas à Codificação. Também assina artigo sobre “Entre a tolerância e a coerência doutrinária”.
Adriano Calsone biografa “Madame Kardec, a mulher forte do Espiritismo”; “A trajetória de 77 anos do Instituto Espírita de Educação (IEE)” foi relembrada por Maurício Romão.
Artigos sobre: “Ansiedade e de pressão na assistência espiritual”, “Reflexões sobre a necessidade de clareza e compro misso na comunicação institucional”, “Um estudo sobre as causas da desmotivação e afastamento de tarefeiros em grupos mediúnicos”. Informações sobre o 1o Encontro de Ciência e Pesquisa Espírita (EnCPE); e homenagens a seareiros que desencarnaram: Sirlei Nogueira e José Antonio Vecchi.
Em “Fatos e vidas da história do espiritismo”, há uma relação de efemérides do bimestre.
Há várias notícias sobre eventos promovidos por Departamentos da USE-SP.
(Resenha GEECX)
Acesse Dirigente Espírita pelo link (copie e cole):

https://usesp.org.br/wp-content/uploads/2026/01/RDE-210-1.pdf

Bate-papo entre amigos sobre Divaldo Franco

Bate-papo entre amigos sobre Divaldo Franco

O programa “Divaldo entre amigos”, na noite do dia 16 de janeiro, coordenado por Luciano Klein (Ce), contou atuações de Lacordaire Faiad (MT), Cesar Perri (SP), Orson Carrara (SP), Wesley Caldeira (MG) e Raul Teixeira (RJ). Cada um dos participantes fez relatos sobre suas relações com o orador e médium Divaldo Pereira Franco (1927-2025). Programa promovido pelo Centro de Memória Vianna de Carvalho, de Fortaleza.

Acesse pelo link (copie e cole):

https://www.youtube.com/live/4n5HTFYXUWQ?si=-i7pmUiAvyhwCVTD

 

 

 

Sócrates e Platão – precursores da ideia cristã e do espiritismo

Sócrates e Platão – precursores da ideia cristã e do espiritismo

Na noite do dia 19 de janeiro, com palestra presencial e com transmissão pela internet, Cesar Perri desenvolveu o tema “Sócrates e Platão – precursores da ideia cristã e do espiritismo”, da Introdução de “O Evangelho segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, na sede do Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo de São Paulo. Esta obra é o novo programa que será desenvolvido em sequência todas as 2as feiras; em seguida à exposição há passes com a equipe do CCDPE.

Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo Eduardo Carvalho Monteiro, de São Paulo: Alameda dos Guaiases, 16 – Indianópolis/Planalto Paulista.

Link para acessar a palestra:

 

Mensagem de Sirlei Nogueira

Queridos amigos, familiares e a todos os corações que me envolveram em apoio, ternura e compaixão, recebei minha eterna gratidão.

A experiência da desencarnação surpreendeu-me. O AVC abalou profundamente meu equilíbrio emocional e físico. Embora jamais temesse a morte, a dor maior não foi o fim da existência corporal, mas a constatação da fragilidade do corpo: ver-me imobilizado, privado da fala, impossibilitado de agir, foi para minha alma uma tempestade silenciosa. Não houve revolta, apenas a tristeza serena de quem se despede da Terra sem conseguir concluir os projetos que o coração acalentava, especialmente os da Estação Dama da Caridade.

Quando o corpo, já exaurido do fluido vital, cessou sua função, não senti dor. Um torpor suave envolveu-me, semelhante a um sono profundo. Percebia-me sendo lentamente desprendido do casulo físico inerte. Mãos generosas amparavam-me com extremo cuidado; lágrimas eram derramadas em abundância, e presenças queridas aproximavam-se para acolher-me e agradecer-me pelo trabalho realizado. Envergonhava-me diante de tais palavras, pois, em minha consciência, pouco havia feito.

A emoção, porém, alcançou seu ápice quando ouvi uma voz doce a chamar-me. Era minha mãe biológica, tomada por pranto e alegria, envolvendo-me em um abraço que atravessava mundos, enquanto sussurrava, entre lágrimas: “Meu filho querido…”

Logo depois, fui surpreendido por uma presença ainda mais profunda. Mãe Dita estava ali. Diante dela, toda resistência caiu, e chorei como uma criança, em pranto convulsivo. Suas palavras ecoam em mim até hoje: “Meu filho, sou eternamente grata pela homenagem que me prestaste, sem que eu a merecesse. Tão pouco fiz; apenas cumpri os deveres que me resgataram das quedas do passado.”

Meus irmãos, a visão veneranda de Benedita Fernandes confrontava-me com minhas próprias imperfeições e com o sentimento de não merecimento. Julguei, por instantes, estar sonhando. Contudo, seu amor envolveu-me de tal forma que dissipou qualquer dúvida. Com ternura infinita, disse-me apenas: “Vem, meu filho.”

Eram duas mães a me resgatar do limiar entre os mundos. Sentia-me profundamente confortado, mas a emoção embargava-me a voz; palavras tentavam nascer, mas se perdiam no silêncio do coração transbordante.

A candura, a humildade e a grandeza moral de Mãe Dita ultrapassam os limites do vocabulário humano. Aqueles instantes foram de felicidade indizível e de gratidão profunda a Deus, que nunca abandona Seus filhos. Fui então conduzido a um hospital espiritual localizado nas imediações espirituais da cidade de São Paulo.

Todo o processo de recuperação é cuidadoso, delicado e repleto de misericórdia. O amor divino, constante e silencioso, cobre nossas mazelas e nos reconstrói pacientemente. Hoje sinto-me melhor, gradualmente adaptando-me à nova dimensão da vida, embora a saudade da convivência terrena ainda pulse forte em meu coração.

Meus amigos e irmãos, permito-me agora um apelo sincero. Minha maior preocupação é que os projetos da Estação Dama da Caridade se enfraqueçam ou se percam com o tempo. Não permitais que essa obra adormeça. Empenhai-vos ainda mais, por amor a Mãe Dita.

Percebo, com pesar, o esfriamento de alguns confrades. Benedita Fernandes não pode ser esquecida. Por tudo o que fez e continua fazendo, na Terra e no plano espiritual, merece de nós dedicação, fidelidade e trabalho perseverante.

Rogo aos queridos confrades: ela merece muito mais. Sua obra é gigantesca, sustentada no amor e na caridade sem limites. Sinto-me profundamente honrado por ter participado, ainda que modestamente, de seu legado luminoso. Ela é nossa Mãe Dita — bendita Mãe da Caridade, farol de esperança para tantos corações.

Recebei, pois, meus sinceros agradecimentos. Meu abraço fraterno, repleto de afeto e saudade, do amigo de sempre.

Sirlei Nogueira

(Psicografia do médium José Francisco Gomes, em Ipatinga-MG, 16 de janeiro de 2026).

VÓS, QUE DIZEIS?

VÓS, QUE DIZEIS?

“E perguntou-lhes: E vós, quem dizeis que eu sou?” — (LUCAS, CAPÍTULO 9, VERSÍCULO 20.)

Nas discussões propriamente do mundo, existirão sempre escritores e cientistas dispostos a examinar o Mestre, na pauta de suas impressões puramente intelectuais, sob os pruridos da presunção humana.

Esses amigos, porém, não tiveram contacto com a alma do Evangelho, não superaram os círculos acadêmicos e nem arriscam títulos convencionais, numa excursão desapaixonada através da revelação divina; naturalmente, portanto, continuarão enganados pela vaidade, pelo preconceito ou pelo temor que lhes são peculiares ao transitório modo de ser, até que se lhes renove a experiência nas estradas da vida imperecível.

Entretanto, na intimidade dos aprendizes sinceros e fiéis, a pergunta de Jesus reveste-se de singular importância.

Cada um de nós deve possuir opiniões próprias, relativamente à sabedoria e à misericórdia com que temos sido agraciados.

Palestras vãs, acerca do Cristo, quadram bem apenas a espíritos desarvorados no caminho da vida.

A nós outros, porém, compete o testemunho da intimidade com o Senhor, porque somos usufrutuários diretos de sua infinita bondade.

Meditemos e renovemos aspirações em seu Evangelho de Amor, compreendendo a impropriedade de mútuas interpelações, com respeito ao Mestre, porque a interrogação sublime vem d'Ele a cada um de nós e todos necessitamos conhecê-lo, de modo a assinalá-lo em nossas tarefas de cada dia.

Emmanuel

(Xavier, Francisco Cândido. Pelo espírito Emmanuel. Pão nosso. Cap. 161. FEB)

Livro Movimento Espírita Internacional e o nó histórico no Brasil

Livro Movimento Espírita Internacional e o nó histórico  no Brasil

Artigo "O nó histórico da organização espírita no Brasil", de Wilson Garcia

O livro Movimento Espírita Internacional, lançado em novembro último pelo Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo Eduardo Carvalho Monteiro (CCDPE-ECM), reúne os depoimentos de Antonio Cesar Perri de Carvalho, Charles Kempf e Elsa Rossi. Trata-se de uma obra de história e de histórias: um livro-depoimento em que os autores não apenas registram sua participação na criação e no desenvolvimento do Conselho Espírita Internacional (CEI), mas também examinam suas “origens, ideais e experiências”, conforme anuncia o subtítulo.

Não é um volume que caiba no espaço estreito de uma simples resenha. Reduzi-lo a algumas linhas seria correr o risco de oferecer ao leitor uma visão empobrecida de um capítulo recente da história do Espiritismo no Brasil e no exterior. Por isso, antes de comentar diretamente o conteúdo do livro, propomos um breve percurso histórico que permita situar melhor o leitor — sobretudo aqueles que, de algum modo, participam das atividades do movimento espírita brasileiro.

Da centralização federativa ao esvaziamento do movimento internacional

Por mais de um século, a organização do Espiritismo no Brasil construiu-se sobre um fio permanente de tensão: o desejo de unificação, de um lado, e o impulso centralizador, de outro. O resultado foi um movimento fértil em iniciativas, mas marcado por fraturas doutrinárias e disputas de poder que se estendem até o presente. Das raízes pluralistas à centralização federativa Na segunda metade do século XIX, o Espiritismo brasileiro era essencialmente plural. Existiam grupos kardecistas estritos, associações de estudo filosófico, núcleos voltados à investigação dos fenômenos mediúnicos e círculos dedicados à prática assistencial. A chamada “unificação” era então apenas uma ideia em disputa — não um consenso. Fundada em 1884, a Federação Espírita Brasileira (FEB) nasce nesse ambiente diverso. Seus primeiros anos foram marcados por debates sobre autoridade doutrinária, pelas relações com o catolicismo e o protestantismo emergentes e pela difícil tarefa de construir alguma unidade em meio às diferentes leituras da obra de Kardec.

O ponto de inflexão ocorre quando Adolfo Bezerra de Menezes assume, pela segunda vez, a presidência da instituição — após ter renunciado a um primeiro mandato cerca de um ano depois de iniciado. Duas decisões de sua gestão moldariam profundamente os rumos do Espiritismo organizado no país. A primeira foi equiparar, na orientação doutrinária da FEB, Allan Kardec e João Batista Roustaing, autor de Os Quatro Evangelhos, obra de caráter revelacionista e forte cunho religioso. Não se tratava apenas de uma escolha editorial, mas de um gesto político e cultural: institucionalizavam-se as ideias roustainguistas e, com elas, introduzia-se no cerne do movimento espírita brasileiro uma perspectiva místico-cristã que tensionava o projeto filosófico-científico concebido por Kardec. A segunda decisão foi assumir que a FEB não seria apenas mais uma entidade, mas a condutora do Espiritismo no Brasil. A partir daí, consolidou-se uma estrutura hierárquica sustentada por autoridade moral e organizacional, voltada a falar “em nome do movimento”. Construiu-se, assim, um Espiritismo institucional de perfil religioso-cristão, distinto da matriz original kardeciana, e uma FEB que:

• não inventa a estrutura federativa, mas a consolida;

• transforma a opção Roustaing–Kardec em eixo de disputas que atravessariam todo o século XX;

• assume um papel de coordenação nacional que produz unidade administrativa, mas restringe o pluralismo doutrinário.

1949: o Pacto Áureo e a legitimação formal do poder

Meio século depois, em 1949, um episódio pouco analisado fora dos meios especializados redefiniria o mapa institucional do Espiritismo brasileiro: o Pacto Áureo, firmado no Rio de Janeiro durante o 2º Congresso Espírita Pan-Americano, realizado sob a bandeira da então CEPA-Confederação Espírita Panamericana, hoje CEPA-Associação Espírita Internacional. No contexto do pós-guerra, a retórica da união e da organização ganhava força em todo o mundo. A FEB soube assimilar aquele momento histórico e convocou lideranças das federações estaduais a assinar um documento que, sob a aparência de um pacto fraterno, formalizava sua posição como centro coordenador do movimento espírita nacional.

O Pacto Áureo:

• transformou a FEB de polo influente em polo oficialmente reconhecido;

• instituiu uma hierarquia tácita, alinhando federações estaduais ao eixo do então Distrito Federal;

• consolidou a visão do Espiritismo como religião cristã, reforçando um viés já delineado desde Bezerra de Menezes. A centralização e a autoridade doutrinária, cultivadas desde o século XIX, recebiam enfim sua legitimação formal. Desde então, a arquitetura federativa privilegiaria convergência e uniformidade em detrimento da diversidade inicial.

Anos 1970: Thiesen e a engenharia política da FEB

Na década de 1970, em pleno regime militar, a FEB entra em nova fase sob a presidência de Francisco Thiesen. Seu projeto manteve rigorosamente a linha doutrinária consolidada: preservar a condução do Espiritismo brasileiro sob o eixo Roustaing/Kardec. Paralelamente, porém, Thiesen inaugura um movimento peculiar: um distensionamento político em relação ao restante do movimento espírita. Buscando ampliar a base federativa de apoio, passa a incorporar lideranças de outros estados à estrutura dirigente da FEB. Entre elas destacam-se Nestor João Masotti e Antonio Cesar Perri de Carvalho, então ex-presidentes da USE-SP, entidade historicamente crítica das posições roustainguistas da FEB. A aproximação tinha forte valor simbólico. O resultado é claro: amplia-se o apoio institucional, mas sem qualquer alteração do núcleo ideológico. A década passa a ser caracterizada por três marcas centrais:

1. reafirmação doutrinária do eixo Roustaing/Kardec;

2. centralização em ambiente político autoritário;

3. cooptação estratégica de lideranças regionais. A FEB saía mais robusta organizacionalmente, porém cada vez mais homogênea em termos doutrinários.

A era Masotti: ambição global e bloqueio interno

A ascensão de Nestor João Masotti à presidência da FEB coroa sua trajetória na USE e posteriormente na própria Federação. Sua gestão representa o encontro entre ambição internacional e impasse doméstico. Três movimentos a definem: O primeiro é o estímulo à democratização interna do Conselho Federativo Nacional (CFN), órgão de articulação entre as federações estaduais. O segundo é a consolidação do Conselho Espírita Internacional (CEI) — antigo sonho da FEB de projetar-se como referência mundial do Espiritismo. Com investimento financeiro e articulação política, o CEI ganha representatividade, estabelece encontros internacionais e se torna, ainda que brevemente, a maior experiência de organização espírita global da história. O terceiro movimento é o mais sensível: a tentativa de reduzir a presença explícita de Roustaing nos estatutos da FEB. Não se trata de reforma doutrinária, mas de estratégia política: modernizar a imagem institucional e reduzir resistências kardecistas. A reação interna, porém, é intensa, e a proposta recua. O CEI avança; a reforma estatutária estanca. Fica exposto o limite estrutural de uma direção incapaz de atualizar sua identidade sem gerar rupturas.

Perri: continuidade interrompida e “golpe democrático”

Com a desencarnação de Masotti, Antonio Cesar Perri de Carvalho assume interinamente e depois é eleito presidente da FEB. Tudo apontava continuidade: fortalecimento do CEI, valorização do CFN e modernização administrativa. A estabilidade, contudo, era apenas aparente. Nos bastidores, forma-se um movimento silencioso de oposição ligado aos setores mais conservadores. Na renovação da diretoria, outro nome é eleito. Formalmente regular, o episódio foi interpretado por muitos como um “golpe democrático”: um rearranjo de forças que interrompeu abruptamente o projeto de abertura institucional.

As consequências foram imediatas:

• esvaziamento de iniciativas federativas;

• retração do apoio ao CEI;

• refluxo do protagonismo internacional brasileiro.

Ambiguidade estrutural e fraturas aprofundadas

Dos períodos Thiesen–Masotti–Perri emerge o grande paradoxo federativo: ampliação política e fechamento doutrinário. Quanto maior a rede de alianças institucionais, mais restrito se tornava o campo de interpretações aceitas. Consolida-se, sobretudo na gestão Masotti, a tríade “filosofia, ciência e religião”, inviabilizando qualquer convergência com outras correntes legítimas do movimento espírita, como, por exemplo, a representada pela CEPA, defensora do Espiritismo constituído por filosofia, ciência e moral, sem caráter religioso formal. Essas duas matrizes tornam-se, explicitamente e definitivamente, inconciliáveis. O livro Movimento Espírita Internacional: testemunho e emoção É nesse contexto que se situa Movimento Espírita Internacional – Origens, ideais e experiências. Mais que análise histórica, a obra é testemunho vivo da trajetória do CEI.

Os autores registram:

• sonhos de integração mundial;

• expectativas de amadurecimento do movimento;

• projetos sustentados pelo ideal de fraternidade internacional;

e também:

• as decepções provocadas pelas mudanças institucionais;

• e as mágoas daqueles que dedicaram esforços a um projeto que se viu esvaziado.

Sonhos, esperanças, decepções e mágoas não são apenas palavras-chave do livro: descrevem um ciclo inteiro da história recente do Espiritismo organizado. Um mapa para compreender o presente Da consolidação promovida por Bezerra de Menezes ao Pacto Áureo, da engenharia política de Thiesen à ambição internacional de Masotti, da continuidade interrompida de Perri à denúncia do livro Movimento Espírita Internacional, desenha-se um mapa revelador:

• a FEB ampliou sua influência política, mas estreitou seu horizonte doutrinário;

• afrouxou Roustaing no plano formal, mas preservou a matriz religiosa dele derivada;

• fortaleceu a estrutura nacional, mas inviabilizou pontes com correntes de livre-pensamento.

É nesse cruzamento entre expansão institucional e retração ideológica que se situa o nó histórico da organização espírita no Brasil — um nó que Kempf, Rossi e Perri ajudam a iluminar, ainda que sua superação permaneça, por ora, aberta.

DE:

Expediente on line (copie e cole): https://expedienteonline.com.br/o-no-historico-da-organizacao-espirita-no-brasil/

 

O surpreendente Léon Denis

O surpreendente Léon Denis

Antonio Cesar Perri de Carvalho

Janeiro assinala, entre outras efemérides, a data de nascimento de Léon Denis, dia 1o/01/1846 em Tours, e que teve uma longa e muita ativa existência corpórea até 1927.

Denis é o grande vulto do movimento espírita, autêntico continuador de Allan Kardec e consolidador do espiritismo na França. Suas ações, palestras e livros produziram influências e repercussões marcantes no seu país natal e em vários outros, como no Brasil. Autor de marcantes obras, entre outras. como: O problema do ser, do destino e da dor, No invisível, Cristianismo e espiritismo, Depois da morte.

Neste mês de janeiro de 2026, surgem citações e artigos interessantes que realçam alguns aspectos surpreendentes da personalidade de Denis.

Recebemos de um amigo, a solicitação de confirmação de um texto que seria de Denis. Contando com o apoio de Charles Kempf (Federação Espírita Francesa e Le Mouvement Spirite Francophone), esclarece-se que a frase não aparece em livros de Denis. Mas são trechos do discurso pronunciado por Léon Denis no Congresso Espírita e Espiritualista de Paris na sessão de 11 de setembro de 1889.

No referido Congresso, Denis responde ao Sr. Fauvety, após comentar o propósito de Allan Kardec de valorizar o cristianismo primitivo: “[…] ele lutou com lógica rigorosa contra tudo o que constitui o catolicismo moderno. […] “Não vos viemos dizer que devamos ficar confinados ao círculo, por mais vasto que seja, do Espiritismo kardequiano. Não; o próprio mestre vos convida a avançar nas vias novas, a alargar a sua obra”. Destaca princípios espíritas e afirma: […] nestas condições, estendemos as mãos a todos os inovadores, a todos os de boa vontade, a todos os que têm no coração o amor da Humanidade.”1

Charles Kempf lembra observações do Eduardo Carvalho Monteiro (1950-2005), de São Paulo, pesquisador do espiritismo e da maçonaria, que Charles Fauvety era maçom, e que naquela época, os maçons do Grande Oriente da França tinham retirado a noção de Deus em nome da liberdade de crença, o que motivou a saída de Léon Denis da Loja Maçônica Demófilos de Tours, alguns anos antes.

Verificamos que Charles Fauvety (1813-1894), era originário do protestantismo liberal e maçom, autor de livros e criador da "Religião Secular", que visava encontrar harmonia entre religião e razão, mantendo Deus apenas em um sentido panteísta e a imortalidade da alma apenas como uma probabilidade.

O pensamento de expresso por Denis no Congresso citado de 1889 poderia, durante praticamente um século, ser alvo de muitas críticas em razão de muita rigidez da então chamada “pureza doutrinária” e de uma compreensão provavelmente estreita dos objetivos dos princípios espíritas.

Daí a razão da necessidade de muita reflexão sobre o último discurso de Kardec: "O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. […] No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos vangloriamos por isto, porque é a Doutrina que funda os vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza. […] Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.”2

Nas primeiras décadas do século XXI há ares de inovações nas relações entre religiões, até com eventos interreligiosos. A frase de Léon Denis no seu discurso de 1889 merece ser bem refletida na atualidade!

Por outro lado, em artigo divulgado neste mês de janeiro “Entre o grito de Léon Denis o silêncio da Europa”, Wilson Garcia traz à tona pensamento desse vulto, relacionado com o atual contexto político, econômico e social da Europa.3 O articulista focaliza pensamentos de Denis desenvolvidos no livro Depois da morte4 sobre o que ele chamava de decadência moral ao escrever logo após o contexto histórico marcado pela humilhação nacional francesa após a Guerra Franco-Prussiana (1870–1871).

Anota Wilson Garcia: “A inquietação, porém, ultrapassava o campo militar ou diplomático. O que Denis denunciava era a erosão do ânimo coletivo, a perda do sentimento de pertença e de responsabilidade histórica. Para ele, quando uma sociedade deixa de acreditar em si mesma, a derrota já se consumou no plano moral, antes mesmo de qualquer agressão externa”. Oportuno destacarmos que Denis era estudioso da cultura celta e autêntico nacionalista francês interessado em temas do contexto em que vivia.

Por oportuno, destacamos que Denis é autor de livros como: O mundo invisível e a guerra (1919), Socialismo e Espiritismo (1924), O gênio céltico e o mundo invisível (1927).

Portanto, é interessante o artigo de Wilson Garcia, considerando que mais de um século depois, o diagnóstico de Léon Denis encontra ressonância inquietante na Europa contemporânea. Nessas condições, o articulista comenta que “entre o grito de Léon Denis e o silêncio europeu atual há mais do que um século de distância: há a passagem de sociedades que ainda acreditavam em destinos comuns para sociedades que administram a própria insegurança. O silêncio, porém, não é neutro. Ele corrói a ação, normaliza a paralisia e transforma prudência em resignação”.

Léon Denis, marcante vulto histórico do espiritismo, alvo de nossa admiração e respeito, registrou pensamentos que merecem reflexões na atualidade.

Referências:

1) Congrés Spirite et Spiritualiste. Paris. 11 de setembro de 1889, p. 156 [Ata].

2) Kardec, Allan. Trad. Noleto, Evandro Bezerra. O Espiritismo é uma religião? Revista Espírita. Dezembro de 1868. Brasília: FEB.

3) Garcia, Wilson. Entre o grito de Léon Denis o silêncio da Europa. Expediente-on-line – Blog do WGarcia, 13jan.2026: https://expedienteonline.com.br/entre-o-grito-de-leon-denis-e-o-silencio-da-europa/

4) Denis, Léon. Trad. sem identificação. Depois da morte. Brasília: FEB, 358p.

Os últimos serão os primeiros na parábola de Jesus

Os últimos serão os primeiros na parábola de Jesus

Na reunião pública do dia 11/01/2026, na Instituição Nosso Lar, Araçatuba (SP), o tema os últimos serão os primeiros" de "O Evangelho Segundo o Espiritismo" (Capítulo 20) foi desenvolvido por Roberto Cesar dos Santos, e o tema "ideias inatas" ("O Livro dos Espíritos", q.218-221) foi abordado por Rose Meire de Oliveira.

A reunião pública é transmitida pela Instituição e pela Estação Dama da Caridade Benedita Fernandes.

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